Julgamentos ao minuto

A estes pais aconteceu – se eu li fora das gordas de jornais o mesmo que todo o país – uma sucessão de 4 azares na vida raros combinados que descambaram na maior tragédia da vida deles, a perda da filha. A filha fez um choque anafilático a uma vacina com 2 meses, é uma reacção gravíssima, mortal em muitos casos, e rara. Mesmo em meio hospitalar há casos desta reação em que os médicos nada podem fazer. Não quiseram arriscar depois do susto e não vacinaram a filha. Não eram anti vacinas porque aos 2 meses foram vacinar a filha. A filha apanhou mononucleose, que não é muito comum, e ficou mais doente do que o normal, raro também em mononucleose. E teve que ser internada. No mesmo lugar – logo no mesmo lugar, à mesma hora – onde foi internada passou um bebé de 13 meses que estava com sarampo e a contaminou, porque há um surto (não há uma epidemia) de uma doença que atinge mortalmente 1 em cada mil. Era a mãe do bebé de 13 meses anti vacinas ou foi dar a vacina 1 mês depois como milhares de pais fizeram porque não vão no dia exacto? Não sabemos. Sabemos que há pais de filhos saudáveis que mesmo assim não querem vacinar os filhos. Este surto, cujas origens reais ainda são porém desconhecidas, expandiu-se, ao que parece – mas ainda não se sabe bem – desde a Roménia. Ou seja, não sabemos se o surto se expande pelos anti vacinas ou pela degradação das condições de saúde em determinados países – reitero, não sabemos, nem a OMS. Ela não resistiu e morreu. O Ministério da Saúde sabe de tudo isto mas aproveitou o caso para fazer campanha contra os anti-vacinas, até agora silêncio total sobre a origem real do surto. As redes sociais essas sabem tudo e já fizeram o seu julgamento minuto. Vacinei os meus filhos, mas ainda não me vacinei contra os julgamentos em rede, que os media repercutem, ou vice-versa. Percebem que se a história é esta estes pais não são irresponsáveis, eles são as pessoas com mais azar no mundo e hoje vivem a tragédia mais profunda que exige de nós compaixão máxima?

Retratos

O retrato, originalmente na pintura, deveria retratar o “corpo e a alma”. A fotografia nasceu na 1ª metade do século XIX mas a identidade-civil surge, conta-se, pela primeira vez em França em 1888. A ideia de um cartão de identidade, ou de um passaporte, só vai ser massificada, e não a todos os países, depois da fuga massiva de trabalhadores de origem cigana, anarco-sindicalistas da zona da Roménia aquando do fecho das minas no final do 19. A isso vai juntar-se a conscrição para a guerra, perseguição aos socialistas e depois aos judeus – esta é a história pregressa da Interpol (presidida por 4 generais nazis das SS entre 38 e 45).
Em 1943 surgem as primeiras leis trabalhistas no Brasil, com elas passa a ser obrigatória uma carteira de trabalho. Até aí o retrato era um privilégio de classes mais abastadas. Assis Horta, de Minas Gerais, hoje ainda vivo, com 99 anos, propõe-se fotografar as pessoas da classe trabalhadora que não tinham dinheiro e dar-lhe o direito à imagem. Empresta-lhes roupa bonita, e ensina-lhes poses dignas – os pobres andam mais vezes de cabeça baixa e ombros caídos, se olharem à volta repararão que a marca de classe é tão dura que está no olhar, nos ombros, na postura, ainda hoje. A exposição belíssima, e dura, está no BNDS no centro do rio. O “duro” é o contraste entre os olhos anémicos, o raquitismo, a pobreza, sub nutrição evidente, e a dignidade que AH lhes quis dar, o que faz com que muitas vezes as roupas estejam largas demais para os fotografados.

Trump em Torremolinos

Vi ontem, pela primeira vez, uma entrevista dos jovens de Torremolinos, explicando “que só tinham partido o elevador, umas paredes pintadas e uns candeeiros destruídos”. Em directo na TV. Mais, vieram dizer que pagaram. Talvez com isto consigamos de uma penada só debater o desemprego estrutural e o assistencialismo familiar e Estatal, o lumpen-proletariado, Trump, a Cornucópia e a juventude, essa “condição humana”.

