Uma Estátua aos nossos mortos

Deixo a ideia à Acampada: 100 estátuas de cartão aos operários mortos no Rossio em 1838 a conquistarem o direito de reunião. A estátua que está lá tem D. Pedro IV segurando a Carta Constitucional de 1826, um documento anti democrático, que dava mais poder ao rei, e que foi fruto de um acordo da burguesia com os absolutistas e, entre outras, não permitia nem o direito de reunião nem o de associação. Foram os operários arsenalistas, como referi estes dias, que contra esta lei, bem como contra as Constituições ditas moderadas, conquistaram com sangue, muito sangue, esse direito de reunião. Merecem estes operários tudo, mas pelo menos uma estátua, por cada um deles, agora de cartão, no futuro, espero, de mármore.

Ao cuidado do Ministério da Educação: precisamos de ter de volta horas de História e não de cidadania, esse conversa em família criada pelos Governos para ter uma disciplina ao serviço do Estado, e que é dada retirando horas à disciplina de História. Como se forma um cidadão que não sabe de história?

PS: Defendo que a estátua de D. Pedro IV deve ficar e sem estragos, é um monumento reaccionário, mas a história pública é feita de confronto livre, uma cidade também. Mas diz tanto sobre as nossas derrotas e ignorância que 100 operários tenham sido chacinados a lutar por todos nós e não haja um único monumento, um, no Rossio, a recordar que somos feitos de passado. Nós somos história.

Maio, em todo o país, debate público, convívio coletivo

Uma rede de correspondentes em todo o país que juntem associações culturais, movimentos sociais, sindicatos e populações e nos façam chegar – para a fazermos chegar à esfera pública – a informação do país e do trabalho real. Uma Escola de formação, conhecimento e espaço de convívio. A ESCOLA JOSÉ FONTANA, Trabalho, Cultura e Liberdade. E um espaço democrático de debate público, a Ágora Maio. O Jornal Maio inaugura dia 7 de Novembro o seu primeiro núcleo, na Marinha Grande. Juntando trabalho, cultura e organização. Se quiseres na tua região organizar um núcleo Maio entra em contacto connosco para geral@jornalmaio.org

Da Pedagogia da pancada à Política

Luís Neves disse que a pancada era pedagógica. Num país onde não se pronuncia a palavra pedagogia há 30 anos e apresenta “competências”, directrizes do Ministério como sendo educação, e faz dos professores cuidadores, é muito útil a palavra ter regressado e logo ao lado de pancada. Na escola impedem o conhecimento, na rua dão pancada – eis o Estado.

Esta lição à reguada, perdão, à bastonada, já mudou a visão de todos os que ingenuamente acreditavam que o “Estado somos nós”. O Estado, são eles. É uma classe – burguesa – que sobe ao poder violentamente em 1820s e vai construindo o seu Estado, Estado que por sua vez constrói esta classe. Não há burguesia sem Estado. Para isso criou uma lei – de Polícias – que diz que todos podem ter armas contra os senhores feudais e, mal derrotaram os senhores, acabam com essa lei criando um corpo repressivo em que o Estado, eles burgueses, têm o monopólio da violência. Há mais detidos no Rossio e no Porto do que em todos os escândalos financeiros dos últimos 40 anos. Nunca se viu um polícia infiltrado na Quinta da Marinha, a ouvir os explosivos negócios da Troika ao PRR à lei das rendas, tudo pago por nós, cada cêntimo com trabalho extra, comida de má qualidade, gerações na mesma casa.

O monopólio da violência foi imposto em 1838 para reprimir os operários do Rossio, que conquistaram o direito de reunião. A partir daí a guarda e a polícia são do Estado, e servem para reprimir greves e manifestações e nunca tendo como objectivo a segurança pública e a democracia. Nos últimos anos não vimos um único polícia a proteger madrugada dentro as mulheres que saem de fábricas em turnos às 4 da manhã e são violadas no caminho para casa de madrugada quando deviam estar a dormir, em paz; não vimos nenhum polícia à porta da Galp a questionar os mais de mil milhões de lucros da Galp em 9 meses! com os combustíveis, nem a deter para “averiguações” quem privatizou esta empresa (Ventura encheu o país de cartazes contra os impostos e está calado com estes lucros estratosféricos); nem a GNR foi à comporta impedir a família Mirpuri de cercar praias públicas, foi sim a Covas de Barroso contra os camponeses. O Estado são eles.

Ontem o líder do Chega veio dizer que quer ser Governo contra o Bloco Central, já cheira a poder para o ex advogado de vistos gold. O pior que pode acontecer a este país é pensarmos que estamos entre a espada e a parede, entre o Bloco Central e Ventura. Estamos, mas se não nos organizarmos e sobretudo se não aprendermos com os erros.

Estes dias são uma lição de pedagogia, não a da pancada. A que nos confronta com a nossa falta de Política e de Partidos, tudo com P maiúsculos. A política e os partidos é o que nos permite mudar a vida comum, sem eles somos apenas movimentos, indignação mas não acção. Vivemos uma crise, não podemos mentir, quem é de esquerda sente-se órfão. Porque não há uma esquerda cujo horizonte esteja na organização fora do Estado, na auto-organização coletiva. Não chegar juntar pessoas, é preciso um programa e saber quem são aliados. As armadilhas são tantas.

