Direito à Habitação, Revoltas Estudantis e Greves Gerais na Europa

Estarei com o jornalista Miguel Szymanski, um representante da Acampada de Lisboa, João Veloso, e o dirigente sindical Luís Luis Bravo a debater o “Direito à Habitação, Revoltas Estudantis e Greves Gerais na Europa”. Estão convidados (necessário inscrição, é gratuita).

31 de Outubro- 10h-13h

Clube Ferroviário de Portugal (Lisboa) – Rua de Santa Apolónia, 59-63

Raquel Varela (Historiadora, professora Universitária)

Miguel Szymanski (Jornalista, escritor)

João Veloso (Representante da Acampada de Lisboa)

Luís Bravo (Dirigente sindical do SFRCI – Sindicato Ferroviário da Revisão)

Escola José Fontana | Trabalho, Cultura e Liberdade – centro de educação, formação e convívio do Jornal Maio

Inscrição gratuita mas necessária para geral@jornalmaio.org

Agenda Novembro/Dezembro 2026

Deixo aqui a agenda de debates públicos onde estarei e cursos que darei no próximo mês. São, como sempre, bem vindos.

Amanhã, sábado, estarei em Olhão, falarei de como o turismo, a especulação imobiliária e a agricultura intensivas são políticas económica e socialmente insustentáveis e como podemos ter outra forma de produção da sociedade que protege quem trabalha e as empresas familiares. Bicentenário da CM Olhão, conferência inaugural, 10 horas. Auditório de Olhão.

Começa em Novembro e vai até Dezembro, 5 sessões, o curso que darei ao final da tarde no Âmbito Cultural El Corte Inglés Lisboa sobre Sexo e Poder, Família e Propriedade na História “. Datas nos comentários link de Inscrição gratuita no site do Âmbito Cultural.

Dia 28 de Outubro pelas 18:30 em Santarém CCRS- Fórum Actor Mário Viegas, com a apresentação do meu livro O Canto do Melro, ao lado do Mário Tomé.

Dia 31 de Outubro, debate sobre Direito a Habitação, revoltas estudantis e greves na Europa, no Clube Ferroviário, 10-13 horas, comigo, Miguel Szymanski, Luís Bravo do Sindicato dos Revisores CP e João Veloso, da Acampada de Lisboa. Inscrição gratuita mas necessária para geral@jornalmaio.org

7 de Novembro. Marinha Grande, o que fica depois do descaso com o ciclone Kristin? Debate Jornal Maio, com cultura e convívio. Cartaz em link nos comentários.

13 de Novembro, Município de Silves – Convite para participação na Tertúlia Insurgente – Influência do Poder Político e Económico na Comunicação Social. 21:30 Entrada livre.

14 de Novembro. OFICINA TEÓRICO-PRÁTICA PARA UMA DIDÁCTICA HISTÓRICO-CRÍTICA. Formação certificada. Com Roberto Della Santa Informações no Centro de Formação Lagoa Albufeira e Silves.

14 de Novembro. Lançamento do Manifesto pela Educação, Biblioteca Municipal de Albufeira, 21:00 Com Hugo Filipe Lopes, Cobramor, Denise Estrócio, Roberto Della Santa.

22-23 de Novembro. Soria, Espanha, colóquio internacional sobre memória da transição espanhola.

Que Força é Esta?

Os Romanos tinham divindades protetoras da casa, a que chamavam lares. Delas vêm as palavras portuguesas lar e lareira.

A Constituição portuguesa diz que a um lar todos têm direito, para si e para a sua família (…) de dimensão adequada, em condições de higiene e conforto e que preserve a intimidade pessoal e a privacidade familiar (art. 65º).

Não obstante, sucessivos governos têm sonegado à juventude portuguesa e a grande parte da classe trabalhadora o seu direito constitucional ao lar. Em protesto contra tão flagrante violação dos seus direitos, milhares de jovens montaram acampamentos em praças centrais das grandes cidades. Protesto, manifestação — outros tantos direitos consagrados na Constituição, sem necessidade de qualquer autorização (art. 45º).

Não obstante, o Governo deu, por três vezes, ordem de destruição dos acampamentos pela violência desabrida do bastão. Invocou uma lei ordinária anterior à Constituição — portanto, anulada ou superada pela lei fundamental em tudo o que desta se afaste.

Ao intervirem inconstitucionalmente, os agentes da violência e, principalmente, os seus mandantes, sejam eles embora, na sua atividade profissional legal, funcionários públicos, constituem milícias ilegais de caceteiros que agridem cidadãos desarmados e indefesos.

Uns poucos de proprietários de milhares de imóveis e de fortunas e rendimentos de milhões deram ordens para que a força policial se transformasse em milícia de jagunços.

Para não serem desalojados e espancados pela polícia, deverão os jovens portugueses declarar os seus acampamentos vigílias pela aparição dos seus “lares”, imitando os peregrinos e as suas vigílias noturnas pela aparição da virgem de Fátima (nunca reprimidos, como fez notar o jornalista Jorge van Krieken)?

A revolta da juventude não se limita a Portugal.

Às ordens dos chefes das guerras que alastram pelo mundo, sobretudo daquele que ostenta no cocuruto a cor oficial do partido de Montenegro, os vários governos europeus decretaram que se desviassem para a guerra os meios orçamentais dos Estados, que são financiados pelos impostos pagos pelos trabalhadores; e, para isso, se desmantelasse a saúde pública, o ensino público, a habitação pública e os transportes públicos. A juventude que escolha entre ser carne para canhão ou declinar para a miséria e o desemprego.

