NIEP Marx Rio de Janeiro

O NIEP consegui realizar no Rio de Janeiro uma das conferências mais importantes – a nível mundial – de debate histórico sobre a revolução russa. Digo não só pela quantidade massiva de académicos de todo o mundo mas porque conseguiu reunir alguns dos melhores trabalhos realizados nas últimas décadas sobre o marxismo, incluindo os que recentemente foram feitos pela abertura dos arquivos soviéticos, mudando realmente a perspectiva da história da revolução russa. Só para citar alguns vão estar no Niep Fred Moseley, Kevin MurphyValerio Arcary, Alex Callinicos, Lucia PradellaMarcelo Badaró, Jorge Greespan, José Paulo Netto, Miguel Vedda…e por aí fora. Vai ser uma semana de aprendizagem intensa, com alguns dos melhores trabalhos de história, economia, filosofia, nestes últimos anos. E já com análise de novas edições e obras de Marx e Engels até aqui desconhecidas de facto, e que resultam da edição, actualmente pela academia de ciências de Berlim, das obras completas de Marx e Engels. Na Universidade Federal Fluminense, Rio de Janeiro.
Dia 23 estarei na mesa plenária ao lado do Valerio Arcary e do Kevin Murphy. E nos outros dias estarei a de caderno na mão a estudar, ouvir, tirar notas, sem sair do lugar.
Para além da apresentação de centenas de trabalhos, deixo em baixo as mesas plenárias e dois mini cursos. Um deles se me permitem destaco-o porque foi até hoje o melhor livro recente que li sobre 1917, premiado com o prémio I. Deutscher, trata-se da obra Revolução e Contra Revolução na Rússia, do historiador norte americano Kevin Murphy que vai dar um mini curso de um dia sobre o soviet de Petrogrado. Quem estiver no Rio ou perto e perder vai perder uma oportunidade única de escutar numa semana décadas de estudos. Aos meus alunos e ex alunos que estejam por aqui não faltem: uma boa aula, se for bem dada (e estas serão) faz com que avancemos tempo de aprendizagem que sós, com um livro, poderíamos levar meses a adquirir.

21 de agosto de 2017:
10:00 – 13:00. Registro e distribuição de material.
13:30 – 17:30. Minicurso 1. Local: auditório Bloco F, Térreo
18:30 – 19:00. Abertura – Comissão Organizadora.
19:00 – 21:30. Sessão plenária 1: O processo de produção de “O capital”: história e fundamentos. Participantes: Fred Moseley (Mount Holyoke College, EUA), Jorge Grespan (USP), Alex Callinicos (King’s College London, Inglaterra / NIEP-Marx). Local: auditório Bloco F, Térreo

22 de agosto de 2017:
10:00 – 13:00. Sessão de mesas coordenadas 1 (apresentação de trabalhos). Clique para ver a programação
14:30 – 17:30. Sessão de mesas coordenadas 2 (apresentação de trabalhos). Clique para ver a programação
18:30 – 21:30. Sessão plenária 2: “O capital” no século XXI: permanente incômodo. Participantes: Lucia Pradella (King’s College London, Inglaterra), José Paulo Netto (UFRJ), Marcelo Carcanholo (UFF / NIEP-Marx). Local: auditório Bloco F, Térreo

23 de agosto de 2017:
10:00 – 13:00. Sessão de mesas coordenadas 3 (apresentação de trabalhos). Clique para ver a programação
14:30 – 17:30. Sessão de mesas coordenadas 4 (apresentação de trabalhos). Clique para ver a programação
18:30 – 21:30. Sessão plenária 3: O episódio de 1917 – antes e depois. Participantes: Kevin Murphy (University of Massachusetts, EUA), Valério Arcary (IFSP), Raquel Varela (Universidade Nova de Lisboa, Portugal / NIEP-Marx) Local: auditório Bloco F, Térreo