A lei de 1974 que hoje a direita e os fascistas defendem com unhas e dentes nunca foi cumprida. E foi proposta pelo então Governo de esquerda de “frente ampla” institucional, PS-PCP, MFA e PSD (estava lá a convite do PS e por favor, era então irrelevante). Contra a esquerda socialista auto organizada (dita “extrema esquerda” para a diminuir) nas comissões de trabalhadores e moradores democráticas. Nunca ninguém decidiu tanto neste país, nunca houve tanta democracia, como nessas comissões. Em que dia e noite as pessoas se reuniam face a face, votaram no trabalho e nos bairros, e reconstruíram o país. Foi o tempo em que mesmo estando a esquerda no Estado havia outra esquerda, realmente socialista, nas ruas e sobretudo nos locais de trabalho e moradia.

A lei de manifestação de 29 de agosto de 1974 é uma lei – tal como a lei da requisição civil de 1974, que foi usada contra as greves na Geringonça, e a da greve, também de 1974 – feita à medida para conter a revolução, cujo ponto nevrálgico na altura era a greve da Lisnave, da TAP e do Jornal de Comércio. Nunca os trabalhadores em Portugal cumpriram ou aceitaram nenhuma destas três leis, agora compulsivamente evocada pela direita e o neofascista do Chega. Que, mesmo perdendo votos na juventude (veja-se as piruetas do tipo) tem de apoiar a polícia, porque é a sua única base social real – o resto são votos que lhe dão os media, que fazem de seu agente de comunicação. A mesma polícia que se infiltra, empunha armas, e foi ontem alvo de acusações da Acampada de incendiar e provocar. Quem diria…polícias a provocarem – alegadamente -distúrbios para depois justificarem a repressão? Nunca se viu tal coisa…

Claro que Ventura tem outros votos garantidos. Os do PS, a esquerda sem autonomia face ao Estado. A ausência de uma esquerda com um programa socialista real que a única coisa que pede é “votem em mim, se não vem lá o papão do fascismo”, e mesmo assim defende este Governo liberal de direita, apoiando o orçamento de Estado que destrói o SNS e financia a guerra, persegue os imigrantes e vota a lei das rendas. É assim que Ventura ganha votos, com uma esquerda que não é esquerda.

A lei da greve para impedir as greves, impunha pré avisos (quando a greve deve ser uma surpresa a não ser em emergências) , permitia o lock-out, e impedia as greves de solidariedade, que dominavam então os jornalistas com o Jornal do Comércio- um pedaço de história por dia, o bem que fazia. Sim, os jornalistas fizeram greves de solidariedade e pararam os jornais em defesa dos colegas!

A greve da TAP que o Governo vai militarizar em Setembro e depois desenhar a lei da requisição civil; e a da Lisnave – os mais destacados trabalhadores liderados pela “extrema esquerda”, marcharam no dia 12 de Setembro até ao Ministério do Trabalho, 7 mil, com capacetes, cruzaram Lisboa e, depois de terem feito um minuto de silêncio na Embaixada do Chile contra Pinochet disseram “não estamos com o Governo, seja ele qual for (e era de esquerda) se o Governo não está connosco”.

Os da Lisnave, meus heróis até hoje – cada um tem o Ronaldo que quer -, ganharam a duplicação do salário, fim do trabalho regular nocturno e ao fim de semana, e a demissão do gestor que fez denúncias de operários grevistas à PIDE durante a ditadura. E todas estas leis de manifestação e greve nunca foram cumpridas, e o Governo caiu bem como então o Presidente da República, Spínola, que foi organizar atentados de extrema direita e golpes de Estado.

E a revolução, que fez cair Governo e PR, mudou em Setembro de 1974. Foi uma pedagogia para os trabalhadores. Aprenderam a não confiar no Estado e nas suas instituições, mesmo se são de esquerda, a se organizar em comissões e partidos contra o Estado. São isso sovietes, em portugês a tradução é conselhos democráticos, o que Estaline fez com isso foi destruir os sovietes e substituir pelo burocrata e a polícia política. Mas eles conselhos foram a forma mais elaborada de democracia inventada na história, em 1905, na Rússia, cada sector de trabalho elege representantes impares com mandatos revogáveis, cada bairro e vila elege, e esse é o Parlamento do país, uma representação real, não um lugar de burocrata profissional ou político profissional que se eterniza num programa que nem cumprem.

E é esta tensão que está hoje simbolicamente no Rossio, por isso Aguiar Branco, político profissional, executivo do Estado, veio dizer “A Assembleia é aqui, não é no Rossio”. O Rossio hoje é um símbolo da democracia real, um pequeno símbolo de uma maioria do país ansioso por parir uma vida digna de ser vivida.

Encontram com detalhe esta história nos meus livros – que estão em grande parte de bibliotecas públicas para quem não possa comprar – História do PCP na Revolução Portuguesa, História do Povo na Revolução Portuguesa e Breve História de Portugal (este em co autoria e todos da Bertrand).

O Erro Humano dos Gestores

“Erro humano”, como não ver, aos primeiros minutos do acidente em Espanha, a culpa – para erodir a responsabilidade jurídica, dos gestores e claro dos governos – escarrapachada nos jornais, em cima daquele homem, um homem sozinho, responsável pela vida e morte de milhares de pessoas que circulam nos comboios. Afinal não era isso que os jornais, aos primeiros minutos, nos estavam a dizer? As notícias, para quem sabem, depois da gorda “erro humano” (muitos jornais agora já recuaram) eram claras a desmentir-se a si próprias. O que se lia? Depois de uma falha do sistema informático o controlador mandou o comboio para cima um do outro, não cumpriu o protocolo, atentem a este frase – não cumpriu o protocolo -, e durante minutos não se apercebeu do erro.

