Os Homens Quebrados

O melhor manual de corrupção que li foi o romance O Homem Quebrado de Tahar Ben Jelloun. Um dos mais importantes escritores de língua francesa, e também psiquiatra, oficio que coloca na construção das suas personagens complexas. Ontem tive aqui em casa uma bela discussão filosófica com a juventude sobre este livro. Sucintamente, temos a personagem principal, um homem, de personalidade insípida e submissa, incorruptível, mas por pressão da mulher, que despreza o seu salário baixo, da filha asmática que está sem medicamentos e do chefe e da estrutura corrupta acaba por se tornar ele próprio um corrupto. O romance é a sua transformação, de impoluto a vigarista, no fim não se salvando porque ao se transformar em corrupto morre como ser humano. O seu ultimo sentido de vida era pelo menos ser sério e, ao aceitar as regras do jogo, transforma-se ele num personagem ainda com menos amor a si próprio.
Este é um tema de que o marxismo mais mainstream tem fugido mas a psicanálise (e o próprio Marx) explora. A sociedade capitalista não cria capitalistas insípidos sem personalidade, ela cria um enorme sofrimento nos próprios capitalistas porque ao viverem em competição uns com os outros e para sobreviver a essa competição terem que cortar salários aos seus trabalhadores ou fazer infinitas falcatruas que gestam a miséria humana, eles mesmos entram em sofrimento, expresso na loucura dos gestores, no consumo de drogas “caras”, na degeneração moral, ou no cinismo doentio dos CEOs. No capitalismo ninguém se salva, em suma. É certo que já existia corrupção antes do capitalismo. Assim que há desigualdade ela nasce, mas depois da II Guerra com a elevação das dívidas públicas para ocultar falências privadas, e o crescimento do papel do Estado na economia, corrupção e capitalismo passaram a ser sinónimos. Nos EUA, pragmáticos, resolveram o assunto chamando à corrupção lobby e legalizando todos os esquemas como fruto da “liberdade individual e de mercado”. Uma farmacêutica dá milhões a um candidato e isso chama-se lobby.
Mas a corrupção não é eterna, é ainda uma escolha política e social. Pode-se escolher lutar contra ela, identificando as causas reais. Nem todos somos corruptos, aliás a grande maioria das pessoas do mundo, é um facto, recebe menos do que trabalha e não teria benefícios pessoais para si do dinheiro dos outros. O debate filosófico aqui em casa era se devemos defender a personagem que se suja para comprar medicamentos ou não. Penso que no fim chegámos a uma conclusão comum, e muitas divergências – não há salvação possível. Quando se coloca a mão na lama, a mente suja-se e, entre falta de medicamentos para a asma e uma vida conspurcada pelo roubo não há propriamente uma escolha de vida, ambas são uma escolha de morte.
O juiz Ivo Rosa escreveu 6000 páginas para dizer que Sócrates é corrupto, há indícios para usar o termo jurídico, mas prescreveu. Sócrates admitiu a circulação de dinheiro em quantias gigantes em malas “dadas por um amigo” e tudo ficou na base da amizade. Nas escutas tratava as malas de dinheiro por “aquela coisa que eu gosto muito”! Há quem brande por mais leis e afastamento do juiz, outros por menos leis (menos garantias no processo penal). Creio que a questão de fundo é outra – há uma estrutura legal de funcionamento do Estado e a sua relação com o privado que favorece a corrupção, mesmo quando não se chama corrupção e é legal. Confesso que enquanto o dinheiro público não for de controlo público podemos mudar as leis mas ninguém se salva. Todos os envolvidos – os que tentaram com escassos meios provar o crime, o mentiroso compulsivo que tentou livrar-se do crime (e que p Público hoje dá voz, na buscar declinante de ter partilhas em vez de jornalismo), o juiz que tentou aplicar a lei para salvaguardar os bens e a lei – são homens quebrados. Uns quebrados porque queriam fazer justiça e não conseguiram, outros porque não queriam fazer justiça e conseguiram.

Liceu Camões – Palestra sobre o 25 de Abril

Dia 20 estarei no Liceu Camões. Deixo o texto que o prof Jorge Saraiva – Professor de Ciência Política da Escola Secundária de Camões – escreveu para o evento, numa síntese da minha investigação sobre a história da revolução, que agradeço desde já:


Quando se comemoram 47 anos sobre a data da Revolução, o 25 de Abril de 1974 continua a dividir opiniões e ser motivo de acesa polémica, não só sobre as causas que conduziram ao movimento dos capitães, mas também aos acontecimentos que lhe sucederam, no período de 19 meses que durou o processo revolucionário.


Existe uma corrente dominante na análise dos acontecimentos que se sucederam ao 25 de Abril que defende que houve uma tentativa de imposição de uma ditadura de sinal contrário, ou seja, que os princípios defendidos originalmente pelo movimento dos capitães, tinham sido subvertidos por forças de esquerda não democrática. Segundo esta visão dos acontecimentos, os diferentes passos do processo revolucionário, quer em termos políticos, quer em termos económicos e sociais, visavam a instalação de um regime revolucionário de partido único inspirado em modelos próximos dos regimes socialistas do leste da Europa. Nesse sentido, entre as diferentes reviravoltas que se sucederam após o 25 de Abril, o 25 de Novembro de 1975 terá sido a vitória dos que defendiam um modelo democrático de tipo ocidental contra os que eram apologistas de outros modelos de sociedade.


A Dr ª Raquel Varela através da sua investigação e da obra que publicou (nomeadamente os livros História do PCP na Revolução dos Cravos e História do Povo na Revolução Portuguesa) tem contrariado vigorosamente as teses dominantes sobre os acontecimentos que se seguiram ao 25 de Abril de 1974. Como a autora escreve na introdução de História do Povo na Revolução Portuguesa, «nunca na história de Portugal os trabalhadores tiveram tanta consciência de o ser e tanto orgulho em sê-lo: «Só há liberdade a sério quando houver a paz, o pão, a habitação», cantava-se. Muito depois do fim da revolução – que nem todos percebiam que tina acabado – ainda havia jornalistas portugueses e estrangeiros a ir às fábricas do País «à procura do socialismo», desse país da Europa Ocidental que tinha inscrito na Constituição a construção de uma sociedade sem classes.» (História do Povo na Revolução Portuguesa, pgs 15-16).Contrariando as teses oficiais que reduzem os acontecimentos desse período à luta entre os diversos partidos pelo controlo do aparelho de estado e aos golpes mais ou menos palacianos, a Dr ª Raquel Varela propõe uma visão desse período que coloque no centro da acção política os trabalhadores e as movimentações populares. São as lutas pelo salário e pelo emprego, por serviços de saúde e de educação acessíveis a todos, por uma habitação condigna e pelo direito à terra a quem verdadeiramente a trabalha. Estas movimentações populares, frequentemente espontâneas e impulsionadas pela generosidade daqueles que nelas se empenharam, anteviam uma sociedade livre da exploração e das desigualdades, ou seja, como dizia a canção de Sérgio Godinho, o desejo de construir «outra terra no mesmo lugar». A Escola Secundária de Camões tem comemorado anualmente o 25 de Abril, uma data que abriu espaço para que todos os sonhos fossem possíveis. Assim, é com muito interesse e orgulho que iremos receber a Dr ª Raquel Varela que dialogará com a nossa comunidade escolar sobre essa data e sobre a forma como os sonhos e utopias que nesse dia se inauguraram, foram ou não concretizados.

