“Essa pergunta é terrível”

Uma entrevista absolutamente maravilhosa, com a psicanalista Maria Rita Kehl, de quem sou leitora dedicada.

E: Como ficam os afetos numa época em que beijar e abraçar pessoas queridas, ou mesmo se aproximar delas, pode ser perigoso?

MRK: Não tenho certeza, mas me parece que os afetos, tanto os de amor, solidariedade e compaixão, quanto os de ódio e desejos de discriminação se intensificam. O problema é que eles se propagam só através das palavras, sem o anteparo do corpo. O corpo do outro, e o nosso também, fornece certo limite aos nossos impulsos.
Você se orienta pelo olhar do outro, pela postura, até pela respiração do outro para saber que tipo de aproximação é possível. E até onde levar uma discussão sem se arriscar a levar uma porrada… Ou se um gesto carinhoso cabe em determinada circunstância ou não. Mesmo antes dessa pandemia, quem nunca teve vontade de puxar de volta pela cauda uma mensagem que, imediatamente depois de enviar, você percebe que não será bem recebida?

E: Um de seus livros, previsto para ser relançado neste ano, é “Ressentimento”. Qual é o poder destrutivo que esse sentimento tem para quem está convivendo 24 horas com outros em casa?

MRK: Bom, para quem não leu esse livro, vou explicar rapidamente o que é o ressentimento, baseada em Nietzsche e também em Freud. É um afeto bem ambivalente, causado com frequência pelo fato de você ter recuado de uma situação difícil, ter fugido de um confronto ou de uma disputa, por medo de perder. O futuro ressentido há de fazer isso parecer um gesto de elegância, de superioridade moral. Mas ele sabe que foi covardia. Ou preguiça diante de um enfrentamento difícil.

Ele sabe que quis ganhar o jogo sem jogar o jogo. Como isso não é possível, não se conforma por ter perdido. “Eu sofro: alguém deve ser culpado disso.” Com esta frase, Nietzsche sintetiza o estado de espírito do ressentido.
Não creio que o convívio forçado produza necessariamente ressentimento, embora possa produzir outros tipos de “paixões tristes”, na expressão de Spinoza: mau humor, disputas por razões insignificantes, exacerbação de rivalidades preexistentes etc. Mas, claro, se houver ressentimentos reprimidos dentro de uma família, o convívio forçado pode criar uma boa ocasião para que ele se manifeste.

E: Por causa do risco de contágio, é muito difícil ir a velórios e enterros. Qual é o peso que a impossibilidade da despedida pode ter na superação do luto?

MRK: Essa pergunta é terrível, porque me parece que todos nos recusamos a conceber que isso possa acontecer com alguma de nossas pessoas queridas. A morte é um evento incompreensível para nós, “seres de linguagem”, como diz Lacan. Um animal, quando se sente perto da morte, se enfia em algum canto escondido e se deixa morrer. Nós, não.
A morte para nós, antes de ser uma sensação física do corpo perdendo todas as suas capacidades vitais, é uma espécie de assombração. Alguém já disse que, se vivêssemos todos os dias com a plena consciência de nossa condição mortal, a vida seria insuportável. Uma vez uma menininha que estava no velório do avô, depois de olhar longamente o corpo no caixão, perguntou ao pai: “Como ele sabe que ele está morto?”.
A pergunta é genial, revela toda a ambivalência de nossa consciência da morte: para que fulano morra completamente, deve haver algum espírito vivo dentro dele que lhe informe que a morte aconteceu. Precisamos de todas as cerimônias fúnebres para acreditar que uma pessoa realmente não existe mais naquele corpo que vamos enterrar.

Por isso, é infindável o luto das mães dos desaparecidos políticos. Como talvez seja infindável o luto das pessoas que viram um familiar ou um amigo ser levado ao hospital e depois… depois nada. A pessoa desapareceu porque seu corpo não pode ser velado. As mães de Mayo, na Argentina, assim como as mães dos desaparecidos políticos na ditadura, nunca se autorizam a parar de procurar. Assim como a mãe do Amarildo [pedreiro morto pela polícia na favela da Rocinha, no Rio, em 2013, e cujo corpo não foi encontrado].

E: Você é autora de “O tempo e o cão – A atualidade das depressões”. Como as pessoas propensas à depressão podem reduzir a angústia estando confinadas?

