História Global das Revoluções

Hoje estarei no Congresso de História Mundial e Global no painel que faz a história comparada das mudanças na propriedade (de trabalhadores para sector privado e do sector privado para os trabalhadores) nas revoluções portuguesa de 1974 e 1975 e nas revoluções de 1989-91. Com um grupo de historiadores e sociólogos com alguns dos trabalhos mais importantes na história global das revoluções. Deixo o link em baixo.

The novel idea of the panel is to concentrate on a historical and geographic comparison of the varieties in the privatization of social ownership and the perspectives of workers concerning privatization between the 1970s and 1990s. This will be a panel in which participants compare workers’ perspectives across countries and across the privatization of organizations, companies, cooperatives by various ownership forms (self- management, cooperatives, state owned companies, other forms of public employment etc.) This will be also discussed from the perspectives of the later life history of these workers, for instance how they becoming migrant workers. The panel will build upon rich source materials, unused party documents, ethnographic evidence and very importantly also oral history interviews. Participants will also raise the issue what perspectives could be developed historically the other way round, when workers moved from private to social ownership, for instance during the Portuguese revolution.

Marcel van der Linden (International Institute of Social History, Amsterdam)Eszter Bartha (ELTE University)András Tóth (Hungarian Academy of Sciences, Institute of East European History)Tibor Valuch (Eszterházy Károly University)Raquel Varela (New University of Lisbon)Attila Melegh (Corvinus University of Budapest)https://research.uni-leipzig.de/…/congress/registration/GostoComentarPartilhar

Lançamento dia 19 de Junho.

Lançamento dia 19 de Junho. Estão convidados.Este livro, “O mundo é um moinho”. História económica e social de Albergaria-a-Velha no século XX, partiu de um arquivo raro em Portugal, o arquivo das fichas completas de todos os trabalhadores da Alba, uma das mais importantes metalúrgicas nacionais, desde o início do século XX até ao seu encerramento. São quase quatro mil fichas com informação detalhada de quem lá trabalhou, quando foi admitido, escolaridade, origem, etc. Isto permitiu-nos traçar um panorama histórico, ao longo de 100 anos, do mundo do trabalho na Alba. Foi este o mote para um livro que não só traz a público estas informações, inéditas, que se enquadram e são explicativas da história global de Portugal, incluindo das ex-colónias, como olha a história económica e social de Albergaria-a-Velha no século XX, região conhecida por abrigar empresas que marcaram a história industrial de Portugal. Um verdadeiro presente para qualquer investigador interessado em memória histórica, económica e social.

A selecção social e a selecção natural

Penso que 1 ano e meio depois ainda muitos não sabem que a epidemiologia não é uma ciência médica, muito menos matemática, certamente nunca uma ciência computacional. Tanto que a Associação Portuguesa de Epidemiologia tem no seu primeiro objectivo é, cito, “Estimular a abordagem multissectorial e interdisciplinar dos assuntos de âmbito epidemiológico”, ou seja, vários dos seus membros são das ciências sociais. Só o deslumbramento com a automação poderia achar que existe epidemiologia sem sociologia, história e filosofia.
Desde o século XVIII que se sabe que o que mais conta na saúde de alguém é a classe social, e dentro desta o que mais conta é a alimentação, que corresponde, vou explicar assim de forma um pouco simplista, a cerca de 70% dos determinantes sociais da saúde. Em suma, o berço em que nascemos, e a alimentação são a primeira causa de saúde e de doença. Por exemplo, aquilo que mais conta na saúde de uma criança é o nível de escolaridade da mãe. São coisas elementares que se estudam há anos, que se conhecem há 2 séculos, com fundamento, e sem as quais não é possivel estudar saúde pública. Eram os grandes temas na cimeira da OMS em Alma Ata, por exemplo.
Uma das notas básicas da estatística é naturalmente a sua comparação com a esperança média de vida (o que conta em saúde pública são mortes evitáveis, abaixo dos 80 anos), e, por exemplo, em trabalho e saúde estudamos a esperança média de vida com saúde (que em Portugal, devido às condições de trabalho – que condicionam a habitação e a alimentação, é 15 anos abaixo da Dinamarca, isto é, vivemos os mesmo anos, mas com doenças que incapacitam logo depois da reforma). Dei estes exemplos, podia dar outros. Só para vos chamar a atenção para o facto de que Portugal pode estar com menos mortos em média do que noutros anos, tendo-se dado com a pandemia um fenómeno comum quando não há investimento em saúde e condições de trabalho – os mais frágeis foram mortos com a pandemia, isso é, terá sido feita uma selecção natural, que as medidas de confinamento não evitaram, porque a única forma de contrariar a selecação natural era com uma inversão da selecção social.
Evitar a morte dos mais frágeis seria actuar ao nível dos determinantes sociais da saúde (aquecer e alimentar bem essas populações, em lares mas não só – daí a tragédia de Janeiro), e ter uma resposta rápida dos serviços de saúde, evitando o salto rápido da doença leve para a aguda – isso não pode ser feito por telefone, implicava uma monotorização dos doentes com recursos humanos, nomeadamente ao nível da medição do oxigénio – quem teve em casa um oximetro, por exemplo, como foi o caso de Daniel Sampaio, que o contou publicamente, sabe que essa pequena máquina e saber ler os seus resultados fizeram a diferença na decisão, a tempo, do internamento. A maioria da população teve apenas um telefone, o que funcionou na maioria dos casos, felizmente, porque a doença é leve, mas não podia jamais verificar os casos graves, silenciosos.
Mas esses recursos humanos, que estiveram grande parte imobilizados (profissionais de saúde sem trabalho ou com ele muito reduzido, aos milhares durante a pandemia!) só poderiam ter retornado ao sistema público com uma requisição civil do sector privado. Ou – com abertura de concursos com carreiras e salários atractivos no público – que sempre defendi, ao mesmo tempo que era e sou contra restrição de direitos e confinamentos. Não o sou por questão de opinião, mas de análise dos factos, a que o tempo cada vez mais dá razão – o confinamento não é matéria de opinião, é mesmo do confronto com a realidade empírica que podemos tirar conclusões. Essa, contratar gente em massas para o público, devia ter sido a primeira e mais importante medida, e a que, junto com aquecimento de casas, e cuidada alimentação, teria impacto na vida, evitando grande parte das mortes evitáveis.
Isso iria esvaziar o sector privado de força de trabalho, e foi por isso que o Governo nunca tomou essa medida. Preferiram manter o lucro do sector privado mesmo que à custa de imobilização de capacidade produtiva que iria produzir riqueza (tratar pessoas) mas não lucro (manter intactos os valores das acções dos investidores dos grupos privados/financeiros). Quando me pergunatm e na Europa, tirando a Suécia? Bom, na Europa neoliberal, à cabeça a Alemanha, a resposta, leio hoje artigos dos meus colegas, foi exactamente a mesma – confinar, restringir e manter o sector privado com ambulância de recursos, sem ser requisitado. Idem para os lares, na sua maioria privados ou do sector social, o lugar de onde vinha a pressão real sobre o número de camas em enfermaria. Os das UCIs só se evitariam com tratamento atempado, o que implicava monotorização com recursos humanos a tempo – não, não se vêem doentes pelo telefone.
A este propósito veja-se o caso de Cuba (não, não sou fanática pelo regime, o meu socialismo é romântico, mas sei reconhecer o que funciona e o que não funciona). Cuba tem publicado um boletim diário impressionante onde dá conta – em anonimato – do estado de saúde completo, com todas as comorbilidades, de todos os doentes internados em UCI (nós nem as mortes em lares temos até hoje). E tem, comparativamente a quase todos os países do mundo, um ratio de mortos muito mais baixo, além de já estar a vacinar a população com a sua vacina. O que é diferente em Cuba onde há escassez de quase tudo? Recursos humanos, na minha opinião. A diferença foi a existência de um comando único de saúde.
Aqui não se fez isso, pelo contrário, o SNS e os seus profissionais sairam pior da pandemia, logo nós todos. Não houve mudança nas carreiras, nos salários, e acresceu pressão, o que levou a mais saídas do SNS para o privado; as contratações anunciadas pelo Governo não são de médicos, são de auxiliares, técnicos, e enfermeiros, mas sem nenhuma melhoria das condições de trabalho, o que estimula a migração – que está em fluxo contínuo, mesmo na pandemia; incentivou-se a telemedicina, com custos óbvios na qualidade dos cuidados; deixou de se atender doentes, o que junto com a telemedicina estimulou a procura do sector privado.
É evidente que sindicatos e ordens dos profissionais de saúde devem reflectir sobre isto porque a pandemia podia ter sido uma oportunidade para exigir um SNS forte, e todas as energias foram canalizadas para dar apoiar e dar resposta a uma estratégia (do Governo) que se revelou errada, quer do ponto de vista de salvar vidas, quer do ponto de vista das carreiras no SNS. Tenho e sou defensora dos profissionais de saúde, mas o que aconteceu não pode deixar de ter um balanço crítico. O país confinou, os idosos frágeis morreram sem protecção, todas as medidas foram ad hoc e tocaram em tudo, menos no sacrossanto sector privado que, nunca é demais lembrar, como os próprios gostam de afirmar, estão na saúde para fazer negócios. Temo que a parca resposta dos profissionais de saúde, salvo raras excepções, se deva ao facto de que já deram por adquiridos a decadência do sector público e a dupla jornada no sector privado. É aqui que está o busílis, que é preciso inverter. É que a rigor o sector público condiciona o privado e não o contrário . Quanto pior for o SNS pior vão ser as condições de trabalho no sector privado.
Deixo aqui a média do número de mortos em Portugal no dia 6 de junho de 2021 a 2015, via Maria Spínola.
2021: 267 (265 NÃO Covid-19 e 2 Covid-19) 2020: 2712019: 2502018: 2812017: 2562016: 2752015: 280