1 – Os trabalhadores por não cumprirem o protocolo evitaram milhares de acidentes até hoje – é isso que explica a ergonomia, uma das mais importantes ciências do trabalho. Há uma diferença abissal entre o trabalho prescrito (pelos gestores) e o trabalho real (as dificuldades do dia a dia que em todos – leram bem -todos os trabalhos, mesmo na mais automatizada linha de montagem, surgem). Por isso há greve de zelo – é quando os trabalhadores decidem só cumprir o protocolo, nada funciona. Foi por não cumprir o protocolo que o piloto conseguiu aterrar no rio Hudson o avião.

1 – O erro humano – a ter a frase como verdadeira – foi ter decidido criar um sistema informático que falhou em toda a linha, incluindo nas redundâncias do sistema informático, e ter deixado um homem só – só – a tomar decisões desta gravidade. O protocolo dizia que o sistema informático era mais importante que um conjunto de olhos humanos, conjunto. Por exemplo, se ele se tivesse recusado a gerir aquela situação, e se levantado porventura do trabalho, os comboios paravam, provavelmente? E ele tinha um processo disciplinar e era despedido. Percebem o que é um protocolo? Foi por terem cumprido o protocolo de classificar exames e aceitar a digitalização que os professores ficaram arrasados, quando uma greve à digitalização seria o caminho ético a cumprir. Ou seja, descumprir o protocolo. Se um médico ou enfermeiro só fizer o que diz o protocolo, há estudos em França sobre isto, colocam em risco a saúde dos doentes. Nem sempre um Protocolo é para seguir, muito menos se não envolve as decisões de quem realmente está com “a mão na massa” ou seja, trabalha, é isto que diz a ergonomia.

3- Porque o acidente ocorreu? Além da ideia criminosa – que jamais teria sido tomada por trabalhadores – de colocar as redundâncias de segurança num sistema informático e num homem estava só. Porque o acidente ocorreu? É preciso muito tempo para o perceber. É preciso muito tempo para ouvir os trabalhadores, nos estudos que fizemos em Portugal a mais de 14 sectores com 50 mil respostas! passámos horas e horas a ouvir os trabalhadores em locais onde eles possam falar sem medo. Só assim se chega ao âmago dos problemas.

4- Como se evitam acidentes? Sem democracia nos lugares de trabalho é impossível. Porque só os colectivos onde não há medo de falar e há deliberação e cooperação podem ir com o tempo, sem medo, falar dos erros e problemas dos locais de trabalho, das ideias boas e más que têm, e colectivamente irem corrigindo os problemas. Quem quer trabalho prescrito e protocolos sem democracia e cooperação produz acidentes.

5 – Todos estes protocolos estão certificados e têm qualidade máxima, como tinham os dos aviões da Boeing que caíram. Recordo outra vez Dejours e Supiot, todo estes sistema que afasta os trabalhadores das decisões sobre o seu próprio trabalho, é montando em cima de uma fraude, avaliações de desempenho, Qualidade total, métricas tudo isto são formas de dominação que em si são uma fraude e produzem acidentes.

6 – Tudo isto será cada vez pior com mais privatização, mais medo, e mais gestores impecáveis que inventam programas informáticos e de IA que vão falhar cada vez mais. Ainda hoje fico pasmada por a Carris não ter chamado uma greve no dia seguinte ao elevador da Glória, era a única resposta à barbárie. Ainda bem que todos os sindicatos da CP estão contra a subconcessão. É preciso impedir não só a privatização mas voltar a exigir e lutar, com determinação, pela democracia no local de trabalho – com medo de falar e pensar, estamos todos em risco.

Tudo o que escrevi aqui resulta do trabalho colectivo do nosso Observatório para as Condições de Vida – OCV que realizou inquéritos em Portugal a mais de 50 mil trabalhadores de 14 sectores e – o mais importante – os ouviu em salas fechadas, sem gravações, durante dias e dias, o que descobrimos quase sempre é que os trabalhadores sabem que os gestores os colocam em risco mas sentem-se sós para mudar isso. E isso – trabalhadores sós frente a ordens absurdas – é que o é preciso mudar. E só se faz organizando coletivos de trabalho contra os mecanismos de dominação e hoje um dos principais mecanismos de dominação são protocolos e as avaliações, que não deixam margem para a voz de quem trabalha, para o trabalho real, e com isso somam-se erros e erros, lucros e lucros, e – de quando em quando -mortes que são resultado do erro humano de permitirmos que quem manda no trabalho não está lá a trabalhar, e quem trabalha está lá mas não pode falar nem pensar.

