Propriedade Comunal

Não dou dicas de hotéis, mas deixo o roteiro francês, já que tanta gente me pediu, e tantos outros me ajudaram a fazê-lo antes de ir. Primeiro perceber a história destas pedras! Começámos por Albi, imperdível a catedral de tijolo, uma fortaleza do Papado contra todos os que não se centralizavam ao “Estado” que era então a Igreja de Roma a querer afirmar-se como única e todo poderosa. Por isso numa pequena aldeia chegar a esta Igreja, na qual me fotografaram, é revigorante. Contra a inquisição, o fanatismo e o obscurantismo, o socialismo e o bem comum, em liberdade.

Sim, a primeira cruzada é feita aqui, guerras de poder para dominar a Europa, no sul de França, contra os cátaros, cristãos, muito tolerantes, e que tinham uma força enorme nas zonas costeiras e de montanha, da Bulgária aos Pirinéus. Há um enorme revivalismo do país dos cátaros, e até excesso de mitologia, mas o que se visita e vê é o poderio da Igreja e da Inquisição em catedrais magníficas que são símbolo da derrota dos protestantes.

Catedrais que, na minha opinião, são magníficas porque paradoxalmente forem feitas num regime de trabalho coletivo auto regulado, os ofícios e as guildas – ninguém faz nada bonito sem autonomia no trabalho. A Igreja de Roma para dominar, com os Reis, e paulatinamente criar grandes Estados, não teve outra solução para construir os seus edifícios de poder, universais, se não dar poder aos trabalhadores: pedreiros, carpinteiros, ferreiros, um esplendor. Ao lado da catedral, em Albi, o museu Toulouse-Lautrec, o desenhador que tentou ver nas prostitutas outro mundo porvir, de delicadeza, e que nasceu aqui.

Muito perto há Castres e Cordes-sur-Ciel, ambas lindíssimas (pelas imagens e amigos que foram) mas nós já não fomos, rumámos a Mirepoix para o festival MIMA de teatro. Mirepoix é imperdível, uma vila com um dos mais impressionantes centros, arcadas em madeira do século XVI, canais, uma delícia. Dali a fomos ao monumento à resistência anti nazi, lá em cima, nas montanhas, “O Maquis de Picaussel foi um dos mais importantes grupos de resistência armada clandestina (conhecidos como maquisards) que combateu a ocupação nazi e o regime de Vichy na França durante a Segunda Guerra Mundial”, liderado por um professor e composto de africanos e revolucionários espanhóis, refugiados do franquismo. Tudo isto comendo em mercados, escutando o som dos pássaros, raramente nos sentamos num café com música, muito menos música má, aqui conversa-se. Nunca houve creio um dia sem alguma festa, mercado, mas festa aqui, como disse, não é tecno e barulho, é gente real, arte, cultura.

É bom olhar sempre a paisagem, um museu vivo – é na diversidade que a beleza cresce. Não é um eucaliptal. São zonas de pequena propriedade, com florestas belas, campos cultivados, girassóis, e vinha. Flores, muitas flores, cores pasteis (o pastel, pigmento azul, era produzido em Albi, até ao índigo da Índia o ter substituído, o que pode ter dado orientem às portadas azuis claras da região), e luz âmbar, tal como na Provence.

Dali fomos a Aigues-Morts, e ao Parque da Camargue, cavalos, flamingos, touros, e salinas cor de rosa. Aigues- Morts é uma fortaleza medieval linda. Parámos em Nimes, para ver a arena, e seguimos para Toulouse, de onde partimos para fazer, 250 km em 7 calmas etapas, o Canal du Midi, uma construção de Luís XIV para ligar o Mediterrâneo ao Atlântico sem passar pela Ibéria, portanto tal como a inquisição um instrumento de centralização, além de comércio. Tão ou mais importante que o Palácio de Versalhes. É um canal rodeado de aldeias e vilas que não devem perder: Castelnaudary, Carcassone e Béziers são de ficar um dia cada uma. Daí fomos para Narbonne, que tem vestígios romanos impressionantes (passava aqui a ligação de Itália a Espanha no império romano) e começam os Halles e mercados de rua com ostras a 80 cêntimos, peixinho frito, mexilhões.

O Canal du Midi é em gravilha grande parte, não foi a melhor pista de ciclismo que já fizemos, e os franceses do sul são de uma simpatia sem par, mas a conduzir tornam-se animais selvagens. Ciclismo a rigor é nos países germânicos e da Bélgica para norte. Para o ano vamos rumar a norte. A gravilha é cansativa, mais instável, nas pistas e fora delas eles gritam “merde, putain” – rimos, mas só depois de passarem! – sim, aqueles senhores simpáticos que param, conversam, oferecem queijo e vinho, são uns pequenos monstrinhos com um carro na mão.

Chegámos a Séte, uau! Praias desertas, águas calmas, e festa de Saint Luís, magnifica, uma encenação do século XVIII das disputas no mar, em barcos de madeira, com jogos. Espaço Brassens, museu Paul Valérie, exposição de Jean Vilar, ele foi o lendário diretor de teatro que fundou o renomado Festival de Avignon em 1947 e o teatro popular. Depois Montpelier, que cidade! Um centro histórico belíssimo e um ambiente jovem. Fomos ao Museu Fabre (vejam a pintura “bom dia Sr Coubert”, que este fez a zombar do poder, aqui na foto), um dos mais importantes de arte – esqueçam as filas do Louvre, ninguém aguenta já turismo de massas e cidades a especular. Coisas a levar: uma manta, há sempre um lugar para fazer uma sesta em silêncio, sem carros, à beira de um rio. Conversar, aqui todos conversam e com tempo.

Agenda Brasil, Buenos Aires

Estarei no Brasil e na Argentina numa série de palestras e conferências públicas, entrevistas, cujo roteiro deixo aqui, são bem vindos, como sempre.

São Paulo. Dia 1 de Setembro. “A Refuncionalização da Escola sob a IA e o neoliberalismo: expropriação do trabalho docente e intelectual”. Auditório Sindicato de Professores de São Paulo. Vila Clementino.

Buenos Aires. 3 de Setembro. Aula pública na Universidade Buenos Aires na cátedra Sociologia dos Processos Revolucionário, com Matias Maiello e Roberto Della Santa.

Buenos Aires. 4 de Setembro. Com Marina Kabat, autora do generoso convite, com o apoio IC, palestra sobre a revolução dos cravos. E dia 7 reuno-me com os alunos de pesquisa desta Universidade.

Rio de Janeiro. Dias 9 e 10 Setembro. Fiocruz. Seminário Internacional Saúde, Trabalho e Ambiente.

UFRJ. Rio de Janeiro. Praia Vermelha, data a anunciar. Tema educação.

Belo Horizonte. 13 de Setembro. Abertura do I Congresso Internacional Saramago Vive! As literaturas de língua portuguesa a contrapelo. Pontifice Universidade Católica PUC Minas.Conferência de abertura: “Poesia e Política: o espectro da revolução em Levantado do Chão”.

Belo Horizonte PUC Minas. Mini curso sobre História da Revolução Portuguesa.

