Que classe!

Uma boa notícia, excelente – já aqui tinha dado conta de que estamos no canto do Cisne do identitarismo ou das questões fracturantes. Esta é a evolução do uso da palavra “classe” por intelectuais e académicos norte americanos. A azul classe média, a amarelo classe trabalhadora. Não é o aumento das classes, mas o uso da palavra, portanto do conceito também. Disparam depois de 2008 e ainda mais acentuadamente depois da eleição de Trump – é caso para dizer mais vale tarde do que nunca.
Como os EUA foram o casulo dos estudos culturais e pós-modernos com cortes identitários e espalharam essa teoria pelo mundo, pondo em causa avanços substanciais como o próprio positivismo e os estudos dos Annales, tenho agora esperança que espalhem, à velocidade da triste proletarização da sua classe média, o conceito de classe.
Vai levar tempo a chegar à periferia e enfrentar os grupos académicos que cada vez se fecharão mais sobre si próprios sempre com o argumento que as escolhas que fazem são em nome da emancipação e do mérito – jamais admitirão para si próprios que é da protecção da carreira que se trata e não do desenvolvimento científico e social da humanidade. A análise da “totalidade” social contra a fragmentação é um imperativo de qualquer noção de verdade. E sem verdade – por mais dura que seja, não há mudança.
Uma compreensão mais ampla da realidade permite na minha opinião mais direitos para as minorias e não menos. Hoje a globalização e o internacionalismo são uma arma contra o localismo e o paroquialismo; as classes trabalhadoras intelectuais proletarizadas não são a «aristocracia operária» mas novos aliados poderosos, pelo saber que dominam. Quem não vê isto vive numa seita, que como todas as seitas sucumbirá pelos efeitos da endogamia – na natureza as espécies tornam-se frágeis, sem resiliência genética, no mundo intelectual tornam-se uma sucessão repetitiva das mesmas ideias, desinteressantes, incapazes de dialecticamente inserir o novo, que sempre olham como um perigo. Bons ventos dos EUA. É caso para dizer viva a classe trabalhadora!

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O SNS e Arnaut

Tenho genuína simpatia por António Arnaut, ainda agora linkado de Paulo Teixeira de Morais li uma entrevista onde Arnaut escreveu quando “começou a corrupção vi-me embora” – foi enorme, corajoso e decente. Mas ele não é o pai do SNS. O SNS nasceu em 1974 com a ocupação por médicos – muitos deles hoje famosos – de hospitais das misericórdias, casas vazias onde se construíram com as comissões de moradores centros de saúde (que hoje existem como centros de saúde), campanhas de saneamento e saúde pública voluntárias, Serviço Médico à Periferia de milhares de médicos. Em 1979 tudo isto era uma realidade, quando se decretou o SNS. Quando este aliás foi criado, pouco depois um dos seus grandes princípios fundadores, no início dos anos 80, foi posto em causa, a gestão eleita pelos pares, colegial e democrática. Gosto de gente nobre e acredito na força individual das pessoas mas esta coisa de os portugueses andarem a chamar pais tem tanto de freudiano quanto de mistificação do seu próprio passado – o apelo constante aos líderes diminui a força das realizações das pessoas comuns. Entre 1974 e 1975 este país viu as pessoas comuns, coisa rara na história, serem nobres. O que teve menos foi pais e filhos, subordinados e dirigentes, ignorantes e pensadores, governados e governantes, nunca tanta gente teve auto-determinação – vou repetir Auto Determinação. Para homenagear Arnaut não é preciso diminuir o papel de milhares de médicos, enfermeiros, e comissões de moradores, tantas lideradas por mulheres analfabetas que pela primeira vez na vida deste país tiveram voz e exigiram um Centro de Saúde porque até 1974 saúde era um privilégio e depois passou a ser um direito, universal – em 1974, muito antes de 1979.
Termino com respeito sincero a Arnaut, e os meus sentimentos à sua família. Há um PS, de que ele fazia parte, com o qual discordo estrategicamente, mas reconheço que não sucumbiu à corrupção e a transformar a vida política numa central de negócios – acredito que Arnaut fez parte desse património que deixa em legado uma outra moralidade na vida pública.