A juventude e os trabalhadores não concordam — e vão continuar a gritar o seu desacordo:

30 de outubro: dia internacional de luta dos estivadores por “portos pela paz e emprego digno”, com greves, paralisações e protestos em mais de 40 portos mediterrâneos e europeus de importância estratégica, contra a economia de guerra, a militarização dos portos, o transporte de material militar para zonas de guerra, a desregulamentação laboral, a IA-utomatização do trabalho portuário e por aumentos salariais e redução de horários.

5 de novembro: depois dos 800 mil que se manifestaram por toda a França a 17 de Outubro, greve nacional e manifestações ‘interprofissionais’ em França, convocadas pelas principais centrais sindicais e organizações estudantis universitárias e liceais. Por aumentos salariais e das pensões, contra o projeto de orçamento do Governo Macron, por meios para os serviços públicos e contra os subsídios ao patronato.

11 de novembro: greve geral no Estado espanhol, a primeira desde há 14 anos, convocada por todas as centrais sindicais e movimentos sociais. No mesmo dia, greve estudantil em todo o Estado. Pelo direito à habitação, contra os despejos, contra a precariedade e o custo de vida, por aumentos de salários.

20 de novembro: greve geral nacional em Itália, convocada pela maior confederação sindical, a CGIL, contra o projeto de orçamento do Governo Meloni, por aumentos salariais significativos, investimentos maciços na escola e serviços públicos, contra a despesa militar. No mesmo dia, International Youth Strike and Day of Action no Reino Unido, com apelo ao abandono das aulas nas escolas secundárias e universidades e à convergência para uma manifestação em Londres, para “lutar pelo nosso futuro, não nas guerras deles”, contra o capitalismo, o rearmamento e a inação climática, por fundos para as escolas, universidades, empregos e a habitação.

23 de novembro: depois de numerosas greves sectoriais e manifestações nacionais desde o início de Outubro, a maior central sindical da Bélgica, a FGTB, convoca uma greve geral interprofissional para o caso de o orçamento saído do “conclave de outubro” do Governo pôr em causa a indexação dos salários, tentar “anualizar” o tempo de trabalho, aumentar o IVA ou “reformar” o sistema de pensões.

Na Alemanha, ao anúncio da chefia da Volkswagen de congelamento dos salários de 660 mil trabalhadores em todo o mundo até 2030 responderam os trabalhadores e os sindicatos alemães com a ameaça de resistência em massa e com “toda a força” e a exigência de aumentos salariais de 5% já na ronda contratual prestes a iniciar-se. Também a Comissão de Trabalhadores da AutoEuropa se manifestou no mesmo sentido.

Os trabalhadores e os jovens, em Portugal, não estão sós. Os ataques são os mesmos e são desferidos pelos mesmos. O caminho para os derrotar também é o mesmo: unidade, organização e greve, nacional e internacional. Para correr com os governos ao serviço do capital e conquistar governos ao serviço do trabalho.

Editorial desta semana do Jornal Maio

Nesta edição artigo de Jorge Van Krieken, a acampada é uma “vigília”; Reportagem na Praça D. João I no dia da repressão; Naza, no silêncio das salas de cinema por Rui Pereira; crónica do Padre José Luís Rodrigues Rodrigues contra o totalitarismo; o panorama das relações de trabalho em Portugal por António Garcia Pereira.A greve do Sindicato Ferroviário de Circulação na nossa rubrica A Voz dos Sindicatos. E mais. Tudo em www.jornalmaio.org O Maio pode ser subscrito em “newsletter” semanalmente chega ao email de cada um.

Direitos contra o Estado

Não é Estado de Direito, é Direitos contra o Estado. Numa altura em que o poder do Estado repressivo aumenta em quase todos os países, e se sucedem os atropelos ao Estado de Direito – que é pouco para o que precisamos, mas menos do que isto nada é – a vitória hoje dos três marinheiros do Mondego sabe-nos bem. Parabéns a eles, que resistiram, e aos advogados Paulo Graça e António Garcia Pereira que a este caso se dedicaram. Diz-se que as profissões liberais recebem honorários e não salário porque recebem honras, já que não se pode pagar a vida que um médico nos dá, a liberdade que o advogado nos dá, o conhecimento que o intelectual nos dá.
Era bom ver em Portugal um movimento de advogados em defesa dos movimentos sociais, laborais, direitos, liberdades e garantias, porque vai ser cada vez mais necessário. Vimos na França os advogados, de toga, na rua contra a repressão policial. Ontem um polícia deu um pontapé a um homem sentado no chão, e nada lhe aconteceu, foi tando como um adolescente que tem um arrufo e não como um homem armado com raiva e descontrolo ao serviço do Estado; na Argentina atiraram gás aos deputados do PTS, de esquerda; na Itália Meloni, que lidera o executivo, de extrema direita, quer que os adolescentes possam ser detidos sem nada terem feito, apenas “preventivamente”. À medida que a crise capitalista e a guerra como economia e lucro desta gente, se torna padrão vamos ser cada vez mais os que resistimos e cada vez mais também os avanços brutais contra as liberdades vão chegar. Vamos precisar. muito de afirmar Direitos contra o Estado, o que se faz nas ruas, com organização política e sindical, mas também com advogados decentes e corajosos.
Como me fez bem hoje saber que aqueles três homens, que agiram com tamanha coragem e dignidade, não foram ainda mais massacrados pelo sistema judicial, porque o Militar, na altura sob comando de Gouveia e Melo, dá vergonha a qualquer um. Parabéns!