1 – Que o fizessem com um pedido de desculpas aos pais, fugir das câmaras, tinha algo de aceitável e de facto “quem nunca?!”. Temos o direito de errar e pedir desculpas, quando somos mais jovens temos o direito de errar mais, porque sabemos menos. Não é o caso. Eles vieram explicar ao país inteiro que isto não é uma democracia, é uma infantocracia – eles partem, eles acham bem, e o mundo inteiro não os compreende, nós todos estamos em dívida para com eles. É um grau de individualismo e parasitagem social do trabalho alheio que nos convoca a pensar se há ou não saída histórica para o país enquanto tal – estou a ser sincera, a pergunta que me interessa aqui é o lugar do país no sistema internacional de Estados – vamos ser uma semi-colónia com largas margens da população marginalizada, um país para exportação de capitais bancários dos países centrais, que para os pagar em juros tem uns governos que decompõe a sociedade aqui em salários miseráveis, desespero e lumpenização, e sugam os melhores quadros? Ou seja, entrámos em decadência económica, decomposição moral e os sectores desagregados da sociedade vão ser mais fortes do que os sectores organizados e civilizados do mundo dos que vivem do trabalho? Numa palavra: estes tipos, que partem os bens dos outros e mandam a contam para os pais pagarem e – isto é que é intolerável -, vêm à TV explicar que fizeram tudo bem, vão determinar os destinos do país? Se sim, façamos as malas. Vamos ser uma Florida da Europa, uma estância para reformados europeus, com muito sol e uns malandros que ora estão deprimidos com ataques de pânico quando descobrem aos 35 que não têm nada, trabalho, saber, futuro, dignidade, zero, nicles, nestum; ora estão do alto da sua ignorância a explicar à TV que são felizes assim.

2- Eles, e muitos com eles, vieram sublinhar que pagaram a conta com uma caução. Vejam, se eu emprestar a minha casa a um amigo e ele pintar as paredes e me deixar um cheque de 500 euros, que dá e sobra, eu vou cortar relações com ele. Porque a nossa amizade não cabe num cheque. A confiança não tem preço. Eu sei, e nisso só posso culpar o atrasado movimento associativo e sindical português, que para estes jovens tudo tem preço. Tudo se pode pagar. Ora, nem tudo o que tem valor moral tem preço. Destruir um elevador é destruir trabalho incorporado de dezenas de pessoas que hoje e ontem trabalharam, da física às minas que vão dar o aço, dos estivadores que o descarregaram aos poços de petróleo para o transportar. Os bens desgastam-se e devem ser repostos, mantidos, substituídos, não devem nunca ser destruídos porque isso é deitar trabalho alheio fora. Não é só o trabalho dos pais deles mas o de toda a sociedade. Roubar ou destruir é desistir. Não é resistir.

3 – Nunca vi a mesma coragem nesta geração a ocupar a GALP, a EDP, CTT, TAP, PT, ANA, CGD para que voltem a ser propriedade de todos nós, por exemplo, já que foram construídas, por inteiro – rede, infraestruturas, trabalho -, pelo dinheiro e trabalho dos nossos pais e avôs. Ou encostar à parede à porta da empresa, como tem acontecido em França, o director que pratica assédio moral e perseguição – o dia a dia das nossas empresas e Estado – ou seja, agressões físicas e mentais intoleráveis, próprias de um sistema de ditadura laboral baseado na ameaça e no terror. Isso, meus amigos, é que era coragem.

4 – A Comissão Europeia veio explicar porquê. Porque não têm coragem. E por isso chamou-lhes “desencorajados”. Cito. É exactamente este o nome. Os desencorajados. Em duas linhas conto-vos: os relatórios recentes da Comissão sobre o desemprego estrutural assumem que os baixos salários, falta de formação e apoios estatais assistenciais – esquecem-se de referir os familiares – fazem com que uma massa gigante da população não retorne ao mercado de trabalho. Mais vale vegetar em casa à espera da morte do que esperar a morte num trabalho onde se ganha para comer e transportes, nada mais. Era 38% da UE, antes de 2008; são hoje 49,7%. Isto é, metade dos desempregados não vai trabalhar. Nem de vez em quando. Mesmo ocultando os que vão e não declaram – uma minoria calculada – a CE está em pânico. No último relatório, de 2016, 2 º semestre, diz que assim, ai que desgraça!, vai subir o salário, o famoso “custo unitário do trabalho” (nome que escrevo com custo porque o trabalho não é um custo, é um valor; o lucro sim é um custo pesadíssimo para o conjunto da sociedade). Assume a Comissão, esse Governo não eleito de todos nós, a perversidade de que precisa de desempregados para concorrer no mercado de trabalho, mas lamenta-se que os desempregados estão desempregados, mas não concorrem no mercado de trabalho. Não saem de casa ou da asa dos pais, ou da assistência.