MRK: Bom, quando escrevi esse livro não tinha a mais remota ideia do que viria a ser esse nosso confinamento compulsório de hoje. Mas posso imaginar que o depressivo fique mais à vontade no confinamento do que um obsessivo, por exemplo. Finalmente ele se tornou “normal”. Sua apatia, sua vontade de ficar na cama, de não sair do quarto, de não ver ninguém, encontram uma justificativa perfeita. E finalmente ele tem a companhia de uma enorme parcela da humanidade.

E: Como você avalia a eficácia dos atendimentos por telefone que está fazendo?

MRK: Sabe que eles me parecem muito bons? Na verdade, a essência da psicanálise se preserva nesses atendimentos: o que vale é a fala em associação livre. Percebo que algumas pessoas ficam até mais à vontade por não estarem diretamente na minha presença.
Por outro lado, nunca falei tantos “hã-hã” quanto agora, para assegurar que estou escutando. Numa sala física, mesmo no divã, a pessoa não terá medo de a analista ter ido embora. Só teme que ela não esteja prestando atenção.
Ao telefone, às vezes me perguntam: “você está aí?”. E eu: “hã-hã”. Mas, como sou muito irrequieta, posso sair da cadeira, botar uma água para o café, jogar algo no lixo, essas pequenas atividades domésticas que não exigem atenção, enquanto escuto. Isso não impede a escuta, no meu caso. Até me ajuda a ser mais paciente.

E: Você acredita que a humanidade vá melhorar depois da pandemia?

MRK: Muita gente tem manifestado essa esperança, mas não vejo por quê. A impressão que tenho é que estamos todos loucos pra voltar às rotininhas de antes. Ficarei muito feliz se perceber que, passado o surto, não vamos deixar cair as iniciativas e os gestos solidários que temos feito em direção a quem precisa nessa pandemia, Tenho esperança de que a solidariedade não vá embora junto com o vírus. Mas não há nada que garanta isso.

O 25 de Abril começou em África

Ontem lançámos pela primeira vez em Portugal a tradução daquele que é para mim o melhor texto de história para entender o Portugal contemporâneo, o “Portugal e o Fim do Ultracolonialismo” do marxista britânico Perry Anderson, ainda vivo, com mais de 80 anos, e ainda com algumas das melhores análises sobre o que se passa neste mundo – ninguém quanto a mim compreendeu tão bem o Brasil de Bolsonaro ou a crise grega e a UE como Anderson. Este livro é obra de um esforço conjunto de vários investigadores do nosso Grupo de Estudos Globais do Trabalho da FCSH-UNL. Lá encontram outros textos, mas queria ainda destacar, também pela primeira vez, a tradução de parte do livro sobre Setúbal na Revolução dos Cravos, pelo Peter Robinson. A edição é da Humus Editora, o livro vhama-se O 25 de Abril começou em África.

“Estamos Avariados”

Quando há 30 anos, num país com menos capacidade de produção e conhecimento, estudei na escola pública fiz, com a escola, dezenas de visitas de estudo. Tiveram um grande papel no meu gosto pela escola. Era um dia de brincadeira, conversa alegre, cantorias ao motorista e muitos “Adeus” aparvalhados aos automobilistas que nos seguiam. Era também, para mim, um dia de comida má de pleno direito – rissois e batatas fritas. Para os adolescentes era o espaço de namoro, conhecer a turma, fazer amigos, fazer asneiras e erros, construir relações de confiança. Eram espaços onde aprendemos a gostar cada vez mais dos professores, que, fora da sala, olhávamos agora de outra forma. Conheci o país com os meus colegas, saídos da Linha do Estoril, no tempo em que ainda havia na nossa turma quem habitasse, lado a lado, em vivendas com piscina e bairros de barracas. Fomos todos juntos visitar os Templários de Tomar, Mosteiro de Alcobaça, Palácio Nacional da Ajuda, Sintra, Batalha, Conimbriga, Santuário de Fátima! (e eu não tinha Religião e Moral), Almourol…muitos outros lugares “clássicos”. A ideia era levar-nos a todo o lado, para conhecermos o país onde vivemos.

Acompanhei estes últimos 20 anos a escola pública de vários adolescentes da família, que, até ao 12º ano, nunca tinham ido a um único lugar com a escola. Um. Quanto muito vai um teatro – e é pedido aos pais que paguem – à escola. Para colmatar este grau de exclusão tenho eu assumido as vezes da escola e levo-os a vários passeios. Não faço contas ao que significa fazer turismo com a família cá dentro, porque à partida 80% da população está excluída. Mas contas simples, de ir ali, aos monumentos ao lado de casa.

