Há que ter medo

Em Barcelona um criminoso consegue atropelar uma multidão e fugir sem ser apanhado, entre milhares de pessoas atónitas, em pânico, ele sai do carro, passa no mercado, rouba um carro, mata outro homem, atropela um polícia e hoje está fugido. Pior é impossível. É um Estado que falha em toda a linha em proteger-nos. Toda. Tal facto devia fazer-nos reflectir não só sobre o Estado mas sobre o monopólio da violência no Estado, que é simultaneamente a nossa total incapacidade de lidar – ao nível da defesa e não do ataque, claro – com estes casos. Os cidadãos comuns, homens e mulheres, não têm o mínimo instinto de defesa, quem diz instinto diz naturalmente educação – não estamos educados para nos defender da violência. Não sabemos o que fazer, mesmo quando – e nem sempre isso é possível – havia algo a ser feito. Isto levanta imensas questões interessantes, desde o Serviço Militar Obrigatório à privatização da segurança. O modelo de segurança privada tem funcionado? Quanto nos custa? E o fim do SMO trouxe realmente benefícios sociais? Pergunto de outra forma: se houvesse Serviço Militar Obrigatório havia o mesmo número de baixas da população civil neste atentados?
São questões, sobre as quais não tenho uma posição definitiva, acho apenas que merecem ser debatidas. A jusante, porque a montante, sem a derrota dos Estados que suportam este terror não haverá soluções. Pôr fim às causas do terrorismo é essencial, não há betão e Câmaras de vigilância que nos salve deste tipo de terror. Somos alvos numa guerra fraccional entre Estados que se abraçam em cima da mesa, fazem negócios com recibo, e deixam-nos a escorrer sangue.
O Estado tem sido incapaz de garantir a segurança – sucedem-se os atentados. Equiparar isto à luta armada dos anos 70 – associar a luta anti capitalista ao fascismo islâmico -, é um disparate. Mas sobretudo é uma comparação inútil para a realidade. A luta armada dos anos 70 era sobre alvos governamentais ou militares, que podem ser identificados ou protegidos, e tinha como efeito colateral a morte de inocentes, em casos raros. Mesmo casos como a ETA, que nunca apoiei, que fez mortos civis, em vários casos avisou que a bomba ia explodir e o Estado espanhol não fez por avisar quem lá estava…É triste como sabem o papel da Espanha central na questão basca, incluindo nos GAL – o terrorismo estatal organizado. Sublinho que nunca fui a favor da luta armada como método de luta. Não tenho realmente simpatia alguma por métodos que envolvem, directa ou como consequência, a morte de inocentes. Mas não estamos a falar de dinâmicas idênticas, este terror de hoje é novo, totalmente novo, nem com a FIS argelina tem paralelo, este terror tem como alvo espaços comuns, gente comum, dias comuns, horas comuns – é um terror sobre os mais frágeis da sociedade, os desarmados, as pessoas simples que andam de metro e passeiam a ver montras e fogo de artifício. Os Governos expressam sinceras condolências, e fazem discursos sobre como o medo não pode vencer, mas as pessoas têm medo e têm razões para ter medo. Eu tenho medo. Um grupo de criminosos, sustentados por Estados fascistas ou para-fascistas, com quem – insisto – o ocidente que reclama “um modo de vida” insiste em manter relações privilegiadas, negócios, diplomacia as usual- usa como arma objectos comuns da nossa vida (carros) para matar indiscriminadamente inocentes.
Não é para ter medo, é para andar aterrorizado.

Tem piada

Gosto do humor de João Quadros, mesmo quando não gosto das suas piadas. O que não tem piada alguma é definirmos colectivamente quais os limites do humor. Além disto – e isto é a liberdade de criação de um artista, não é pouco – o alvo da piada de JQ foi o fascismo e não a esposa de Passos Coelho. Quem não entendeu isto tem ou má vontade ou ignorância, a ambas não se deve ceder.

Um Domingo com esperança.

