Agenda Setembro e Outubro 2026

Deixo aqui a minha agenda de eventos públicos, para este e próximo mês, para quem queira ajuntar-se:

Este sábado dia 26 de setembro, em Vila do Conde, após a conferência do Arquiteto Rui Pinto, acontecerá o lançamento do livro Sonhos e Realidades da autoria do pedagogo e poeta anarquista Joaquim Moreira da Silva, farei a apresentação da obra. Centro da Memória, aberto ao público.

2 e 5 de Outubro farei palestras na Ilha Terceira nos Açores, deixarei em breve o programa.

8 de Outubro, festival literário de Viseu, à noite. aberto ao público.

10 de Outubro, seminário de medicina do trabalho, Faculdade de Medicina Porto (creio que este não é aberto ao público).

11 de outubro Viana do Castelo. Ser mulher no século XXI, 11 de outubro, no Salão Nobre da Junta de Freguesia de Mujães, em Viana do Castelo. 10 horas. aberto ao público.

11 de Outubro Folio, Óbidos, final da tarde. aberto ao público. Debate sobre democracia a partir do nosso livro Do 25 de Novembro aos nossos Dias (Bertrand).

16 e 17 de Outubro na Escola Camões, congresso de educação. aberto ao público mediante inscrição. ver aqui https://ocvt.unl.pt/pt/eventos

Madrid, 19 e 20 de Outubro. Congresso sobre o fascismo e como derrotá-lo. Universidade Autónoma de Madrid. Farei a sessão plenária às 18 horas de dia 19.

24 de outubro. Olhão. Auditório Municipal. Turismo, agricultura, indústria, que economia? Contributos para compreender a Evolução Socioeconómica de Olhão e do Algarve. 10 horas, entrada livre.

O futuro, e se ele acontece mesmo?

Tenho pensado muito nesse lugar comum “os jovens de hoje”.

O consumo massivo de marijuana – vendida como inócua – e agora de drogas de “aceleração” (pastilhas), é o caminho natural para uma juventude ansiosa, que sai de casa de manhã, ou pela tarde, e acha que não tem futuro. Têm mais futuro possível do que os avós – creio e vou defender isso aqui -, mas acham que não têm futuro algum. Foram também convencidos que têm todos alguma doença, do défice de atenção a Asperger, há poucos que acreditam que afinal a maior doença é falta de vida colectiva. Não saem deles próprios. E as drogas só servem para aumentar essa sensação de ficar dentro de si. Escola-casa, trabalho-casa, diversão-casa, o movimento pendular que nos afasta do género humano é cada vez mais acelerado.

Notem, sou contra a proibição das drogas. O que não posso é ser a favor das drogas, andar drogado ou bêbado não é como comer uma tangerina ou dançar forró, não é certamente a experiência de prazer mais interessante da vida, de fazer amor a trabalhar com prazer, de lutar juntos e subir uma montanha quase tudo dá mais tesão, relax, prazer, enfim, do que qualquer droga. Há uma sociedade alienada e doente. A erva tinha 4% de THC (molécula psicoactiva da marijuana) hoje tem em média 35% a 40%. O que fez explodir as psicoses, entram em delírio nas urgências, ou andam entre apáticos e agressivos no dia a dia. A mesma droga que os acalma no dia a seguir os enerva. Falem com qualquer médico psiquiatra numa urgência. No caso das pastilhas leiam o aterrador artigo no Le Monde Dipomatique de Agosto, em casas e apartamentos fazem-se milhões destas merdas inventadas na II Guerra Mundial para dar aos soldados.

Ao contrário do que se diz no senso comum os nossos pais viveram muito pior do que nós e não é líquido que esta geração actual de jovens viva pior do que os pais, certamente vivem muito melhor do que os avós. De onde vem tanta desesperança? Tanta sensação de apocalipse?

Primeiro, os nossos pais, se fossem camponeses ou operários, com 18 anos tinham pela frente a polícia política, a guerra colonial, a imigração para viver em bairros de barracas em França, precariedade, famílias sem liberdade de escolha, se fossem de classe média tinham tudo isto com uma casa com escassos metros quadrados, muitas vezes dividida com amigos e talheres emprestados. “Antigamente é que era bom” é um mito.
Há porém algo que tinham antigamente: projecto de futuro. Os avós não tinham mais futuro, tinham mais projeto. Prévia ideação – uma ideia de vida coletiva comum. A grande vitória da extrema direita – neste campo de braços dados com a social democracia, a esquerda institucional e o liberalismo, veja-se que todos juntos pilotam a guerra como “única saída” – foi convencer os jovens de que “não há alternativa”.

Um grande historiador do fascismo Robert Paxton recorda que todos os fascismos são distintos, porém têm algo em comum – o pessimismo.
O pessimismo hoje também é dominante na social democracia, longe vão os tempos do capitalismo oferecer melhoria de vida nas contratações colectivas.

Nisto estão a vencer-nos, estes canalhas. Convenceram os jovens de que “não há alternativa”. Porque a esquerda deixou um campo aberto, flutuando no assistencialismo, no paternalismo, na suposta liberdade de escolha que redundou no presentismo (só há dia de hoje, não há passado nem futuro).