O último foi ao Jardim Tropical – a cair aos pedaços e metade fechado “em manutenção”, cobram 4 euros por pessoa à entrada; liguei para a Torre de Belém e Jerónimos, não há visita guiada, nada preparado, cuidado, e a livre paga-se, com desconto apenas para estudantes. Idém para o Museu de História Natural, paga-se. Penso que no périplo o único gratuito foi o do Aljube. Ainda este verão fomos ao Palácio de Sintra e a coisa ficou com almoço normal perto de 1/5 do salário mínimo nacional, sendo que de facto o acesso aos jardins foi privatizado. Hoje liguei para o Planetário e a resposta foi, cito ipsis verbis, “estamos avariados, sem previsão de abertura”. Pensei, não foi um lapso – estamos avariados.
Deixo um desafio – um estudo nacional sobre acesso à cultura dos alunos deste país. Quantos deles alguma vez visitaram as principais cidades, museus e monumentos. E depois façamos conjuntamente uma reflexão sobre o que isto significa em termos de expropriação do direito à cultura e do aumento substancial das desigualdades.

Caso de estudo

O que falta explicar é porque há um aumento grande de casos e uma diminuição substancial de doentes e de doentes graves. A rigor é preciso ler quase no fim dos artigos que num lar onde há “80 infectados!!!”, todos doentes de risco, na sua maioria com 90 anos, lê-se que são 80 positivos, dos quais 70 assintomáticos, e 2 estáveis. Ou num surto numa escola há “70 alunos em casa!” – 1 tem sintomas ligeiros, 69 estão sem sintomas. Há qualquer coisa que não bate certo.
Sempre fui a favor de cuidado, na dúvida. Não pertenço ao grupo dos negacionistas nem dos conspirativistas. Proteger os mais frágeis é urgente (que continuam sem ser protegidos). Mas a forma de dar estes números é já um estudo de caso do jornalismo. Nada disto faz sentido, está criado um clima de susto e pavor que obstaculiza uma reflexão de um problema complexo.

Cidadania no Auditório BPI

A polémica do currículo escolar pode ser-nos útil. É um fait divers que durará o tempo de um café, pouco mais de uma semana, até ao próximo, de uma direita (e de uma esquerda) que não se distinguem no essencial – a política económica, o desemprego e os baixos salários de um país periférico sem estratégia independente. Podemos, porém, usar o sururu para pensar algumas questões que são estruturantes.

Devemos debater currículos escolares? Sim, Claro. Não devem existir dogmas. Tão ou mais importante que debater o currículo da cidadania é debater o currículo de geografia (lançado no dogma – e não na hipótese – do aquecimento global/economia “verde”, sem geografia humana, base da nossa relação com a natureza), de filosofia (repetição de ideologias frágeis, sem conhecimento do pensamento estruturado), para dar dois exemplos. Recentemente contactei com uma escola em que lhes transmiti a minha preplexidade por em pleno 10ª ano não ser obrigatório ler nenhum livro completo a filosofia, esta – privada e religiosa – respondeu-me que dão o currículo normal para o exame, e a leitura obrigatória de clássicos para que os alunos aprendam. Isto é, a Igreja – hoje como no passado -, não abdica de formar quadros dirigentes. A escola pública (e a maioria da escola privada) contentam-se cada vez mais com força de trabalho barata para um mercado periférico onde o que interessa é a flexibilidade, multi aprendizagem, currículos superficiais em disciplinas fundamentais, para futuros apêndices de máquinas, linhas de montagem e turismo, sem espírito crítico.

Esta flexibilidade vem a par da municipalização que quer o PS quer o PSD têm defendido, e que implicará coisas tão incríveis como Presidentes de Câmara e empresários opinarem sobre os currículos de acordo com as necessidades de força de trabalho da região. Um construtor civil terá o direito de afirmar que a filosofia é inútil e que o que é necessário é apertar porcas. E um gestor hoteleiro afirmará, com segurança, que a história é pouco produtiva, o que é preciso é dominar o tipo de algodão a esticar para camas de hotéis. O papel de muitos conselhos em escolas e universidades já é esse, hoje. Onde têm assento representantes de empresas como supermercados e bancos, e até, imagine-se, dão o nome a auditórios. Onde antes estava o auditório Cervantes nasceu o palco Pingo-Doce ou a sala BPI…
Este facto – que destrói o conhecimento universalista e por isso destrói qualquer hipótese de cidadania – não mobilizou nenhum dos partidos de direita (nem de esquerda) porque diz respeito a questões fundamentais. E as causas fracturantes têm sido o que resta, quer à esquerda – quer à direita, que zangada no fundo adora nelas navegar…. É o fait divers que oculta os debates que não se fazem. E o debate central é: que educação queremos, com que professores e para que país? Vamos ser uma monocultura de trabalho barato e turismo sem mercado interno?