Há uns anos num dos estudos que fizemos na manutenção aeronáutica um dos trabalhadores contava que estava em pânico porque antes quando fazia a revisão do avião estava lá um mecânico, ao lado, com mais anos de serviço, “o chefe mais velho, que sabia mais” a verificar tudo e que agora era um com a mesma idade dele, e isso dava-lhe medo. Perguntei-lhe se achava que os passageiros estava em risco? Respondeu que sim, temia isso. O estudo foi publicado e entregue aos responsáveis, com mais exemplos idênticos. Mas sem nenhum impacto público, na França quando um trabalhador se suicida no trabalho por sofrimento ético – ser cúmplice com procedimentos que não concorda – , entre outras causas, os sindicatos publicam na sua página que “aquele trabalhador se matou por causa das condições trabalho”, aqui é tabu. É preciso que os erros humanos dos gestores e organizadores do trabalho começam a ser publicados pelos sindicatos. Tudo aquilo que põe em risco quem trabalha e o público tem de ser da esfera pública, para que todos sabiam que o maior erro humano que vivemos é ter a suprema falta de vergonha de colocar nas costas de um homem uma decisão que envolve milhares de vidas!

Em Breve do Jornal Maio entrevista ao psicólogo e professor Patrício Nusshold sobre estes temas, o “erro humano” e os coletivos de trabalho.

Desilusões e Esperanças

Trago-vos desilusões e esperança. Há uns tempos fomos visitar a nossa amiga N. professora do 1º ciclo, dirigente sindical francesa, que vive nos Pireneus. Como sempre fazemos quando vamos de férias, no Verão, com um bilhete de interrail, bicicleta e sem grandes compromissos e horários, pelo que quando lhe liguei, quinze dias antes, ela, que é uma mãe de 5 filhos adultos, mulher culta e delicada, disse-me que não ia estar em casa nessa semana porque “estava a fazer um curso de auto defesa contra a polícia”. Tenho aqui em casa a edição de um livro que eles editaram para milhares de associados – “Quem nos salva da polícia?”, chama-se.

Quando António José Seguro foi eleito há uns meses, Lula da Silva fez um twitter a dar-lhe os parabéns e desejando, naqueles parcos caracteres, que se consolide o acordo Mercosul, que era por Lula assinado dois meses depois, afirmando que tinha sido arrancado pelo Brasil “a ferro, suor e sangue” 25 anos depois.

Este acordo permite acabar com o que resta dos agricultores europeus, depois do desastre na guerra da Ucrânia, e fazer entrar a soja do Brasil e da Argentina.

Em França a assinatura do acordo levou os agricultores para as ruas, com tratores (que são tanques) a quem a polícia não conseguiu bater como bate nos estudantes. Os liberais de centro que apoiam Seguro e Lula vieram logo explicar que os agricultores franceses e europeus são de extrema direita, felizmente uma parte da extrema esquerda francesa foi lá apoiá-los, não deixou Le Pen ser a única figura que se dirigia aos agricultores (parte deles camponeses dos Pirineus, como da Estremadura em Portugal, ou da Catalunha, arrasados com as exportações).

Mas, a esquerda liberal, de Lula e Seguro, apoiam este acordo que faz do Brasil uma semi colónia exportadora de soja, em que a fome calórica diminui mas a fome nutricional aumenta (as classes trabalhadores comem hidratos e açucares, ainda mais do que noutros países, são obesas e doentes, no Brasil nasceu o médico que explicou a diferença entre os dois tipos de fome, Josué de Castro). Ao mesmo tempo, partidos de extrema esquerda argentinos, onde ainda há socialismo e esquerda, insurgiram-se contra o acordo do Mercosul dizendo que era uma forma de reprimarização da economia – destruição da indústria e por arrasto do sistema científico e educacional em troca de exportações de matérias primas.

As exportações de matérias primas como a soja agigantaram desde 2002-2008 o agronegócio no Brasil, húmus da extrema direita. E, tal como no Irão, Arábia Saudita, etc, a exportação de petróleo deu força às mais reaccionárias religiões, no Brasil crescem como cogumelos as igrejas pentecostais, o sertanejo, à boleia da bancada do boi, bíblia e bala (esta última a mais perigosa especificidade brasileira, que é a existência de milícias dentro do Estado e Estado dentro das milícias). Lula foi perseguido por este sistema que ele alimenta, e o seu vice, de ultra direita, Alckmin é um dos chefes das privatizações de um país onde milhões vivem em favelas sem saneamento básico e alguns milhares se passeiam de helicóptero. Lula tinha uma cartada, igual à de Seguro e à de toda a social democracia que aderiu ao neoliberalismo – ou nós ou a morte, o fascismo.

O pacto social entre capital e trabalho morreu na Europa em 2008. Escrevi-o então em livro, e analisei então como a Europa ia entrar em economia de guerra e repressão sobre greves e movimentos sociais. Não sou o Nostradamus do capitalismo em declínio, a história é uma ciência e os grandes movimentos conseguimos prevê-los. Sociedades complexas, escolarizadas, urbanizadas, sem direitos sociais, entram em revoltas e revoluções contra a economia da burguesia que está sujeita a crises de superacumulação de capital cada vez mais intensas e às quais reage com destruição desses capitais excedentes (guerra). E nem imaginam o que vem por aí com os triliões que nos foram roubados e colocados nas Goldamn Sachs e daí na IA e nas big tecs.