Sica, conta-me mais

Fui ver Druk. Um autêntico retrato da sociedade hoje- dá para pensar tudo. Para me redimir fui logo a seguir ver Ontem, Hoje e Amanhã, magistral. Os dois filmes receberam o óscar de melhor filme estrangeiro, e são comédias. É o único que têm em comum. Separa-os 6 décadas e toda a história do século XX. Druk é um filme de desistência, desinteressante, sem futuro, alienado, de gente triste que se alegra só com drogas (álcool no caso). Ontem, Hoje e Amanhã é um filme apaixonante, grande arte nascida no colo da resistência. Hoje seria cancelado, é tudo livre (como se diz, politicamente incorrecto). Druk foi agraciado, é um filme de coitadinhos, politicamente correctíssimo, para a politica deste tempo em que os políticos insistem que o futuro é de apocalipses, sociais e climáticos e outras visões milenaristas com que o poder sempre tentou derrubar a esperança.

Druk conta a história de 4 professores em burnout que resolvem embebedar-se para tentarem ser felizes. Os adolescentes a quem dão aulas estão nas aulas, enfadonhos, chatos, e alegram-se apenas fora da escola em grandes bebedeiras. A escola é um lugar sem interesse, para os adolescentes e para os professores. Os professores resolvem seguir-lhes o rumo, e começam a beber para trabalhar. O álcool ajuda-os a gostar de dar aulas, que transformam em jogos (a teoria de que as aulas são chatas porque lhes falta “estímulos” leves e brincadeira é uma das teses que o filme se propõe) e um deles, depois de beber, consegue mesmo voltar a fazer amor com a mulher. Quando aparece um aluno ansioso com o exame o professor resolve dando-lhe…um golo de Vodka.

O professor de história, personagem central, ganha mesmo o entusiasmo dos alunos quando lhes explica que Hemingway e Churchill eram dois bêbados e por isso produziram grandes obras literárias, ganhando o Nobel. Terá escapado ao professor que Churchill esteve num colégio interno até ser adulto, onde – em vez de pancada e pedofilia, como os pobres gostam de retratar os colégios da alta burguesia – recebeu o melhor da cultura universal, da ciência, da arte e do desporto e das relações sociais (de classe é certo, mas relações e não solidão que é a grande doença dos trabalhadores e sectores médios hoje, fruto da competição nos locais de trabalho). Não foi pelo que Churchill bebeu às 7 da manhã durante a II Guerra que conseguiu escrever livros, como se imagina. Para Druk sim, a saída está na autoalienação – a escola é insuportável, a família tornou-se por isso insuportável (é o lugar de trabalho que determina as outras relações sociais), os filhos são desinteressantes e os alunos de fugir, o que fazer? Lutar, resistir, organizar, transformar, entrar em ruptura com o Estado? Não – romper com o puritanismo escandinavo, exagerado neste campo do álcool, e apanhar umas homéricas bebedeiras.

A escola é o lugar de adoecimento, o lugar central do filme, mas toda a culpa das suas frustrações aparece como subjectiva, fruto de características individuais e nunca laborais. Druk é um filme de autoajuda, em suma. Na versão heterodoxa do – “beba álcool em vez da ioga matinal e da meditação para combater o inferno em que se transformaram os locais de trabalho”. Está lá a solidão de classe que atinge agora quase todas as classes, excepto naturalmente a burguesia.

De classes sociais fala-nos Vittorio de Sica em “Ontem, Hoje e Amanhã”, um tríptico de 3 casais, hilariante, representados por Sophia Loren e Mastroianni – divinais. Não só ecléticos, como diz a crítica, mas magistrais, divinais, todos os superlativos. Uma família miserável da classe trabalhadora que anda entre o encantamento sexual, amoroso, a aldrabice, a fraude, a prisão, a solidariedade do bairro, a fuga ao Estado, e a traição – hoje seria cancelado, já que estamos em tempos de personagens puras, ideiais. Um trabalhador solidário e fraudulento não pode ser retratado. Só puro.