A rigor a cidadania é uma cadeira onde pouco ou nada se aprende – quem tem filhos na escola nunca deu por ela…Porque é dada de forma etérea por vários docentes, sem profundidade, que engoliram a contra gosto mais uma cadeira de grandes princípios e valores e sem nenhuma execução real. Isto porque se queremos ensinar igualdade e direitos humanos não podemos fazê-lo apenas em palavras, enfiadas na última semana do período escolar. Para ensinar igualdade era preciso que existisse igualdade. As escolas estão segregadas por bairros de habitação, e brancos não convivem com negros e, quando convivem, as brutais diferenças de classe tornam o convívio quase impossível. Um dos lderes negros dos EUA, aquando da libertação da escravatura, propôs a criação de oficinas comuns onde negros e brancos construíam juntos peças de teatro, instrumentos de trabalho, porque o estar junto – em comunidade e a fazer-junto – criava laços de confiança. Ensinar às crianças valores humanos – e a direita sabe-o bem -, não faz com que elas os aprendam, porque a sua vivência diária é de competição e desigualdade, o contrário dos direitos humanos.

Dito isto, regresso ao meu argumento inicial. Os currículos precisam de um amplo debate científico muito mais denso do que o de cidadania. O facto de termos tido um exame de filosofia em que era possível ter 16 valores sem escrever uma palavra (e palavra e pensamento são indissociáveis, isto é, quem não lê e domina a língua pensa pior, inclusive pensa pior a cidadania), não mobilizou, nem à esquerda nem à direita, debate algum. Ficámos uns quantos de nós, relativamente sós, a explicar a gravidade que significa expropriar a larga maioria dos alunos do saber. No fim poderão identificar como informação o género ou a etnia mas nem saberão como conhecimento o que é o género, ou etnia e as implicações históricas e filosóficas dos mesmos. Idem para disciplinas como matemática e física, ou sociologia. O drama é transversal. Chama-se país sem rumo.

Enquanto não saírmos das causas fracturantes para as estruturantes, não encontraremos rumo.

StayAway Aplicação

O problema da aplicação StayAway Covid não é só a questão dos dados pessoais na sua versão jurídica.
A aplicação não funciona sem que os positivos indiquem que estão infectados. A larga maioria não o vai fazer. E ainda bem que não o faz. Vejamos:

Uma pandemia não se combate com sistemas de vigilância individualizados, nem com decisões arbitrárias sobre essa vigilância. O sinal que a o Estado dá à sociedade é que não existe nem educação, nem responsabilidade. Ora, o que assistimos é o inverso. Contam-se pelos dedos de uma mão os que fugiram infectados, e são aos milhares os relatos de pessoas que com sintomas que podiam ser de COVID não tiveram acesso a cuidados de saúde, nem telefonemas da DGS, e decidiram por si auto isolar-se. Sem delação ou auto delação. Quando se aposta na educação e na responsabilidade acredita-se que uma sociedade pode ser melhor, saber viver com respeito e cooperação. Quando se aposta na vigilância acredita-se que deve haver um polícia dentro de cada um de nós, o que – está provado – é falível. E, pior, cria um clima geral de desconfiança, que destrói os laços sociais de afecto e/ou de cooperação. Em suma, a aplicação é um convite à lei da selva, da desconfiança, contra a responsabilidade social.

Outro efeito da Aplicação é desresponsabilizar o Estado pela saúde pública, colocando no indivíduo decisões que devem ser assumidas pelo Estado que colecta impostos nossos para garantir a saúde. António Costa pede com entusiasmo que nos vigiemos uns aos outros mas até hoje não apresentou nem incentivou carreiras nos profissionais de saúde no SNS, não mexeu nos baixos salários do SNS, o único sistema que assumiu com coragem o combate à pandemia.