Sessões Ágora Maio

Ágora Maio- ouvir as populações, os trabalhadores, debater a vida do país, convivermos juntos.

Reunião democrática plenária mensal do Maio para debater a situação laboral, política económica e social, pensar o país e o mundo, sempre com convívio, juntando as Associações Locais. A política não deve ser uma actividade de especialistas profissionais, mas um bem comum de todos e deve juntar debate, cultura e festa. Todos devem conhecer, pensar e debater a política com P grande, assim se constrói a esfera pública e a democracia dos trabalhadores.

Sessões Ágora Maio

7 de Novembro – Marinha Grande, o que ficou do que passa depois do descaso com o ciclone Kristin? Que economia, cultura e vida para a Marinha Grande? (local a anunciar). Aberta ao público. 17:45-20 horas Biblioteca Municipal da Marinha Grande. Com convívio. Teatro, vidreiros, convívio e muito mais.

28 de Novembro – Lisboa. Clube Ferroviário. 10-13 horas. O que está em causa na proposta de pensões do Governo? Com Adriano Zilhão. Aberta a associados (sem inscrição prévia) e a não associados (com inscrição prévia).

Organização. Escola José Fontana, Trabalho, Cultura e Liberdade. A Escola José Fontana, Trabalho, Cultura e Liberdade é o centro de formação, educação e convívio do Jornal Maio. Se querem organizar na vossa terra, vila ou bairro uma Ágora para ouvir as populações, trabalhadores, sindicatos e associações contactem-nos para geral@jornalmaio.org

Poema para Raquel, para todos os utopistas

O meu amigo António Cortez enviou-me um poema de prenda aniversário. Parece ser sobre mim mas é sobre todos nós, partilho-o com a sua autorização.

É impossível ao homem mais rico do mundo pagar um poema, são precisas décadas e séculos de sistemas escolares, livros, editores, leitores, pensadores perseguidos, resistentes, para subverter a linguagem e fazer um poema. Ontem mesmo perguntei ao Prof. Valdés que vive e trabalha no Brasil, mas tem origem cubana, como está a escola em Cuba, ele não negou problemas mas disse que em Cuba “a escola ainda é o centro da comunidade, não é o shopping”…

O António Carlos Cortez tem sido um tribuno, poeta, educador e resistente da escola pública, para que todos possam ler, entender, se transformar e se desenvolver com a poesia.

POEMA PARA RAQUEL

Na sua voz segura e forte

um tremor de amor reluz

Parece por vezes intuir no ar

a energia vital que nos conduz

e faz de cada dia

novo tempo inicial

Como podes arrastar contigo

os rostos cansados de existir?

Raquel é uma força motriz

e vai até à raiz e tem o sal

com que faz o seu círculo imaterial

Como posso dizer-te

que resistir

é entregar a cada dia

um pouco de poesia

a quem não pode nunca deixar de contigo pensar sonhar

combater sorrir?

Raquel é um modo

de dizer amar e segue

segura a sua via

Manifestar,

Eles “estavam a acampar na via pública”. Não! Os jovens acampados no Porto não querem morar numa tenda numa Praça, oh santa ignorância! Estão ali não a morar, ninguém vai ficar ali a viver, mas a simbolicamente se manifestar, a exigir um espaço para morar, contra a pilhagem legal do país. Estavam a exercer o direito Constitucional à manifestação, à expressão pública da democracia, numa cidade onde o espaço público desapareceu, quem quer reunir-se, juntar-se, organizar-se o que lhes sobre de espaço público? A lógica formal – a forma mais pobre de pensamento – tomou conta dos media, sem contraditório.

O Estado aprovou uma lei, com as empresas, os fundos abutres, que permite que os nossos impostos financiem fundos imobiliários até 2300 euros mês – um escarro em quem trabalha, quando mais de 70% das pessoas, mais de 4 milhões e suas famílias, ganham 1500 euros brutos. Usam a GNR em Covas do Barroso, que invade terrenos privados, ou a PSP no Porto, que distribui cassetadas e fraturas em que se manifesta, têm o monopólio da violência, ao serviço da acumulação de lucro, lucro, lucro, lucro, lucro, lucro, poder, poder, poder e mais poder, até vomitarem moedas e poder. Onde é que isto vai parar? Que guerra social é esta contra os jovens? Querem uma lei – a da natureza, a mais vulgar das espécies tem ninho. Querem outra lei? A Constituição, garante a todos o direito a resistir e ter habitação. E ainda outra lei? A que fazemos nós quando lutamos pela nossa liberdade.

São vândalos sim – não a juventude, que finalmente largou as redes socais, ufa!!!!!, e se apresenta à luta, na Europa, mas os Montenegro, os Pedro Duarte, escondidos atrás de homens armados, esta milícia Chegana, que invade rádios e o Estado encolhe os ombros, ao mesmo tempo que envia homens armados para uma Praça pública contra jovens a exigir casa para morar. Esta gente que Governa e que nós nunca saberemos em que trabalharam, o que deram ao país, em que contribuíram para a nossa vida. E que têm casas e mais casas, e lugares no Estado. Onde fazem aprovar leis para impedir os outros de terem uma casa para viver, de viverem do seu negócio familiar, de terem uma terra para trabalhar.

Estamos convosco, todos os que não têm casas, todos os que aspiram a um futuro, em vez de emigrar; estamos com as empresas familiares expulsas das cidades, estamos com as populações ameaçadas pelas minas e painéis solares.

