O caminho do inferno

Escrevi aqui que sou filha de engenheiros silvicultores. Foi isso que me permitiu ter noção do que se passava, permitiu-me algo imediato – saber que aquele fogo não era imprevisível. Há quem tenha conflito de interesses, eu tenho cooperação de interesses. Que a bem da verdade devem ser públicos. O meu pai chama-se Fernando Varela, foi sub-director regional de agricultura, foi nessa condição que deu o parecer negativo ao abate de sobreiros no caso Portucale. Membro do Partido Socialista e educado na escola de silvicultora de Azevedo Gomes, histórico quadro do PS, e um dos homens que mais lutaram em Portugal contra a eucaliptização do país e pensou o equilíbrio entre campo e cidade. O meu pai é certamente uma das pessoas que mais me ensinou ao longo da vida e que teve, tal como a minha mãe, estes dias horas e horas a explicar-me o que estava em causa. Estou à vontade porque não sou nem fui apoiante do PS, na verdade o panorama partidário português só não me provoca depressão por causa do belo vinho que bebo à sexta e as sardinhas assadas, gordinhas, que chegam em Junho.

Ontem chegaram-me as dezenas de artigos que um grupo de professores, investigadores publicaram ao longo dos anos 80 e 90 na Revista Florestal, no Público, no DN, noutros espaços, projectos inteiros, planos. Ribeiro Teles, Gomes Guerreiro, Azevedo Gomes, Maria Carolina Varela, Eugénio Sequeira, Jorge Paiva, Fernando Varela, Fernando Henriques (que foi para o MIT), Tito Costa. Fazem parte dos defensores das florestas em Portugal, do campo, de uma economia para as pessoas, que foram proscritos pelas celuloses, foram, como disse Jorge Paiva no Público, «vilipendiados, cilindrados» por defenderem os serviços florestais que antes de serem extintos já estavam destruídos pelo velho método – arrasar com o mérito ou transferi-lo para o sector privado. É isto que se passa com a gestão das florestas, dizem eles que sabem. É o que se passa com o Serviço Nacional de Saúde, digo-vos eu que o estudei. E, pelo que li estes dias, dito por quem sabe, é o que se passa com a Protecção Civil.

O general do exército vermelho Leon Trostky proferiu estas palavras inusitadas para muitos, mas derrotou 14 exércitos estrangeiros na guerra civil russa. Cito por interposta pessoa: «Temos que pagar bem aos nossos homens porque se não só vamos ter mercenários». O alcance desta frase é extraordinário e vai contra tudo o que o senso comum teima em dizer. É que se não cuidamos de quem nos quer cuidar estamos entregues aos medíocres, e na mão de medíocres a nossa vida está em risco. A moral, o saber e as condições laborais são três condições indissociáveis de qualquer unidade produtiva ou serviço que queira funcionar. Temos que ter pessoas decentes, competentes e pagar-lhes bem – estas três têm que estar juntas, não é possível abdicar de uma delas. Ou assumimos de uma vez por todas que as funções sociais do Estado são o nosso mais rico produto, que quem trabalha tem que ser acarinhado, que a competência não pode ser esmagada pelo compadrio político ou estamos entregues à propaganda e à sorte, que previsivelmente, algumas vezes, quando tivermos azar, vão levar-nos ao inferno.

Latino-Americanização de Portugal

Lembro-me de em 2008 ter ido a vários congressos internacionais onde se começa a cunhar o termo «latino-americanização de Portugal» e de ter na altura achado exagerado o conceito, passaram quase 10 anos e o que vimos em termos de Estado é próprio da decadência profunda dos serviços públicos de emergência análogo ao que se passa quando há desastres na América Latina, em que o Estado, erodido do seu papel social, não só não os evita, como é incapaz de socorrer. Atente-se o testemunho da vice-presidente da Câmara da Castanheira de Pêra, que não sei nem me interessa se é de esquerda, direita ou centro, e que tomou de assalto com um grupo de médicos e enfermeiros o centro de saúde para poder socorrer bombeiros, mas mesmo assim nem conseguiam abrir os armários com os medicamentos, estava tudo fechado. Isto num país que estava – quero sublinhar isto – em alerta laranja, emitido no dia anterior, que é o segundo alerta mais grave para condições climáticas, e nem um centro de saúde tinha aberto:

«”Senti-me completamente, completamente, isolada, abandonada”. As palavras são de Ana Paula Neves, vice-presidente de Castanheira de Pera, que contou à TVI como se viveram os primeiros momentos depois do início das chamas que fizeram 64 mortos e mais de 200 feridos.

Ana Paula Neves afirmou no passado sábado sentiu que “estava a viver no terceiro mundo” e que viveu “experiências de uma angústia, de uma solidão, que ninguém consegue explicar”.

Nós estávamos sem comunicação, imagine. Pedi a todos [secretários de estado, ministros, Presidente da República e primeiro-ministro] para pararem um bocadinho e meterem-se na nossa posição. Passavam só ambulâncias. Pessoas feridas. Tínhamos o Centro de Saúde fechado. Estávamos isolados. Não tínhamos comunicação”.

E foi esse Centro de Saúde que foi “tomado de assalto” para conseguir socorrer os bombeiros que tiveram um acidente quando se deslocavam para combater o fogo.

Entretanto há um acidente – foi hoje o funeral do bombeiro – e então eles dirigiram-se, naturalmente, com as ambulâncias para o Centro de Saúde. O Centro de Saúde fechado. Fomos a correr a casa de uma funcionária pedir para abrir o Centro de Saúde. Um dos bombeiros pedia para lhe darem uma injeção para ele morrer, tais eram as dores. Então, mobiliza-mo-nos e tivemos enfermeiras, uma médica, um médico que estava cá… e foi assim que tomámos quase de assalto o Centro de Saúde. Tentamos socorrer, mas é evidente: os armários estavam fechados, não havia medicação para as dores, não havia as mínimas condições. Estas coisas não podem acontecer”.

A vice-presidente transmitiu as suas angústias a Marcelo Rebelo de Sousa, pedindo-lhe que olhasse para o interior do país e deixou um alerta.

Senhor presidente, nós não tínhamos comunicações, mas o país estava a ter conhecimento pela televisão e a nível de saúde sabiam o que nos estávamos a passar e o que nos tínhamos. Isto não se admite, não se admite que Castanheira de Pera tenha um médico e meio, nem isso”.»
TVI

Curta nota

Obrigada a todos os que aqui, milhares, me deixaram mensagens estes dias pelo que escrevi. Foram quase 2 milhões de alcance destes textos. Destaco duas, no meio de tantas, que evidentemente são um alento: as que me chegaram de bombeiros e membros da protecção civil, alguns artigos serão republicados a seu pedido nas revistas das suas áreas e outros que escreverei, evidentemente voluntariamente. Não sei apagar fogos, vivi estes dias com angústia, fui para a cama e vou hoje ouvindo a voz do homem que viu a mulher e filhas serem carbonizadas à sua frente, sou filha de silvicultores, tenho uma casa no meio do pinhal de Leiria, sou neta de um resineiro. Adoro este país. Posso ajudar escrevendo e partilhando reflexões que são acima de tudo – sem falsas modéstias – fruto de longos debates colectivos perto de tanta gente que estuda e acredita que não estamos fadados a esta desgraça cíclica. E a de um dos meus doutorandos, escreveu-me a agradecer a minha «obstinação crítica». Lembrei-me nestes dias do romance O Zero e o Infinito, dos confessos dos processos de Moscovo que foram como cordeiros para o matadouro do mais falso processo político da história, tudo em nome de defender algo “maior”, o partido, o Governo, o Estado. Nunca, com qualquer partido, com qualquer governo, com qualquer Estado, contarão com o meu silêncio perante as injustiças. E foi isso que aconteceu: idosos, aldeãos, pessoas com pouca formação, sem conseguirem sequer falar a não ser dizer «estamos na mão de Deus» e desesperadas – porque se este incêndio tivesse sido nos latifúndios de Rio Maior, na Quinta da Marinha ou nas imediações das cidades ninguém tinha ficado em silêncio. Penso que o pai que perdeu tudo e que disse «levei-as para a morte» nunca me vai ler, mas escrevo-o na mesma: muita gente ao longo de muitos anos de decisões erradas, cobardes, incompetentes levou a sua família para a morte. Você fez tudo o que podia e sabia para a salvar.

