A burguesia portuguesa é burra

Acabo de estar com uma amiga. Ligou-me porque voluntariamente viu um erro num trabalho em que colaboro e queria ajudar a equipa antes da impressão. Fomos juntas beber um café e ela entregou-me uma correcção com um detalhe de artesã. Conhecemos-nos há mais de 20 anos. Lutámos juntas contra as propinas. Ela tornou-se numa brilhante psicóloga do cérebro, doutorada e especializada, esteve em Londres em hospitais de topo. Voltou. Acaba de receber a noticia de que o seu contrato precário no sector público, num hospital de referência onde está há anos – com um contrato com uma IPSS, um esquema comum em Portugal – não vai ser renovado depois do Verão. O défice está de boa saúde, explica Centeno. Na mesma semana ela e o marido, que há 20 anos trabalham sem parar e têm dois filhos, receberam ordem de saída da casa arrendada porque a proprietária a quer vender por mais de 250 mil euros. Vivem a 20 km de Lisboa. Os filhos estão na escola bem, e na escola de música, em ensino integrado, porque ela chega a casa à noite e cuida deles com voz suave e atenção total. São duas crianças maravilhosas. O pai deles cozinha, joga à bola, dá banho nos putos, é meu amigo também, um super pai. Ela é forte, ele também, mas vivem um terramoto. A certeza dos lucros, das rendas fixas e dos défices baixos é o tsunami da flexibilidade da vida das pessoas, que nem sabem onde podem morar, como vão dar um vida aos filhos decente. Tenho vergonha de viver num país assim.
 
E tenho vergonha todos os dias porque ser figura pública deu-me um privilégio único – todos os dias as pessoas me abordam a contar as suas vidas, o medo, o assédio moral, a desmotivação, o desemprego, a imigração. Talvez não haja hoje um dia em que alguém, desconhecido, não me aborde na rua. E me conte a sua história, ora desesperada, ora triste.
 
Acabei de assinar com mais 500 colegas investigadores uma carta a exigir emprego à FCT, muitos deles estão desempregados, vitimas de contratos a 5 anos – são todos doutorados. Outros estão subempregados – ganham menos e fazem menos do que sabem e podiam.
 
Mas o país de Centeno é uma plataforma giratória de capitais, portagens e pagamentos de passagem (nos portos, aeroportos, ferrovias e juros e mais juros, fixos, certos, estáveis, como jamais são as vidas destas pessoas). E junto a isso turismo, especulação e baixos salários. Recentemente bebi um chá com a esposa de um dos heróis do 25 de Abril. Ela é mais nova do que ele. É bióloga, esteve em três laboratórios, fala desse tempo com brilho nos olhos, qualificada, saiu ao fim de anos e anos de bolsas, com mais de 50 anos foi trabalhar na gastronomia. E hoje vou poupar-vos ao inferno do que é a vida dos operários, que são ainda 18% da população em Portugal. A burguesia portuguesa é burra, ignorante, dependente, o seu projecto é ficar sentada à espera que o dinheiro caia do céu, dos direitos de «passagem» das mercadorias para a Europa. Nunca teve um projecto próprio, a não ser o da barbárie colonial. Vendeu depois da Troika dedos e anéis e braços, dobra as costas a capitais alemães, tem orgulho em não produzir nada e desempregar quadros; e rasteja quando os empresários chineses visitam esta Florida da Europa. Morremos de frio, não temos comboios, damos aeroportos e ainda dizemos «foi de graça», é tudo, é bom dizê-lo, patético. Morremos de tristeza num país assim, onde cada vez se trabalha mais, por menos, e pior. E com mais medo.
 