O dado pessoal mais importante da nossa vida não está num papel jurídico e muito menos numa empresa que diz garanti-lo. Está em nós, na nossa vida. É essa que está posta em causa quando os nosso movimentos são vigiados e acompanhados ao milímetro por geolocalização.

António Costa acredita que é nosso dever descarregar a aplicação. Acredito que o dever de todos os cidadãos, professores e intelectuais é debater abertamente porque não devemos usar a aplicação. Descarregarmos toda a carga irracional, e potencialmente totalitária, que existe dentro do Estado, tão falível a actuar de facto, e tão rápido a vigiar e punir.

Já vos contei aqui o que me incomoda no Brasil não são só os assaltos – nunca assisti a nenhum. É a parafernália contra os assaltos (necessária, é verdade) que nos coloca a cada segundo com medo dos assaltos, mesmo dos que não vemos. São as grades nos prédios onde vamos jantar e perdemos a vontade de comer pensando que estamos a entrar na Embaixada dos EUA depois de terem invadido mais um país; são os vidros fumados, que impedem os outros de nos verem; são as janelas fechadas, para que ninguém nos possa tocar; são os alarmes, os porteiros que pedem o nosso nome e nós só queremos tomar um café com os amigos, é um lugar onde – quer que se queira, quer não – o medo está colado à pele, vai connosco, como uma aplicação sempre ligada, até para o sono dos que, contra tanta desconfiança, precisam de medicação para dormir. A Aplicação StayAway COVID ameaça o nosso bem estar porque cria em nós a sensação de medo, vigilância e desconfiança permanente. Como pode ser ela patrocinada pelo Ministério da Saúde e incentivada por um dirigente do Estado em democracia?
Há um malvado que fugiu? Há. Vamos por isso penalizar todos? Não. Porque um dia todos vamos querer fugir de uma sociedade onde a vigilância determina os nossos comportamentos, em vez da confiança, lealdade e responsabilidade cooperativa.

Regresso à Escola, qual?

Não tenho simpatia por discursos anti-sindicais contra professores, ou contra seja quem for, soa-me sempre a um certo perfume de elitismo e ditadura. A resistência, cheia de acertos e muitos erros, é sempre pouco apreciada pelo poder em geral. E tenho muito respeito pelos docentes, que trabalham em péssimas condições. O que (ainda) existe de bom nas escolas deve-se sobretudo a eles. Mas a sinceridade exige a crítica, construtiva porque a escola e os docentes são centrais à sociedade.

Vejo agora uma determinação dos sindicatos com greves e protestos a regressar às escolas que nunca vi contra o ensino online que colocou em causa a saúde mental (e física) de centenas de milhares de crianças e jovens. Foi uma fraude, que levou ao sofrimento ético (sensação de fazer parte de uma mentira), hoje reconhecida até pelas mais liberais instituições, como a OCDE. Falhou em toda a linha. Estou em crer que a razão dos docentes é sobretudo uma – há milhares de professores em burnout que se sentiram menos mal em casa, com o ensino online, do que nas escolas, onde estavam sujeitos a condições adversas de trabalho, que os levam ao burnout. O risco do vírus- muito baixo, mas existente -, é na verdade usado para ocultar outro risco, alto e existente em todas as escolas – o mal estar laboral. O medo do vírus é muito mais longínquo do que o medo da burocracia, relatórios esquizofrénicos, avaliação e assédio, aulas inúteis, programas desinteressantes, indisciplina, directores.

Os professores não estão, na minha opinião, só nem sobretudo com medo do vírus. Estão com medo da escola. E isso não é novo – já tinham, na sua maioria, quase 80% declarava estar em exaustão emocional no trabalho quando conduzimos o estudo do brunout. E a verdade é que os sindicatos em geral lutaram muito mais contra o ensino presencial do que, de facto e com sucesso, contra as condições reais e diárias das escolas, que estavam muito mal, e adoeciam os professores, muito antes da pandemia.
Ora, só por pensamento mágico podem pensar que a recusa em voltar às escolas os retira do burnout. Na verdade todas as formas de teletrabalho não transformam o nosso trabalho na nossa casa confortável. É precisamente o contrário – a curto prazo a casa confortável será transformada no inferno do trabalho. Não é a casa que vai ao trabalho, é o trabalho que vai para casa.
Pensar que o retorno à esfera privada (casa) resolve os problemas da esfera pública (trabalho e sociedade em geral) é um crença, que durará – não creio – mais do que poucos meses a ruir. Como tantas outras.

