Greve contra a Economia de Guerra

Declarações perfeitas e ação consequente:

Greve geral, contra a economia de guerra, e envio de armas para a Ucrânia. Itália, sexta-feira, 20 de maio, proclamada pelos sindicatos de base. Sob a palavra de ordem que evoca o magnífico livro de Primo Levi onde conta a história da resistência ao nazismo feita por um grupo de judeus de diversas etnias, simbolizando o internacionalismo.

“Se não agora, quando” e contra “uma política e economia de guerra” que “corta salários e direitos”. A greve foi convocada “pelo cessar-fogo imediato na Ucrânia, a desmilitarização com a retirada imediata de todos os exércitos; pelo congelamento imediato dos preços de todos os bens e serviços primários; pelo desbloqueio de contratos e aumentos salariais e pela reintrodução da escada móvel de salários ; pela aprovação de um novo plano estrutural de habitação pública que também prevê a reutilização de bens públicos em desuso; contra políticas de privatização; contra gastos militares diretos, indiretos e induzidos e a alocação de recursos a escolas, saúde pública, transportes e salário garantido para desempregados e subempregados; para a redução do tempo de trabalho para o mesmo salário”.

Entre os promotores do protesto, em vários níveis, Cub, Sgb, Usi Cit, Cobas, Unicobas, ADL, Usi, Si Cobas e Slai Cobas. “A guerra deve ser interrompida – sublinha o secretário nacional do Cub, Walter Montagnoli -. É uma vergonha com o seu fardo de mortos e feridos, devastação, refugiados, desespero, crise alimentar e outras catástrofes. Ao mesmo tempo, abre as portas para uma forte crise económica que será apoiada por trabalhadores, pensionistas, estudantes, jovens, desempregados, doentes”. “Devido ao aumento dos preços dos produtos energéticos e de muitas matérias-primas, a produção industrial está desacelerando, acelerando as contrações já registradas no início do ano – continua Montagnoli -. Com uma forte redução no poder de compra. O governo Draghi aumenta os gastos militares em até 2% do PIB: os gastos com defesa aumentarão de 25 bilhões de euros para 38 bilhões de euros, cortando saúde, escolas, transporte público, habitação social e, claro, pensões e salários.”

O site de Cobas detalha: “Condenamos a invasão da Ucrânia desencadeada por Putin e nos mobilizamos para o ‘cessar-fogo’ imediato, a retirada das tropas russas e a abertura de negociações para uma paz justa e duradoura. Também condenamos as referências contínuas de Putin à possibilidade de usar o arsenal atómico, com o risco óbvio de uma catástrofe planetária. Expressamos a nossa solidariedade com o povo ucraniano atacado e apoiamos a parte do povo russo que, apesar de milhares de prisões, se opõe à invasão da Ucrânia. Somos contra a OTAN, cujas políticas expansionistas na Europa, após a dissolução da URSS, forneceram o pretexto para os objetivos neoimperiais de Putin invadir a Ucrânia. Somos contra o rearmamento generalizado, exigimos o desarmamento nuclear e de guerra globalmente, desde arsenais russos e chineses até arsenais dos EUA e da OTAN e outros países com armas nucleares.” Quanto às consequências, “contra a economia de guerra – imposta pelo governo Draghi por meio (…) privatizações e demissões – tributando os lucros extras de energia, recuperando a evasão fiscal, reduzindo os gastos militares”

Tradução de Roberto Della Santa do La Repubblica

Às Armas, para quem? E para quê?

Ouvi com atenção o apelo às armas, na celebração do dia que o país depôs as armas, 25 de Abril, de Marcelo Rebelo de Sousa, pedindo um aumento do orçamento militar, no quadro da NATO, para 2%, sustentando que a falta de dinheiro noutras áreas não nos deve impedir de investir em defesa. Isto numa situação em que as pessoas são obrigadas a pagar milhares de euros no sector privado para terem acesso a consultas/cirurgias essenciais e para as quais aguardam meses ou anos no SNS, para o qual pagam dos impostos mais altos da Europa. Na educação a baixa qualidade, filha das más condições de trabalho e formação, impôs as explicações privadas como norma, ainda que as taxas e taxinhas se multipliquem e os salários desvaneçam, agora engolidos pela inflação, junto à carga fiscal. O acesso aos serviços públicos tornou-se um calvário – somos pagadores do Estado, e temos cada vez menos Estado Social. Porque iríamos sustentar um Estado Militar? Para nosso bem?

Putin invadiu a Ucrânia afirmando que era uma “operação especial” – decretou que no seu país a palavra guerra é proibida. Pode-se decretar a proibição de publicamente dizer a verdade, não se poder “cortar a palavra ao pensamento”. A invasão da Ucrânia é uma invasão, não é uma operação – é feita num quadro de uma disputa geopolítica em que estão em causa blocos imperialistas: EUA, UE, China e Rússia. O que não a legitima, mas tão pouco legitima os Estados sob os quais vivemos. O orçamento que Marcelo pediu para a “defesa” é o aumento de impostos ou a degradação do SNS e da educação para a guerra. Não nos defende, defende a disputa de grandes corporações com sede em Estados da UE por matérias-primas e força de trabalho. A NATO e os EUA, e a UE fazem guerras, de disputa de recursos e matérias-primas, não fazem “defesas”. Porém é assumido que são “operações” ou mesmo, pasme-se, “intervenções humanitárias”. “Guerra é Paz; Liberdade é Escravidão; Ignorância é Força” escreveu Orwell em 1984 chamando a atenção para a força das palavras a moldar o pensamento. Qualquer Estado pode impedir-nos, sob ameaça de prisão e vida, de dizer a verdade. Nada nos pode impedir de pensar a verdade.

https://regiaodecister.pt/opiniao/armas-para-quem-e-para-que

Estudo dos Enfermeiros

Reportagem da SIC em vídeo no link sobre o nosso estudo dos enfermeiros, tb saiu ontem na Antena 1. E no Expresso deste fim de semana e Lusa.