Centeno, caro, tenho vergonha. Todos os dias tenho vergonha. E agarro-me à certeza de que um dia estas pessoas todas, tristes, chorosas, tão sérias e capazes, perderão a paciência de ver educados ministros destruir-lhes a vida e explicar-lhes como estamos «no bom caminho»; ou – os mais sofisticados e liberais – dizer que «somos pobres» e a «culpa é da Europa». Quero ser abordada por pessoas a sorrir, alegres, como na revolução, sorriam sempre nesses dias, os únicos em que fomos gente – foi quando o medo, finalmente, mudou de lado. Cabe hoje às organizações dos trabalhadores portugueses deixarem de pensar no seu sector, deixarem de ser pequeninos, e terem uma proposta de país. Porque se não vier deles não virá do Estado esse projecto. O do Estado é claro e tem séculos – é o da dependência e destruição, a que chamam «bom caminho e inovação».
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O Helicóptero do Hospital da Luz, os Spin e a falta de informação pública séria

A sucessão de notícias sobre o colapso do SNS não é inócua, há um spin de alarmismo que visa ampliar o mercado do sector privado, que cresce como cogumelos em dias húmidos e terras férteis. Ontem mesmo noticiava-se que uma parte dos hospitais públicos não pode receber helicópteros de noite. Quantos hospitais privados podem receber helicópteros de noite? Ou de dia? Talvez nenhum, ou menos de 10% destes.

Ao contrário dos apoiantes da Geringonça eu acho que só a verdade nos deve mover – o PS ajudou a destruir o SNS com as políticas que defende. O SNS está muito mal, sobretudo porque está descapitalizado dos seus melhores profissionais, que não respeita – nem com salários decentes, nem com gestão democrática. Trata-os como meros executores de decisões de gestores, sem vinculo frequente com a realidade médica ou empenho no serviço publico. Por isso há burnout, doença, sofrimento ético. E sem o fim dos Hospitais SA, e sem exclusividade e bons salários, e sem gestão democrática, não vai haver SNS. Mas, ao contrário da direita eu conheço bem o SNS, e sobretudo defendo-o como parte essencial da vida civilizada – uma parte dos privados não têm nem vai ter helicópteros e o seu serviço será cada vez pior, porque a qualidade dos salários dos profissionais do privado só se vai manter enquanto houver público a regular – a seguir à destruição do SNS vão ser proletários do Grupo Luz.

Como parte das cirurgias da greve dos enfermeiros nem sequer podem ser realizadas pelo privado que as recusa, pela sua complexidade. Como médicos a aldrabar no privado – tal como foi alegadamente o caso do médico do INEM – os há, talvez. Mas a aldrabar na gestão do público-privado não há «talvez» – há certeza. Como provou o Tribunal de Contas em vários casos. E não conhecemos as contas reais do sector privado porque aí não há Tribunal de Contas – porque esses privados, embora vivam de transferências da ADSE- estão sob «segredo comercial». São um negócio.

O Spin virou uma forma de (des) informar os portugueses. Um agência de comunicação coloca a rodar (spin) uma meia mentira, ou meia verdade, roda insistentemente para que se torne numa verdade incontestável. Com redacções sem poder, e muitas vezes sem saber de qualidade e crítico, é fácil chegar a capa de jornal ou abertura de telejornal. O povo, com menos meios ainda, repete tudo também. Às tantas estamos todos em conjunto a opinar sobre uma realidade que não conhecemos. E hoje em dia toda a gente sem conhecer acha que pode dar uma opinião, do aluno semi analfabeto ao político eleito, «existo, logo opino». Mesmo que não saiba nada do assunto. Longe vão os tempos em que as pessoas, formadas ou não, tinham cautela e diziam «não sei o que se passa, há que ouvir mais».

A notícia que aguardamos da parte dos media é quantos doentes são recusados pelo privado todos os dias, qual é o tempo de espera aí, o erro médico aí, a taxa de doentes readmitidos pela mesmo doença, quantos seguros não cobriram as despesas todas e mandaram os doentes ser salvos pelo público (ou morreram entretanto, porque não puderem ser salvos pelo tempo em que andaram a lutar com seguros), quantos médicos e enfermeiros trabalham no privado porque todos nós, e eles, pagámos com dinheiro público sua formação. Aguardamos estas noticias em letras gordas, na capa, a abrir telejornais. Assim em vez de Spins de agências de comunicação teremos notícias informativas.

Rosa e a Revolução Alemã

Passaram ontem 100 anos do assassinato de Rosa Luxemburgo. Mulher contra o feminismo, Polaca contra a independência da Polónia, judia contra o identitarismo religioso, Rosa foi uma das mais humanas e libertárias lideranças da história do socialismo. Por isso, talvez nenhuma mulher tenha contribuído tanto para a libertação da mulher como ela – pelo lugar dirigente que ocupa na história da emancipação da humanidade, na emancipação de mulheres e homens. Rosa definia-se por um identidade – ser revolucionária. Os seus inimigos – e alguns muito próximos, da ala social democrata – reconheceram a sua grandeza…mandando-a assassinar, decapitando uma das cabeças da revolução alemã – em 1933 pagaram o preço mais alto, com a ascensão do nazismo.
 