A dupla da mulher da alta burguesia num Bentley com casaco de vison, apaixonada pelo professor, intelectual, discursando com sinceridade sobre os valores do amor, mas que à primeira ameaça à sua propriedade (o carro tem um acidente) sucumbe ao valor superior do dinheiro. Morrerei por ti…dinheiro. Irei até ao fim do mundo, meu amor…a herança.

E a última, inesquecível, Loren é aqui uma prostituta, em versão acompanhante com casa própria, e um filho de um industrial apaixona-se por ela, ao mesmo tempo que um seminarista jovem se recusa a ir para o seminário, por amor a ela. Ela faz então uma promessa a Deus, junto da avó, beata, para ele ingressar. A promessa consiste em abstinência sexual…uma semana, a semana em que o filho do industrial – Mastroinani – está lá, que se terá que contentar com um inesquecível striptease do abat-jour.

O grande cinema italiano não pode ser compreendido fora do impulso cultural que significou a resistência revolucionária ao fascismo. Não pelos temas, porque Sica não fala de revoluções, nem de operários idealizados, mas por conseguir ver o homem na sua totalidade, na sua integralidade – isso só a transformação social da revolução dos operários não idealizados, que abala os alicerces do status quo, permite.

Druk retrata uma pequena parte, de homens pequenos, partidos aos bocados, sem sociedade, sem totalidade, desesperados porque desistentes. Sica retrata uma sociedade que o almeja ser, cheia de contradições e mudanças. Em Sica não há gente pura, partida a meio, aos pedaços, retirada da sua totalidade. Druk tem piada, às vezes ri-me de facto, mas é brutalmente aborrecido. Foi um alívio quando terminou. Aborrecido tanto quanto seriam e serão as aulas com piada e jogos, onde não se explica a essência da humanidade e do conhecimento, mas apenas visões fragmentadas do mundo. É um alívio quando terminam. Sica é de morrer a rir, delirante por vezes, total, arrebatador, porque explica-nos, abala-nos, remexe-nos, ajuda-nos a compreender o que somos na totalidade das nossas contradições. Queremos ir para lá, junto de Loren e Mastroianni e quase lhes pedimos continuem, contem, contem-nos mais de nós, a humanidade.

Que escola e que país queremos?

O João Jaime Pires é professor e director de uma das melhoras escolas públicas do país, onde tem sido feito um enorme trabalho crítico, reflexivo, e aberto à comunidade com ciclos de conferências, cinema, debates, a todo o público, o Liceu Camões… Insisto na minha ideia de que pode haver excelência para todos, e que essa é a função da escola pública. Excelência para todos.Há 78% de professores em exaustão emocional, 84% que se querem reformar e mais de 80% das crianças e jovens dizem não gostar da escola, sendo que escola devia ser sinónimo de felicidade de aprender e ensinar, aquele lugar maravilhoso onde queremos rapidamente regressar depois das férias grandes. Ontem estive num debate – casa cheia, lotação máxima mesmo – com professores no Minho, debatemos abertamente e por 3 longas horas todos os problemas que levam a esta falta de gosto pelo ensino, onde se perdeu a visão transformadora da escola? e onde começou a adaptação? Tudo isto dá um livro, prometo fazer uma síntese sobre este tema cimeiro em livro um dia, como fazer da escola pública um lugar de sonho, esse é o desafio, a utopia concretizada, mas aqui, espaço curto, e no debate, assinalei 4 pontos que são essenciais mudar se queremos outra escola pública: é preciso acabar com a avaliação de desempenho dos docentes que gera sofrimento ético; repor as carreiras; pensar o currículo em que o professor não é um operário executor, mas uma profissão criativa e intelectual; regressar à gestão democrática para criar trabalho cooperativo. O comentário de Paulo Guinote publicado pelo prof. Jaime, a propósito de um artigo no Público sobre o cansaço docente, sendo que o Jaime é um dos grandes professores deste país, que simboliza uma escola com que sonhamos, devia deixar em alerta qualquer Governo. Os professores como estão não podem dar ao país uma escola de excelência para todos, é preciso recentrar a escola no docente e pensar que docentes queremos? para que país queremos? Estou convencida que se respondermos a estas duas questões vamos responder à que mais nos interessa, que crianças e jovens queremos formar, que bem estar e ferramentas de emancipação lhe queremos legar. “Apesar destas explicações, não me embaraço muito em confessar que me sinto cansado e que, como eu, muita gente ao domingo à tarde sofre de um redobrado sentimento de lassidão ou mesmo desânimo. Porque sabemos que por muitos milhões que andem para aí a anunciar para a Educação e a recuperação das aprendizagens, a nós só irão pedir mais com o mesmo, na melhor das hipóteses.”

Por que não brincam as crianças? Relações laborais, produção económica e bem-estar das nossas crianças .

Raquel Varela

Raquel Varela, Historiadora do trabalho, IHC (FCSH-UNL), IISH (Amsterdão), Jornal Expresso 1-2-2014

«Vós não tendes o menor juízo», dizia no século XIX para um francês um membro da tribo Montagnais-Naskapi, do Canadá. «Vós, franceses, amais apenas os vossos próprios filhos; mas nós amamos todas as crianças da nossa tribo!»[1] Que diria hoje o membro dessa tribo se visse uma criança que sai de casa com uma playstation agarrada à mão e chega a casa de um amigo para brincar e ambos ficam agarrados à playstation ou à televisão? Haverá simbologia mais completa da submissão do ser humano à mercadoria?

Trinta e dois por cento das crianças portuguesas entre os 7 e os 11 anos têm peso a mais. Esta percentagem é, por exemplo, de 12% na Holanda e de 36% em Itália. Obesidade significa que estão hoje a ser tratadas nos hospitais algumas crianças com diabetes, hipertensão e há registos…

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Direito à Ignorância

A pedagogia é dominada pelo construtivismo de Piaget e suas inúmeras vertentes. Isto parece um palavrão para quem me lê mas seu eu concretizar vão reconhecer: o professor é um “mediador”, não é um “educador”; a escola é quase um mal que retira, ao ensinar, autonomia às crianças que já vinham com um “saber espontâneo”; o desenvolvimento dá-se por etapas que acompanham as idades e o seu desenvolvimento biológico e a escola acompanha essas etapas – se a criança não consegue mais a culpa é da biologia e das “etapas”, devemos ter paciência e esperar que ela lá chegue um dia (nunca chega porque só chega com educação intencional, daí a proibição de retenções, não sabe, mas passa); transmissão de conhecimento é palavra tabu, agora fala-se em dar “ferramentas” para “competências” e “valências”. O verbo ensinar é quase um insulto, um ataque ao saber “puro” inato da criança e das suas etapas.Tudo isto é um erro gigante que visa adaptar o ensino à massificação para um mercado de trabalho que divide trabalho manual de intelectual, gestores de executores, dirigentes de dirigidos, representantes de representados, quem domina e quem não domina o conhecimento. A linguagem é a da democracia – “escola para todos” -; a realidade é a da produção de elites e vasta camada de dirigidos.