Queremos de volta um país que não seja um misto de um pacóvio vendedor de imobiliária, a la PSD e IL, com um arruaceiro, o Chega, e um bem comportado porteiro desta choldra, o PS.

A vossa “estabilidade” é a nossa cova. A nossa luta é um país inteiro, onde podemos e onde vamos ser felizes.

Hoje faço 48 anos, exactamente 30 anos, três décadas, a estudar revoluções e ainda esta semana no Norte do país, numa pequena aldeia, aprendi algo de novo – “a minha mãe dizia-me sempre, filha resiste e diz não, nem que a gente coma sopa!”.

Hoje 19 horas Praça D. João I – contra a violência policial, pelo direito a uma habitação para todos.

Aniversário

Hoje faço anos e o Sr M., dono da tasca familiar onde almoço todos os dias, acabou agora mesmo de me ligar a cantar em fado, com alegria, os parabéns. Por coincidência o Jornal Maio também faz anos – 1 ano de vida. E torna público, neste dia, e por acaso – sim o acaso na história existe – o fim do mito da empresa modelo da Auto Europa. A partir dos dados da própria empresa concluímos que com o trabalho obrigatório aos domingos o número de doenças profissionais na empresa cresceu 20,5%, nas mulheres foi 50%!

Ora atentem -na empresa “modelo”, assim tratada pelos media, que nunca ouviram os trabalhadores em espaços onde eles possam falar sem medo, o Maio devolveu-lhes a voz: “Trabalhadores chegam a esperar mais de uma hora para poderem ir à casa de banho. A linha de montagem não é interrompida mesmo quando alguém se sente mal. Trazemos o relato de quem vive a situação no dia a dia: “Trabalhadores que, às vezes, se sentem mal até podem ter uma queda de tensão, chama-se a ambulância e a linha não para para dar assistência ao trabalhador. Ele é posto ali, ao lado da linha, e a linha continua a andar. E não há paragens nem numa situação dessas.””.

Porque quis falar disto no meu aniversário? Porque descobri cedo na vida que nós só somos boas pessoas se estamos ao lado de boas pessoas a fazer coisa decentes. A acção coletiva – o fazer juntos, a actividade – é que molda a nossa ética e o nosso quotidiano. Somos com quem andamos e sobre que estrada andamos. Eu podia escrever aqui sozinha todos os dias, mas fazer junto é muito melhor. Liga-nos ao género humano.

Somos muito mais quando conseguimos lidar com os desafios e frustrações e erros de fazer juntos. Estivemos ao lado daquela mãe da Auto Europa com dois filhos pequenos que foi à reunião do nosso projecto falar das suas dores e da sua luta; este fim de semana conhecemos de perto a Aida e o Nelson, casal de pastores de Covas de Barroso, ela disse-me que o coração dela tinha tremido de emoção quando soube que eu ia lá, mal sabe ela que o meu tremeu muito mais, estar ao lado daquela montanha de dignidade e coragem; como ouvimos aquele ferroviário mecânico, que entrevistámos este fim de semana – “eu gosto mesmo é de avarias…porque me fazem pensar, venho no carro a pensar como vou arranjar aquela avaria do comboio” ou a enfermeira que disse “converso sempre antes de tirar sangue, de tudo e de nada, porque conversando as pessoas ganham confiança em mim, sentem-se bem e não desmaiam”.

Porque vivemos um modelo estrelato, em que os intelectuais públicos (em geral as figuras públicas, porque intelectuais públicos quase não temos sequer, é bom dizê-lo sem medo de ofender, o cenário é mesmo parco) têm mais peso do que os organizadores, e os organizadores são quem faz o mundo avançar.

Talvez grande parte de vós não saiba que o Maio não nasceu há um ano e que eu sou apenas um grão de areia neste projecto que é feito todas as semanas coletivamente, com algumas dezenas de pessoas, probono, e muitos deles organizadores que não são conhecidos publicamente – e que fazem essa coisa imprescindível que é organizar gente. Não há atalhos, eleições, lideres carismáticos para resolver a vida. Sejamos adultos, ou nos organizamos com força coletiva ou estamos lixados.

É difícil encontrar uma gralha no Maio, as ilustrações são uma visita a um museu vivo, quando hoje estamos rodeados de IA, feia que dói; o Maio publica só hoje a avassaladora saúde dos trabalhadores da AutoEuropa, onde Costa e Marcelo se apresentaram ao país; corta o silêncio face ao julgamento dos marinheiros do Mondego; entrevista Carlos Ochoa, porta-voz do Sindicato dos Estudantes, a maior organização estudantil do estado espanhol sobre a luta pelo direito à habitação em Madrid; fala dos estafetas em luta, dos indicadores métricos que deixam o SNS sem centrar-se nos doentes; do mal estar no ensino superior; de livros, de teatro, de poesia, da mostra de Frei Betto em Portugal; conversa com o Antonio Carlos Cortez Letras no podcast Tempo Contra o Tempo. Na Novilingua, uma das rubricas com mais sucesso do Maio explica-se a diferença entre invadir e ocupar. Na “IA e universidades: a nova anatomia da fraude” um dos mais importantes estudiosos da IA pergunta -Que tipo de cultura educativa estamos a criar num contexto de aceleração tecnológica do capital?

Que prenda desejo eu? Que reconheçam que a minha voz pública é uma voz que só existe porque existe um grande coletivo que precisa muito de mais organizadores como pão para a boca; de mais apoio financeiro, mais gente para fazer reportagem ir aos lugares, ajudar na administração.