A revolução soviética e as suas repercussões nas revoluções socialistas europeias (alemã, húngara e mais tarde espanhola), a grande depressão que se inicia em 1929; a contrarrevolução e a ascensão do fascismo; a revolução espanhola e a guerra civil; as políticas malogradas de frente popular na França (1936-1939) e o New Deal e a economia de guerra, já nas vésperas da II Guerra Mundial… A história acelera-se. A transformação, o binómio crise e revolução, parece surgir em cada esquina.
 
Na Alemanha um levantamento revolucionário espontâneo, quando se torna clara a derrota militar em 1918, depara-se com a ausência de um forte partido revolucionário, como o Bolchevique. E com um movimento socialista espartilhado e dividido depois da Guerra. Lenine e Trotsky acreditavam que a sorte da revolução russa dependia muito da revolução alemã, porque só aí havia potencial económico para evitar a pobreza, e não havia socialismo sem abundância. Orientaram toda a Internacional Comunista nesse sentido, considerando que era mais fácil tomar o poder na Rússia atrasada do que construir aí, pela escassez de meios, o socialismo. Mas que, sendo mais difícil tomar o poder na Alemanha, seria mais fácil conservá-lo aí, porque a abundância do desenvolvimento económico permitia uma melhor distribuição de riqueza, ao contrário da Rússia onde o atraso condenava o país, se isolado, à miséria.
 
Mas a Alemanha tinha uma social-democracia fortemente dependente do Estado, que tinha-se na sua maioria subordinado ao nacionalismo. E o nacionalismo era pujante[1]. Nem a derrota militar o destruiu. Embora abalasse. Chega-se em dois momentos – 1918/19 e 1923 – a formar-se sovietes e conselhos, proclama-se a República Soviética da Baviera (1919). Em Novembro de 1918 os marinheiros de Kiel, no mar Báltico, pegam em armas com uma acção revolucionária que se estende a várias unidades militares, sobretudo Marinha, mas também a fábricas[2].
 
Os socialistas não têm maioria na Assembleia Constituinte e o Governo usará da repressão sobre os sovietes, apelando ao nacionalismo, inter-classista, que defendia uma posição unificada da burguesia, da aristocracia em decadência, da hierarquia do exército e do movimento operário alemão para negociar no Tratado de Versalhes. O Tratado, continuação do armistício de Novembro de 1918, levou 6 meses a negociar e impunha uma derrota à Alemanha com perda de territórios e pagamento de altas indemnizações. Foi ratificado pela Liga das Nações (1919-1945), a precursora da Organização das Nações Unidas.
 
Os freikorps, grupos paramilitares proto-nazis, grupos de extermínio dos opositores, de desmobilizados de guerra, vão ser usados para assassinar Rosa Luxemburgo e Karl Liebnecht, líderes revolucionários da revolução alemã, numa atitude cúmplice do ministro da defesa social-democrata Noske com estas milícias. São também usados para arrasar a sovietização da Baviera[3].
 
A última carta de Rosa Luxemburgo antes de ser assassinada é a Clara Zedkin, a líder feminista social-democrata alemã, revolucionária, que muitos conhecem porque propôs a fundação da celebração do dia internacional da mulher, ainda hoje festejado a 8 de Março. Rosa era amiga íntima de Clara, e foi amante do filho dela. A sua última carta não é sobre esta relação inesperada, que Rosa registou no passado e que não colocou em causa a amizade entre as duas, mas sobre a revolução em Berlim. A carta demonstra o entusiasmo de Rosa com as movimentações populares e operárias e também a sua inquietação, de alguma forma a ambiguidade que caracteriza todo o seu percurso face ao centralismo democrático e à concepção de partido leninista.
 