(Des)protecção Civil

A minha confiança nas estruturas de protecção civil era tímida, por inércia e falta de alternativa, agora é zero. A crítica e a acção consequente com a crítica é como sabem um sinal de saúde mental, como gosta de referir o psicanalista Coimbra de Matos, ele aliás chama-lhe «revolta», ele não esteve entre os psicólogos ouvidos esta semana nos media que aconselharam paz e resignação, unidade nacional ouvi de um deles, que saltou assim da psicologia de bolso para a defesa do status quo do regime de uma penada, em directo. Não confiem, foi o que disseram quase todos os técnicos florestais, biólogos, paisagistas, sem rodeios: isto não aconteceu antes por sorte e pode voltar a acontecer em 2/3 do território nacional.
Como investigadora não de silvicultura mas do Estado Social quero deixar aqui um alerta que como todos vai cair num poço sem fundo – vai piorar, não confiem. O modelo de Estado e relações laborais degradou-se muito nos últimos anos: os cortes e a progressão na carreira afunilada aumentaram a progressão por compadrio; o partido-emprego é dominante, as vozes críticas são alvo de assédio moral, as funções sociais do Estado (incluindo as de protecção civil) estão sub contratualizadas a empresas privadas ou semi-privadas que sobrevivem dos problemas e não das soluções; o SNS está erodido por dentro com a reforma de um saber que saiu com os mais velhos; a gestão hierarquizada é autista, as decisões estão cada vez mais longe de quem sabe tecnicamente; os melhores profissionais reformaram-se (vejam que grande parte dos silvicultores que escrevem já não estão no activo) sem contratações de substituição e carreiras aliciantes; a fuga de cérebros é massiva; as universidades têm cursos cada vez mais curtos; os salários são desmotivadores, há muita gente capaz para trabalhar no país mas a estrutura está em decadência profunda…O que estou a dizer em palavras é mais ou menos o mesmo que os políticos disseram estes dias «quando sentirem um fogo a vários kms de distância numa zona de pinhal ou eucalipto com montes e vales fujam, não sabemos fazer mais». Só que os dirigentes pediram para confiarem neles, mesmo assim. E eu estou a dizer o contrário, não há razões para confiar, o país está em decadência acelerada nos seus serviços porque os seus profissionais, que é o que faz um país, estão a trabalhar em condições cada vez piores. Podia colocar um sinal de luto, silêncio e dar-vos abraços, mas abraços é coisa que não falta ao país. Pertenço ao grupo de pessoas que acha que tudo o que aconteceu era previsível. Se acham duro o que escrevi estes dias é porque não sabem o que pensei quando vi aquele homem dizer que mandou as filhas para a morte quando lhes pediu para fugirem e elas morreram carbonizadas e ele está vivo, morto-vivo, a mãe que gritava no tanque com a filha a arder dentro de casa, a mulher que foi desviada para a estrada a arder. O que penso de quem governou estes 40 anos hoje é impublicável. E não, o problema não é do povo que temos, essa é a única parte boa e bonita da história, como se vê pela reacção massiva solidária que nasceu de imediato porque os que se salvaram contam como foram salvos por outros: a senhora que abriu a casa; a que trouxe os vizinhos para o tanque, a que abriu o carro a arder para entrar mais um, o que voltou atrás para buscar mais outro. Os médicos, bombeiros, enfermeiros (e não as suas estruturas dirigentes), imagino exaustos. É com eles que deixo as minhas palavras de ternura e profunda admiração, repousou na sua força, improvisada no caso dos civis, dedicada nos profissionais, o que se salvou desta tragédia, com eles aprendemos que apesar de tudo Portugal vale a pena.