A repressão em França começou logo nesse período com Manuel Valls, a partir de 2008, a coberto da luta contra o terrorismo, e perante atentados monstruosos, a sociedade francesa foi policiada; o Covid foi a cereja no bolo, em vez de democracia na saúde, mais pessoal de saúde e bem pago, e questionamento dos idosos em prisões-lares, as big tec impuseram o delírio online e os Estados e a sua classe abraçaram o confinamento e o recolher obrigatório. Zero de saúde pública, tudo no medo e na repressão. Ao mesmo tempo todas as burguesias passaram a ter dois cavalos de aposta – os liberais de esquerda-centro, como Seguro e Lula, e a extrema direita, levada ao colo pelas empresas e Estados europeus, e pelo catatonismo da esquerda institucional que nada saber fazer a não ser choramingar que o Estado lhe dê espaço, os media lhe dêem voz, e a polícia se comporte decentemente. Uma pergunta – quem escolhe ser polícia? O tipo mais doce, cuidador e justo da aldeia? Os sindicatos revolucionários em França, em vez de pedidos ao Estado para não ser Estado, auto-organizaram-se, como o fizeram os movimentos ecologistas, contra os efeitos dos Mercosul desta vida, alguns deles a França tentou declarar organizações terroristas, como os Les Soulèvements de la Terre, que têm tácticas ultra desenvolvidas de ocupação contra minas, eólicas, etc.

Quando a N. me disse aquilo quase morri a rir. Perguntei-lhe que tipo de coisas aprendiam no curso de auto defesa contra a polícia, ela explicou várias, como mergulhar de uma certa forma para escapar de balas de gás, imaginei-a pequenina, a pular…

Eis que agora estavam as TVs entretidas a passar o seu spin da extrema direita, em Portugal dirigidas pelo Jornal Observador, que lhes dá o mote, de que isto são actos de vandalismo e não protestos, misturando tudo e todos no mesmo saco, quando dou por mim surpreendida. Afinal tínhamos contado aos nossos alunos que o barão Haussmann abriu as grandes avenidas de Paris no século XIX para passar as mercadorias e acabar com as barricadas; que tiraram no Maio de 1968 a calçada para evitar as barricadas, e agora a polícia leva com canhões de água dos bombeiros, escudos humanos dos professores, barricadas feitas de trotinetes e carros de supermercado… A esquerda em França está muito mais auto-organizada. E a extrema direita francesa ficou sem voz nas ruas, nas praças e só sabe pedir mais polícia e votos.

Os sindicatos em Portugal deviam compreender, e falo como historiadora dos movimentos sociais nos últimos 200 anos, que conheço melhor do que me conheço a mim, que esta repressão no Rossio e no Porto não é apenas nem principalmente contra jovens em luta. É contra os trabalhadores, é um teste contra as greves, e as revoltas que estão na esquina da história, porque eles sabem que nada têm a oferecer a não ser pancada, com o fim do pacto social.

A polícia foi criada em Portugal no século XIX, depois de desarmar o povo, contra as greves e revoluções. Era bonito ver os sindicatos hoje tomar uma posição inequívoca contra a repressão policial e ver mais milhares, um milhão de todos nós, nas ruas a defender o direito a lutar contra a barbárie, a ter voz e democracia real. A “ferro, suor e sangue” foi arrancado cada direito de voto, saúde, educação, habitação. Nunca nada foi dado pelos Estados ao povo. Lula é um caso mais triste porque, ao contrário de Seguro, ele sabe na pele e na vida dura que teve, na direcção nas greves do ABC, que só quem luta contra o poder, e não quem faz parte dele, vence.

É isso que nos dizem os jovens nas ruas da Europa, os estivadores de dezenas de portos do mundo que daqui a três dias estarão em greve mundial contra a guerra – sim, contra a guerra, o mais lindo movimento social em curso, parar de transportar armas!!! -; os que vão organizar e fazer greve geral na França dia 5 de novembro, dia 11 de novembro em Espanha, greve pelo direito a habitação; dia 22 em Itália, a greve de jovens em toda a Europa dia 20 de Novembro. Para quando uma greve geral em Portugal? Com piquetes democráticos, microfone a todos os trabalhadores para que livremente decidam como querem lutar, que vida e sonhos têm, pelos filhos sem casa, os pais exaustos nos turnos e os idosos abandonados? Só quem luta vence. E na Europa, ufa, que alivio, a luta começou!

Lula não é Jesus Cristo, graça a Deus

Fiquei em silêncio sobre o Brasil porque eles dias foram de pânico e em pânico ninguém escuta, sequer compreende. Há um alívio geral por um miliciano não ter sido eleito, mas esta derrota deste sector de extrema direita no Brasil deve-se acima de tudo às enormes manifestações e mobilizações, terão sido elas a mudar o sentido do voto ou pelo menos desmoralizar alguns sectores que iam votar em Bolsonaro. Esta vitória é das ruas, não por causa de Lula, mas apesar de Lula. E ela dá-nos uma grande lição para os próximos 4 anos – não se derrota a extrema direita com governos que governam à direita, se o Governo de Lula não governar para os trabalhadores mas, como tem feito, para o agronegócio do acordo Mercosul, a financeirização e privatização de serviços, sem garantir sequer saneamento básico ao final de vários governos do PT – sim no Brasil há esgotos a céu aberto para milhões de pessoas, isto num país que teve vários governos do Partido dos “Trabalhadores” – o que vai acontecer é que a extrema direita se vai fortalecer. Esta vitória é uma vitória apesar de Lula. De largos sectores de trabalhadores que desmoralizados com o Governo de Lula foram votar, para evitar a vitória de Bolsonaro. Não há muito mais oportunidades para travar a extrema direita eleitoralmente e nas organizações, onde está inserida – já que ela, derrotada, vai continuar a fortalecer-se se não existir uma mudança a sério no Brasil. E mudanças a sério não se fazem só com programas assistenciais, bolsa família é o programa mínimo da democracia cristão, não é um programa para as classes trabalhadores e sectores médios que querem serviços públicos e trabalho decente, e paz, claro.