Um Domingo com esperança. O Sindicato dos Estivadores de São Francisco, com o qual por uma feliz coincidência estive há menos de um mês a dar uma formação sobre automação e emprego, acaba de anunciar um dia de greve contra o fascismo nos EUA. Dia 26 de Agosto. Chama- se a isto acção, em vez de palavras. Ou melhor, acção, com boas razões.
Ontem, em Barcelona 30 membros da Falange – organização fascista espanhola – foram para o local do atentado manifestar-se contra a “islamização da Europa”, mas o islamismo jihadista é ele uma forma de fascismo. Ao contrário do que pensa a Falange os atentados estão muito próximos da própria Falange porque usam métodos e programas análogos ao fascismo, terror de massas, segregação de acordo com nacionalidade, guerra contra o outro de acordo com país de origem ou religião – neste caso o “ocidente”. E isso é fascismo. A resposta foi uma contra manifestação massiva de moradores de Barcelona, entre eles vários islâmicos, católicos, ateus, na ordem de milhares, que barraram a manifestação.
Aqui o comunicado do Sindicato de São Francisco, Local 10. Tenho muito orgulho em ter abraçado pessoalmente vários destes homens e mulheres, brancos e negros, estivadores, que hoje anunciam perder um dia de salário, e organizar-se colectivamente, para barrar o terrorismo de extrema-direita. Têm a minha solidariedade incondicional.
Não, Presidente Trump, não há violência dos dois lados – de um lado está a barbárie, do outro a civilização.

“ILWU Local 10 endorses SF protest against fascists. More of this!
Passed on August 17, 2017
Whereas, the fascists, the KKK, Nazis and other white supremacists rallied and marched by torchlight in Charlottesville, whipping up lynch mob terror with racist, anti-immigrant and anti-Semitic slogans, and
Whereas, that attack resulted in one anti-racist counter demonstrator murdered and many others injured when one of the fascist bullies ran them down with a car, and
Whereas, President Trump’s whitewashing this violent, deadly fascist and racist attack saying “both sides are to blame”, and his attacking anti-racists for opposing Confederate statues that honor slavery adds fuel to the fire of racist violence, and
Whereas, the Klan, Nazis and other racist terrorists represent a deadly threat to African Americans, Latinos and immigrants, as well as Muslims, Jews, LGBTQ people among many others, and directly to members of our union and the labor movement as a whole, and
Whereas, the fascist “Patriot Prayer” group that staged violent racist provocations in Portland, Oregon and elsewhere, attracting Nazi and other violent white supremacists, has announced it will rally on Crissy Field on Saturday August 26, and
Whereas, far from a matter of “free speech”, the racist and fascist provocations are a deadly menace as shown in Portland on May 26 when a Nazi murdered two men and almost killed a third for defending two young African American women he was menacing; and our sisters and brothers in the Portland labor movement answered racist terror with the power of workers solidarity, mobilizing members of 14 unions against the fascist/racist rally there on June 4, and
Whereas, ILWU Local 10 has a long and proud history of standing up against racism, fascism and bigotry and using our union power to do so; on May Day 2015 we shut down Bay Area ports and marched followed by thousands to Oscar Grant Plaza demanding an end to police terror against African Americans and others; the San Francisco Bay Area is a union stronghold and we will not allow labor-hating white supremacists to bring their lynch mob terror here,
Therefore, ILWU Local 10 in the best tradition of our union that fought these rightwingers in the Big Strike of 1934, will not work on that day and instead march to Crissy Field to stop the racist, fascist intimidation in our hometown and invite all unions and antiracist and antifascist organizations to join us defending unions, racial minorities, immigrants, LGBTQ people, women and all the oppressed.
https://ilwulocal10.org/ ”

 