O que é a escola? A escola é um lugar onde se ensina intencionalmente (sim, com intenção) o melhor do conhecimento produzido pela humanidade (sim, conhecimento formal, científico e não espontâneo); ensinar é uma actividade consciente e planeada (planeada, sim, leram bem), não se dá por estados mas por saltos qualitativos que devem sempre ter em conta não o que a criança sabe, para isso não precisa de escola, mas o que em determinada altura e por “imitação” dos adultos pode vir a saber. Imitação virou outro palavrão, junto com a memória. Imitação para Vigotsky não é imitar a aparência do conhecimento, mas os seus fundamentos. Imitação não é imitar o aparente. É imitar o melhor que sabe o adulto, que é responsável pela criança. É a sua direcção. É aprender, com ele, que tem a responsabilidade de ensinar à criança e jovem o melhor do conhecimento fundamental imitando-o – ele faz esta conta, eu faço-a com ele, eu leio com ele este livro, até o compreender sozinho, porque ele me ensina. E eu assim não me torno um autómato – pelo contrário, eu passo a conseguir fazer essa conta e ler, até que um dia consigo fazer por mim sozinho sem imitar, e dou saltos de aprendizagem (e não estados). Autómato é quem não aprende, e se sujeita por isso a quem aprende. Para quem quiser entrar no maravilhoso mundo da psicologia e do psiquismo humano e perceber o estado a que nos trouxe o “aprender a aprender” leiam os textos de Newton Duarte sobre Vigotsky, e em crítica de Piaget, estão em acesso livre na net. Para a escola que queremos leiam tudo o que o gigante professor Demerval Saviani escreveu (ele é pequenino de estatura na verdade, mas o melhor e mais brilhante teórico da educação). Ambos são marxistas, o professor Saviani veio do seminário jesuita para o marxismo e fundou a Pedagogia Histórico-Crítica, que a mim me trouxe luzes (iluminou o saber). A escola de Vigotsky é o mais longe que foi a pedagogia até hoje – e é claro dentro da área da psicologia estudado por todos, incluindo por quem discorda. É um marxista, fundador da psicologia soviética (com Luria, Leontiev etc), todos proibidos, perseguidos ou ostracizados por Estaline.

O corolário do saber espontâneo, onde o professor cuida mas não ensina nem exige, e sofre, é o da criança que aprende o que pode, é o dos professores que não se chateiam, a culpa é dos miúdos, deixaram de a forçar (com pedagogias de ensino e não de mediação) a aprender porque isso é uma “violência”. Passámos da reguada – política de um ensino ditatorial sem pedagogia – , à “liberdade ” de ser ignorante, livres para não saberem nada. É isso que espelham também os rankings. O eduquês de Nuno Crato ficou a meio de caminho – não conseguiu relacionar estas pedagogias com o capitalismo e ainda usou o eduquês e o prestígio que tinha entre professores para os massacrar mais, piorando tudo. Basicamente a crítica a Piaget veio com o liberalismo do trabalho precário e ainda mais mal pago, tudo verificado por exames e rankings, e a cereja no bolo é a avaliação de desempenho de Maria de Lurdes Rodrigues. Foi o fim de um edifício já em queda. O domínio destas pedagogias espelham outro tema – os pais destes miúdos não acreditam na mobilidade social. Pensam, sem pensar e assumir, “porque vou chateá-lo com o telemóvel, arranjar uma discussão, perguntar-lhe o que estudou, se ele não vai a lado algum mesmo?”

E aqui entra outro tema – o da sociedade. Estudar com que objectivos? Aí sim, é preciso debater a economia do país. Mas Piaget tem sido um anjo para professores (e pais) exaustos que não ensinam, nem exigem nada aos alunos e filhos – a culpa é da criança e do seu desenvolvimento atrasado. E assim, entregamo-los ao mundo. Ignorantes mas atrevidos, porque se não sabem é porque, como cantava a Gabriela, são naturalmente assim. Os posts que vou colocando aqui são de divulgação e por isso simplificam as teorias pedagógicas (às vezes faço caricaturas, ou uso metáforas para as explicar)- quem queira deve fazer um esforço para aprofundar estes temas nas leituras originais que deixei acima. Merecem o vosso tempo porque ali percebemos como sabemos tanto para resolver os problemas. Falta-nos, dizia o Almada, mudar as coisas. – “Quando eu nasci, as frases que hão-de salvar a humanidade já estavam todas escritas, só faltava uma coisa – salvar a humanidade”.

Os Rankings não mentem

Tem sido muito partilhado o testemunho de uma professora descrevendo alunos miseráveis e desafiando no fim, “coloquem-no lá no colégio para ver se fazem melhor?”.O esforço dos professores não é questionado por ninguém sensato. Trabalham em média 44 horas por semana, quase 40 anos, ou mais. E em más condições em média. Correm 100 km por dia. A questão é para onde correm? E que escola defendem? Responder a isso é responder que país defendem e que condições de trabalho defendem para si próprios.

Partilhar histórias de alunos filhos de trabalhadores empobrecidos e mesmo miseráveis (eufemismo “carenciados”) não nos explica o que é a escola pública nem quem são os professores. Primeiro, porque felizmente não são a esmagadora maioria dos que andam na escola, nem o principal desafio dos professores. Não devia existir uma única criança com fome mas são menos de 5% do universo da população escolar (5% que envergonham qualquer país, sem dúvida). Ora Portugal construiu a escola pública e universal com as lutas dos professores na revolução quando só em Lisboa havia centenas de milhar de pessoas a viver em barracas, crianças com fome, epidemias de cólera, com muito mais problemas de saúde e de aprendizagem do que hoje, e a escola mudou-lhes a vida, para sempre. A escola não esteve lá para eles, os filhos de quem trabalha, só para lhes dar de comer, mas para lhes dar uma formação.

A escola que os professores receberem, e transformaram com a revolução depois do 25 de Abril e na década seguinte, não tinha alguns alunos “carenciados” – tinha centenas de milhar e no entanto a escola mudou-lhe a vida, dando-lhes ferramentas para terem um trabalho. Conheço professores, escritores, médicos que vinham de classes trabalhadoras muito pobres e a diferença foi a escola pública.Hoje não é – apesar de terem publicado aqui uma gorda de um estudo que diz que os alunos do privado chumbam mais na Universidade do que o público – todos os estudos nacionais, sem excepção, o que dizem é que a escola deixou de ser um lugar de emancipação e passou a ser de reprodução social. Filho de operário não vai ser médico na escola pública.

