Provas de Agregação

Caros amigos, é com gosto que torno público que farei as minhas provas de Agregação a 18 e 19 de Fevereiro, na Universidade Nova de Lisboa. São 3 provas, em dois dias, onde defenderei perante o juri o meu Curriculum e percurso académico, uma nova disciplina que criei (História das Revoluções no Século XX) e darei uma aula magistral – História Global da Revolução dos Cravos.

O confinamento de Março deixou-me sem capacidade de resistir aos encantos do meu marido, Roberto della Santa, que todos os dias, entre abraços e beijos eternos, me perguntava se…era hoje que eu ia começar. Confinada, sem viagens semanais, não tinha como resistir-lhe – é para ele a dedicatória destas provas, que espero honrem o carinho e a crítica teórica e cientifica que ele colocou nelas. Sem amor, sem paixão, desejo e admiração, o afecto, os abraços e os beijos, sem proximidade social, não somos ninguém. Deixarei aqui o link para quem quiser assistir aos apuros e ansiedades e desafios. E a essa coisa deliciosa – o bichinho – que é a aventura de termos compreendido, através da investigação, algo.

No livro que ando ler do filósofo Alain Badiou, Elogio do Amor, ele recorda-nos que a felicidade amorosa é ” a prova de que o tempo pode acolher a eternidade” e só é comparável ao entusiasmo político revolucionário, ao prazer das obras de arte e à alegria, “quase sobrenatural de termos compreendido em profundidade uma teoria científica”. O Júri será presidido pelo Director da FCSH e professor catedrático Francisco Caramelo, e constituído pelos professores catedráticos Fernando Rosas, Manuel Carlos Silva, Marcel van der Linden, Valério Arcary, António Costa Pinto, Maria Fernanda Rollo.

Sobre a entrevista de Fátima CF à Ministra

Fátima Campos Ferreira está a ser assediada nas redes sociais porque fez o seu trabalho numa entrevista com a Ministra da Saúde. O assédio verbal sobre a jornalista vem naturalmente em parte dos partidos organizados, com militantes, uma parte funcionários atrás de uma secretária a criar robots, com caras de gatos e carros, que distribuem pelas redes sociais uma série de impropérios de dar vergonha alheia. Mas não só, há gente real que embarca neste desvario. Reflictam. Cresci numa família onde a liberdade de pensar é intocável, não se bate em crianças e animais, mas ofender uma mulher mais velha dava direito a uma lambada ou um raspanete, consoante o grau do palavrão que alguém ousasse pronunciar.

A entrevista, na RTP, é muito importante, confronta a máxima responsável de um país pelo facto de ter um SNS que colapsou ao ter que tratar 0,06% da população. Que tem uma das maiores mortalidades não COVID do mundo. Devíamos ficar incomodados, na minha opinião, a ver a investigação jornalística substituída por testemunhos emocionais de (alguns, felizmente não todos) profissionais de saúde que culpam as vítimas, os doentes, os “portugueses” por adoecerem, que confessam que não conseguem tratá-los?!, que se mostram em pânico, quando o SNS tem menos de metade das camas que devia ter para este propósito, e isto, caros amigos, chama-se destruição do SNS para abrir mercado ao sector privado. Não foi feito pelos portugueses – foi feito por gestores hospitalares, os tais “eficientes”que substituíram a gestão democrática, e pelos governantes, à cabeça os responsáveis da saúde, como esta Ministra. Uma ministra que atravessa uma pandemia com menos 900 médicos e apoia um confinamento que lança na miséria milhares de portugueses. Não apoia só, diz mesmo que se não há confinamento seremos culpados. Não, se há mortes evitáveis e precoces, os responsáveis estão entre quem gere desta forma destrutiva um SNS que paga 1500 euros a um médico e 1000 a um enfermeiro. Nunca as vítimas que ficam doentes são responsáveis.

É por isso mais triste ver alguns médicos e enfermeiros gritar a quem tem que trabalhar “fiquem em casa, se não não vos podemos tratar”. É na verdade o mais baixo que chegámos como país – transformar vítimas doentes em culpados. Um dia todos teremos consciência da maldade que é olhar para uma população pobre e média, sem meios de vida, a gritar “fiquem sem trabalhar, se não morrem porque não há vaga na UCI”. Nem vou debater a questionável eficácia do confinamento, apenas pergunto: em que momento deixámos de ter empatia pela larga maioria da população que não pode viver confinada?O que se espera do jornalismo é que a Ministra seja questionada, com urbanidade, racionalidade e sinceridade, mas sem falsos consensos, que minam o debate democrático. Como é possível gerir uma pandemia lançando nas costas dos desempregados e dos empresários médios e pequenos todos os custos de um SNS destruído? Esta pergunta foi colocada por Fátima Campos Ferreira a Marta Temido, a mesma Ministra que há 2 anos disse que a emigração de médicos é normal num mundo global…Recordam-se?