Depois de confessar quase não dormir, mudar de casa constantemente, um «torvelinho»[4], Rosa traduz, sem esconder a força e o drama da espontaneidade das massas, a ausência de um Partido: «As graves crises políticas que vivenciamos aqui em Berlim a cada duas semanas, ou com frequência ainda maior, obstruem fortemente o andamento do trabalho sistemático da educação e organização, mas ao mesmo tempo são uma extraordinária escola para as massas. E, enfim, temos de aceitar a história como ela quer acontecer. (…) Neste momento continuam as batalhas em Berlim, muitos dos nossos bravos jovens caíram: Meyer, Ledebour e (como temíamos) Leo (Jogiches) foram presos.
 
Por hoje tenho de encerrar. Mil abraços. Sua R»[5].
 
A carta é de 11 de Janeiro. A 15 é assassinada, e decapitada. O seu corpo, separado pela cabeça, atirada ao rio. A revolução alemã tinha sido decapitada da sua maior dirigente, e o mundo perdia a mulher que deixou uma obra impar. Uma mulher que nunca foi feminista mas dirigente dos socialistas, como um todo; que, sendo judia, se recusou pertencer a um grupo de judeus que queriam formar um sector próprio no Partido; que nasceu na Polónia e não apoiou a independência da Polónia, em nome do internacionalismo. A sua obra, um sopro de humanismo e liberdade.
 
Raquel Varela, Este artigo é parte do livro Breve História da Europa (Bertrand, 2018)
 
[1] William Pelz, História do Povo da Europa Moderna, Lisboa, Objectiva, 2016, p. 222.
 
[2] Pierre Broué, The German Revolution, Chicago, Haymarket Books, 2006.
 
[3] William Pelz, História do Povo da Europa Moderna, Lisboa, Objectiva, 2016, p. 221.
 
[4] Isabel Loureiro (org), Rosa Luxemburgo, Cartas, Volume III, São Paulo, Editora Unesp, 2011, p. 359.
 
[5] Isabel Loureiro (org), Rosa Luxemburgo, Cartas, Volume III, São Paulo, Editora Unesp, 2011, p. 361.

Salários: O Conflito do Século?

Salários: O Conflito do Século?

Aqui fica parte da entrevista que dei sobre o mundo laboral em Portugal. Tenho sido muitas vezes crítica da superficialidade com que se trata a realidade laboral portuguesa, devedora da propaganda politica e não da realidade cientifica e critica. O estado real, péssimo, do mundo do trabalho de quem em Portugal está é ocultado em pirueta estatísticas, ou simples omissão. Esta reportagem merece, pelo contrário, todos os elogios. Aqui fica um retrato da sociedade portuguesa hoje, como ela é. A reportagem é da Eduarda Maio, na Antena 1 e foram ouvidos com tempo os investigadores que a conhecem, vários, mas também foram feitas as perguntas difíceis. Notável trabalho da EM para quem quer conhecer a situação económico social do país.

“Ponto de Partida” – Salários: O Conflito do Século?

https://www.rtp.pt/play/p2063/e383490/ponto-de-partida?fbclid=IwAR3dKexJglTCVd05VKNoJYzr4qzbDfmB2TKmr9cjcFuNiScfVGaAfI-n8wE

 

“Otelo amigo, o povo está contigo!”

Salazar está morto, Otelo vivo. Pim!

Um obscuro grupo convoca uma manifestação de apoio a Salazar e Manuel Luís Goucha não desiste, e chama um neo-fascista brasileiro para ganhar dinheiro a vender anúncios de televisão. Eu manifesto-me também – estou aqui a cantarolar “Otelo amigo, o povo está contigo!” e desisto de perdoar à TVI os erros – afinal não são erros. É estrutural. A ERC acha também que a liberdade é abstracta – não discute política, não toma posição.