“Um estudo apresentado, esta sexta-feira, no Congresso dos Enfermeiros, concluiu que a maioria dos profissionais de saúde diz estar exausta e que a classe está em sofrimento ético.

A maioria dos quase oito mil enfermeiros inquiridos assume que já prestou cuidados menos adequados por falta de material e de profissionais nas unidades de saúde.

O estudo da Universidade Nova, do Instituto Superior Técnico e do Observatório para as Condições de Vida e Trabalho revela também que 25% dos inquiridos têm um segundo emprego dentro da profissão e que a maioria ganha um salário bruto de até 1.500 euros.

A Ordem dos Enfermeiros pede ao Governo o pagamento do internato da especialidade e revela que abriu vários inquéritos relacionados com queixas contra administradores hospitalares.

O Congresso dos Enfermeiros realiza-se até sábado em Braga, onde cerca de 1.500 profissionais debatem e refletem sobre salários, valorização da carreira, reposição de pontos e idade da reforma.”

O Maio de 68, a revolução de novo «o impossível torna-se inevitável»

Em Maio e Junho de 1968 teve lugar em França a maior greve de sempre na história do país. Ela paralisou a França, levando ao desabastecimento, «as necessidades humanas, normalmente tidas por garantidas, agora apareciam visivelmente como um produto do trabalho humano» . Mas o seu alcance extravasou em muito Paris – da Cidade Luz ao México a Buenos Aires, de Pequim a Berlim, de Parga a Turim, todo o mundo viveu o “Maio de 68”. As classes altas e dirigentes com ansiedade. Os estudantes, as classes trabalhadoras e os intelectuais, na sua maioria, com um entusiasmo revigorante: «Nós lutaremos, nós vencermos, em Paris, Roma, Londres e Berlim» .

Se as duas maiores revoluções da Europa do pós guerra – Portugal em 1974 e a Polónia em 1980-81 – foram realizadas em países com ditaduras, sem tradição quer de democracia quer de partidos reformistas, o Maio de 68 veio, pelo contrário, mostrar que era possível contestar a acumulação capitalista e a propriedade privada, ocupando as fábricas, exercendo controlo operário sobre a produção, num país capitalista, avançado, com um regime de democracia burguesa. Para a esquerda revolucionária mundial foi, recorda Birchal, a prova de que era realista pensar em revoluções no ocidente. Para as classes dirigentes da Europa foi assustador.

Charles De Gaulle chegou a ficar sem reacção durante vários dias. Pouca ajuda podia ter então dos seus países irmãos – nas fábricas de Turim, nas ruas de Berlim, nas cidades dos EUA, a «imaginação» de milhões de operários silenciosos desde a guerra «tinha chegado ao poder». Nos primeiros dias pela voz dos seus filhos, os estudantes universitários do baby boom do pós guerra; nos dias seguintes pela força da maior greve operária da história da França.

O detonador foi o protesto estudantil cujo ápice é a noite das barricadas, quando os estudante se barricam nas ruas do Quartier Latin, na zona da Universidade Sorbonne, atirando pedras à polícia, que reprime brutalmente a manifestação, espoletando a reacção do movimento operário em solidariedade. Calcula-se que 9 milhões de trabalhadores se envolveram na greve, que teve o epicentro na indústria automóvel mas atingiu todos os sectores, dos cientistas do Observatório Meudon ao cabaré mítico Folies Bergères.

O baby boom do pós guerra e o impulso científico e tecnológico, a pari passu com as conquistas sociais do Estado Social, tinham aberto as universidades às classes trabalhadoras, o número de estudantes no ensino superior tinha passado de 175 mil para mais de meio milhão em dez anos (entre 1958 e 1968).

As greves de 1968 não podem ser compreendidas fora do contexto da crise cíclica de 1967 e do período de iniciativa mundial dos trabalhadores, com o centro nevrálgico nas fábricas norte-americanas de automóveis e no Maio de 1968 em França, de resistência à intensificação do trabalho , segundo o sociólogo Peter Birke. Esta tese é confirmada nos estudos de Pietro Basso sobre a evolução do trabalho no século XX e XXI .

No verão de 1967 o Governo tinha imposto o corte nos reembolsos das despesas médicas e reduzido a participação dos trabalhadores nas decisões do sistema de Segurança Social. A medida gerou irritação nos trabalhadores. Em Junho de 1967 a Peugeot tinha chamado a polícia antimotim para um conflito na fábrica e esta acabou por matar dois operários, facto que provocou indignação pública.

No dia 3 de Maio o governo encerra a Sorbonne. Os protestos tinham subido de tom, exigindo, entre outras reivindicação, a livre circulação no campus entre o sector feminino e masculino do campus. Começam confrontos entre a polícia e os estudantes que no dia 10 de Maio erguem -, pensa-se – cerca de 60 barricadas, onde participam vários milhares de estudantes. Paris tinha uma longa tradição de barricadas que o Barão Haussman, entre 1852 e 1870, tentou pôr fim arrasando com bairros inteiros, construindo avenidas largas, por onde pudessem circular as forças anti-motim, naturalmente também respondendo à crescente industrialização do país e da cidade. O Quartier Latin era porém de pequenas e esconsas ruas.

A reacção de repulsa geral à brutalidade da polícia sobre as barricadas estudantis obrigou os sindicatos a chamarem a greve geral para dia 13 de Maio de 1968. No dia da greve uma manifestação vê desfilar electricistas, trabalhadores do sector químico, funcionários públicos, metalúrgicos, pintores, ferroviários, professores, empregadas de mesa, trabalhadores dos bancos e seguros, decoradores, a «carne e o sangue da sociedade capitalista moderna». No dia a seguir, na fábrica Sud Aviation, em Nantes, os trabalhadores decidem entrar em greve por tempo indeterminado.

