A beleza é fundamental!

Se avisam num cartaz que há uma greve ou plenário e o cartaz é feito em IA, o nosso cérebro regista mais depressa a imagem – feia que dói – do que a greve. Que greve feia é esta, perguntam as sinapses? Sindicatos, movimentos sociais, associações, parem de fazer cartazes em IA, são horrendos!

Quando desenhamos, sem saber, estamos a passar uma ideia. Se a ideia for boa e o desenho mau, a ideia passa a ser má.

E quero fazer uma homenagem sincera, há muito que a quero fazer: aos designers e ilustradores, aos artistas do Jornal Maio. Tudo da sua mão, autonomia, criação, são quase uma dezena de artistas das artes gráficas – vejam o nome, “artes” gráficas – que apoiam o Maio e nele encontram também o espaço para a sua criação, sem donos nem padrões, sem ordens, muito menos IA e algoritmos. Já repararam que o Maio tem uma identidade, e que qualquer artigo que circula sabe-se que vem do Maio? Tem um projecto artístico que é ele mesmo um projecto de ideias, e que essas ideias estão expressas no desenho? Não existe forma sem conteúdo e conteúdo sem forma.

Vejam como já não se distinguem nas televisões os anúncios – são todos iguais – e os jornais, quase todos, não sabemos se a alegada notícia vem daqui ou dali, porque é tudo igual, e igualmente feio, padronizado. Não é só que os jornais e TVs de hoje são quase todos cópias da CMTV, que se dedicam ao crime e ao escândalo, tema quase único da pequena política nas periferias do mundo, é que são escandalosamente feios. E são escandalosamente feios porque se dedicam ao crime e ao escândalo.

Nós, trabalhadores, defendemos a beleza e a arte. O belo, o justo e o bom. Quando se faz um cartaz não se presta só uma informação de um debate ou greve, está-se a construir uma ideia de mundo.

Sindicatos deste país, gastem um pouco de dinheiro (não é gasto, é criação de riqueza), e peçam a artistas para fazer o cartaz que convoca o plenário, a greve, divulga o sindicato. Os feios que me perdoem, a beleza é fundamental!

Governo quer tirar 100 ambulâncias ao INEM.

É a razão da greve do INEM, sequer é – o que seria absolutamente legítimo – por aumentos salariais. É uma greve para não ficarmos sem ambulâncias!

“Em agosto, depois de ouvidos os técnicos de emergência pré-hospitalar (TEPH) em plenário e na sequência da aprovação de duas moções a pedir a demissão do atual presidente, numa assembleia geral de todos os trabalhadores do INEM, anunciamos dois dias de greve geral para 14 e 28 de setembro, não para reivindicar aumentos de salário ou melhoria das condições laborais, mas para evitar a diminuição da resposta do INEM”. O Jornal Maio publica um artigo de Rui Lázaro, Presidente do Sindicato dos Técnicos de Emergência Médica.

Em link artigo completo

O PISA e a Educação

Sobre o PISA da OCDE, ele mesmo um índice que apenas mede simples competências (não mede imaginação, abstração, memória volitiva) e criado pela mesma OCDE onde todo este pacote mercantil educativo, junto com o Banco Mundial, tem origem, da escola das competências e da digitalização.

“O cenário que hoje tantas vezes se nos depara, ao entrarmos numa escola ou universidade, é distópico: crianças e jovens encerrados em salas com janelas de cortinas corridas, a olhar, sem curiosidade, para PowerPoints e ecrãs controlados por professores expropriados intelectualmente, exaustos, desmoralizados, anestesiados, alienados. E, no entanto, os educadores e professores são a maior força intelectual potencial de um país.

O currículo foi por água abaixo. Das suas trevas surgiu a flexibilidade das “competências”, que adestramos alunos para o mercado de trabalho — que não os quer qualificados, mas “flexíveis”. Não se procura quem conheça, mas quem saiba “aprender a aprender”.

A democracia nas escolas está moribunda: a gestão unipessoal, a orgânica do Conselho Geral e o modelo deAvaliação de Desempenho Docente (ADD) são fatores centrais neste défice democrático. Estes mecanismos têm contribuído para fragilizar a participação efetiva dos docentes, tornando-os, muitas vezes, reféns de estruturas hierarquizadase esvaziando o sentido coletivo e deliberativo que deveria caracterizar a vida escolar.

Não admira que, longe da escola, longe, cada vez maislonge, da universidade, discutam os professores um romanceno café, ali comentem uma peça de teatro e conversem sobre uma ideia pedagógica.

Na escola e na universidade, pouco se debate coletivamenteo ensino: há dados a entregar a acionistas de plataformas, plataformas a preencher sem demorapara a “Qualidade” avaliar a aula do professor — que oaluno-cliente também já avalia, com a profundidade e saberdo botão verde, amarelo ou vermelho à saída do supermercado. Nesta desoladora lógica de forçada adaptação, surgem as “competências sócio-emocionais”. O aluno não é avaliado pelo que sabe de filosofia, música ou matemática, mas pela dose de submissão a plataformas digitais que, por meio dos seus descritores, avalia se o aluno é“resiliente”, “flexível”, “resistente à frustração” e outras categoriasque não têm qualquer sustentação científica.Delirante!

Juntem-se doses maciças de aulas de cidadania,de ensino de prevenção rodoviária e literacia financeira, em horas retiradas à história, à filosofia, à geografia à economia, às artes: assim se apodera uma lógica utilitáriada escola. Esta é uma degradação da escola, porque é uma escola que não ensina, é uma escola que impõe a educação do mercado e do Estado, é uma escola pensada como objetivo de as classes trabalhadoras sorverem esta lógica empresarial, expropriando o valor do cidadão autónomo, que conhece e se emancipa.