Os jovens estão sós, pensam eles. Não admira que se tenha expandido – entre os rapazes – uma cultura de ginásio, musculação, suplementos de proteína, tudo aumentando os níveis de agressividade (guerra), enquanto os jornais comuns e campanhas pagas na redes sociais os convencem que não vale a pena estudar, ser esforçados, vai antes fazer biscates, usar o ChatGPT, arrastar-se em casa dos pais ou emigrar como quem vai de férias. Estão sem mapa, dependentes do GPS. Pensam que não há alternativa. Não têm um projecto com o género humano. E sem isso a depressão chega – somos seres sociais e relacionais, se não somos deprimimos. A minha maior adesão ao socialismo revolucionário, desde os 16 anos, vem da alegria que me dá ser parte da família humana, mesmo com todas as chatices que isso acarreta. Penso em ti, logo existo, disse o meu querido amigo Coimbra de Matos.

Essa ruptura com o género humano hoje dos jovens não nasceu só nas famílias, que os protegem de forma absurda das frustrações e do sofrimento, incapazes de colocar linhas vermelhas. Protegê-los da frustração é protegê-los do trabalho real e do sofrimento, de que ninguém gosta, mas sem ele não há prazer (Christophe Dejours). Todo o trabalho exige sofrimento e prazer, e é isso que evita o adoecimento e a depressão.
Não me entendam mal, nenhum trabalho exige medo, assédio, desemprego. Mas exige sim temor de errar, não conseguir fazer, ter de refazer, insistir, esforço, etc. Esse sofrimento é também o prazer, o prazer de depois conseguir fazer. Sublimação. Esta cultura do que é chamado por aí de “facilitismo” – que na verdade é de uma sociedade automatizada em que se espera que não saibam fazer nada, só carregar em botões – cresce e medra nas escolas e na universidades onde cada vez menos se exige responsabilidade, rigor, esforço. Aliás, não só não se esforçam como podem queixar-se nas caixinhas de denúncias, nos conselhos de turma, enfim são vítimas, não sujeitos. Passam 8 horas na escola, o lugar onde passam mais tempo, onde podem mentir e passar de ano, chegam à Universidade onde têm notas que há 40 anos nem Deus tinha, e agora são mesmo ensinados ao “uso ético” da fraude, “como fazer o prompt na IA e a seguir confessar” – como na Igreja – que mentiram (fazer correctas referências de que usaram a IA…).

Os projectos de hoje são em quase todos os jovens de gestão do quotidiano, sem futuro, sem coletivo – não há futuro quando não há coletivo. Estão sem alternativa. Para uma parte ínfima dos jovens as carreiras das finanças e gestão são a única saída para um salário alto – nunca falarão com amor ou paixão do seu trabalho, onde exercem funções de poder do caos capitalista – mas terão acesso a bens materiais confortáveis, falarão de viagens, dos restaurantes e dos filhos; para outros a emigração, o biscate, ir de casa em casa, como nómada, não ter família ou relações de amizade e amor densas (que só se constroem com tempo), acham que estão “sozinhos no mundo”, será o caminho. Outros arrastam-se na casa dos pais até aos 25, 30, 40 anos, sem autonomia, sem projecto, entre Marijuana e anti depressivos. Nenhum destes tem um projecto de sociedade. Maior do que si próprio.

O pacto social entre capital e trabalho, quando havia negociações entre a burguesia e os trabalhadores, morreu em 2008. Esse pacto, nascido na derrota nazi em 1945 foi uma negociação entre os EUA e Estaline para manterem esferas de influência e convencer os trabalhadores a entregarem as armas e desistir de lutar pela revolução.

A sombra de um apocalipse nuclear hoje é real, mas é muito mais provável que a resistência ao genocídio na Palestina, que tantos jovens mobilizou, que as manifestações – ontem uma gigante contra Millei – que as greves e protestos, que vão da Albânia contra a expropriação de terras aos jovens indianos, sejam o futuro.

O futuro existe – só que só existe se o construímos como imaginação. Vivemos uma crise de imaginação política. O PISA só mede quem sabe contar e escrever, é o mais pobre dos medidores de competências. Não mede conhecimento, não mede quem conhece o passado (história, que nos diz que já fomos outra coisa) e quem é capaz de imaginar o futuro (literatura). A coisa mais subversiva que há é imaginar o futuro. Não vá que ele acontece mesmo.

Teatro do povo, não para o povo

Deve haver poucas coisas de que goste ou desgoste tanto como uma boa e uma má peça de teatro. Colam-se ao corpo o belo, o sublime, a criação, e o torpe, o bizarro e o constrangimento. No tempo de Shakespeare o teatro era popular, durava com frequência cinco horas, e as pessoas conversavam, comiam, pateavam, aplaudiam, bebiam e riam no meio da peça.

Leva-me a imaginação para cinco horas de uma peça, cinco horas sentados, sem respirar (tossir é ainda mais grave), conceptual, sem narrativa, com atores tão dramáticos que exageram o exagero e que o encenador acha que para ver as entranhas é preciso mostrá-las.

O que mudou de Shakespeare até hoje? Ouço tantos atores queixarem-se do público, creio que não sabem, ou já deixaram de saber – só quando todos fizermos teatro haverá públicos para teatro. Foi mais ou menos isso que encontrei na ilha Terceira. E não me tomem por defensora dessa ideia de que só o que é lúdico e alegre é tolerável. Em rigor, uma boa peça de teatro, dramática, intensa, profunda, só pode ser boa quando amplas camadas da população fizerem teatro, é esse o meu argumento, e que remete para uma ideia que não é minha, mas de um senhor barbudo, desconhecido por tantos, chamado Karl Marx: no capitalismo dá-se a separação entre produtores e consumidores; nem todos seremos grandes atores, mas todos iremos gostar de teatro se todos fizermos teatro ou, como disse Boal, o teatro é tão importante que até deve ser feito por atores.