5 – O problema disto é a despolitização da pobreza. É que alguém que vai trabalhar 8 horas num cal-centre por 500 euros vai ser confrontado com sentimentos elevados que podem ser duros mas não lhes retiram a dignidade, pelo contrário, devolvem: revolta, noção de justiça, e se tudo correr bem, com a necessidade de organização e com a resistência colectiva. É um trabalho desgastante, brutal. Mas onde há a possibilidade, não a certeza, de haver resistência colectiva.

Quem está em casa vai no mínimo, sozinho, chorar à mãe que pague a conta, apelando ao mais irracional narcisismo paterno, com sorridos cândidos. A pouco e pouco vai ficar como está: indigno, sem amor próprio, deprimido. Desiste, certamente. Não há qualquer possibilidade de dignidade na dependência, no medo, na fragilidade.

6- Gostava de ter visto neste episódio mais do mesmo. Um “sempre fomos assim, jovens”. Lamento, mas não vi. O que vi foi a acelerada decomposição moral da sociedade portuguesa, em que se legítima que o trabalho não deve ser dividido por todos, mas há uns que podem, sem vergonha, viver do trabalho alheio, com 17 ou 40 anos. Não lutam, sequer por si próprios. E assim o mundo fica ainda mais assustador. Trump de um lado lança bombas, a ONU enviada enxadas para enterrar corpos, como hoje mostrava um cartoon. Sem alternativa, parece.

7- Finalmente, a Cornucópia fechou porque não há público sem meios de produção. A separação entre consumidor e produtor, esta ideia mirabolante que tudo se paga, é irreal. Vai ao teatro quem sabe fazer teatro, vai à música quem aprendeu música, etc. Os públicos passivos, não educados para aprender e ao mesmo tempo fazer arte, saber e fazer juntos, vão-se esgotando até que os espaços fecham portas. Os jovens não escolheram ir para Torremolinos beber das 11 da manhã às 5 da manhã. Não sabem fazer mais nada, portanto não têm escolha, não são livres, se lhes derem um instrumento de música, um bom concerto, um teatro, uma simples roda para conversarem, muitos não sabem o que fazer. Porque, com isto termino, nada é natural. Nós, enquanto humanos, somos o contrário do natural – a grande aventura da espécie humana é nos afastarmos, pelo trabalho que domina a natureza, pela cultura (cuja raiz histórica é o cultivo da terra, daí o mesmo radical, culto) é nos afastarmos do estado animal. É passar de dominados pelas condições externas, de sujeitos passivos a activos, fazedores de história, dominar saberes, saber fazer.

Ou quem ainda trabalha, está organizado, tem força anímica, tem coragem e agarra nisto ou vamos sucumbir. Cabe aos encorajados um papel determinante na sociedade, que arraste para cima os desencorajados. Ou todos, com mais ou menos dignidade individual, vamos sucumbir como no velho império romano, guiados por um pirómano em cima de uma bomba, a que chama mãe.

Sobre Ratos e Homens

Vi esta semana no Rio de Janeiro, Sobre Ratos e Homens. É imperdível. Para quem vai ao teatro com medo, como eu, do conceptual, simbólico, pós-moderno, vão com confiança. Escrita por Steinbeck em 1937 é um murro no estômago, sobre a transformação dos homens em ratos pelas condições laborais – trabalho incerto, sobrevivência em causa – na sequência da crise de 29. O livro chegou a ser amplamente proibido em muitas escolas por, segundo alguns, promover a “eutanásia da classe trabalhadora”, e foi estudado massivamente noutras por mostrar a degradação das condições de vida. Está no Centro Cultural do Banco do Brasil.