O estudo cuja gorda tem sido partilhada refere-se exclusivamente a um universo restrito de medicina e o que diz é que nos últimos anos de medicina chumbam mais os da pública, no início os da privada. Por outro lado, não distingue colégios de topo, de outros do ensino privado. E tem um viés, que é parte do universo – nas privadas estão alguns (quantos?) alunos que querem ir para medicina por pressão familiar e menos por vocação, e isso acaba por ter impacto na carreira escolar. Finalmente os colégios do ranking têm bolsas com alunos “carenciados” que fazem percursos brilhantes. A questão não está – volto a dizer – nos alunos que entram na escola mas no que a escola tem para lhes oferecer. Ou têm dúvidas do que responder à pergunta do início? Sim, podem colocar um aluno pobre e miserável num colégio de topo e o que acontece é que ele vai aprender e vai aprender muito bem. E ser feliz na escola.

A caricatura que fazem aqui dos colégios de topo é um disparate, como se fossem autómatos a fazer testes para os exames. Não, há aulas de manhã ou à tarde o resto são artes, desporto, cultura. A diferença está na formação dos professores, nas condições de trabalho dos docentes, e na organização da escola. É neste trio que se resolvem todos os problemas.

Temos que debater porque a escola pública deixou de ser um lugar de emancipação, para alunos e professores. Isto se queremos defender a escola pública. É difícil fazer esse debate se chocamos de frente com um muro em negação a dizer-nos que não senhora, a escola pública está óptima. Parte deste muro , desta negação, que os professores replicam segue a orientação das ciências da educação dominantes (que fizeram da escola um espaço assistencialista, cheios de “tolerância” e “cidadania” e sem qualquer horizonte de emancipação e liberdade); parte tem a ver com as teorias dominantes governamentais que querem uma escola voltada para o mercado de trabalho (e eu diria que os professores e pais também acreditam nisto – voltarei ao tema também) e, finalmente, parte da negação vem dos próprios sindicatos que ao não conseguiram inverter este rumo (a derrota master foi em 2008-2010) criaram uma fábula de uma escola pública excelente, de docentes esforçados, que lidam com situações complexas todos os dias. O que é verdade, mas isso não faz uma escola.

Os rankings não mentem. Mostram uma realidade, parcial mas real. Os rankings dizem uma terrível verdade – a escola pública reproduz as desigualdades sociais existentes, logo não cumpre a sua função de escola. Cumpre outras: evitar delinquência, servir o mercado de trabalho, ocupar crianças enquanto os pais trabalham, dar de comer, no limite, mas não cumpre a função primordial que é ensinar e transformar. E a minha tese é que um professor não pode ser feliz se não cumpre a função de educar e transformar. O “brilho nos olhos” não chega quando conseguimos um lugar no ensino profissional para um filho de um operário ir estudar, mas quando temos uma criança que não está a aprender um raciocínio complexo e nós conseguimos ensinar esse raciocínio. Esse “clique” é apaixonante e é o que faz um bom professor. Quando eles aprendem, e por isso ficam melhores, mais livres, mais emancipados.

Os exemplos que são partilhados são sobre escolas TEIP. É o viés do pobrezinho e feliz herdado do salazarismo. “Porque se queixam enfermeiros de ganhar 1000 euros se outros ganham 600?”. Andamos sempre a comparar-nos com o pior, nunca com o melhor. As TEIP são uma minoria. O cenário real da maioria não é TEIP e não é bom. Porque não partilhar o exemplo de uma escola pública de um bairro nobre de Lisboa onde as duas turmas de 10ª ano de humanidades têm média negativa às disciplinas fundamentais e nas turmas de ciências, onde foram cirurgicamente colocados os melhores professores, 70% tem explicações privadas? Porque não colocar o exemplo dos filhos de operários, enfermeiros, a quem foi dito no 7º ano que “talvez ele estivesse melhor num ensino profissional, lá para o 9º ano”? Assim, condenanos com 13 anos, já desistiram deles. E estes são os bem alimentados. Não têm fome, têm ignorância e desconhecimento, e por isso são menos livres, e a responsabilidade é nossa. A escola pública pode dar de comer aos filhos dos 5 a 10% que passam fome, e ainda bem que o faz. Mas não ensina em média com qualidade (sim, há excepções!) os filhos dos outros 90% que alimentam muito bem os filhos e pagam impostos como condenados. Estes filhos – de operários, funcionários públicos, motoristas, enfermeiros, e mesmo de professores – não vão entrar na faculdade ou não vão entrar no curso que desejariam. E pior, os resultados médios dos exames anónimos revelam que não aprenderam o mínimo.

Podemos continuar a debater as franjas mais pobres ou podemos perguntar que escola é esta que nos dão. Não deviam ser os professores os primeiros a fazer esta pergunta?

Escola, para quem?

Uma professora deixou-me aqui a seguinte questão, então o conhecimento mede-se por 90 minutos de exame e tudo o resto que a escola faz?

Tem razão, professora, mas há um perigo nessa visão. O conhecimento não se espelha na sua totalidade numa fotografia de 90 minutos, mas num filme, de evolução. Por isso os exames, que defendo, medem algo, mas não tudo. Mas o inverso é ainda um perigo maior – pensar que a escola serve para tudo menos para ensinar conhecimento, e que o professor, por consequência, raramente é professor, mas é um sacrificado psicólogo, burocrata, assistente social, e animador cultural.A escola é um lugar para ensinar conhecimento. Não é um jardim de infância nem um armazém de crianças. Se a escola tem qualidade as crianças e jovens estão lá de manhã. À tarde deviam estar a brincar e a socializar, aprender artes, música, jogos colectivos, desporto, conhecer o mundo, ir a museus, e à praia, mas agora passam 8, 10 horas dentro da escola, explicações e afins e no fim enfiam a cabeça, sozinhos, no telemóvel, onde ainda são treinados para a automação (que é esse o papel dos telemóveis nas crianças e jovens, ensiná-los a carregar sozinhos, alienados num botão várias horas ao dia). E há mais gente preocupada com direitos dos animais do que com isto que andamos a fazer a crianças e jovens, tranformando-as em autómatos, com reflexos, com taxas de depressão e obsedidade, apartados da criatividade, catatónicos, porque com este ritmo a sua desumanização é galopante.