Precisamos de mais gente disposta, como as dezenas que fazem o Maio e as centenas de associados, a querer pensar e fazer organizada e colectivamente. E se não for no Maio que seja em qualquer lado, mas sozinhos é o estado em que nos querem no trabalho, no Estado, nas empresas, nas escolas e nas Universidades, cada um sozinho face ao poder, poder do Estado, dos directores, dos gestores. Juntos podemos fazer desta vida um fado alegre, cantar pela manhã, viver sem sacrifícios, amar e ser amados, apreciar a beleza, ter um trabalho que nos faça resolver avarias e pensar, cuidar e ser cuidado, imaginar, criar. Não é pouco. Viva a classe trabalhadora! Viva a cultura!

Para ler e apoiar o Maio, aqui https://jornalmaio.org

Sexo e Poder, Amor e Família na História

Darei este curso, “Sexo e Poder, Amor e Família na História”, no Âmbito Cultural El Corte Inglés Lisboaes em Lisboa, mediante inscrição e vaga. Todas as informações aqui:

Sinopse

Quero ser feliz – as palavras de Rosa Luxemburgo ecoam. No meio de outras palavras – amor, sexo, amizade, família, sexos e género, modo de vida, propriedade, religião, Estado, poder. Como as mudanças nos padrões políticos, sociais, económicos, religiosos e culturais influenciaram, ao longo dos séculos XIX e XX, a família, a forma de viver as relações amorosas, pessoais e íntimas? E como estas moldaram as instituições políticas, a cultura e a economia?

Este curso percorrerá quatro autores, engajados no pensamento crítico, que estudaram o amor, a família, o sexo e o poder: Sobre o Amor, do filósofo Leandro Konder; Sexo e Poder: a Família no Mundo 1900-2000, do sociólogo Goran Therborn; textos de Alexandra Kollontai e o sexo; e o clássico As Origens da Família, da Propriedade Privada e do Estado de Friedrich Engels.

1.ª SESSÃO — 6 DE NOVEMBRO

As Origens da Família, da Propriedade Privada e do Estado.

2.ª SESSÃO — 11 DE NOVEMBRO

Sexo e Poder, uma história global.

3.ª SESSÃO — 20 DE NOVEMBRO

Fascismo e Perversão. Saló ou os 120 dias de Sodoma.

4.ª SESSÃO — 2 DE DEZEMBRO

Mulheres, Propriedade e Trabalho – amor-camaradagem na obra de Alexandra Kollontai, sob o crivo da crítica à apropriação identitária da autora.

5.ª SESSÃO — 4 DE DEZEMBRO

Sócrates e Marx, Ovídio e Rosa Luxemburgo, Camões e Fourrier, Flaubert e Balzac – o amor é.

O Chega, uma milícia fascista

O Chega fez a sua primeira acção de milícias. Para o justificar socorreu-se da lógica formal, que há muito tomou conta do espaço público – se estudantes ocupam, disse o Chega, porque não invadimos também? A acção desta milícia, foi – não é de somenos! -, contra um órgão de informação e na Academia. Ou seja, a esfera pública que não controlam. Ora a greve, parar a produção, é legal, para defender os trabalhadores, mas parar a produção pelos patrões, lockout, é ilegal. Matar um judeu, comunista ou homossexual na II Guerra era matar; matar um nazi também é matar. Ambos matavam, uns para impor a barbárie, outros estavam na resistência para nos defender da barbárie. Prender um nazi assassino é proteger a sociedade, prender um opositor político é impor uma ditadura à sociedade. O Chega não é um partido, é uma milícia fascista, foi exatamente isso que foi ontem, às claras, uma milícia contra estudantes e jornalistas. Quem achar que é uma brincadeira o que se passou ontem em Coimbra não percebe nada de política.

Ocupar uma praça para lutar pelo direito a habitação é ocupar um espaço público para defender a dignidade humana contra o roubo pelos fundos imobiliários, os que o Chega aprovou há duas semanas com o PSD e a IL; ocupar as terras e impedir máquinas de minas avançaram e destruirem a água potável é lutar pelo direito à vida. Tudo isto é resistir, direito inscrito em todas as Constituições modernas. Já um partido fascista como o Chega invadir um órgão de comunicação social é esmagar o direito dos jornalistas decidirem quem entrevistam, como e quando. É usar da violência para impor uma ideologia que justifica a morte e perseguição de quem consideram indigno de viver ou ter direitos.
Se um Israelita atira uma pedra a um Palestiniano está a lutar por roubar-lhe as terras, se um Palestiniano atira uma pedra a um israelita está a lutar para não ser roubado.

O Chega é um partido-milícia fascista. Não vivemos hoje num regime fascista nem acho que sejam favas contadas lá chegarmos, a resistência na Europa ergue-se e apenas começa. Mas o Chega é uma criação monstruosa das classes dirigentes portugueses que, com medo de greves e resistência popular aos salários miseráveis e horários de escravatura, financiam, apoiam, e entrevistam, nos jornais e nas TVs do Estado e nas privadas, esta organização de violência e morte, que espalha pelo país a mais elementar manipulação e violência. Ontem silenciaram uma Rádio, mas há anos que calam jornalistas e deputados, aos gritos e às ofensas, já eram uma milícia, só não via quem não queria.

