Trago-vos desilusões e esperança. Há uns tempos fomos visitar a nossa amiga N. professora do 1º ciclo, dirigente sindical francesa, que vive nos Pireneus. Como sempre fazemos quando vamos de férias, no Verão, com um bilhete de interrail, bicicleta e sem grandes compromissos e horários, pelo que quando lhe liguei, quinze dias antes, ela, que é uma mãe de 5 filhos adultos, mulher culta e delicada, disse-me que não ia estar em casa nessa semana porque “estava a fazer um curso de auto defesa contra a polícia”. Tenho aqui em casa a edição de um livro que eles editaram para milhares de associados – “Quem nos salva da polícia?”, chama-se.
Quando António José Seguro foi eleito há uns meses, Lula da Silva fez um twitter a dar-lhe os parabéns e desejando, naqueles parcos caracteres, que se consolide o acordo Mercosul, que era por Lula assinado dois meses depois, afirmando que tinha sido arrancado pelo Brasil “a ferro, suor e sangue” 25 anos depois.
Este acordo permite acabar com o que resta dos agricultores europeus, depois do desastre na guerra da Ucrânia, e fazer entrar a soja do Brasil e da Argentina.
Em França a assinatura do acordo levou os agricultores para as ruas, com tratores (que são tanques) a quem a polícia não conseguiu bater como bate nos estudantes. Os liberais de centro que apoiam Seguro e Lula vieram logo explicar que os agricultores franceses e europeus são de extrema direita, felizmente uma parte da extrema esquerda francesa foi lá apoiá-los, não deixou Le Pen ser a única figura que se dirigia aos agricultores (parte deles camponeses dos Pirineus, como da Estremadura em Portugal, ou da Catalunha, arrasados com as exportações).
Mas, a esquerda liberal, de Lula e Seguro, apoiam este acordo que faz do Brasil uma semi colónia exportadora de soja, em que a fome calórica diminui mas a fome nutricional aumenta (as classes trabalhadores comem hidratos e açucares, ainda mais do que noutros países, são obesas e doentes, no Brasil nasceu o médico que explicou a diferença entre os dois tipos de fome, Josué de Castro). Ao mesmo tempo, partidos de extrema esquerda argentinos, onde ainda há socialismo e esquerda, insurgiram-se contra o acordo do Mercosul dizendo que era uma forma de reprimarização da economia – destruição da indústria e por arrasto do sistema científico e educacional em troca de exportações de matérias primas.
As exportações de matérias primas como a soja agigantaram desde 2002-2008 o agronegócio no Brasil, húmus da extrema direita. E, tal como no Irão, Arábia Saudita, etc, a exportação de petróleo deu força às mais reaccionárias religiões, no Brasil crescem como cogumelos as igrejas pentecostais, o sertanejo, à boleia da bancada do boi, bíblia e bala (esta última a mais perigosa especificidade brasileira, que é a existência de milícias dentro do Estado e Estado dentro das milícias). Lula foi perseguido por este sistema que ele alimenta, e o seu vice, de ultra direita, Alckmin é um dos chefes das privatizações de um país onde milhões vivem em favelas sem saneamento básico e alguns milhares se passeiam de helicóptero. Lula tinha uma cartada, igual à de Seguro e à de toda a social democracia que aderiu ao neoliberalismo – ou nós ou a morte, o fascismo.
O pacto social entre capital e trabalho morreu na Europa em 2008. Escrevi-o então em livro, e analisei então como a Europa ia entrar em economia de guerra e repressão sobre greves e movimentos sociais. Não sou o Nostradamus do capitalismo em declínio, a história é uma ciência e os grandes movimentos conseguimos prevê-los. Sociedades complexas, escolarizadas, urbanizadas, sem direitos sociais, entram em revoltas e revoluções contra a economia da burguesia que está sujeita a crises de superacumulação de capital cada vez mais intensas e às quais reage com destruição desses capitais excedentes (guerra). E nem imaginam o que vem por aí com os triliões que nos foram roubados e colocados nas Goldamn Sachs e daí na IA e nas big tecs.
