Mercado de Natal e pista de gelo, a piada faz-se a sozinha. Um dia destes fomos passar a tarde a ler no Jardim de Oeiras, no Palácio do Marquês de Pombal, na nossa manta charmosa, quando uma jovem trabalhadora-segurança me acordou – estava eu naquela vigília, repousada no peito do meu amor, a tentar detectar os passarinhos que cantam (tenho aprendido a distinguir o canto deles e com isso sobrevivido ao genocídio na Palestina) – e nos disse “não se pode deitar na relva”. Tive que recorrer a todo o controlo da minha conduta para não dizer um palavrão, pensar em como há trabalhadores que nos salvam, só eles, como classe; mas há os cobardes, que são o “negro da casa”, o traidor que faz denúncias, recorda Malcom X. Expliquei-lhe, pacientemente, que éramos os únicos seres humanos a partilhar um jardim com os passarinhos, que não estava ali nenhum chefe dela a vigiá-la, e que tal regra era uma invenção, do Rei Sol Isaltino?
Também lhe contei – tentando ganhar a sua simpatia – que nós, um casal com um manta e um livro na mão, viajamos pela Europa cumprindo o ritual da sesta. Não há jardim onde não nos tenhamos deitado já, de Amesterdão a Viena, de Helsínquia a Roma. Na Noruega e na Suécia pode mesmo acampar-se a dormir até dois dias em propriedade privada! Ninguém pode impedir o acesso aos seus terrenos privados, desde que se mantenham a 150 metros da casa. E pode-se apanhar bagas, as bagas são do povo. Ela disse-nos, alienada, “a relva estraga-se” – e apontou um sinal de proibido piqueniques – a alienação produz poderosas explicações irracionais….
Expliquei-lhe que piqueniques se fazem em todos os jardins da Europa e que não há mês nenhum que os jardins de Oeiras, públicos, não sejam vendidos a privados, para o festival do Hambúrguer, do forró, dos animais, dos petiscos, onde só quem paga se senta.
Depois desisti. Temos agora um lugar escondido, num jardim escondido, onde fazemos a nossa sesta, enquanto Isaltino se passeia a defender a lei dos solos, que permite fazer na Reserva Agrícola casas de 1 a 3 milhões de euros, e se filma no Instagram a comer frango assado popular – os eleitores de Oeiras são ainda mais manipuláveis, eu queria escrever idiotas, do que a jovem segurança que “só cumpre ordens”.
Sempre me apaixonou o tema do espaço público. Há mais cadeiras privadas para nos sentarmos em Lisboa, Porto, Oeiras do que bancos no espaço público, para as pessoas conversarem. Nos colégios que conheço em Lisboa, e onde se entra apenas com cunha, as festas de anos são em hotéis reservados e pagos pelos pais, e as festas de finalistas são a Cabo Verde ou Paris.
Um dos filmes da minha vida é Jimmy’s Hall, de Ken Loach. A história de um grupo de pessoas na Irlanda que luta por ter um espaço onde organizam a Política, aprendem a dançar (danças a sério, daquelas complexas, que nos fazem conhecer o corpo e tocar-nos, sem ecrãs, imaginem), pintar, tocar instrumentos. O Padre Martins, na Madeira, lutou pelo adro público da Igreja com todas as forças, disse-me “para organizar a luta era preciso um lugar onde as pessoas se juntassem, dançassem, fizessem teatro”. Um lugar. Uma Ágora (Assembleia), nome da praça na Grécia onde nasceu a democracia.
Os jovens e as famílias de classes trabalhadores e médias urbanas têm apenas – nas aldeias ainda há associações – a praia, no Verão, como espaço democrático. No Inverno devem ficar sozinhos a alimentar as redes sociais e destruir a saúde mental – da automutilação dos jovens à violência no namoro tudo cresce quando mais sozinhos estão. Os jovens não convivem, não dançam, não se tocam, é incrível que não haja ainda mais violência.
As relações humanas estão destruídas, em grande medida porque não há espaço comum – vem daí, amigos, a palavra comunismo, o bem comum. Os jovens, e adultos, não têm onde conviver, namorar, jantar, dançar. No capitalismo a cidade é de quem paga. Uma alheira de má qualidade a fingir-se típica no Rossio, uma patética pista de gelo no Natal, rodeada das não menos típicas luzes Led cor de rosa e barulho de um martelo a bater num tapete rolante conhecido como “música tecno”. Eis o Natal de Moedas e Duarte. Este é o material humano que nos governa, pagos com o nosso trabalho e impostos. Para eles a Polis, a cidade, debate-se a este nível. Em Covas do Barroso há um espaço comum lindo, com água comum, forno comum, espaço para grelhar, dançar, conversar. Por isso fizeram uma lei de excepção contra esta aldeia – é preciso impedir que nas classes trabalhadoras se (con)viva.
Porque não é só quem quer festejar, conviver, estar junto, que não tem onde. E os adultos precisam e muito de dançar também. Mas, quem quer fazer um sindicato, reunir-se para debater habitação, fazer um partido político, um debate público sobre as minas ou o amor, passar um filme, ter um grupo de teatro amador, organizar uma greve, não tem como. Há milhares de bibliotecas, auditórios, teatros que estão 90% do tempo vazias e são as Câmaras, e os seus chefezinhos, dos partidos do Estado, que decidem, e nos horários que decidem, quem pode lá ir e fazer o quê. A democracia está morta. Morta também porque não há praça para falar, Ágora para ser ouvido, nem lugar para exercer o direito de reunião ou associação. Em Helsínquia, a Biblioteca pública permite alugar gratuitamente o espaço para fazer teatro, filmar, cerâmica, reunir. Sem nenhum decisão do Presidente da Câmara. Temos que socializar não só os solos urbanos, parte dos hotéis e fundos, temos de voltar a socializar o espaços públicos, como teatros, auditórios e bibliotecas que foram privatizados pelas Câmaras com as suas “regras”.
O historiador Toby Green recorda que o número de denunciantes na Inquisição não era tão grande quanto se pensa – as criadas eram uma parte importante, ainda assim uma minoria – , mas o objectivo era terem medo todos de todos, não haver confiança. Era “impedir as pessoas de falarem umas com as outras”. É o que Moedas, Pedro Duarte, Isaltino querem – impedir-nos de falar uns com os outros.
Vivo num bairro onde toda a gente, como na música, sabe o meu nome, muito antes de alguém me conhecer fora daqui. São três gerações da minha família, prédios pequenos, jardins do século XIX, aqui todos temos sol, beleza e dizemos bom dia. Não é só o direito à casa que temos de debater. É o direito a uma bairro bonito, com espaço público, o direito a ouvir passarinhos.
Etienne Jarrier, o charmoso jovem maestro da Orquestra do Novo Mundo, quem não se apaixonou por eles estes dias pode ficar no velho mundo, e que leva na camisola a palavra Esperança, deu uma entrevista na Praça da República, em Paris: “Estivemos aqui no dia 17, fomos gaseados pela polícia, hoje (dia 5, greve geral) correu tudo bem porque a polícia não foi violenta, mas logo a seguir ao dia 17 perguntei aos 400 músicos se alguém não queria voltar porque causa do gás lacrimogéneo e os 400 disseram “vamos!”. E agora há mais de 25 orquestras auto-organizadas em toda a França”. Recordei-me da conversa de Salgueiro Maia aos seus subordinados no 25 de Abril, disse-lhes que estavam à vontade para não o acompanhar a Lisboa. Nenhum ficou, todos foram para Lisboa, derrubar o regime.