Precisamos salvar Portugal do Chega. Não vai ser com o PS, já se percebeu, nem vai ser com queixinhas no Facebook. Organizemo-nos! Como dizem os bravos de Covas do Barroso o povo tem de se juntar e impor a justiça, precisamos mesmo de nos juntar, organizar, porque há um mundo novo de paz que quer nascer. Para isso, precisamos tirar da frente estas milícias, da morte e da guerra, como o Chega.

Por Adélia Carvalho, Valongo, 9 de Outubro de 2026

Raquel Varela Uma senhora que dá trabalho à História

Há pessoas que entram num estúdio de televisão e sentam-se. Raquel Varela senta-se, mas traz gente com ela. Operários, professores, enfermeiros, mulheres que fizeram revoluções e ainda tiveram de ir preparar o jantar. Não se veem, não precisam de maquilhagem, mas ocupam espaço. O realizador pode contar quatro comentadores;  mas à mesa estão muitos mais.

É uma das suas pequenas indisciplinas: recusar que uma conversa sobre o mundo se faça sem aqueles que o põem a funcionar.

Historiadora, professora, investigadora, comentadora, escritora. Assim alinhadas, as profissões parecem muito bem-comportadas. Quase se imagina um gabinete sossegado, uma chávena de chá, papéis arrumados por ordem alfabética. Depois Raquel começa a falar e percebe-se que os papéis, embora arrumados, contêm material inflamável.

Estuda o trabalho. O assunto tem a vantagem de ser universal e o inconveniente de incomodar quem prefere discutir a economia sem os trabalhadores. Interessa-lhe saber quem produz, quem recebe, quem decide e quem chega a casa sem forças para perguntar porquê. Há perguntas suas que parecem simples até se descobrir que obrigam a mudar toda a disposição dos móveis.

Na televisão, onde uma certeza pode nascer, atingir a maioridade e reformar-se antes do intervalo, Raquel traz o desconforto da memória. Alguém apresenta uma inevitabilidade e ela começa a procurar-lhe a certidão de nascimento. Quem a decretou? Em benefício de quem? Desde quando? A  mesma inevitabilidade, que entrara tão composta, começa a desapertar o colarinho.

É um prazer vê-la enfrentar um adversário: aquela prontidão de quem ouviu o argumento inteiro e já lhe encontrou a costura. Há firmeza, ironia, conhecimento. A professora aproxima a cadeira; a historiadora abre o arquivo; a comentadora olha para o relógio, porque sabe que a televisão concede três minutos para explicar o que levou dois séculos a acontecer.

E a escritora trata de encontrar uma frase que caiba nesse aperto.

A sua classe está na maneira como sustenta o confronto. Uma elegância com coluna vertebral. Pode sorrir sem ceder, discordar sem pedir desculpa pela existência da discordância. O argumento vem vestido, mas vem armado de razões. Quem esperava uma conversa de cerimónia descobre que a cerimónia inclui perguntas difíceis.

Da luta de classes fala com a naturalidade de quem sabe que ela continua a existir mesmo quando lhe mudam o nome. Basta olhar para um prédio: alguém possui os andares, alguém os limpa, alguém os construiu e talvez não consiga pagar um quarto. Raquel tem o hábito pouco decorativo de reparar nestas coisas.

Nos livros e na investigação, procura os que tantas vezes ficaram à porta do retrato oficial. A História pode ter reservado o centro da fotografia a um homem importante; ela quer saber quem estava atrás, quem segurava a escada, quem costurou a bandeira, quem abriu caminho. De repente, a fotografia ganha profundidade. E o homem importante tem de chegar um pouco para o lado.

Como professora, leva para a sala essa inquietação. O passado deixa de estar imóvel à espera de uma pergunta de exame. Tem salários, medo, coragem, escolhas. Tem pessoas que não sabiam como terminaria a história em que estavam metidas — tal como nós.

Como escritora, dá-lhes espaço para respirar. Entre o estudo das revoluções e a narrativa de uma vida, há o ouvido atento a uma voz, a um gesto, àquilo que uma pessoa arrisca quando decide desobedecer. Até um melro encontra lugar na sua obra. Convém escutá-lo: pode haver mais mundo naquele canto do que num discurso inteiro.

A solidariedade com o povo palestiniano pertence a esta atenção insistente à vida dos outros. A distância não lhe serve de descanso. Uma criança debaixo dos escombros não se torna uma abstração por estar longe. Os direitos de um povo não podem ficar suspensos enquanto o mundo escolhe palavras confortáveis. A mesma preocupação acompanha a sua defesa dos trabalhadores, dos serviços públicos, de quem enfrenta a exploração, o racismo ou a guerra.

Apresentar Raquel Varela exige, portanto, algum cuidado com os verbos. Estuda, ensina, escreve, intervém. Mas também desarruma, pergunta, insiste.

Se lhe dermos uma cadeira, é provável que pergunte quem a fez. Se lhe dermos a palavra, convém reservar tempo para a resposta.

E, se lhe dissermos que o mundo foi sempre assim, talvez seja prudente levar bibliografia.

