Vencedores

Os únicos vencedores da I e da II Guerra são os que desde a primeira hora foram contra elas. Este centenário deve ser dedicado a eles – presos, mortos, despedidos por serem contra a guerra antes dela ter começado. Não há vitórias 20 milhões de mortos depois para uma disputa entre imperialismos, em que os mortos são trabalhadores e camponeses. Uma estátua aos resistentes e desertores em vez de uma (nova) parada militar é o que esses 20 milhões de mortos mereciam como homenagem. Rosa Luxemburgo simboliza essa humanidade de milhares que não cederam ao nacionalismo patriótico. Apoiar a guerra foi muito mais fácil do que a combater

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Macrón é melhor no marketing do que na história.

Vejamos, o que ele não se lembrou de lembrar:
 
O Armistício da Guerra foi a revolução russa, a revolução alemã e os levantamentos dos exércitos beligerantes imperiais que seguiram estas revoluções. A guerra foi provocada pelas burguesias imperiais nacionais, quem terminou com ela foi o Partido Bolchevique, em primeiro lugar. A estalinização depois de 1928 não autoriza a apagar-se o que significou a revolução russa na Rússia, na Europa e no Mundo entre 1917 e 1927.
 
1) Uma Guerra imperialista. O século XIX começa com uma crise do colonialismo – dos velhos impérios – e terminará com a «vitória do imperialismo colonial, que leva a uma divisão do mundo entre as potências europeias – a que se juntam, mais tarde, os Estado Unidos e o Japão -, ao agravamento das tensões internacionais e, finalmente, à Primeira Guerra Mundial». Em 1914 a Inglaterra tinha um império 114 vezes o seu tamanho; a Bélgica 80 vezes, a Holanda, 60 e a França, 20. E Portugal mais de 20 vezes o seu tamanho.
 
2) A guerra não foi assim tão popular. Os socialistas franceses chegaram a colocar a hipótese de uma greve geral contra uma guerra europeia, em Julho de 1914 ; na Alemanha os grevistas das fábricas eram enviados para a frente de guerra como castigo; fontes históricas demonstram que a classe trabalhadora da poderosa região do Ruhr – ainda hoje a região mais forte e sindicalizada da classe trabalhadora industrial europeia – ficou de fora das manifestações patrióticas . Do outro lado do Atlântico, nos EUA, o governo apela ao recrutamento voluntário de 1 milhão de soldados – mas nas primeiras seis semanas depois da declaração de guerra só 70 mil se alistam .
 
3) Contra a guerra estiveram poucos: os bolcheviques e os socialistas sérvios. E muitos heróis individuais. Jean Jaurès, líder socialista da França, opositor à guerra, foi assassinado por um nacionalista francês a 31 de Julho de 1914.
 
4) Mas, se a guerra acelera a barbárie, impulsiona a resistência. Quase todas as revoluções no século XX (mas não todas) tiveram na sua origem, directa ou indirectamente, a guerra – porque ela mobiliza toda a sociedade e eleva ao máximo as tensões de classes.E assim, se a II Internacional tinha cedido às pressões nacionalistas e militaristas, a mesma guerra criou, sob a égide da Rússia bolchevique, uma direcção, uma esperança, com uma força mundial que não existia até então na história. Os países estavam dilacerados, mas o movimento operário tinha-se fortalecido, entre outras razões, já o referimos, porque milhões de camponeses na frente (onde por vezes morriam, pela forma de recrutamento por aldeia, regimentos inteiros!) transformaram-se de pequenos agricultores isolados numa força colectiva – o exército.
 
5) Na luta contra a guerra das guerras ergue-se a revolução das revoluções. A equação “nação é igual a Estado e Estado é igual a Povo”, que para o historiador Eric Hobsbwam foi o centro da constituição do nacionalismo burguês depois da revolução francesa , vai ruir aqui. A guerra agora não seria mais entre nações, mas entre o operariado, unido internacionalmente, contra as burguesias das suas nações. Contra a guerra imperialista, a luta de classes. Na Rússia estava em marcha um «armistício estabelecido de facto na frente» .
 
