Por uma Educação Livre de IA Generativa
16 e 17 de Outubro
Escola Secundária Camões
Organização: Observatório para as Condições de Vida e Trabalho
Apoio e parcerias: Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Uberlândia; Associação Maio em Movimento.
Inscrição gratuita, mediante email para: observatoriocondicoesdevida@gmail.com
16 de Outubro
18:30 Abertura Raquel Varela, FCSH/UNL, Presidente do OCVT; João Jaime, Presidente da Junta de Freguesia de Arroios.
19:00 A IA e a “Bolha” financeira, uma análise macro económica – Michael Roberts economista, UK
17 de Outubro 9:30-13:00
A IA Generativa e a Educação pública – Prof Dr. Roberto Leher, UFRJ.
Lev S. Vigotsky e a centralidade da aprendizagem coletiva teórica na educação – Prof Dr Roberto Puentes Valdés – Universidade Federal de Uberlândia.
Comentário crítico – Prof Dr. Roberto della Santa, cientista social, CEG/UA.
Almoço convívio 13:00-14:30
14:30-17.00
Saúde mental, IA e jovens, testemunho de uma professora – Benedita Salema, professora Escola Artística António Arroio.
Manifesto pela humanização do ensino superior- Prof Dr. André Carmo, geógrafo CICS.NOVA.Uévora / CEG-UAb.
Comentário crítico – Prof. Dr. Duarte Rolo, psicólogo, professor Escola João Deus, Dinamia ISCTE.
18:00 Lançamento Público do Manifesto “Podemos Educar depois de Gaza? Pela Humanização do Ensino.”
Com a presença de docentes de todos os graus de ensino.
Os atos políticos protagonizados pela comunidade educativa possuem uma imensa importância para tornar pensáveis as contradições entre as mudanças tecnológicas e organizacionais que transtornam as instituições educacionais, a docência e as interações com (e pelos) estudantes. As greves e manifestações dos professores e trabalhadores da educação nas últimas décadas, assim como a dos estudantes, em diversas partes do mundo são um importante movimento que neste congresso temos como referência escutar, explicar e compreender. Ao mesmo tempo, e na aparência contraditoriamente, não podemos deixar de nos questionar como foi possível não haver uma maior oposição a uma das maiores ofensivas dos últimos tempos contra o trabalho real de professores e alunos?
As escolas e as universidades estão a passar pela maior refuncionalização desde a conquista da massificação da educação, sobretudo no século XX. As múltiplas crises que atravessam o capitalismo mundial – competições interimperialistas que resultam em guerras, genocídio em Gaza, problemas socioambientais, destruição dos direitos e do sentido humanizador do trabalho – alcançam a educação de modo sistêmico, disruptivo e violento. A expansão da acumulação incide sobre aquilo que parecem ser os últimos resquícios da concepção de educação pública como dever do Estado e direito universal dos povos, gratuita, laica, científica e comprometida com a cidadania de inspiração republicana.
Desde o final do século XX, a agência (iniciativa) da ordem neoliberal logrou a substituição do conhecimento pelas competências e impôs sistemas de avaliação heterônomos para tentar controlar o trabalho docente. A emergência das tecnologias digitais e, sobretudo, da IA-Gen., após 2022, permite não apenas suprimir os últimos vestígios da formação integral, histórico-crítica, dos estudantes como instituir outra realidade educacional, na qual os professores e estudantes perdem sua autonomia intelectual por meio de sistemas e plataformas das Big Tech que estabelecem o que é dado a pensar e produzir nas escolas e universidades.
De fato, as corporações, por meio da IA-Gen., dos sistemas de ensino e das plataformas de trabalho alcançam o chão das escolas, como antes alcançaram o chão da fábrica, fagocitam a docência em favor de operadores, tutores, que realizam tarefas docentes, suprimem a possibilidade de autoria dos trabalhos, quer dizer, a imaginação inventiva, a disciplina e a concentração necessárias ao fazimento criador. Concretamente, usurpam o prazer da criação original, os valores dos estudantes nos trabalhos académicos e o ato de amor presente nos processos de ensino e aprendizagem.[DR1]
É necessário, por conseguinte, que juntos possamos compreender a escala dessa ofensiva das corporações. Apenas as ações das corporações na área da IA nas bolsas norte-americanas correspondem ao valor total de todas as bolsas europeias reunidas. Na perspectiva das corporações, tudo é negócio, dinheiro e poder.
Este congresso reúne investigadores internacionais que questionam o papel e o impacto das corporações mercantis no desenho educativo, quer no campo da subjetividade e sofrimento (“saúde mental”), quer no campo da produção de conhecimento. Para além de percebermos o papel das corporações, é preciso perceber o estado – social, político, psicológico – dos trabalhadores da educação.
