Burkas e burkinis

Não passa pela cabeça de ninguém proibir a rainha da Holanda de se sujeitar à figura de penduricalho do marido ou de «mãe a tempo inteiro» – as duas funções que exerce, subordinadas. No Brasil as mulheres hoje não podem sair à rua sozinhas à noite, direito elementar – na Síria, há 5 anos, podiam. Uma prostituta à venda numa montra em Amesterdão é um sinal de liberdade para os liberais (os de esquerda e os de direita).

Eu acho estes exemplos todos lamentáveis – e a libertação da mulher – e do homem – algo muito longe. Aliás, auto determinação, liberdade, é algo de que temos algumas ideias boas em livros, porque a realidade à nossa volta é triste. Uma boa parte das pessoas no mundo está presa no desemprego, e as outra presa num horário de trabalho que desafia os limites físicos da própria existência. Isto não autoriza o relativismo cultural que aceita o fundamentalismo islâmico, que é uma expressão bárbara da economia de ponta ocidental baseada na exploração do petróleo e portanto na manutenção de camadas ociosas, rentistas, lumpenizadas na Arábia Saudita, país onde as mulheres são legalmente apedrejadas e que mesmo assim aparece como parceiro diplomático dos nossos Estados. Mas o que nada disto autoriza é que o Estado passe a regulamentar o que se veste, porque isso seria tornar o republicanismo francês em ideologia de Estado e acabar com o princípio do laicismo que diz o seguinte: todas as religiões (e os ateus) têm que ter condições, dadas pelos Estados, para ser praticadas. É no terreno politico e social que se combate o obscurantismo, e o relativismo cultural pós-moderno, não é no terreno da concentração de poder no Estado.

Entrevista ao Canal Q sobre burkas e burkinis.

Do Medo à Esperança

«Há crianças que vêem menos sol e ar puro do que os presos. Soubemos esta semana. Estão sós num computador num apartamento. A maior tragédia da história da humanidade, a II Guerra, não teve vitórias, porque quando morrem 60 milhões de pessoas não há vitórias. Mas ensinou-nos como no meio do Apocalipse é possível resistir, ensinou-nos que 3 milhões de alemães foram mortos, presos e perseguidos porque se opuserem ao regime nazi. Meio milhão de franceses entraram nas fileiras da resistência. Ensinou-nos portanto que na maior barbárie há quem resista. Há os que «sucumbem, e os que se salvam». Escrevemos este livro para ajudar a encontrar caminhos contra o medo de hoje. Quem tem medo não compra um cão, constrói uma relação, organiza-se colectivamente, relaciona-se, cuida de, chama os colegas do lugar de trabalho e propões-lhe resistir, tira os filhos da TV, faz amor, em sentido amplo, o amor «faz-se», é um verbo, uma acção – é a relação com os outros que nos salvará de sucumbirmos à solidão individualista, à chantagem social dos lugares de trabalho onde existe um comando militar na gestão – é a acção (e a acção na relação) que muda aquilo que somos».

Apresentação do nosso livro Do Medo à Esperança. Bertrand.
Agradeço ao Paulo Pereira que gravou as apresentações. E aos amigos, colegas, alunos, família que ali estiveram connosco e encheram a sala de carinho e esperança.

Educação

A falta de rigor científico, a falsa formação profissional, nas escolas e nas empresas, a superficialidade dos famosos testes PISA, a privatização das escolas básicas – o cheque ensino – pela municipalização. Tudo isto vão poder ouvir hoje com o Roberto Leher, reitor da Universidade Federal do Rio de Janeiro e talvez, em muitas décadas, o primeiro reitor marxista crítico eleito numa universidade central. Um intelectual encantador, sério, que nos mostra que entre a visão “coitadinha”, pós-moderna, aligeirada das narrativas que não dão instrumentos científicos às crianças e promovem a falsa progressão – passam mas não aprendem – e a ditadura da reguada há todo um mundo na educação.

“Desde o final da década de 1980 uma forte prioridade é conferida ao ensino fundamental “minimalista” e à formação profissional “aligeirada”. Em termos práticos, estas orientações são encaminhadas por meio de políticas de “descentralização administrativo-financeira” que estão redesenhando
as atribuições da União, dos Estados e dos municípios.” RL

FCSH- Av de Berna, 18 horas. Aberto ao público. sala multiusos 2.

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Será poupança?