Um coelho na cartola

Vivemos num país onde alguém que cace um coelho tem o carro apreendido. O juiz Ivo Rosa – sublinho que o problema não é individual, é uma questão sistémica, de regime e estrutura da justiça – ordenou o fim do arresto dos bens de mais de 20 milhões de euros, que podem ser já vendidos a outrem, e portanto até ao fim do julgamento deixar de ser devolvidos aos milhões de portugueses lesados. Não são quaisquer dois pesos e duas medidas. É um peso esmagador para quem é pobre, remediado, médio, e uma insustentável leveza para quem é muito rico. A simplicidade com que se expropriam milhões de pessoas que ficam expropriadas do emprego, da saúde, da educação de qualidade e o respeito processual pela propriedade bancária e especulativa é notável.

Espanto

A curiosidade científica e o espanto são condições para construir-se um bom cientista. Não chegam, mas sem elas, vontade aprender e espantar-se, é impossível fazer ciência.

Deveriam os conselheiros do Governo na gestão da pandemia estar espantados – com o facto das escolas terem aberto há um mês, a vida ter retornado aos passeios marítimos e praias, mais de 70% dos portugueses não estar em tele-trabalho; a variante britânica ser totalmente dominante (tornou-se dominante à medida que os casos desciam!), e até uma manifestação de, segundo afirmam organizadores, 3 mil pessoas ostensivamente sem máscaras (não sou entusiasta deste tipo de desafio, porque marginaliza as pessoas nele envolvidas, mas ele aconteceu e não teve, é um facto, qualquer repercussão na saúde pública 15 dias depois). Nada aliás do que citei teve – os casos descem, desde que passou o pico do Inverno da “pobreza energética” e do desastre dos lares. O espanto estaria também na Suécia, com a Europa que confinou mais o lazer a ver-se a braços com picos incontroláveis e a Suécia há muito num planalto, com capacidade de tratar e acompanhar os doentes e manter toda a economia a funcionar, nunca um ginásio ou restaurante fechou portas, ainda que com correctas restrições. Em vez de cancelar o debate, comportando-se como crianças de 5 anos chamando preto, judeu e agora negacionista e assassínio de velhos a todos os que têm curiosidade, manda o espírito científico que nos questionemos, assumindo o tanto que não sabemos. Tendo a Suécia a mesma concentração populacional de Portugal, e evidentemente dando abraços e jantares em família, sem máscaras em lado algum, em vez do dogma porque não o espanto? O que correu lá melhor? O não confinamento do lazer terá criado imunidade de grupo nas crianças que em vez de portadoras da peste são portadoras da imunidade que protege os mais velhos? O sistema de saúde sueco logrou mais cedo tratar os doentes? Não sei, tenho curiosidade.

Algo que escapa a Carlos Antunes, que hoje já veio dizer que as crianças que voltaram às escolas são focos de infecção, ainda que em Portugal estão agora a morrer cerca de 300 pessoas por dia, 10 de Covid. 290 de outras causas e que as urgências de pedopsiquiatria assinalem a catástrofe que lhes está a chegar pelas urgências todos os dias em matéria de descompensação das crianças e jovens. O que importa, cito Carlos Antunes, é manter o medo, a frase exacta que proferiu foi há uns tempos “é preciso que o medo volte”. A estratégia do cientista, que é conselheiro do Governo, é a de apelar ao primata que há dentro de cada um de nós – o medo, essa arma da saúde pública famosa nas melhores universidades do mundo de epidemologia. Como as suas previsões falharam como mais nenhumas, sobra o medo para entrar nas previsões matemáticas. O director de saúde da Suécia foi ao Parlamento há 2 semanas, tinha sido questionado em tempos pela direita e pela extrema direita locais que se mostravam a favor de mais restrições (sim, na Suécia são os Bolsonaros que pediram algumas restrições, e os sociais democratas que as rejeitaram – já agora no Chipre também, é a direita que as quer impor e a esquerda que está na rua contra – o mundo é complexo, espantemo-nos). Hoje nenhum Partido as exige ao governo social democrata, e a direcção de saúde pública é respeitada. Aguentou o embate medieval, mostrou como se faz saúde pública lembrando que morta também está a vida de quem fica destruído material e mentalmente – disseram várias vezes que o efeito dos confinamentos ia criara problemas gigantes, e criaram. A frase do director no Parlamento foi esta, que cito ipsis versis – “muitos quiseram no mundo controlar um vírus fechando a sociedade, nós provámos que eles estavam errados”.

Não sei o que aconteceu na Suécia. Dizer que tem baixa densidade populacional é ignorar que 70% do território é habitado por renas, e que quase toda a população está nas 3 cidades do sul. Dizer que as pessoas não convivem é ignorar os restaurantes cheios há 1 ano, e uma juventude que manteve todos os rituais de encontros, imaginem, espanto, sem indicações pelo Estado de como e com quem devem ter relações sexuais – o que o Estado inglês fez com precisão. A resposta está, quanto a mim, na imunidade de grupo, na saúde destas populações – sim, parem de comparar Portugal com o Brasil onde 45 milhões de pessoas dependem do Estado para não morrer de fome, é uma população doente, sem habitação ou distância física possível. Na Suécia muito provavelmente a capacidade de resposta dos serviços de saúde e de saúde pública venceu. Mata no Brasil a pobreza e a ausência de saúde, a pandemia é a tempestade perfeita num país onde há muito se morre de forma precoce de causas evitáveis.