Livros

Alguns dos meus livros que se encontram por estes dias nas Feiras do Livro de Lisboa e Porto.

(2018) Bertrand

(2011) Bertrand

(2012) Bertrand

(2015) Bertrand


(2016) Bertrand

(2013) Bertrand

(2014) Bertrand

(2012) Bertrand

(2017) Parsifal

(2012) Colibri

(2017) Colibri

Carta aberta dos escritores de língua portuguesa contra o racismo, a xenofobia e o populismo e em defesa de uma cultura e de uma sociedade livres, plurais e inclusivas

Sou uma das subscritoras

https://www.publico.pt/2020/08/18/politica/opiniao/carta-aberta-escritores-lingua-portuguesa-racismo-xenofobia-populismo-defesa-cultura-sociedade-livres-plurais-inclusivas-1928434?fbclid=IwAR3HZ1CsOq7W40jcyvvVRhtpcRP6BRAmiId5CVp8Z7dNVh8i-Lb6XVwH-jY

204. Os nomes da liberdade.
Assinada por 204 escritores lusófonos: portugueses, africanos e brasileiros.
De Lídia Jorge a Mário de Carvalho e João de Melo; de Mia Couto a Pepetela e José Eduardo Agualusa; de Chico Buarque a Luís Fernando Veríssimo e Nélida Piñon (entre muitos outros).
Adélia Carvalho
Adriana Lisboa
Afonso Borges
Afonso Cruz
Alexandra Lucas Coelho
Alexandre Andrade
Alice Vieira
Almeida Faria
Álvaro Laborinho Lúcio
Álvaro Magalhães
Amosse Mucavele
Ana Bárbara Pedrosa
Ana Cristina Silva
Ana Luísa Amaral
Ana Mafalda Leite
Ana Margarida de Carvalho
Ana Marques
Ana Pessoa
Ana Saldanha
Ana Saragoça
André de Leones
Andréa del Fuego
Andrea Zamorano
Andreia Azevedo Moreira
António Borges Coelho
António Cabrita
António Ladeira
António Mota
António Tavares
Bernardo Carvalho
Carla Maia de Almeida
Carlos Campaniço
Carlos Nogueira
Carlos Tê
Carlos Vale Ferraz
Carmen Zita Ferreira
Carola Saavedra
Catarina Santiago Costa
Catarina Sobral
Chico Buarque
Chissana M. Magalhães
Cláudia Lucas Chéu
Conceição Lima
Cristina Carvalho
Cristina Drios
David Machado
Diniz Borges
Domingos Lobo
Eileen A. Barbosa
Elsa Caetano
Eric Nepomuceno
Evandro Affonso Ferreira
Fabrício Corsaletti
Filinto Elísio
Filipa Martins
Francisco José Viegas
Francisco Moita Flores
Francisco Resende
Fundação José Saramago
Gabriela Ruivo Trindade
Gabriela Silva
Gonçalo Cadilhe
Gregório Duvivier
Helder Macedo
Helena Vasconcelos
Hélia Correia
Henrique Manuel Bento Fialho
Hugo Gonçalves
Inês Fonseca Santos
Inês Pedrosa
Isabel Minhós Martins
Isabel Olivença
Isabel Rio Novo
Isabel Zambujal
Isabela Figueiredo
Itamar Vieira Júnior
Jacinto Lucas Pires
Jaime Rocha
Jamil Chade
Joana Bértholo
Joana M. Lopes
João Cezar de Castro Rocha
João de Melo
João Luís Barreto Guimarães
João Paulo Cotrim
João Paulo Cuenca
João Pedro Porto
João Pinto Coelho
João Ricardo Pedro
João Ricardo Pedro
João Tordo
Joel Neto
Jorge Serafim
José Anjos
José Carlos Vasconcelos
José Eduardo Agualusa
José Fanha
José G. Neres
José Jorge Letria (escritor e Presidente da SPA)
José Luís Peixoto
José Manuel Mendes
José Mário Silva
José Pinto
Juca Kfouri
Julián Fuks
Júlio Machado Vaz
Leo Tonus
Leonor Sampaio Silva
Licínia Quitério
Lídia Jorge
Lúcia Bettencourt
Lucílio Manjate
Lucrecia Zappi
Luís Almeida Martins
Luís Carlos Patraquim
Luís Carmelo
Luís Corredoura
Luís Fernando Veríssimo
Luís Filipe Castro Mendes
Luís Quintais
Luís Rainha
Luísa Costa Gomes
Luísa Ducla Soares
Luíz Filipe Botelho
Luiz Ruffato
Madalena B. Neves
Madalena San-Bento
Manuel Alberto Valente
Manuel Gusmão
Manuel Jorge Marmelo
Manuela Costa Ribeiro
Márcia Balsas
Margarida Fonseca Santos
Margarida Vale de Gato
Maria do Rosário Pedreira
Maria Helena Trindade Lopes
Maria Inês Almeida
Maria Manuel Viana
Maria Valéria Rezende
Mário Cláudio
Mário de Carvalho
Mário Loff
Marta Bernardes
Mary del Priore
Mia Couto
Miguel Real
Miguel-Manso
Milton Hatoum
Mónia Camacho
Nara Vidal
Nazir Ahmed Can
Nélida Piñon
Nilma Lacerda
Noemi Jaffe
Nuno Camarneiro
Olga Santos
Olinda Beja
Ondjaki
Onésimo Teotónio Almeida
Patrícia Melo
Patrícia Portela
Patrícia Reis
Paula de Sousa Lima
Paulo Kellerman
Paulo M. Morais
Paulo Moura
Paulo Scott
Pedro Loureiro
Pedro Meira Monteiro
Pedro Pereira Lopes
Pedro Vieira
Pepetela
Possidónio Cachapa
Raquel Varela
Renato Filipe Cardoso
Ricardo Fonseca Mota
Ricardo Ramos Filho
Richard Zimler
Rita Ferro
Rita Taborda Duarte
Rodrigo Guedes de Carvalho
Rosa Freire D’Aguiar
Rui Cardoso Martins
Rui de Almeida Paiva
Rui Lage
Rui Manuel Amaral
Rui Zink
Ruth Manus
Sandro William Junqueira
Sérgio Godinho
Sérgio Nazar David
Sidney Rocha
Susana Moreira Marques
Tânia Ganho
Tatiana Salem Levy
Teolinda Gersão
Teresa Cadete
Teresa Rita Lopes
Tiago Rodrigues
Tiago Salazar
Tom Farias
Valter Hugo Mãe
Vanda R. Rodrigues
Vera Duarte