Estava dado o mote. Seguiram-se duas semanas de greves em todo o país que envolveram 9 a 10 milhões de trabalhadores com ocupação generalizada de fábricas. Segundo Michel Seidaman a unidade entre estudantes e trabalhadores foi “transitória”, de poucos dias e em alguns sectores , mas o movimento de facto prossegue nas fábricas com uma força inaudita.

O movimento sindical tinha pouca força nas fábricas e empresas. A França tinha então uma baixa taxa de sindicalização, sobretudo depois do desânimo que tinha resultado das negociações dos sindicatos em concertação social, depois das greves de 1947. Havia em 1968, 3 milhões de trabalhadores sindicalizados, e em 1947 eram mais de 7 milhões. Mas, durante a greve geral de Maio os trabalhadores, espontaneamente – com influência de pequenos grupos trotskistas, maoistas e anarquistas -, criaram comités de acção, a partir de comités de greve. A 19 de Maio em Paris numa Assembleia conjunta estavam representados 149 comités. No fim do mês eram já 450.

Em muitos destes comités cria-se uma forma de controlo real da produção, foi decidido por exemplo, face ao desabastecimento, que serviços mínimos essenciais seriam prestados à sociedade, ficando notório o papel dos trabalhadores na produção e reprodução da sociedade – em muitos lugares os trabalhadores tomam decisões sobre toda a cadeia produtiva de um sector em greve. Mas só uma cidade entrará totalmente em situação de dualidades de poderes, Nantes.

Jena Paul Sarte e Margarite Duras solidarizaram-se com estudante da Sorbonne, e a orquestra do festival de cinema de Cannes entrou em greve. André Malraux, Ministro da Cultura e ex combatente da guerra civil espanhola, escrito do livro A Esperança , sobre a revolução em Barcelona, fica, para surpresa de muitos, do outro lado da barricada, apoiando o Governo. O Teatro Odéon, um dos 6 teatros nacionais na França, símbolo da burguesia vitoriosa e da criação de uma «alma» nacional laica republicana, foi ocupado sob o slogan «Quando a Assembleia Nacional se torna um teatro, todos os teatros burgueses devem tornar-se assembleias nacionais».

Raquel Varela, Breve História da Europa, Bertrand, 2018.

A Barbárie e os neonazi

Para quem andou distraído sobre Mariupol. Via RTP.

Ou seja, até ontem – e parece que Guterres teve um papel eficaz a reverter isto – a Ucrânia impunha que só saíam os civis se saíssem os militares neonazis, o famoso batalhão Azov, portanto algo nunca visto na história, um corredor humanitário para tropas – essa era a exigência ucraniana. Ora, como se sabe, tropas rendem-se ou há troca de prisioneiros. Não há “corredores humanitários”.

Ou seja, a ser verdade o que é relatado (que não havia solução para os civis porque a Ucrânia queria salvar o batalhão Azov), os civis são usados pelos neonazis como escudos humanos. Não me venham com a conversa cínica que o Hamas o faz. Se o faz é abjecto. Venha de onde vier, civis nunca podem ser usados como moeda de troca para nada. Não me recordo de ler nada parecido sobre Trotsky, chefe militar da guerra civil russa, ou Amílcar Cabral, líder do PAIGC terem usados civis como escudos militares. O que se passa é que na ânsia de derrotar um ditador, Putin, se achou por bem dar a mão e ajudar a lavar a cara de nazis. É uma espécie de bastardos inglórios, ao vivo. Sob a capa de “há um agredido e um agressor” – como se a complexidade de uma guerra fosse um jogo de playstation -, dá-se a mão à barbárie. Não há só um agressor. Há vários. Putin é um dele. Mas há mais. O Batalhão Azov faz parte dos agressores ao povo ucraniano. Se em Portugal a luta contra um invasor estivesse nas mãos paramilitares do Chega, estariam os portugueses seguros?

Ficam-me ainda muitas questões: como foram parar estes civis dentro de uma fábrica blindada e cercada? Porque foram? O argumento é que a Rússia não os deixava sair mas saíram já dezenas de milhar, uns para a Ucrânia outros para a Rússia. O que aconteceu ali em Mariupol realmente? Se a Rússia ganhar esta guerra legitima-se a força de uma invasão, se a Ucrânia ganhar esta guerra com estas forças militares a extrema-direita na Europa nunca teve tanta força. A Ucrânia repete o velho cruzamento da I Guerra Mundial, ou uma revolução/insurreição dos povos (russos e ucranianos) põe fim conjunto a isto ou o que teremos, de um lado ou de outro, é uma galeria de horrores.

“A Ucrânia insiste em retirar, além dos civis, os militares do antigo batalhão de Azov, e tem-se tornado um pomo de discórdia nas negociações a oposição russa a que saiam os militares identificáveis com cruzes suásticas, por exemplo.”

https://www.rtp.pt/noticias/mundo/ucrania-insiste-em-obter-libertacao-de-militares-do-batalhao-azov_v1401853?fbclid=IwAR2szaHatDmKSZVdaRYakEyJ9vwMjit97aTVY3HOvFOX9tiIj-gC0yZLwqk

O Nazismo e a Ucrânia

Uma nota rápida inicial: sobre a cruz de ferro ser ou não um símbolo nazi, que alguns jornalistas, em vários media, concluíram que não é. Em história trabalhamos com factos, indispensáveis, mas não trabalhamos só com factos, trabalhamos com contextos, estruturas, dinâmicas, processos, teorias, a história é um filme, não é uma fotografia; e em jornalismo também não deveria ser assim. Caso contrário bastaria alguém – até um computador hoje – coleccionar factos, colocá-los numa linha do tempo, e podíamos dispensar o trabalho dos historiadores. Toda a automação e pressão algorítmica vai aliás nesse sentido para o jornalismo…Muitos jornalistas, infelizmente, acreditam que a sua profissão está resumida a elencar factos.