Em várias destas actividades estará presente a nossa BD, que escrevi com o Robson Vilalba, Utopia, que no Brasil foi editada pela Veneta e que conta a história do operário José Gameiro na revolução.

Votar no Pai Nosso

Escrevi que precisamos de novos partidos, responderam-me algumas pessoas, queridas, “faça um que voto em si”. Por favor, não façam isso, se me querem bem, e se querem mudar o mundo e a vida. Primeiro a piada e depois a verdade dolorosa. A piada recorrente que adoro é a do Groucho Marx, não aceito fazer parte de um clube que me aceita. A dolorosa é que é cobarde, mas amoroso, dizer a alguém “faça lá um partido que eu no conforto da minha urna de voto, voto em si”. A última coisa que precisamos – e temos em todos os partidos – são salvadores individuais ou votos (salvadores coletivos pelas eleições), são duas formas de pensamento mágico e de delegar nos outros as nossas próprias forças. O voto individual delegado – e não a decisão colectiva em conselhos democráticos – é dos maiores embustes que se criaram, voto logo não preciso de fazer mais nada. A culpa é da pessoa em que votei. É como uma confissão religiosa. Um pai nosso, que se reza, a cada 4 anos.

Primeiro, esta é a discussão mais estratégica que temos pela frente no país, e no mundo. Sem partidos, somos um rio de queixas e lamentos. Nada surge, tudo se apaga, nada se transforma, tudo se degrada -a burguesia para se manter no poder está a fazer os reis absolutistas parecerem senhores educados.

Um partido é um programa político, uma direcção, e uma organização, uma base social. Não é um indivíduo ou um conjunto que concorrem a eleições. Isso é um aparelho burocrático que vive à conta do Estado. Eu terei todo o gosto em fazer parte de um novo partido, mas não sou candidata a Nossa Senhora de Fátima, nem a viver, ainda que bem, com salários chorudos, do aparelho de Estado legislativo ou executivo. Prefiro ser professora e andar de bicicleta. Farei parte de um partido quando tivermos um partido a sério. E o que pode ser isso?

Um partido implica nos reunirmos para definir um programa. Não pode ser online. Nem nasce de um voto. Não existe tal coisa. Implica reuniões regulares – se as pessoas estão cansadas e colocam outras prioridades à frente, não nascerá partido algum porque é preciso confiança e frontalidade e discussão aberta. Presença. Depois vem o mais difícil, um programa, e o dificílimo – quadros de direcção. Sobre o programa, não creio que seja impossível, quase tudo já foi inventado no património de memória das melhores correntes socialistas, há poucos assuntos que no passado não tenham resolvido, com liberdade, melhor do que nós. Quanto mais conheço mais percebo que quase tudo já foi dito e feito.

A nossa crise é outra, é de quadros. E aqui é dramático. Um partido que hoje coloque em cima da mesa um programa de transformação vai ser alvo de perseguições, calúnias, ataques, e até violência. Vai ser alvo de provocações, manipulações. A burguesia é um urso ferido de morte que espalha a morte, sem limites. E controlam o aparelho da violência – o Estado. Para resistir e insistir são precisas formas de organização que nenhum estatuto garante – só quadros políticos experimentados e bons. Há mais petróleo em Portugal do que quadros. Há muita gente boa, decente, correcta, que à primeira eleição escorrega e vota Seguro, apoia campanhas erradas, não sabe para onde vai nem ao lado de quem deve estar, o “papão” do fascismo leva tantos a confiar no Estado para nos proteger do…Estado. Na esquerda radical, onde há um património velho e valioso (não tenho velho como um problema, pelo contrário), há incapacidade de fazer frentes únicas – ou seja, juntar as pessoas, sob a mesma organização, com divergências abertas e públicas, fraternas, está cada um no seu grupo de 8 pessoas… Há além do mais na esquerda jovem uma completa ruptura com o popular – passam a vida a tropeçar nas cascas de banana do identitarismo, do “sul global”, das políticas liberais de esquerda e a apontar o dedo aos únicos que nos podem ajudar a sair deste lodo – os trabalhadores que por falta da esquerda foram para a abstenção ou para o Chega.

Finalmente, um partido tem de ser capaz de dar o que o Estado não dá (é isso que faz nascer os conselhos democráticos, as comissões de moradores e trabalhadores ou sindicatos combativos) – tem de dar boas aulas (organizando cursos de qualidade), ajuda na saúde (com apoio solidário de médicos e enfermeiros), apoio aos doentes e velhos, festas com boa música, espaços lindos para crianças e famílias, apoio pago à cultura – gente do teatro e da música não vive do nada – um Partido tem de ser o gérmen de uma nova sociedade. E por isso não é “nacional” nem de “Portugal” nem vai agradar a todos, quem quer agradar à Sonae, ao Expresso e ter ferrovia e SNS vai estar a apoiar não um partido, parte, mas uma nação burguesa em ruína. Um partido só poder ser internacional também. Contra a globalização capitalista, a solidariedade internacionalista.

E para isso são precisos – sobretudo – organizadores, e não figuras públicas. Precisamos de organizadores, foram com eles que fizeram revoluções, são os que sabem juntar pessoas, lidar com diferenças, convencer, conspirar, escutar, coser vontades e enfrentar sem medo, de cabeça fria, problemas. Intelectuais públicos com voz são uma matéria rara, não por talento à nascença, mas porque saber expressar-se publica e politicamente é um saber que foi sendo eliminado. Os trabalhadores estão com poucos quadros públicos, mas vejam que a burguesia tem dois ou três, Pacheco Pereira, Miguel Sousa Tavares, todos velhos também, tudo o resto não são quadros, são pessoas jovens de um ridículo atroz. Precisamos de formar mais quadros públicos dos trabalhadores com voz própria, mas precisamos – com urgência – de organizadores, daqueles que a história sequer regista o nome, mas mudam o mundo.

Sobre o programa: auditoria com suspensão da dívida pública; suspensão de todo os impostos para guerra, emprego público com salários muito bons na saúde, educação e serviços, que vai elevar os salários privados; fim de qualquer sub contratação a privados com dinheiro público; subsídios a pequenos agricultores e crédito barato puúblico a empresas familiares; redução do horário de trabalho sem redução salarial e com legalização de todos os trabalhadores. Lazer, cultura. Democracia de base – decisões de tudo o que é público devem ser tomados em conselhos democráticos, no trabalho, e nos bairros. Eis um clube a que eu gostaria de pertencer.

Um País a Saque

Apesar de tantos simpáticos pedidos para eu dar dicas de hotéis no sul de França, não o posso fazer, não sou influenza, mas posso tentar fazer algo mais útil e divertido. Há anos fui a um resort falar numa conferência de estivadores, havia pirâmides do Egipto e música tecno, pensei com altivez como alguém vem parar aqui voluntariamente… Depois, pensei com empatia – o que aconteceu?, para estes homens, que lutam e lutam muito mais e melhor do que qualquer intelectual, virem para aqui de férias.