6) No Natal de 1914 as tropas francesas e alemães confraternizam nas trincheiras, e são penalizadas. Mas é só em Abril de 1917 que se dá o primeiro «Adeus às Armas» de massas da I Guerra Mundial – 68 divisões, nada mais nada menos do que metade do exército francês, recusam-se a voltar à frente: morte, agonia, piolhos, tuberculose, os trabalhadores, camponeses (agora soldados), estavam a enterrar-se vivos na lama e no sangue das trincheiras. A resposta do Estado foi esmagadora: 500 sentenças de morte e 49 execuções. Algumas unidades ergueram-se com a bandeira vermelha a cantar a internacional. Queriam marchar sobre Paris, gritavam «Viva a Revolução», «Viva os Russos!». Cantaram a canção de Craonne: «É em Craonne sobre o planalto, que devemos deixar a nossa pele (…), mas acabou, pois os praças Vão todos fazer greve» . Perto de Bolonha, em Étaples, uma rebelião de 100 mil soldados ingleses dura 5 dias – os oficiais britânicos usaram da política do «pau e da cenoura»: fizeram concessões e executaram os líderes, para pôr fim à rebelião.
 
Depois do desastre militar de Caporetto, a 24 de Outubro de 1917, há uma «greve militar», soldados italianos amotinaram-se em massa. A Espanha era neutra mas vive uma greve geral de 15 a 18 de Agosto de 1917, na sequência, o dirigente histórico do PSOE, Francisco Largo Caballero, será condenado a prisão perpétua.
 
As notas correspondem a excertos do meu livro Breve História da Europa (Bertrand, 2018)

Os pastos a quem os come! 25 de Abril Sempre.

Já disse que não vou a touradas. Mas tenho medo de fanáticos. Um dos grupos fanáticos da modernidade urbana são os «amigos dos animais». Há, claro, muita gente com animais que não é fanática, mas há um grupo de pessoas desequilibradas. O que também não seria problema (todos somos um pouco loucos, já dizia alguém), se não pressionassem para que o Estado faça da sua vontade lei. Se não vejamos, cães em casa em apartamentos é um sofrimento, os remédios para as pulgas são altamente tóxicos, capar animais para estarem quietos nos apartamentos é uma brutalidade, é muito provável que quem mais abandona animais não sejam caçadores, que deles precisam, mas citadinos, porque descobrem ao fim de pouco tempo que ter animais na cidade pode ser um pesadelo. Um bom serviço que as associações de animais deviam fazer era deixar de colocar fotos de gatinhos fofinhos e colocar a foto do gato a destruir o cortinado – talvez o número de abandonos diminuísse porque o número de pessoas a querer ter animais sem condições também ia diminuir. Não me oponho a que as pessoas tenham animais capados e presos, e embora eu não ache muito correcto, não aderi a uma campanha a chamá-los “criminosos”, “deviam era ser espetados”, “detentores de presos políticos”, “mais valia serem abatidos esses humanos”, “não valem nada”, “são piores que o meu cão”. Sim, estas são as coisas “humanas” que os defensores dos animais costumam escrever sobre os outros seres humanos que não têm esta relação, de traços obsessivos, com os animais. Ou seja, não há diálogo, apenas violência verbal descontrolada. E ódio, muito ódio.
 
Eu não gosto de touradas, repito, mas gosto de ouvir debater o tema de parte a parte sem ódios viscerais, e falsos moralismos vindos de pessoas que em muitos casos têm animais presos o dia inteiro no belo apartamento. E acho que numa coisa o Manuel Alegre, em quem nunca votei, tem toda a razão – o “politicamente correcto” envenena as relações sociais porque torna todos os debates interditos. É uma forma de censura e de limite à liberdade de expressão. Em que, em nome da suposta vítima, somos convocados a mentir e omitir o que pensamos. Quando o problema não está no que pensamos, isso é livre, está na educação e correcção intelectual com que expomos opiniões e não – como querem os sectores politicamente correctos -, na defesa da mordaça.
 
Só uma declaração final em mais este fait-divers – se alguém me quiser obrigar a ser vegan ou fizer proselitismo neste sentido, do género “vamos taxar a banha e diminuir o défice”, faço uma aliança política da extrema esquerda à direita liberal com toureiros, caçadores, pescadores, pastores que proponho já chamar-se Grupo dos Amigos da Alheira e do Robalo de Mar Grelhado. E convido o meu amigo Otelo para Comandante, espero que ele aceite e faça uma ordem de operações para tomarmos os pastos e pesqueiros deste país em nome da grandeza da gastronomia portuguesa. Não recuaremos! Haja saúde!

Un peuple en révolution

Meses antes de de Howard Zinn morrer escrevi-lhe sobre o meu projecto da História do Povo na Revolução Portuguesa. O maior historiador da América, infelizmente não editado em Portugal, coisa que ainda não entendo, que tinha começado a vida como estivador, filhos de judeus pobres emigrados, escreveu-me de volta com um enorme entusiasmo e devo dizer mesmo carinho – sem me conhecer. Este mês o meu livro é publicado em França na mesma editora francesa que o publica. O significado disso para mim é imenso porque ele é e será sempre o mestre da historiografia social que não se limita a fazer a história dos debaixo, das vítimas, do trabalho, com suas misérias e grandezas, é muito mais do que isso, as Peoples History, de que ele foi o percursor em todo o mundo, é a história de um tipo particular de subalternos. E que por isso não se podem chamar subalternos – é a história dos que resistiram.