Aquilo que é a Ucrânia é um país nascido no século XX do colapso dos impérios na I Guerra, passou por várias disputas entre elas movimentos anarquistas contra os exércitos anti bolcheviques brancos, que depois se rebelaram contra os bolcheviques também; mais tarde a Ucrânia – essencial às tropas nazis pela sua capacidade produtiva de trigo e milho, a base de qualquer alimentação – , foi o palco de recrutamento de aliados pró-nazis (descritos magistralmente em As Benevolentes), porque Estaline tinha feito aí a brutal colectivização forçada. Hitler foi recebido bem na Ucrânia, por isso. Até começar a pilhar os camponeses locais e estes terem feito um aliança para derrotar os nazis, mas sempre assente num nacionalismo radical. Um dos líderes pró nazi, que se tornou herói nacional, é Bandera, que é o inspirador do Batalhão Azov, um dos batalhões que até há pouco tempo toda a imprensa internacional classificava de “milícia neonazi” ( e as ONGs ainda classificam) e agora são “resistentes nacionalistas”. Este símbolo passou a ser usado, com outros, pelos neonazis ucranianos, e pelos nacionalistas ucranianos. O Chega foi ouvir Zellensky à AR no dia 25 de Abril ostentando, como sempre, a bandeira de Portugal na lapela, e o braço ao peito. Neste contexto a bandeira de Portugal é evidentemente um símbolo de extrema-direita como o é a cruz de ferro.

O mais importante é isto. Toda a história desta guerra, supostamente para “desnazificar a Ucrânia” tem tido o efeito contrário. Essa é uma das grandes consequências desta guerra. A Ucrânia é hoje o palco de uma nazificação acelerada, que a invasão russa (e a resposta bélica da NATO) só veio acentuar.

A normalização na UE e no mundo ocidental da extrema direita, sob a capa de resistência do povo ucraniano tem permitido a incorporação destas milícias no exército, o seu treinamento pela NATO, a abolição de partidos políticos, jornalistas, perseguições a gente de esquerda e imposição da censura nos media ucranianos – um clima explosivo feito sob a lei marcial em nome de salvar “o povo ucraniano”. A guerra da Ucrânia criou mais nazis do que toda a extrema-direita junta nos últimos anos em qualquer país, armou-os, praparou-os militarmente, e sobretudo, o mais perigoso, naturalizou-os. Hoje, estes nazis, ontem banidos e proibidos, são legais, foram reintegrados pelo Facebook e por outras redes sociais, e nos jornais aparecem como “nacionalistas”.

Não tenho dúvidas que a maioria do povo ucraniano não é nazi, como não tenho dúvidas do peso que hoje têm os nazis na direcção do Estado ucraniano, na direcção militar, política do país. Zellensky ostenta a cruz de ferro porque tem uma alienação objectiva, em guerra, com neonazis e nacionalistas. Isso não torna a invasão russa legítima, mas tão pouco torna Zellensky o líder que povo ucraniano mereceria para resistir.

A outra grande questão interessante é tentar perceber que tipo de país é a Ucrânia para ter sido tão facilmente transformado num Estado que permite milícias nazis (portanto o Estado, pelo menos desde 2012/14, tinha perdido o monopólio da violência), e como foi transformado, também com relativa facilidade, num palco de uma guerra entre os EUA e a China, e seus aliados, UE e Rússia. A hipótese da Ucrânia como um Estado falhado é uma hipótese real. Um Estado corrupto, que perde o monopólio da violência, e mais de 15% da população activa a fugir dos baixos salários, é um Estado inviável – como a UE vai descalçar a bota da adesão é o que vamos ver nos próximos anos.

Entretanto o país está destruído, conquistado a leste pela Rússia, e a ocidente, onde os camponeses nacionalistas têm força (a Ucrânia tem uma das maioires populações europeias na agricultura porque até Zellensky era proibido vender as terras herdadas das leis pós queda do Muro, e agora estas terras vão passar a estar concentradas e sob a égide de multinacionais da UE). Portanto, uma nova vaga de migrantes do Oeste, fugidos à expropriação de terras (“venda” de terras em economês liberal), outros à guerra no Leste, espera-se nos próximos anos. Ou seja, um Estado a desaparecer, a Oeste e a Leste. Que deu entretanto à UE mão de obra barata, à Rússia domínio geopolítico, à NATO/UE venda de armas, e à China/Rússia e aos EUA um campo de disputa onde se medem forças pelo domínio do mundo, e não só da Ucrânia.

Um protetorado russo de um lado, uma semi colónia da NATO do outro, e claro, um ninho de neonazis, que voltarão aos nossos países, com treinamento e armas, para fazer o que sabem – perseguir gente de esquerda, sindicalistas, intelectuais de esquerda e democratas. Tudo apoiado pela UE para “salvar a Ucrânia”. Uma cruz, de ferro.

A Revolução dos Cravos e o mito da “revolução sem mortos”

«O Posto de Comando do Movimento das Forças Armadas constata que a população civil não está a respeitar o apelo já efetuado várias vezes para que se mantenha em casa.»

Comunicado do MFA, 25 de abril de 1974

«Isto é o povo, isto é o povo, isto é o povo!» Praça de São Bento, 13 de novembro de 1975. É aqui que estão sequestrados a Assembleia Constituinte e o Governo, cercados por uma massa de quase cem mil pessoas, na sua maioria operários da construção civil. O cenário é quase irreal: estamos na Europa, na solarenga Lisboa, capital desproporcionalmente grande de Portugal, último império colonial da história. Ao Palácio de São Bento e ao primeiro-ministro não chega nem alimentação, nem cobertores, a não ser por helicóptero. Cá fora, uma gigantesca manifestação de trabalhadores, que se acotovelam e se erguem, literalmente, uns por cima dos outros nas escadarias do palácio, com bandeiras vermelhas e faixas, gritando palavras de ordem.