Nós reclamamos: a escola é nossa! De alunos. De professores.

Não é laboratório das experiências do Estado, das empresas. Não é uma mercadoria para formar mão de obra dócil! É necessária aos povos! Tem sentido! É pública! É lugarde conhecimento! É uma instituição onde se formam cidadãos insubmissos! É um dos espaços mais encantadoresque a humanidade inventou!

Não é um armazém onde se despejam crianças e se fazem das professoras e dos professores – na maioria, professoras– cuidadoras informais, num evidente retrocessodo papel da mulher. A escola não se confunde com aassistência social, assim como esta não se confunde com ações assistencialistas precárias, realizadas por força de trabalho também precária, porque destinadas às classes trabalhadoras.Não é um lugar de entretenimento que supre os problemascriados pelo capitalismo, pela competição e por jogosde soma nula. Escola e universidade não são apêndicesdos recursos humanos das fábricas e empresas.”

Em “Podemos Educar depois de Gaza? Manifesto Por uma Educação livre de IA Generativa e em defesa do conhecimento

teórico nas escolas e universidades”. Escola Camões, Lisboa.

Quem queira participar e juntar-se a este Movimento escreva para observatoriocondicoesdevida@gmail.com

Podemos Educar depois de Gaza?

Manifesto Por uma Educação livre de IA Generativa e em defesa do conhecimento
teórico nas escolas e universidades

O que andámos para aqui chegar. Mas, enfim, aqui estamos. Queremos criar em cada escola da educação de infâncias o secundário e à Universidade a resistência à destruição da educação. Este Manifesto pretende ser um instrumento de luta de uma escola pública, de qualidade, rigor, exigência, e liberdade, e não um armazém onde se despejam crianças e jovens e se vendem certificados, onde a fraude nas avaliações se tornou generalizada. Não queremos mais reuniões que são um simulacro de democracia para diretores e Ministros imporem a destruição da educação, a perseguição a colegas, e a inflação de notas e a entrega de dados a plataformas, muitas conectadas mesmo com a indústria de guerra, mascarada de “inovação digital”. O professor não é assistente, psicólogo, que faz “avaliação” emocional, é um intelectual que ensina conhecimento. Não aceitamos mais esta devastadora desistência das crianças e jovens em nome de uma falsa inclusão que os torna semianalfabetos. A escola está a ser convertida num lugar triste, concentracionário, posto ao serviço de um mercado de trabalho desqualificado que sonega o conhecimento em favor de insípidas “competências”. Em vez de fomentar a insubmissão, difunde a submissão, no lugar da criação, pretende o adestramento — tudo ao serviço dos lucros astronómicos das big techs, da guerra e, quando muito, de um mercado de trabalho desprotegido. Uma escola assim destina grande parte dos alunos a serem meros operadores de máquinas e computadores, plataformas e IA. Charlie Chaplin ficaria boquiaberto. Queremos convidar todos para o lançamento público deste Manifesto e para neste Movimento participarem. Quem queira participar e juntar-se a este Movimento escreva para observatoriocondicoesdevida@gmail.com


‘A esquerda precisa de um programa radical e anticapitalista’ | Entrevista com Raquel Varela

Diante de uma extrema-direita violenta, organizada pela burguesia e que percebeu o fim do pacto social do pós-Guerra, a esquerda precisa apresentar um programa radical, anticapitalista, capaz de transformar, de fato, o cotidiano dos cidadãos, defende a historiadora portuguesa Raquel Varela. Especialista em revoluções e no movimento operário, fundadora do jornal online Maio, apoiado por sindicatos e organizações sociais de seu país, a professora da Universidade de Lisboa critica não só a acomodação do campo progressista, mas o sectarismo de certas correntes. “Há uma esquerda profundamente institucional e simultaneamente fanática”, afirma na entrevista a seguir, concedida durante uma rápida passagem por São Paulo. Seja membro do Clube do Canal de CartaCapital e tenha acesso a benefícios exclusivos: https://bit.ly/ClubeDoCanal Assine e apoie CartaCapital: https://bit.ly/CartaYoutube Inscreva-se no canal de CartaCapital no YouTube: https://www.youtube.com/cartacapital?… Siga CartaCapital nas redes sociais:

Contra o voto in(útil) uma política de organização

E a terra move-se…Ontem cheguei a Buenos Aires e fomos directos para a casa linda do Instituto de Pensamento Socialista onde conversei para o meu podcast que faço no Jornal Maio com Miriam Myriam Bregman, a política argentina mais bem vista em todos os inquéritos, e que tem este CV: advogada dos direitos humanos contra a ditadura, professora na cátedra sobre direito do genocídio, militante trotstkista (Milei chamou-lhe chilindrina troska, como “mariquinhas sensível trotskista” ao que ela respondeu melhor do que ser “como Milei um gatito mimoso do Poder”, descartável, depois de vender o país aos capitais monopólios imperialistas). Miriam é membro da Frente de Esquerda dos Trabalhadores (FITU), que agrega várias organizações de esquerda, e militante do PTS – um partido trostkista, que não apelou ao voto útil contra Milei, fosse nos liberais de esquerda ou nos peronistas, o PTS defende que os trabalhadores precisam de outra política que não seja andar atrás do medo do papão, que a extrema direita não se derrota nas eleições nem nas urnas, e que é necessário criar organismos populares, assembleias pelo país e lutas nos sindicatos, comités de empresa e bairros, porque a política de apoio ao centro leva a extrema direita ao poder, já que o centro faz a política de extrema direita naquilo que é central, como a economia. Esta decisão não os levou ao isolamento, pelo contrário, cresceram. Sairá em breve a nossa longa conversa de mais de uma hora. Ficou o registo na livraria do Instituto de Pensamento Socialista onde as obras de CEIP León Trotsky, Rosa Luxemburgo, Flora Tristan, e um número de intelectuais e militantes socialistas são traduzidos, editados e estudados. Miriam é autora do livro, em português do Brasil, “Moderada Nunca”.