Aprender é transformar. Os grandes modelos de linguagem não comportam aprendizagem, ao contrário, obstam o pensamento interior. A IA-Gen. “entrega” produtos que erodem a relação de confiança e de companheirismo entre docentes e estudantes. Em conjunto, tais processos estão modificando a internalização dos conceitos, categorias, imagens, em suma, dos signos nas estruturas de pensamento, nos microcircuitos neurais, na expressão da linguagem, nos mecanismos de atenção e na capacidade de uso crítico e autónomo da razão dos estudantes e professores. Esse é um objetivo inserido na economia e política assente no modelo de produção capitalista: cortar pela raiz o inconformismo, as imagens e ideias de futuro, a análise dos grandes problemas da humanidade, impedindo que a educação do século 21 possa realizar o desejo de Brecht, em A vida de Galileu (1938), de que o conhecimento científico possa ser socializado e compreendido pelo povo:
Predigo que a astronomia será comentada nos mercados, ainda em tempos de nossa vida. Mesmo os filhos das peixeiras quererão ir à escola. Pois os habitantes de nossas cidades, sequiosos de tudo que é novo, gostarão de uma astronomia nova, em que também a terra se mova. O que constava é que as estrelas estão presas a uma esfera de cristal para que não caiam. Agora juntamos coragem. e deixamos que flutuem livremente, desancoradas e elas estão em grande viagem, como as nossas caravelas, desancoradas e em grande viagem.
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O Congresso tem o compromisso de criar um ambiente de reflexão crítica sobre a educação básica, superior e profissional nas lutas dos povos. Por isso, o Congresso pretende discutir que a educação é uma questão da grande política. Temas presentes nas manifestações e greves como o encolhimento dos fundos públicos destinados à educação pública não podem ser dissociados do fato de que o fundo público está sendo transferido para as grandes corporações de tecnologia e de educação por meio de seus sistemas e plataformas de trabalho. A ausência de concursos públicos, a repressão salarial, a desvalorização do trabalho intelectual são inseparáveis da substituição tecnológica dos docentes efetivadas pelos complexos de I.A..
O Congresso pretende analisar e discutir uma proposição de que a irrupção das tecnologias digitais, notadamente o salto produzido pela IA-Gen. e seu complexo tecnológico e organizacional, abrange as Big Tech e uma panóplia de corporações educacionais, organizações ditas neofilantrópicas e conglomerados de Aparelhos Privados de Hegemonia do capital. Nesse prisma, articula temas do cotidiano da escola, em especial, relativos aos processos ensino e aprendizagem e às questões sobre a docência, com a tempestade provocada pelo capital, por meio de seus artefatos tecnológicos que, não casualmente, estão estruturados pela indústria militar e pelos sistemas de vigilância informados por algoritmos que possuem uma gramática racista, como é próprio dos processos imperialistas.
No Congresso dedicaremos especial atenção aos nexos entre as plataformas e sistemas de ensino estruturados pela IA e a gramática da guerra. Os sistemas de linguagem e os algoritmos utilizados na educação resultam da mesma engenharia que performa os perfis dos seres humanos conforme os interesses imperialistas que conformam a geopolítica, impondo, como é próprio do imperialismo, diferenciações raciais, geográficas, classistas etc. As mesmas corporações desenvolvem drones autônomos que podem ‘decidir’ quem será abatido sem mediação humana direta querem definir que educação customizada receberá as diversas frações das classes trabalhadoras.
Defendemos a modificação da avaliação desvinculando-a de métricas e descritores heterônomos. A avaliação, indissociável da metodologia e do conhecimento trabalhado, deve dar-se por meio da leitura profunda das obras de referência em sala de aula e de oficinas de redação sobre os temas axiais da disciplina e da conjuntura sem o recurso da IA-Gen.
Como nas consignas que ecoam em muitas lutas, o Congresso quer debater as alternativas. É imperioso politizar o tema das tecnologias que não são artefatos, mas relações sociais objetivadas. As mediações tecnológicas compõem o trabalho concreto, deliberado, planeado, dos docentes e estudantes que, por isso, podem desenvolver o uso crítico e autônomo da razão. A recusa da subordinação do trabalho docente ao aparato tecnológico estruturado por algoritmos incompatíveis com a função social da educação pública é um ato político. Afirma que os docentes são intelectuais organizadores da cultura, gozam de liberdade de cátedra e compõem, com os seus estudantes e os conselhos, uma comunidade específica, a comunidade escolar ou a comunidade universitária, ambas como base da organização académica das instituições educacionais.