De repente vê-se um camião de cimento a entrar e descer a praça. A betoneira atravessa a massa de manifestantes que cercam a Assembleia que, com sorrisos e punhos erguidos, se afastam para dei- xá-la passar. Em cima, dois homens. Um deles, de calças de ganga, camisa aberta, cigarro na boca, sorri triunfante para a multidão. Com uma mão agarrada à betoneira e outra erguida, grita junto com os manifestantes: «Isto é o povo! Isto é o povo! Isto é o povo!»

Quando decide suspender o Governo de funções, uma semana depois do cerco à Assembleia Constituinte, a 20 de novembro de 1975, o almirante Pinheiro de Azevedo, primeiro-ministro do

VI Governo Provisório (ao fim de 16 meses de revolução já tinham caído cinco governos!), no seu estilo frontal e indiscreto, bonacheirão, confessa a desautorização do Estado, respondendo, visivelmente irritado, a uma jornalista que o questionara sobre a situação mili- tar: «A situação, tanto quanto eu sei, continua na mesma: primeiro fazem-se plenários e depois é que se cumprem as ordens!»

Estávamos no meio de uma situação clássica de duplo poder — os de cima «já não podiam» e os de baixo «já não queriam» —, refletida na desautorização do poder estatal, política e mesmo fisicamente cercado. Foi provavelmente o momento da revolução portuguesa mais próximo da insurreição, ou seja, aquele momento das revoluções em que o deslocamento do Estado, a tomada de poder sob a direção dos trabalhadores é possível.

Pidjiguiti, Guiné-Bissau, colónia portuguesa na costa ocidental africana, 16 anos antes. Bissau era servida pelo porto de Bissau para a marinha mercante e, logo ao lado deste, pelo porto de Pidjiguiti, para os barcos de pesca e cabotagem, isto é, a navegação dentro da Guiné. A 3 de agosto de 1959 começa uma greve nas Oficinas Gerais que se espalha por todo o cais de Pidjiguiti. Entre outros, participam na greve os marinheiros do serviço de cabotagem, como os da Casa Gouveia, ligados ao poderoso Grupo CUF (Companhia União Fabril), o maior conglomerado industrial português. À greve respondem as autoridades portuguesas com uma repressão brutal, como re- latou o padre franciscano Pinto Rema:

“Os insubordinados dispõem de remos, paus, barras de ferro, pedras e arpões. As duas partes em confronto não cedem, não dialo- gam. No primeiro recontro, os dois chefes da polícia, Assunção e Di- mas, são selvaticamente agredidos, depois de terem disparado para o ar. Da refrega saem 17 guardas feridos. A polícia perde o autodomí- nio e começa a atirar a matar em força, sem quaisquer considerações. No fim há uns 13 a 15 mortos espalhados no Cais de Pidjiguiti. Mais cadáveres de marítimos e estivadores são arrastados pelas águas do Geba, não se sabe quantos (…).”

A historiadora Dalila Cabrita Mateus lembra como foi esta greve que esteve na origem das decisões que levaram o PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde) para a luta armada, apoiada nos camponeses:

“Segundo um relatório confidencial desta reunião, a “mais decisiva” da história do PAIGC no dizer de Cabral, aqui se preparou a passa- gem da agitação nacionalista para uma estratégia de luta de libertação nacional, adotando três importantes deliberações: primeira, a desloca- ção da atividade para o campo, mobilizando os camponeses; segunda, a preparação da luta armada; terceira, a transferência para o exterior duma parte da direção do partido.”

A cena da ocupação de São Bento, em Lisboa, foi filmada pelo cineasta Robert Kramer, no filme Cenas da Luta de Classes. Membro de uma corrente política trotskista norte-americana, Kramer, como milhares de jovens militantes de todos os quadrantes políticos, maoistas, anarquistas, guevaristas e outros, na altura designados terceiro-mundistas, veio a Portugal em 1975 para ver a revolução. A revolução! Que estava a ser feita sem mortos na metrópole e que por isso apaixonava o mundo — «Sei que estás em festa, pá!», cantava Chico Buarque, o mais famoso autor da música popular brasileira (MPB), um Brasil que vivia ainda sob as botas de uma ditadura militar.

Esta festa levou muitos, precipitadamente, a falar a posteriori de uma «revolução sem mortos», esquecendo que a festa na metrópole custou 13 anos de horror nas colónias.

Portugal foi o império que mais usou, de forma sistemática e por mais tempo, várias formas de trabalho forçado. Amplamente denunciado nos jornais e agências internacionais, o trabalho forçado trazia toda uma sociedade a ele agregada: pobreza, inexistência de mobilidade social, afastamento da família e da agricultura de subsistência, extrema desigualdade salarial e uma polícia política racista — «A PIDE (nas colónias) não chateava os brancos, só chateava os negros». Esta polarização contribuiu para transformar a população, maioritariamente camponesa, em apoiantes destemidos dos movimentos de libertação”

(…)

De acordo com o Estado-Maior do Exército, morreram ao serviço do Exército por- tuguês 8300 militares, na Guiné, Angola e Moçambique. É muito difícil saber-se o número de mortos do lado dos movimentos de li- bertação, até porque esse trabalho não foi feito pelos historiadores africanos. Está também por contabilizar a «destruição e desarticula- ção das estruturas materiais e simbólicas das sociedades africanas». Mas de acordo com estudos internacionais, como os dirigidos por Ruth Sivard, morreram três a cinco vezes mais guerrilheiros e dez vezes mais civis, portanto os números mais otimistas contabilizam um número total de vítimas, entre guerrilheiros e civis, superior a 100 mil mortos.

In História do Povo na Revolução Portuguesa, Raquel Varela, Bertrand.

Subir os salários não sobe, necessariamente, a inflacção

A frase “se subirmos o salário subimos a inflacção” de António Costa, apoiada e repetida em vários comentários públicos, e entre eles economistas, não tem qualquer valor científico-económico. Se subirmos o salário sem subir os preços não sobe a inflacção. O que se faz é usar e abusar da iliteracia económica da população.