Teatro do povo, não para o povo

Recordo de memória um testemunho do Zeca, já amado pelas massas, em que ele dizia que agora tinha muito público, mas do que ele gostava mesmo era de cantar com as pessoas e não para as pessoas.

Fui àquela que foi, com certeza, uma das festas mais deslumbrante – e olhem que conheço algumas festas populares nos Alpes e nos Pirenéus, refúgios de cultura que a orografia, a vida camponesa e os subsídios agrícolas preservaram. A festa foi o Carnaval da Ilha Terceira. Uma ilha em que todos fazem teatro. Uma ilha que mudou a relação entre produtores e consumidores, e o sentido do trabalho e, por isso, da cultura.

Não imaginava que pudesse estar sete horas a assistir a teatro sem debandar ou atirar tomates ao palco. Mas estive, e durante três dias, sete horas num dia, cinco no outro. Espero convencer-vos de que não exagero nas palavras. Tudo o que morreu em quase toda a parte do mundo ali mantém-se vivo, como semente de um futuro porvir. Na Terceira quem produz é quem consome, os que escutam música são músicos, os espectadores também fazem teatro, a cultura é de todos. Por razões que não estão totalmente claras – apesar de muitos terem estudado, e bem, o fenómeno –, o Carnaval como sempre foi, teatro popular (não teatro para o povo), ali mantém-se.

Todos os anos, nas freguesias da ilha, mais de 50 grupos de “bailinhos” auto-organizados, andam de freguesia em freguesia, de sexta a terça de Carnaval, mais de 1500 músicos e atores. Em geral, começam por um grupo de amigos, pelas alturas do Natal. Um diz: “Este ano tiramos um bailinho?” Vão ter com poetas locais – alguns escritores maiores formados em anos desta façanha que é ser humano – e contam uma história, em verso, que fala de Trump e do Governo regional, da amante do padeiro e do pão de má qualidade do vizinho, da casa de prostituição e do casamento, da imigração e do retorno, da TAP e da SATA, da falta de dinheiro e dos esquemas para o conseguir, das vaquinhas e das touradas, do amor, da morte, da vida. Nada de humano lhes é estranho. Reconhecimento e representação, duas palavras-chave para entender a subjetividade e a política. Depois, a eles junta-se um dos mais de 30 grupos musicais das filarmónicas que, agora com o roubo da IA e dos direitos de autor pelas big techs e afins, voltaram a compor mais músicas originais. Pede-se às costureiras para fazerem os fatos, em geral pomposos e brilhantes, e por elas desenhados. Também aqui quem faz pensa. Ensaia-se durante os dias frios de janeiro, nas sedes das sociedades recreativas, casas do povo, dezenas destes lugares e, se necessário, garagens, com batata-doce e alfaias agrícolas ao lado de cervejas e alcatra fumegante. Há grupos de homens, mulheres, mistos, jovens e velhos, lavradores, cabeleireiras, biólogos, mecânicos, professores, polícias, enfermeiros, lavradores, cientistas, um encontro democrático, igualitário.

Geralmente cada peça dura entre 25 e 40 minutos. Quando chega o dia, cada grupo de bailinhos, em geral 20 a 30 pessoas, vai de freguesia em freguesia apresentar no palco da sociedade filarmónica, recreativa, casa do povo, dos lavradores, o seu bailinho. Não há dinheiro, ninguém paga para fazer, entrar, assistir e participar.

É muito difícil explicar a todos, mas sobretudo aos atores, que o problema do teatro não está no público. Nem o problema dos escritores ou dos músicos está nos leitores e nos ouvintes. O problema está nesta divisão entre produtores e consumidores, entre quem pensa e quem faz.

O sociólogo Richard Sennett defende que a democracia não se encontra numa cidade em que cada um respeita a cultura do outro, essencializada (visão kantiana e multiculturalista), mas na existência de espaços – como não elogiar as sociedades filarmónicas, o sentar à mesma mesa e conviver, os bailes? – onde vivemos e convivemos com quem é diferente (universalismo concreto). Uma cidade sem muros nem ameias foi o que encontrei no Carnaval da Terceira.

A classificação eventual do Carnaval da Terceira como património imaterial da humanidade reconhece a importância desta cultura, desta gente, desta arte, mas paradoxalmente pode impor-lhe limites e uma arquitetura que põe em causa essa mesma espontaneidade, essa relação entre trabalho e cultura, essa autonomia, que faz este carnaval. Caberá aos que fazem teatro pensar sobre este desafio.

Publicado em Jornal Maio Este artigo foi realizado no âmbito da residência da historiadora Raquel Varela na 1ª edição do Monte Brasil – Festival Internacional de Literatura e História de Angra do Heroísmo. Associação Dois Caminhos/Lar Doce Livro.

Olh’ó Maio

Um retrato da Alemanha onde ganhou a AFD.

Reportagem em vídeo do Maio juntos dos sindicatos e ORTs contra o desmantelamento da CP. (apesar de toda a cs ter sido informada o Maio foi o único jornal presente). Ouvimos os trabalhadores.

Perante a ameaça de greve dos técnicos de emergência pré-hospitalar, o presidente do INEM recua nas medidas nas medidas anunciadas por Luís Cabral desde a sua chegada ao INEM: as 56 ambulâncias de emergência médica continuarão integralmente disponíveis para a emergência pré-hospitalar e para a prestação de cuidados diretos aos cidadãos. Por Rui Lázaro, Sindicato STEM.