A Ministra respondeu a FCF, em liberdade, como deve ser, e com tempo. Fê-lo, quanto a mim, com todo o aparelho de treinamento comunicacional, aliás a sua maior habilidade desde Março. A sua incansável resposta aos jornalistas tem sido concomitante com a sua incansável incapacidade de apetrechar o SNS e nos culpar. Há quem considere que a jornalista deve ser assediada nas redes sociais – eu por mim considero-o serviço público. Aliás, assédio para mim nunca é método, sempre o debate e o confronto frontal são a melhor forma de esclarecer. A entrevista é, nestes tempos, uma homenagem ao jornalismo enquanto saber e poder crítico – que é o que é o jornalismo, não há outro com esse nome.

Jornalistas não são pés de microfone de nenhum governo, apoie eu ou não qualquer governo a minha expectativa é que o jornalismo questione, enfrente, vá à raíz dos problemas e , por isso, informe. O resto é fazer do jornalismo um braço do poder do Estado, eufemismo “microfone”, um mal que corrói a democracia, e põe em causa os próprios jornalistas, cuja vontade de questionar quem exerce o poder é mais do que nunca vital.

Palavra de Honra – Antena 1

Hoje começa o nosso programa na Antena 1 Palavra de Honra. Palvara de Honra vai debater o debate, a liberdade de pensamento nas sociedades contemporâneas, o “politicamente correcto”, enfim, o valor da palavra. Depois das notícias das 19, hoje por causa do futebol será algures entre as 19:10 e 19:20, todas as terças feiras (o horário regular será sempre às 19:20).

Vamos falar de números

Vamos falar de números a sério. Somos 10 milhões e 250 mil. Há 169 mil doentes ou com teste positivo. Isto é – 1,65% está ou doente ou positivo. Destes, 6 117 estão internados, ou seja, 0, 06%. Dos quais em UCI 742, ou seja, 0,007% da população. Estamos numa gigante prisão insuportável, o desemprego galopa, as falências disparam, há delactores estimulados pela PSP, órgão do Estado que pede em directo nas TVs mais denúncias!, tudo isto porque nos dizem que o SNS não consegue nos seus hospitais tratar 0,06% da população sem colapsar. Isto apesar de sermos o 4º país de toda a OCDE com impostos mais altos.

Muitos profissionais de saúde estão com a noção real do que isto significa, e viram que o SNS foi durante anos de facto semi destruído, apelam à razão e sentem-se ofendidos com as descrições Correio da Manhã que estão agora por todo o lado e lançam a população no terror. Mas muitos insistem em dar testemunhos apocalípticos e dizer que somos culpados se ficarmos doentes. Ainda que metade do Governo, que definiu estas regras, esteja positivo. O que se espera de um profissional de saúde numa altura destas é que questione afinal o que aconteceu ao SNS, o que aconteceu ao seu trabalho. Se não podem transmitir segurança e confiança, é isso que esperamos, que pelo menos nos deixem de culpar e aterrorizar. Um profissional de saúde cuida, dá confiança, soluções, critica as que não são boas – não atira pedras nem espalha o pânico à população que pagou para ser cuidada. Pagou, como poucos no mundo pagam.

Ninguém quer admitir o óbvio e que Jorge Torgal disse vezes sem conta – esta é uma pandemia ligeira para a maioria, podemos ter um dia pandemias muito piores. Esta pandemia efectivamente atira para as UCIs gente que – se for cuidada a tempo – na sua maioria sai de lá viva; e os idosos acima da esperança média de vida de facto ou são protegidos ou a medicina não consegue em cerca de 20 a 30% dos casos fazer nada. O que temos é um SNS destruído e um Governo que para o ocultar diz que o país deve entrar na sua maior crise económica de sempre, fechando tudo.

No meio disto tudo um tipo de extrema-direita tem 500 mil votos, alimentando a fogueira com mais gasolina. Ele navega e cresce no caos que os governos (e na ausência de oposição) semearam ao longo destas décadas de trabalho barato e serviços públicos destruídos. Haja pelo menos neste caos político a contenção em parar de culpar quem ficou doente. Se o SNS não consegue salvar vidas a culpa não é dos portugueses, é do SNS e de quem Governa.

Jornalismo e Desinformação

Este foi o ano em que todos os líderes mundiais alertaram para o grave “problema da desinformação”. Supostamente a sua origem seriam as redes sociais, que divulgariam notícias “falsas”. Não restam dúvidas que hoje há uma enorme circulação de propaganda duvidosa e notícias falsas. Não creio, porém, que o seu problema esteja, principalmente, nas redes sociais. O jornalismo está ele próprio – e com a pandemia adensou-se esta questão – numa encruzilhada. Ou há uma rutura com as práticas atuais como a precariedade e a ausência de trabalho em redação ou o seu declínio é ineludível. Vive-se no jornalismo o que chama uma crise total: crise dos proprietários, crise dos meios, crise dos jornalistas, crise de formação. A demonização das redes sociais não resolverá o problema.