24 de agosto de 2017:
10:00 – 13:00. Sessão de mesas coordenadas 5 (apresentação de trabalhos). Clique para ver a programação
14:30 – 17:30. Sessão de mesas coordenadas 6 (apresentação de trabalhos). Clique para ver a programação
18:30 – 21:30. Sessão plenária 4: A revolução contra o capital? Participantes: Julio C. Gambina (Universidad Nacional de Rosario, Argentina), Paulo Eduardo Arantes (USP), Marcelo Badaró Mattos (UFF / NIEP-Marx). Local: auditório Bloco F, Térreo

25 de agosto de 2017:
13:30 – 17:30. Minicurso 2. Local: auditório Bloco F, Térreo
18:00 – 19:30. Atividade cultural (“Os dez dias que abalaram o mundo”, Cia Ensaio Aberto).
20:00 – 23:00. Confraternização com lançamento de livros e revistas. Local: sede da ADUFF, Rua Lara Vilela, 110

Minicursos:

21 de agosto de 2017:
13:30 – 17:30. Minicurso “Estética e revolução”, com o professor Miguel Vedda (Universidad de Buenos Aires, Argentina / NIEP-Marx). Local: auditório Bloco F, Térreo

25 de agosto de 2017:
13:30 – 17:30. Minicurso “O Soviete de Petrogrado em 1917”, com o professor Kevin Murphy (University of Massachusetts, EUA). Local: auditório Bloco F, Térreo

 

 

Jornalismo de emoções

Sobre os media e as emoções da transmissão de fogos. Há uma crítica que acompanho, o “massacre” de imagens sem explicação racional. A do fogo a engolir o trabalho humano da floresta; a dos jornalistas sem saber o que dizer repetindo que o calor é infernal; a dos idosos de bengala a serem retirados pelos bombeiros; a imagem de Marcelo Rebelo de Sousa a abraçar o secretário de Estado na noite trágica de Pedrogão Grande; a da Ministra a chorar. O que elas todas têm em comum foi estudado já com densidade pelos jornalistas e académicos da comunicação – apelam às nossas emoções, apelam aos nossos sentimentos, sem explicar nada. Este padrão não é para os fogos florestais, é o padrão hoje dos media, sobretudo na TV (reparem que na rádio – onde não há imagem – é menos). Já lá vou à explicação deste fenómeno, quero primeiro dizer algo – as emoções têm classe social, e origem geográfica, e até idade. Foi repetida milhares de vezes a imagem de Marcelo abraçado, sofrido, ao secretário de Estado e infinitamente menos repetida a das famílias vitimadas – porque são pobres, vivem no interior e são idosas. Assisti no fogo de Pedrogão Grande a um dos momentos políticos que mais me chocaram na vida – uma ministra a dizer a 500 membros de famílias para sempre destruídas que ela – ela mesmo – tinha vivido o pior momento da sua vida, e chorou. Manda o decoro máximo que o seu ímpeto narcisista – ainda que genuinamente sofrido – tivesse sido refreado por respeito a quem realmente viveu o pior momento da vida, os que perderam os seus ente queridos. Mas não, na política dos afectos um país a saque da celuloses, dos interesses locais de pequenos poderes de associações de bombeiros e afins e empresas de apagar fogos e afins, um SIRESP que funciona como uma renda fixa presa a capitais bancários falidos salvos pela elevação da dívida pública sustentada com congelamento real ou cortes reais de salários, ainda que nominalmente devolvidos, tudo isto é submergido nos sorrisos e choros de quem tem poder político para mudar o que está muito errado. Por isso não me escandalizei quando soube o nome das vítimas pela RTP. Primeiro porque essa informação é importante – quem morreu, a sua origem social, profissão, diz muito sobre o fim deste episódio – o Estado e seus responsáveis vão sofrer consequências jurídicas e criminais ou não?
Segundo porque finalmente ao final de um mês ficámos a saber o nome das vítimas, e isso, ao lado das causas dos incêndios, era o mais importante – saber quem são as vítimas. Se é para ter um jornalismo de emoção que ele pelo menos nos dê as emoções dos de baixo e não só as de quem tem poder.
Mas podem e devem argumentar que nós não queremos informação de emoção, choque, abanão, sem pensar. Por exemplo eu não suporto notícias panfletárias de política económica, nem de crime passional, mas reconheço que ambos são humanos – a economia (regras da casa) e as relações familiares degeneradas – não proponho que se calem os jornalistas sobre o tema, mas que se esforcem por informar sobre ambos os temas. Saber porque um homem mata uma mulher é tão importante como saber o que é uma política de exportações, ninguém saberá nada de ambas se se limitarem a reproduzir discursos partidários de Governo e oposição ou o vizinho a explicar que o marido “era um homem tão bom”, mas ciumento. Os fogos têm que estar na TV porque eles são um drama para o país e uma vergonha numa sociedade civilizada – nenhum país na Europa tem, em termos relativos, o número de fogos que Portugal tem. Nenhum.
Brecht, dramaturgo socialista alemão, exilado nos EUA durante o nazismo, estudou algo que nos pode ajudar a entender isto. Não sou especialista em dramaturgia mas ele era um feroz crítico desta forma de teatro que nos fazia chorar sem pensar, rir sem reflectir – longe de ser aborrecido, catatónico, o que Brecht queria era que nós não ficássemos paralisados com as felicidades e tristezas humanas, sem conseguir reagir, destroçados pelas emoções (boas e más) mas que saíssemos do lugar de espectador e fossemos para o palco, neste sentido, que aqui simplifico: fazer parte crítica do que vemos.
A rigor, no caso dos fogos florestais, o jornalismo até errou menos – se pensarem nas frases panfletárias de circunstância que se repetem nas TVs sobre economia – gosto particularmente da que diz o PIB está a crescer como se isso por si fosse bom (informo que o PIB com os fogos florestais cresce pelo gasto em gasolina, reconstrução, equipamentos, etc.), dizia eu se pensarmos no caso dos fogos florestais eu nunca tinha visto tanta gente a explicar tão bem e de forma tão densa as causas dos fogos. Na verdade, não me recordo de nenhum assunto tão bem explicado e desenvolvido na TV na última década como foram os fogos. Mesmo com abraços e tempo de antena a 100% do militante do PSD Jaime Marta Soares, conseguimos escutar a voz do bom senso e da racionalidade nestes meses. Ouvi, e com contraditório, especialistas sérios de todas as áreas, alguns discordando eu deles, mas reconhecendo o mérito de saberem do que estão a falar. Na verdade o jornalismo desde Pedrogão ficou melhor e não pior. Os piores momentos não foram protagonizados pelos jornalistas mas pelas instituições e seus representantes. Senti-me, a assistir ao poder político nestes meses, como uma tia minha que ia ao médico e voltava de lá a rir-se contando que o médico passava o tempo a queixar-se das dores dele próprio. A seu tempo a convenci a mudar de médico. Tem graça o senhor, tem tia, mas é inútil. Ficámos a saber que os políticos que têm cargos de responsabilidade neste país são homens e mulheres sensíveis, mas o que lhes pedimos foi para saber cuidar e proteger as pessoas e a economia de que eles dependem – e nisso eles foram inúteis.