Para os amigos franceses o livro já se encontra à venda em França, e em Janeiro devo fazer algumas apresentações no país de Blanqui e Jaurès, no país que em 1945 tinha meio milhão de militantes armados na resistência ao nazismo.

Pas de nouvelles parutions de livres ce mois-ci – il faudra attendre novembre pour lire Un peuple en révolution, l’ouvrage de Raquel Varela sur la révolution portugaise.

Fui visitar a minha médica de família, e fui de comboio

Recentemente visitei a minha médica de família, atendeu-me às 8 da manhã, tratava-se de requisição de análises e alguns exames necessários e a consulta demorou 1 hora e 10 – leram bem. Porque o computador foi abaixo três vezes. Ela não se cansava de me pedir desculpas, como vem de um país asiático longínquo aproveitámos para conversar sobre história e cultura, o computador foi novamente abaixo, mudámos o tema para teatro, temos filhos no teatro, novamente abaixo – o “sistema não responde”, “erro no sistema”. E o centro de saúde não tem informáticos, apenas técnicos administrativos, que aliás sabem ainda menos de informática do que eu ou ela. Nem têm que saber, isso é uma especialidade técnica – no SNS ela, porém, não funciona, foi alvo de um ataque de cativações.

Mário Centeno tem uma personalidade cativante, é um neoliberal de esquerda que fez a sua carreira académica sobre o mundo do trabalho, conhecemos por isso bem o seu trabalho, o seu ápice cientifico, sofisticado devo dizer, foi propor uma contrato único europeu nivelado por baixo, uma espécie de vamos todos viver como na Grécia, da Suécia ao sul de Itália. Essa ideia brilhante para quem vive de carteiras de acções teve também peso para que fosse convidado a estar no Eurogrupo, uma para-instituição financeira não eleita que decide os destinos dos nossos impostos para um destino que ninguém conhece, uma vez que, pese embora a propaganda, os serviços públicos estão em colapso. Porém, ao contrário do seu antecessor holandês, o tal que nos chamou bêbados, Centeno vive de cativar-nos.

Quando apresentámos o nosso trabalho sobre o SNS para a Ordem dos Médicos propusemos a criação de um secretário de saúde, alguém com formação que estaria ao lado do médico a fazer todo o trabalho administrativo enquanto o médico exercia medicina. Isso iria aumentar a riqueza produzida ou seja, o número de doentes tratados (e bem tratados), com tempo. Diminuiria, como sabe Centeno,o lucro, que é pago em juros da dívida, cativado nas contratações de funcionários públicos. Tal proposta nem foi ouvida. Também está cativada. Porque há o “perigo sistémico” dos banqueiros ficarem nervosos se lhes cativarmos o que receberam do erário publico. O medo deles, que estão com o nosso dinheiro, é uma alegria constante que vivemos nos sorrisos de Centeno.

Cativado esteve também o passe social dos meus filhos, finalmente tiveram um desconto de 25% – pagam os 2 juntos…77 euros por mês, portanto 1/5 do salário mínimo, já que o que eu pago em impostos para transportes públicos está cativado para pagar as PPPs, este ano vão ser 1500 milhões de rendas fixas para esta malta cativante das autoestradas. Requeri o passe dia 11 de Setembro, chegou ontem dia 6 de Novembro, embrulhado em sinceras desculpas pelos trabalhadores da CP do meu bairro, que aliás passam o dia a pedir desculpas aos passageiros de coisas que não têm culpa: supressão de comboios, atrasos. Centeno passa as desculpas para quem está no atendimento na linha da frente, enquanto nos cativa no Jornal das 9. A oposição está cativada pelo cativante Centeno e pelos cálculos eleitorais de que indo contra o PS abrirão a porta ao PSD – ora o que abre as portas, a médio prazo, à direita, e à direita mais dura, é o caos social e sobretudo a ausência de partidos de esquerda com propostas justas e corajosas, é neste vazio que tanta gente perdida acaba a votar em pistoleiros e bárbaros.

