Miguel, e a Europa da Solidariedade

Pode ser preso 20 anos por salvar náufragos no Mediterrâneo. Este é um mundo em que criminosos estão no poder e justos subjugados. A minha solidariedade a este português que – em Itália – me representa. Em vez de esperarmos pela selfie de Marcelo RS já se fazia uma ampla manifestação nacional para dar um sinal à justiça italiana de que não podem ser cegos e fingir que não vêem corpos a boiar nas praias onde tomamos gins ao pôr do sol. Sim, a barbárie das políticas económicas que destroem a África – da monocultura da Nestlé aos empréstimos do FMI – é a génese europeia desta tragédia africana. O Miguel, europeu como nós, lembra-nos que há outra Europa grandiosa. Ele representa-nos na defesa da vida, da solidariedade, de dizer não ao poder e ao cinismo. De dizer não a leis intoleráveis para a humanidade.
https://expresso.pt/sociedade/2019-06-15-Resgate-de-migrantes-no-Mediterraneo-pode-custar-20-anos-de-prisao-a-jovem-portugues?fbclid=IwAR1s0CML15x37p3Te-1QixLmamGFi4whQUW3vOUqjJAbxsZw7BR6iFe5J1Q

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A abstenção

“A abstenção não é uma doença, é um sintoma. Não se trata tapando as causas, mas nas causas. Quando a luta pelo direito ao voto fez correr sangue, que começa em 1830 na Inglaterra, os Parlamentos tinham um poder que perderam de facto à medida que foi estendido o direito ao voto. Os Parlamentos foram perdendo capacidade de decisão face ao poder executivo na viragem do século XIX para o XX. O sangue que correu em 1830 foi pela luta de decisão efectiva do legislativo sobre o executivo. O que mudou.
E nos últimos 20 anos se agravou muito, com o executivo a ganhar um poder desmesurado sobre o legislativo, os governos vivem em estado de excepção, não cumprindo os programas, reivindicando sempre que são obrigados a fazer o que não queriam e que não previram – aqui na forma de resoluções bancárias, aumento de impostos, cativações e orçamentos rectificativos, nada do programa é cumprido como estava no período eleitoral – essa é um quebra de confiança; em segundo lugar o Conselho da Europa e a Comissão determinam decisões que já mais passaram por qualquer escrutínio público. O hiato entre representantes e representados é indiscutível – é este hiato que tem que ser pensado.”

Burnout docente

Raquel Varela: “Hoje o que nos deparamos na investigação é com escolas, serviços públicos e hospitais transformados em fábricas. As doenças do mundo do trabalho qualificado assemelham-se às de uma fábrica nos anos 30, desmotivação, desinteresse, alienação, desrealização. O que assistimos não foi ao crescimento do trabalho criativo e dos sectores médios, mas uma proletarização dos sectores médios, sujeitos a um trabalho que mimetiza uma escola a uma fábrica industrial. Uma linha de montagem, com produção em massa, desprovida de autonomia, criatividade, capacidade de decisão. O impacto disto é variado, destacamos a frustração dos alunos porque nesta fábrica não há pedagogia, ou está calado ou vai para rua. Os tempos a cumprir e os objectivos são incompatíveis com inovações pedagógicas, aumentando a indisciplina – a escola é desinteressante, para professores e alunos. Não se trata de escolher entre o autoritarismo e a balda – a pedagogia não existe numa linha de montagem, essa é uma das razões do burnout docente, uma entre muitas”.

https://www.rtp.pt/noticias/grande-reportagem/grande-reportagem-antena1-quem-quer-ser-professort_a1153383?fbclid=IwAR3gyvsD8E7RhO80jxAr4-0RItt6lHFvhAG1yg5KfrG3Z6BbykWMS7q9f8s

O burnout tornou-se endémico

É preciso parar e pensar, salvar vidas.

O burnout tornou-se endémico, em professores e médicos atinge na forma de exaustão, depressão, absentismo, entre outros, mais de 50% dos profissionais, nalguns casos 70%! Nenhuma sociedade sobrevive bem a isto, os custos na produção, na saúde, no desenvolvimento, na vida, são gigantescos. É preciso abrir um debate público sobre as causas do burnout. Como sabem faço parte de uma equipa que co-coordeno que reúne mais de dez especialidades na Nova, Técnico, Paris-Decartes sobre burnout, e desgaste, incluindo hoje em parceria com a equipa de Dejours, que estuda o suicídio e a organização do trabalho. Nenhum de nós, de médicos, psiquiatras, psicólogos, a cientistas sociais do trabalho, tem dúvidas sobre as causas. Nem tem a OMS, que declarou este mês o burnout como síndrome laboral – isto é de enorme significado político.

Agora: sabemos o que fazer para mudar este panorama, temos respostas claras e soluções, relatórios, conferências, já publicámos recomendações, é preciso vontade para as aplicar. A síndrome não atinge só o sector público e de serviços, é endémica numa fórmula análoga no trabalho manual e operário também.

Vendem a mãe

Esta semana fui ouvir fado. Passeámos por Alfama observando os “bifes” semi-nus andando nas noites geladas de Lisboa. Ia porém determinada a deixar de lado os preconceitos com os turistas. A realidade não me ajudou, uma Srª vendeu-me um pastel de bacalhau só com batata, por 1 euro e meio e pediu-me desculpa, era sincero o seu olhar de pena de me enganar; o jantar numa casa de fado conhecida tinha bacalhau à Brás a 20 euros o prato, também sem bacalhau. O vinho não tinha carta, nem nome – temos do Alentejo e do Douro, escolha, é tudo a 19 euros, preço fixo. O mais triste, porém, foi quando a fadista, que não cantava bem nem mal, me ouviu falar algo e exclamou “Aí! Fala português! Uma portuguesa, ainda bem filha!”.