Na saúde, a reforma que verdadeiramente falta continua por fazer: salários e carreiras valorizados, condições de trabalho dignas e uma negociação coletiva séria, capaz de trazer e manter no SNS os médicos e os profissionais de saúde de que a população precisa. pela Médica e dirigente da FNAM Joana Savva Bordalo Sá

O crescimento da produtividade desde 2022 deve-se mais a um uso mais intensivo de tecnologia existente após o fim da pandemia do que à introdução de IA. A adopção de IA tem aumentado, sim, mas ainda está muito longe do pico. A Goldman Sachs estima que possa demorar quinze anos a lá chegar; a OCDE aponta para vinte. Conseguirão as actuais empresas de IA sobreviver tanto tempo? Michael Roberts blog

A massificação da flauta de bisel no ensino da música limitou outras oportunidades pedagógicas musicais. Devia promover-se a aprendizagem de outros instrumentos musicais como cordofones, instrumentos de percussão, e criar grupos de música tradicional portuguesa, bandas rock, grupos corais. Por Fernando Costa professor.

Sindicatos representativos de operários de quarenta portos da Europa e do Mediterrâneo apelam a jornada de luta internacional contra a guerra e o genocídio no dia 30 de Outubro.

Todos os anos, nas freguesias da ilha Terceira, mais de 50 grupos de “bailinhos” auto-organizados, andam de freguesia em freguesia, de sexta a terça de Carnaval, mais de 1500 músicos e atores. Em geral, começam por um grupo de amigos, pelas alturas do Natal. Um diz: “Este ano tiramos um bailinho?” Por Raquel Varela

Crónicas da jornalista Sylvia Moretzsohn do poeta e ensaísta Antonio Carlos Cortez Letras e do Hugo Filipe Lopes aka Cobramor, editor, escritor, escreve sobre um ano de Chega em Albufeira.

E ainda a agenda cultura pela mão da Mafalda T. E claro a BD Maio. Tudo em https://jornalmaio.org

A beleza é fundamental!

Se avisam num cartaz que há uma greve ou plenário e o cartaz é feito em IA, o nosso cérebro regista mais depressa a imagem – feia que dói – do que a greve. Que greve feia é esta, perguntam as sinapses? Sindicatos, movimentos sociais, associações, parem de fazer cartazes em IA, são horrendos!

Quando desenhamos, sem saber, estamos a passar uma ideia. Se a ideia for boa e o desenho mau, a ideia passa a ser má.

E quero fazer uma homenagem sincera, há muito que a quero fazer: aos designers e ilustradores, aos artistas do Jornal Maio. Tudo da sua mão, autonomia, criação, são quase uma dezena de artistas das artes gráficas – vejam o nome, “artes” gráficas – que apoiam o Maio e nele encontram também o espaço para a sua criação, sem donos nem padrões, sem ordens, muito menos IA e algoritmos. Já repararam que o Maio tem uma identidade, e que qualquer artigo que circula sabe-se que vem do Maio? Tem um projecto artístico que é ele mesmo um projecto de ideias, e que essas ideias estão expressas no desenho? Não existe forma sem conteúdo e conteúdo sem forma.

Vejam como já não se distinguem nas televisões os anúncios – são todos iguais – e os jornais, quase todos, não sabemos se a alegada notícia vem daqui ou dali, porque é tudo igual, e igualmente feio, padronizado. Não é só que os jornais e TVs de hoje são quase todos cópias da CMTV, que se dedicam ao crime e ao escândalo, tema quase único da pequena política nas periferias do mundo, é que são escandalosamente feios. E são escandalosamente feios porque se dedicam ao crime e ao escândalo.

Nós, trabalhadores, defendemos a beleza e a arte. O belo, o justo e o bom. Quando se faz um cartaz não se presta só uma informação de um debate ou greve, está-se a construir uma ideia de mundo.

Sindicatos deste país, gastem um pouco de dinheiro (não é gasto, é criação de riqueza), e peçam a artistas para fazer o cartaz que convoca o plenário, a greve, divulga o sindicato. Os feios que me perdoem, a beleza é fundamental!

Governo quer tirar 100 ambulâncias ao INEM.

É a razão da greve do INEM, sequer é – o que seria absolutamente legítimo – por aumentos salariais. É uma greve para não ficarmos sem ambulâncias!

“Em agosto, depois de ouvidos os técnicos de emergência pré-hospitalar (TEPH) em plenário e na sequência da aprovação de duas moções a pedir a demissão do atual presidente, numa assembleia geral de todos os trabalhadores do INEM, anunciamos dois dias de greve geral para 14 e 28 de setembro, não para reivindicar aumentos de salário ou melhoria das condições laborais, mas para evitar a diminuição da resposta do INEM”. O Jornal Maio publica um artigo de Rui Lázaro, Presidente do Sindicato dos Técnicos de Emergência Médica.

Em link artigo completo

O PISA e a Educação

Sobre o PISA da OCDE, ele mesmo um índice que apenas mede simples competências (não mede imaginação, abstração, memória volitiva) e criado pela mesma OCDE onde todo este pacote mercantil educativo, junto com o Banco Mundial, tem origem, da escola das competências e da digitalização.

“O cenário que hoje tantas vezes se nos depara, ao entrarmos numa escola ou universidade, é distópico: crianças e jovens encerrados em salas com janelas de cortinas corridas, a olhar, sem curiosidade, para PowerPoints e ecrãs controlados por professores expropriados intelectualmente, exaustos, desmoralizados, anestesiados, alienados. E, no entanto, os educadores e professores são a maior força intelectual potencial de um país.

O currículo foi por água abaixo. Das suas trevas surgiu a flexibilidade das “competências”, que adestramos alunos para o mercado de trabalho — que não os quer qualificados, mas “flexíveis”. Não se procura quem conheça, mas quem saiba “aprender a aprender”.