Que nos sobre a nós o realismo de percebermos que não há simpatia onde não há justiça social. Pagar impostos neste país começa a ser um sacrifício moral. Quando eu era pequenina todos à minha volta, em geral gente progressista, acreditavam no pagamento de impostos porque eram progressivos e tínhamos bons serviços públicos, fui assim educada. A fuga fiscal era condenada. Hoje não conheço ninguém que pague impostos com agrado – e continuo a ter amigos progressistas. Os impostos em Portugal só são pagos porque o único serviço que funciona bem é as Finanças que têm prerrogativas aliás para-criminais, como suspender as contas, coisa de país sub-desenvolvido. Aí, nas Finanças, Centeno não poupa nem nos serviços informáticos nem nos funcionários. Tudo isto é engraçado, mas é sobretudo vergonhoso. Porque não há erro no sistema, é o sistema que está errado.

Da cabeça às mãos

Por causa da (ir)realidade política tenho escrito pouco sobre o que é importante, a vida. Vou guardando as histórias debaixo da urgência da sobrevivência do mundo. Aqui vai um cheirinho de vida.

Entro numa loja para arranjar os dois trompetes dos nossos filhos. Comprados há 10 anos, quando começaram a aprender numa Banda Filarmónica. Sentado, concentrado, com os olhos quase em cima de um clarinete e um pequeno instrumento na mão um artesão arranjava-o. Disse-lhe, feliz de o observar, «Bom dia! Com esse trabalho nunca entristece!». Ele levantou-se, surpreendido e veio ter comigo, «Como sabe, menina?». Deixo-o continuar, chama-se Francisco, não lhe disse o que sabia de reificação, alienação, estranhamento, adoecimento no trabalho, separação entre trabalho manual e intelectual, autonomia e criatividade. Porque queria mesmo era ouvir a alegria dele: «É uma paixão, uma paixão, já estou reformado mas adoro isto». «O meu trabalho começa aqui (aponta com as mãos para a cabeça), vai por aqui (segue com as mãos a curvatura da barriga), e sai por aqui». Exibe-me as mãos. «As minhas palmas são o público, quando vão a concertos». Fica a conversar. Ficamos ali juntos, ao balcão. Finalmente olha para os meus trompetes, diz-me que são chineses, «não faz bem ao menino aprender com isto, ele com isto já não vai aprender mais, assim tira-lhe o gosto». Decidimos comprar um novo trompete para o M. O D. mudou para o piano, onde toca Mozart com alegria e me deixa recados, bem humorados, a mim, que também recomecei a aprender, com algumas dificuldades, de tempo e de talento, «Estuda, mãe».

Levo para casa o trompete, o M. olha com os olhos brilhantes, muito feliz, começa com cuidado a tocar e todos nos surpreendemos…Parecia um outro instrumento, límpido, perfeito. O M. sorri, e fica quase só olhos, enormes, negros, brilham. Levamos os velhos trompetes para a banda filarmónica, onde os oferecemos para novas crianças darem os primeiros sopros. O Sr. Francisco tinha-se já despedido no fim da manhã de mim com um suave, e convicto, «Obrigada por me escutar, compreender-me». Eu quase não falei com ele, na verdade, só o ouvi, eu estava ali feliz de ouvir alguém feliz com o trabalho. Um dia todos viverão assim, felizes com o trabalho, inteiros, da cabeça às mãos.