Se acham um horror um leão preso no circo o que achar de um intervalo numa escola de 10 minutos com miúdos agarrados ao telemóvel ? Nos colégios do topo são proibidos, mesmo no intervalo, e só há aulas por norma um turno. Coisa que defendo. Não são eles que estão errados, por serem uma elite, são os outros que estão errados, por não agirem em defesa das crianças na escola pública, que devia ser o lugar mais exigente e mais cuidado deste país. Bom, como a sala de aula na larga maioria das escolas não funciona como espaço de conhecimento, então alarga-se o período, mais apoios, mais aulas, mais explicações, mais, mais, mais. Um massacre. E o que acontece é que os miúdos – com razão – odeiam a escola, são aí infelizes, como indicam claramente as pesquisas. Ensina-se, não usando o melhor do conhecimento científico, com alta formação e pedagogia de excelentes docentes, mas por tentativa-erro e redundância. Até deixar exaustos alunos e professores.A escola também não é – não devia ser – para dar de comer.

Ouve-se cada vez mais que a escola tem outras valências de grande importância como dar de comer a crianças ou evitar que vão para gangues e afins. Ora, isto não é uma escola, é um departamento assistencial do Estado para algo que jamais devia existir no século XXI – fome.No fundo o que se está a criar é que há uma escola onde se ensina (de elite) e outra – pública e privada normais – onde, com esforço – ninguém o nega -, se ocupam de crianças e jovens o dia todo, os “aturam” até que eles entram, iletrados ou semi, no mercado de trabalho e sem ter adquirido conhecimento de fundo e desenvolvido as funções psíquicas superiores (abstração, memória, atenção dirigida, etc).A escola não se mede em 90 minutos. Mas aqueles resultados daqueles 90 minutos dizem muito sobre o que não está a fazer-se na escola pública e privada, e está a fazer-se nos colégios de elite. Em vez de desdenhar os que fazem bem porque não começamos a perguntar o que eles fazem bem, como fazem bem, e não exigimos isso para a escola pública que pagamos a peso de ouro?

As agências de rating e os rankings

O horror aos rankings é o mesmo que às agências de rating. Um tipo está doente, mede a febre e a culpa é do termómetro. Entretanto a doença alastra, já que a pessoa vai trocando de termómetro. Há muita gente que faz isto com a balança, está mais gordo, troca de balança. As agências de rating deviam ser inexistentes num mundo decente, são o termómetro que o capitalismo criou para medir a capacidade dos países se endividarem e pagarem dívidas. Medem a relação com o PIB, a produtividade e “custo” do trabalho e as lutas sindicatos e políticas, depois concluem se o país vai ou não pagar os juros, que é o que interessa na dívida (que é para manter). Desde a crise dos ano 70 que o capitalismo funciona empurrando este gigante terramoto, chamado dívida pública, que é privada, com a barriga. A crise de 2008 e a pandemia abriram mais umas crateras.

Como devem imaginar o problema é a economia, os países, as agências de rating são pouco recomendáveis para escolhermos, por exemplo, como lugar para almoçar. Mas o que medem, medem bem. Se há lutas sociais, os países descem logo para “lixo” – “olha que estes tipos estão a resistir, desce aí para lixo, ou lixo menos”, vêm os governos e dizem “vem aí o apocalipse, transformem-se em lixo para pagar este lixo”. E assim tem ido mundo. Os rankings medem a nova educação desta economia, que acima acabei de descrever. Medem um mercado de educação, competitivo entre países e dentro de países, e medem a standartização das “competências” adquiridas. Não servem o ensino privado de elite, onde não precisam de publicidade nem nunca precisaram. Têm anos de lista de espera. Querem discrição. Os rankings medem a adaptação da força de trabalho à economia pós anos 70, baseada na excelência de um grupo restrito que fará trabalho autónomo e científico e de uma imensa massa que vai para o trabalho automatizado, alienado e indiferenciado…Portanto eu sou contra os rankings, não me venham é dizer que eles são o problema.

O problema é a economia e a educação que eles expressam – e expressam de forma cada vez mais cabal que há uma imensa quantidade de gente que fica sem acesso a qualificações que lhe permitam sonhar com um trabalho não standartizado, realizado, e não alienado, ao longo da vida. Que será, e já é o da maioria, incluindo da parte dos professores que querem negar esta evidência. O que cria um trabalho alienado, sem lutas sociais contra ele? Crescentes doses de sofrimento que se vai expressar ao longo da vida no burnout, depressões, envelhecimento precoce, apatia, presentismo e outras dimensões de sofrimento no trabalho. Não são os rankings que devem centrar as nossas baterias, mas o que eles expressam. Expressam uma economia que ela sim é um lixo, baseada na acumulação e não nas necessidades das pessoas, desigual, brutal, e que se reflecte no campo da educação na brasileirização da educação portuguesa, em que cada vez mais há dois mundos sociais que não se cruzam.

O Ranking, o Palheiro e a Garagem

Um dos argumentos que mais li aqui na minha página sobre os rankings foi que a escola pública não pode ser colocada ao nível dos colégios de elites porque ela aceita todos os alunos, “incluindo com necessidades especiais, bairros problemáticos, pobres, muitos sem alimentação decente, sem apoio dos pais, e muitos que são obrigados a estudar até aos 18 anos, e não querem”.

Alguns professores partilharam as minhas notas dizendo que era “doloroso”, mas verdadeiro o que eu tinha escrito; a maioria dos aqui comentaram, porém, defendem que são dois mundos incomparáveis. Esta tese aqui expressa pela maioria o que quer dizer – sem disso terem consciência – é que a escola pública é pior porque…é pública. Porque aceita todos. É a velha tese da massificação, em que professores acreditam (“os alunos são maus porque isto é para todos, não pode ser excelente”) e que grande parte da população acredita também (“os professores são muitos, não podem ser todos excelentes”).

A tese da massificação como causadora dos problemas da escola está tão disseminada nas ciências da educação (que são dominadas pela pós-modernidade e pelo assistencialismo da esquerda – desenvolverei mais tarde), que a grande reivindicação dos sindicatos ao longo dos anos é reduzir o número de alunos por turma. Ora, grande parte das escolas de elite, aqui e no estrangeiro têm 30 alunos, ou mais, dependendo das disciplinas. Há disciplinas que exigem total ou parcialmente um professor por aluno, outras podem estar 50 numa sala a ouvir uma aula magistral (mesmo em idades muito jovens) que se podem dar aulas fabulosas. É um mito pensar que o problema está no número de alunos – o problema está nas condições de trabalho dos professores, na formação destes, nos programas para o “mercado de trabalho”, e na organização e gestão da escola. Ou seja, está no Governo e na forma como os professores aceitam ou não estas condições, ao longo destes anos.