No País do Futebol

Parte do país desistiu dos filhos. E permite que uma manifestação de 50 mil professores seja eclipsada por uma contenda de uma sociedade desportiva. A razão é simples. Simplesmente devastadora – grande parte dos sectores médios e classes trabalhadoras acham que com uma boa educação os filhos não chegam a lado nenhum, mas se forem os CR7 dos futuros os filhos vão ter mobilidade social. É assim que os filhos não conseguem se concentrar 5 minutos em nada mas são levantados às 8 da manhã ao Domingo para ir com 6 anos para o treino de futebol, onde até já são federados; os pais fazem 100 km para ver os filhos de 8 anos jogar ao sábado mas vêem-nos chumbar a matemática como uma «inevitabilidade», ele «não tem jeito para a matemática». Os professores, que em massa, reclamam mais educação são, magicamente, eclipsados nas notícias do país. Porque o país, os governos, têm uma política de baixos salários, má formação e portanto ignoram os alertas dos professores. Sobra aos pais, que não sabem como educar os filhos e não vêem esperança para eles, a esperança que sejam estrelas de futebol. O que equivale a ter milhões de pessoas a apostar a orientação da vida no Euromilhões. Não sou contra o futebol, pelo contrário – acho um jogo divertido, colectivo, que junta e anima pessoas. Mas de jogo a aposta estratégica para uma nação vai um passo – suicidário – de gigante. Concorde-se ou não com as centrais sindicais, 50 mil é um número que expressa um mal social profundo no sector. Não tiveram sequer honras de capa de jornal. Os professores estiveram na rua a dizer que querem ajudar a construir um país que seja parte do mundo científico, cultural e de trabalho com qualidade. Ao mesmo tempo as instituições principais do país – AR, PR, Governo e todos os media – debatiam a bola. Nem um debate público de fundo vi estes dias sobre que educação queremos para a nação. Portugal não vai ganhar o Euromilhões, não sei se já perceberam. Ou aprendemos muito e bem, com tempo e esforço, e cuidamos de quem trabalha a sério, e nos jogamos na educação de cabeça ou no fim isto vai ser uma Florida onde se vende casas e jogadores de futebol.Caminhamos cada vez mais para ser um país atrasado.

Salários reais a descer

A semana passada um jornal noticiava nas gordas «Nunca houve tantos portugueses a ganhar 3000 euros limpos ou mais». Este número face à população activa corresponde a menos de 0,5% do total. A gorda deveria ser portanto «só 0,5% dos portugueses ganham decentemente». Mais, o que a notícia não diz é que contabilizando salário real chegamos a esta síntese:
 
«Em 2008, no inicio da crise, o rendimento médio dos portugueses (6.027€/ano) era já muito inferior ao rendimento médio na União Europeia (12.312€/ano), e ainda mais em
relação à média dos países da Zona Euro que é constituída pelos países mais desenvolvida da Europa, apesar de Portugal pertencer a ela (13.967€/ano). Entre 2008 e 2016, esse fosso aumentou ainda mais, porque neste período (2008/2016),
o rendimento médio na União Europeia aumentou 880€/ano, na Zona Euro subiu 423€/ano e, em Portugal, diminuiu 134 €/ano. Portanto, os portugueses continuam numa situação não só muito pior do que a média dos cidadãos europeus como também em
relação à situação que tinham, neste campo, em 2008. Se juntarmos a esta redução em valor absoluto do rendimento médio dos portugueses entre 2008 e 2016 (-134€), os efeitos corrosivos da inflação (entre 2008 e 2016, os preços subiram em Portugal 8%, significa menos 571€ do que em 2008) e do aumento de impostos registado neste período fica-se com uma ideia muito mais próxima da realidade da situação real em que continuam a viver os portugueses. E isto apesar de se ter verificado um aumento do rendimento médio entre 2015 e 2016 (+432€/ano), ainda claramente insuficiente para repor o rendimento de 2008 e o efeito corrosivo da inflação e o aumento de impostos registado neste período, o que provocou uma enorme degradação de vida dos portugueses entre 2008 e 2016.» Eugénio Rosa
 
E o Eugénio não contabiliza aqui ainda os outros salários, que caíram todos, o qualitativo, tipo de bens que adquirimos; o social, os serviços públicos; e o relativo, pagamento face à produtividade.