A outra resposta é triste, mas é um dado. A de que o vírus circulou atingindo os mais frágeis rapidamente. O vírus correu os lares, os mais frágeis, na Suécia e em todo o mundo, e foi implacável com os mais velhos, porque nem a social democrata Suécia conseguiu impedir, muito menos o fizeram outros países (Portugal foi trágico neste campo), que os lares sejam espaços onde a propagação das doenças é imparável. Os lares são a antítese de um lar – juntam na solidão do fim da vida pessoas idosas e doentes. A sociedade terá que espantar-se e concluir que lares não são, em momento algum, uma opção segura e correcta para tratar dos nossos quando envelhecem, com ou sem pandemia. Voltarei ao tema. Este tema dos lares – e o desprezo pelas crianças e jovens – são o grande tema de saúde pública desta pandemia. A incapacidade de cuidar dos sectores mais frágeis da sociedade, colocando-os em grande sofrimento, velhos e crianças e jovens, diz muito do fundo do poço a que chegámos.Seja como for espanto-me. E tenho como sempre imensa curiosidade. Os meses que virão serão de mais questões, mas também de mais respostas.

Em defesa da aula (presencial) | Por Roberto Della Santa

A ler até ao fim. Uma crítica acutilante à decadência do ensino na figura do professor “mediador”, alienado dos alunos, e do ensino Tablet. E uma defesa apaixonada do professor educador, na sala de aula, e que acredita nos alunos.

“Chamar ‘aula’ à instrução remota ‘online’ é totalmente fora de lugar, uma impostura intelectual que não pode mais voltar a ter lugar no pós-pandemia.”Este ano os jornais canadianos estamparam, sem dó, a manchete: «Universidade usa um professor morto para dar aula online». O invulgar deu então lugar ao insólito. Aaron Ansuini, estudante da Concordia University em Montreal, teve uma descoberta chocante: a de que o seu professor de história da arte não mais estava vivo (!). Depois de assistir a uma conferência digital do Prof. Dr. François-Marc Gagnon, o estudante foi procurar o seu e-mail para colocar-lhe uma questão e, ao aceder à página institucional, descobriu o obituário: “Gagnon (1935-2019) – um grande educador”. Poderia ser fake new, mas não é.

Por onde começar? O que fazer?

O cerco à educação escolar e à formação universitária aumentou muito no último período. Os municípios inundam escolas de Ipads; enquanto as universidades amontoam plataformas digitais. Ao mesmo tempo não houve política pública de incentivo à carreira de ensino e investigação minimamente correlata ao investimento em maquinaria didática. Como inverter esta infeliz primazia do trabalho morto sobre o trabalho vivo na educação?

A Casa Real Espanhola anunciou que a herdeira Leonor, 15, vai estudar num colégio integral de excelência no País de Gales, onde “o programa académico dura dois anos letivos (2021-2022 e 2022-2023), com disciplinas de ciências e letras, e fica completo com um curso interdisciplinar comum, sobre teoria do conhecimento e uma monografia de caráter investigativo”. “Também participará”, prosseguem, “num programa especial para a criatividade – com formação em teatro, música, arte, desporto, e serviço à comunidade”.Do currículo real consta, ainda, “a adquisição de conhecimentos de manutenção de costas e bosques, controlo de índices de contaminação do meio ambiente e recuperação de espécies animais”. De manhã aulas magistrais e estudo clássico, à tarde socialização e trabalho criador. Como comparar com a distopia digital que coloca a grande parte dos estudantes hoje – de 8 a 10 horas –, mesmo antes da pandemia, presos aos ecrãs e Tablets?

A resposta, muito infelizmente, é bastante óbvia. Leonor pertence aos dominantes e dirigentes, os outros aos subalternos e dirigidos. O futuro do trabalho anunciado aos quatro ventos não passa dum novo mundo automatizado, ainda mais digitalizado, em que o conflito de classes também se expressa desta forma: uns dominam os fundamentos da conceção do saber, da ciência e da arte; os outros, a grande maioria da população, rudimentos de tecnologia, consumo de diversão ou a mera execução do fazer. Inevitável?

Os alunos hoje estão por todos os lados pressionados justamente a serem passivos (TV, redes sociais, jogos de computador etc.). Chegam à sala de aula já hiperestimulados, em multitask, com dificuldades de concentração. A aula deve ser para aprender conteúdos valiosos, pausa de reflexão filosófica mas, também, um exercício democrático, no sentido de recriar espaços de liberdade – propícios para a interrogação sobre si, o outro, o mundo. Como fazer isso? Como realinhar uma tal disposição? Este é o nosso atual desafio.

O «professor mediador», e as “metodologias ativas”, as quais não transmitem as formas sociais de conhecimento aos alunos, são uma espécie de pensamento único no que se refere a conceções de educação na escola. Os docentes que, supostamente, não “massacrariam” a personalidade de seus aprendizes com os seus conteúdos curriculares; que, alegadamente, não seriam o “centro” de todo o nexo educativo (o qual deveria ser, sempre, o aluno), aqueles que, em vez da lecionação e suas respostas, deixariam reflexões e perguntas, seriam, catalisadores da autonomia intelectual para que então os próprios estudantes – enfim, empoderados pelo “aprender a aprender” – autoconstruíssem os seus próprios saberes particulares. A pretensa crítica à “educação tradicional” adquiriu status de razão de Estado com palavras-chave tais como: “flexibilidade curricular”, “perfil do aluno”, “aprendizagem essencial”. A aparência de verniz progressivo oculta sua face real.

A ideia deste artigo é defender uma forma específica do ato de ensinar fundante. Assim como o locus icônico do cientista da natureza é o seu laboratório, o habitat natural clássico do professor de humanidades é a sala de aula. A guerra declarada contra a aula parte de uma caricatura: de um lado haveria um modelo “sage-on-the-stage”, arcaico e, de outro, o progresso técnico dos laboratórios digitais e o evolver, moderno, das forças produtivas via instrução remota online ao serviço das chamadas aulas reversas interativas ou baseadas em projetos ativos, quando muito, caso reste ainda algum papel docente, seria o de um mero “guide-on-the-side”. A verdade é que a aula persiste um portentoso instrumental de comunicação de experiências e ativação simbólica do processo de ensino-aprendizagem para estar-juntos. O que dizem os críticos? A estrutura hierárquica, não-flexível e diretiva – da palestra – não se adaptaria ao novo mundo global, dinâmico e de multitudinários recursos.

Mas será tão mau para mestres e alunos realmente existentes?Nas aulas não se projetam os saberes diretamente das bocas dos professores para as mentes dos alunos – essa ideia é falsa, tosca e algo exacerbada pela frase problemática: “debitar conteúdo”, e já foi de-há muito criticada por Paulo Freire, qual “educação bancária”. Embora os professores possuam informações que, no início de uma aula, são inéditas aos alunos, não se trata tanto do débito de conteúdos. Muito pelo contrário. A aula exige-nos a comunicação direta de conhecimentos especializados por meio de arguição em tempo real. A contrapêlo da noção de débito – o desafio é mais o retirar do que o colocar. Subtrair-se ao aleatório dispersivo da estrutura da vida quotidiana, do imediatismo da aparência empírica, de automatismos ideo-políticos e material-sensíveis que entorpecem, a diário, cada vez mais, aos nossos discernimentos e sensibilidades. Sobretudo em grande recusa aos despotismos do mercado ou às tiranias do Estado central. Na sala de aula instaura-se um novo tempo-espaço distinto ao espaço-tempo habitual. Um convite à meditação, exame lento, suspensão às adesões impulsivas – à desnaturalização.