Desde logo nas redes sociais há de tudo – banalidades, vida pessoal, mentiras; mas também divulgadores científicos notáveis, trabalhos seríssimos de académicos, intelectuais e artistas com obras maravilhosas. É uma questão de escala -, tudo é grande: o mau, mas também o bom. Se o que tem má qualidade aumentou, o mesmo acontece com o que tem boa qualidade. Sublinho – as redes sociais não produzem trabalho sério, nem podem fazer. Nas redes sociais não há tempo nem meios para se produzir pensamento e reflexão, mas são um excelente lugar de divulgação desse pensamento.

O problema hoje não é tanto saber distinguir o certo do errado – esse é um problema geral de educação. O problema das redes é que elas são o inferno de excesso de informação – para se chegar a um belo artigo crítico sobre um determinado tema é preciso navegar, durante horas, por textos nem bons nem maus, selfies, memes, anúncios de férias e casas para alugar. Exige um tempo de que não dispomos.

É aí que volta a entrar o lugar que o jornalismo pode ter. Os jornais diários passaram a substituir, com frequência, reportagens e jornalismo por opinião – casa vez mais superficial. Talvez a solução esteja num retorno ao início. Em vez de fact-check a posteriori precisamos de fact-check a montante, que não é senão outro nome para o Jornalismo. Esperamos do jornalismo artigos de 1 ou 2 páginas, que condensam um trabalho de 2 ou 4 semanas de um profissional, culto, com capacidade de reflexão intelectual, que pensa e investiga, e escreve – sem medo, em diálogo com as melhores práticas, com redações sólidas experientes, trabalho cooperativo, e, evidentemente, com boas condições de trabalho.

Crónica mensal Pelos Caminhos de Portugal, Jornal Região de Cister

https://regiaodecister.pt/opiniao/jornalismo-e-desinformacao?fbclid=IwAR2IcwUHhTvSEj2W_b_csVOruWy78kyBtfS1CFitHV1HvNnyGY1cRumWMlk

Duvido, logo existo

Como sabem ninguém sabe o que se está a passar. E desta vez todos mais ou menos assumem-no, e nem a culpada variante inglesa é dado como certa. Depois de meses de falsas certezas, dedos apontados, e decisões erradas, estamos a assistir aos que tinham mais certezas admitir que não sabem o que se passa. Tirando uma lamentável entrevista de Carlos Antunes ontem no Público, onde pede “que o medo volte” – sic – muitos dos que têm delineado as políticas junto do Governo e o Governo começam a admitir que não sabem tudo. Não há nada de errado em admitir o desconhecimento. E, quando é assim, diz o método científico que devemos parar de insistir com as hipóteses anteriores e fazer novas questões e colocar novas hipóteses. Perguntar, questionar. Não sei o que se está a passar mas temo o pior – temo que o drama não esteja nem na variante nem no vírus mas na organização e estratégia delineada. As questões que a mim, conhecendo o país e o SNS, me surgem são estas. Haverá outras, porque muito está por saber.

Há 10 mil infectados entre os profissionais de saúde, que estão por isso afastados do SNS, sem pessoal suficiente, este número é normal e comparável a outros países? Idem nos lares, há centenas de lares com o pessoal e todos os utentes infectados, segundo relatos (não há dados concretos), isso significa que idosos estáveis que estavam nos lares estão a ser mandados para os hospitais, entupindo-os, ou significa que não há pessoal para atender as doenças de base destes idosos, que estão a morrer não de COVID mas da falta da assistência noutras doenças? É o caminho mais correcto – pergunto com sincera dúvida – tirar o pessoal de saúde dos lares e hospitais porque testam positivo mas não têm sintomas? Esta atitude, que seria talvez a ideal numa situação normal, não é pior do que ficarem sem ninguém de todo? Como há tantos surtos dentro dos hospitais? A divisão entre COVID e não COVID, só recorrendo ao teste positivo mas não ao diagnóstico da doença, foi a mais correcta para enfrentar a pandemia, no meio desta avalanche, e assim atrasando brutalmente as triagens e mesmo assim não evitando a expansão do contágio? Confundir casos com positivos não foi o erro primordial aqui nisto tudo? Cada vez mais com o vírus espalhado na comunidade quase todos darão positivo. Mesmo os que estão doentes de outras coisas. Estamos a ter uma táctica de combate que provavelmente está a ser a pior de todas. Junta-se a isto a pobreza, o frio e sermos um dos países mais envelhecidos da Europa.

Sei que querem insistir, e o medo hoje suspendeu o uso da razão, que a solução para tudo isto é o confinamento, e que a culpa de tudo isto é falta de confinamento. Desde sempre, e agora cada vez mais, essa é a resposta menos consistente com a ciência. A resposta sempre foi o distanciamento físico, lavar as mãos, cuidar dos idosos, e reforçar o SNS. A “maldita” Suécia tem as crianças na escola, em ensino misto em algumas regiões, até aos 16 anos sem máscara, restaurantes abertos sem máscara, e agora as notícias da Suécia são sobre o descalabro de Portugal. Idem para a Rússia, Japão, etc, há muitos países que não tomaram estas decisões de confinamento a não ser em momentos muito excepcionais, e estão menos mal do que outros que as tomaram como Portugal, Inglaterra ou Israel. Todos a braços com números descontrolados, pese embora a expansão da vacina e dos confinamentos. Porquê? Não sabemos, o que sabemos é que confinar ou não confinar não responde à expansão do vírus. Quem foi sempre contra o confinamento nunca foi contra salvar vidas – o que disse desde o início era que os confinamentos não iriam evitar a expansão do vírus. E não evitaram.