O honesto ministro das finanças Salazar estava no poder quando começou, sob sua ordem, uma guerra colonial que sorveu em média, durante 13 anos, 33% do Orçamento, chegando aos 40% em alguns anos. Em Lisboa durante esses anos as crianças ainda morriam de cólera e infecções provocadas por mordidas de ratos, porque 90 mil só na grande Lisboa viviam em Barracas. Para a guerra Salazar e depois Caetano mandaram 90% da população masculina, enquanto ficaram no seu gabinete a assinar medidas “honestas de contenção da despesa pública”. Destes jovens, mais de 8 mil morreram. Feridos ou incapacitados ao longo de 13 anos, só do lado de Portugal, foram 100 mil. Mortos do lado das colónias calcula-se 100 mil (sem contar feridos). Com deficiências físicas do lado de Portugal 20 mil. Salazar era um facínora, historicamente falando. Otelo Saraiva de Carvalho – o comandante operacional do 25 de Abril – um herói, da história e das nossas vidas. Não gosto de história de grandes ou pequenos homens, nem Salazar estava sozinho, nem Otelo, nem ninguém, mas se tivermos que fazer aqueles exercícios de escolha, estilo «o homem mais importante do Portugal do século XX», Otelo venceria.

Distingo terrorismo (terror sobre civis) de luta armada (ataque a alvos dirigentes). Embora nunca tenha apoiado a luta armada, muito menos o terrorismo. Recordo que terrorismo em Portugal, matar civis e espalhar terror, foi sobretudo uma táctica da direita em 1975, no Verão Quente. Sim, a violência na revolução foi essencialmente de direita. Mas enfim, o que queria dizer é que a prisão de Otelo já nos anos 80 foi política. O obscuro e mediático processo das FP 25 teve uma única razão – fustigar o líder do 25 de Abril popular, e ao prendê-lo defender o 25 de Novembro e o seu filho que emergia, o TINA – Não Há Alternativa ao Neoliberalismo. Havia que afastar Otelo da luta política dos anos 80, ele era o único que podia, pelo apoio popular que tinha e o qual realmente apoiava, opor-se ao TINA. Otelo, no auge da crise dos anos 80, era o único potencial líder contra a destruição do movimento operário combativo com sede na Lisnave, era o único político que incorporava o espírito de Abril com base popular. A resistência da Lisnave foi ténue por parte do PCP, já muito inserido no aparelho de Estado, e mesmo não resistente este PCP quando depois de 86-87 aceitaram paulatinamente a concertação social. A UGT já tinha entregue então dedos e anéis. Politicamente era essencial ter um Otelo preso e não um Otelo que de novo eclipsasse, ou pelo menos ameaçasse seriamente, o PCP, como na eleição dos GDUPs. A região de Setúbal era única que podia resistir à reestruturação produtiva. Mas não chegavam operários fortes, por mais fortes que fossem eram apenas um movimento sindical. Era preciso liderança politica, politização desse movimento sindical em disputa de Estado, eleitoral mas não só. Não sei se ele – que conheço tão bem, e de quem sou muito amiga – tem agora noção desse papel que jogou, sem saber que queria jogar. Já lho disse, e ele ficou a pensar. Como está de óptima saúde temos muito tempo para pensar juntos, pois é um homem excepcionalmente afável e que pensa criticamente o seu papel, com uma abertura rara.

Independente desta complexa história, que sei que foge ao campo do entendimento geral, há algo que todos – especialistas ou não -, temos que compreender. Quem não percebe o que é o feito, a grandeza, de pôr fim à guerra colonial e à ditadura, que é a maior tragédia, e crime, que sobre este país se abateu, não percebe nada da história do seu país. Otelo merece uma estátua gigante. Porque, quer gostem quer não gostem ele incorporou como ninguém a “missão da liberdade”. Somos livres porque fizemos uma revolução, mas ele foi o homem que deu o pontapé de partida. Não podíamos ter emergido da noite sem a brilhante estratégia e coragem de Otelo, que naturalmente na minha óptica da história social incorpora toda a revolução – mesmo a parte que não gosta de nela ser incorporada. E, vejam que paradoxo, até os seus detractores. Até os pobres coitados que convocam uma manifestação de apoio a Salazar vão à rua agradecer a Otelo, porque até 24 de Abril nem manifestações se podiam convocar.

Porque é que o caminho do nazismo foi rápido e, de certa forma, fácil?

O meu artigo no Público sobre o fascismo. Destaco ideias históricas contra mitos generalizados: o nazismo está ligado à crise capitalista de 29 e não a um louco; o new deal de Roosevelt nos EUA nunca resultou a reverter o desemprego em massa; o nazismo não teve apoio maioritário entre os trabalhadores mas teve apoio maioritário entre os sectores financeiros e industriais alemães; não é um retorno feudal, obscuro, apoia-se no mais avançado que há da ciência e técnica; é a última solução do capitalismo e não o retorno feudal. Os nazis nunca foram maioria, nem na Alemanha, a esquerda sempre teve a maioria, mas a política de esquerda para barrá-lo foi um desastre.
 