Comecei a viajar de férias com os meus pais de carro pela Europa, com poucos anos, e cedo descobri que a enorme riqueza da história da Europa nos leva a catedrais em vilas de 3 mil habitantes, monumentos em igrejas a resistentes à II Guerra em cemitérios de aldeias, exposições de Courbet ou Delacroix em cidades pequenas como Séte. A conquista das férias pagas, sobretudo depois da II Guerra, e a transformação dessa conquista na ocupação do litoral pela especulação imobiliária – a maioria era de posse ou propriedade de uso comum, piscatória, no século XIX – levou à criação de um desejo (publicidade, hegemonia) de um tipo de férias nos Europeus que a mim nunca me seduziu, ficarem enterrados num resort ou casa e irem para a praia, comer, deitar, comer, deitar. Se as férias deveriam ser um tempo de caminhar, navegar, pintar, escrever, tocar, dançar, passaram a ser férias de consumo em que as pessoas, cada vez mais exaustas, querem dormir e descansar. As agências de viagem são um negócio financeiro, recebem em Janeiro, pagam em Julho às companhias aéreas, entretanto especulam na bolsa com esse valor 6 meses. Despejam depois as pessoas em piscinas e mojitos para esquecer o assédio e o desprezo de que são alvo em trabalhos alienantes.

Em Portugal há lugares maravilhosos, onde ainda sobra pequena propriedade e alguma autonomia artesã (estes quase desaparecidos), nas zonas serranas do Continente, Barrocal algarvio, nos Açores, sobretudo mas não só na Terceira, no Minho, e é isso que produz riqueza. Onde estive este ano, no Languedoc, no ano passado nas Dolomites, há 3 anos no Rio Mossel, são zonas de montanha e/ou camponeses que produzem cultura porque têm trabalhos com sentido seus, a cultura nasce daí, e isto é garantido com fortes subsídios à agricultura biológica e produção cultural local pelo Estado, e com batalhas políticas para que não acabem, porque também Macron é amigo dos fundos que dominam a grande propriedade.

Hoje se forem à maiorias das aldeias portuguesas são o Cacém, as pessoas estão em casa a ver TV e as crianças a viciar-se em “jogos” de vídeo, o café local tem um Led branco insuportável, e a CMTV ou outra aos berros, as crianças não estão a jogar, estão a ser treinadas a carregar em botões para o mundo do trabalho automatizado quando crescerem. As festas anuais são deprimentes – música péssima e alta, comida intragável fast food, sequer as pessoas sabem hoje em dia dançar.

No sul de França, bem como em todas as zonas de montanha na Europa, e fora da zona costeira – cara – subiste uma cultura própria porque há um trabalho não monopolizado pelas empresas e pelo Estado – aliás, tudo se paga em dinheiro que os camponeses estão-se borrifando para o Estado, que querem ver bem longe (lutam pelos subsídios mas não respeitam as instituições, são politicamente independentes da burguesia, são mais livres). Não é fácil encontrar bons hotéis, é procurar, em aldeias, ver a arquitectura, perceber se são dirigidos por famílias, em geral é isso que fazemos. Viajamos de comboio e bicicleta, talvez o que mais me impressionou nestas férias, tal como em todas as anteriores, não foi só a ausência de carros, estradas, os cheiros que se sentem quando se anda de bicicleta, foi mesmo poder sentar-me num café sem música alguma, a ouvir pássaros, sem LEDs e televisões, barulhos de reels, e ao mesmo tempo comer bem, a preços justos, e poder ir, numa aldeia, ao teatro, à catedral, a um concerto de jazz. Este ambiente de pequena propriedade e autonomia no trabalho favorece a festa e a alegria, por isso no sul de França em julho e agosto há uma festa em cada lugar onde chegamos (o único que escolhemos de propósito foi o festival de teatro de Mirepoix, tudo o resto encontrámos por acaso, estava lá).

A UE e o Governo português querem instalar minas, painéis solares, e vender a rede ecológica, agrícola e praias para casas de luxo onde os ricos do mundo compram propriedade – e sequer a usam. A maioria destas propriedades na forma de casas e hotéis de luxo estão mais de metade do ano vazias. Os que aqui trabalham gastam mais de metade do ordenado para pagar uma casa horrível num lugar feio, e levam 2 horas em transportes. Ficam sem dinheiro para passear no seu país, os turismo rurais e restaurantes viraram-se para o turista estrangeiro que paga caro ou luxo mesmo. Quem consome não vive aqui, quem vive aqui não consome.

Volto a dizer, sem emprego público bem pago, que eleva o salário no privado, democracia nos locais de trabalho, e subsídios aos pequenos proprietários, e legalização dos migrantes, Portugal ficará uma Florida, com consequências também políticas. Porque acham que o Chega ganhou em Albufeira, logo em Albufeira? Onde domina um turismo trambiqueiro, muito álcool, drogas, prostituição, chico espertos a gamar turistas, discotecas com seguranças privadas, violência, estilo milícias, vencedores imobiliários, cabeleireiros e gestores de resorts? Tudo alimentado por trabalhadores do Bangladesh e da Índia que não podem votar, que nos servem sem nos olhar nos olhos, com medo, escravos, criminalizados por este Governo, que assim garantem que ali em Albufeira esta “economia” funciona – eles carregam as garrafas de rum e vodka, limpam a merda dos WCs, conduzem os consumidores de prostituição ao hotel, cozinham ovos líquidos com tomate a boiar em feijão, servem e morrem de medo de ser expulsos deste paraíso, enquanto os jornalistas, sem se organizarem como classe e por isso a chicote de editores cuidam, penteiam e afagam Ventura e Montenegro, escolhendo sempre para a capa as melhores fotos, sorridentes, de ambos. Um país a saque, sim

ALL garve

O país a saque. Lisboa com menos turismo, Açores em crise, Algarve sem filas. O país que pilha os turistas perde-os. Em 2016, com várias críticas publicas, defendi na SIC que o turismo era uma bolha auto destrutiva que só servia como testa de ferro da especulação imobiliária (venda de propriedade).

Estive no sul de França de férias, em vários hotéis em aldeias lindas, quartos com vista para o rio, pequeno almoço biológico, 100 euros para duas pessoas – sim, basta sair do centro da cidade, 50 por pessoa (ovos caseiros, fiambre divinal, queijos locais), silêncio, camas com colchões de topo, lençóis macios, ouvimos os pássaros e não música tecno, festas populares (não sintetizadores a tocar pimba) com teatro, jazz e ostras a 1 ou 2 euros, petingas a 5 euros; restaurantes vários onde os vinhos, na sua generalidade também bio, custavam entre 21 e 26 euros – quantos restaurantes em Portugal vendem Borba e Monte Velho a 18 euros? -; comboio para todo o lado, entre 3, 7 e 30 euros e mesmo 50 euros TGV. Cafés em esplanadas lindas nos centros históricos, 1 a 2 euros, limonada a 3 euros, tábua de queijos e enchidos farta com tomate dos Deuses 16 euros. Notem que ir daqui ao sul de França em avião são 50 euros e 1 hora e meia…Porque alguém há-de vir para Portugal pagar 200 euros num hotel com fiambre que não se dá a um cão, um colchão velho que afunda, e beber Borba a 20 euros e limonadas a 7 euros, e ser servido sem qualquer carinho, formação e atenção, e ainda ver o gerente passar pelos empregados e os molestar à nossa frente?