É fácil dar respostas simples – estivessem fechados no Natal! – mais difícil, porém, é olhar para a realidade que nos questiona todos os dias. Penso que Portugal está a assistir à tempestade perfeita, um país envelhecido, pobre, e um SNS destruído. Para mim o grande sinal que me leva a esta conclusão vem dos profissionais de saúde, em particular mas não só dos médicos – era daí que deviam chegar os sinais de confiança e segurança, a razão e não as emoções desesperada, é daí porém que vêm os relatos mais perdidos – e que acho que são reais. Acho, é a minha hipótese, que a desorganização crónica do SNS levou os profissionais de saúde a não terem meios – entre os meios conta-se o ânimo, a confiança, as relações entre pares sólidas, o domínio da organização seu próprio local de trabalho (com o fim da gestão democrática), etc – para enfrentarem aquela que é certamente a mais complexa situação da sua profissão até hoje. Não estão a decidir como organizar um hospital para salvar vidas, pergunta que teriam que lhes fazer em Março e há décadas, e que nunca lhes foi feita (todas as decisões virem sempre de cima), mas estão a, segundo eles próprios, levá-los a decidir quem não vão tratar. Só se fala em ventiladores – esqueceram-se que a motivação e o domínio autónomo do local de trabalho é fundamental para salvar vidas. Em qualquer circunstância, quanto mais numa pandemia.

“Emotional Turn”

Hoje viu-se um horizonte de realidade em decisões e palavras, infelizmente foi preciso uma catástrofe para esta ligeira mudança de discurso sobre a pandemia e – importante – mudança na acção face ao ensino. Escolas. António Costa encerrou as escolas depois de grandes pressões políticas e sindicais – pressões pouco baseadas em certezas cientificas -, mas sublinhou que não são as escolas o principal foi de contágio. Mas o mais importante e sério foi isto – decidiu fechar as escolas em vez de as colocar online. Se fecham que se fechem em vez de permitir um simulacro que tantos em Março e Abril apoiaram. Não existe ensino online, como nos cansámos de sustentar – ensinar é uma relação presencial simultânea, é esse o acto de educar, ou não é nada. Os Presidentes de Câmara que foram a correr comprar computadores e Ipads e fazer contratos de milhões com mais uma Plataforma digital recordem-se do que este ano deixou claro – nenhum dinheiro na educação será tão bem gasto como aquele que se gasta em bons professores. Meios podemos improvisar, profissionais de qualidade não se improvisam. É na qualificação, formação e condições de trabalho dos docentes que se decide o futuro da escola pública, e do país – não é na velocidade da internet. Certezas. O epidemologista Manuel Carmo Gomes diz que todas as suas previsões falharam para pior e que não sabe explicar bem porquê. E que o Natal por si só não explica, há o frio, a fragilidade da saúde dos portugueses, a idade, e o SNS não estar a tratar bem as pessoas, talvez seja um pouco de cada, diz, mas não sabe bem. Temos aqui um avanço sobre a realidade, digo-o sem ironia. Reconhecer que não sabemos tudo (é um acto de seriedade) e parar de culpar os portugueses. Reconhecer que há problemas estruturais no país e no SNS. Só peca por tardio – também estamos desde Março a explicar, sustentar, que o SNS está sem capacidade para tratar dos portugueses há anos, e que os determinantes sociais da saúde em Portugal (pobreza) são uma das marcas desta pandemia. Ambos se resolvem com carreiras médicas, salários dignos dos profissionais de saúde e aumento geral dos salários dos portugueses para que possam alimentar-se bem , aquecer a casa, e ter uma vida descansada em vez de chegarem, como chegam neste momento, aos 60 e 65 anos doentes pelos ritmos de trabalho. Portugal tem a mesma esperança média de vida da Dinamarca, sensivelmente, mas menos 15 anos de esperança média de vida com saúde, isto é um indicador oficial – em Portugal quem chega à reforma em média chega doente. Há um mês escrevi no Público tudo isto explicando que podiam confinar o país todo mas se não se olhasse para os determinantes sociais da saúde, para a saúde das pessoas e para a pobreza, o estado real do SNS (muito a montante dos cuidados intensivos, que não era e não é aí que está o grosso do problema), e as condições dos seus profissionais não se ia resolver nada. Agora estamos todos nesta prisão domiciliária, em permanente estado de excepção, com a democracia suspensa e o país em pânico, com praias e jardins fechados e as pessoas a falir, e a ver a sua vida destruída. Há um mês disse que um país não discute mortos, mas políticas, e estratégias. Porque é aí que se discutem os mortos – é nas estratégias e nas estruturas que se decide a vida e a morte, o bem estar e o futuro de uma nação e do mundo. A rigor temos muito poucas pessoas que conseguem olhar o país na sua totalidade, as poucas que o fazem não querem estar na política (o TINA neoliberal teve este efeito, quem sabe não quer “manchar” as mãos na “sociedade” porque a “sociedade não existe”), e muitos ignorantes atrevidos pululam entre cargos e crónicas e todos os dias nos explicam que não percebem nada do país mas querem ditar o rumo das nossas vidas. Tudo isto foi possível porque o jornalismo com a pandemia foi fruto, com raras excepções, de algo que já estava em curso e a ser estudado na área – o “emocional turn” – para estes pensadores dos media é preciso notícias emocionais, relatos pessoais, pivots consternados, em vez de razão e factos, análise consistente e teoria densa. Precisamos claro de um “rational turn”.