Escola José Fontana, Trabalho, Cultura e Liberdade

Prometido é de vida. Chegou a Escola do Maio, para debatermos, conhecer e convivermos. Queremos reconstruir a esfera pública e conversar, em liberdade, uns com os outros.
Escola José Fontana, Trabalho, Cultura e Liberdade

O Maio vai começar a sua escola pública e a sua Ágora – um espaço democrático para ouvir todos, em debate livre, sobre as suas propostas para os nossos problemas comuns.
Debates, cursos de aprendizagem de Democracia real e Política como P grande, não queremos mais política feita de escândalos e “comunicação” meditaria, a Política é a causa comum (o que é a inflação real, o que se passa com as pensões, como se organizam greves), actividades de convívio, passeios a Museus, piniques, palhaços e jogos tradicionais, dias para crianças sem ecrã. Deixo aqui as primeiras actividades. Para já em Lisboa, dia 7 também na Marinha Grande e em breve no Porto. E onde e quando as associados quiserem. Se quiserem na vossa terra, vila organizar é só entrarem em contacto connosco. Inspira-nos Saramago: “O conhecimento une cada um consigo mesmo e todos com todos”

Curso Compreender a Crise Política com Gramsci. Escola Secundária Camões. 18 horas. Com o professor Roberto Leher
A crise política surge como um confuso amálgama de escândalos, lutas fraccionais, degradação da esfera pública, mas toda crise é de igual alcance? É possível pensar conexões entre a ascensão da extrema-direita e as crises que se interrelacionam? A aula discute a atualidade de categorias gramscianas de análise de correlações de forças para compreender melhor a situação portuguesa, europeia e mundial. Aborda conceitos como hegemonia, crise de hegemonia (crise de representação, abstenção, lutas entre os de cima, jornais), crise orgânica, correlação de forças e a centralidade dos aparelhos privados de hegemonia no manejo e superação das crises. Entrada gratuita, com inscrição obrigatória para geral@jornalmaio.org

Ágora Maio- ouvir as populações, os trabalhadores, debater a vida do país.

Reunião democrática plenária mensal do Maio para debater a situação laboral, política económica e social, pensar o país e o mundo. A política não deve ser uma actividade de especialistas profissionais, mas um bem comum de todos. Todos devem conhecer, pensar e debater a política com P grande, assim se constrói a esfera pública e a democracia dos trabalhadores.

Sessões Ágora Maio

7 de Novembro – Marinha Grande, o que ficou do que passa depois do descaso com o ciclone Kristin? Que economia, cultura e vida para a Marinha Grande? (local a anunciar). Aberta ao público.

28 de Novembro – Lisboa. Clube Ferroviário. 10-13 horas. O que está em causa na proposta de pensões do Governo? Com Adriano Zilhão. Aberta a associados (sem inscrição prévia) e a não associados.

Festa de Natal do Maio 19 de Dezembro. Clube Ferroviário 14-18 horas. Com Teatro Umano e Palhaçaria para crianças. Rita Maria Bastos Wengorovius

Assembleia Geral Maio. 16 de Janeiro. 14-18 horas. Assembleia geral da Associação Maio em Movimento. Oficina de BD com João Mascarenhas Clube Ferroviário.

A Escola José Fontana, Trabalho, Cultura e Liberdade é o centro de formação, educação e convívio do Jornal Maio, as actividades são gratuitas para os associados, que têm prioridade nas inscrições. Quem não for associado pode inscrever-se sendo que algumas actividades são pagas, valor que será usado para apoiar o Jornal, os artistas e os professores. Para inscrições e informações escrever para

geral@jornalmaio.org

Greve a la CR7

A única coisa interessante na novela Cristiano Ronaldo é que entrou em greve. Talvez agora possamos todos seguir o seu exemplo e sobretudo o dos bombeiros e professores em França, estes, perante a ameaça da polícia de choque para os estudantes desocuparem os liceus, que ocuparam contra os cortes orçamentais, fizeram um cordão humano, de professores, a proteger os alunos! Há mais – muito mais. A greve de Madrid da educação, por tempo indeterminando, com plenários e assembleias diários nas escolas e nas ruas, marcada por todos os sindicatos, leram bem – todos -, com o apoio das associações de estudantes e tudo com uma exigência – redução da jornada de trabalho em escola para 17 horas, o resto do tempo é para com calma preparar aulas! Ou os mais de 50 mil estudantes alemães que, pela terceira vez este ano, fazem greve e saem às ruas contra o serviço militar obrigatório e os gastos de guerra. Ou as acampadas – já são dezenas em toda a Espanha – que não aceitam as medidas paliativas de Sanchez, mostrando a geração Z e o alfabeto inteiro a erguer-se.

Esta droga paralisante que é Ronaldo e o futebol em Portugal, aspergidos por televisões e rádios, financiadas pelos mesmo que financiam os Bancos e os fundos para hipnotizar a população, já fede, há muito. Uma coisa é o jogo e que se divirtam e muito, outra é manipular, esconder e asfixiar a esfera pública que vê o SNS, as Universidades, as escolas, todos os serviços, colapsarem sem financiamento, e procura fazer esquecer que ontem o partido fascista Chega, a extrema direita da IL e o PSD deram a mão para resolver o lucro dos fundos, que eles chamam “crise de habitação”. O que foi aprovado permite aos accionistas bancários que já têm 20% das casas para arrendar entrarem com subsídios (do Governo, até 2300 euros) no mercado de arrendamento, acelerando os despejos dos trabalhadores e famílias. Ou seja, estes subsídio dependentes são ajudados pelo Chega, pela IL e pelo PSD. E o PS ainda vai aprovar orçamentos? E nós, fazemos como em Espanha, mobilizamos-nos ou ficamos à espera do PS?