A economia política dos fogos

Estava há 2 dias com uma dúvida – algo se passava que eu não compreendia, um puzzle a que faltavam peças. A pergunta que estava na minha cabeça é porque é que o Presidente da Liga dos Bombeiros, que disse as coisas mais irresponsáveis e panfletárias que alguém pode dizer nesta situação foi entrevistado 100 vezes mais do que os especialistas em fogos florestais com 60 anos de trabalho acumulado.
Quero recordar-vos que Jaime Marta Soares em cima de um fogo fora de controlo a meio da noite deu declarações em directo aos jornalistas a dizer que “tinha os meios necessários” e que as pessoas quando foram para aquela estrada certamente pensavam que o fogo estava a kms e «inadvertidamente, olhando a distância a que estaria o fogo» – contínuo a citar – não tiveram “a serenidade, o sangue frio, para fugir a essa situação”. Hoje sabe-se que as pessoas estavam a fugir não de um fogo a kms mas das suas casas a arder, onde os bombeiros, dele, não conseguiram sequer chegar. Desconfia-se de pior – algumas teriam sido direccionadas para aquela estrada pela GNR. Coloco no condicional a questão da estrada porque ao contrário de M.S. aguardo o inquérito. Ele não, ele fez o balanço da sua actuação em directo, qual presidente do clube de futebol local. Tem sido juiz em causa própria – não há em Portugal uma entidade independente que fiscalize a sua actuação, mas nem era preciso porque ele em directo, no local, no meio da catástrofe fez análises, tirou conclusões, e os jornalistas publicaram-nas. É o mesmo que eu dar nota 20 aos meus alunos sem ter olhado sequer para as teses. Esta passagem de M.S. a Deus é certamente influenciada pela ideia de que bombeiros não são políticos, ainda que o cargo de M.S. seja esse – presidente de uma Liga de Corporações que eu não faço ideia (os jornalistas fazem?) como funciona, quem representa, quem votou nele, se é por voto, nada. M.S. foi o homem que anunciou ao país, também na hora – contra a opinião dos meteorologistas e silvicultores, com cargos e doutoramentos – que tudo aconteceu por uma situação “inédita e imprevisível”. A tal que todos, sem excepção, que trabalham na área previram.
Hoje fui andar a pé, um par de horas, sozinha para pensar nesta questão – como uma Liga de Bombeiros ganhou este poder? Estamos na mão de um dirigente de colectividades que do alto da sua sabedoria fez saber ao país, em directo, tudo o que tinha acontecido, ainda estava a acontecer. E nada aconteceu como disse.
Penalizo-me por ter levado dois dias a compreender. Há uma economia do fogo – tantos o disseram e bem. Mas o que significa isso? Significa que o dinheiro é canalizado para o combate e não para a prevenção. Muitos o escreveram já. Mas o que significa isto realmente? Significa que se o nosso dinheiro de impostos é gasto na prevenção em guardas florestais esse dinheiro é usado em salário, força de trabalho, não tem, para além do consumo do trabalhador (casa, comida, roupa) nenhum impacto na economia que implique produção de lucro. Ele vai trabalhar com o cérebro e os olhos e uns binóculos. Mas são precisos muitos, ou alguns, espalhados. Mas, se o dinheiro é gasto no combate ele é massivamente usado em compra de carros de combate, equipamentos/roupas complexos, aviões, importações – adivinho alemãs – e ao que parece 500 milhões para um sistema de comunicações…que falhou. Dizem que há redundância dos equipamentos mas as pessoas estiveram quase 24 horas na aldeias sem conseguir ligar a ninguém, dependentes de um vulgar telemóvel que custa 80 euros. O paralelo com a saúde é evidente, há uma economia política da doença – se a pessoa for ao médico e aprender a alimentar-se e tiver um salário decente come bem; se ficar obesa vai mobilizar 1/6 do orçamento do SNS para medicação e afins para os diabetes. A «conversa» do médico ou do enfermeiro não dá lucro a ninguém, é um serviço, com custos exclusivos em força de trabalho. A diabetes porém é uma das mais lucrativas áreas de tratamento do mundo.
Espero não ter que repetir depois deste artigo o óbvio. O fogo não é causado por bombeiros, mas pelas razões que todos já apontaram estes dias de ordenamento da floresta. Os bombeiros são heróis. Necessários, deviam ter salários decentes e ser profissionalizados e respeitados porque ganham – cito um bombeiro numa carta aberta a Marta Soares – o mesmo num dia a trabalhar que um bombeiro alemão 1 hora de prevenção. Mas estava na hora de perguntar a muitos destes heróis se não aceitam ter formação e ser guardas florestais. Estava na hora de termos uma economia política das pessoas. A Marta Soares lamento mas do que assisti nestes dias não tenho palavra alguma de alento para lhe dar – num país a sério já estava demitido. Como estamos numa nação em decadência está ao lado da Ministra a dar conferências de imprensa, a tal ponto que às vezes me pergunto se a Ministra é que é assessora de Marta Soares.
António Costa tem passado por tudo isto com a inteligência que passa desde que tomou poder – pede calma, não tira conclusões, diz que não sabe o que se passou, e deixa que todos falem por si e digam asneiras, quanto ele é um sereno – e discreto – PM de um país em ansiedade profunda. Costa inventou a forma de fazer política: é preciso que não falem de mim.