A democracia nas escolas está moribunda: a gestão unipessoal, a orgânica do Conselho Geral e o modelo deAvaliação de Desempenho Docente (ADD) são fatores centrais neste défice democrático. Estes mecanismos têm contribuído para fragilizar a participação efetiva dos docentes, tornando-os, muitas vezes, reféns de estruturas hierarquizadase esvaziando o sentido coletivo e deliberativo que deveria caracterizar a vida escolar.

Não admira que, longe da escola, longe, cada vez maislonge, da universidade, discutam os professores um romanceno café, ali comentem uma peça de teatro e conversem sobre uma ideia pedagógica.

Na escola e na universidade, pouco se debate coletivamenteo ensino: há dados a entregar a acionistas de plataformas, plataformas a preencher sem demorapara a “Qualidade” avaliar a aula do professor — que oaluno-cliente também já avalia, com a profundidade e saberdo botão verde, amarelo ou vermelho à saída do supermercado. Nesta desoladora lógica de forçada adaptação, surgem as “competências sócio-emocionais”. O aluno não é avaliado pelo que sabe de filosofia, música ou matemática, mas pela dose de submissão a plataformas digitais que, por meio dos seus descritores, avalia se o aluno é“resiliente”, “flexível”, “resistente à frustração” e outras categoriasque não têm qualquer sustentação científica.Delirante!

Juntem-se doses maciças de aulas de cidadania,de ensino de prevenção rodoviária e literacia financeira, em horas retiradas à história, à filosofia, à geografia à economia, às artes: assim se apodera uma lógica utilitáriada escola. Esta é uma degradação da escola, porque é uma escola que não ensina, é uma escola que impõe a educação do mercado e do Estado, é uma escola pensada como objetivo de as classes trabalhadoras sorverem esta lógica empresarial, expropriando o valor do cidadão autónomo, que conhece e se emancipa.

Nós reclamamos: a escola é nossa! De alunos. De professores.

Não é laboratório das experiências do Estado, das empresas. Não é uma mercadoria para formar mão de obra dócil! É necessária aos povos! Tem sentido! É pública! É lugarde conhecimento! É uma instituição onde se formam cidadãos insubmissos! É um dos espaços mais encantadoresque a humanidade inventou!

Não é um armazém onde se despejam crianças e se fazem das professoras e dos professores – na maioria, professoras– cuidadoras informais, num evidente retrocessodo papel da mulher. A escola não se confunde com aassistência social, assim como esta não se confunde com ações assistencialistas precárias, realizadas por força de trabalho também precária, porque destinadas às classes trabalhadoras.Não é um lugar de entretenimento que supre os problemascriados pelo capitalismo, pela competição e por jogosde soma nula. Escola e universidade não são apêndicesdos recursos humanos das fábricas e empresas.”

Em “Podemos Educar depois de Gaza? Manifesto Por uma Educação livre de IA Generativa e em defesa do conhecimento

teórico nas escolas e universidades”. Escola Camões, Lisboa.

Quem queira participar e juntar-se a este Movimento escreva para observatoriocondicoesdevida@gmail.com

Podemos Educar depois de Gaza?

Manifesto Por uma Educação livre de IA Generativa e em defesa do conhecimento
teórico nas escolas e universidades

O que andámos para aqui chegar. Mas, enfim, aqui estamos. Queremos criar em cada escola da educação de infâncias o secundário e à Universidade a resistência à destruição da educação. Este Manifesto pretende ser um instrumento de luta de uma escola pública, de qualidade, rigor, exigência, e liberdade, e não um armazém onde se despejam crianças e jovens e se vendem certificados, onde a fraude nas avaliações se tornou generalizada. Não queremos mais reuniões que são um simulacro de democracia para diretores e Ministros imporem a destruição da educação, a perseguição a colegas, e a inflação de notas e a entrega de dados a plataformas, muitas conectadas mesmo com a indústria de guerra, mascarada de “inovação digital”. O professor não é assistente, psicólogo, que faz “avaliação” emocional, é um intelectual que ensina conhecimento. Não aceitamos mais esta devastadora desistência das crianças e jovens em nome de uma falsa inclusão que os torna semianalfabetos. A escola está a ser convertida num lugar triste, concentracionário, posto ao serviço de um mercado de trabalho desqualificado que sonega o conhecimento em favor de insípidas “competências”. Em vez de fomentar a insubmissão, difunde a submissão, no lugar da criação, pretende o adestramento — tudo ao serviço dos lucros astronómicos das big techs, da guerra e, quando muito, de um mercado de trabalho desprotegido. Uma escola assim destina grande parte dos alunos a serem meros operadores de máquinas e computadores, plataformas e IA. Charlie Chaplin ficaria boquiaberto. Queremos convidar todos para o lançamento público deste Manifesto e para neste Movimento participarem. Quem queira participar e juntar-se a este Movimento escreva para observatoriocondicoesdevida@gmail.com


‘A esquerda precisa de um programa radical e anticapitalista’ | Entrevista com Raquel Varela

Diante de uma extrema-direita violenta, organizada pela burguesia e que percebeu o fim do pacto social do pós-Guerra, a esquerda precisa apresentar um programa radical, anticapitalista, capaz de transformar, de fato, o cotidiano dos cidadãos, defende a historiadora portuguesa Raquel Varela. Especialista em revoluções e no movimento operário, fundadora do jornal online Maio, apoiado por sindicatos e organizações sociais de seu país, a professora da Universidade de Lisboa critica não só a acomodação do campo progressista, mas o sectarismo de certas correntes. “Há uma esquerda profundamente institucional e simultaneamente fanática”, afirma na entrevista a seguir, concedida durante uma rápida passagem por São Paulo. Seja membro do Clube do Canal de CartaCapital e tenha acesso a benefícios exclusivos: https://bit.ly/ClubeDoCanal Assine e apoie CartaCapital: https://bit.ly/CartaYoutube Inscreva-se no canal de CartaCapital no YouTube: https://www.youtube.com/cartacapital?… Siga CartaCapital nas redes sociais:

Contra o voto in(útil) uma política de organização

E a terra move-se…Ontem cheguei a Buenos Aires e fomos directos para a casa linda do Instituto de Pensamento Socialista onde conversei para o meu podcast que faço no Jornal Maio com Miriam Myriam Bregman, a política argentina mais bem vista em todos os inquéritos, e que tem este CV: advogada dos direitos humanos contra a ditadura, professora na cátedra sobre direito do genocídio, militante trotstkista (Milei chamou-lhe chilindrina troska, como “mariquinhas sensível trotskista” ao que ela respondeu melhor do que ser “como Milei um gatito mimoso do Poder”, descartável, depois de vender o país aos capitais monopólios imperialistas). Miriam é membro da Frente de Esquerda dos Trabalhadores (FITU), que agrega várias organizações de esquerda, e militante do PTS – um partido trostkista, que não apelou ao voto útil contra Milei, fosse nos liberais de esquerda ou nos peronistas, o PTS defende que os trabalhadores precisam de outra política que não seja andar atrás do medo do papão, que a extrema direita não se derrota nas eleições nem nas urnas, e que é necessário criar organismos populares, assembleias pelo país e lutas nos sindicatos, comités de empresa e bairros, porque a política de apoio ao centro leva a extrema direita ao poder, já que o centro faz a política de extrema direita naquilo que é central, como a economia. Esta decisão não os levou ao isolamento, pelo contrário, cresceram. Sairá em breve a nossa longa conversa de mais de uma hora. Ficou o registo na livraria do Instituto de Pensamento Socialista onde as obras de CEIP León Trotsky, Rosa Luxemburgo, Flora Tristan, e um número de intelectuais e militantes socialistas são traduzidos, editados e estudados. Miriam é autora do livro, em português do Brasil, “Moderada Nunca”.

Curso História do Socialismo

História do Socialismo, curso que iremos dar. Neste curso iremos aprender as origens históricas das ideias igualitaristas, ainda no período pré industrial, passamos pela revolução industrial, as primeiras organizações de trabalhadores, o socialismo utópico e as comunas, de Fora Tristan a Blanqui, Marx e Engels, a Associação Internacional de Trabalhadores, William Morris e o trabalho com emancipação, Antero de Quental e as conferências democráticas, a II Internacional, movimento e estratégia, I Guerra e a revolução russa, Trotsky contra o Termidor Estalinista, o socialismo na periferia do mundo, os anos 1930, a resistência socialista na II Guerra, o maoismo e as revoluções anticoloniais, o Maio de 68 e o guevarismo, a revolução dos cravos e na Polónia, a queda da URSS e o seu impacto na esquerda, o socialismo hoje. Cada aula debate uma das teses de Marx sobre Feuerbach (Educação, verdade, experiência, práxis, entre outras).

Todas as informações no cartaz e em cursoonline.humus@gmail.com

Temos vários conteúdos escritos, arte e audiovisuais recomendados, mas não obrigatórios.

Se faltar a alguma aula disponibilizamos a gravação.

Olh’ó Maio!

O JornalMaio está de regresso. Imperdível – vejam por vós.

– Na Alemanha, os trabalhadores da Volkswagen, o maior fabricante automóvel do mundo, enfrentam uma luta terrível pela defesa dos seus salários e postos de trabalho. A alternativa que procuram impor-lhes é entre o encerramento de fábricas e o desemprego ou a reconversão para a indústria de guerra.

– Grande entrevista com o economista Michael Roberts

“Há todos os motivos para esperar outra recessão antes do final desta década. O rastilho pode ser aceso por um novo colapso financeiro, como em 2008. Desta vez, o estouro pode não ter início nos bancos, mas ser provocado pelo aumento da dívida das empresas e pelo custo do serviço dessa dívida.

– O Maio publica, pela sua relevância, este texto de Andrés Ávila, da revista chilena El Porteño, para quem Nolan subverte completamente o sentido do poema. Isso “começa quando o filme coloca a culpa no centro da identidade do protagonista. Em Homero, a culpa constitui uma experiência que o herói deve viver e integrar; nunca o que o define. Na adaptação ocorre exatamente o contrário. A culpa deixa de ser uma dimensão da existência e passa a ser a essência do personagem. A partir desse momento, a viagem deixa de conduzir à autorrealização e passa a conduzir à negação de si próprio.”

Miguel Real escreve sobre o Último Eça “A obra do período final da vida de Eça de Queirós, definida pelos seus contos, crónicas e romances entre 1888 e 1900”.

Antonio Carlos Cortez Letras sobre a IA e Educação- “As fogueiras do futuro não estarão no Terreiro do Paço, nem nas altíssimas piras funerárias onde se admirava o fogo redentor dos heterodoxos. É na IA que tudo arderá: a nossa liberdade humana. A escola e a universidade. O pensamento e o sentimento, a nossa humanidade.”

