Respeitáveis

Hoje o Telejornal seguiu um roteiro cronológico educativo: Isabel dos Santos, logo a seguir os “alertas” do Eurogrupo, seguiram-se as “previsões” do FMI, e finalmente o Relatório da Oxfam sobre a miséria abjecta em que vivem a maioria das pessoas no mundo, e a concentração de riqueza na mão de 2 mil bilionários. Não sei se no fim deu futebol, deduzo que sim. O antepassado disto tudo pode ser visto na série Peaky Blinders, da Netflix, uma ilustrativa série sobre como chegámos aqui. No fundo, quanto sangue se derrama até fazer com que um gansgter se torne num rico, um Sir ou uma Princesa, é o guião da série, uma das melhores que já vi. Pese embora a violência do roteiro é uma lição de história.
Falta-nos o futuro, eu sei…por escrever.

75%, qual é o valor da vida?

O IPO de Lisboa fez as contas. Tomem antes de continuarem a ler qualquer coisa para o estômago. Quando não têm vaga e enviam um doente para os cuidados intensivos numa unidade privada que referiram a conta dos medicamentos pode vir até 75% a mais do que pagam se o doente for tratado directamente no IPO… Porque estes privados colocam 20 a 30% de overheads sobre o preço dos medicamentos que administram aos doentes, e usam um preço antigo, antes dos genéricos como base da conta. Quem não tem ADSE está assim a sofrer uma dupla tributação – paga para o SNS e paga o lucro do privado subcontratado. Quem tenha ADSE tem uma tripla tributação: paga o SNS, o lucro do privado, e ainda a ADSE, e tudo com estes 75% a mais nestes casos. Na verdade quando, daqui a porventura 400 anos, viveremos numa sociedade decente estes casos serão reportados pelos historiadores ao nível do crime mais abjecto, a rigor ninguém então compreenderá “como foi possível”. Ao Governo cabe acabar com isto dotando o SNS de meios humanos e físicos que não obriguem o IPO, nem os doentes deste país, a recorrer ao sector privado.

Para que este post não seja totalmente deprimente, deixo aqui, com o seu consentimento, a resposta de um grande amigo esta semana quando lhe perguntei como estava, ele tem uma agência de comunicação para o mundo do trabalho, e tem feito alguns trabalhos notáveis que por aí circulam a defender as causas mais nobres deste país. Um trabalho invisível, de bastidores, crucial, que só resulta porque ele não é só um técnico, é um homem que acredita no que faz e o que faz é nobre: tornar visível o mundo dos direitos do trabalho e das causas sociais e públicas. Bom, ele foi salvo pelo IPO com tratamentos de mais de dois anos contra um cancro, reincidente. Fez finalmente um auto transplante e está bem: “Ando tão feliz, já quase recuperado o objectivo agora é não ser daquele gajos chatos que estão sempre a enaltecer os pequenos prazeres da vida. Mas sabe tão bem o vento frio na cara :)”. Emocionei-me muito quando li a sua resposta. A vida é bela. Há que criar as condições para que possamos usufruir dela com alegria, dignidade e decência colectiva.

Aos meus leitores

Caros leitores, apercebi-me hoje, ao final de anos de escrita, que os posts, quando ainda estão em elaboração, vão para o vosso email, com gralhas, erros, etc, não sabia utilizar a “versão rascunho”, e portanto no link já está bem mas no corpo de email mal muitas vezes, ainda em escrita. As minhas desculpas. Raquel Varela

Só a verdade é revolucionária

O caso do jovem morto em Bragança -envio as minhas condolências à família e a minha profunda repulsa por este acto – ensinou-nos muito sobre a política em Portugal. Ser de esquerda não é estar num concurso para ver quem é o mais anti racista, é uma luta radical pela verdade. E a verdade nem sempre se encaixa nos nossos esquemas.

Em primeiro lugar sabemos hoje que discotecas não são lugares seguros, não é o primeiro caso bárbaro e não há nada de normal nisto. Em segundo que, apesar dos evidentes avanços para reduzir a violência entre jovens, ela permanece, e, em casos limite, sem qualquer código de ética: 15 batem em 1; 1 armado bate num desarmado. Esta violência tribal, pré capitalista, pré racista, remonta ao pior que há em nós – os animais na selva. Mas ela reverbera nas claques de futebol, nos partidos neonazis, na competição doentia disseminada no trabalho e nas escolas – esta violência a cada dia destrói os pilares da civilização, que só pode existir se baseada na cooperação.