Pimenta nos outros…é

Quem acha que ensinar música erudita aos filhos é para betos e os filhos da classe trabalhadora e ex-média, pauperizada, vomitam em festas é a mesma gente que acha que chumbar a matemática é normal , haverá sempre uns especialistas, que estudaram muito, a governá-los; é a mesma gente que acha que a Índia, um campo de trabalho forçado a céu aberto, é um lugar para meditar e se encontrar consigo próprio; gente que acha que educação e chá são coisas da Quinta da Marinha, desrespeitar professores são momentos “normais da adolescência”; que em África uns batuques repetitivos é que é a verdadeira essência do ser humano, em Viena a ópera, claro, é um pedantismo; andar de calças rotas uma modernidade, bem vestido é…vaidade. Na verdade para estas pessoas, que só têm palavras doces a dizer sobre a classe trabalhadora, tudo o que de bom há e sério e rico (riqueza, ou seja, produção de valor pelo trabalho), é para ricos. Porque a classe trabalhadora, os que vivem do trabalho, quer-se pobrezinha, mal educada, ignorante mas – oh! meu Deus! – muito feliz e natural. São assim! Verdadeiros!
A palavra de ordem não é reconhecer que as classes trabalhadoras estão animalizadas, obesas, rudes, anti-sociais, alienadas pelas péssimas condições laborais, sem reacção política e associativa, é “tolerá-las”, feias como são. Transformar, jamais. Ser tolerante com a degradação, sempre. Eu acho que os trabalhadores pobres, muito pobres, devem desde crianças aprender a tocar um instrumento, ir e fazer teatro, saber matemática e nas férias ter dinheiro para viajar a lugares decentes. Que uma criança se deve levantar quando o professor entra na sala. É por essa sociedade que luto. A condição da classe trabalhadora hoje, que recordo são 80% dos portugueses, é de uma crescente degradação, alimentar, cultural, laboral, social – que dizer do facto de que os seus filhos estão em média 6 horas na Internet por dia, 57% está obesa e 60% chumbam a matemática? É isto que urge mudar e não vão ser os governantes eruditos, que sabem muita matemática, que vão fazer pelos trabalhadores o que só eles podem fazer por si próprios – libertar-se das terríveis condições de trabalho que condicionam toda a sua vida e dos seus filhos. Para começar a mudar é preciso compreendermos que estamos muito mal em vez de idealizar a pobreza crescente. Pobreza de espírito, também. Se pensam que os anos andam para a frente e as sociedades andam para a frente também não percebem nada de história da humanidade. Estamos, há muito, a andar para trás. E os nossos filhos estão a fazer o mesmo caminho, rumo ao retrocesso.