Será poupança? Será riqueza? Será acumulação? Salário não é certamente que o salário não cresce assim. O debate não tem rigor económico, porque em rigor riqueza não é lucro, dinheiro não é capital e pode-se acumular e colocar em poupança. E pode haver poupanças de muito trabalho acumulado e dívidas de muito lucro perdido. Afinal, o que vai ser taxado? Se o Bloco de Esquerda distinguisse massa salarial de juro/lucro/renda não caía nestes spins fáceis da direita. Mas isso implicaria uma clareza sobre as classes sociais que representaria, o lado. Não. Ele é de todos os lados. Algo que a direita tem há muito resolvido. Saíram centralizadamente, militantemente, a defender o seu lado. Só podem ser admirados por isso. E a esquerda pergunta-lhes indignada: “quando cortaram os salários não disseram nada?”. Nem tinham que dizer, o papel destes sectores não é defender os salários, mas os cortes deles. Eu sou contra o corte de salários e a rigor sou contra o lucro, a favor da produção de riqueza sem lucro. Acho que um hospital tem que curar pessoas e prestar serviços, não pode produzir lucro. Porque se produzir lucro não cura pessoas. Mas não ando por aqui a queixar-me que o Miguel Sousa Tavares não me defendeu. Se a esquerda tem poucos quadros capazes de a defender o problema não é da direita. A direita em Portugal está organizada, tem quadros, escolas de formação, partidos, jornais e comunicação, que a esquerda tenha como resposta uma sucessão de conceitos atabalhoados não é certamente um problema da direita. Que criou um spin fácil “A Mariana Mortágua manda no Governo” – soa bem, dá capa de jornal, mas é risível: o Governo prepara-se para aprovar um orçamento que inclui o buraco da parte privada da Caixa que vai entrar no défice e que Marcelo Rebelo de Sousa (que tem animadamente jogado o papel de rei-bonaparte do Bloco Central) já avisou que é para aprovar; a TAP está ameaçada de desmantelamento interno, o Metro já está em processo de destruição interna enquanto os sindicatos, afectos ao PC, juraram a AC paz social; o porto de Lisboa vai para o Barreiro produzir mais lucro e menos riqueza – o PCP não se incomoda porque dá mais votos na margem sul – os lisboetas pagam a conta no fim; há mais de 20% de desempregados, 3 milhões de pobres, e o país é uma gigante Flórida onde as pessoas, para sobreviverem, saem de casa para os turistas lá dormirem ou vão aos lares buscar a reforma dos pais. Os pais até nem estão mal no lar porque pior estão os filhos, que também estão lá em casa, com a reforma dos avós, e que se descobrem a vegetar aos 40 anos, sem trabalho, sem futuro. Marcelo com o PS faz-me lembrar aquele título de um filme “Amar-te-ei até te matar”. Talvez Costa faça o mesmo com Mariana, “Amar-te-ei até te matar”.

Último Apaga a Luz 15 de Set 2016

Curtas notas que fiz no último programa sobre o tratamento mediático destes temas: o aumento de impostos indirectos; Durão Barroso e o seu percurso individual; a ASAE e a falência dos pequenos restaurantes/vendedores de bolas de Berlim.

«Quase a iniciar o fim de semana, Raquel Varela (historiadora), Joaquim Vieira (jornalista), Rodrigo Moita de Deus (cronista), Inês Pedrosa (escritora) e Pedro Vieira (humorista e escritor) analisam, a partir das suas experiências profissionais, a forma como as noticias têm sido tratadas.» RTP 3, sexta para sábado à 1 e 20 da manhã; repetição Sábado às 13 horas.»

http://www.rtp.pt/play/p2046/e250520/o-ultimo-apaga-a-luz

Do Medo à Esperança

Amantes que não se amam, trabalhadores que não se falam, crianças que não brincam, gente atomizada, espartilhada na maior onda de depressões de que há memória. Porquê? Um livro sobre amor e revolta, um diálogo entre marxismo e psicanálise, um debate sobre relações de poder; uma crítica contundente às relações desiguais: as de dependência que os pais criam nos filhos – o seguro de velhice dos pais; as da mulher-mãe com que os maridos infantis sonham; as do político profissional que quer um rebanho; O papel do Estado, «sádico»; o comum anormal: a distância entre pornografia e sexo; saúde e doença; amor e prisão de afectos; protecção do trabalhador e burocracia política e sindical. Como sair disto? Onde estão os pontos reais de mudança/esperança? A depressão curada pela revolta; e o fazer para ser, em vez «do dizer dos palradores». Uma conversa sem fim…
 
«Do Medo à Esperança», da autoria da historiadora social Raquel Varela e do psiquiatra António Coimbra de Matos, chegou às livrarias a 9 de setembro, pela Bertrand Editora.
«Do Medo à Esperança» é um livro escrito a quatro mãos, sobre como vencer o medo, social e individual. É um encontro inesperado entre uma historiadora social, do trabalho, dos movimentos sociais, da revolução portuguesa, e o pai da psicanálise em Portugal.
Não perca o lançamento do livro no dia 20 de setembro, às 18h30, na livraria Bertrand do centro comercial Picoas Plaza. «Do Medo à Esperança» será apresentado pelo psicólogo José Paz.
Música:
Lasting Hope Kevin MacLeod (incompetech.com)
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