Tudo correu mal, Senhor Presidente.

Li os jornais, todos. O que li foi o caos, foi exactamente o contrário do que anunciou Marcelo R. de Sousa ao país – tudo correu mal. Se ontem estava convencida que a eterna questão da propriedade é a chave, hoje acho que há outro factor tão ou mais grave. O que está a desenhar-se no horizonte é uma combinação de dois factores explosivos – o eucalipto e a ruptura da protecção civil, a má gestão pública dos recursos humanos especializados, numa palavra, a erosão do Estado Social.
 
Li o testemunho de uma senhora humilde que foi desviada para a Estrada 236 pela GNR, ela conta-o sem mágoa ou dedo acusatório. Noutro, um inglês, jornalista que ali vive, diz que lhe aconteceu o mesmo, não compreende, foi para ali porque a GNR o desviou naquele sentido. Compreendem a gravidade? A GNR não só não terá cortado as estradas que já ardiam, como alguém desviou para lá as pessoas, é isto que as testemunhas estão a dizer nos jornais hoje publicados. Ninguém em seu juízo perfeito dirá, se isto for verdade, outra coisa que não seja a GNR estava tão desorientada e ignorante do que se passava naquela estrada como os civis. Não havia planos de evacuação, refúgios, conhecimento de ventos. Podia até ser um operacional especializado em trânsito, sem qualquer saber de florestas. Mas o que segue não é melhor. Uma mãe, um bebé de 9 meses e o filho inanimado no chão de 4 anos – o INEM aterra ali por acaso, porque pelas chamas não podia ter ido para onde seria chamado, e o aguardavam também com emergência. A criança foi assim reanimada. Está internada em estado grave, salva, todos esperamos, por um INEM que terá chegado ali por…sorte. Ou azar, dos que não socorreu para onde se dirigia. Há mais, há 135 feridos, para já. Afinal há dezenas de pessoas que estiveram nessa estrada da morte, se queimaram e conseguiram sair com vida. E as que não ficaram feridas e conseguiram escapar entre as chamas e os acidentes – dezenas. Portanto podiam ter sido centenas os mortos nessas estradas. Os testemunhos das pessoas num tanque 8 horas à espera de auxílio. As dezenas de relatos, em que as pessoas dão nome e cara a quem queira escutá-los, em que esperaram por bombeiros e médicos 6, 8, 10 horas; são dezenas de aldeias isoladas – não são idosos que resolveram viver num ermo, são famílias inteiras com tudo destruído, às centenas. As pessoas entraram em pânico e fugiram? Há muitas que dizem isso, fugiram, não sabem para onde e como, outras que dizem que foram para ali orientadas, outras que não fugiram e morreram à espera de ajuda dentro de casa. O que sobra disto é que estavam todos sem saber o que fazer – civis e protecção civil. O desdém com os académicos que nestes dias com coragem se levantaram – silvicultores, arquitectos, urbanistas – em detrimento dos homens que “estão no terreno a sofrer e dar tudo por tudo” não vai ajudar a resolver nada.
 