Um Brasil do Mercosul será sempre um exportador de soja, com uma economia baseada nas exportações, com 40 milhões de pessoas com fome nutricional, sem alimentos decentes, saúde, com milhões sem saneamento básico, e com sertanejo em vez de MPB, e igrejas em vez de escolas. A economia do Brasil é que determina esta política desastrosa e Lula não vai mudar isso – só as ruas, isto é, a organização de baixo para cima, poderá mudar o Brasil. Ganhar não foi fácil, mas perder, mesmo estando no poder, vai ser rápido e doloroso se a esquerda não se organiza para além do Estado e do PT. É preciso transofomar estas mobilizações em auto organização e não em mais aparatos que distribuem cargos e acessórias aos milhares pelo aparelho de Estado. O PT nasceu nas comunidades de base, nos bairros das classes trabalhadoras, para além do Estado, e transformou-se num aparato que distribui dezenas de milhares de lugares, salários, apoios, ou seja, numa parte do aparelho de Estado, caminho que o PSOL seguiu igualmente, à sua pequena escala. O resultado é que o PT sequer consegui formar quadros novos, Lula tem mais de 80 anos.

O que nos salva da extrema direita é a auto organização, independente, é aí que se formam quadros, programas, direcções políticas que têm que ser autofinanciadas – sem quotas não há partidos, movimentos, organizações ou jornais e comunicação independentes, ou seja, que respondem aos interesses de quem trabalha. Impedir que as direcções clássicas de esquerda transformem estas mobilizações em mais uma eleição de sindicato ou regional, em mais um assessora de nada, um membro de um aparato, e conseguir que quem saiu às ruas se forme como quadro político de um coletivo que tenha no horizonte uma prespectiva socialista, emancipadora e não mais um mal menor assistencial, esse é o caminho. Um Brasil onde todos tenham saneamento básico nos próximos 4 anos, uma casa, saúde, educação e sonhos, é isso que derrota os Bolsonaros. Lula não é Jesus Cristo, graça a Deus.

Direito à Habitação, Revoltas Estudantis e Greves Gerais na Europa

Estarei com o jornalista Miguel Szymanski, um representante da Acampada de Lisboa, João Veloso, e o dirigente sindical Luís Luis Bravo a debater o “Direito à Habitação, Revoltas Estudantis e Greves Gerais na Europa”. Estão convidados (necessário inscrição, é gratuita).

31 de Outubro- 10h-13h

Clube Ferroviário de Portugal (Lisboa) – Rua de Santa Apolónia, 59-63

Raquel Varela (Historiadora, professora Universitária)

Miguel Szymanski (Jornalista, escritor)

João Veloso (Representante da Acampada de Lisboa)

Luís Bravo (Dirigente sindical do SFRCI – Sindicato Ferroviário da Revisão)

Escola José Fontana | Trabalho, Cultura e Liberdade – centro de educação, formação e convívio do Jornal Maio

Inscrição gratuita mas necessária para geral@jornalmaio.org

Agenda Novembro/Dezembro 2026

Deixo aqui a agenda de debates públicos onde estarei e cursos que darei no próximo mês. São, como sempre, bem vindos.

Amanhã, sábado, estarei em Olhão, falarei de como o turismo, a especulação imobiliária e a agricultura intensivas são políticas económica e socialmente insustentáveis e como podemos ter outra forma de produção da sociedade que protege quem trabalha e as empresas familiares. Bicentenário da CM Olhão, conferência inaugural, 10 horas. Auditório de Olhão.

Começa em Novembro e vai até Dezembro, 5 sessões, o curso que darei ao final da tarde no Âmbito Cultural El Corte Inglés Lisboa sobre Sexo e Poder, Família e Propriedade na História “. Datas nos comentários link de Inscrição gratuita no site do Âmbito Cultural.

Dia 28 de Outubro pelas 18:30 em Santarém CCRS- Fórum Actor Mário Viegas, com a apresentação do meu livro O Canto do Melro, ao lado do Mário Tomé.

Dia 31 de Outubro, debate sobre Direito a Habitação, revoltas estudantis e greves na Europa, no Clube Ferroviário, 10-13 horas, comigo, Miguel Szymanski, Luís Bravo do Sindicato dos Revisores CP e João Veloso, da Acampada de Lisboa. Inscrição gratuita mas necessária para geral@jornalmaio.org

7 de Novembro. Marinha Grande, o que fica depois do descaso com o ciclone Kristin? Debate Jornal Maio, com cultura e convívio. Cartaz em link nos comentários.

13 de Novembro, Município de Silves – Convite para participação na Tertúlia Insurgente – Influência do Poder Político e Económico na Comunicação Social. 21:30 Entrada livre.

14 de Novembro. OFICINA TEÓRICO-PRÁTICA PARA UMA DIDÁCTICA HISTÓRICO-CRÍTICA. Formação certificada. Com Roberto Della Santa Informações no Centro de Formação Lagoa Albufeira e Silves.

14 de Novembro. Lançamento do Manifesto pela Educação, Biblioteca Municipal de Albufeira, 21:00 Com Hugo Filipe Lopes, Cobramor, Denise Estrócio, Roberto Della Santa.

22-23 de Novembro. Soria, Espanha, colóquio internacional sobre memória da transição espanhola.