Idealmente uma escola deve ser bonita, limpa e bem arranjada, e temos riqueza social para isso, mas se for num barracão com um grande professor vão aprender melhor do que com um professor em burnout numa escola parque-escolar-Siza-Vieira. Em Portugal todo o investimento é para cimento, remodelaram-se escolas, lindas, onde os professores ganham mal, a formação (também desenvolverei) tem gravíssimas deficiências, e as condições de trabalho não apelam à cooperação, a avaliação é doentia, baseada no afunilamento das carreiras. Esta tese da massificação está claro, ligada a outra – a da escola “centrada no aluno”. Quando a escola tem que ser centrada no professor – se eu fizer parte da direcção de uma escola quero saber quem são e como estão os docentes, essa é a preocupação número um. Como está o produtor? Neste caso de educação. Como quando entro num hospital quero saber como está o médico, como aprendeu, quanto ganha. Se eu tiver excelentes docentes (e isso só é possível com excelentes condições de trabalho) eu vou ter excelentes alunos, venham de onde vierem. Nos colégios de elite o docente é o centro do processo de ensino, não é o aluno. Quem define o que vai dar, como vai dar, e em que condições vai dar é o professor que assim eleva todos, em vez de se submeter ao nivelador por baixo que se tornou a escola pública, justamente para se “centrar no aluno”.

Os rankings não estão inflacionados nas escolas de elites. Os rankings medem os exames nacionais, que são de correção anónima – os da privada são eles mesmos muitas vezes corrigidos pelos professores da pública. O que os rankings mostram é uma abissal disparidade entre o que conseguem fazer as escolas de elite e onde se encontram as públicas. Os exames medem muitas coisas distintas, às vezes há exames muito bem feitos, outros que são de um facilitismo atroz ou errados (no ano passado bons artigos foram escritos sobre o de português e filosofia, no Público por professores). Mas são iguais para todos. Há ainda outro viés. A escola pública só o é para quem não pode pagar explicações, que se generalizaram, e que não raras vezes são dadas pelos mesmos professores da escola pública ou em centros de explicações à porta da escola – tudo isto já foi normalizado embora implique de facto uma privatização da escola pública, já que quem pode paga desde o 7º ano explicações a matemática, e no 10º ano a física, geometria, português e matemática, à razão de 260 euros por mês por disciplina. Portanto as notas que aparecem nos rankings na pública tão pouco nos dizem quais deles tiveram ou não explicações. Esta total anormalidade – ter explicações, que 8 horas de aulas não sejam suficientes!, ter centros de ensino privados à porta das escolas, é hoje vivida pela comunidade escolar como se fosse perfeitamente normal. A isto juntam-se outras ignominias também aceites com cumplicidades por muitos docentes – colocar os melhores docentes nas melhores turmas, haver escolas públicas a seleccionar a entrada de alunos, colocar os melhores docentes em ciências, e esvaziar as humanidades, etc, etc. Tudo isto se passa na escola pública. Que pagamos a peso de outro, para estarmos não no último do pódio mas a 45 lugares do pódio. Como se pode continuar a defender isto?

Os professores são vítimas, mas também são responsáveis. Por não defenderem outras políticas. Por chamarem um pai/mãe e lhe dizerem “o seu filho tem um problema” em vez de chamarem o pai/mãe e lhe dizerem “eu e o Sr. temos um problema com este Governo, e nestas condições quem sofre é o seu filho porque eu não o posso ensinar bem nas condições em que trabalho e como isto está organizado”. Crucificam os pais, exaustos, sem qualificações, a quem, depois de os mandarem ajudar os filhos a fazer TPCs! ainda culpabilizam pelo insucesso dos filhos. Só há aqui uma vítima, sem responsabilidade alguma, as crianças e os jovens. Que não aprendem. Que estão sem futuro. Nem os pais nem os professores lutam por eles.

Esta é a parte mais triste do diagnóstico que mostram aquelas médias, desistiram dos alunos, já tinham desistido dos filhos, apesar de todo o amor e boas intenções. Ninguém adulto luta pelo futuro do país, não têm força anímica para dizer que estão a condenar sucessivas gerações à ignorância, ao retrocesso. Isto quando o Governo há muito os mandou emigrar, e o PR se queixa, sem pudor e sem espanto público, que é preciso mandar vir força de trabalho de países com sistema de castas porque os portugueses, chatos, não querem trabalhar por este valor escravo. Não haverá por aí trabalho gratuito não? – faltou ouvir-se de Marcelo em Odemira. Ser pai e mãe é uma aventura para a qual a maior parte da humanidade não tem qualquer qualificação e, como sabem, não é exigido curso – para andar de carro há um curso e um exame, para ser pai e mãe não. A maioria dos pais nem sabe que os filhos estão condenados na maioria das escolas, nem tem meios para saber – cuidam dos filhos com esforço, sem saber quando estão a desistir deles. Cabe aos professores dizê-lo em vez de continuarem a auto-convencer-se da tese de que a escola pública está óptima, sobretudo quando não têm lá o público…É na crítica que serão parte da solução, e não do problema.

Há uma estratégia de dependência e atraso dos governos, que se expressa em tudo isto. Todo o dinheiro em Portugal é para a construção civil (o próximo Plano Resiliência é para construção e digitalização, automação, ou seja, mais Ipads e teleensino), nunca para a formação cultural e cientifica da força de trabalho e seu salário. E o resultado é este. Temos 140 mil professores dos quais 78% estão em exaustão emocional, e os devedores do Novo Banco declaram possuir na totalidade uma mota de água, um palheiro e uma garagem.

Polícia contra a Pobreza

Uma pessoa senta-se a almoçar e vê crianças a boiar na água a tentar fugir à morte, à miséria absoluta, explicam-nos que a culpa é da pandemia, uma pandemia que anda ali há séculos chamada imperialismo central e ditaduras locais, chamam a este caixão em que o Mediterrâneo está transformado um “braço de ferro diplomático”, e aparece Pedro Sanchez do – vou colocar por extenso -, Partido Socialista Operário Espanhol, e cruzamos os dedos e damos-lhe força “vai Pedro, diz Pedro, diz qualquer coisa de esquerda!”. E ele…diz – a fronteira não é só nossa, cabe à UE vir também policiar a zona. É o fim da linha. Há uma esquerda que nem sequer percebeu que quando desistiu de lutar por transformar o mundo, ficou igual ao mundo que não conseguiu transformar. Mortos-vivos a pedirem mais polícia contra a pobreza, um método infalível de resolver os assuntos.

O Apartheid dos dois Estados na Palestina

Miguel Sousa Tavares ontem lembrou que Israel ocupa territórios ilegalmente, até contra as resoluções da ONU; que a guerra actual começou quando judeus queriam forçar palestinianos a sair das suas casas, que era o mesmo que mouros da Mauritania virem para Portugal agora, nos expulsarem, porque estiveram cá há centenas de anos; que não se comparam os Rockets do Hamas com o poder militar israelita; e que o que Israel está a fazer, parece “que enlouqueceu”, em algumas zonas se compara a “uma solução final”, de extermínio e limpeza dos seus inimigos.