Portugal está a saque, os governos, este em particular mas os anteriores, todos, fizeram, do país o ALLgarve – roubar tudo, do vinho às pensões, o mais rápido possível.

Pode haver solução? Há solução. Precisamos de partidos políticos novos, sem nos organizarmos colectivamente nada feito, que coloquem em cima da mesa não a agenda que nos querem impor (assuntos laterais) ou defesa de instituições moribundas mas a: subida radical dos salários com emprego público (que arrasta a subida no sector privado), serviços públicos com chefes eleitos democraticamente, fora com gestores nomeados em qualquer serviço! e cuja função é por norma roubar-nos – subsídios aos pequenos agricultores e artesões -sem eles não há nada de “típico” -; fim aos subsídios a painéis solares e minas e apoios à agricultura local; e claro, com isto há um aumento geral do consumo interno.

Se continuarmos neste rumo ninguém aqui consegue ou quer sair de casa, sequer a um restaurante, onde come mal, paga muito e é mal tratado (sim, fomos tratados na Occitância com simpatia genuína, não por favor ciníco mas com a verdade de quem tem o que é seu, com delicadeza, humor, ninguém nos serve sem parar para conversar, oferecem-nos várias coisas, são pessoas e serviços reais, que existem todo o ano e para os locais, não são vendedores de verão. Portugal está a destruir os salários públicos, com isso os serviços públicos, com isso o mercado interno, os impostos financiam a guerra, e as casas estão à venda a quem quer refugio das bolhas bancárias. O saque das pensões, com um “estudo” que falha, falhou e falhará, a transição digital do médico e do professor e o colapso do mercado habitacional transformado em poupança de fundos bancários, ao lado de famílias a explodir de violência e pobreza, eis o programa do PS-PSD-IL e Chega. E uma esquerda apagada a defender as instituições, ou seja, o mesmo. Eis o ALLgarve. Non, merci.

A Odisseia de Ceuta, em busca de um rumo contra a guerra.

O meu texto sobre o filme Odisseia irritou Deuses e mortais. Primeiro eu disse que não li a obra mas conhecia o seu núcleo, é evidente que conheço, é aliás espantoso que alguém não conheça. Os seus mitos fizeram parte da minha educação na escola, família e comunidade, e nas inúmeras leituras pela mão de outros, como é o caso da Irene Vallejo. Isso porém não nos faz conhecer uma obra, a leitura de uma obra como a Odisseia – se puderem vão à página do André Vallias e vejam o que significa a tradução desta obra (para os entusiastas da IA…) -não se faz sem tempo e ajuda.

“Então precisa de um professor para ler a Odisseia?”. Sim. A esquerda pós-moderna e a direita liberal destruíram o verbo “ensinar” e ser professor é ser “doutrinador”. Sim, eu preciso de um professor para ler a Odisseia. E acho que grego e latim deviam ser parte dos currículos, bem como a leitura da Odisseia. Acho que um currículo aliás não é nem flexível nem inovador, nem conservador, um currículo deve ter o que é clássico, ou seja, o que sobrevive ao tempo. Na escola-empresa hoje estudam-se missas como atitudes de tolerância face ao passado, a doutrina da literacia financeira no planeamento de despesas, mas não se ensina grego, latim e a Odisseia. A escola devia ensinar o que é mais complexo, desenvolvido, e difícil.

O Toupeira Vermelha fez o favor de traduzir o melhor comunicado sobre o que se passou em Ceuta, e pensei na odisseia que tem sido à esquerda voltar a casa. Como é difícil encontrar um caminho. E como tantas vozes nos chamam para o lugar errado.

É que toda a esquerda se preocupou com as ameaças de Trump, Israel, a manipulação atroz de jovens, e Marrocos não ter sido um bom polícia da UE. Faltou-nos um pedaço de esquerda a sério, desculpem. O que chamamos em história “agência”, o ser sujeito que caracteriza Ulisses. A nossa aliança para vencer não é com os nossos governos e Estados, não é exigir a Marrocos ser bom polícia da UE, é com aqueles jovens terem direito a uma vida digna no país onde nasceram, desde logo, e isso só se faz contra a UE e contra Marrocos, ao lado daqueles jovens. Ninguém pensou que aqueles jovens podem ser 60 mil sujeitos políticos e com eles mudarmos o mundo.

Amilcar Cabral olhou para a sua população na Guiné como sujeitos com história, e não apenas vítimas, e também por isso tivemos o 25 de abril. E essa é a diferença entre escrever com os olhos da nação e da região (UE) e escrever com os olhos da revolução mundial, a nossa Odisseia. No fundo as leituras sobre Ceuta foram, à esquerda, como o filme de Nolan – uma interpretação judaico cristã da Odisseia. Que é o que tem sido a esquerda – assistencialista e nacionalista (ou regionalista, a defesa da “Europa”, qual Europa?).

Já este comunicado, deste pequeno grupo político herético marroquino – leiam até ao fim para ver o que é uma política de esquerda merecedora desse lado, que aliás devia ser o nosso programa aqui em Portugal (ou acham que somos diferentes do que eles escrevem?) – reconcilia-me com a ideia de voltar a casa. Aqui sinto-me em casa:

“(…) Quem é responsável por este massacre social que se prolonga há anos? Quem é responsável pelo facto de o mar devolver cadáveres uns atrás dos outros, e de as redes dos pescadores trazerem à superfície os corpos dos afogados, em vez de trazerem o sustento do mar? Quem é responsável por uma pátria onde milhares de jovens chegaram ao ponto de considerar a emigração, independentemente dos riscos, como um destino preferível ao de ficar?

Esta tragédia não é o resultado de escolhas individuais nem de uma simples má gestão conjuntural, mas antes o produto de uma estrutura económica e política assente na dependência face ao capital mundial e às instituições financeiras internacionais, que impõem, através da dívida, políticas de austeridade, privatizações e liberalização dos mercados, aprofundando a dependência, o desemprego e a precariedade, ao mesmo tempo que desmantelam os serviços públicos. Esta situação faz da emigração, para largas camadas da juventude, uma das poucas saídas possíveis. A dívida não é apenas uma questão de números num orçamento, mas um mecanismo destinado a subordinar as políticas públicas a imposições externas, nas quais o serviço da dívida e os lucros dos investidores se sobrepõem ao direito ao trabalho, à educação, à saúde, à habitação e a uma vida digna.

(…)

Em vez de garantir aos cidadãos e às cidadãs o direito a uma vida digna, uma parte crescente dos aparelhos de segurança e militares é mobilizada para desempenhar o papel de «polícias das fronteiras», no âmbito de políticas externas destinadas a proteger a Europa dos migrantes e das migrantes, e não a proteger o direito dos povos ao desenvolvimento, à liberdade e à livre circulação.

Esta função securitária no estrangeiro é acompanhada por uma política repressiva no interior. O regime reprime as manifestações da juventude e os movimentos sociais, restringe a liberdade de associação e de expressão e persegue jornalistas, bloguistas e ativistas. Responde às manifestações da geração Z e aos outros movimentos com detenções e processos judiciais, em vez de responder às suas reivindicações. (…). A emigração forçada e a repressão política são as duas faces da mesma política: uma política que priva as pessoas de qualquer direito ao futuro.