Curso História do Socialismo

História do Socialismo, curso que iremos dar. Neste curso iremos aprender as origens históricas das ideias igualitaristas, ainda no período pré industrial, passamos pela revolução industrial, as primeiras organizações de trabalhadores, o socialismo utópico e as comunas, de Fora Tristan a Blanqui, Marx e Engels, a Associação Internacional de Trabalhadores, William Morris e o trabalho com emancipação, Antero de Quental e as conferências democráticas, a II Internacional, movimento e estratégia, I Guerra e a revolução russa, Trotsky contra o Termidor Estalinista, o socialismo na periferia do mundo, os anos 1930, a resistência socialista na II Guerra, o maoismo e as revoluções anticoloniais, o Maio de 68 e o guevarismo, a revolução dos cravos e na Polónia, a queda da URSS e o seu impacto na esquerda, o socialismo hoje. Cada aula debate uma das teses de Marx sobre Feuerbach (Educação, verdade, experiência, práxis, entre outras).

Todas as informações no cartaz e em cursoonline.humus@gmail.com

Temos vários conteúdos escritos, arte e audiovisuais recomendados, mas não obrigatórios.

Se faltar a alguma aula disponibilizamos a gravação.

Olh’ó Maio!

O JornalMaio está de regresso. Imperdível – vejam por vós.

– Na Alemanha, os trabalhadores da Volkswagen, o maior fabricante automóvel do mundo, enfrentam uma luta terrível pela defesa dos seus salários e postos de trabalho. A alternativa que procuram impor-lhes é entre o encerramento de fábricas e o desemprego ou a reconversão para a indústria de guerra.

– Grande entrevista com o economista Michael Roberts

“Há todos os motivos para esperar outra recessão antes do final desta década. O rastilho pode ser aceso por um novo colapso financeiro, como em 2008. Desta vez, o estouro pode não ter início nos bancos, mas ser provocado pelo aumento da dívida das empresas e pelo custo do serviço dessa dívida.

– O Maio publica, pela sua relevância, este texto de Andrés Ávila, da revista chilena El Porteño, para quem Nolan subverte completamente o sentido do poema. Isso “começa quando o filme coloca a culpa no centro da identidade do protagonista. Em Homero, a culpa constitui uma experiência que o herói deve viver e integrar; nunca o que o define. Na adaptação ocorre exatamente o contrário. A culpa deixa de ser uma dimensão da existência e passa a ser a essência do personagem. A partir desse momento, a viagem deixa de conduzir à autorrealização e passa a conduzir à negação de si próprio.”

Miguel Real escreve sobre o Último Eça “A obra do período final da vida de Eça de Queirós, definida pelos seus contos, crónicas e romances entre 1888 e 1900”.

Antonio Carlos Cortez Letras sobre a IA e Educação- “As fogueiras do futuro não estarão no Terreiro do Paço, nem nas altíssimas piras funerárias onde se admirava o fogo redentor dos heterodoxos. É na IA que tudo arderá: a nossa liberdade humana. A escola e a universidade. O pensamento e o sentimento, a nossa humanidade.”

E mais, artigos de Jorge Van KriekenJoão Areosa, Ana Rajado sobre as mulheres conservadoras. Na BD desta semana o Bruno Borges conta as férias dos trabalhadores, tudo em jornalmaio.org podem subscrever e apoiar.

http://www.jornalmaio.org

Suplemento de Vida

Um dia destes fui a uma festa de aniversário de um amigo pensando que, como sempre, me vinha embora pelas dez da noite, cansada, com a clássica desculpa “tenho de acordar cedo”. Eis que, muito depois das dez, ali estava eu, a conversar feliz, dando uns passos de dança. Um pátio pequeno de uma simples casa encantadora com luzes indirectas, um grupo de três músicos de jazz, só com os seus instrumentos, a la banda de Woody Allen, e umas saladas e espumante. Muita gente a conversar. Um luxo, uau, afinal gosto de festas! Viver é cada vez mais difícil porque a simplicidade tornou-se inusitada e não é só de dinheiro que falamos, nada ali foi caro.

Por vezes penso com sinceridade se não posso tornar-me numa daquelas intelectuais ressentidas, pedantes e desmoralizadas, que a pequena burguesia produz em tão grande quantidade quando a sua pequenez numérica permite. Estou sempre a pedir ao meu marido, como pensamento mágico, não me deixes tornar numa cínica. Cinismo é aquele estado de pretensa superioridade moral que acredita que todos à sua volta não estão à nossa altura. É um sentimento que observei muito ao longo da vida, o típico caso do gajo que vai em sentido contrário e diz que todos os outros estão a vir contra ele. Há também os que desistem, ficam sós ou com os seus, não são cínicos, mas é outra forma de virar costas ao mundo, e por isso à vida.

Até que…dou por mim a voltar a ter uma felicidade e um entusiasmo crítico pelo mundo igual ao que sempre tive, o que mudou? Um dia sem internet, sem luz led, sem música tecno, uma folha de papel, um jazz sem amplificadores. Estar bem tornou-se um luxo. Fomos invadidos de IA, luzes Led, e barulho constante. Insuportável – estamos em ruptura metabólica com o nosso corpo, audição, visão.