Sai hoje, como sempre à quinta, quentinho, o www.jornalmaio.org – leiam, se puderem, o nosso artigo de editorial onde analisamos as medidas em Espanha, e onde demonstramos porque o preço dos combustíveis pode descer drasticamente, mesmo com guerra e sem mexer nos impostos. Deve-se descer impostos e parar já investimentos em guerra mas pode-se descer drasticamente o preço dos combustíveis mexendo nos obscenos lucros da Galp, cujos poucos accionistas concentram milhões em lucro por uma magia que publicamos neste número.

Um povo que conhece pode libertar-se, na ignorância nos querem. Façamos greve à ignorância e, como Ronaldo, mas sobretudo como em França, Alemanha, Espanha lutemos a sério pelo nosso futuro. Até pelo direito a ter tempo livre e jogar à bola.

Expropriar os fundos imobiliários, já!

Maricarmen tem 87 anos, a renda passou de 500 para 2300 euros, ela foi despejada de cadeira de rodas, pelo Estado, com 8 polícias de corpo de intervenção, para que serve a polícia? A população de Madrid reagiu, numa manifestação espontânea. Ela – já no hospital, sentada na cama, quase mas 90 anos- , disse “não parem de lutar”. A partir daí ocupação da Praça do Sol, milhares na rua, e os professores e estudantes (maré verde pela educação pública) juntaram-se à manifestação pelo direito à habitação. Tento recordar-me da música Ay Carmela, cantada na revolução espanhola, e trauteio “Ay Maricarmen! Velhos são os trapos!”

O Governo de Espanha diz que em dois dias vai apresentar uma reforma da habitação. Nada como manifestações de massas, e com ocupação da Praça do Sol, centro turístico e hoteleiro, para fazer ver aos Governos que não existe crise de habitação, não faltam habitações, não há escassez de casas. O medo mudou de lado em Espanha.

As cidades estão transformadas em refugio de capitais especulativos, em hotéis, hotéis, hotéis, hotéis e as pessoas vivem a 2 horas do trabalho, não comem bem para pagar metade do salário em habitação ou vivem sem dignidade três gerações em cubículos. As terras estão a ser pilhadas, de Oeiras ao Barroso, da Comporta e Évora para estes vampiros colocarem os seus capotais. Não vivem, não habitam, não trabalham, não produzem, esmifram quem trabalha e destroem a paisagem e o espaço comum.

As medidas fofinhas para parar esta obscenidade – que se chama açambarcamento de casas e espaço público e não “crise de habitação” (parem de usar de palavras do senhor amo, não é “crise”, é açambarcamento) – têm sido o financiamento aos senhorios, o que, evidentemente só serviu para aumentar o preço das casas.

Há dias escutei na rádio Antena 1 -sem contraditório – um auto designado representante dos fundos de investimento imobiliários (um trabalhador árduo, tive pena do suor que verte) a dizer que têm muitas casas com rendas até 2300 euros para o Governo lhes pagar (subsídios) e eles colocarem no mercado…Ou seja, querem viver estes senhores de subsídios, da lei feita à medida deles pelo Governo deles pelo Estado deles. Não vi Ventura chamar-lhes parasitas, andava entretido com o tanque do Neves. Na verdade, do Ventura do Chega que trabalhou nos vistos gold ao serviço de imigrantes milionários ao PSD, IL e PS todos apoiam estas medidas desde a lei Cristas, que têm servido para fazer das casas casinos, e da cidade um parque de diversões, esvaziadas de alma e beleza.

As medidas das manifestações por Maricarmen em Madrid – viva Maricarmen – exigem a socialização sem indemnização dos fundos. É isso que devemos exigir, expropriação dos fundos, e – defendo-o claramente – de parte dos hotéis que aliás não são mais do que fundos.

É preciso distinguir pequenos proprietários, apoiá-los justamente, dos grandes donos disto tudo, que devem ser expropriados

Podem dar voltas, não há outra forma, o país está a ficar vazio de gente, nem trabalhadores nacionais nem imigrantes, ninguém aqui consegue viver. É urgente socializar os solos urbanos, mantemos a propriedade das casas mas não dos solos urbanos.

Não há crise de habitação nem falta de construção, pelo contrário, estamos rodeados de betão. Faltam jardins, ciclovias, espaços livres de convívio. Faltam-nos partidos socialistas a sério. Se alguém for ao supermercado comprar a comida toda e colocá-la no mercado um ano depois ao triplo é ilegal, como pode alguém, neste caso Bancos e hotéis, comprar as casas todas e ainda falar na rádio pública a pedir um rendimento máximo parasitário?

Uma manifestação por dia, o bem que nos fazia.

Maricarmen

Andaram a brincar no centrão com a vida das pessoas com propostas moderadas, para captar o voto ao centro, como rendas subsidiadas. O resultado está à vista, a nova fase do capitalismo mundial é de pilhagem directa. As rendas subsidiadas só servem para aumentar o preço das casas e financiar proprietários. Deixo-vos aqui dois grandes artigos, do Coletivo Habitação Hoje do Porto, um grupo de jovens adultos que luta contra os despejos, por um sindicato de inquilinos, como em Espanha. E um artigo no Maio onde sustentamos porque só há uma medida que pode mudar realmente a sitaução e permitir o acesso de todos à habitação – a municipalização dos solos. Cada um, nas cidades, é dono das casas mas não dos solos, são públicos, não se pode especular. É preciso ser radical, a moderação leva-nos para o colo da radical especulação dos fundos. Em link os dois artigos no dossier do Jornal Maio A Barraca da Falta de Casas. E uma salva de palmas para os ilustradores, reais de carne e osso que fazem deste jornal uma constante aprendizagem estética.

Ver menos