A Luta contínua

O 1º de Maio é o feriado mais celebrado em todo o mundo. É o Dia do Trabalhador, nenhuma data tem a importância social desta e é a única que une na mesma data o maior número de pessoas no mundo, em 5 continentes. Tirando na Nicarágua, onde a população se rebela contra Ortega, e, apesar de dezenas de mortos, obrigou-o a recuar; e talvez na Arménia, mas não conheço bem a situação; tirando estes casos o dia de hoje não é uma acção presente mas uma celebração do passado.
Mas a força do trabalho, que é aquilo que faz girar o mundo, trabalho manual e intelectual, explica que apesar da fraqueza do movimento de trabalhadores organizados; e apesar de hoje 1% controlar 82% da riqueza produzida por mais de 3 mil milhões de trabalhadores, ainda não tiveram a ousadia de propor o Dia do Capitalista. Ou do Investidor. Ou do Especulador.
Porém, hoje acordei a pensar como seria divertida uma manifestação do investidor – abstraído para consumo público como um anónimo “mercado sensível” – lutando contra os seus privilégios ameaçados. Imaginei-os a desfilar pelas avenidas de Chicago e Berlim, Lisboa e Pequim, Moscovo e Buenos Aires com megafone na mão, dizendo nas ruas irados o que comunicam aos jornais todos os dias, o mundo tem que se sacrificar por nós:
«Banco Mundial, unidade, unidade, unidade»
«A terra para quem tem acções!»
«Guerra, Privatizações, Democracia e Liberdade já!»
«Capitalistas de todo o mundo, uni-vos!»
«Investidores Unidos, jamais serão vencidos!»
«Especuladores, até à vitória final»
«Trabalho sem direitos para todos!»
«Saúde para os dividendos!»
«Educação para o mercado, já!»
«Especulação é um Direito!»
«A Luta contínua, no Parlamento, nas Empresas e na Rua!»
A foto é do Dia do Trabalhador no Porto em 1974, pelas mãos e olhos do fotógrafo Sérgio Valente. Feliz 1º de Maio, do Porto para os 5 continentes.

Sócrates e Quim Barreiros

O que assistimos em matéria de alegados crimes cometidos por Sócrates, Salgado, Pinho, Dias Loureiro e tantos e tantos é moralmente intolerável, é talvez uma das maiores crises que o Estado viveu nestes anos – a pouco e pouco vão saindo notícias que dão conta, a se provar, de um assalto ao Estado da classe política associada ao Bloco Central. O mesmo Bloco Central que se faz agora de morto, e sem passado, dizendo “que cabe à justiça julgar”, como se este não fosse um caso de regime e apenas “mais um como tantos processos”. Não é mais um – é o processo. É verdade que cabe à justiça julgar. Mas a justiça não é só a aplicação da lei. Há uma ética que convoca os partidos a pedirem desculpas ao país pela – alegada – quadrilha que o colocaram a gerir. Não descansem na opinião publicada. A opinião pública está furiosa – não saio à rua sem que várias vezes por dia, idosos, trabalhadores de vários sectores e pequenos empresários me abordem dizendo “isto é uma vergonha”, “que roubalheira”, “já não acredito em nada”. O Correio da Manhã vende crime, e sexo, mas também espelha os sentimentos populares que não têm expressão na imprensa mainstream porque o popular em Portugal é tido como ignorante. Muitas vezes é, o nível cultural médio do país é baixo, do CM é mais baixo. Mas uma pessoa pode ouvir Quim Barreiros e isso não a impede de saber o que custa trabalhar e por isso em quando foi roubada. A população em larga escala sente-se, com razão, despeitada.
 
O silêncio não vai ocultar o estrago social que isto fez no regime e no Estado; o nosso silêncio, até que, em 2076, 2089, tudo seja esclarecido, não vai ajudar a resolver nada. Como um amigo dá 2 mil euros a outro por dia, e outro carrega 2 milhões para um offshore? Sim, como? Como é possível que a maioria das pessoas deste país, mais de 80%, viva do trabalho sem nunca conseguir mais do que com sacrifício aguentar a família, e as pequenas empresas que se esgotam para pagar contas e alguém entra e sai da política, alegada e visivelmente, milionário? Não nos chocarmos com isto porque nos indignamos com o processo – e eu fui e sou crítica da forma – é cairmos no vazio formal. Desculpo-me por ter de certa forma caído na armadilha que nos jogaram estes meses – fazer do MP e do processo o alvo e da forma o problema. O nosso problema fundamental é político. É aí que a forma engendra o conteúdo e que os impostos para pagar o SNS acabam a pagar paraísos fiscais e casas de férias – em lugares ainda mais pirosos do que a música do Quim Barreiros.