E mais, artigos de Jorge Van KriekenJoão Areosa, Ana Rajado sobre as mulheres conservadoras. Na BD desta semana o Bruno Borges conta as férias dos trabalhadores, tudo em jornalmaio.org podem subscrever e apoiar.

http://www.jornalmaio.org

Suplemento de Vida

Um dia destes fui a uma festa de aniversário de um amigo pensando que, como sempre, me vinha embora pelas dez da noite, cansada, com a clássica desculpa “tenho de acordar cedo”. Eis que, muito depois das dez, ali estava eu, a conversar feliz, dando uns passos de dança. Um pátio pequeno de uma simples casa encantadora com luzes indirectas, um grupo de três músicos de jazz, só com os seus instrumentos, a la banda de Woody Allen, e umas saladas e espumante. Muita gente a conversar. Um luxo, uau, afinal gosto de festas! Viver é cada vez mais difícil porque a simplicidade tornou-se inusitada e não é só de dinheiro que falamos, nada ali foi caro.

Por vezes penso com sinceridade se não posso tornar-me numa daquelas intelectuais ressentidas, pedantes e desmoralizadas, que a pequena burguesia produz em tão grande quantidade quando a sua pequenez numérica permite. Estou sempre a pedir ao meu marido, como pensamento mágico, não me deixes tornar numa cínica. Cinismo é aquele estado de pretensa superioridade moral que acredita que todos à sua volta não estão à nossa altura. É um sentimento que observei muito ao longo da vida, o típico caso do gajo que vai em sentido contrário e diz que todos os outros estão a vir contra ele. Há também os que desistem, ficam sós ou com os seus, não são cínicos, mas é outra forma de virar costas ao mundo, e por isso à vida.

Até que…dou por mim a voltar a ter uma felicidade e um entusiasmo crítico pelo mundo igual ao que sempre tive, o que mudou? Um dia sem internet, sem luz led, sem música tecno, uma folha de papel, um jazz sem amplificadores. Estar bem tornou-se um luxo. Fomos invadidos de IA, luzes Led, e barulho constante. Insuportável – estamos em ruptura metabólica com o nosso corpo, audição, visão.

O quotidiano no capitalismo – marcado por luzes intensas 24 horas por dia, música em todo o lado, normalmente tecno ou as várias versões dessa batida no zinco que reproduz o ritmo de um tear mecânico numa fábrica, alertas a toda a hora, do cinto do carro à porta do microondas não há máquina alguma que não apite; e milhares de pessoas, entre elas nós mesmos, horas a fio de pescoço pendurado, em frente desta luz azul, não só pela compulsão dos conteúdos mas porque a IA nos obriga a fazer serviços a nós próprios horas a fio, somos trabalhadores das bigtecs, marcamos consultas, subimos trabalhos na nuvem, baixamos a aplicação, um inferno, que está a alterar até as hormonas e os tempos da menstruação e da menopausa, acelerando tudo. Aos homens pede-se que não estudem (veja-se a campanha do Jornal Público sobre os benefícios salariais do ensino profissional ao mesmo tempo que chora lágrimas de crocodilo sobre os pobres não irem para a Universidade) e se preparem para a guerra, vão ao ginásio, tomem suplementos, e não acreditem no futuro, nem precisam de estudar…Há uma campanha – em todo o mundo – de recrutamento militar em curso, disfarçada de “entrar rapidamente no mercado de trabalho”, não estudar, e tomar suplementos para ser forte. E nunca parar.

O dia a dia tornou-se totalmente hostil para todos nós, crianças, jovens e adultos – chega-se ao fim do dia exausto pelas horas a fio de internet, pelo barulho constante, pela ruptura com a natureza (olhem que não sou – nada contra -, mas não sou, “come flores” nem nasmatê), e pelas luzes Led, cada vez mais fortes, dia e noite.

Não mudou o genocídio na Palestina, as derrotas do movimento operário, a pobreza e as tragédias, só quem acreditou no capitalismo do pós guerra e no pacto social estará derrotado nas suas ilusões. O capitalismo é barbárie, e as revoluções são actos de civilização inevitáveis contra a barbárie. O pacto social nascido em 1947 é uma derrota – os trabalhadores entregaram as armas – pressionados pela burocracia de Estaline – em troca de um acordo que evidentemente não ia ser cumprido nem pelos EUA nem pelo que sobrava da burguesia alemã, inglesa e francesa, em escombros. A burguesia estava por um fio, sabiam que não tinham força sem negociar, a guerra tinha deixado um rasto de 80 milhões de mortos e milhões de trabalhadores armados, organizados e- então – ninguém duvidava que a guerra tinha sido originada pelo capitalismo.

Ver as imagens de Gaza e da Cisjordânia, mais dinheiro para os bem equipados e sempre abertos hospitais na Ucrânia comprarem próteses aos jovens ucranianos, as pessoas a voltarem a viver em barracas ou comerem açúcar em vez de sopa, suplementos em vez de carne, estarem sós, cada vez mais sós, tudo isto é assustador e triste. Mas o seu antídoto está aí, não há dia no mundo que não haja um grupo que luta pela Palestina, uma greve contra os baixos salários, um ser humano que não ajude outro a não ser despejado de casa, duas pessoas que não se amem e se cuidem. Há um mundo porvir.

Quando largo horas a fio este computador, e deixo de estar exposta às luzes led e ao barulho constante, toda a minha visão optimista e paixão regressa. Temos um novo inimigo a derrotar – a nossa atenção está capturada 24 horas por dia. Para que não vejamos como podemos viver de outra forma.

Não me tornei numa cínica, mas já nem aceito jantar em casa de amigos que colocam uma luz branca led sobre a mesa – encontramos-nos na tasca onde almoço todos os dias, à luz do sol, com o Sr. M. a cantar fado.

