Michael Roberts

O economista Michael Roberts tem uma página no facebook. Aqui a divulgo. Esteve em Portugal a semana passada a explicar esta simplicidade (quase) ninguém nos meios económicos compreende: há baixa produtividade em Portugal porque não há investimento e não há investimento porque há mais lucro em títulos da dívida pública no que na produção, ou seja, há mais lucro em viver encostado ao Estado do que em produzir bens. O contrário é falso: não há investimento porque não há produtividade, a frase repetida sem parar pelos Governos e empresas, não tem verificação empírica. Não há investimento em formação, máquinas, desenvolvimento e por isso há baixa produtividade e haverá, aliás, cada vez mais baixa produtividade. Dito de outra forma, quem gere o país acha que ter baixos salários, baixas qualificações (reais), que se traduz no aumento das exportações, é um caminho honroso. Disse ele também algo – até este modelo se vai esgotar e fazer ele mesmo cair as taxas de lucro.
A seguir este brilhante, humilde e incrivelmente simpático economista.

 

https://www.facebook.com/Michael-Roberts-blog-925340197491022/?pnref=story

Emprego Fresquinho

Insólito. Quando achamos que já nada nos pode surpreender em matéria de incompetência do Estado português face ao drama do desemprego eis que o Instituto de Emprego e Formação Profissional envia uma carta aos desempregados, com e sem formação superior, a oferecer-lhes um futuro promissor como…vendedores de gelados. Em dois modelos, cito a carta, quiosque ou piaggio. Numa parceria entre a Unilever/Olá/ Pingo Doce e o Estado. Metade desta inovação científica inédita, sublinho, metade, é financiado por nós, contribuintes da Segurança Social. O Pingo Doce explica ainda na carta que assim pretende contribuir para baixar o desemprego, uma missão que abraçou. A carta repete ainda a palavra empreendendorismo umas 20 vezes, não vão os desempregados perder esta oportunidade de uma vida.

Estou a imaginar-me em casa com um curso em bioquímica, mestrado, duas pós-graduações, a viver em casa dos pais aos 37, depois de ter trabalhado em shoppings e afins receber uma cartinha destas do IEFP; ou operária aos 52, com filhos adolescentes, com o subsídio de desemprego a acabar, o marido desempregado e deprimido, e abro a caixa do correio e…Epá ou perna de pau?

Observando a RTP

Há mais de dois anos que participo em programas de debate semanais na RTP, cuja qualidade acho subiu muito com esta administração/direcção em séries, documentários, reportagens, etc. Não sei se temos educação e cultura, ou seja, país para a RTP actual. Dito isto, o painel de comentadores escolhido para comentar a entrevista de António Costa pela RTP foi lamentável. Pelas razões óbvias: cada um de nós representa interesses políticos, quer esteja ou não num partido. Podemos ser ou não sérios – conheço tipos de esquerda muito sérios e tipos de direita sérios, e o inverso é verdade, para ambos. Mas todos representam interesses, regionais, sociais, de classe. O Observador por exemplo representa um sector neo-cons muito ligado à presença de capitais financeiros internacionais, de ligação entre algumas multinacionais e nacionais, como é o caso do grupo Jerónimo Martins/Unilever. É livre de lutar pelos seus interesses, ter um jornal, e nós discordarmos ou não com o que lá se publica. Eu não leio, porque tenho pouco tempo livre mas às vezes passam aqui no mural ideias e colunistas desse jornal e vou tendo uma ideia da sua luta mediática contra o aumento do salário mínimo e outras militâncias. Agora o Observador e esta ala política representa uma percentagem ínfima da população portuguesa. Há 4 milhões que vivem do trabalho e não de juros/rendas ou dividendos, 1 milhão de desempregados, entre 600 a 800 mil sindicalizados; metade da população vive fora de Lisboa e do Porto; uma parte no interior. O país é complexo e o serviço público deve ajudar a mostrar quem somos, não pode ser uma lupa de interesses minoritários que se agigantam pela presença desproporcional que têm na TV. Finalmente não compreendo, eu que não apoio a geringonça, porque António Costa depois de ser entrevistado precisa de explicação e legenda. Acho até um pouco rude para dizer a verdade, um tipo acaba de dar uma entrevista e vêm 4 outros explicar ao povo e contar às crianças o que ele realmente queria dizer…

Como os números podem mentir

Ao contrário do que noticiaram os media, os portugueses não podem gastar 357 euros no Natal porque a maioria dos portugueses não tem esse dinheiro. A média de 1,9 milhões de pensionistas é inferior a 400 euros, 1 milhão destes a 250 euros; 600 mil ganham o ordenado mínimo e 80% dos que trabalham por conta de outrem menos de 900; 1 milhão estão desempregados ou sub empregados, isto é, não sobram, à esmagadora maioria dos portugueses e dos seus filhos, 350 euros para o natal. O que há é portugueses a gastar 50 mil euros no Natal e outros zero, a média é 350 cada um…

Destruição da força de trabalho qualificada e da capacidade instalada.

Quero lembrar que Portugal não tem uma economia baseada na alta qualificação e desenvolvimento cientifico mas nos baixos salários. São os baixos salários a razão de ser do aumento das exportações, produz-se baratinho o que dá para competir no mercado internacional. Evidentemente que este não é o único e muito menos o melhor modelo de país, é um dos piores, mas a próxima vez que celebrarem o aumento do PIB lembrem-se desta premissa – estão a celebrar a produção de homens e mulheres para os “vender”, enquanto força de trabalho, para fora, para fora de duas formas: emigrando e na forma de servir turistas, que é o outro lado das exportações – oferecer o consumo aos de fora. Vejam, acho o turismo uma excelente ideia e gosto da ideia de um mundo sem fronteiras, guerras e muros. Mas há turismo e há fazer disto uma Florida da Europa, com os nossos filhos e netos a limpar hotéis e servir em lojas e restaurantes, por salários que não pagam contas de sobrevivência. E que sobretudo não fazem disto um país a sério mas uma sucessão de destruição da força de trabalho qualificada e da capacidade instalada.

Nota sobre estudo do SNS

Sobre algumas cartas que recebi de enfermeiros e técnicos de diagnóstico fica aqui uma nota muito curta: apenas uma pequena parte do nosso estudo diz respeito ao esforço médico pós troika – ainda assim as conclusões são brutais e politicamente não podem ser ignoradas. Não calculámos o esforço dos enfermeiros e técnicos e outros profissionais e a razão é simples – não foi isso que nos pediram. Olhamos a saúde desde o Estado Novo aos nossos dias, como um todo, e na última parte debruçamos-nos sobre o esforço médico. Mesmo assim referimos ambos, em alguns dados, naturalmente não como central porque – sublinho – não porque não sejam centrais mas porque esse não era o âmbito do projecto que temos em mãos. Deve ser feito esse cálculo porém, para enfermeiros e outros profissionais para entender o SNS na sua totalidade – talvez não se chegue a conclusões muito distintas dos médicos. Infelizmente, se assim for. Porque a conclusão é da exaustão do mais importante e rico recurso que produzimos neste país – trabalhadores. Sem trabalhadores qualificados com salários dignos e carreiras protegidas podem exportar tudo o que se produz; vender todas as casas, e assim ter PIBs cintilantes. Mas jamais teremos um país com futuro.