TEMPOS MODERNOS, JORNADAS ANTIGAS

Porque o horário de trabalho tem subido cada vez mais, porque chegámos aqui, e como podemos reverter esta situação? Trabalhar menos para que todos trabalhem, e todos poderão trabalhar menos – para as tarefas socialmente necessárias.A Casa – Associação de Defesa dos Direitos Laborais e Culturais de quem vive do trabalho em Portugal – traduziu um artigo do professor Pietro Basso, esperamos que seja útil aos sindicatos e organismos de defesa dos trabalhadores.

 nova publicação 

TEMPOS MODERNOS, JORNADAS ANTIGAS[1]

Os Lares e as Escolas

O Estado português conseguiu ter uma tragédia de mortes acumuladas nos lares à porta de hospitais e colocar o país a debater jovens nas escolas – nisso António Costa e Marcelo têm sido eficazes, dão lições de assessoria de comunicação às melhores empresas da área. O que também só é possível porque há uma crise sistémica no jornalismo, que não pode ser desvinculada da precariedade que há hoje nos media.

Morre-se nos lares, sem cuidados e protecção, debate-se escolas; grita-se “fechem escolas para salvar vidas” e centenas morrem nos lares. Falta-nos o desplante de dizer que são os jovens que matam os avós, ainda que não vejam os avós desde Março, sem um vidro à frente. Podemos debater as escolas, claro, sendo um tema que afecta quase toda a comunidade, mas o que se está a passar nos últimos dias não é um drama nas escolas, isso é, como foi referido por Henrique de Barros, tapar o sol com a peneira – está a acontecer uma catástrofe de idosos a morrerem sem apoio (muitos morreriam na mesma de velhos, mas muitos outros não para já se tivéssemos meios).

Finalmente cito mais uma vez o cirurgião Carlos Costa Almeida, que está há anos a lutar contra o encerramento do hospital dos Covões que ia ser abandonado em Março e hoje rebenta pelas costuras de doentes…Diz o professor, se estamos numa pandemia que exige cuidados hospitalares a cerca de 1,5% a 2% dos infectados e o SNS colapsa, é evidente que o problema não está nas pessoas, mas no SNS. Coragem não é fechar escolas, coragem é abrir um debate a sério sobre um país que salvou todos os bancos enquanto mandava ao fundo o SNS e agora vê-se numa das piores situações do mundo, pior do que o Brasil, imaginem, em termos relativos, tendo entrado em colapso com uma doença que requer tratamento hospitalar a menos de 2% dos infectados. Menos de 2%. E tudo previsível em anos de avisos insistentes. Não é altura de suspender as críticas, porque isso é bonapartismo Estatal (cheira a unidade nacional do Estado Novo, “nada contra a nação”). É altura de olhar e pedir contas a tudo o que quem governou fez e não fez com os nossos impostos. Um bom populista manda fechar escolas enquanto oculta que o “bom aluno” que pagou as contas à troika, os “Ronaldos das Finanças”, o “milagre português”, tudo isso se espelha hoje na dura imagem de ambulâncias paradas com gente pobre e idosa sem tratamento. Não admira que no meio deste caos alguém se lembre de culpar o Natal e o postigo do café e queira discutir escolas.

A grande diferença entre nós e a Suécia é que na Suécia a saúde pública toma decisões sem autorização do Governo – são entidades independentes. A segunda é que se fala abertamente dos erros, e há contraditório público acarinhado – aqui quando algum epidemologista, por mais digna carreira que tenha, é contra estas medidas é vilipendiado, imitando as piores práticas das ditaduras lights, em que o contraditório não é estimulado e protegido mas mal tratado. A terceira diferença é que Portugal confinou, destruiu a economia, generalizou o pânico e está hoje numa situação real muito pior do que a Suécia. Coisa que aliás – contra todos os fanatismos e insultos – não deixámos de alertar estes meses. Portugal pelas suas condições estruturais de SNS iria ficar pior do que a Suécia. Ao que o Governo respondeu, a culpa é da “cultura” dos portugueses que não se “portam bem” como os suecos. Não há ex Ministro da Saúde que não tenha vindo, com uma lata que não sabíamos possível, afirmar que a culpa é do povo que não se porta bem e descartar olimpicamente responsabilidades, nestes dias.