É que os empresários para manterem as taxas de lucro podem reagir à subida de salários com subida de preços, e isso provoca a tal espiral inflaccionista. Mas se, como no passado em que houve lutas, se se subir os salários congelando preços, o que temos é uma recuperação do poder de compra de quem vive do trabalho.

O que o governo e quem apoia esta medida de congelar salários perante uma inflacção cada vez maior está a dizer é que são os trabalhadores a pagar os lucros, que se devem manter seguros.iliteracia económica da população. Os empresários para manterem as taxas de lucro podem reagir à subida de salários com subida de preços, e isso provoca a tal espiral inflaccionista. Mas se, como no passado em que houve lutas, se se subir os salários congelando preços, o que temos é uma recuperação do poder de compra de quem vive do trabalho. O que o governo e quem apoia esta medida de congelar salários perante uma inflacção cada vez maior está a dizer é que são os trabalhadores a pagar os lucros, que se devem manter seguros.

Acresce a isto que para evitar revoltas sociais (quanto a mim inevitáveis) o governo alargar os programas assistenciais, pagos com perda de poder de compra, aumento de impostos e degradação dos serviços públicos, tudo suportado pela “classe média” que são trabalhadores – professores, enfermeiros, médicos, operários qualificados, que ganham 1500 ou 2000 euros em geral e só com horas extra. Toda a filosofia do orçamento do Partido Socialista segue assim a linha Liberal da “austeridade” – proletarizar os trabalhadores qualificados, destruir as reformas com o assistencialismo aos mais pobres (que precisam é de salários decentes e não medidas assistenciais), e deixar intocados os lucros. Isto num país onde segundo o ISEG 50% são pobres e este ano as grandes empresas anunciaram mais uma vez dezenas de milhões de euros de lucros.

Pode-se defender o PS e o liberalismo afirmando que os lucros são sagrados e o trabalho pode ser exercido em condições de simples reprodução. Eu penso justamente o contrário, que o salário é sagrado e o lucro deve ser profanado – é um custo social insuportável. São posições ideológicas distintas. O que não se pode é abusar da despolitização dos que vivem do trabalho e dar opções políticos como se fossem ciência económica objectiva. São escolhas. O PS escolheu. “

“Até ao último ucraniano?”

Vamos ver se nos entendemos. Putin não é comunista, nem a URSS o era, pelo menos desde 1927 quando a comissão de trabalhadores, órgão mais importante das fábricas, foi substituída pelo chefe da polícia política como o lugar de autoridade. Se fosse comunista, porém, eu seria contra a invasão porque não acredito em comunismo que invade outro país, nem em liberdades levadas pela força das armas – por isso sou pela saída de Portugal da NATO e contra a invasão da Ucrânia. Há extrema-direita na Rússia, sim. E a invasão tem que ser parada, mas como? Não é com bombas nucleares certamente.

Armas, armas, armas, é a única coisa que a delicada líder da UE tem a oferecer, convocando uma resistência massiva mítica nacional inexistente que até agora somou derrotas, cidades destruídas, mortos, refugiados e uma queda de 45% do PIB (sim, esse é o estado da economia ucraniana, apesar de só se falar do impacto da guerra na economia russa, a completa devastação económica chegou à Ucrânia, que depois disto vai endividar-se ainda mais para a reconstrução). Se a preocupação da UE são os crimes de guerra (toda a guerra é um crime), porque estes são cometidos todos os dias na Palestina, no Iémen, em Cabo Delgado, na Nigéria, sem uma nota de rodapé da UE? Um comunicado que seja? Corpos a boiar de civis todos os dias chegam às margens do Mediterrâneo. Chamam-lhe “imigrantes ilegais”. Fogem da Nigéria e do Iémen. E da Síria.

Tudo isto é verdade, é a barbárie. Mas nada disto escamoteia uma verdade – o Estado ucraniano e o polaco, não os ucranianos como um todo, é o principal centro de reorganização da extrema-direita na Europa. E a UE descaradamente está a branquear o fascismo, ao mesmo tempo que se diz apreensiva com Le Pen. Zellensky discursou no Parlamento grego a semana passada ao lado de um neonazi. Chamou-o para o seu discurso. E isso não é um pequeno grupo chamado batalhão Azov, nem se espelha nas eleições. São lugares no topo da hierarquia militar, do topo do aparelho de Estado portanto, com acesso a armas. Quando estes criminosos vierem com armas para perseguir sindicalistas e líderes de esquerda o que vão dizer aqui na UE? Que são “terroristas”, não “temos culpa”?

Porque não há uma resistência massiva progressista e democrática na Ucrânia e não se vê desde o início da guerra nenhum sinal de resistência popular ( a que existe é de Estado e de milícias)? Porque os sindicatos, partidos de esquerda, e a imigração pela pobreza e a corrupção, e a perseguição de extrema-direita, calaram e desmotivaram uma potencial resistência dos trabalhadores. Um povo de 40 milhões e viver lá e não há tomadas de posição de sindicatos, associações, partidos de esquerda, ou democráticos. Pelo contrário muitos foram por Zellensky silenciados.

Dito isto: o que há a fazer? Medir a relação de forças em vez de mandar um povo para o exílio enquanto as casas estão a ser destruídas. Há que parar a guerra, ceder, assumir que é uma derrota (não falar em falsas vitórias), e organizar a resistência. Juntar sindicatos russos e ucranianos contra os seus governos, antidemocráticos e corruptos (segundo todos os índices internacionais oficiais).