Sabem porque gastamos milhões de euros a construir uma via nas autoestradas que não é usada? – a via de paragem. Para um acidente. Uma excepção. Imobilizamos capital para um azar, “desperdiçamos” tempo e dinheiro em algo que raramente é usado, mas que salva vidas. É por isso que temos que ter guardas florestais que parte do ano vão caçar perdizes. Porque temos médicos de prevenção no INEM parados parte do tempo, a namorar, à espera de uma chamada e a escrever poemas. Porque temos bombeiros especializados em fogos que parte do ano jogam à bisca no café. Porque nem tudo é rentável na vida, a vida aliás não tem a rentabilidade de um eucalipto, a eficiência de um gestor público nem a rotatividade dos juros. A vida é um direito. Tudo correu mal, Senhor Presidente.

A Tragédia anunciada e a política ignóbil de gestão do país

A minha mãe – engenheira florestal e investigadora de genética florestal – ligou-me agora. Ser minha mãe só é importante para mim, mas é uma das principais especialistas mundiais do sobreiro. E isso já é importante para mais pessoas. Cito, com a sua autorização, a frase que me disse ao telefone e que pronunciou há 15 dias no congresso mundial de sobreiro na Sardenha, onde foi convidada de honra, e disse a frase publicamente: «O eucalipto é uma espécie economicamente invasora». A frase está publicada online pelo site do congresso. Em 2006 ela – Maria Carolina Varela – escreveu este artigo publicado na ONU onde dizia que as tragédias com fogos vão ser cada vez maiores se esta espécie se torna, como se tornou entretanto, dominante – o eucalipto ultrapassou o sobreiro, que desenvolveu uma capa – a cortiça – contra os fogos. Um é combustível natural, o outro água natural. O gráfico da sua evolução pode ser visto no artigo. Ao longo do dia fui publicando artigos de vários silvicultores que, como ela, sabem, avisam, escrevem, e ninguém os escuta. Temos muitos, e muito bons. E todos dizem sem excepção o mesmo: com este ordenamento do território, divisão da propriedade, monocultura de eucalipto e pinheiro sem espécies tampão, despovoamento agrícola, podem mandar vir todos os aviões do mundo que as tragédias vão suceder-se. E vai ser cada vez pior. Porque há cada vez mais do mesmo: eucalipto, abandono do campo e morte dos velhos aldeãos, resineiros, lenhadores, agricultores que sabiam como parar fogos, de moto-serra na mão, muito antes dos bombeiros chegarem. O que resta é um barril de pólvora. E de morte a cada vez que uma trovoada, um vento, um calor chegar. Junto-me aos que gritam hoje «tenham vergonha!» – como é possível dezenas de pessoas terem morrido a arder no século XXI com os filhos nos carros a vir da praia? dentro de casa? Não foi um, nem dois, foram 61 – não foi numa estrada, nem noutra, mas em várias, dentro de casas, no quintal, a fugir. É uma vergonha sermos governados desta forma ignóbil.

https://www.researchgate.net/publication/229455763_The_Deep_Roots_of_the_2003_Forest_Fires_in_Portugal