Aqui vos deixo o artigo, publicado hoje.
 
 
Na viragem do século XIX para o XX o homem parecia capaz de controlar a natureza, devido ao inusitado impulso científico trazido com a revolução industrial. A crise de 1929, porém, abalou como nunca a crença não só no progresso, mas no próprio capitalismo. Marx renascia com a força da realidade das filas da fome em países que deitavam fora a produção para evitar quedas nos lucros: laranjas eram deitadas à rua nas estradas para evitar a queda do seu preço.
 
A Segunda Guerra Mundial é marcada por uma historiografia de senso comum, ideologicamente marcada pela disputa entre os EUA e a URSS, durante a Guerra Fria. A recente ascensão da extrema-direita convoca-nos mais uma vez a recordar que memória não é história.
 
No dia 24 de Outubro de 1929, as acções da bolsa de Nova Iorque colapsaram. Era o sintoma do início da maior crise do capitalismo até aí. As propostas keynesianas face à crise de 1929, como o New Deal, incidiram sobre a protecção social e numa economia capitalista planificada. Associada às obras públicas, por sua vez assentes num défice controlado.
Porém, ao contrário do que frequentemente (e erradamente) é referido, estas medidas não solucionaram a crise. Em 1937 ela, a queda da taxa média de lucro, tinha regressado. As taxas de desemprego de 1929 só foram revertidas quando os EUA entraram na II Guerra, em 1941. Foi a economia de guerra, ou seja, transformar desempregados em soldados, forças produtivas em fábricas de máquinas de destruição, que reverteu a crise de acumulação. Falharam as teorias keynesianas e monetaristas e passou-se do New Deal ao War Deal – em 1939 os EUA tinham amputado os gastos sociais usando o equivalente a 50% do seu valor em investimento de guerra. Só nesse ano!
 
Hoje é claro para a historiografia que o nazismo não avançou só pela força das técnicas militares, a Blitzkrieg, com falhas evidentes, mas pela desmoralização política dos adversários. Um dos mais potentes tanques de Hitler foi a derrota da revolução espanhola, das esperanças na frente popular francesa, a titubeante social-democracia alemã e a desastrosa política dita do “terceiro período” da Internacional Comunista (que recusava alianças, mesmo defensivas, com a social-democracia com o argumento de que esta seria “irmã gémea” do fascismo).
 
Hitler podia ser louco. Mas o nazismo não foi um acto de loucura. Foi um modelo coerente de destruição em massa. Que só conseguiu vencer pela inabilidade dos seus vários adversários. Nas palavras do historiador francês Pierre Broué, o nazismo foi uma “gigantesca derrota sem combate”.
 
A burguesia industrial alemã temia a revolução social. Temia que, depois das tentativas operárias de tomar o poder em 1919 e 1923, uma nova crise (1929) levasse o “proletariado ao poder” como na Rússia soviética. Os anos de estabilidade económica da República de Weimar foram dramaticamente deixados para trás na crise: milhões não conseguiam encontrar trabalho (cerca de 2/5). Generaliza-se a fome, o caos e a insegurança. Há queda dos preços na produção, que se combina com uma gigantesca inflação na distribuição, no consumo.
 
Muitos procuraram as raízes do nazismo nas profundezas culturais da “alma” alemã (e francesa). O facto é que nem todos os fascismos “deram certo”. Nem todos passaram de correntes culturais de vanguarda a partidos de massas que tomaram o poder de Estado.
Ao longo de todo o nazismo 300 mil alemães são presos, perseguidos ou mortos por se oporem a Hitler. Por outro lado, não é verdade que todo o povo alemão ou as suas camadas mais pobres aderiram ao projecto nazi. Segundo o historiador britânico Dick Geary, “o resultado global das eleições para os conselhos fabris, em 1931, viu apenas 710 representantes da Organização Nazi das Células Fabris (NSBO) eleitos contra 115.671 sindicalistas livres (de orientação SPD) e 10.956 cadeiras para os sindicatos cristãos, predominantemente católicos. Em Janeiro de 1933, o NSBO tinha cerca de 300 mil membros, em comparação com um milhão de sindicalistas cristãos e mais de quatro milhões de sindicalistas livres”.
 