Fogo invisível

Todos sabem de onde vêm os incêndios, mas nos últimos dias um sector da população descobriu um novo pirómano, os jornalistas. Perante a incapacidade do Governo tomar qualquer medida real para começar a inverter a monocultura, resolver o tema da propriedade, o negócio do fogo, e o BPN-SIRESP (são intocáveis as parcerias público-privadas), o alvo que resta são os media, porque incêndios “já que os há, o melhor é não os mostrar”. Quem não vê é como quem não sente, somos uma nação de poetas. Portugal tem a maior área ardida da Europa, mas a culpa seria também dos jornalistas porque “mostram o exemplo”. Portugal até tem, imaginem, uma “época de fogos”. Já está inserido no calendário como o parto, o solstício e a noite – é natural. E quem critica o Governo está contra o partido, e tudo vale para salvar o partido, o pai dos povos. Hoje na pequena aldeia de Canoa Quebrada no Nordeste Brasileiro passei por um maluco que discursava para uma rua semi vazia como se mobilizasse uma multidão de apoiantes devotos. Entre as muitas ideias – a maioria por sinal homofóbicas (ocorreu-me que até os malucos temem ficar em minoria) – estava esta, que ele declamava, de mão erguida ao alto e cabeça inclinada como se o corpo fosse a cair: “Só Jesus Salva! No Céu Não tem Crise! No Céu não tem Crise”. No céu não há incêndios. Chegou um telegrama do Politburo a explicar que tudo o que atente contra a demonstração que Portugal é inequivocamente o céu será classificado de sabotagem.