O quotidiano no capitalismo – marcado por luzes intensas 24 horas por dia, música em todo o lado, normalmente tecno ou as várias versões dessa batida no zinco que reproduz o ritmo de um tear mecânico numa fábrica, alertas a toda a hora, do cinto do carro à porta do microondas não há máquina alguma que não apite; e milhares de pessoas, entre elas nós mesmos, horas a fio de pescoço pendurado, em frente desta luz azul, não só pela compulsão dos conteúdos mas porque a IA nos obriga a fazer serviços a nós próprios horas a fio, somos trabalhadores das bigtecs, marcamos consultas, subimos trabalhos na nuvem, baixamos a aplicação, um inferno, que está a alterar até as hormonas e os tempos da menstruação e da menopausa, acelerando tudo. Aos homens pede-se que não estudem (veja-se a campanha do Jornal Público sobre os benefícios salariais do ensino profissional ao mesmo tempo que chora lágrimas de crocodilo sobre os pobres não irem para a Universidade) e se preparem para a guerra, vão ao ginásio, tomem suplementos, e não acreditem no futuro, nem precisam de estudar…Há uma campanha – em todo o mundo – de recrutamento militar em curso, disfarçada de “entrar rapidamente no mercado de trabalho”, não estudar, e tomar suplementos para ser forte. E nunca parar.

O dia a dia tornou-se totalmente hostil para todos nós, crianças, jovens e adultos – chega-se ao fim do dia exausto pelas horas a fio de internet, pelo barulho constante, pela ruptura com a natureza (olhem que não sou – nada contra -, mas não sou, “come flores” nem nasmatê), e pelas luzes Led, cada vez mais fortes, dia e noite.

Não mudou o genocídio na Palestina, as derrotas do movimento operário, a pobreza e as tragédias, só quem acreditou no capitalismo do pós guerra e no pacto social estará derrotado nas suas ilusões. O capitalismo é barbárie, e as revoluções são actos de civilização inevitáveis contra a barbárie. O pacto social nascido em 1947 é uma derrota – os trabalhadores entregaram as armas – pressionados pela burocracia de Estaline – em troca de um acordo que evidentemente não ia ser cumprido nem pelos EUA nem pelo que sobrava da burguesia alemã, inglesa e francesa, em escombros. A burguesia estava por um fio, sabiam que não tinham força sem negociar, a guerra tinha deixado um rasto de 80 milhões de mortos e milhões de trabalhadores armados, organizados e- então – ninguém duvidava que a guerra tinha sido originada pelo capitalismo.

Ver as imagens de Gaza e da Cisjordânia, mais dinheiro para os bem equipados e sempre abertos hospitais na Ucrânia comprarem próteses aos jovens ucranianos, as pessoas a voltarem a viver em barracas ou comerem açúcar em vez de sopa, suplementos em vez de carne, estarem sós, cada vez mais sós, tudo isto é assustador e triste. Mas o seu antídoto está aí, não há dia no mundo que não haja um grupo que luta pela Palestina, uma greve contra os baixos salários, um ser humano que não ajude outro a não ser despejado de casa, duas pessoas que não se amem e se cuidem. Há um mundo porvir.

Quando largo horas a fio este computador, e deixo de estar exposta às luzes led e ao barulho constante, toda a minha visão optimista e paixão regressa. Temos um novo inimigo a derrotar – a nossa atenção está capturada 24 horas por dia. Para que não vejamos como podemos viver de outra forma.

Não me tornei numa cínica, mas já nem aceito jantar em casa de amigos que colocam uma luz branca led sobre a mesa – encontramos-nos na tasca onde almoço todos os dias, à luz do sol, com o Sr. M. a cantar fado.

Para parar o genocídio em Gaza temos de parar também este estado de aceleração total do capitalismo, esta droga massiva que estamos todos a tomar e nos faz andar a 300 km hora.

A IA e a Gaza são duas faces da mesma moeda, a precisão da geolocalização dos drones, a transição digital na escola para os alunos aprenderem a usar mais a IA, o PRR que financia empresas de drones e pede jovens que não estudem e vão para as fábricas, tudo isso depende do número de notificações e vezes que usamos o google maps que ensina à IA a matar com mais precisão.

A capacidade de produzir em turnos nocturnos drones, (não dormir, veja-se a venda livre de melatonina) ou massas pré cozidas para alimentar quem produz drones, depende de ensinar as crianças deste tenra idade a estarem a usar telemóveis e Reels, a sua atenção focada. Para tal há conteúdos viciantes e para os jovens há suplementos energéticos, proteínas, ginásios, e o culto do eu, eu estou só, não preciso dos outros, só me posso safar sozinho, eis o culto da guerra. Os adultos não estão livres, pelo contrário. Se jantamos com Led branca, a pedir o menu por um Qcode, a ouvir tecno, vamos para o carro e o cinto apita, recebemos a notificação de que cumprimos o tempo de exercício, e vamos ver Reels, tudo isto nos coloca em ruptura com a nossa capacidade política – física, mental – de mudar o mundo porque simplesmente nos coloca em ruptura com o nosso corpo.

Estudar e ler, em papel, cozinhar para os amigos uma salada com frango e ervas aromáticas, ceder numa discussão, sim, não estamos sós, jazz, luzes indirectas, a vida é muito mais fácil e bela do que nos vendem.

Família, para onde vais?