Que Força é Esta?

Os Romanos tinham divindades protetoras da casa, a que chamavam lares. Delas vêm as palavras portuguesas lar e lareira.

A Constituição portuguesa diz que a um lar todos têm direito, para si e para a sua família (…) de dimensão adequada, em condições de higiene e conforto e que preserve a intimidade pessoal e a privacidade familiar (art. 65º).

Não obstante, sucessivos governos têm sonegado à juventude portuguesa e a grande parte da classe trabalhadora o seu direito constitucional ao lar. Em protesto contra tão flagrante violação dos seus direitos, milhares de jovens montaram acampamentos em praças centrais das grandes cidades. Protesto, manifestação — outros tantos direitos consagrados na Constituição, sem necessidade de qualquer autorização (art. 45º).

Não obstante, o Governo deu, por três vezes, ordem de destruição dos acampamentos pela violência desabrida do bastão. Invocou uma lei ordinária anterior à Constituição — portanto, anulada ou superada pela lei fundamental em tudo o que desta se afaste.

Ao intervirem inconstitucionalmente, os agentes da violência e, principalmente, os seus mandantes, sejam eles embora, na sua atividade profissional legal, funcionários públicos, constituem milícias ilegais de caceteiros que agridem cidadãos desarmados e indefesos.

Uns poucos de proprietários de milhares de imóveis e de fortunas e rendimentos de milhões deram ordens para que a força policial se transformasse em milícia de jagunços.

Para não serem desalojados e espancados pela polícia, deverão os jovens portugueses declarar os seus acampamentos vigílias pela aparição dos seus “lares”, imitando os peregrinos e as suas vigílias noturnas pela aparição da virgem de Fátima (nunca reprimidos, como fez notar o jornalista Jorge van Krieken)?

A revolta da juventude não se limita a Portugal.

Às ordens dos chefes das guerras que alastram pelo mundo, sobretudo daquele que ostenta no cocuruto a cor oficial do partido de Montenegro, os vários governos europeus decretaram que se desviassem para a guerra os meios orçamentais dos Estados, que são financiados pelos impostos pagos pelos trabalhadores; e, para isso, se desmantelasse a saúde pública, o ensino público, a habitação pública e os transportes públicos. A juventude que escolha entre ser carne para canhão ou declinar para a miséria e o desemprego.

A juventude e os trabalhadores não concordam — e vão continuar a gritar o seu desacordo:

30 de outubro: dia internacional de luta dos estivadores por “portos pela paz e emprego digno”, com greves, paralisações e protestos em mais de 40 portos mediterrâneos e europeus de importância estratégica, contra a economia de guerra, a militarização dos portos, o transporte de material militar para zonas de guerra, a desregulamentação laboral, a IA-utomatização do trabalho portuário e por aumentos salariais e redução de horários.

5 de novembro: depois dos 800 mil que se manifestaram por toda a França a 17 de Outubro, greve nacional e manifestações ‘interprofissionais’ em França, convocadas pelas principais centrais sindicais e organizações estudantis universitárias e liceais. Por aumentos salariais e das pensões, contra o projeto de orçamento do Governo Macron, por meios para os serviços públicos e contra os subsídios ao patronato.

11 de novembro: greve geral no Estado espanhol, a primeira desde há 14 anos, convocada por todas as centrais sindicais e movimentos sociais. No mesmo dia, greve estudantil em todo o Estado. Pelo direito à habitação, contra os despejos, contra a precariedade e o custo de vida, por aumentos de salários.

20 de novembro: greve geral nacional em Itália, convocada pela maior confederação sindical, a CGIL, contra o projeto de orçamento do Governo Meloni, por aumentos salariais significativos, investimentos maciços na escola e serviços públicos, contra a despesa militar. No mesmo dia, International Youth Strike and Day of Action no Reino Unido, com apelo ao abandono das aulas nas escolas secundárias e universidades e à convergência para uma manifestação em Londres, para “lutar pelo nosso futuro, não nas guerras deles”, contra o capitalismo, o rearmamento e a inação climática, por fundos para as escolas, universidades, empregos e a habitação.

23 de novembro: depois de numerosas greves sectoriais e manifestações nacionais desde o início de Outubro, a maior central sindical da Bélgica, a FGTB, convoca uma greve geral interprofissional para o caso de o orçamento saído do “conclave de outubro” do Governo pôr em causa a indexação dos salários, tentar “anualizar” o tempo de trabalho, aumentar o IVA ou “reformar” o sistema de pensões.

Na Alemanha, ao anúncio da chefia da Volkswagen de congelamento dos salários de 660 mil trabalhadores em todo o mundo até 2030 responderam os trabalhadores e os sindicatos alemães com a ameaça de resistência em massa e com “toda a força” e a exigência de aumentos salariais de 5% já na ronda contratual prestes a iniciar-se. Também a Comissão de Trabalhadores da AutoEuropa se manifestou no mesmo sentido.

Os trabalhadores e os jovens, em Portugal, não estão sós. Os ataques são os mesmos e são desferidos pelos mesmos. O caminho para os derrotar também é o mesmo: unidade, organização e greve, nacional e internacional. Para correr com os governos ao serviço do capital e conquistar governos ao serviço do trabalho.