(…)

É por isso que a resposta a estas tragédias não reside em simples lamentações, nem no reforço da repressão, nem no encerramento hermético das fronteiras, mas numa mudança radical das políticas que geram pobreza, marginalização e exílio forçado. (…) Precisamos igualmente de orientar a riqueza nacional para a satisfação das necessidades da sociedade, em vez de a canalizar para o enriquecimento de uma minoria privilegiada e para servir os interesses do capital nacional e estrangeiro.

(…) A história ensina-nos que, quando os povos tomam consciência da ligação entre a exploração económica, o despotismo político e a dependência, e se organizam, tornam-se capazes de conquistar os seus direitos e de impor um futuro mais justo e mais digno.

(…) Cada dia em que esta alternativa tarda a concretizar-se, aumenta o custo da tragédia humana e social (…).

– Pôr fim à criminalização da ação militante e libertar todas as pessoas detidas no âmbito dos movimentos sociais, em primeiro lugar os ativistas do Hirak do Rif e os jovens da geração Z, e suspender todos os processos contra jornalistas, bloguistas, artistas e cantores.

– A eliminação de todas as formas de trabalho precário no setor privado, através da regularização de todos os trabalhadores e trabalhadoras, do fim do recurso abusivo aos contratos a termo, bem como da abolição da subcontratação e das agências de intermediação de mão de obra.

– Aumento do salário mínimo para 5 000 dirhams nas empresas do setor privado, quer nos setores agrícola, industrial, comercial ou dos serviços.

– Abandono de todas as políticas e medidas destinadas a transformar os serviços sociais, nomeadamente a saúde e a educação, em serviços comerciais submetidos à lógica do setor privado, através dos seguintes meios:

(…)

• Eliminar todos os benefícios fiscais, bem como todas as facilidades e autorizações concedidas às empresas privadas que lhes permitem monopolizar os setores da saúde e da educação.

– Pôr fim à apropriação de terras e da água.

– Pôr fim ao monopólio das grandes empresas capitalistas sobre as nossas riquezas minerais. Estes recursos devem ser retirados das mãos dos grandes grupos capitalistas e a sua gestão deve ser assegurada por empresas públicas sob controlo popular.

– Abandonar a liberalização dos preços, em particular dos produtos alimentares, dos bens de primeira necessidade e dos produtos farmacêuticos, revogando a lei que os liberaliza. Criar mecanismos destinados a proteger o mercado interno e a pequena produção contra as flutuações cíclicas dos preços. (…)

Al Mounadil-a, 31 de julho de 2026″

A Desver

Fui ver Odisseia, um suplício, olhei várias vezes o relógio. Um jogo de vídeo, com um barulho ensurdecedor, movimento frenéticos, para conquistar provavelmente um público educado para ter défice de atenção, um filme que apagou tudo o que é importante na obra – as alegorias, a memórias, os encontros, o amor, a escolha (canto das sereias). Resta a guerra e na sua forma actual – contagem de corpos, sem qualquer explicação política. Do poema épico fez o realizador o mais óbvio e dramático filme, para contar que os homens se transformam em animais, transforma-os em animais…Nunca li a Odisseia, infelizmente foi-me retirado tal prazer com os curricula “inovadores” que foram colocando competências em vez de cultura grega (a qual tive em história, vá lá) e latim, essencial para conhecermos a língua, a linguagem, e o pensamento, os fundamentos portanto. Não faço assim qualquer comentário profundo sobre a obra. Falo mesmo do filme, da sua forma, é de fugir, três longas horas de inferno, mas compatíveis com a cacofonia em que nos querem fazer viver 24 horas por dia neste admirável mundo da tecnologia e da guerra (ainda ontem o CEO da Spinumviva gastou 4 mil milhões dos nossos salários a comprar 3 fragatas de guerra ao Governo de Meloni): intensa luz, música aos gritos, gente a berrar, ameaças constantes e um turbilhão de emoções primárias, e claro nos três segundos finais foram felizes para sempre. Resta-me o consolo de que o jovem ao meu lado tapava os ouvidos como eu, e mais dois ou três saíram a meio. Em geral faço o mesmo, deixo livros, teatros e filmes a meio dos quais não gosto e sem remorsos (também durmo, mas ontem o sound-max-super-galáctico-total não permitiu), e, além disso, quis ficar até ao fim para poder em consciência suplicar aos Deuseus – vi e quero desver.

Re-humanizar a Escola e a Universidade

Por uma Educação Livre de IA Generativa

16 e 17 de Outubro 

Escola Secundária Camões

Organização: Observatório para as Condições de Vida e Trabalho

Apoio e parcerias: Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Uberlândia; Associação Maio em Movimento.

Inscrição gratuita, mediante email para:  observatoriocondicoesdevida@gmail.com 

16 de Outubro 

18:30 Abertura Raquel Varela, FCSH/UNL, Presidente do OCVT; João Jaime, Presidente da Junta de Freguesia de Arroios.

19:00 A IA e a “Bolha” financeira, uma análise macro económica – Michael Roberts economista, UK

17 de Outubro 9:30-13:00

A IA Generativa e a Educação pública – Prof Dr. Roberto Leher, UFRJ. 

Lev S. Vigotsky e a centralidade da aprendizagem coletiva teórica na educação – Prof Dr Roberto Puentes Valdés – Universidade Federal de Uberlândia.

Comentário crítico – Prof Dr. Roberto della Santa, cientista social, CEG/UA.

Almoço convívio 13:00-14:30

14:30-17.00

Saúde mental, IA e jovens, testemunho de uma professora – Benedita Salema, professora Escola Artística António Arroio. 

Manifesto pela humanização do ensino superior- Prof Dr. André Carmo, geógrafo CICS.NOVA.Uévora / CEG-UAb.

Comentário crítico – Prof. Dr. Duarte Rolo, psicólogo, professor Escola João Deus, Dinamia ISCTE.

18:00 Lançamento Público do Manifesto “Podemos Educar depois de Gaza? Pela Humanização do Ensino.” 

Com a presença de docentes de todos os graus de ensino. 

Os atos políticos protagonizados pela comunidade educativa possuem uma imensa importância para tornar pensáveis as contradições entre as mudanças tecnológicas e organizacionais que transtornam as instituições educacionais, a docência e as interações com (e pelos) estudantes. As greves e manifestações dos professores e trabalhadores da educação nas últimas décadas, assim como a dos estudantes, em diversas partes do mundo são um importante movimento que neste congresso temos como referência escutar, explicar e compreender. Ao mesmo tempo, e na aparência contraditoriamente, não podemos deixar de nos questionar como foi possível não haver uma maior oposição a uma das maiores ofensivas dos últimos tempos contra o trabalho real de professores e alunos? 