Uns destroem hotéis, outros países

Tinha 17 anos fui a uma viagem de finalistas, destas que hoje enchem os jornais. É o escândalo da semana, com razão, acho. A experiência marcou-me para toda a vida, porque foi o cenário mais dantesco que vivi até hoje. Fui ter com a minha mãe e pedi-lhe para me deixar ir, o valor era irrisório. Não me recordo mas algo como o que seriam hoje 200 euros incluía autocarro, barco e hotel alguns dias, com pensão completa. A minha mãe, que carinhosamente me trata por “marquesa” sabendo que eu resisto com bastante dificuldade a barulho, frio, sono, comida de má qualidade, sujidade, na verdade tais coisas derrotam-me, esteve quase 2 meses a dizer que eu “ia arrepender-me”. Eu não a escutei e fui. Foram 17 horas de autocarro, o que quase me matou, seguidas de 9 de barco, creio, em que todos vomitavam, fumavam charros, riam e bebiam. O cheiro era nauseabundo. Chegámos a Palma de Maiorca. Até aí a coisa era mais ou menos normal para a idade, eu estava sobretudo desconfortável e já meio arrependida, mas o que estava para vir ninguém podia imaginar…Chegámos a um hotel à beira da água e cerca de 20 homens de várias empresas empurravam-se a oferecer bar aberto a noite toda por algo como 2000 escudos, com bebidas brancas rascas à descrição e música tecno – tecno para mim é o mesmo que satanás para um evangélico. Eu queria me integrar às massas e lá ia, bebia, dançava, com esforço. Quando retornei ao quarto a minha cama estava ocupada por 5, 10, 20, não sei, metade dos quais vomitavam nela. Não havia nada em redor a não ser hotéis, praia, discoteca na cave, a comida um horror. À praia chegavam poucos, ao pôr do sol. E ainda vomitavam. Não me recordo de ter conversado com ninguém, mas gritava-se, grunhia-se, gargalhava-se, havia uivos. E vomitava-se. No dia seguinte, desconsolada, apanhei um autocarro e fui a Palma, vila central, e perguntei a um local onde havia um museu para eu ver, uma feira, qualquer coisa tradicional da terra. A pessoa a quem fiz a pergunta olhou para mim como se eu viesse de Marte. Não havia, disse-me. Liguei para casa, numa cabine – não havia telemóveis – e chorei, chorei, chorei, e implorei à minha mãe que me deixasse voltar de avião, ela disse que eu tinha que aprender, ela tinha avisado e tal, disse-lhe que abdicava de mesada até ao juízo final, ela disse “jamais, agora ficas para ver a porcaria que é e reflectires nas tuas decisões”, algo assim. Educação, a quanto obrigas. Ela estava certa. Mas eu sofria. Chorava. Quando retornámos, comigo já semi-derrotada, apática, na esperança de ver apenas a ponte 25 de Abril, a sonhar com a minha cama, o meu edredon lavado, cheiro a ar puro, Antena 2 na cozinha da minha mãe, parámos a meio em Benidorm onde nos ofereceram, “atenção amigos, preço único”, algo como 1500 escudos na altura, exclusivo, para nós e mais 50 mil, mais um bar aberto com destilados e…sexo ao vivo. Ia vomitando eu. Disse “entrego-me, daqui só saio numa ambulância, com acompanhamento psicológico”…
Eu tinha dois anos antes feito uma viagem de um mês para Oxford – a mais inesquecível e maravilhosa de toda a minha juventude – que incluía aulas de cultura geral em inglês, teatro, canoa, críquete, música clássica, exposições, idas a Londres e a Warwick, música pop, discotecas, álcool e dança, e namorar, claro. Conversei, horas sem fim. Fiz amigos, de muitos lados do mundo nessa viagem, alguns para a vida. Visitei-os na casa deles, na Jugoslávia, na Itália. Ainda hoje trocamos cartas. Tinha custado literalmente 20 vezes mais, essa viagem a Inglaterra, com 16 anos. A vida como ela é, ou como as classes trabalhadores estão votadas à estupidificação, também.
Acho que a juventude deve quebrar as amarradas da dependência e ser irreverente – apaixonar-se em Paris em 1968 no meio de uma manifestação contra a guerra do Vietname, vá lá, romantismo é preciso, fugindo à ditadura de Salazar e trabalhando à noite para comprar livros e viajar, passar horas a conversar no café, descobrir quem somos nos outros, apanhar uns pifos, tudo isto me parece delicioso. Ser carne para canhão do conluio entre empresas de viagens, de bebidas e associações de estudantes não tem nada de irreverente, até porque a conta são os pais que a pagam – chama-se dependência e não autonomia. Fui para a Alemanha trabalhar e servir às mesas com 18 anos, por um ano. E fui com esse dinheiro que lá ganhei fazer a viagem do Che Guevara na América Latina, só até à fronteira com a Bolívia é certo. Apanhei pifos a dançar até ao nascer do sol, vários, na minha juventude. Viajei muito na vida. Namorei muito. Acho que amar é das melhores coisas que temos e fazemos. Um vinho, gargalhar, dançar, amar. O que vi neste sul de Espanha e nas Ilhas em 1997 não foi nada disto, não foi a irreverência da juventude mas o que de mais rasca se pode oferecer em termos de convívio humano.
Finalmente não acho que a educação cabe só aos paizinhos, que são, também acho, muito mal educados – é ver a quantidade de crianças que nem bom dia diz ao vizinho perante a passividade dos pais. Mas a educação cabe a todos nós e se olharmos para o que são hoje pais, escolas, trabalho, televisão, política, cultura de massas podemos concluir que eles não são mais do que o espelho da sociedade mercantilizada. O horário nobre das televisões, com excepções raras, é preenchido por uma cultura de desrespeito pelo trabalho, despeito pelo que é público, cultura que remete o prazer para o que acontece em segundos, sem esforço, mesmo o mérito burguês e aristocrático foi enterrado e trocado pelo elogio do chico-esperto, uma colecção de governantes envolvidos em escândalos de corrupção, e que nunca tiveram um trabalho normal na vida e não sabem o que é esforço ou respeito pelos bens colectivos. Uns destroem hotéis, outros países. Enfim, concluindo, os jovens estão animalizados, e sobretudo confundem relações de compra e venda de coisas com relações de amizade, amor, afecto, relacionam-se como coisas entre si, mas…não é isso a sociedade toda?

Revolução ou Transição? História e memória da revolução dos cravos

Revolução ou Transição?
História e memória da revolução dos cravos
de Raquel Varela (ed)

«Este livro é polémico porque ancora em si visões diferentes e teoricamente distintas, mas tem uma espinha dorsal comum: ele foi escrito por um grupo de cientistas sociais, historiadores, que olham a história como um processo, feito de sujeitos sociais, classes e suas frações, e que tem como núcleo explicativo do processo histórico o conflito social»