Para parar o genocídio em Gaza temos de parar também este estado de aceleração total do capitalismo, esta droga massiva que estamos todos a tomar e nos faz andar a 300 km hora.

A IA e a Gaza são duas faces da mesma moeda, a precisão da geolocalização dos drones, a transição digital na escola para os alunos aprenderem a usar mais a IA, o PRR que financia empresas de drones e pede jovens que não estudem e vão para as fábricas, tudo isso depende do número de notificações e vezes que usamos o google maps que ensina à IA a matar com mais precisão.

A capacidade de produzir em turnos nocturnos drones, (não dormir, veja-se a venda livre de melatonina) ou massas pré cozidas para alimentar quem produz drones, depende de ensinar as crianças deste tenra idade a estarem a usar telemóveis e Reels, a sua atenção focada. Para tal há conteúdos viciantes e para os jovens há suplementos energéticos, proteínas, ginásios, e o culto do eu, eu estou só, não preciso dos outros, só me posso safar sozinho, eis o culto da guerra. Os adultos não estão livres, pelo contrário. Se jantamos com Led branca, a pedir o menu por um Qcode, a ouvir tecno, vamos para o carro e o cinto apita, recebemos a notificação de que cumprimos o tempo de exercício, e vamos ver Reels, tudo isto nos coloca em ruptura com a nossa capacidade política – física, mental – de mudar o mundo porque simplesmente nos coloca em ruptura com o nosso corpo.

Estudar e ler, em papel, cozinhar para os amigos uma salada com frango e ervas aromáticas, ceder numa discussão, sim, não estamos sós, jazz, luzes indirectas, a vida é muito mais fácil e bela do que nos vendem.

Família, para onde vais?

Uma família, uma unidade de três ou quatro pessoas, mesmo se forem mais, não pode resolver a falta de emprego, os baixos salários, as dívidas, a casa que não existe, a educação coletiva e o pai com demência. Se há tema que me espanta as pessoas propagarem com facilidade é esse mantra liberal de que a origem dos problemas está na família. A escola não funciona? A culpa é dos pais. O velho está abandonado num lar? A culpa é dos filhos! Atira a pedra, atira! Mesmo a noção de violência “doméstica” é uma privatização do conflito social.
Por isso, a baronesa Margaret Thatcher, re-fundadora da sociedade de “mercado”, disse – e esquecem-se sempre de citar a frase toda – “Não existe essa coisa de sociedade. Existem homens e mulheres individuais, e existem famílias”. Ora, é justamente o contrário, para o movimento socialista histórico só existiam indivíduos livres e famílias livres se existisse uma sociedade comunitária ampla que garantisse apoio nas mais diversas situações, do berço à cova. A expansão do indivíduo e do amor livre era um desígnio central do socialismo.
Na verdade, a magnitude dos problemas das sociedades hoje, da educação à família, são impossíveis de ser resolvidos sem comunidade e sociedade. No ano passado dei um curso sobre Sexo e Poder, Amor e Familia na História, no Corte Âmbito Cultural El Corte Inglés Lisboa, as inscrições quase triplicaram o número de vagas. Este ano o ACCI voltou a convidar-me para repetir o curso, foi, para mim, um curso importantíssimo, porque as leituras atentas e sistemáticas que fiz permitiram-me perceber o quanto a leitura comum de tantas feministas sobre Alexandra Kollontai era infiel ao seu pensamento – a noção de amor livre está muito longe daquilo que foi popularizado pela esquerda dominante, mesmo na minha opinião pela esquerda radical; li e reli deleitada a teoria de Adorno sobre a relação entre família e personalidade fascista, a queda do homem pequeno burguês com a queda da pequena propriedade e o ressentimento. Bom, aqui deixo o programa e o link de inscrições. Em Janeiro darei em Gaia, e no mesmo âmbito Cultural, uma segunda edição, mas com um programa novo no caso de Gaia. O de Lisboa está aqui, em link nos comentários podem inscreve-se, gratuitamente.

Sinopse

Quero ser feliz – as palavras de Rosa Luxemburgo ecoam. No meio de outras palavras – amor, sexo, amizade, família, sexos e género, modo de vida, propriedade, religião, Estado, poder. Como as mudanças nos padrões políticos, sociais, económicos, religiosos e culturais influenciaram, ao longo dos séculos XIX e XX, a família, a forma de viver as relações amorosas, pessoais e íntimas? E como estas moldaram as instituições políticas, a cultura e a economia?

Este curso percorrerá quatro autores, engajados no pensamento crítico, que estudaram o amor, a família, o sexo e o poder: Sobre o Amor, do filósofo Leandro Konder; Sexo e Poder: a Família no Mundo 1900-2000, do sociólogo Goran Therborn; textos de Alexandra Kollontai e o sexo; e o clássico As Origens da Família, da Propriedade Privada e do Estado de Friedrich Engels.

1.ª SESSÃO — 6 DE NOVEMBRO
As Origens da Família, da Propriedade Privada e do Estado.

2.ª SESSÃO — 11 DE NOVEMBRO
Sexo e Poder, uma história global.

3.ª SESSÃO — 20 DE NOVEMBRO
Fascismo e Perversão. Saló ou os 120 dias de Sodoma.

4.ª SESSÃO — 2 DE DEZEMBRO
Mulheres, Propriedade e Trabalho – amor-camaradagem na obra de Alexandra Kollontai, sob o crivo da crítica à apropriação identitária da autora.

5.ª SESSÃO — 4 DE DEZEMBRO
Sócrates e Marx, Ovídio e Rosa Luxemburgo, Camões e Fourrier, Flaubert e Balzac – o amor é.