As escolas e as universidades estão a passar pela maior refuncionalização desde a conquista da massificação da educação, sobretudo no século XX. As múltiplas crises que atravessam o capitalismo mundial – competições interimperialistas que resultam em guerras, genocídio em Gaza, problemas socioambientais, destruição dos direitos e do sentido humanizador do trabalho – alcançam a educação de modo sistêmico, disruptivo e violento. A expansão da acumulação incide sobre aquilo que parecem ser os últimos resquícios da concepção de educação pública como dever do Estado e direito universal dos povos, gratuita, laica, científica e comprometida com a cidadania de inspiração republicana. 

Desde o final do século XX, a agência (iniciativa) da ordem neoliberal logrou a substituição do conhecimento pelas competências e impôs sistemas de avaliação heterônomos para tentar controlar o trabalho docente. A emergência das tecnologias digitais e, sobretudo, da IA-Gen., após 2022, permite não apenas suprimir os últimos vestígios da formação integral, histórico-crítica, dos estudantes como instituir outra realidade educacional, na qual os professores e estudantes perdem sua autonomia intelectual por meio de sistemas e plataformas das Big Tech que estabelecem o que é dado a pensar e produzir nas escolas e universidades.

De fato, as corporações, por meio da IA-Gen., dos sistemas de ensino e das plataformas de trabalho alcançam o chão das escolas, como antes alcançaram o chão da fábrica, fagocitam a docência em favor de operadores, tutores, que realizam tarefas docentes, suprimem a possibilidade de autoria dos trabalhos, quer dizer, a imaginação inventiva, a disciplina e a concentração necessárias ao fazimento criador. Concretamente, usurpam o prazer da criação original, os valores dos estudantes nos trabalhos académicos e o ato de amor presente nos processos de ensino e aprendizagem.[DR1] 

É necessário, por conseguinte, que juntos possamos compreender a escala dessa ofensiva das corporações. Apenas as ações das corporações na área da IA nas bolsas norte-americanas correspondem ao valor total de todas as bolsas europeias reunidas. Na perspectiva das corporações, tudo é negócio, dinheiro e poder. 

Este congresso reúne investigadores internacionais que questionam o papel e o impacto das corporações mercantis no desenho educativo, quer no campo da subjetividade e sofrimento (“saúde mental”), quer no campo da produção de conhecimento. Para além de percebermos o papel das corporações, é preciso perceber o estado – social, político, psicológico – dos trabalhadores da educação. 

Aprender é transformar. Os grandes modelos de linguagem não comportam aprendizagem, ao contrário, obstam o pensamento interior. A IA-Gen. “entrega” produtos que erodem a relação de confiança e de companheirismo entre docentes e estudantes. Em conjunto, tais processos estão modificando a internalização dos conceitos, categorias, imagens, em suma, dos signos nas estruturas de pensamento, nos microcircuitos neurais, na expressão da linguagem, nos mecanismos de atenção e na capacidade de uso crítico e autónomo da razão dos estudantes e professores. Esse é um objetivo inserido na economia e política assente no modelo de produção capitalista: cortar pela raiz o inconformismo, as imagens e ideias de futuro, a análise dos grandes problemas da humanidade, impedindo que a educação do século 21 possa realizar o desejo de Brecht, em A vida de Galileu (1938), de que o conhecimento científico possa ser socializado e compreendido pelo povo:

Predigo que a astronomia será comentada nos mercados, ainda em tempos de nossa vida. Mesmo os filhos das peixeiras quererão ir à escola. Pois os habitantes de nossas cidades, sequiosos de tudo que é novo, gostarão de uma astronomia nova, em que também a terra se mova. O que constava é que as estrelas estão presas a uma esfera de cristal para que não caiam. Agora juntamos coragem. e deixamos que flutuem livremente, desancoradas e elas estão em grande viagem, como as nossas caravelas, desancoradas e em grande viagem.

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O Congresso tem o compromisso de criar um ambiente de reflexão crítica sobre a educação básica, superior e profissional nas lutas dos povos. Por isso, o Congresso pretende discutir que a educação é uma questão da grande política. Temas presentes nas manifestações e greves como o encolhimento dos fundos públicos destinados à educação pública não podem ser dissociados do fato de que o fundo público está sendo transferido para as grandes corporações de tecnologia e de educação por meio de seus sistemas e plataformas de trabalho. A ausência de concursos públicos, a repressão salarial, a desvalorização do trabalho intelectual são inseparáveis da substituição tecnológica dos docentes efetivadas pelos complexos de I.A.. 

O Congresso pretende analisar e discutir uma proposição de que a irrupção das tecnologias digitais, notadamente o salto produzido pela IA-Gen. e seu complexo tecnológico e organizacional, abrange as Big Tech e uma panóplia de corporações educacionais, organizações ditas neofilantrópicas e conglomerados de Aparelhos Privados de Hegemonia do capital. Nesse prisma, articula temas do cotidiano da escola, em especial, relativos aos processos ensino e aprendizagem e às questões sobre a docência, com a tempestade provocada pelo capital, por meio de seus artefatos tecnológicos que, não casualmente, estão estruturados pela indústria militar e pelos sistemas de vigilância informados por algoritmos que possuem uma gramática racista, como é próprio dos processos imperialistas. 

No Congresso dedicaremos especial atenção aos nexos entre as plataformas e sistemas de ensino estruturados pela IA e a gramática da guerra. Os sistemas de linguagem e os algoritmos utilizados na educação resultam da mesma engenharia que performa os perfis dos seres humanos conforme os interesses imperialistas que conformam a geopolítica, impondo, como é próprio do imperialismo, diferenciações raciais, geográficas, classistas etc. As mesmas corporações desenvolvem drones autônomos que podem ‘decidir’ quem será abatido sem mediação humana direta querem definir que educação customizada receberá as diversas frações das classes trabalhadoras. 

Defendemos a modificação da avaliação desvinculando-a de métricas e descritores heterônomos. A avaliação, indissociável da metodologia e do conhecimento trabalhado, deve dar-se por meio da leitura profunda das obras de referência em sala de aula e de oficinas de redação sobre os temas axiais da disciplina e da conjuntura sem o recurso da IA-Gen. 

Como nas consignas que ecoam em muitas lutas, o Congresso quer debater as alternativas. É imperioso politizar o tema das tecnologias que não são artefatos, mas relações sociais objetivadas. As mediações tecnológicas compõem o trabalho concreto, deliberado, planeado, dos docentes e estudantes que, por isso, podem desenvolver o uso crítico e autônomo da razão. A recusa da subordinação do trabalho docente ao aparato tecnológico estruturado por algoritmos incompatíveis com a função social da educação pública é um ato político. Afirma que os docentes são intelectuais organizadores da cultura, gozam de liberdade de cátedra e compõem, com os seus estudantes e os conselhos, uma comunidade específica, a comunidade escolar ou a comunidade universitária, ambas como base da organização académica das instituições educacionais.

Frontex

Li o comunicado da CGT da Andaluzia espanhola, e organizadores sindicais e políticos de tantos milhares de jovens assalariados agrícolas de Marrocos, sobre a barbárie de ontem. É nele que me revejo e não na reação “campista” de esquerda que nos coloca contra Trump mas ao lado do Frontex. O que alimenta a extrema direita não são as máfias ilegais, é o Frontex legal.