O espaço-tempo da aula reconfigura os mapas afetivos e as coordenadas cognitivas, rearranja expectativas, mitiga exaltações, concentra a atenção dirigida, mobiliza a memória volitiva e estimula todos os processos especificamente humanos ou de nexo psico-físico superior. A aula, quando realmente ocorre, é uma autêntica arte do encontro de ordem muito antiga. Tem a ver com o sentido de pertença, partícipe da conversação altiva, do velho contar de histórias e até do sermão. O ensino depende desta arte ancestral.É o locus da aula que pode viabilizar tal encontro porque, para além de métodos e temas, ensinar e aprender só são possíveis graças à experiência comum da sociabilidade humana: das posturas, dos afetos, dos gestos e dos intelectos de pessoas inteiramente envolvidas. Trata-se de um exercício performativo – de cultura e civilidade vivas – o próprio gestus educativo e sua dramaticidade envolvida, uma dialética ininterrupta entre distanciamento e proximidade, de partidas ou chegadas, de começos e de fins. Mais do que programas, como letra-morta, syllabi ou corpora, são percursos ou travessias que estão envolvidos tanto em seu trajeto imanente e objetivo de chegar à escola como no seu sentido subjetivo ou transcendental. É toda uma viagem – no seu sentido o mais profundo.

As melhores aulas baseiam-se tanto em preparação cuidadosa e diligente quanto em revelação espontânea e surpreendente. Ao falar com os alunos, e avaliar as suas reações, tal como os velhos narradores ao pé do fogo, os professores chegam a novas conclusões, incorporam-nas às suas aulas e refinam os seus argumentos. Assim, transmitem-se factos, mas também modela-se a arguição – tal qual o mestre-oleiro e a sua criação de barro –, ao tempo em que respondem-se a sugestões não-verbais do público interessado e interessante.Longe de ser algo opacas, unilaterais – as aulas são um denso e rico processo social. O tempo habitual das aulas contribui para a sociabilidade e estabelece um ritmo ao curso. As salas de aula são comunidades reais e, normalmente, as aulas são a ocasião única para o grupo se reunir fisicamente. Removido tal ímpeto de reunião – seja por conta de aulas assíncronas, gravadas, ou por se tornar a assistência opcional – todos os benefícios da comunidade realmente existente, de tão sólidos, desvanecer-se-ão no ar tal como bytes, pixels, algoritmos. A aula é o ato docente por excelência que caracteriza a seu ofício e – por definição – só pode ocorrer em presença. Chamar “aula” a instrução remota “online” é totalmente fora de lugar, uma impostura intelectual que não pode mais voltar a ter lugar no pós-pandemia.

As escolhas que fazemos marcam a nossa história

Cabe-me a honra de escrever o prefácio deste livro. O meu tio Fernando Cardeira, engenheiro nuclear de profissão, foi um dos líderes, em plena guerra colonial, com um grupo de amigos e camaradas da Academia Militar, da mais importante deserção de oficiais contra a guerra e o regime de ditadura. Esta história marcou-o a ele, à família e a todos os envolvidos para sempre. O convite não me chega por ser sua sobrinha, mas porque fui, há cerca de 10 anos, redescobrir a história deles para uma notável série de livros com que colaborei, Os Anos de Salazar, coordenados por António Simões do Paço. Ao mergulhar no arquivo da PIDE/DGS sobre o meu tio, e aproveitando o seu cuidado arquivo pessoal, com uma extensa coleção de relatos, testemunhos e documentação, consegui reconstruir a deserção mais marcante da guerra colonial (1961-1974).

Juventude, deserção, coragem, medo, fraternidade, juras de amor. A história dos oficiais portugueses que em 1970 desertaram do Exército colonial tem todos os ingredientes de uma boa história e pode servir de inspiração para toda uma geração de estudantes marcados pelo Maio de 68, de oficiais milicianos horrorizados com a matança colonial, de jovens desejosos de romper as amarras do autoritarismo e dessa imensa prisão cultural e intelectual que era o Portugal de Salazar. 

A deserção teve uma vasta repercussão no regime de Salazar e a nível internacional. Traidores à pátria em Portugal, heróis na Suécia, os oficiais fizeram da sua deserção uma luta contra a guerra colonial. Amílcar Cabral escreveu-lhes a agradecer e as suas declarações contra o colonialismo foram ouvidas pelos guerrilheiros no meio dos matos da Guiné, de Angola e de Moçambique.

Foram recebidos de braços abertos por Olof Palme, apoiados pelo PAIGC, e figuraram lado a lado nos jornais suecos, com honras de capa, tal como então os desertores da guerra do Vietname, que também nas terras socais democratas encontraram refúgio e apoio. 

A deserção, para a família um ato histórico, acabou por ser também um acontecimento de relevância política internacional, que abalou o regime do Estado Novo. Acresce que o meu tio era sobrinho do brigadeiro Albertino Carreira Mariano, um homem do regime, da ala republicana, fascista e laica do Estado Novo, o que agravou a sensação de fragilidade do apoio dentro das forças armadas à guerra colonial. A irracionalidade, a injustiça da guerra contra os povos das colónias, mantidos num regime de trabalho forçado de facto até 1974, começava a ser contestada dentro das Forças Armadas – sabemos que acabou aliás por ser daí que chegou o seu fim, a 25 de Abril de 1974, num golpe organizado pelo Movimento das Forças Armadas.

Com humildade, creio que excessiva, Fernando Cardeira começa por explicar que não tem muito talento para escrever, e por isso adiou este livro até agora. Cinquenta anos depois de a deserção ter tido lugar, ele está nas nossas mãos. Não se deixem enganar pela sincera humildade. Encontrarão aqui algumas das mais belas páginas testemunhais da história de Portugal. Recheadas de histórias maravilhosas, umas tristes e trágicas, outras divertidas, anedóticas, cheias de vida, despertam a nossa curiosidade. Na verdade, o que os leitores têm em mãos não é mais uma história de vida de um militar ou ex-militar, mas, sublinho, um testemunho vivo, intenso, da história de Portugal. 