Gostam de comparar a invasão da Ucrânia com a da França por Hitler. Porque hoje se desconhece a história, mas não se teme falar do que não se sabe. É incomparável e absurda, independentemente da avaliação moral ou psiquiátrica dos líderes em causa (não é a minha área, mas estou convencida que há menos loucos do que se imagina). Mas o que fez a França? Aceitaram a derrota, e foram reorganizar a resistência de fora, na clandestinidade, não ficaram a ver as suas casas em ruínas, as pessoas a morrer. A UE não para esta guerra porque não quer e sobretudo porque não pode porque não tem poder dentro da sua lógica de embate entre Estados. Primeiro, quem tem real poder para parar esta guerra são os EUA e a China. Até lá, no Ocidente, respeitando a sociedade da aparência como construção hegemónica de poder, uma delicada dama à frente da UE (von der Leyen) e um velhinho ternurento frágil (Biden) – ambos com longo historial de política de guerra (Kosovo, Líbia, etc), ela via partido conservador alemão, ele na ala direita dos democratas nos EUA, ambos neoliberais assumidos, anunciam a defesa de mulheres e crianças, e enviam armas e anunciam mais armas, armas, armas, até quando? Até ao último ucraniano?

Informação e Espectáculo

Lembram-se do jovem terrorista apanhado pelo FBI que deu indicações e que foi condenado em directo interminável por todas as TVs em Portugal? Está em tratamento psiquiátrico. Conhecemos a sua foto, casa, família. Foi assim que foi tratado um doente mental. Há 20 anos ensinava-se as crianças que não se maltratam doentes, velhos e animais. Hoje pode-se espezinhar um doente mental porque os “directos assim o exigem”. Quando tudo na sociedade ganha a forma mercadoria – vendável – não há sociedade. Nem humanidade possível.

Se há ameaça de segurança de outrem/pessoas por um doente mental deve ser naturalmente seguido e tratado – o que algumas pessoas não percebem é que a Polícia tem que agir nestes casos, mas não se devem publicitar porque a publicitação é uma ameaça aos direitos humanos, daquele jovem. É um atentado à democracia condenar um doente mental em praça pública – isso não significa que não seja detido e internado, significa que não gozamos com ele, não aplaudimos pelourinhos, o que se fez foi maltratar um doente mental em horas de directo para 10 milhões de pessoas. Devia ter sido detido, nunca cuspido em praça pública, que foi o que aconteceu. Isso não tem nada a ver com a nossa segurança ou informação, é assédio de um doente mental para ver notícias-mercadoria. E a questão central é que uma notícia só o pode ser se for independente do Estado e do Mercado. As duas forças mais poderosas da sociedade. Só contra estas duas forças se pode afirmar e existir jornalismo.

Sessão de Apresentação Pública sobre o desgaste psicológico, trauma e condições de vida e trabalho dos Maquinistas Ferroviários em Portugal

Amanhã apresentaremos o resultado do estudo que levámos a cabo no Observatório para as Condições de Vida e Trabalho sobre os maquinistas em Portugal (de todas as empresas).

https://smaq.pt/2022/03/17/sessao-de-apresentacao-publica-sobre-o-desgaste-psicologico-trauma-e-condicoes-de-vida-e-trabalho-dos-maquinistas-ferroviarios-em-portugal/

De que matéria se faz uma guerra?

A grande maioria dos historiadores é suficientemente virtuoso para esquecer os motivos frívolos que os fautores das guerras apresentam. Discursos dramáticos, propaganda de valores morais auto atribuídos, tudo com os anos se enche de pó em caixas que acabam, quando muito, num livro de curiosidades à venda num aeroporto. O assassinato do arquiduque Francisco Fernando é o facto menos relevante da Primeira Grande Guerra, ninguém ensina que é a causa da guerra. Mas afinal qual é a razão da guerra em curso?

Durante a Primeira Guerra Mundial, o jornalista John Reed, convidado a discursar num clube das classes dirigentes dos EUA, deu uma resposta contundente à pergunta que os seus anfitriões lhe fizeram: “Quais as motivações desta guerra?” “Profits”, respondeu ele. Lucros. A grande motivação dessa como de outras guerras.

Nem todos os metais raros têm a mesma importância. Esta é definida por três razões: a sua disponibilidade (a sua raridade), localização e importância na cadeia de produção. Metais raros são um grupo de cerca de 60 (segundo dados de 2010 e 2014).

Devido às suas propriedades óticas, químicas e magnéticas, eles são fundamentais para baterias de carros, eólicas, indústria aeroespacial, medicina, robótica, automação, segurança cibernética, biotecnologias, nanotecnologia, iluminação, catalisadores, indústria militar.

Entre eles há 17, os mais estratégicos, considerados como “terras raras”, 15 mais o ítrio e o escândio. Em geral, estes materiais são produzidos em muito pequena quantidade (por vezes escassas toneladas), muito longe da produção de cobre, por exemplo – produzem-se 15 milhões de toneladas de cobre anualmente. Para se ter uma ideia do que falamos, algumas das matérias raras atingem um preço superior ao do ouro (50 mil ou mais euros por quilo).

Parte destes materiais são considerados críticos para a UE devido à “vulnerabilidade do abastecimento”, ou seja, veem de países onde há conflitos e guerras, há monopólios, ou por fatores ambientais. O grau de vulnerabilidade é ainda definido pelo grau de necessidade nas indústrias mais lucrativas. É o caso das terras raras, do crómio, tungsténio, antimónio, índio, nióbio, gálio, silício, grafite, magnesite, antimónio, entre outros. A produção destas matérias-primas está muito concentrada em poucos países, com a China à cabeça, a Rússia (grupo das platinas) África do Sul, Brasil, Turquia, Congo, Estados Unidos e Cazaquistão.

As terras raras (o conjunto de 17 materiais) não são raras pela quantidade em que ocorrem, apenas pelas necessidades mundiais e concentração em poucos países. São aplicadas nos ímanes das eólicas, painéis solares, lâmpadas de baixo consumo, baterias dos carros elétricos, catalisadores, lasers, mísseis, óculos de visão noturna, indústria aeronáutica, aparelhos médicos de diagnóstico, submarinos. Sem eles não há “transição energética”. As reservas mundiais estimam-se em 124 milhões de toneladas, das quais 44 milhões estão na China, 22 milhões no Vietname, 22 milhões no Brasil, 12 milhões na Rússia e 6 milhões na Índia. Recordo que destes cinco países, quatro abstiveram-se de condenar a invasão russa, só o Brasil votou a favor. A China detém não só as maiores reservas, como produz atualmente 90% das terras raras do mundo.