A esquerda tem que fazer uma crítica radical desta globalização, e em oposição defender o internacionalismo. Globalização não é internacionalismo. As pessoas viraram uma caricatura de si próprias, desprovidas de singularidade. E o fado, senhores! Os únicos que entendiam o fado éramos nós, por isso a exclamação de alegria dela, os turistas aplaudiam como quem ouve uma melodia, sem reconhecer versos, alma, nada. Batatas, sem bacalhau. O internacionalismo implica partir da nação e do local, das culturas para somar. Juntar. Ir mais além. Isto – a globalização – é o esmagamento das culturas locais. Chamar a isto multiculturalismo é o mesmo que chamar livre circulação ao dumping social.

Quando saímos, a fadista, obviamente uma mulher de origens populares e humildes, disse-nos em voz baixa “desculpem lá qualquer coisinha menos boa, meninos”. Há mais consciência de si, e verdade, nestas palavras e gestos sobre a real desgraça que se abateu sobre Lisboa, agora moderna e aberta a quem dá mais, “sair da crise”, “turismo o nosso ouro”, do que em toda a propaganda de Medina.

Por mim podem voltar a congelar as rendas e parar o comboio da história. Para onde vamos a vender tudo, até a dignidade cultural e singular, a língua, a palavra e o significado dela? É que sem casas nos bairros não há cultura de bairro. Mas apenas uma triste caricatura, em que até eu que só queria ouvir a filosofia que um fado contém, namorar nas ruas de Lisboa e ver os namorados de hoje e de outrora nos fados, olhar cada pessoa, sou chamada a fazer parte do mercado, e a fazer de mim própria, como surpresa da noite, vejam bem, aqui está uma portuguesa…Digo-vos algo, sob a capa de sair da crise um neoliberal vende tu, até a própria mãe. E a tudo chama negócios. Vende casas, especula com trigo, vende palavras. Vende batatas e chama-lha bacalhau, vendeu um som vago e chama-lhe fado. Vendem tudo. Até não sobrar verdade a coisa a nenhuma.

Greve de Povos

Vejam que maravilha: na Geórgia uma greve de mineiros contra turnos exaustivos tem a solidariedade da população em massa. Começou por contestarem um horário de trabalho que quando chegam a casa só
“conseguem dormir “. Tudo começou por um turno de trabalhadores que se recusou a trabalhar. A mina parou, as sub contratadas pararam, contra os sindicatos que ao início não apoiaram, a cidade toda parou e agora chega a solidariedade do metro, caminho de ferro e estudantes da capital. As exigências agora já não são só contra exaustão mas contra a má qualidade dos alimentos servidos na fábrica, a poluição, e os maus serviços de saúde. Um autêntico movimento em que um sector social – mineiros – se assumem com um program universal de defesa da sociedade. Belíssimo! Uma classe trabalhadora que se assume não só para defender os seus direitos mas uma ideia de sociedade e de país, impondo medidas que os Governos não impõem face à saúde, alimentação, cansaço e ambiente. Esta semente é a Europa dos Povos, a única que nos pode salvar de uma nova guerra de dimensões catastróficas engendrada na desunião provocada pela competição entre povos e países que é de facto o cerne da União Europeia. Longa vida aos mineiros da Geórgia!

http://georgiatoday.ge/news/15744/Human-Rights-Watch-Supports-Georgian-Miners-on-Strike?fbclid=IwAR0oTBxUBOWFVacHTafphHfMQfEQXUOfyR-enCYn7qQWa1R1RbaBAWnxdyQ

Todos os dias Ds – 1929-1945

A história não é memória. O Dia D não foi o fim da guerra, o fim da guerra começa em Estalingrado, a maior batalha da II Guerra. Sou insuspeita de qualquer simpatia pela URSS depois de 1928, mas é absurdo colocar as coisas nestes termos, na verdade, para 26 milhões de eslavos que morrerem na guerra não é absurdo, é risível e desprezível. O Dia D foi muito importante, e deve ser lembrado, como foi a Operação Dragão – o desembarque das tropas do norte de África no sul de França -, as batalhas do norte de África e do Pacífico. A História é uma ciência, não é Hollywood.
Reitero algo que escrevi na minha Breve História da Europa, a rigor não há vencidos nem vencedores, nem o Dia D nem nenhum dia na guerra teve vitórias – morreram 80 milhões de pessoas na II Guerra – foi a maior derrota de sempre da humanidade.
Essa derrota da humanidade não começa em 1939 pela mão de um louco – que o era, evidentemente – mas em 1929 pelo caminho de um sistema económico racionalmente falido, o capitalismo.
Se há algo que não pode ser esquecido, além dos soldados mortos nas batalhas, a maioria de facto forçados a ir para a guerra, são os que se opuseram à guerra como forma de sair da crise capitalista, esse são os heróis, e por isso morreram, nas greves de 36 nos EUA, na Oposição de Esquerda na URSS, nas brigadas internacionais na revolução espanhola, na guerra civil austríaca de 34, na França de 36, na oposição comunista, socialista e anarquista de 1930-33 na Alemanha. Houve muita gente que tentou evitar a guerra – era neles que repousava qualquer hipótese de vitória, porque depois da guerra começar, só há derrotas. A guerra é a vitória da barbárie.