Lendo-o compreende-se quase tudo o que é importante para entender o século XX português. A pobreza do país, quase medieval; a passagem do mundo rural para o mundo urbano; a importância do trabalho artesanal – é inesquecível a descrição do trabalho num pinhal, com profissões que já não existem; a vida de comunidades pré-capitalistas, atrasadas, sem luz, a 100 km de Lisboa; o tempo da enxada na mão e da recolha da caruma e, quase ao mesmo tempo, o ensino universitário de ponta no Instituto Superior Técnico, onde estudou; a mobilidade social pelos estudos e pelo Exército; a politização marxista pós 68; a cultura universitária das décadas de 60 e 70 na Europa e nos EUA, do cinema à libertação sexual, isto num país onde até 1974 era possível ao marido abrir a correspondência da mulher. Estão aqui a grande história mundial, com a disputa pelos territórios coloniais como pano de fundo, e também a da resistência e romantismo, glória e coragem dos movimentos de libertação, uma Suécia que chorou a morte de Amílcar Cabral, assassinado; os atos de solidariedade no combate ao regime, as redes internacionais de apoio aos presos políticos; e a ferocidade da PIDE, que não poupou a minha tia, sua esposa, de uma perseguição sem sentido, e abria despudoramente as cartas da minha avó. 

A grandeza da humanidade e a sua degradação, no meio de uma intensa e visível luta de classes, que fermentava na tempestade perfeita. O mais longevo império colonial e também o mais arcaico, uma burguesia débil à procura de investimento estrangeiro; a guerra colonial, que mobilizou mais de 1 milhão de jovens; um novo e pujante movimento operário; e uma crise económica. Tudo isto juntou-se um dia numa contradição que a história não suportava mais – começa a revolução, depois do golpe de Estado de 25 de Abril de 1974. Esses dias estão aqui também, na história do regresso, da amnistia, do reconhecimento. Esse momento único da história de Portugal em que a democracia social vigorou lado a lado com a democracia política. O retorno a Portugal será marcado ainda pelo papel desempenhado por Fernando Cardeira como responsável na RTP do Conselho da Revolução.

O livro que aqui temos para nosso agrado e aprendizagem conta-nos um pouco de como fomos, de onde vimos, e, por isso, de certa forma, para onde vamos. 

Porque as escolhas que fazemos marcam a nossa história, sempre.

“Os confinamentos enviaram as crianças, trabalhadores e velhos de alto risco para a zona de perigo”

Alemanha recua no confinamento. Não recua – Merkel foi forçada a recuar por uma conjugação de factores. Daqui a uns meses iremos descobrir – também em Portugal – que nunca houve ninguém a favor de confinamentos, “porque afectam muito a saúde mental e aumentam a mortalidade média abaixo dos 64 anos”. Para parte substancial do substracto sociológico que cria hegemonia opinativa no espaço público a política não tem princípios nem memória – tem autoridade e esquecimento. Agora que a autoridade foi forçada a recuar segue-se em breve a mudança de princípios. Daí que o esquecimento seja um recurso central do Estado. A Alemanha está perto da Suécia, e apesar do esforço de eclipsar o país das renas que tem em Estocolmo a mesma densidade populacional de qualquer cidade europeia, os dados estão aí – nunca um comércio ou restaurante fechou, escolas abertas, não há sequer uso de máscaras e a Suécia tem menos mortos do que a média europeia. De tal forma que nem a Finlândia nem a Noruega obrigam ao uso de máscaras ou fecham escolas. Foram publicados nos EUA dados do excesso de mortalidade entre 15-64 anos. Resultados? A mortalidade das classes trabalhadoras por razões não Covid aumentou muito. O que levou Martin Kulldorff, professor da Harvard Medical School, a esta frase lapidar: “Os confinamentos protegerem a classe dos laptops, jovens e pessoas com baixo risco, jornalistas, cientistas, professores, políticos e advogados enquanto enviaram as crianças e as classes trabalhadoras e velhos de alto risco para a zona de perigo (“while throwing children, the working class and high-risk older people under the bus.”)Portugal é um caso único de submissão política, em que o Estado finge que não existem 1 milhão de desempregados, cortes de salários reais nos empregados à boleia da pandemia, selvajaria sem lei nos locais de trabalho, a bomba relógio das moratórias e uma crise de saúde mental que deixa as classes trabalhadoras e os seus filhos devastados já que nunca terão dinheiro para tratar-se a não ser com medicação.

Direitos das crianças e adolescentes

Foram realizados agora 82 mil testes nas escolas, o resultado foram 80 positivos (e nem sequer se refere se com ou sem doença, sendo que mais de 80 num ano normal estariam em casa com diarreia, febre e todas aqueles coisas que dão às crianças e jovens 2 vezes por ano). Já agora, nesta testagem temos a mesma prevalência da última testagem em massa em Janeiro em Portugal. Estatisticamente trata-se de um número, 80 em 82 mil, irrelevante, inexistente. 4 meses sem aulas, esse é o número que conta. Não me surpreende a reacção corporativa dos sindicatos, apoiantes tácitos do Governo. O que me espanta é como é que há professores que acham que estão mais protegidos em casa, em tele-trabalho, frente a um ecrã, em sofrimento ético, onde não conseguem ensinar nada, a caminho de um agravamento de todos os sintomas de desrealização que já tinham na escola. Henrique de Barros foi claro ontem no Infarmed, como aliás tinha sido em Janeiro “vemos que com as escolas abertas a infecção sobe e desce, sobe com as escolas fechadas, continua a subir e até faz um pequeno plateau com as escolas abertas e depois desce”. Fechar as escolas foi uma decisão eleitoralista, sem base cientifica alguma, um delírio político. Sejamos claros, é um atentado aos direitos das crianças e adolescentes manter as escolas fechadas, que deviam abrir imediatamente, é um desrespeito ao seu direito à saúde, bem estar e educação.

Inglórios e Bastardos

Já não é a primeira vez que vejo pessoas aplaudiram a infecção ou morte por Covid de pessoas que estão contra o confinamento – alguns amigos que tenho em boa conta, no Brasil onde a política e a moral há muito se desencontraram é quase diário ver comentários de alegria por ter morrido um opositor com Covid – na ausência de intervenção política real sobra a celebração da morte no mundo virtual. Desta vez o famoso Dr Facebook Sci-Med, que aconselha, por exemplo, programas de verificação de notícias falsas, substituindo-se ao papel de investigação jornalística com contraditório que, com a precariedade nas redações, tornou-se raro. Como achamos aqui em casa o ensino online uma fraude, entre outras coisas, decidimos passar bons filmes em família seguidos de debate. Um deles é Bastardos Inglórios, de Quentin Tarantino, realizador cujos filmes – muito bons – são sempre uma celebração pós-moderna da violência (é o que se chama um adversário difícil de derrotar). Aqui, neste filme, caçadores de nazis fazem as coisas mais horríveis aos nazis, que no filme cometem os assassinatos mais bárbaros. Os mais novos diziam-nos que os nazis mereciam – todo o filme está assim construído, essa é a conclusão manipuladora do filme – justiça é conseguires ser o pior dos torturadores contra o pior dos torturadores. Conseguimos, com sucesso, depois de um debate grande defender que se Hitler nos apontasse uma arma teríamos que o matar, ele ou nós, não havia alternativa. Mas, se fosse apanhado sem nos ameaçar a vida seria levado a julgamento (explicámos que os EUA executaram em directo Sadam Hussein porque são um Estado liderado por bárbaros em que o lucro se sobrepõe aos direitos). E que se o torturássemos, a Hitler, seríamos transformados não num belo justiceiro, mas num torturador. Desejar a infecção ou morte de alguém com Covid não diz nada da pessoa morreu – diz tudo daquilo em que se transformou a pessoa que está viva. Quando vem de um médico, que aconselha os media, diz tudo da decadência de valores em que vivemos – bastardos inglórios é um grande nome, o melhor do filme, não há glória para quem sucumbiu moralmente ao monstro que há dentro de si.