Uma família, uma unidade de três ou quatro pessoas, mesmo se forem mais, não pode resolver a falta de emprego, os baixos salários, as dívidas, a casa que não existe, a educação coletiva e o pai com demência. Se há tema que me espanta as pessoas propagarem com facilidade é esse mantra liberal de que a origem dos problemas está na família. A escola não funciona? A culpa é dos pais. O velho está abandonado num lar? A culpa é dos filhos! Atira a pedra, atira! Mesmo a noção de violência “doméstica” é uma privatização do conflito social.
Por isso, a baronesa Margaret Thatcher, re-fundadora da sociedade de “mercado”, disse – e esquecem-se sempre de citar a frase toda – “Não existe essa coisa de sociedade. Existem homens e mulheres individuais, e existem famílias”. Ora, é justamente o contrário, para o movimento socialista histórico só existiam indivíduos livres e famílias livres se existisse uma sociedade comunitária ampla que garantisse apoio nas mais diversas situações, do berço à cova. A expansão do indivíduo e do amor livre era um desígnio central do socialismo.
Na verdade, a magnitude dos problemas das sociedades hoje, da educação à família, são impossíveis de ser resolvidos sem comunidade e sociedade. No ano passado dei um curso sobre Sexo e Poder, Amor e Familia na História, no Corte Âmbito Cultural El Corte Inglés Lisboa, as inscrições quase triplicaram o número de vagas. Este ano o ACCI voltou a convidar-me para repetir o curso, foi, para mim, um curso importantíssimo, porque as leituras atentas e sistemáticas que fiz permitiram-me perceber o quanto a leitura comum de tantas feministas sobre Alexandra Kollontai era infiel ao seu pensamento – a noção de amor livre está muito longe daquilo que foi popularizado pela esquerda dominante, mesmo na minha opinião pela esquerda radical; li e reli deleitada a teoria de Adorno sobre a relação entre família e personalidade fascista, a queda do homem pequeno burguês com a queda da pequena propriedade e o ressentimento. Bom, aqui deixo o programa e o link de inscrições. Em Janeiro darei em Gaia, e no mesmo âmbito Cultural, uma segunda edição, mas com um programa novo no caso de Gaia. O de Lisboa está aqui, em link nos comentários podem inscreve-se, gratuitamente.

Sinopse

Quero ser feliz – as palavras de Rosa Luxemburgo ecoam. No meio de outras palavras – amor, sexo, amizade, família, sexos e género, modo de vida, propriedade, religião, Estado, poder. Como as mudanças nos padrões políticos, sociais, económicos, religiosos e culturais influenciaram, ao longo dos séculos XIX e XX, a família, a forma de viver as relações amorosas, pessoais e íntimas? E como estas moldaram as instituições políticas, a cultura e a economia?

Este curso percorrerá quatro autores, engajados no pensamento crítico, que estudaram o amor, a família, o sexo e o poder: Sobre o Amor, do filósofo Leandro Konder; Sexo e Poder: a Família no Mundo 1900-2000, do sociólogo Goran Therborn; textos de Alexandra Kollontai e o sexo; e o clássico As Origens da Família, da Propriedade Privada e do Estado de Friedrich Engels.

1.ª SESSÃO — 6 DE NOVEMBRO
As Origens da Família, da Propriedade Privada e do Estado.

2.ª SESSÃO — 11 DE NOVEMBRO
Sexo e Poder, uma história global.

3.ª SESSÃO — 20 DE NOVEMBRO
Fascismo e Perversão. Saló ou os 120 dias de Sodoma.

4.ª SESSÃO — 2 DE DEZEMBRO
Mulheres, Propriedade e Trabalho – amor-camaradagem na obra de Alexandra Kollontai, sob o crivo da crítica à apropriação identitária da autora.

5.ª SESSÃO — 4 DE DEZEMBRO
Sócrates e Marx, Ovídio e Rosa Luxemburgo, Camões e Fourrier, Flaubert e Balzac – o amor é.

Propriedade Comunal

Não dou dicas de hotéis, mas deixo o roteiro francês, já que tanta gente me pediu, e tantos outros me ajudaram a fazê-lo antes de ir. Primeiro perceber a história destas pedras! Começámos por Albi, imperdível a catedral de tijolo, uma fortaleza do Papado contra todos os que não se centralizavam ao “Estado” que era então a Igreja de Roma a querer afirmar-se como única e todo poderosa. Por isso numa pequena aldeia chegar a esta Igreja, na qual me fotografaram, é revigorante. Contra a inquisição, o fanatismo e o obscurantismo, o socialismo e o bem comum, em liberdade.

Sim, a primeira cruzada é feita aqui, guerras de poder para dominar a Europa, no sul de França, contra os cátaros, cristãos, muito tolerantes, e que tinham uma força enorme nas zonas costeiras e de montanha, da Bulgária aos Pirinéus. Há um enorme revivalismo do país dos cátaros, e até excesso de mitologia, mas o que se visita e vê é o poderio da Igreja e da Inquisição em catedrais magníficas que são símbolo da derrota dos protestantes.

Catedrais que, na minha opinião, são magníficas porque paradoxalmente forem feitas num regime de trabalho coletivo auto regulado, os ofícios e as guildas – ninguém faz nada bonito sem autonomia no trabalho. A Igreja de Roma para dominar, com os Reis, e paulatinamente criar grandes Estados, não teve outra solução para construir os seus edifícios de poder, universais, se não dar poder aos trabalhadores: pedreiros, carpinteiros, ferreiros, um esplendor. Ao lado da catedral, em Albi, o museu Toulouse-Lautrec, o desenhador que tentou ver nas prostitutas outro mundo porvir, de delicadeza, e que nasceu aqui.

Muito perto há Castres e Cordes-sur-Ciel, ambas lindíssimas (pelas imagens e amigos que foram) mas nós já não fomos, rumámos a Mirepoix para o festival MIMA de teatro. Mirepoix é imperdível, uma vila com um dos mais impressionantes centros, arcadas em madeira do século XVI, canais, uma delícia. Dali a fomos ao monumento à resistência anti nazi, lá em cima, nas montanhas, “O Maquis de Picaussel foi um dos mais importantes grupos de resistência armada clandestina (conhecidos como maquisards) que combateu a ocupação nazi e o regime de Vichy na França durante a Segunda Guerra Mundial”, liderado por um professor e composto de africanos e revolucionários espanhóis, refugiados do franquismo. Tudo isto comendo em mercados, escutando o som dos pássaros, raramente nos sentamos num café com música, muito menos música má, aqui conversa-se. Nunca houve creio um dia sem alguma festa, mercado, mas festa aqui, como disse, não é tecno e barulho, é gente real, arte, cultura.

