Um dia destes fui a uma festa de aniversário de um amigo pensando que, como sempre, me vinha embora pelas dez da noite, cansada, com a clássica desculpa “tenho de acordar cedo”. Eis que, muito depois das dez, ali estava eu, a conversar feliz, dando uns passos de dança. Um pátio pequeno de uma simples casa encantadora com luzes indirectas, um grupo de três músicos de jazz, só com os seus instrumentos, a la banda de Woody Allen, e umas saladas e espumante. Muita gente a conversar. Um luxo, uau, afinal gosto de festas! Viver é cada vez mais difícil porque a simplicidade tornou-se inusitada e não é só de dinheiro que falamos, nada ali foi caro.
Por vezes penso com sinceridade se não posso tornar-me numa daquelas intelectuais ressentidas, pedantes e desmoralizadas, que a pequena burguesia produz em tão grande quantidade quando a sua pequenez numérica permite. Estou sempre a pedir ao meu marido, como pensamento mágico, não me deixes tornar numa cínica. Cinismo é aquele estado de pretensa superioridade moral que acredita que todos à sua volta não estão à nossa altura. É um sentimento que observei muito ao longo da vida, o típico caso do gajo que vai em sentido contrário e diz que todos os outros estão a vir contra ele. Há também os que desistem, ficam sós ou com os seus, não são cínicos, mas é outra forma de virar costas ao mundo, e por isso à vida.
Até que…dou por mim a voltar a ter uma felicidade e um entusiasmo crítico pelo mundo igual ao que sempre tive, o que mudou? Um dia sem internet, sem luz led, sem música tecno, uma folha de papel, um jazz sem amplificadores. Estar bem tornou-se um luxo. Fomos invadidos de IA, luzes Led, e barulho constante. Insuportável – estamos em ruptura metabólica com o nosso corpo, audição, visão.
O quotidiano no capitalismo – marcado por luzes intensas 24 horas por dia, música em todo o lado, normalmente tecno ou as várias versões dessa batida no zinco que reproduz o ritmo de um tear mecânico numa fábrica, alertas a toda a hora, do cinto do carro à porta do microondas não há máquina alguma que não apite; e milhares de pessoas, entre elas nós mesmos, horas a fio de pescoço pendurado, em frente desta luz azul, não só pela compulsão dos conteúdos mas porque a IA nos obriga a fazer serviços a nós próprios horas a fio, somos trabalhadores das bigtecs, marcamos consultas, subimos trabalhos na nuvem, baixamos a aplicação, um inferno, que está a alterar até as hormonas e os tempos da menstruação e da menopausa, acelerando tudo. Aos homens pede-se que não estudem (veja-se a campanha do Jornal Público sobre os benefícios salariais do ensino profissional ao mesmo tempo que chora lágrimas de crocodilo sobre os pobres não irem para a Universidade) e se preparem para a guerra, vão ao ginásio, tomem suplementos, e não acreditem no futuro, nem precisam de estudar…Há uma campanha – em todo o mundo – de recrutamento militar em curso, disfarçada de “entrar rapidamente no mercado de trabalho”, não estudar, e tomar suplementos para ser forte. E nunca parar.
O dia a dia tornou-se totalmente hostil para todos nós, crianças, jovens e adultos – chega-se ao fim do dia exausto pelas horas a fio de internet, pelo barulho constante, pela ruptura com a natureza (olhem que não sou – nada contra -, mas não sou, “come flores” nem nasmatê), e pelas luzes Led, cada vez mais fortes, dia e noite.
Não mudou o genocídio na Palestina, as derrotas do movimento operário, a pobreza e as tragédias, só quem acreditou no capitalismo do pós guerra e no pacto social estará derrotado nas suas ilusões. O capitalismo é barbárie, e as revoluções são actos de civilização inevitáveis contra a barbárie. O pacto social nascido em 1947 é uma derrota – os trabalhadores entregaram as armas – pressionados pela burocracia de Estaline – em troca de um acordo que evidentemente não ia ser cumprido nem pelos EUA nem pelo que sobrava da burguesia alemã, inglesa e francesa, em escombros. A burguesia estava por um fio, sabiam que não tinham força sem negociar, a guerra tinha deixado um rasto de 80 milhões de mortos e milhões de trabalhadores armados, organizados e- então – ninguém duvidava que a guerra tinha sido originada pelo capitalismo.
Ver as imagens de Gaza e da Cisjordânia, mais dinheiro para os bem equipados e sempre abertos hospitais na Ucrânia comprarem próteses aos jovens ucranianos, as pessoas a voltarem a viver em barracas ou comerem açúcar em vez de sopa, suplementos em vez de carne, estarem sós, cada vez mais sós, tudo isto é assustador e triste. Mas o seu antídoto está aí, não há dia no mundo que não haja um grupo que luta pela Palestina, uma greve contra os baixos salários, um ser humano que não ajude outro a não ser despejado de casa, duas pessoas que não se amem e se cuidem. Há um mundo porvir.
Quando largo horas a fio este computador, e deixo de estar exposta às luzes led e ao barulho constante, toda a minha visão optimista e paixão regressa. Temos um novo inimigo a derrotar – a nossa atenção está capturada 24 horas por dia. Para que não vejamos como podemos viver de outra forma.
Não me tornei numa cínica, mas já nem aceito jantar em casa de amigos que colocam uma luz branca led sobre a mesa – encontramos-nos na tasca onde almoço todos os dias, à luz do sol, com o Sr. M. a cantar fado.
Para parar o genocídio em Gaza temos de parar também este estado de aceleração total do capitalismo, esta droga massiva que estamos todos a tomar e nos faz andar a 300 km hora.
A IA e a Gaza são duas faces da mesma moeda, a precisão da geolocalização dos drones, a transição digital na escola para os alunos aprenderem a usar mais a IA, o PRR que financia empresas de drones e pede jovens que não estudem e vão para as fábricas, tudo isso depende do número de notificações e vezes que usamos o google maps que ensina à IA a matar com mais precisão.
A capacidade de produzir em turnos nocturnos drones, (não dormir, veja-se a venda livre de melatonina) ou massas pré cozidas para alimentar quem produz drones, depende de ensinar as crianças deste tenra idade a estarem a usar telemóveis e Reels, a sua atenção focada. Para tal há conteúdos viciantes e para os jovens há suplementos energéticos, proteínas, ginásios, e o culto do eu, eu estou só, não preciso dos outros, só me posso safar sozinho, eis o culto da guerra. Os adultos não estão livres, pelo contrário. Se jantamos com Led branca, a pedir o menu por um Qcode, a ouvir tecno, vamos para o carro e o cinto apita, recebemos a notificação de que cumprimos o tempo de exercício, e vamos ver Reels, tudo isto nos coloca em ruptura com a nossa capacidade política – física, mental – de mudar o mundo porque simplesmente nos coloca em ruptura com o nosso corpo.
Estudar e ler, em papel, cozinhar para os amigos uma salada com frango e ervas aromáticas, ceder numa discussão, sim, não estamos sós, jazz, luzes indirectas, a vida é muito mais fácil e bela do que nos vendem.