Portugal – finisterra pode ser também o começo de algo

O leitor vai deliciar-se nestas páginas Da Raia Seca ao Pinhal, do Dr. Álvaro Cravalho, com uma profusão de artigos que olham a sociedade, economia, cultura e vivências do Interior, oferecendo ideias, soluções. E propostas concretas – algumas já concretizadas – de como se pode fazer, e se fez nalguns casos, do Interior uma parte viva do país – no campo da música, da imprensa regional, e muitos outros exemplos. Com testemunhos actuais e outros de uma época histórica que é o legado, ainda sentido, de um país que mudou profundamente na década de 60, e sobretudo nas décadas de 70 e 80, ao se modernizar plenamente, com todas as contradições do desenvolvimento histórico capitalista que colocou Portugal, embora na Europa, periférico. Periférica é a sua condição de fim de terra, de onde se avista o mar e só o mar, no fim. E periférica é a sua condição económica, sobretudo depois e durante o período da chamada globalização neoliberal. 

Nem todas as zonas do mundo têm geograficamente as mesmas potencialidades. Regiões muito pobres podem manter uma densidade populacional equilibrada, com algum tipo de rendimentos e produção, erguendo lugares que sejam uma casa acolhedora para os que aí vivem. Mas para isso são necessárias escolhas. Se florestamos, por exemplo, toda a terra de pinhais e eucaliptos, além das catástrofes humanas, e das crises ecológicas, estamos a fazer uma escolha que reforça a desertificação. Construímos, sobretudo desde 1990, vias que aceleram o que podia ser troca, mas se transformaram, em alguns lugares, numa via de apenas saída, em que as estradas servem como porta de saída até para a transformação e escoamento da produção. Porque no Interior escasseiam as indústrias locais, os serviços públicos e apoios logísticos. 

Portugal vive de longa data um cisma, que tendo barreiras naturais, tem outras que são, sobretudo, políticas – o cisma Litoral/Interior. A nação consolidou-se virada para o mar, no estuário dos rios, de norte a sul. Ganhou projeção mundial com a Expansão, sobretudo através de um desses estuários, do rio Tejo, em Lisboa – tão amplo que ganhou nome de mar, Mar da Palha. Esta condição extrema vê-se nas migrações externas e internas (aqui neste livro tão bem retratadas pelos autores), e como recorda o escritor dinamarquês Hans Christian Anderson, em viagem a Portugal no século XIX, Portugal tornou-se um país que exporta homens. Também Orlando Ribeiro o explicou assim, quando referiu-se ao país como produtor de homens. De um modo geral as melhores terras do país estão no litoral, e possibilitam a policultura e o emprego diversificado o longo de todo ano, em vez das monoculturas. Mas…como recorda George Steiner, no seu ensaio sobre a Europa – Ideia da Europa – , nenhuma extensão na Europa é intransponível, e todos estamos ligados, quase a pé, de aldeia em aldeia, ao contrário do que se vive nos continentes americanos, australiano e asiático, onde a humanização do espaço enfrentou-se sempre com limites naturais avassaladores, como grandes montanhas, desertos, e zonas inóspitas. A Europa, e Portugal, pequeno país também, tem esse dom natural de ter encontrado casa num território onde o homem tem a vida facilitada. Há alternativas que urge pensar. Este livro, coordenado pelo Dr. Álvaro Carvalho, distinto médico e cidadão empenhado, deixa-nos interrogações, sugestões e reflexões. Uma agricultura sustentável, diversificada, financiada, que nos ajude a garantir segurança alimentar; que olhe a centralidade da necessidade de criar emprego multifacetado, para os membros da família, e não a mono-cultura; emprego que não tenha caráter sazonal; serviços públicos de qualidade, cuidado das populações locais e apoio à cultura. É preciso, é urgente, políticas que escolham estar do lado das populações, para que elas estejam do lado do país.

Raquel Varela, Posfácio ao livro do médico Álvaro Carvalho, Da Raia Seca ao Pinhal, Editora Âncora

Junho de 2020

Curso História do Povo na Revolução Portuguesa

“No próximo aniversário do 25 de Abril um curso sobre História do Povo na Revolução Portuguesa. Online. Bertrand Livreiros. Com a historiadora Raquel Varela.Neste curso encontrarão a História do Povo na Revolução Portuguesa, uma história dos resistentes, dos «sem voz», daqueles que habitualmente não ficam na história, soterrados por decretos, declarações diplomáticas, jogos de bastidores e lutas políticas. Não encontrarão aqui uma história da guerra colonial, mas a história da resistência ao trabalho forçado ou a história da resistência à guerra. Não descobrirão aqui a história da queda dos governos provisórios, mas a história do controlo operário que levou à queda da coligação que tentou governar aquele estranho povo da Ibéria que não se deixava governar, mas que estava a aprender, pela primeira vez, a governar-se a si próprio; não estará aqui a indispensável história dos partidos políticos, mas sim a dos trabalhadores, em sentido amplo; não encontrarão a história das relações diplomáticas — tão intensa à época —, mas estarão aqui as referências aos movimentos de solidariedade entre países feitos pelos «de baixo».Uma história total, ambicionada por todos, não é só a história dos resistentes. Mas não pode ser feita sem a história dos resistentes. Dos que não aceitaram as ordens sem primeiro as contestar, discutir e votar. E assim elas deixaram de ser ordens e passaram a ser aquilo que foram em grande medida no biénio de 1974-1975: decisões cole- tivas sobre a forma como uma sociedade quer viver.Raquel Varela “Informações no link

https://www.bertrand.pt/…/curso-25-de-abril…/159106

Porque o Confinamento é um Erro

A metodologia proposta pelo Governo para desconfinar o país é errada:

Um estudo publicado agora por uma das melhores universidades do mundo, Stanford, com o contributo do mais importante e reconhecido epidemologista mundial, o Prof. Ioannidis, afirma que ao se comparar países com e sem confinamento não há benefícios do confinamento. A metodologia do Governo português usa uma fórmula insustentável cientificamente. Uma vez que não contabiliza número de internados em UCIs, mas contabiliza um R que tenderá nesta fase, de poucos casos, sempre para próximo de 1 – facto que o prof. Buescu ignorou nas suas declarações públicas onde defendeu esta fórmula. Ora, podemos ter um número muito grande de casos em pessoas jovens e saudáveis e poucos internamentos. E podemos ter um R alto, próximo de 1 e poucos casos – é aliás o que se passa há semanas. A metodologia exige ainda testarem em massa sem distinguir infectados de positivos. Podemos ter uma enorme massa de pessoas positivas sem estarem doentes. E quanto mais testes com baixa prevalência maior o numero de falsos positivos. Isto não é matéria de opinião – são factos, não depende da subjectividade de cada um. Quem diz que o R nesta fase é importante está cientificamente errado.

Um Governo não é um grupo de cientistas, não eleitos – isso seria uma ditadura técnica. Um Governo é um grupo político de pessoas que representam, por eleição, um povo. Ninguém vota em cientistas, isso seria uma destopia tecnocrática. Um Governo tem que tomar medidas que são a melhor opção para 10 milhões de pessoas, e não escudar-se atrás de uma metodologia técnica, reitero, defendida por pessoas não eleitas, para concluir decisões que afectam de forma desastrosa a saúde, o emprego, e o bem estar social. Aliás, é significativo que para tomar estas decisões que condicionam todo o país não haja cientistas das humanidades e da sociedade – estes foram chamados apenas para melhorar a “comunicação” e não para enquadrar critica e socialmente os efeitos do confinamento. Estas escolhas para desconfinar, cientificamente erradas, são da responsabilidade do Governo que escolheu estes cientistas, podia ter escolhido outros, entre os vários, em Portugal e no estrangeiro, que são contra o confinamento. Porque consideram – e isso é um facto , não é matéria de opinião – que o confinamento não impede a pandemia e agrava muitos outros problemas da sociedade, como acesso ao SNS, desemprego, saúde mental, etc.

O Eurofound acabou de tornar público que em toda a Europa que confinou menos de metade esteve de facto confiando – facto que fui alertando desde o início, porque a opção sempre foi por manter o sector de produção de valor aberto. O que se confinou foi o lazer, a cultura, as relações humanas essenciais à vida. Há pouco tempo desconfinava-se com menos de 2000 internamentos, segundo Marcelo. Agora temos menos de 1000 e crianças e adolescentes fora da escola e sem relações sociais densas, com ameaça grave à sua saúde mental; e restaurantes e empresas na falência real uma vez que as ajudas não chegam e quando chegam não são suficientes para colmatar as perdas. São as classes trabalhadores e médias que estão a ser as principais vítimas destas políticas.

O confinamento é uma opção neoliberal, que protege quem tem rendimentos fixos, deixando a maior da população à mercê do desemprego, e por isso, da quebra salarial, e da proletarização, com a falência dos negócios familiares. Trump tinha uma visão do salve-se quem puder, desumana, como tem Bolsonaro. A Suécia social democrata do proteger o mais possível o bem estar social e salvar a democracia liberal. Os governos neoliberais ingleses, francês e alemão – que o Estado português segue – optaram pela opção que não salva pessoas, porque essas só podem ser salvas por políticas focalizadas de saúde reforçada aos mais frágeis com intenso pessoal médico (o caso de Cuba é exemplar, porque uma pandemia depende antes de mais de grande quantidade de pessoal médico), o que implicava nacionalizar na Europa todo o sector privado. O confinamento não salva vidas, pelo contrário, deixa um rasto de destruição social, mas permite, à boleia de uma pandemia, esconder a destruição neoliberal dos serviços de saúde e apostar numa restruturação produtiva para a automação, que gera milhões de desempregados, em pleno Estado de excepção, confiando que isso evitará greves e protestos sociais. É por isso que o estudo de Stanford passa despercebido apesar de ser numa revista de excelência, de uma Universidade de topo mundial e com uma equipa de médicos e epidemologistas que estão entre os melhores do mundo.

Portugal está há 1 ano sem democracia – a democracia não é uma formalidade. É ignóbil que um polícia possa nos perguntar quem vamos visitar no município ao lado ou se estamos a praticar exercício – cruzou-se uma linha vermelha. Nenhum problema se resolve com restrição de direitos em nenhuma sociedade em tempo algum da história. Quanto maiores são os problemas, mais as pessoas devem estar envolvidas democraticamente a resolvê-los. Hoje, não está garantido que a democracia volta a Portugal. Tudo isto começou com confinar 15 dias para achar a curva e estamos há um ano a viver sobre a arbitrariedade do Estado.Deixo o link para o estudo e o currículo do prof. Ioannidis para quem queira consultar.

https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1111/eci.13484

https://profiles.stanford.edu/john-ioannidis

“Erro Humano” e “Acidentes de Trabalho”

Chocamo-nos (e muito correctamente) com a morte de 30 mulheres brutalmente assassinadas pelos maridos, mas toleramos como “inevitável” a morte de mais de 100 homens por ano em Portugal em “acidentes” de trabalho.
Quase sempre nos acidentes de trabalho fala-se em “erro humano”. Quando comecei a estudar a Lisnave, e mais tarde outros estaleiros do mundo, como a Naval nas Asturias ou em Bergen, que visitámos, fomos sempre confrontados com memórias de acidentes de trabalho. Na altura, há cerca de 15 anos, as memórias eram das lutas por sistemas de redundância, formação e segurança. E, inspirados primeiro pelos mineiros, os primeiros a parar em greve sempre que alguém morria, era frequente a greve imediata mal havia um acidente. Ninguém aceitava a narrativa – hoje dominante – do “erro humano” e do “acidente”.
Hoje quando morre um operário pela inalação de gases, muito comum nos estaleiros da Turquia, no Dubai, a culpa do “acidente” (entre aspas, já explicarei) é dos operários que – cansados, de ressaca ou bêbados, tensos, displicentes ou preguiçosos -, entram nos tanques para a desgaseificação e morrem porque não tomaram as “precauções devidas”. A Lisnave tinha então – na década de 70 – bombeiros, e isso conseguiu-se com lutas, que não deixavam os operários entrar sem verificações de gases nos tanques.
A narrativa hoje é onde está o erro humano? Ninguém se pergunta pelo erro da empresa? As ordens erradas, a diferença entre o trabalho prescrito por gestores e a realidade do terreno, o cansaço dos turnos acumulados pelos baixos salários, a desmotivação pela ausência de segurança no emprego, a falta de sentido de muitos trabalhos que conduz ao consumo de álcool e medicação, disseminada; a falta de formação constante – comparar as horas de formação de segurança entre uma empresa portuguesa e dinamarquesa é deprimente.
Esta narrativa do “erro humano” chama “acidentes” ao que são na verdade mortes evitáveis, na sua esmagadora maioria. E, se em Portugal nos estaleiros poucas mortes há hoje, na logística e na construção civil continua um massacre no nosso país.
Ora, há uma linha de estudos, que seguimos no nosso Observarório para as Condições de Vida e Trabalho, e cujo especialista principal é o nosso colega João Areosa, que diz que o erro humano é um dado adquirido, todos vamos errar, em algum momento, e às vezes erramos muito. É a empresa que tem obrigação de construir sistemas de formação, segurança e prevenção que impedem que quando há um erro – inevitável – ele signifique a morte. Tal como nas estradas chamamos “acidentes” ao que na maioria dads vezes é negligência e incúria do Estado e das condições objectivas onde se circula. Culpamos os indivíduos e nunca nos perguntamos pela responsabilidade das organizações. Isto está infelizmente tão enraizado que os sindicatos que há 30 anos paravam imediatamente se houvesse um acidente agora aguardam pacientemente a ACT, esperando que o Estado actue, Estado que até ao acidente foi incapaz de actuar.