Atentados e Extrema-Direita

Estes atentados bárbaros não são a expressão da pobreza da periferia, são uma tropa de choque da riqueza da periferia.
O que escrevi – republico o texto abaixo – foi justamente uma nota contra a ideia, infelizmente disseminada (envergonhadamente) no pensamento europeu progressista, de que estes atentados são a triste e inevitável consequência directa da “miséria provocada pelas políticas imperialistas”. E eu discordo disto. Junta-se para o justificar a luta armada dos anos 70, de que nunca fui partidária, no mesmo saco do terrorismo radical islâmico, mas isso não tem fundamento histórico. Mais, esta hipótese propaga a ideia de que os trabalhadores pobres resistem com métodos monstruosos. E isso não é um padrão histórico, pelo contrário, os trabalhadores pobres ou não resistem e são esmagados (caso hoje maioritário nestes países) ou resistem na maioria do tempo histórico com acções progressistas e colectivas e não com recurso ao terror sobre inocentes.

A guerra ao terror não me move hoje um segundo nem moverá amanhã porque ela vai aumentar o terror, como o fez até aqui, fazer subir as acções de um aparato securitário ineficaz e cada vez maior, e não vai incidir sobre a origem do terror. Este terror é o resultado do apoio, pelo mundo inteiro reconhecido, das monarquias medievais, a começar pela Arábia Saudita, a estes sectores. Eles não representam as vítimas pobres da expansão comercial e financeira europeia e norte-americana, que as há e cada vez mais, mas uma fracção das classes dominantes ricas neste países que, por sinal, nalguns casos, têm as melhores relações diplomáticas com o ocidente.
Também os governos ocidentais não me representam a mim, porque desde que embarcaram nesta aventura no Médio Oriente quem esteja na Europa corre o risco de ser brutalmente morto por um soldado destas monarquias medievais. Havia dignos representantes da pobreza da periferia mas foram esmagados nas primaveras árabes pelas “irmandades muçulmanas” do Magreb, Norte de África, Médio Oriente – e então o que fizeram os nossos governos? Aguardaram que em cada um destes países, nas Primaveras Árabes, os fascistas assassinassem os lideres progressistas, dirigentes sindicais, a resistência laica…Olhem para a Turquia, onde colegas meus com quem trabalhei em Amesterdão há 4 anos apenas (gente com nome, passaporte, que fazem parte da minha vida, de projectos académicos concretos) estão agora a ser presos por Erdogan. Enquanto eles estavam nas ruas em frente às suas universidades a exigir direitos democráticos elementares a UE estava a fazer negócios com Erdogan.

O atentado de hoje não comprova a minha teoria sobre o desenvolvimento histórico deste tempo presente, do tipo “eu tinha avisado”. Já todos avisámos. Já todos sabemos. Andamos todos horrorizados. Com medo de ligar a TV e perguntar “onde foi agora?”. A barbárie é aqui, agora. Como alvos que somos temos que perguntar como paramos isto, sem deixar – o que mais temo – que se naturalize isto, algo como “o terrorismo veio para ficar”. Nada é natural, tudo é histórico, depende de nós parar esta espiral de horror. Não tenho soluções mágicas, porque o grau de desagregação destas sociedades é enorme, mas começava por tentar financiar sectores laicos progressistas, no mínimo, em vez de jantar com um sultão para vender armas.

Nasci na Europa

Nasci na Europa – nunca, desde que sou adulta, deixei de me manifestar contra todas as intervenções militares dos nossos países, humanitárias ou não. Estes actos de terrorismo não são actos de jovens corajosos defensores dos seus países, dos seus recursos e das suas famílias. São actos cobardes sobre inocentes, crianças, muitos dos quais estiveram nas manifestações contra as guerras, em defesa do direito à autodeterminação dos povos. Atacar transeuntes desarmados num passeio faz de cada um destes jovens um pequeno Bush. Estamos, em Barcelona e no Afeganistão, nos EUA e em Marrocos, ao lado das vítimas, contra os carrascos – sejam eles na forma de um drone disparado por um educado Presidente eleito ou um carro conduzido por um jovem monstro. Quem é agredido tem o direito inalienável à resistência organizada contra quem o agride – não contra quem o defende. As maiores manifestações do mundo contra a guerra no Iraque tiveram lugar em Londres e Madrid, muito maiores do que as que tiveram lugar no Cairo, em Gaza ou em Cabul. Na Europa há, como nos EUA, uma indústria de guerra infinita, mas é também aqui que damos lições (mesmo aos países árabes invadidos) sobre oposição a esta indústria de guerra. Todos os portuários da costa oeste dos EUA pararam e deixaram de receber um dia de trabalho contra a guerra do Afeganistão – a proposta partiu de Jack Heyman, estivador, louro, olho azul, nascido nos EUA. No mês passado um barco de europeus de extrema- direita queria percorrer o mediterrâneo aterrorizando barcos de imigrantes – os pescadores tunisinos (e não os exércitos europeus) barraram-nos. O mundo não está dividido entre árabes e europeus, islâmicos e cristãos, está dividido entre quem defende a civilização e quem perpetua a barbárie. Em ambos os lados encontramos passaportes das mesmas nações. O meu diz Civilização, pescador tunisino, estivador norte-americano.