Um sector de esquerda, identitária – não toda a esquerda – fez disto uma bandeira anti racista, que não foi. E um sector da direita identitária, também não toda a direita, aproveitou para semear o ódio contra os ciganos – não há ciganos envolvidos.

Esquerda e direita explicam pouco na hora de ser sério com os factos, embora esquerda e direita sejam – felizmente – coisas muito distintas. A esquerda acredita na igualdade e na liberdade, a direita acredita na liberdade de quem manda e detém o poder. Mas a verdade é que na hora de olhar a realidade com complexidade o fanatismo clubista ainda se impõe. Esqueceram-se, os de esquerda, que só a verdade é revolucionária – enfiar a realidade na nossa teoria errada não serve para nada a não ser para descredibilizar quem o faz. Qual é o mal de fazer de um crime selvático de bar um crime racista?
O mal disto é que há de facto um aumento das organizações neonazis, que estão de cara lavada no Partido Chega, nas televisões em programs de chá com bolos, no Parlamento – e cuja função não é só matar negros, como já fizeram no passado, é matar líderes sindicais combativos a mando e com financiamento patronal encapotado – é isto historicamente a extrema-direita. O Estado olha isto com complacência porque na hora de matar revolucionários ou sindicalistas combativos mas vale deixar estas milícias fazerem o serviço. É assim que é tolerada a evidente organização criminosa em curso (que cresce no desespero das políticas sociais de um Governo que não é carne nem é peixe, mas se diz de esquerda). Porque não se deve dizer que todo o crime é racista quando é contra um negro? Porque um dia vamos precisar de dizer “vem lá o lobo” e ninguém acredita, isto por causa das vezes que foram produzidos alarmes falsos pela esquerda identitária.

O outro ensinamento. A polícia só reagiu depois da esquerda identitária ter vindo para as redes sociais dizer que era um crime racista. Dez dias depois. Mas no dia da agressão foi avisada pelos médicos que se tratava de uma agressão. Ou seja, a polícia actua consoante a pressão mediática, sem meios, sem organização interna.

E ainda outra lição. A direita identiária está em silêncio, porque os assassinos alegados são portugueses de gema, há 800 anos. Como é que agora mandamos para a “terra deles” os assassinos se eles são da nossa terra? É que a nossa terra é um conceito terrível, não explica nada. Amilcar Cabral é da minha terra, ofereceu-nos o 25 de Abril e pagou por isso com a vida. Não houve nenhum crime branco ou negro, mas brutalidade selvática, o pior que a humanidade já produziu, é a pré-história. E há a inação policial, com poucos meios, que eventualmente naturalizou estas pancadarias de bar como algo “da juventude”, não percebendo que tem que haver tolerância zero nestas brigas, neste combates tribais que levam inocentes para a morte. Estamos no século XXI, não temos vontade de ver os jovens ir à discoteca como se fossem para o meio de gangsters no século XIX. Ali, nos bares, os jovens não estão seguros. Doa a quem doer isto tem que ser dito, e não pode ser desculpado pelas cervejas que bebem. A segurança pública falhou nas discotecas, e tem falhado sempre neste casos de discotecas, mesmo tendo elas segurança privada. Se há uma rixa a sinalização imediata para as autoridade era urgente, em vez de os deixar sair, limpar a água do capote, e matarem 500 metros à frente.

Finalmente, não menos importante. Há racismo em Portugal. O “alarme racista” serviu para mobilizar uma das maiores manifestações anti racistas de que há memória no país, e que subiu a Av. da Liberdade. O mote foi um crime racista que não existiu, mas aquele mar de gente não estava ali por engano: têm os piores empregos, vivem nos piores bairros, não conseguem progredir nos estudos porque é a família o factor de imobilidade social, a escola não muda isto. Quem passou por isto e não compreendeu que os negros estão fartos não compreendeu nada. Estão fartos e têm toda a razão – esta coisa de irmos ao shopping e sermos sempre servidos por negros que auferem o salário mínimo e que moram no bairro social ao lado do shopping. Esta coisa de não se poder sonhar sair daquele não-lugar, tem que acabar.

O caso do jovem morto em Bragança -envio as minhas condolências à família e a minha profunda repulsa por este acto – ensinou-nos muito como sociedade: Em primeiro lugar que, apesar dos eviden…

Tempo para viver

Reduzir o horário de trabalho, para 4 a 6 horas diárias, 4 dias por semana, usando a automação ao serviços das pessoas. Aumentar os salários, criar bem estar nos locais de trabalho. Não é o aquecimento global o grande desafio do século, é o bem estar laboral – de que depende tudo, até às medidas ecológicas necessárias. Viver para trabalhar ou trabalhar para viver?