Cuidar dos Adolescentes

Os critérios de regresso à escola dizem respeito à produção de valor e não à protecção dos mais frágeis. Para um adolescente, como aliás está explícito no Relatório da Unicef sobre a pandemia, a doença mental por confinamento é muito mais grave do que nas crianças pequenas. Há duas fases na vida que são essenciais na formação da nossa identidade, infância até aos 3 anos, e adolescência. Um bebé sem afecto e com boa comida e calor pode morrer, por falta de afecto, nos adolescentes a marca da dessocialização, de não se encontrar a si com os outros, nos outros, é o suicídio. Confinar um adolescente é um sintoma da barbárie social em que vivemos. Muitos já vivam antes da pandemia confinados em casa com ecrãs, mas tinham pelo menos a escola onde havia um vislumbre, cada vez menor, de socialização (menor porque até nos intervalos ficam sozinhos com o telemóvel).

Os pais não conseguem trabalhar com crianças pequenas em casa, nem elas aprender a ler, e todos, em qualquer idade vão sofrer horrores se ficaram confinados. Mas os adolescentes, a rigor para o Governo a partir dos 12 anos de idade, podem ser largados dias e noites em frente a ecrãs para os pais irem trabalhar.Saliento que a doença mental chega por duas vias, e que infelizmente não posso explicar com detalhes pela complexidade. Chega pelo confinamento e ausência de relações sociais (o que é unanimemente aceite) e – o que é mais difícil de explicar – pela utilização das redes sociais.

Vou deixar a explicação simples sobre o grave que é deixar um adolescente exposto a redes sociais o dia todo (e um adulto, mas nos adolescentes estamos em fase de formação da identidade – para parte da psicanálise tão importante quanto os 3 primeiros anos de vida, como referi): as redes sociais são a mecanização das relações humanas, o nosso corpo e mente interpretam como uma alienação que conduz ao sofrimento, a pessoa está lá mas não a tocamos, cheiramos, isso deprime-nos, pode dar-nos vontade de lá estar mas ao mesmo tempo vai degradando o nosso bem estar porque sentimos, e bem, que estamos a ter uma relação falsa – entramos assim em grande sofrimento. Porque as usamos? Porque são compulsivas, é o segredo do seu vicio, o que significa que têm um efeito semelhante à cocaína, um tempo de compulsão, prazer imediato, que aumenta a dopamina, seguido, como na cocaína, de uma quebra depressiva. E, não permitem construir a subjectividade – isto é ainda mais complexo de explicar, a psicanalista Rita Kehl explica-o nos seus livros. Tem ainda outros efeitos graves – perda de visão, hiperactividade, falta de concentração, de memória, e sobretudo de criação – a criação é uma actividade que exige asbstração – se estivessem sozinhos a ler, desenhar ou tocar música não tinham sintomas depressivos por isso, pelo contrário, a sua construção subjectiva, porque a sua auto estima, aumentava. Ou seja, para o bem estar deles devem estar desconfiados e usar redes sociais ou outros ecrãs ao longo da vida menos de duas por dia.

Confinar pessoas saudáveis é inaceitável, mas confinar adolescentes e em tempos de acesso livre a redes sociais, onde estão o dia inteiro, é um crime. Para saber mais sobre isto consultem a revista cientifica Pediatrics norte-americana e coloquem as palavras chave exposição a ecrãs, depressão e adolescência. Também na Lancet com as mesmas palavras chegam a vários estudos onde se refere que nunca deviam estar expostos a mais de 2 horas dia de ecrã – hoje estão 10 a 14 horas, e metade delas por imposição do Ministérios da Educação.

Sindicalismo e Relações Laborais

Curso online organizado pelo grupo de investigação em História Global do Trabalho e dos Conflitos Sociais, em parceria com o Observatório para as Condições de Vida e Trabalho e A Casa Laboral.

Sindicalismo e Relações Laborais — Sessão #1

Sindicalismo e Relações Laborais

Este curso livre versa sobre a história do sindicalismo e das relações laborais em Portugal, do nascimento do movimento de trabalhadores à actualidade. Será centrado nas origens históricas do sindicalismo, nos momentos chave de mudanças no século XX, nos formas e métodos de organização e lutas sociais, nas relações sociais e conflitos do mundo do trabalho na actualidade.

Será online, a participação é livre a gratuita, mediante inscrição. Será coordenado por Raquel Varela (IHC — NOVA FCSH), com a participação de Paulo Marques Alves (ISCTE-IUL). É dirigidos a estudantes, investigadores, dirigentes sindicais, mas também ao público em geral.

Programa:

  1. O surgimento do sindicalismo. Modelos sindicais históricos e modos de análise do sindicalismo – Paulo Marques Alves (7 de Abril)
  2. Recursos de poder, crise e revitalização do sindicalismo – Paulo Marques Alves (21 de Abril)
  3. História do sindicalismo em Portugal (I) – Dos primórdios à Revolução de Abril – Raquel Varela (5 de Maio)
  4. História do sindicalismo em Portugal (II) – O sindicalismo após a Revolução de Abril – Raquel Varela (19 de Maio)
  5. O sistema de relações laborais em Portugal – Paulo Marques Alves e Raquel Varela (2 de Junho)

Inscrições gratuitas: cursosindicalismo21@gmail.com