Em síntese, em primeiro lugar, o comunicado lamenta os mortos, a carnificina, sim, é isso, as palavras são para ser usadas, quase 60 jovens, não há geopolítica alguma imperialista que me leve a esquecer em primeiro lugar 60 corpos, a juntar à longa pilha de cadáveres que é o capitalismo, outra palavra a não olvidar; em segundo a manipulação destes pelo Estado Marroquino e não pelas máfias, o Estado marroquino, com quem Sanchez mantém relações, mesmo depois de ontem, é ele mesmo o transportador e organizador desta carne para canhão, diz a CGT, e não as máfias vagas sem morada, ao contrário dos palácios de governos que todos sabem onde ficam; os acordos do Estado espanhol com a Argélia e a denúncia do genocídio na Palestina, e claro a força dos EUA e Israel a procurar o controlo de Gibraltar, na base desta acção. Até aqui, na esquerda há um amplo acordo com estes princípios.

Porém – e aqui está um porém mais difícil dentro da esquerda – não podemos, diz este comunicado, passar a apoiar o Estado espanhol, e o Frontex da União Europeia, que se transformou num muro de gestão de recursos humanos, para garantir mão de obra ilegal. O que o Tribunal espanhol decidiu é elementar, os direitos humanos não se suspendem sobre a água. E o que o Estado espanhol fez foi pedir mais repressão na água. E expulsão de imigrantes para garantir Schengen, ou seja, o Frontex – o escudo legal e liberal de dumping social que tem alimentado a extrema direita. Na esquerda, quando somos chamados a tomar decisões “realistas” no quadro do capitalismo acabamos a fazer de guardas policiais. O que o comunicado anarquista diz, além de tudo o que referi, é que não queremos um mundo com fronteiras. Porque não tememos uma “invasão” – como classifica a extrema direita -, tememos esta guerra contra os povos, que os usa e abusa, justamente porque há fronteiras. Não somos guardas fronteiriços, somos parte do género humano. Podem dizer que “utopia e tal temos de fazer algo se não há um descontrolo”…!? Ou seja, descontrolo é a palavra progressiva de “invasão”. Chegamos assim ao beco sem saída que nos trouxe o capitalismo, hoje tive de escrever três vezes a palavra capitalismo, quatro já vão assim. Ou defendemos o Frontex com argumentos de extrema direita ou defendemos o Frontex com argumentos progressistas que denunciam o imperialismo dos EUA. Mas, quem defenderá a humanidade?

Não há “invasão” nenhuma se se acabarem com fronteiras – se o emprego for legal e regulado as pessoas vão para onde ele existe. Se não há, não vão. Se há emprego ilegal e precário há mão de obra ilegal que tenta passar. O Frontex não é a sua regulação – é a sua seleção, são os gestores de recursos humanos com farda policial. É o Frontex – e não só Israel, EUA, Marrocos – quem alimenta estes fenómenos. A ilegalidade, a informalidade, é hoje constituinte de 15 a 25% da força de trabalho na Europa, que nem direitos políticos tem.

É economicamente um fenómeno parecido com o tráfico de droga – se há proibição, há negócio. Mas é a proibição que faz subir o preço. Assim é o paralelo com o Frontex. Ele garante que quem alimenta os campos agrícolas, os hotéis, os restaurantes, limpezas e cuidado de doentes idosos na Europa são trabalhadores sem papeis legais, cuja exploração é assim mais lucrativa.

“Mais cabras nos montes e menos cabrões nas Instituições”.

Foi uma semana rica no Absurdistão, em vários temas, exames, politécnicos, peles da Rússia e cabras no monte. Vejamos. O Governo paga 2,5 milhões à Deloitte para digitalizar papéis e 1 euro por resposta aos classificadores. Como os classificadores deram este trabalho gratuito, estes dados, à IA, durante este inesquecível mês de Julho – sem um dia de greve, um – para o ano esta tarefa será certamente feita por classificadores externos porque a Agência para a Gestão do Sistema Educativo – já não existe Ministério – é agora um Instituto público com possibilidade de contratar serviços privados, ou seja classificadores. Que aliás acabaram de receber ontem via Deloitte um aviso de contabilidade do tempo como o Sr que arranja a minha máquina da Mielle – “está em sua casa entre as 17:53 e as 17:55”. Kean Loach fez um filme sobre isto, Desculpem, passei aqui/esqueci-me de ti (um belíssimo trocadilho que a tradução não deu conta).

Vejam que nunca usei o termo educação nos exames – educação não são exames, de cruzes, muito menos um professor é um classificador. Tudo isto é transferência de impostos da educação dos nossos filhos e netos para as empresas de tecnologia. Tudo isto vem do PRR, da União Europeia, que diz que os helicópteros russos não podem apagar fogos, estão parados sem importação de peças, mas peles para a indústria de luxo Italiana estão liberadas, que eu vejo sempre Lagarde com os melhores vestidos italianos.

Há mais – o CEO da Agência, Fernando Alexandre, a quem ainda chamam Ministro, quando ele mesmo acabou com o Ministério – anunciou a criação de duas universidades…como? Não, a passagem de politécnicos a Universidades que a primeira coisa que fez foi um despedimento coletivo de dezenas de colegas nossos – porventura centenas – de professores que não passam de uma instituição a outra, não têm antiguidade, etc. Uma espécie de pacote laboral da função pública.

Seguem de vento em popa nas Universidades o despedimento de professores convidados, outro despedimento colectivo tratado apenas como mais um regular acto de gestão.

O Governo da Spinumviva anuncia que os pescadores de costa, os pequenos, muitos idosos, que têm margens de lucro de 2%, são obrigados a pescar o dobro de 12 mil para 24 mil euros ou então ficam sem licença…(vejam a belíssima reportagem em video e artigo do jornalmaio.org estivemos lá, eu mesma também, a ouvi-los, deixo o link nos comentários). Há mais:

Nunca subestimem o que a burguesia mundial faz para se manter no poder. Foi dito por esta gente que as casas do ciclone Kristin não estão reconstruídas “porque não há mão de obra”, mas que os investimentos em guerra em Portugal – com jovens a montar drones que matam em Gaza onde influencers se passeiam -estão de boa saúde – 5,8 mil milhões -o que daria para renovar 200 mil casas. Informação importante – a margem de lucro da indústria de guerra é 12%, não são pescadores de carapau.

Uma senhora num canal de Tv espanhola explicou que a serra de Madrid/Ávila ardeu como papel porque a gestão das aldeias e terras foi retirada às populações, com as leis da União Europeia de Rede Natura, protecção disto e daquilo, o que aconteceu foi a abertura para transformar o sul da Europa em minas de lítio e painéis solares. Ela termina, partilho aqui em link o vídeo, inimitável, zangada, furiosa, com uma frase que podemos guardar para o nosso querido mês de julho, queremos auto gestão democrática dos povos e “mais cabras nos montes e menos cabrões nas Instituições”

Curso de História do Socialismo

Neste curso iremos aprender as origens históricas das ideias igualitaristas, ainda no período pré industrial, passamos pela revolução industrial, as primeiras organizações de trabalhadores, o socialismo utópico e as comunas, de Fora Tristan a Blanqui, Marx e Engels, a Associação Internacional de Trabalhadores, William Morris e o trabalho com emancipação, Antero de Quental e as conferências democráticas, a II Internacional, movimento e estratégia, I Guerra e a revolução russa, Trotsky contra o Termidor Estalinista, o socialismo na periferia do mundo, os anos 1930, a resistência socialista na II Guerra, o maoismo e as revoluções anticoloniais, o Maio de 68 e o guevarismo, a revolução dos cravos e na Polónia, a queda da URSS e o seu impacto na esquerda, o socialismo hoje. Cada aula debate uma das teses de Marx sobre Feuerbach (Educação, verdade, experiência, praxes, entre outras). Todas as informações no cartaz.