A repressão em França começou logo nesse período com Manuel Valls, a partir de 2008, a coberto da luta contra o terrorismo, e perante atentados monstruosos, a sociedade francesa foi policiada; o Covid foi a cereja no bolo, em vez de democracia na saúde, mais pessoal de saúde e bem pago, e questionamento dos idosos em prisões-lares, as big tec impuseram o delírio online e os Estados e a sua classe abraçaram o confinamento e o recolher obrigatório. Zero de saúde pública, tudo no medo e na repressão. Ao mesmo tempo todas as burguesias passaram a ter dois cavalos de aposta – os liberais de esquerda-centro, como Seguro e Lula, e a extrema direita, levada ao colo pelas empresas e Estados europeus, e pelo catatonismo da esquerda institucional que nada saber fazer a não ser choramingar que o Estado lhe dê espaço, os media lhe dêem voz, e a polícia se comporte decentemente. Uma pergunta – quem escolhe ser polícia? O tipo mais doce, cuidador e justo da aldeia? Os sindicatos revolucionários em França, em vez de pedidos ao Estado para não ser Estado, auto-organizaram-se, como o fizeram os movimentos ecologistas, contra os efeitos dos Mercosul desta vida, alguns deles a França tentou declarar organizações terroristas, como os Les Soulèvements de la Terre, que têm tácticas ultra desenvolvidas de ocupação contra minas, eólicas, etc.
Quando a N. me disse aquilo quase morri a rir. Perguntei-lhe que tipo de coisas aprendiam no curso de auto defesa contra a polícia, ela explicou várias, como mergulhar de uma certa forma para escapar de balas de gás, imaginei-a pequenina, a pular…
Eis que agora estavam as TVs entretidas a passar o seu spin da extrema direita, em Portugal dirigidas pelo Jornal Observador, que lhes dá o mote, de que isto são actos de vandalismo e não protestos, misturando tudo e todos no mesmo saco, quando dou por mim surpreendida. Afinal tínhamos contado aos nossos alunos que o barão Haussmann abriu as grandes avenidas de Paris no século XIX para passar as mercadorias e acabar com as barricadas; que tiraram no Maio de 1968 a calçada para evitar as barricadas, e agora a polícia leva com canhões de água dos bombeiros, escudos humanos dos professores, barricadas feitas de trotinetes e carros de supermercado… A esquerda em França está muito mais auto-organizada. E a extrema direita francesa ficou sem voz nas ruas, nas praças e só sabe pedir mais polícia e votos.
Os sindicatos em Portugal deviam compreender, e falo como historiadora dos movimentos sociais nos últimos 200 anos, que conheço melhor do que me conheço a mim, que esta repressão no Rossio e no Porto não é apenas nem principalmente contra jovens em luta. É contra os trabalhadores, é um teste contra as greves, e as revoltas que estão na esquina da história, porque eles sabem que nada têm a oferecer a não ser pancada, com o fim do pacto social.
A polícia foi criada em Portugal no século XIX, depois de desarmar o povo, contra as greves e revoluções. Era bonito ver os sindicatos hoje tomar uma posição inequívoca contra a repressão policial e ver mais milhares, um milhão de todos nós, nas ruas a defender o direito a lutar contra a barbárie, a ter voz e democracia real. A “ferro, suor e sangue” foi arrancado cada direito de voto, saúde, educação, habitação. Nunca nada foi dado pelos Estados ao povo. Lula é um caso mais triste porque, ao contrário de Seguro, ele sabe na pele e na vida dura que teve, na direcção nas greves do ABC, que só quem luta contra o poder, e não quem faz parte dele, vence.
É isso que nos dizem os jovens nas ruas da Europa, os estivadores de dezenas de portos do mundo que daqui a três dias estarão em greve mundial contra a guerra – sim, contra a guerra, o mais lindo movimento social em curso, parar de transportar armas!!! -; os que vão organizar e fazer greve geral na França dia 5 de novembro, dia 11 de novembro em Espanha, greve pelo direito a habitação; dia 22 em Itália, a greve de jovens em toda a Europa dia 20 de Novembro. Para quando uma greve geral em Portugal? Com piquetes democráticos, microfone a todos os trabalhadores para que livremente decidam como querem lutar, que vida e sonhos têm, pelos filhos sem casa, os pais exaustos nos turnos e os idosos abandonados? Só quem luta vence. E na Europa, ufa, que alivio, a luta começou!