No fim, a grande diferença entre Portugal e o resto do mundo é que nos outros países há governos responsáveis, aqui a culpa é sempre do povo, uma entidade tão ampla que cabemos lá todos – os que pagaram a Troika e os que receberam da Troika.Compreendo as críticas a Manuel Lemos, Presidente das Misericórdias, já que descartou qualquer responsabilidade sua na gestão dos lares e as lançou todas no Governo. Sim, é verdade, e as Misericórdias terão que fazer o seu balanço. Porém a entrevista é de uma enorme lucidez, noutros pontos, partilhei-a por isso. E porque quem me segue sabe que na minha página nem sempre partilho tudo o que concordo, partilho sempre o que me parece que contribui para um debate racional.

Manuel Lemos não admite que é parte do problema, pagar salários baixos, mas tudo o resto está lá, com autenticidade e verdade, que mais do que nunca são precisas em altas doses. O que diz? Que os trabalhadores estão infectados, mesmo com um Natal sem visitas, mas que os trabalhadores, poucos, infectam os utentes; que o outro lugar onde os idosos se infectam é quando saem do lar e vão ao hospital. Que há um problema sistémico de falta de condições para as famílias cuidarem dos idosos, o que levou a uma proliferação, milhares, de lares ilegais, onde ainda as condições de trabalho e técnicas são piores; que o Governo nunca podia ter dito que ia resolver o problema porque as brigadas escasseiam, e porque não há meios, recursos humanos, médicos e enfermeiros, mandados emigrar. A Suécia, maldita, tem um Excel aberto ao público da Segurança Social (aqui publicado pelo Tiago Franco) com as condições em que vivem os idosos de todo o país, incluindo dos que vivem sozinhos nas suas casas – nós, a esta altura, não sabemos quantos idosos há institucionalizados e sós, em casa, as suas patologias, a sua idade, nem quantos destes estão hoje nos hospitais, em colapso.

Nem sabemos quantos morreram de COVID nos lares ou estão hoje a dar entrada num hospital em colapso. Condenou-se a Suécia por nunca ter feito confinamento, e por ter dado morfina aos seus idosos em fim de vida (e os suecos vieram explicar que a morfina foi dada nos casos em que nada havia a fazer, mesmo assim pediram desculpa afirmando que a mão de obra precária trazia contágios e que não souberam reagir a isso ao início). E em Portugal, hoje, ao mesmo tempo que se culpabilizam os jovens há um silêncio ensurdecedor sobre o drama que está a acontecer nos lares.

“Não se debate com o fascismo”

“Os debates com Ventura provaram que não se debate com o fascismo, não é possível debater com a extrema-direita. Gritos, interrupções, mentiras, violência verbal, assédio verbal. Não se pode transigir com os intransigentes, argumentar com irracionais, ser plural com autoritários. O fascismo não se debate, combate-se.”

Quem “está nas ambulâncias”?

Ontem ouvi Adalberto Campos Fernandes, ex Ministro da Saúde exigir o encerramento das escolas e um confinamento drástico, e criticar o Natal. Falava sozinho, sem ninguém que tivesse outra opinião para haver um debate esclarecedor. Vou ser breve:

Portugal insiste em não dar o número de óbitos nos lares e nos idosos sozinhos. O Governo insiste que a culpa dos contágios está nos jovens que estudam e trabalham – por isso o ex Ministro quer fechar tudo e rapidamente. Mas, é acima dos 80 anos que estão as mortes desta pandemia na sua larga maioria, e essas pessoas já estão na sua maioria confinadas, sós, e não tiveram grande Natal – o bode expiatório do falhanço total deste Governo aparece assim numa nuvem de “muitos mortos”, “filas de ambulâncias”, quando na verdade há fortes suspeitas que são os idosos institucionalizados (e mais pobres ou de sectores médios) que estão a morrer. Ontem na RTP um bombeiro confessou na fila de ambulâncias – “não todos, mas são quase todos de lares”. Queremos e precisamos de saber os dados, porque a opinião do ex Ministro é válida ou não se tem qualquer conexão à realidade. Não é aceitável continuarmos o “achismo”, sem factos.

Adalberto Campos Fernandes era Ministro da Saúde quando publicámos um estudo, por mim coordenado na UNL para a Ordem dos Médicos, onde fazíamos uma previsão detalhada da falta de camas, médicos especialistas, e apontávamos um horizonte de colapso de algumas especialidades no SNS por falta de formação e concursos. As contas eram fáceis de fazer – calculámos o ano da sua formação, o número de médicos em exercício, a sua idade, os internos em formação actual e as condições de trabalho no SNS. Este estudo foi apresentado publicamente na Ordem, no Congresso de Medicina Geral e Familiar onde o estive eu e o ex-Ministro da Saúde, que então concordámos em discordar. O meu argumento era o seguinte – quando andamos na auto estrada há sempre uma faixa de rodagem que não tem carros, e custa tanto como as outras 2 ou 3 por onde circulam carros. Essa faixa é usada como excedente para acidentes. Está lá para garantir a vida e a passagem para a vida em caso de interrupção ou acidente ou excepção. No SNS há muito que não existe faixa de rodagem de descanso ou excedente, porque depois da troika a queda dos salários – sobretudo no pagamento das horas extraordinárias – levou os médicos a venderem a sua força de trabalho no privado e os enfermeiros no Reino Unido.