É bom olhar sempre a paisagem, um museu vivo – é na diversidade que a beleza cresce. Não é um eucaliptal. São zonas de pequena propriedade, com florestas belas, campos cultivados, girassóis, e vinha. Flores, muitas flores, cores pasteis (o pastel, pigmento azul, era produzido em Albi, até ao índigo da Índia o ter substituído, o que pode ter dado orientem às portadas azuis claras da região), e luz âmbar, tal como na Provence.

Dali fomos a Aigues-Morts, e ao Parque da Camargue, cavalos, flamingos, touros, e salinas cor de rosa. Aigues- Morts é uma fortaleza medieval linda. Parámos em Nimes, para ver a arena, e seguimos para Toulouse, de onde partimos para fazer, 250 km em 7 calmas etapas, o Canal du Midi, uma construção de Luís XIV para ligar o Mediterrâneo ao Atlântico sem passar pela Ibéria, portanto tal como a inquisição um instrumento de centralização, além de comércio. Tão ou mais importante que o Palácio de Versalhes. É um canal rodeado de aldeias e vilas que não devem perder: Castelnaudary, Carcassone e Béziers são de ficar um dia cada uma. Daí fomos para Narbonne, que tem vestígios romanos impressionantes (passava aqui a ligação de Itália a Espanha no império romano) e começam os Halles e mercados de rua com ostras a 80 cêntimos, peixinho frito, mexilhões.

O Canal du Midi é em gravilha grande parte, não foi a melhor pista de ciclismo que já fizemos, e os franceses do sul são de uma simpatia sem par, mas a conduzir tornam-se animais selvagens. Ciclismo a rigor é nos países germânicos e da Bélgica para norte. Para o ano vamos rumar a norte. A gravilha é cansativa, mais instável, nas pistas e fora delas eles gritam “merde, putain” – rimos, mas só depois de passarem! – sim, aqueles senhores simpáticos que param, conversam, oferecem queijo e vinho, são uns pequenos monstrinhos com um carro na mão.

Chegámos a Séte, uau! Praias desertas, águas calmas, e festa de Saint Luís, magnifica, uma encenação do século XVIII das disputas no mar, em barcos de madeira, com jogos. Espaço Brassens, museu Paul Valérie, exposição de Jean Vilar, ele foi o lendário diretor de teatro que fundou o renomado Festival de Avignon em 1947 e o teatro popular. Depois Montpelier, que cidade! Um centro histórico belíssimo e um ambiente jovem. Fomos ao Museu Fabre (vejam a pintura “bom dia Sr Coubert”, que este fez a zombar do poder, aqui na foto), um dos mais importantes de arte – esqueçam as filas do Louvre, ninguém aguenta já turismo de massas e cidades a especular. Coisas a levar: uma manta, há sempre um lugar para fazer uma sesta em silêncio, sem carros, à beira de um rio. Conversar, aqui todos conversam e com tempo.

Agenda Brasil, Buenos Aires

Estarei no Brasil e na Argentina numa série de palestras e conferências públicas, entrevistas, cujo roteiro deixo aqui, são bem vindos, como sempre.

São Paulo. Dia 1 de Setembro. “A Refuncionalização da Escola sob a IA e o neoliberalismo: expropriação do trabalho docente e intelectual”. Auditório Sindicato de Professores de São Paulo. Vila Clementino.

Buenos Aires. 3 de Setembro. Aula pública na Universidade Buenos Aires na cátedra Sociologia dos Processos Revolucionário, com Matias Maiello e Roberto Della Santa.

Buenos Aires. 4 de Setembro. Com Marina Kabat, autora do generoso convite, com o apoio IC, palestra sobre a revolução dos cravos. E dia 7 reuno-me com os alunos de pesquisa desta Universidade.

Rio de Janeiro. Dias 9 e 10 Setembro. Fiocruz. Seminário Internacional Saúde, Trabalho e Ambiente.

UFRJ. Rio de Janeiro. Praia Vermelha, data a anunciar. Tema educação.

Belo Horizonte. 13 de Setembro. Abertura do I Congresso Internacional Saramago Vive! As literaturas de língua portuguesa a contrapelo. Pontifice Universidade Católica PUC Minas.Conferência de abertura: “Poesia e Política: o espectro da revolução em Levantado do Chão”.

Belo Horizonte PUC Minas. Mini curso sobre História da Revolução Portuguesa.

Em várias destas actividades estará presente a nossa BD, que escrevi com o Robson Vilalba, Utopia, que no Brasil foi editada pela Veneta e que conta a história do operário José Gameiro na revolução.

Votar no Pai Nosso

Escrevi que precisamos de novos partidos, responderam-me algumas pessoas, queridas, “faça um que voto em si”. Por favor, não façam isso, se me querem bem, e se querem mudar o mundo e a vida. Primeiro a piada e depois a verdade dolorosa. A piada recorrente que adoro é a do Groucho Marx, não aceito fazer parte de um clube que me aceita. A dolorosa é que é cobarde, mas amoroso, dizer a alguém “faça lá um partido que eu no conforto da minha urna de voto, voto em si”. A última coisa que precisamos – e temos em todos os partidos – são salvadores individuais ou votos (salvadores coletivos pelas eleições), são duas formas de pensamento mágico e de delegar nos outros as nossas próprias forças. O voto individual delegado – e não a decisão colectiva em conselhos democráticos – é dos maiores embustes que se criaram, voto logo não preciso de fazer mais nada. A culpa é da pessoa em que votei. É como uma confissão religiosa. Um pai nosso, que se reza, a cada 4 anos.

