Não dou dicas de hotéis, mas deixo o roteiro francês, já que tanta gente me pediu, e tantos outros me ajudaram a fazê-lo antes de ir. Primeiro perceber a história destas pedras! Começámos por Albi, imperdível a catedral de tijolo, uma fortaleza do Papado contra todos os que não se centralizavam ao “Estado” que era então a Igreja de Roma a querer afirmar-se como única e todo poderosa. Por isso numa pequena aldeia chegar a esta Igreja, na qual me fotografaram, é revigorante. Contra a inquisição, o fanatismo e o obscurantismo, o socialismo e o bem comum, em liberdade.
Sim, a primeira cruzada é feita aqui, guerras de poder para dominar a Europa, no sul de França, contra os cátaros, cristãos, muito tolerantes, e que tinham uma força enorme nas zonas costeiras e de montanha, da Bulgária aos Pirinéus. Há um enorme revivalismo do país dos cátaros, e até excesso de mitologia, mas o que se visita e vê é o poderio da Igreja e da Inquisição em catedrais magníficas que são símbolo da derrota dos protestantes.
Catedrais que, na minha opinião, são magníficas porque paradoxalmente forem feitas num regime de trabalho coletivo auto regulado, os ofícios e as guildas – ninguém faz nada bonito sem autonomia no trabalho. A Igreja de Roma para dominar, com os Reis, e paulatinamente criar grandes Estados, não teve outra solução para construir os seus edifícios de poder, universais, se não dar poder aos trabalhadores: pedreiros, carpinteiros, ferreiros, um esplendor. Ao lado da catedral, em Albi, o museu Toulouse-Lautrec, o desenhador que tentou ver nas prostitutas outro mundo porvir, de delicadeza, e que nasceu aqui.
Muito perto há Castres e Cordes-sur-Ciel, ambas lindíssimas (pelas imagens e amigos que foram) mas nós já não fomos, rumámos a Mirepoix para o festival MIMA de teatro. Mirepoix é imperdível, uma vila com um dos mais impressionantes centros, arcadas em madeira do século XVI, canais, uma delícia. Dali a fomos ao monumento à resistência anti nazi, lá em cima, nas montanhas, “O Maquis de Picaussel foi um dos mais importantes grupos de resistência armada clandestina (conhecidos como maquisards) que combateu a ocupação nazi e o regime de Vichy na França durante a Segunda Guerra Mundial”, liderado por um professor e composto de africanos e revolucionários espanhóis, refugiados do franquismo. Tudo isto comendo em mercados, escutando o som dos pássaros, raramente nos sentamos num café com música, muito menos música má, aqui conversa-se. Nunca houve creio um dia sem alguma festa, mercado, mas festa aqui, como disse, não é tecno e barulho, é gente real, arte, cultura.
É bom olhar sempre a paisagem, um museu vivo – é na diversidade que a beleza cresce. Não é um eucaliptal. São zonas de pequena propriedade, com florestas belas, campos cultivados, girassóis, e vinha. Flores, muitas flores, cores pasteis (o pastel, pigmento azul, era produzido em Albi, até ao índigo da Índia o ter substituído, o que pode ter dado orientem às portadas azuis claras da região), e luz âmbar, tal como na Provence.
Dali fomos a Aigues-Morts, e ao Parque da Camargue, cavalos, flamingos, touros, e salinas cor de rosa. Aigues- Morts é uma fortaleza medieval linda. Parámos em Nimes, para ver a arena, e seguimos para Toulouse, de onde partimos para fazer, 250 km em 7 calmas etapas, o Canal du Midi, uma construção de Luís XIV para ligar o Mediterrâneo ao Atlântico sem passar pela Ibéria, portanto tal como a inquisição um instrumento de centralização, além de comércio. Tão ou mais importante que o Palácio de Versalhes. É um canal rodeado de aldeias e vilas que não devem perder: Castelnaudary, Carcassone e Béziers são de ficar um dia cada uma. Daí fomos para Narbonne, que tem vestígios romanos impressionantes (passava aqui a ligação de Itália a Espanha no império romano) e começam os Halles e mercados de rua com ostras a 80 cêntimos, peixinho frito, mexilhões.
O Canal du Midi é em gravilha grande parte, não foi a melhor pista de ciclismo que já fizemos, e os franceses do sul são de uma simpatia sem par, mas a conduzir tornam-se animais selvagens. Ciclismo a rigor é nos países germânicos e da Bélgica para norte. Para o ano vamos rumar a norte. A gravilha é cansativa, mais instável, nas pistas e fora delas eles gritam “merde, putain” – rimos, mas só depois de passarem! – sim, aqueles senhores simpáticos que param, conversam, oferecem queijo e vinho, são uns pequenos monstrinhos com um carro na mão.
Chegámos a Séte, uau! Praias desertas, águas calmas, e festa de Saint Luís, magnifica, uma encenação do século XVIII das disputas no mar, em barcos de madeira, com jogos. Espaço Brassens, museu Paul Valérie, exposição de Jean Vilar, ele foi o lendário diretor de teatro que fundou o renomado Festival de Avignon em 1947 e o teatro popular. Depois Montpelier, que cidade! Um centro histórico belíssimo e um ambiente jovem. Fomos ao Museu Fabre (vejam a pintura “bom dia Sr Coubert”, que este fez a zombar do poder, aqui na foto), um dos mais importantes de arte – esqueçam as filas do Louvre, ninguém aguenta já turismo de massas e cidades a especular. Coisas a levar: uma manta, há sempre um lugar para fazer uma sesta em silêncio, sem carros, à beira de um rio. Conversar, aqui todos conversam e com tempo.