NIEP Marx Rio de Janeiro

O NIEP consegui realizar no Rio de Janeiro uma das conferências mais importantes – a nível mundial – de debate histórico sobre a revolução russa. Digo não só pela quantidade massiva de académicos de todo o mundo mas porque conseguiu reunir alguns dos melhores trabalhos realizados nas últimas décadas sobre o marxismo, incluindo os que recentemente foram feitos pela abertura dos arquivos soviéticos, mudando realmente a perspectiva da história da revolução russa. Só para citar alguns vão estar no Niep Fred Moseley, Kevin MurphyValerio Arcary, Alex Callinicos, Lucia PradellaMarcelo Badaró, Jorge Greespan, José Paulo Netto, Miguel Vedda…e por aí fora. Vai ser uma semana de aprendizagem intensa, com alguns dos melhores trabalhos de história, economia, filosofia, nestes últimos anos. E já com análise de novas edições e obras de Marx e Engels até aqui desconhecidas de facto, e que resultam da edição, actualmente pela academia de ciências de Berlim, das obras completas de Marx e Engels. Na Universidade Federal Fluminense, Rio de Janeiro.
Dia 23 estarei na mesa plenária ao lado do Valerio Arcary e do Kevin Murphy. E nos outros dias estarei a de caderno na mão a estudar, ouvir, tirar notas, sem sair do lugar.
Para além da apresentação de centenas de trabalhos, deixo em baixo as mesas plenárias e dois mini cursos. Um deles se me permitem destaco-o porque foi até hoje o melhor livro recente que li sobre 1917, premiado com o prémio I. Deutscher, trata-se da obra Revolução e Contra Revolução na Rússia, do historiador norte americano Kevin Murphy que vai dar um mini curso de um dia sobre o soviet de Petrogrado. Quem estiver no Rio ou perto e perder vai perder uma oportunidade única de escutar numa semana décadas de estudos. Aos meus alunos e ex alunos que estejam por aqui não faltem: uma boa aula, se for bem dada (e estas serão) faz com que avancemos tempo de aprendizagem que sós, com um livro, poderíamos levar meses a adquirir.

21 de agosto de 2017:
10:00 – 13:00. Registro e distribuição de material.
13:30 – 17:30. Minicurso 1. Local: auditório Bloco F, Térreo
18:30 – 19:00. Abertura – Comissão Organizadora.
19:00 – 21:30. Sessão plenária 1: O processo de produção de “O capital”: história e fundamentos. Participantes: Fred Moseley (Mount Holyoke College, EUA), Jorge Grespan (USP), Alex Callinicos (King’s College London, Inglaterra / NIEP-Marx). Local: auditório Bloco F, Térreo

22 de agosto de 2017:
10:00 – 13:00. Sessão de mesas coordenadas 1 (apresentação de trabalhos). Clique para ver a programação
14:30 – 17:30. Sessão de mesas coordenadas 2 (apresentação de trabalhos). Clique para ver a programação
18:30 – 21:30. Sessão plenária 2: “O capital” no século XXI: permanente incômodo. Participantes: Lucia Pradella (King’s College London, Inglaterra), José Paulo Netto (UFRJ), Marcelo Carcanholo (UFF / NIEP-Marx). Local: auditório Bloco F, Térreo