Livre para quem?

Em Amesterdão alugam-se apartamentos de 35 metros quadrados onde é proibido cozinhar; em França os meus colegas vivem em apt de 30 metros quadrados, 70 anos depois dos estudos em ratos no pós guerra terem provado que ratos em espaços minúsculos muitos ou poucos e mesmo com muita alimentação entram em conflito – em suma, necessitamos de ar, vazio, espaço; no Rio de Janeiro trabalhadores expulsos do centro vêm trabalhar ao Rio, dormem na rua, e ao fim de semana voltam às suas casas. Chamam-lhe crise urbana. Ainda sou do tempo em que ao lado dos direitos políticos – direito ao voto – tidos como essenciais, estava o direito a ter um tecto, aliás, sou do tempo, ainda hoje, em que quem não tem direito a um tecto não tem de facto acesso à democracia. A onda de violência contra os turistas em Espanha, que não subscrevo – não tenho admiração alguma por violência gratuita ou aquela tese da violência entre trabalhadores como sintoma da violência do Estado e outras palermices – tem um fundo muito elementar, o drama não são os turistas (eu sou turista em muitos lugares) mas as rendas da propriedade em busca desesperada de valorização fora da produção – onde cai a taxa de lucro. Estas rendas estão a tornar a cidade para a maioria dos habitantes – de Paris ao Rio – num espaço inabitável para quem esteja lá mais do que 3 dias. Quem desdenhava das condições de habitação na URSS (e eu nunca as defendi, para mim casa, ampla, intimidade são direitos essenciais e esses não estavam assegurados na URSS) em que famílias viviam sem uma casa própria deve olhar agora as maravilhas que o “investimento” fez à vida dos cidadãos no glorioso mundo da economia livre. Livre para quem?

Fado Tropical

Um fado tropical. Uma pequena deliciosa história. Fomos à Madeira recolher dados para uma biografia histórica, in loco, como as pessoas em causa são maravilhosas acabámos por fazer parte da família naqueles dias, a Madeira tem uma orografia e um consequente regime de propriedade que prolonga a agricultura familiar não mecanizada, bem como um sistema de água – levadas – que força a cooperação, embora com períodos de conflitos. Fomos, eu a Luisa Barbosa, em trabalho de campo, arquivos, entrevistas, reprodução dos quotidianos, colar peças do puzzle, etc., bom, fazia parte do trabalho, do seu talento etnográfico e do gosto sincero da Luísa pelas pessoas ir ver os últimos cantares e suspiros ébrios de fim de festa da aldeia na venda (taberna) da Ribeira Seca, onde quase todos tocam ou dançam música, ensinados pelo Padre Martins. Na Venda um jovem do “contenente”, ao que me dizem “bom de rima”, começa um fado à desgarrada a defender o Salazar. Infelizmente eu regulo-me pela luz do sol e a essa hora estava já a dormir, há muito. A Luísa, brasileira de origem, historiadora local da revolução dos cravos, vai daí responde ao jovem, num fado de sotaque brasileiro:

“Eu vim lá do Brasil
E não posso acreditar
Que ouvi cá um miúdo
Defender o Salazar”

Ele, que era bom de rima, disse algo como ela ser brasileira, não saber do que falava. E ela respondeu-lhe:

“Eu não sou cantadora
Mas entendo de história
O 25 de Abril
É que fica na memória”

Na Ribeira Seca, a aldeia do Astérix Padre Martins, a população aplaudia com gosto, contaram-me várias fontes no dia seguinte. O rapaz, bom de rima, já o disse, responde-lhe de novo – gostava de ter os versos mas não os tenho, por isso não os publico, mas incluía algo como ela não saber cantar. E ela não recua:

“Eu não sou cantora
Confesso não sei cantar
Mas não pude conter
Com o que ouvi do Salazar”