Porque é que o caminho do nazismo foi rápido e, de certa forma, fácil?
 
Devido a três factores. O nazismo beneficiou do apoio militante do sector industrial e financeiro alemão; da ausência de apoio, por parte da URSS e da social-democracia, aos projectos revolucionários da década de 30 do século XX; e da inacção, quando não cumplicidade activa, da social-democracia e suas alianças a poderes semibonapartistas antes da ascensão de Hitler ao poder.
 
William Pelz, historiador norte-americano, lembra que em Julho de 1932 os nazis tiveram 37,3% dos votos, mas nas eleições de Novembro tinham perdido mais de 4% e 34 lugares do Parlamento. Que aí usaram o terror e a provocação – o incêndio do Reichstag, atribuído aos comunistas – para recuperar influência. E que nesse tempo a reacção dos partidos de esquerda foi nula. Pouco depois sobem a votação. Ainda assim, se todos os outros partidos se tivessem coligado contra Hitler, teriam impedido a sua vitória. Mas, sublinha Pelz, Hitler era apoiado financeiramente pela Krupp, a I.G. Farben, as grandes empresas que, com base no trabalho forçado dos campos de concentração, serão o alicerce da produção de guerra e da recuperação das taxas de lucro após a crise de 1929. O nazismo não é uma excrescência conservadora retrógrada, uma espécie de retorno feudal, assentou antes na mais desenvolvida técnica e ciência da economia de guerra.
 
O segundo factor é o desastroso papel da política da Internacional Comunista conhecida como do “terceiro período”, que rejeitou uma política de frente única contra o nazismo. Não distinguia entre um regime que rejeitava a revolução (social democrata) e outro que procurava aniquilar fisicamente os dirigentes operários (Estado fascista). O SPD foi definido até 1935 pela nomenclatura russa como um partido “social-fascista”. A Oposição de Esquerda a Estaline defendeu a frente única, uma organização comum de partidos de base social operária contra o nazismo. A URSS recusou. Mudou depois de política no seu VII Congresso, em 1935, mas para outra igualmente errónea, a “frente popular”, em que o operariado deveria ser paciente e abdicar das suas reivindicações em prol de uma aliança (muitas vezes apenas imaginária) com partidos burgueses democráticos. Esta política foi testada na França e na Espanha dos anos 30 e representou uma derrota terrível, que culminou com a vitória de Franco, a invasão nazi da França e a criação do regime fascista de Vichy.
 
Finalmente, não foram só os comunistas fiéis à URSS a ter uma política desastrosa. O SPD procurava uma (impossível, no quadro da crise) via intermédia entre o nazismo e bolchevismo, entre a contra-revolução nazi e a revolução bolchevique. Queria defender a República de Weimar, quando a democracia liberal sucumbia à sua própria crise, vendo grande parte dos liberais migrarem para o apoio ao nazismo para salvarem as suas propriedades e lucros contra a ameaça bolchevique. E o SPD viu-se assim a apoiar, a partir da oposição, a política deflacionista do governo bonapartista de Brüning e os governos por decretos-lei, governos que deixaram campo livre aos bandos fascistas fieis a Hitler, os freikorps. O SPD ainda apoiou Hindenburg em 1932 para a presidência da República, o mesmo que irá nomear Hitler chanceler.
 
O poeta Bertolt Brecht, socialista e resistente revolucionário ao nazismo, no seu exílio de 15 anos (um “embaixador da desgraça”, como se auto apelidou), chegou mesmo a escrever, reflectindo sobre a história e dirigindo-se ao futuro: “Vós que ireis emergir da onda em que nós nos afogamos (…), pensai em nós com indulgência.”
 
Morreram 80 milhões de pessoas na II Guerra, o maior genocídio da história da humanidade. Há um momento na história em que se pode barrar o fascismo. Depois, como lembrou Brecht, é tarde demais.
 
Historiadora, Universidade Nova de Lisboa; autora de “Breve História da Europa” (Bertrand)