Se não agora, quando?

Acabei-o hoje. Um dos livros da minha vida. Uma reflexão sobre a “identidade” a partir da resistência judaica. Nada é só o que parece ser. Uma lição de realidade e humanidade contra o dogmatismo identitário, contra a pureza étnica, e muito mais. Genial. Em tempos de identitarismos, Primo Levi leva-nos à profundeza da complexidade política, social e individual. O que é ser resistente, bolchevique, russo, judeu, judeu-russo, polaco, polaco salvo por russos, russos mortos a salvar polacos, russos a matar polacos, polacos a matar judeus, judeus a salvar russos, ser judeu da Sibéria ou da França, as várias frações do sionismo, ser italiano, ser italiano comunista, ser judeu músico, ser judeu rico, ser um não nazi na Alemanha nazi, e muito mais. A realidade muito mais rica do que a “identidade”. Uma escrita, além do mais, perfeita, sem pedras, sem soluços, sem falsas emoções, sem falsos desesperos e sem falsas esperanças. Um mergulho na mais apaixonante realidade.
https://www.wook.pt/livro/se-nao-agora-quando-primo-levi/15934303

Lar, amargo Lar

Os lares, na sua maioria, revelaram-se um triste espaço vazio de tudo, onde quem não pode (e são quase todos, por causa de baixos salários, horários de trabalho e baixas reformas) larga – contra a sua e deles vontade – pais e avós. O fim da linha. Ninguém quer colocar os país num lar e ninguém quer ir para um lar. O Estado sufoca-nos com impostos e não cuida de uma política pública de envelhecimento saudável e humanizado. Os Lares são o último lugar a que se pode chamar Lar. Uma – demasiadas vezes – abjecta realidade que suspeitamos existir ou conhecemos de facto, e que a Ordem dos Médicos teve a coragem de colocar num Relatório, enquanto todos na hierarquia pública e privada e/ou social se descartavam de responsabilidades. Um dia assistiremos a reportagens sobre os dias e as noites nestes lugares e olharemos para eles como hoje se olha um asilo medieval.