Estamos numa pandemia que mata sobretudo, e principalmente idosos acima dos 80 anos e somos um dos países mais envelhecidos do mundo. O Natal para muitos destes idosos foi só, confinado, como sempre. A diferença, tudo indica, é que a seguir ao Natal veio uma vaga de frio de 2 semanas. E os lares, oficiais e ilegais, são gelados, como geladas são as casas e, segundo a epidemologia por cada 3 dias de frio em cardíacos e pessoas com problemas respiratórios aumenta a mortalidade 2% a 3%. O Estado, que celebrou a privatização da EDP (“grande negócio”, lembram-se?!) vem agora oferecer um desconto (pago com os nosso impostos, que os capitais chineses não abdicam dos seus dividendos) de 10% na conta da electricidade mas Portugal tem oficialmente 47% de pobres e 80% a receber por conta de outrem menos de 900 euros. Metade dos portugueses não pode aquecer a casa. A esmagadora maioria dos pobres situam-se nos mais idosos (pensões baixas).

Houve anos de gripes em Portugal que mataram quase 9 mil pessoas (final dos anos 90). Das 500 a 600 mortes diárias 150 têm sido de COVID (mesmo que morram de outras doenças dando positivo para COVID assim são contabilizadas), mas há uma enorme sobre-mortalidade que insistem em olhar, o cinismo, esse que nunca nos larga, como “efeito colateral inevitável” – quando na verdade o SNS deixou de ter a faixa de rodagem de segurança e não podia já sustentar a saúde regular dos portugueses, quando mais a pandemia.A gestão tem sido a de salvar a face politicamente culpando os portugueses pelo Natal e impondo confinamentos que não alteram a progressão da doença onde ela é grave – por tabela leva-se à falência e ao desemprego centenas de milhar de pessoas e pequenos negócios, quando o drama está e continuará a estar nos lares que têm mão de obra pouco qualificada e rotativa. Estamos a viver aquele que é um dos maiores momentos de proletarização dos sectores médios. Espanta-me que estas medidas sejam tomadas sem uma posição clara dos sindicatos dos profissionais de saúde, que os trabalhadores em geral não reajam e não sejam escutados e que o Governo insista em desculpar-se com o Natal. Tiveram quando 1 ano para se preparar (décadas na verdade!), sabendo que havia um pico no Inverno, e conseguiram perder quase 800 médicos no SNS só entre Março e Novembro. Há hospitais vazios ou com larga capacidade por usar, privados, ao mesmo tempo que crescem as filas em alguns públicos. Há milhares de pessoas a testar positivo que não estão doentes.

Estar positivo não é estar doente. Todas as pessoas se forem procurar em PCR partículas de alguns vírus encontrarão dentro de si partes de vírus ou de outros microrganismos. Isso não significa ter um diagnóstico clínico. É preciso olhar para quem está doente e quem é vulnerável e não para casos positivos porque estar positivo não é estar doente. O facto é este – e já era em Março – não há trabalhadores suficientes para cuidar dos idosos, é um trabalho rotativo, pouco qualificado, flexível, e é assim em toda a Europa (incluindo na Suécia! que é aí que se concentram também a maioria dos mortos). Já não havia antes porque os idosos sempre foram o sector mais desprezado pelo modo de produção em que vivemos – são pouco rentáveis, diria um bom neoliberal.

As pessoas andam na rua não porque são irresponsáveis e criminosas mas porque precisam de trabalhar para viver, porque ninguém vive com os 200 ou 400 euros da Segurança Social (quando chegam, que a muitos nem isso chegou até hoje). O país não são os cerca de 700 mil funcionários públicos com salários garantidos, mais de metade das pessoas é precária ou depende de cadeias precárias de trabalho e produção e o que o governo dá…não dá para viver. Não precisamos nem de confinamentos drásticos nem de deixar as crianças e jovens sem escola. É preciso deixar de ocultar que os lares são a bomba relógio do problema, e estes estão confinados mas com trabalhadores que não podem estar confinados! Precisamos de pensar o país com coragem, com contraditório.

Não se enfrenta uma pandemia respiratória sem garantir alimentação, aquecimento e conforto à população (para isso a requisição/nacionalização da EDP era e é uma necessidade, bem como controlo de preços alimentares); precisamos de um SNS que atraia os melhores profissionais (experimentem duplicar salários e vejam quantos sairão do privado para o SNS? – fiz esta proposta 100 vezes este ano…); e, finalmente, não se enfrenta uma pandemia sem a coragem de dar notícias com honestidade intelectual. Quem está dentro daquelas ambulâncias? Que idade tem? Que rendimento tem? Em que tipo de instituição estavam? Quantas delas estavam sozinhas num lar ou em casa?