23 de agosto de 2017:
10:00 – 13:00. Sessão de mesas coordenadas 3 (apresentação de trabalhos). Clique para ver a programação
14:30 – 17:30. Sessão de mesas coordenadas 4 (apresentação de trabalhos). Clique para ver a programação
18:30 – 21:30. Sessão plenária 3: O episódio de 1917 – antes e depois. Participantes: Kevin Murphy (University of Massachusetts, EUA), Valério Arcary (IFSP), Raquel Varela (Universidade Nova de Lisboa, Portugal / NIEP-Marx) Local: auditório Bloco F, Térreo

24 de agosto de 2017:
10:00 – 13:00. Sessão de mesas coordenadas 5 (apresentação de trabalhos). Clique para ver a programação
14:30 – 17:30. Sessão de mesas coordenadas 6 (apresentação de trabalhos). Clique para ver a programação
18:30 – 21:30. Sessão plenária 4: A revolução contra o capital? Participantes: Julio C. Gambina (Universidad Nacional de Rosario, Argentina), Paulo Eduardo Arantes (USP), Marcelo Badaró Mattos (UFF / NIEP-Marx). Local: auditório Bloco F, Térreo

25 de agosto de 2017:
13:30 – 17:30. Minicurso 2. Local: auditório Bloco F, Térreo
18:00 – 19:30. Atividade cultural (“Os dez dias que abalaram o mundo”, Cia Ensaio Aberto).
20:00 – 23:00. Confraternização com lançamento de livros e revistas. Local: sede da ADUFF, Rua Lara Vilela, 110

Minicursos:

21 de agosto de 2017:
13:30 – 17:30. Minicurso “Estética e revolução”, com o professor Miguel Vedda (Universidad de Buenos Aires, Argentina / NIEP-Marx). Local: auditório Bloco F, Térreo

25 de agosto de 2017:
13:30 – 17:30. Minicurso “O Soviete de Petrogrado em 1917”, com o professor Kevin Murphy (University of Massachusetts, EUA). Local: auditório Bloco F, Térreo

 

 