Primeiro, esta é a discussão mais estratégica que temos pela frente no país, e no mundo. Sem partidos, somos um rio de queixas e lamentos. Nada surge, tudo se apaga, nada se transforma, tudo se degrada -a burguesia para se manter no poder está a fazer os reis absolutistas parecerem senhores educados.

Um partido é um programa político, uma direcção, e uma organização, uma base social. Não é um indivíduo ou um conjunto que concorrem a eleições. Isso é um aparelho burocrático que vive à conta do Estado. Eu terei todo o gosto em fazer parte de um novo partido, mas não sou candidata a Nossa Senhora de Fátima, nem a viver, ainda que bem, com salários chorudos, do aparelho de Estado legislativo ou executivo. Prefiro ser professora e andar de bicicleta. Farei parte de um partido quando tivermos um partido a sério. E o que pode ser isso?

Um partido implica nos reunirmos para definir um programa. Não pode ser online. Nem nasce de um voto. Não existe tal coisa. Implica reuniões regulares – se as pessoas estão cansadas e colocam outras prioridades à frente, não nascerá partido algum porque é preciso confiança e frontalidade e discussão aberta. Presença. Depois vem o mais difícil, um programa, e o dificílimo – quadros de direcção. Sobre o programa, não creio que seja impossível, quase tudo já foi inventado no património de memória das melhores correntes socialistas, há poucos assuntos que no passado não tenham resolvido, com liberdade, melhor do que nós. Quanto mais conheço mais percebo que quase tudo já foi dito e feito.

A nossa crise é outra, é de quadros. E aqui é dramático. Um partido que hoje coloque em cima da mesa um programa de transformação vai ser alvo de perseguições, calúnias, ataques, e até violência. Vai ser alvo de provocações, manipulações. A burguesia é um urso ferido de morte que espalha a morte, sem limites. E controlam o aparelho da violência – o Estado. Para resistir e insistir são precisas formas de organização que nenhum estatuto garante – só quadros políticos experimentados e bons. Há mais petróleo em Portugal do que quadros. Há muita gente boa, decente, correcta, que à primeira eleição escorrega e vota Seguro, apoia campanhas erradas, não sabe para onde vai nem ao lado de quem deve estar, o “papão” do fascismo leva tantos a confiar no Estado para nos proteger do…Estado. Na esquerda radical, onde há um património velho e valioso (não tenho velho como um problema, pelo contrário), há incapacidade de fazer frentes únicas – ou seja, juntar as pessoas, sob a mesma organização, com divergências abertas e públicas, fraternas, está cada um no seu grupo de 8 pessoas… Há além do mais na esquerda jovem uma completa ruptura com o popular – passam a vida a tropeçar nas cascas de banana do identitarismo, do “sul global”, das políticas liberais de esquerda e a apontar o dedo aos únicos que nos podem ajudar a sair deste lodo – os trabalhadores que por falta da esquerda foram para a abstenção ou para o Chega.

Finalmente, um partido tem de ser capaz de dar o que o Estado não dá (é isso que faz nascer os conselhos democráticos, as comissões de moradores e trabalhadores ou sindicatos combativos) – tem de dar boas aulas (organizando cursos de qualidade), ajuda na saúde (com apoio solidário de médicos e enfermeiros), apoio aos doentes e velhos, festas com boa música, espaços lindos para crianças e famílias, apoio pago à cultura – gente do teatro e da música não vive do nada – um Partido tem de ser o gérmen de uma nova sociedade. E por isso não é “nacional” nem de “Portugal” nem vai agradar a todos, quem quer agradar à Sonae, ao Expresso e ter ferrovia e SNS vai estar a apoiar não um partido, parte, mas uma nação burguesa em ruína. Um partido só poder ser internacional também. Contra a globalização capitalista, a solidariedade internacionalista.

E para isso são precisos – sobretudo – organizadores, e não figuras públicas. Precisamos de organizadores, foram com eles que fizeram revoluções, são os que sabem juntar pessoas, lidar com diferenças, convencer, conspirar, escutar, coser vontades e enfrentar sem medo, de cabeça fria, problemas. Intelectuais públicos com voz são uma matéria rara, não por talento à nascença, mas porque saber expressar-se publica e politicamente é um saber que foi sendo eliminado. Os trabalhadores estão com poucos quadros públicos, mas vejam que a burguesia tem dois ou três, Pacheco Pereira, Miguel Sousa Tavares, todos velhos também, tudo o resto não são quadros, são pessoas jovens de um ridículo atroz. Precisamos de formar mais quadros públicos dos trabalhadores com voz própria, mas precisamos – com urgência – de organizadores, daqueles que a história sequer regista o nome, mas mudam o mundo.

Sobre o programa: auditoria com suspensão da dívida pública; suspensão de todo os impostos para guerra, emprego público com salários muito bons na saúde, educação e serviços, que vai elevar os salários privados; fim de qualquer sub contratação a privados com dinheiro público; subsídios a pequenos agricultores e crédito barato puúblico a empresas familiares; redução do horário de trabalho sem redução salarial e com legalização de todos os trabalhadores. Lazer, cultura. Democracia de base – decisões de tudo o que é público devem ser tomados em conselhos democráticos, no trabalho, e nos bairros. Eis um clube a que eu gostaria de pertencer.

Um País a Saque

Apesar de tantos simpáticos pedidos para eu dar dicas de hotéis no sul de França, não o posso fazer, não sou influenza, mas posso tentar fazer algo mais útil e divertido. Há anos fui a um resort falar numa conferência de estivadores, havia pirâmides do Egipto e música tecno, pensei com altivez como alguém vem parar aqui voluntariamente… Depois, pensei com empatia – o que aconteceu?, para estes homens, que lutam e lutam muito mais e melhor do que qualquer intelectual, virem para aqui de férias.