Confesso que voltei atrás para ouvir novamente. Não gosto em geral do tom dos seus comentários, e a única vez que polemizou comigo a propósito do Estado de emergência foi de uma atroz arrogância – não queria debater. É preciso porém reconhecer que o seu comentário ontem foi corajoso e preciso. Os quatro pontos que escreveu são exactos. Falta dizer algo – quando o historiador Israelita Ilan Pape escreveu A Limpeza Étnica da Palestina – Pappé é dos mais sérios e notáveis historiadores que li, é director do Centro de Estudos Palestinianos da Universidade de Exter – e, junto com, por exemplo, Edward Said, afirmaram que era impossível a solução de dois Estados. Grande parte do mundo afirmava então e apoiou a solução dizendo quer era a possível. Empurrando e aumentando, como se vê hoje, o problema.

O que aconteceu desde então? Israel destruiu a possibilidade da existência de um Estado Palestiniano, com ocupações, expulsões e guerras; os judeus de esquerda e/ou democratas que puderem fugiram do território para Nova Iorque e afins; para Israel, dispostos a ser colonos que expulsam outros, foram casa vez mais judeus empobrecidos da ex URSS, que aderiram de malas e bagagens à extrema-direita que está hoje no poder com esse apoio – o seu método, expulsão e perseguição tornou-se a única forma de sobrevivência; o Hamas ganhou apoio porque a OLP apoiou a solução dois Estados – e, sim, não se comparam Rockets com mísseis, mas ter o Hamas, um Partido Religião, como direcção não é a melhor sorte dos palestinianos. E de facto hoje existe só um Estado onde estão todos a conviver mas uns com direitos, outros sem direitos, ou seja, um apartheid. Nunca fui especialista em história do Médio Oriente, li Pappé, Said, e outros, há décadas que escreveram que o que se está a passar ia passar-se – não é possível insistir em soluções que não o são. A única solução para aquele território é um único Estado laico, bi nacional, com direitos iguais para todos os povos. E isso só vai ser feito quando os EUA deixarem de financiar a solução actual. Ou quando os movimentos sociais norte-americanos, talvez na forma revolucionária, o consigam impor.

Sobre os colonos israelitas que “fazem o que fazem para sobreviver”, os portugueses deviam reflectir melhor, porque também convivem mal com o seu passado “retornado”, cheios de equívocos e mitos. A descolonização não correu mal a Portugal, o que correu mal foi a colonização. Não se pode invadir a casa de outrem e ser parte da solução. Sair de um lugar bem onde se entrou mal. Pappé foi professor muitos anos em Israel, saiu para Inglaterra, como milhares, milhares deles manifestam-se hoje no mundo contra a ocupação da Palestina e a abjecta utilização por parte de Israel do Holocausto como desculpa para a limpeza étnica em curso. Não podemos ser quem somos num lugar onde não nos deixam ser. Não há colonizações boas. Só um Estado único com direitos iguais para judeus e palestinianos poderá trazer a paz ao território. A manter-se esta solução a limpeza étnica vai prosseguir, o apartheid manter-se e o mundo assistir horrorizado à barbárie.

A página do historiador Ilan Pappé está em acesso livre no Facebook https://www.facebook.com/ilan.pappe

Palavra de Honra

Hoje Portugal é um país de migrantes que se vê a braços com uma da suas maiores crises sociais com imigrantes na zona de Odemira. O que é ser migrante hoje? Quem é o “outro”, é assim tão diferente de “nós”? Há ou não um choque cultural, para além da evidente exploração de força de trabalho oriunda de países empobrecidos? A emigração é para uns um privilegio de escolha, mas para tantos contínua a ser um exílio económico? Como vai quem parte e como vem quem chega?

O Assédio do Lucro

Estudo casos de assédio no trabalho, que em inquéritos específicos chegam aos milhares. Da professora que fez greve e lhe são sempre dados os piores horários, olhares de lado na sala de professores, ostracismo; do jornalista que contestou os cortes salariais da Troika e, sabendo a gestora de recursos humanos que ele tinha outro trabalho à noite legal e essencial e tinha uma filha pequena, o colocaram no horário das 6 da manhã e lhe passaram a dar trabalhos humilhantes, sem interesse algum; do operário que ficou paulatinamente sem parte do salário, colocado sem turnos extra e deixou de conseguir pagar a casa, que perdeu – a responsável da chefia era uma mulher; do operário que se queimou gravemente e a gestora o chamou e lhe disse “não me apareça cá mais com outra destas”, “o que fez de errado?”, “Isto vai dar pontos negativos na avaliação…”.
No Observatório para as Condições de Vida e Trabalho estudamos milhares de trabalhadores. O assédio moral está disseminado nos locais de trabalho – durante anos a “luta de classes” dava-se por greves e confrontos; ou por pacto social (negociação colectiva), agora, sem greves e sem pactos, com a gestão por qualidade, avaliação de desempenho, e afunilamento das carreiras a selva chegou aos locais de trabalho. Se no assédio sexual, a vítima é a mulher, no assédio moral não há qualquer distinção, e isto que vos digo são estudos científicos – quando elas chegam ao lugar de Poder, as práticas são as mesmas. Quero ainda referir, e será rapidamente, que são os manuais de gestão de recursos humanos que ensinam – leram bem, ensinam – estas práticas, conhecer a vida dos trabalhadores e perceber como os podem acossar, fazer chantagem, nos manuais surge como flexibilidade de gestão de recursos. Em França chegou a haver um curso de gestores em que eles tinham que matar um gato fofinho para provar que eram bons a gerir despedimentos e cortes de salários. Nos nossos inquéritos o assédio sexual está entre 1 a 2%, o assédio moral entre 10 a 60%. Isso não desvaloriza em nada o assédio sexual – devia ser 0%. Mas demonstra que muito para além do sexo, e das denúncias públicas que fazem a agenda informativa, há uma questão produtiva central, que não origina debates na sociedade, que é o assédio moral no trabalho. Está em todo o lado.
Perguntam-me o que fazer? Acabar com o Poder para haver democracia nos locais de trabalho. O hábito faz o monge. As chefias que não assediam saem frequentemente dos lugares (tb conheço, casos de chefias que se recusaram a praticar assédio e foram ela mesmo penalizadas, isto na função pública), é preciso democratizar os locais de trabalho, ouvir quem trabalhar, eleger chefias e direcções, confiar nos trabalhadores dando-lhes boas condições laborais, acabar com os mecanismo de competição férrea como a avaliação individual de desempenho. É preciso lutarem, juntos, homens e mulheres, contra um poder descontrolado que gere as empresas no período neoliberal, e que é mais exercido por homens, mas quando é exercido por mulheres demonstra a mesma desumanidade – o lucro acima das vidas.
Sem isso podem lá colocar uma mulher ou homem que o destino vai ser o mesmo, com as mulheres nas chefias deixa de haver o que resta de assédio sexual, e isso é um progresso evidente, mas não passa a haver mais igualdade, porque a desigualdade essencial hoje na sociedade não é entre homens e mulheres, mas entre quem manda e quem obedece nos locais de trabalho.