A esperança regressou nestes dias, e o medo mudou de lado. Aqui e em Buenos Aires, em Paris e em Berlim. Há algo que os donos do mundo, concentrados em meia dúzia de bancos e Estados e casas de luxo, compreenderam – esta geração não está disponível para ser carne para canhão das crises e guerras capitalistas.
E disseram-no, os jovens, com uma criatividade que destronou o ChatGPT, a alegada super inteligência que lhes enfiaram na escola goela abaixo – como não se emocionar com a orquestra da Acampada no Rossio? E os cartazes? Pura poesia em caixas de cartão do Pingo Doce “não é o cabelo azul, é o colarinho branco” “põe o cravo no bastão e vem dar-me a mão”. Pingo Doce, cujos líderes também ficaram com medo estes dias – será que não vou ter trabalhadores a aceitar o ordenado mínimo e um bolo rei no Natal de prémio de produtividade? O medo expressaram-no os grandes empresários pela voz do seu funcionário institucional: “A AR é aqui, não é nas praças”, disse assustado Aguiar Branco. Há anos que eu não me divertia tanto fora dos livros de história. Aliás, há anos que não ficava em frente da TV mais do que uma hora. Vi mesmo grande jornalismo, que é aquela coisa simples e fascinante – ouvir as pessoas com tempo, fazer boas e difíceis perguntas, sem censura do editor de turno.
Na Argentina, onde os protestos de jovens enchem ruas e Universidades, uma médica psiquiatra disse, nas TVs, que as urgências, desde que começaram as manifestações, deixaram de estar cheias de jovens em descompensação psíquica, com ataques de pânico, e sem saber quem são e o que fazem aqui. Quem leu o melhor livro de história escrito sobre movimentos sociais, a relação entre a subjectividade, direcção política e luta social, a “História da Revolução Russa” de Leon Trotsky, sabe bem o que ela estava a dizer. O ensaísta mais profundo dos nossos tempos, leitor claro de Trotsky, Perry Anderson, explicou-o como a agência humana consciente, isto é a capacidade de fazer a própria história, a liberdade. Ela aumentou muito desde a revolução francesa, mas sobretudo com as revoluções socialistas.
Muitos destes jovens estão a passar hoje pelo maior ritual de chegada à vida adulta das suas vidas. Nas sociedades camponeses esses rituais são criados – lutar contra o touro, subir ao Canigou, na Catalunha, e trazer o fogo. Nas sociedades urbanas, desde 1848, os jovens fazem os seus próprios rituais, e de uma penada enfrentam-se com Freud e Napoleão. Deixam de acusar a mamã e o papá e fazem-se à vida. Como não ficar enojado com aquelas ignóbeis e criminosas cargas policiais e emocionado a vê-los regressar e acampar no dia seguinte, e sair à rua enfrentando as polícias de Berlim e Milão?
Não vamos ser os vossos caixões – disseram os jovens e dizem os trabalhadores em greve – , das guerras que criam, na vossa disputa por terras e matérias primas, não vamos viver sem casa digna, sem educação a sério. E sim, a Palestina e os jovens ucranianos a fugir da conscrição militar, não há nenhum jovem que hoje no mundo não tenha essas imagens na cabeça, quando dorme à noite, pese embora o esforço da censura para as tapar. Eles, com 18 e 28 anos, sabem que o capitalismo hoje tem para lhe dar – guerra, inflação, tendas. Montaram tendas para dizer não aceitaremos dormir em tendas! Brechtiano! Que inspiração para o país inteiro. Obrigada! Obrigada!
Disseram-no com uma coragem física, que tantos sentiam perdida – a polícia chegou, em toda a Europa (deixem lá o spin de nós somos bem comportados, os franceses merecem porrada) – os Estados agiram com balas de borracha, há vários jovens que perderam os olhos, com pancada na cabeça. E os jovens o que fizeram? Regressaram, ainda mais destemidos! Mais, quanto mais lhes batiam mais os trabalhadores a eles se juntavam – há quatro greves gerais na Europa este mês. Porque não há uma greve ibérica e europeia não é certamente por falta de tempo nem vontade para a organizar…
É que – essa é a outra novidade – estes protestos geraram novas direcções jovens. Cuidado com os desejos carismáticos! Que também os há na esquerda. Precisamos de organização, não de mais uma falhada candidatura a mais uma eleição, o fascismo não se derrota nas urnas, nunca derrotou. Precisamos de formar quadros, não de porta vozes mediáticos. Mas sim – que bom que há sangue novo nas direcções, parecem-se muito mais, ali no Porto e no Rossio, com socialistas do que o PS, que anda também às aranhas, já que apoia este Governo. O PS pediu estes dias desesperado “diálogo” ou seja, mais uma comissão de inquérito, mais uma reunião inútil, mais uma saída sem nada e muitos sorrisos de compreensão. O PSD e o Chega querem pancada. Perderam. As acampadas não acabaram, o Governo sim, não governa. Está morto e não sabe.