A Rússia e a Ucrânia produzem 25% do trigo mundial e, em alguns, casos a Rússia metade dos adubos, essenciais para a produção de soja no Brasil, carne na Argentina, por exemplo. A UE é dependente do gás e petróleo russos. A substituição do gás da Rússia pelo gás dos EUA tem custos materiais e ecológicos insuportáveis (na produção, porque parte em fracking; na liquefacção, gaseificação, transfer, transporte). Para liquefazer o gás norte-americano e transportá-lo é necessário arrefecê-lo a 162 graus Celsius, com um brutal gasto de energia e poluição. Os gasodutos estão construídos de leste para oeste e ramificam-se quando entram dentro de cada país, inverter isto tem custos astronómicos. É como uma barragem para um regadio e não o contrário. A anunciada venda dos EUA à UE que fez reluzir Biden não cobre nem 10% do que a EU importa este ano da Rússia. Além disso, a imaculada Noruega, com o parque automóvel mais eletrificado do mundo, tem como contraponto a cidade de Antofagasta, no Chile, que exporta minérios para as limpas “economias verdes” e que tem uma das taxas de cancro respiratório mais altas do mundo (10%).

Os seis metais industriais mais produzidos no mundo são o ferro, alumínio, crómio, cobre, manganés e zinco e são fundamentalmente produzidos na China, Rússia, Índia, Brasil, EUA, Canadá, Austrália, África do Sul, Cazaquistão e Turquia. Nenhum país europeu. O urânio, essencial para a energia nuclear, que a UE defende como alternativa, tem no Cazaquistão 43% das reservas mundiais.

Uma curiosidade: cada telemóvel contém 65 a 70 materiais diferentes, parte deles raros, entre os quais oito “terras raras”; cada carro elétrico tem entre nove e 11 quilos de “terras raras”; cada um dos grandes aero geradores precisa de uma tonelada de metais raros.

O Médio Oriente está devastado por ser alvo da disputa pelo petróleo, o Norte de África, do gás, a Nigéria, do petróleo, a guerra de Cabo Delgado é por estes recursos, a do Iémen e do Ruanda também foi. Há no mundo 82 milhões de refugiados, a fugir das guerras desta disputa mundial. Hoje, tudo indica que a Ucrânia é o palco de guerra por uma redefinição dos blocos económicos e militares, em que a disputa destas matérias-primas à escala mundial é essencial para uma economia baseada no lucro e não nas necessidades da vida.

A única economia verde sustentável seria a redução do horário de trabalho sem redução salarial, encerramento de fábricas à noite, melhores relações cidade/campo, fim da especulação imobiliária, melhores transportes públicos, tempo de lazer, fim da obsolescência programada. Em vez disso, fábricas laboram noite adentro, retirando o último sopro de força anímica aos milhões de trabalhadores que na UE, sem qualquer necessidade, trabalham de noite. O modelo de acumulação esgota os trabalhadores e esgota os recursos, e leva o mundo para a guerra. É anti-ecológico, com ou sem baterias de lítio. A militarização da UE seria atirar gasolina para este fogo. E, ao contrário do que se pensa, faltam bombeiros na UE.

A União Europeia assegura-nos que a paz duradoura e a estabilidade política no continente e no mundo têm como elo fulcral de mediação a UE, que seria o reduto da democracia e dos direitos humanos, salvaguardando os princípios de um livre mercado regulado enquanto última instância de toda e qualquer liberdade. As suas regras, a um só tempo, “firmes e flexíveis.” Os seus leitmotifs combinariam a solidariedade e a eficiência. Durante 30 anos a fio – de 1992 a 2022 – venderam o peixe da chamada “Cultura de Paz” como produto fresco das águas europeias. Mas há algo de podre neste reino arquetípico: as disputas por matérias-primas, e os maiores conflitos armados do mundo na história contemporânea, tiveram a mão de “oligarcas” e Estados europeus.

A prazo, creio, que iremos olhar esta guerra – que porventura irá parar em breve, mas pode tornar-se mundial dentro de poucos anos – como uma tentativa dos Governos ocidentais de socorrerem as suas empresas para tentarem sair da crise estrutural de acumulação. Crise provocada pela intensificação da concorrência na globalização, avançando para a exploração direta, sem intermediários, de matérias-primas da Rússia, e para a disputa com a China destas matérias e mercados. Sem estas matérias-primas não haverá reconversão industrial 4.0 e acordo “verde”, o “milagre europeu” será impossível (o custo da reconversão verde sem mudar de modelo económico seria a destruição do Estado social pela canalização de recursos da saúde, educação e reformas para a restruturação “verde” e a economia de guerra). Do outro lado são o capitalismo russo e o capitalismo de Estado chinês e – quem sabe? – o indiano que disputam à escala mundial os lugares no pódio da acumulação. É o capitalismo, de todos os lados, que está à beira do precipício e dá um passo em frente. Os motivos apresentados são a defesa do “mundo livre” de um lado, da “segurança” do outro. A Ucrânia é hoje o palco regional de uma disputa mundial. Quem no terreno morre são os filhos das classes trabalhadoras e médias, quem paga a guerra somos nós, contribuintes, com a degradação da qualidade de vida, saúde, educação. Bem-vindos à barbárie!

Raquel Varela, Historiadora, autora de Breve História da Europa (Bertrand, 2018).

Fontes: Atlas Mondial des Matières Premieres; Bernadette Mérenne-Schoumaker e edição da National Geographic de Março de 222 sobre Terras Raras.

https://ionline.sapo.pt/artigo/766725/de-que-materia-se-faz-uma-guerra-?seccao=Opiniao_i