Jornalismo de emoções

Sobre os media e as emoções da transmissão de fogos. Há uma crítica que acompanho, o “massacre” de imagens sem explicação racional. A do fogo a engolir o trabalho humano da floresta; a dos jornalistas sem saber o que dizer repetindo que o calor é infernal; a dos idosos de bengala a serem retirados pelos bombeiros; a imagem de Marcelo Rebelo de Sousa a abraçar o secretário de Estado na noite trágica de Pedrogão Grande; a da Ministra a chorar. O que elas todas têm em comum foi estudado já com densidade pelos jornalistas e académicos da comunicação – apelam às nossas emoções, apelam aos nossos sentimentos, sem explicar nada. Este padrão não é para os fogos florestais, é o padrão hoje dos media, sobretudo na TV (reparem que na rádio – onde não há imagem – é menos). Já lá vou à explicação deste fenómeno, quero primeiro dizer algo – as emoções têm classe social, e origem geográfica, e até idade. Foi repetida milhares de vezes a imagem de Marcelo abraçado, sofrido, ao secretário de Estado e infinitamente menos repetida a das famílias vitimadas – porque são pobres, vivem no interior e são idosas. Assisti no fogo de Pedrogão Grande a um dos momentos políticos que mais me chocaram na vida – uma ministra a dizer a 500 membros de famílias para sempre destruídas que ela – ela mesmo – tinha vivido o pior momento da sua vida, e chorou. Manda o decoro máximo que o seu ímpeto narcisista – ainda que genuinamente sofrido – tivesse sido refreado por respeito a quem realmente viveu o pior momento da vida, os que perderam os seus ente queridos. Mas não, na política dos afectos um país a saque da celuloses, dos interesses locais de pequenos poderes de associações de bombeiros e afins e empresas de apagar fogos e afins, um SIRESP que funciona como uma renda fixa presa a capitais bancários falidos salvos pela elevação da dívida pública sustentada com congelamento real ou cortes reais de salários, ainda que nominalmente devolvidos, tudo isto é submergido nos sorrisos e choros de quem tem poder político para mudar o que está muito errado. Por isso não me escandalizei quando soube o nome das vítimas pela RTP. Primeiro porque essa informação é importante – quem morreu, a sua origem social, profissão, diz muito sobre o fim deste episódio – o Estado e seus responsáveis vão sofrer consequências jurídicas e criminais ou não?
Segundo porque finalmente ao final de um mês ficámos a saber o nome das vítimas, e isso, ao lado das causas dos incêndios, era o mais importante – saber quem são as vítimas. Se é para ter um jornalismo de emoção que ele pelo menos nos dê as emoções dos de baixo e não só as de quem tem poder.
Mas podem e devem argumentar que nós não queremos informação de emoção, choque, abanão, sem pensar. Por exemplo eu não suporto notícias panfletárias de política económica, nem de crime passional, mas reconheço que ambos são humanos – a economia (regras da casa) e as relações familiares degeneradas – não proponho que se calem os jornalistas sobre o tema, mas que se esforcem por informar sobre ambos os temas. Saber porque um homem mata uma mulher é tão importante como saber o que é uma política de exportações, ninguém saberá nada de ambas se se limitarem a reproduzir discursos partidários de Governo e oposição ou o vizinho a explicar que o marido “era um homem tão bom”, mas ciumento. Os fogos têm que estar na TV porque eles são um drama para o país e uma vergonha numa sociedade civilizada – nenhum país na Europa tem, em termos relativos, o número de fogos que Portugal tem. Nenhum.
Brecht, dramaturgo socialista alemão, exilado nos EUA durante o nazismo, estudou algo que nos pode ajudar a entender isto. Não sou especialista em dramaturgia mas ele era um feroz crítico desta forma de teatro que nos fazia chorar sem pensar, rir sem reflectir – longe de ser aborrecido, catatónico, o que Brecht queria era que nós não ficássemos paralisados com as felicidades e tristezas humanas, sem conseguir reagir, destroçados pelas emoções (boas e más) mas que saíssemos do lugar de espectador e fossemos para o palco, neste sentido, que aqui simplifico: fazer parte crítica do que vemos.
A rigor, no caso dos fogos florestais, o jornalismo até errou menos – se pensarem nas frases panfletárias de circunstância que se repetem nas TVs sobre economia – gosto particularmente da que diz o PIB está a crescer como se isso por si fosse bom (informo que o PIB com os fogos florestais cresce pelo gasto em gasolina, reconstrução, equipamentos, etc.), dizia eu se pensarmos no caso dos fogos florestais eu nunca tinha visto tanta gente a explicar tão bem e de forma tão densa as causas dos fogos. Na verdade, não me recordo de nenhum assunto tão bem explicado e desenvolvido na TV na última década como foram os fogos. Mesmo com abraços e tempo de antena a 100% do militante do PSD Jaime Marta Soares, conseguimos escutar a voz do bom senso e da racionalidade nestes meses. Ouvi, e com contraditório, especialistas sérios de todas as áreas, alguns discordando eu deles, mas reconhecendo o mérito de saberem do que estão a falar. Na verdade o jornalismo desde Pedrogão ficou melhor e não pior. Os piores momentos não foram protagonizados pelos jornalistas mas pelas instituições e seus representantes. Senti-me, a assistir ao poder político nestes meses, como uma tia minha que ia ao médico e voltava de lá a rir-se contando que o médico passava o tempo a queixar-se das dores dele próprio. A seu tempo a convenci a mudar de médico. Tem graça o senhor, tem tia, mas é inútil. Ficámos a saber que os políticos que têm cargos de responsabilidade neste país são homens e mulheres sensíveis, mas o que lhes pedimos foi para saber cuidar e proteger as pessoas e a economia de que eles dependem – e nisso eles foram inúteis.