Todos – Chega, IL, PSD e PS – em comum têm não ter solução alguma. Ou se socializa os solos, nacionaliza fundos e parte do hotéis ou não vai haver casas. Ponto. Esse é o ponto das revoluções. Que nascem das crises e das guerras, ou seja, nascem quando a burguesia não tem nada para oferecer a não ser mais e mais sacrifícios. Na mesa de quem trabalha o dia todo porco barato e de má qualidade comido a ver TV onde se anuncia “mais dinheiro para a guerra”.
Os partidos do Estado, à direita e à esquerda, ou defendem a Banca, a Galp e o Pingo Doce e a economia de guerra ou defendem o povo – deixou de haver meio termo, é esse o significado histórico do fim do pacto social europeu. Por isso chamam “extrema esquerda” aos que propõem socialismo a sério – nacionalização dos fundos, da Galp, para pagar educação, casas e saúde. Democracia real no trabalho e nas praças, ouvir todos, responsabilizar todos. A isso chamam, em pânico, “ultra esquerda”.
Os partidos social democratas (onde está o PCP, como é claro, o PS é há muito neoliberal assistencial) mas ambos lutam não contra o Estado mas tentando convencer o Estado, a burguesia, a fazer “cedências” – “é preciso respeitar as instituições”. A burguesia europeia e norte americana desde 2008 despejou no mundo milhões de euros de salários e serviços públicos em guerra (e IA, que é guerra) para salvar os seus bancos e grandes empresas, e hoje não têm nada a negociar. Por isso a crise vai continuar. E a luta também.
Como não rir ao ouvir na RTP o intendente da polícia a dizer quatro vezes! que teve que bater porque estas manifestações os deixam baralhados porque não são dirigidas pelo PCP?! Não lêem, não conhecem a história, este festival de ignorantes não percebe nada do que se está a passar à frente dos seus olhos, mas dão ordens, com armas na mão. Macron, em França, pede para se reunir com os estudantes ou os coletes amarelos e eles deixaram-lhe à porta uma guilhotina de madeira, feita pelos jovens estudantes de artes. Só não ri quem perdeu o humor. E o amor.
Os livros são o nosso mapa de erros e acertos. Não são a bíblia, mas são uma ajuda a encontrar um caminho que o google maps não vai dar. Em Trotsky, Gramsci, Marx, Perry Anderson (Teoria, Política e História) e tantos outros não está o dogma religioso a seguir – e há muita gente de esquerda que infelizmente acha que sim -, está um corpus científico de história das revoluções e dos movimentos sociais, que é a história do capitalismo. Esta semana, em pânico, Ascenço Simões, ignorante de tudo, perdido, pediu para não lerem, Pacheco Pereira – este último leu todos estes autores e sabe do que fala – veio de forma sofisticada pedir o mesmo. Não leiam esses perigosos “esquerdistas”. Façam mais uma comissão de inquérito e reúnam-se com o Presidente da Câmara, bebam chá e comam briches no átrio, em troca de uma mão cheia de nada.
Chegámos ao cruzamento da história. Ou livros proibidos ou a urgência psiquiátrica, ou assembleias populares ou conflitos na casa dos pais, ou manifestações ou medo da guerra, ou luta ou exaustão no trabalho. Chegou a vida adulta. Subir ao Canigou e trazer o fogo ou arder neste mundo nauseabundo onde 60 pessoas tem a riqueza de 4 mil milhões e um genocídio é dado em directo. Essa é a escolha. Não fazemos revoluções, só comentadores ignorantes acham tal coisa, as revoluções chegam, sem aviso. E vão chegar. E nós vamos ser chamados a dizer de que lado estamos, porque ninguém poderá ficar de fora.