RV, algures no ano de 2018

História e Democracia

Entrevista que dei sobre democracia, a nova extrema direita e história da Europa, e o «milagre» europeu que não se deve à exploração das colónias em primeiro lugar, mas à derrota política do mais organizado sector operário do mundo, os alemães, no nazismo.
Como evolui a democracia entre o século XX e o século XXI?
Raquel Varela: Muito bem em alguns momentos, como 1945-1970, em que por força do pacto social que decorreu da II guerra se associou democracia política com direitos sociais; muito mal noutros, como na década de 30 na Alemanha, Áustria, Portugal, Espanha. Penso que o desastre começa em 1928 na Rússia com a ascensão da ditadura comandada por Estaline. Estas derrotas sociais, juntas com a crise de 29, deram a vitória ao nazismo. Mas não há Europa sem Rússia, ainda hoje. Estranho que não vejamos que o território russo que conta está na Europa. No pós re-estruturarão produtiva dos anos 70 a contradição entre economia de mercado e direitos sociais voltou a vir ao de cima. Hoje as pessoas são livres para votar e não conseguem sequer ter em grande parte qualquer hipótese de independência económica para viver. Esse hiato vai agigantar conflitos sociais no futuro, a curto prazo.
Entre 1917 e 2017 a Europa foi o centro de um projeto de integração política, social e económica cada vez mais contestado. O que seria da Europa sem a CEE ou a UE?
RV: De facto só houve dois projectos europeus, o da Oposição de Esquerda liderada por Leon Trotsky nos anos 30 do século XX, esse projecto não saiu do papel pela derrota da revolução espanhola e a ascensão do nazismo; e o projecto europeu das classes dominantes dos anos 70, que veio a dar a União Europeia. Esse saiu do papel. Vingará por muito mais tempo? Tenho dúvida. Os sinais, como o Brexit, indicam que a competição entre empresas de Estados europeus vai sobrepor-se à solidariedade. Uma Europa dos povos unida – sem a qual não haverá paz – tem que ser construída pela mundo do trabalho manual e intelectual, não acredito que os Estados estejam à altura desse desafio histórico.
De entre os principais acontecimentos que marcaram a Europa entre 1917 e 2017, há algum que tenha marcado particularmente e de forma mais radical a dinâmica Europeia e os Europeus?
RV: Sim, a revolução russa, e a Segunda Guerra Mundial. Mudaram a posição “do eixo da terra” – a revolução russa ampliou como em mais nenhum momento os direitos sociais, até o direito ao voto se espalhou pela Europa não revolucionária depois de 1917 – devemos isso aos russos, que sempre tiveram menos democracia interna do que aquela que proporcionaram com a revolução em 1917 na Europa.
E a Segunda Guerra que é o corolário do medo da revolução social, de uma nova revolução russa, quer na Alemanha, quer na própria URSS. Mas é preciso estudar as crises económicas, faço isso em relação a 4 crises na Europa, 1929, 1970 e 1981, 2008 – todas estas crises mudaram a configuração da Europa e consequentemente do mundo sob sua influência, directa ou não. O Estado Social europeu é o que de mais avançado foi produzido desde sempre na história da humanidade e foi conseguido – essa é uma tese minha que levo a debate neste livro – pela derrota politica do movimento sindical alemão entre 1933-1945. A Europa tem as taxas de crescimento que tem (que permitiram o pacto social, subir lucros e subir salários, em suma) não só pela exploração das colónias, isso foi essencial mas secundário, mas porque recomeçou a produção capitalista em 1945 partindo do zero, com os métodos de gestão norte-americanos e uma classe trabalhadora desmoralizada, cujos principais dirigentes tínhamos sido mortos. Idem para o Japão, o milagre do boom económico.
Os resultados eleitorais nos últimos dois a três anos revelam o aumento de popularidade de partidos tidos como de extrema direita em alguns países europeus como a Hungria, Polónia, França, Áustria e Itália. Prevê esta tendência em Portugal?
RV: Não acredito que Portugal escape, embora vá ser mais tardio e menos radical porque houve o 25 de Abril. Creio que a ascensão da extrema direita está relacionada com o falhanço simultâneo do neoliberalismo e da esquerda social democrata. Hoje a meta narrativa de transformação radical da sociedade é um exclusivo da extrema direita, têm um programa estratégico. Desastroso e violento, mas estratégico. O neoliberalismo falhou totalmente em afirmar o seu propósito, o de que a flexibilidade laboral iria trazer crescimento e bem estar. Foi o contrário.
A social democracia abandonou um programa de defesa do pleno emprego e Estado social e trocou isso pela defesa do assistencialismo. A esquerda revolucionária é marginal e confusa, identitária e segregacionista, incapaz por agora de dialogar com a maioria do mundo do trabalho.
Sem vitórias esta onda não vai mudar. Mas as vitórias podem ser repentinas. Mas são necessárias. O que tivemos foram derrotas, a traição do Syrisa ao referendo, o catatonismo social democrata pela Europa que aceita os ditames neoliberais da Europa, a derrota sangrenta e medieval das primaveras árabes e o caos na Venezuela. Foram sucessivas derrotas no campo da esquerda, que se entrincheirou no identitarismo, lugar onde será esmagada pela extrema-direita se não conseguir ter um programa universal de governo e bem estar para todos.
Sendo professora universitária, que diferença espera encontrar nestes alunos do “Âmbito Cultural”?
RV: Dou muitas aulas em associações, ordens, sindicatos, bibliotecas. Em geral acho que quem vai a estas sessões fora da academia tem uma curiosidade muito grande, isso é muito gratificante. Escrevi este livro para o público em geral. Queria que hipóteses complexas pudessem ser lidas por todos. Explicar o complexo de forma simples, mas não simplificar a realidade.
Entrevista publicada em Magazine ElCorteInglês, sobre o meu livro Breve História da Europa (Bertrand, 2018). A propósito do curso que vou dar sobre o tema no ElCorte Inglês, inscrições no local acesso livre. Informações em