A gestão que destrói o SNS e o país

Testemunho de um médico, que manterei anónimo.

“Hoje fui chamado à parte pelo Director de Serviço. Parece que continuo na lista vermelha de quem imprime as prescrições. Mas continuo e continuarei a fazê-lo, excepto nas doentes quase saudáveis com pouca medicação ou que tenham apreendido bem a mensagem. Sem qualquer exaltação, expliquei que já tenho uma lista de livros extra-medicina preparados e que for decidida alguma pena preferia a prisão. Com condescendência, o meu Director apenas rematou: “mas tenha cuidado, porque nos monitorizam e pode ter consequências”. Apesar de tudo fiquei contente: consegui com a minha resposta que a conversa terminasse agradavelmente e no imediato.

Recordei então que há uns meses, tinha circulado em todo o hospital uma mensagem carinhosa do Serviço de Informática, na qual eu e uns quantos colegas (de várias especialidades), tínhamos sido advertidos com uma listagem, colorida com as cores do semáforo, conforme o nosso bom comportamento na impressão de receituário. No final, vinha uma nota para explicarmos o porquê de muitos de nós figurarmos na triste percentagem correspondente ao vermelho. Felizmente, da grande maioria que se encontra neste barco, houve um sorriso. Da parte de uma colega, seguiu ainda uma resposta, enumerando os vários porquês: doentes que não recebem a mensagem telefónica (nos recantos do hospital a rede por vezes não é a mais adequada), doentes envelhecidos, doentes com menor literacia (uma vez que a mensagem telefónica não explica a posologia, ficando os doentes à mercê de boas ou más farmácias). Mas sinceramente já acho estas explicações um esforço inglório.

Registamos assim no presente um upgrade, pela teimosia de mantermos o nosso comportamento para melhor defesa do doente, em que saltamos da interpelação dos próprios para acções via direcções de Serviço. Mascaradas de boas intenções, com promessas de ganhos em qualidade e saúde, não há na verdade uma procura de efectivas soluções, como simples acções de melhoria de redes ou aquisição de novos computadores…subsiste apenas a busca de um controlo coercivo de um comportamento, com o objectivo último e cimeiro de atingir a liderança nos “hospitais sem papel”. Quem sabe para concorrer e ganhar este ano um prémio de eficiência da tutela. Afinal não é para isso que todos trabalhamos?”

Nota minha como investigadora: este testemunho revela a introdução de métodos de gestão das fábricas automóveis nos Hospitais para vigiar e controlar os actos médicos, retirando capacidade de autonomia aos médicos; se não resistirem – como fez este médico – o caminho é a baixa auto-estima, perda de sentido do trabalho, depressão, burnout; revela a intenção de minar equipas, com o “vermelho” a ser conhecido de todos os outros, na realidade é uma mistura de perda de confiança uns nos outros, e um tipo de denúncia que configura algo como assédio moral colectivo, inculcando medo nos que não cumpram; responsabiliza o médico resistente por “consequências” para toda a unidade, ele pode ser responsável pela diminuição de financiamento, ou outras represálias por não cumprir o exigido; releva que o trabalho vivo, e real, nunca é igual ao trabalho prescrito – se este médico cumprir o que lhe foi exigido pela gestão não consegue tratar bem os seus doentes; revela enfim, politicamente, que a gestão profissional é um desastre em termos de utilização de recursos. Na verdade revela o seguinte: o valor de uso (tratar bem um doente) é incompatível com o valor de troca (fazer os hospitais dar lucro directo ou indirecto, na famosa “contenção de custos”, que é o alimento dos juros hiper lucrativos da dívida pública – daí o remate final do médico “estamos a trabalhar para o prémio da tutela”).

Gosto sempre de citar o professor Coimbra de Matos, que muito nos tem ensinado na equipa de estudo das condições de trabalho, quando diz que “é preciso uma revolução contra a violência”, explicando que esta violência e este caos diário, a competição e a desconfiança, em vez da cooperação. minam a vida e a saúde mental dos profissionais, e a revolução – dizer não – é um tempo de empoderamento e reacção organizada das pessoas a este caos. Ele diz mais, as pessoas com saúde mental não se adaptam a maus ambientes, mudam-nos.