Comecei a viajar de férias com os meus pais de carro pela Europa, com poucos anos, e cedo descobri que a enorme riqueza da história da Europa nos leva a catedrais em vilas de 3 mil habitantes, monumentos em igrejas a resistentes à II Guerra em cemitérios de aldeias, exposições de Courbet ou Delacroix em cidades pequenas como Séte. A conquista das férias pagas, sobretudo depois da II Guerra, e a transformação dessa conquista na ocupação do litoral pela especulação imobiliária – a maioria era de posse ou propriedade de uso comum, piscatória, no século XIX – levou à criação de um desejo (publicidade, hegemonia) de um tipo de férias nos Europeus que a mim nunca me seduziu, ficarem enterrados num resort ou casa e irem para a praia, comer, deitar, comer, deitar. Se as férias deveriam ser um tempo de caminhar, navegar, pintar, escrever, tocar, dançar, passaram a ser férias de consumo em que as pessoas, cada vez mais exaustas, querem dormir e descansar. As agências de viagem são um negócio financeiro, recebem em Janeiro, pagam em Julho às companhias aéreas, entretanto especulam na bolsa com esse valor 6 meses. Despejam depois as pessoas em piscinas e mojitos para esquecer o assédio e o desprezo de que são alvo em trabalhos alienantes.

Em Portugal há lugares maravilhosos, onde ainda sobra pequena propriedade e alguma autonomia artesã (estes quase desaparecidos), nas zonas serranas do Continente, Barrocal algarvio, nos Açores, sobretudo mas não só na Terceira, no Minho, e é isso que produz riqueza. Onde estive este ano, no Languedoc, no ano passado nas Dolomites, há 3 anos no Rio Mossel, são zonas de montanha e/ou camponeses que produzem cultura porque têm trabalhos com sentido seus, a cultura nasce daí, e isto é garantido com fortes subsídios à agricultura biológica e produção cultural local pelo Estado, e com batalhas políticas para que não acabem, porque também Macron é amigo dos fundos que dominam a grande propriedade.

Hoje se forem à maiorias das aldeias portuguesas são o Cacém, as pessoas estão em casa a ver TV e as crianças a viciar-se em “jogos” de vídeo, o café local tem um Led branco insuportável, e a CMTV ou outra aos berros, as crianças não estão a jogar, estão a ser treinadas a carregar em botões para o mundo do trabalho automatizado quando crescerem. As festas anuais são deprimentes – música péssima e alta, comida intragável fast food, sequer as pessoas sabem hoje em dia dançar.

No sul de França, bem como em todas as zonas de montanha na Europa, e fora da zona costeira – cara – subiste uma cultura própria porque há um trabalho não monopolizado pelas empresas e pelo Estado – aliás, tudo se paga em dinheiro que os camponeses estão-se borrifando para o Estado, que querem ver bem longe (lutam pelos subsídios mas não respeitam as instituições, são politicamente independentes da burguesia, são mais livres). Não é fácil encontrar bons hotéis, é procurar, em aldeias, ver a arquitectura, perceber se são dirigidos por famílias, em geral é isso que fazemos. Viajamos de comboio e bicicleta, talvez o que mais me impressionou nestas férias, tal como em todas as anteriores, não foi só a ausência de carros, estradas, os cheiros que se sentem quando se anda de bicicleta, foi mesmo poder sentar-me num café sem música alguma, a ouvir pássaros, sem LEDs e televisões, barulhos de reels, e ao mesmo tempo comer bem, a preços justos, e poder ir, numa aldeia, ao teatro, à catedral, a um concerto de jazz. Este ambiente de pequena propriedade e autonomia no trabalho favorece a festa e a alegria, por isso no sul de França em julho e agosto há uma festa em cada lugar onde chegamos (o único que escolhemos de propósito foi o festival de teatro de Mirepoix, tudo o resto encontrámos por acaso, estava lá).

A UE e o Governo português querem instalar minas, painéis solares, e vender a rede ecológica, agrícola e praias para casas de luxo onde os ricos do mundo compram propriedade – e sequer a usam. A maioria destas propriedades na forma de casas e hotéis de luxo estão mais de metade do ano vazias. Os que aqui trabalham gastam mais de metade do ordenado para pagar uma casa horrível num lugar feio, e levam 2 horas em transportes. Ficam sem dinheiro para passear no seu país, os turismo rurais e restaurantes viraram-se para o turista estrangeiro que paga caro ou luxo mesmo. Quem consome não vive aqui, quem vive aqui não consome.

Volto a dizer, sem emprego público bem pago, que eleva o salário no privado, democracia nos locais de trabalho, e subsídios aos pequenos proprietários, e legalização dos migrantes, Portugal ficará uma Florida, com consequências também políticas. Porque acham que o Chega ganhou em Albufeira, logo em Albufeira? Onde domina um turismo trambiqueiro, muito álcool, drogas, prostituição, chico espertos a gamar turistas, discotecas com seguranças privadas, violência, estilo milícias, vencedores imobiliários, cabeleireiros e gestores de resorts? Tudo alimentado por trabalhadores do Bangladesh e da Índia que não podem votar, que nos servem sem nos olhar nos olhos, com medo, escravos, criminalizados por este Governo, que assim garantem que ali em Albufeira esta “economia” funciona – eles carregam as garrafas de rum e vodka, limpam a merda dos WCs, conduzem os consumidores de prostituição ao hotel, cozinham ovos líquidos com tomate a boiar em feijão, servem e morrem de medo de ser expulsos deste paraíso, enquanto os jornalistas, sem se organizarem como classe e por isso a chicote de editores cuidam, penteiam e afagam Ventura e Montenegro, escolhendo sempre para a capa as melhores fotos, sorridentes, de ambos. Um país a saque, sim