Editorial desta semana do Jornal Maio

Nesta edição artigo de Jorge Van Krieken, a acampada é uma “vigília”; Reportagem na Praça D. João I no dia da repressão; Naza, no silêncio das salas de cinema por Rui Pereira; crónica do Padre José Luís Rodrigues Rodrigues contra o totalitarismo; o panorama das relações de trabalho em Portugal por António Garcia Pereira.A greve do Sindicato Ferroviário de Circulação na nossa rubrica A Voz dos Sindicatos. E mais. Tudo em www.jornalmaio.org O Maio pode ser subscrito em “newsletter” semanalmente chega ao email de cada um.

Direitos contra o Estado

Não é Estado de Direito, é Direitos contra o Estado. Numa altura em que o poder do Estado repressivo aumenta em quase todos os países, e se sucedem os atropelos ao Estado de Direito – que é pouco para o que precisamos, mas menos do que isto nada é – a vitória hoje dos três marinheiros do Mondego sabe-nos bem. Parabéns a eles, que resistiram, e aos advogados Paulo Graça e António Garcia Pereira que a este caso se dedicaram. Diz-se que as profissões liberais recebem honorários e não salário porque recebem honras, já que não se pode pagar a vida que um médico nos dá, a liberdade que o advogado nos dá, o conhecimento que o intelectual nos dá.
Era bom ver em Portugal um movimento de advogados em defesa dos movimentos sociais, laborais, direitos, liberdades e garantias, porque vai ser cada vez mais necessário. Vimos na França os advogados, de toga, na rua contra a repressão policial. Ontem um polícia deu um pontapé a um homem sentado no chão, e nada lhe aconteceu, foi tando como um adolescente que tem um arrufo e não como um homem armado com raiva e descontrolo ao serviço do Estado; na Argentina atiraram gás aos deputados do PTS, de esquerda; na Itália Meloni, que lidera o executivo, de extrema direita, quer que os adolescentes possam ser detidos sem nada terem feito, apenas “preventivamente”. À medida que a crise capitalista e a guerra como economia e lucro desta gente, se torna padrão vamos ser cada vez mais os que resistimos e cada vez mais também os avanços brutais contra as liberdades vão chegar. Vamos precisar. muito de afirmar Direitos contra o Estado, o que se faz nas ruas, com organização política e sindical, mas também com advogados decentes e corajosos.
Como me fez bem hoje saber que aqueles três homens, que agiram com tamanha coragem e dignidade, não foram ainda mais massacrados pelo sistema judicial, porque o Militar, na altura sob comando de Gouveia e Melo, dá vergonha a qualquer um. Parabéns!

Sessões Ágora Maio

Ágora Maio- ouvir as populações, os trabalhadores, debater a vida do país, convivermos juntos.

Reunião democrática plenária mensal do Maio para debater a situação laboral, política económica e social, pensar o país e o mundo, sempre com convívio, juntando as Associações Locais. A política não deve ser uma actividade de especialistas profissionais, mas um bem comum de todos e deve juntar debate, cultura e festa. Todos devem conhecer, pensar e debater a política com P grande, assim se constrói a esfera pública e a democracia dos trabalhadores.

Sessões Ágora Maio

7 de Novembro – Marinha Grande, o que ficou do que passa depois do descaso com o ciclone Kristin? Que economia, cultura e vida para a Marinha Grande? (local a anunciar). Aberta ao público. 17:45-20 horas Biblioteca Municipal da Marinha Grande. Com convívio. Teatro, vidreiros, convívio e muito mais.

28 de Novembro – Lisboa. Clube Ferroviário. 10-13 horas. O que está em causa na proposta de pensões do Governo? Com Adriano Zilhão. Aberta a associados (sem inscrição prévia) e a não associados (com inscrição prévia).

Organização. Escola José Fontana, Trabalho, Cultura e Liberdade. A Escola José Fontana, Trabalho, Cultura e Liberdade é o centro de formação, educação e convívio do Jornal Maio. Se querem organizar na vossa terra, vila ou bairro uma Ágora para ouvir as populações, trabalhadores, sindicatos e associações contactem-nos para geral@jornalmaio.org

Poema para Raquel, para todos os utopistas

O meu amigo António Cortez enviou-me um poema de prenda aniversário. Parece ser sobre mim mas é sobre todos nós, partilho-o com a sua autorização.

É impossível ao homem mais rico do mundo pagar um poema, são precisas décadas e séculos de sistemas escolares, livros, editores, leitores, pensadores perseguidos, resistentes, para subverter a linguagem e fazer um poema. Ontem mesmo perguntei ao Prof. Valdés que vive e trabalha no Brasil, mas tem origem cubana, como está a escola em Cuba, ele não negou problemas mas disse que em Cuba “a escola ainda é o centro da comunidade, não é o shopping”…

O António Carlos Cortez tem sido um tribuno, poeta, educador e resistente da escola pública, para que todos possam ler, entender, se transformar e se desenvolver com a poesia.

POEMA PARA RAQUEL

Na sua voz segura e forte

um tremor de amor reluz

Parece por vezes intuir no ar

a energia vital que nos conduz

e faz de cada dia

novo tempo inicial

Como podes arrastar contigo

os rostos cansados de existir?

Raquel é uma força motriz

e vai até à raiz e tem o sal

com que faz o seu círculo imaterial

Como posso dizer-te

que resistir

é entregar a cada dia

um pouco de poesia

a quem não pode nunca deixar de contigo pensar sonhar

combater sorrir?

Raquel é um modo

de dizer amar e segue

segura a sua via