Palavra de Honra

Queridos amigos, leitores, seguidores desta página, é com muita felicidade que dou esta novidade, começa este mês um novo programa de debate onde estarei semanalmente na Antena 1, com o escritor Joel Neto, a debater a liberdade de expressão, a palavra, essa “diva do pensamento”, o “politicamente correcto” e outras histórias, no Palavra de Honra. Afinal qual o limite da censura e da liberdade para pensar e dialogar? Sempre às terças-feiras na Antena 1, depois das 19, a seguir às notícias.

Escolher sabonetes

Já vivemos num país onde o debate foi entre Cunhal e Soares e os temas eram todos de estratégia política e económica da sociedade. Duravam um longo tempo e expunham-se ideias estructuradas. Claras. E desenvolvidas. Que país e que mundo? eram as questões. Agora são 30 minutos, cronometrados, e os temas são ou mentiras e desmentidos ou a opinião sobre o último acontecimento da conjuntura da última semana. Seguem-se duas horas de comentários, sem cronómetro, sobre o que acham que os candidatos teriam dito e “quem ganhou” – para que não restem dúvidas que se trata (também) de um modelo análogo aos concursos televisivos. Quem ganhou e quem perdeu, carregue no botão. Lazersfeld chegou aos EUA e disse a Adorno que nos debates e pesquisas as pessoas deviam escolher como escolhem sabonetes – com o botão de like e dislike. Adorno respondeu-lhe que isso não eram escolhas, mas espectáculo. Lazersfeld venceu – foi o “pai” das modernas campanhas norte-americanas. Registo a dignidade com que alguns dos candidatos nestes debates tentaram estar neles, no meio do concorrente Big Brother Ventura, bom vendedor de sabonetes. Mas temo que o esforço tenha sido inglório. Portugal teve um dia Cunhal e Soares – porque teve uma revolução que pela primeira vez na vida abriu um caminho no novo e possível para um país neste canto finisterra. O mundo do trabalho teve poder e pensou um país, país que a sua burguesia histórica nunca ousou pensar. Sempre se contentaram em ser sócios menores de outros poderes. Debatia-se em 1975 futuro porque havia um futuro desenhado por gente humilde na sua maioria que disse que tinha um sonho- viver num país livre e igual. Gostemos ou não das políticas que defenderam Cunhal e Soares ninguém pode ignorar que eram dirigentes políticos de grande cultura e de impacto e alcance mundial, que até nos seus erros eram admiráveis. Nenhum deles – à sua maneira – confiou nos trabalhadores que fizeram a revolução, a mesma revolução que lhes permitiu a oportunidade de se terem tornado grandes dirigentes políticos mundiais. Esse é enfim o busílis de toda a questão. A revolução derrotada. A razão porque nos tratam hoje como compradores de sabonetes. Não ter confiado (nem Cunhal nemSoares) no mundo do trabalho em 74-75 trouxe-nos aqui – a esta longa e sistemática decadência nacional. Nunca se debateu estes dias uma única vez a ideia de país.

Confinar e bater 4 vezes na madeira

O confinamento que se aproxima vai ter o efeito de diminuir a pandemia até… à primavera. Três a quatro milhões de pessoas vão estar a trabalhar e andar de transportes públicos durante o “confinamento”. Vai parar ( e destruir ) o pequeno comércio, a segurança social e não ter efeito sobre a pandemia já que a grande maioria vai estar a trabalhar. Hoje fui obrigada a ir a um supermercado que tinha centenas de pessoas aglomeradas, conheço uma família de 6 todos confinados sem sintomas alguns, todos positivos, nos lares morre-se, cada vez mais; o SNS está caótico porque já estava (há muito) e não podemos ir tomar um copo de vinho numa esplanada para “diminuir os contágios”. Nunca defendi que se deviam poupar meios a salvar vidas, tenham a idade que tiverem. A vida de todos conta. Não é isso que estamos a fazer, o SNS está sem meios. Tudo isto é o Estado a mostrar força, não tem qualquer efeito. Indústria, serviços essenciais, saúde e escolas, supermercados englobam mais de 4 milhões de pessoas a circular juntas. Estamos a confinar o lazer, o tempo livre e o pequeno comércio. A destruir milhares de empregos e a desgastar o que resta da pouca saúde mental dos que estão mais sós. O vírus está na comunidade, está frio e o seu curso será igual com ou sem idas à loja e ao restaurante da esquina porque não é aí que estão os grandes aglomerados. Como é possível dar aval científico a uma medida que vai trazer a agonia das pequenas empresas e a erosão total da segurança social e afirmar que é isto que impede a propagação de um vírus que já é endémico e circula massivamente no supermercado, trabalho, escolas e transportes? O que fazer ? Pela centésima vez: tem que se requisitar hospitais privados, proteger os lares e acabar com o terror e o medo que está disseminado. É preciso coragem de usar a razão. Confinar depois de trabalhar numa fábrica, ou andar de metro ou ir ao supermercado é a mesma coisa que comprar um amuleto e bater na madeira 4 vezes.