Cheguização do Ensino

Leiam, por gentileza, o testemunho da professora Manuela Gusmão Ramos, que há 30 anos classifica exames. Estamos a ver em directo e ao minuto a Cheguização do Ensino, Ventura é Ministro da Educação. A mentira está instalada, a única verdade nestes resultados é a sua mentira – são dezenas de milhar de classificações falsas, é um tiktok do Chega a produzir qualquer coisa – vejam em baixo com detalhe, não há um parâmetro formal ou de conteúdo certo. Não são erros, isso vendeu o Ministro e os media. O que se fez nestes exames – que devem ser anulados – é um sistema de mentira generalizado. Não se enganem, não se trata só da escola fábrica, isso defende o centrão de esquerda e direita, aqui trata-se da escola como laboratório do irracionalismo neofascista.

E volto ao central que hoje me leva à manifestação convocada pelos alunos e à qual sindicatos e outras associações aderiram – os nossos alunos merecem conhecimento, as escolas não podem ser fábricas de métricas. Neste caso o que aconteceu é que nem as métricas estão bem, passámos da aparência de rigor do centro liberal (exames competitivos) ao irracionalismo neofascista de defender abertamente a mentira como verdade, é isso que está a fazer Fernando Alexandre.

O objectivo? Fazer das escolas gestores de compras de produtos empresariais, informáticos e tecnológicos, onde os alunos não só não aprendem, desaprendem. Porque um exame de cruzinhas que mede comandos simples e nem a conta das cruzinhas está bem feita pelo computador é um acto de ensinar aos alunos a mentira, a aldrabice, a repetição cretina, a operação falsa. É a Cheguização do ensino.

Estes exames devem ser anulados, não há qualquer hipótese de haver qualquer justiça, verdade, rigor no acesso ao ensino superior.

Professora Manuela Gusmão Ramos:

“Ontem, a pedido de alguns alunos, fui à escola ver as provas de exame de Português que realizaram, no sentido de os aconselhar a pedir ou não a reapreciação. O que é facto é que saí de lá profundamente inquieta.

Bastaram cinco provas para encontrar situações que nunca deveriam acontecer num processo de avaliação nacional.

Vi uma escolha múltipla correta classificada com zero. E sendo essa classificação atribuída automaticamente por inteligência artificial, não estamos perante um erro isolado, estamos perante um erro sistémico.

Vi descontos por alegado incumprimento do número de palavras em textos que estavam, claramente, dentro do limite pedido. Tudo indica que os classificadores não tiveram acesso às folhas de continuação.

Vi digitalizações de tão má qualidade que era praticamente impossível perceber o que os alunos tinham escrito. A estas respostas, os corretores tiveram o bom senso de atribuir nota máxima na correção linguística, pois não se percebia onde estavam ou não os acentos (e se estes eram agudos ou graves), as vírgulas e os pontos finais.

Vi duas respostas do mesmo aluno, corrigidas, portanto, por dois professores diferentes, classificadas com zero. Na minha leitura, nenhuma delas merecia a cotação máxima, é certo, mas ambas mereciam a cotação imediatamente abaixo. A coincidência leva-me a admitir uma hipótese inquietante: talvez essas respostas nem sequer tenham chegado aos classificadores.

Repito: tudo isto em apenas cinco provas.

Quantas mais situações semelhantes existirão? Quantos alunos poderão estar a ser prejudicados por falhas que nada têm a ver com o seu conhecimento, o seu esforço ou o trabalho dos professores classificadores?

O mais difícil de compreender é que, perante tantos sinais de alarme, se insista exatamente no mesmo modelo para a segunda fase, já em plena reta final da época de exames (que afinal agora já não é final, vai haver uma época especial em setembro), quando professores, escolas e serviços estão exaustos e as merecidas férias estão aí à porta.

Avaliar é um ato de enorme responsabilidade. Cada classificação pode abrir ou fechar portas, alterar percursos de vida, determinar o acesso a um curso ou a um sonho. Não podemos aceitar que decisões desta importância fiquem reféns de erros tecnológicos, digitalizações deficientes ou falhas de um sistema que continua por esclarecer.

Escrevo estas palavras tomada pela mais legítima indignação e profunda mágoa, porque acredito que todos os alunos têm direito a uma avaliação rigorosa, transparente e justa. É esse o mínimo que uma escola séria deve garantir. E, neste momento, esse mínimo está a ser posto em causa pela teimosia de um ministro que não domina a primeira das competências: saber ouvir.

Espero, sinceramente, que estas situações sejam investigadas com rapidez e transparência. Porque quando a confiança na avaliação é abalada, não são apenas as classificações que ficam em causa: é a credibilidade de todo o sistema educativo.”

Se é Digital não é Avaliação

Talvez o mais interessante testemunho seja o do aluno que teve 19 mas diz que não fez metade do exame, porém “não vai recorrer”. A escola, locus do rigor, passa, com este processo, a catedral da mentira.

Todas as piadas são impossíveis porque o irracionalismo tomou conta da actualidade, a proximidade de Fernando Alexandre a Trump e à IL não é só partidária, é inesquecível aquele momento “se alguma coisa tivesse corrido muito mal”, como distinguir de Trump e ganhámos as guerras todas enquanto somos derrotados? Não há nada a conversar com o Ministro porque, tal como Trump, trata-se do campo, amplamente estudado nestas décadas, da emergência de um novo tipo de filosofia dominante na burguesia, o irracionalismo. Não há verdade, razão, totalidade, apenas subjectividade, intuição, irrazão. Cada um diz o que quer porque cada um tem a sua verdade. É o túnel do obscurantismo. Não há debate possível com estas pessoas, porque não há critério de verdade.

Ontem o jornalismo Miguel Carvalho publicou uma crónica onde faz as ligações do Ministro Fernando Alexandre a grupos de lobby (thinktank) ultra liberais norte -americanos com o objectivo de lucrar com os impostos públicos que eram para a educação. Em Espanha e Brasil grupos de investigação na Universidade publicaram as ligações entre os thinktanks liberais e os fundos de investimento bancários norte-americanos na IA e na digitalização (trabalho que está por fazer em Portugal, onde só foi publicada a empresa que basicamente tira fotocópias, o mordomo), tentando fazer com que a bolha especulativa (apostas) dos donos da IA e tecnologia não rebente. O que, já volto aos exames, como demonstrou o economista Michael Roberts no Jornal Maio, é impossível já que o valor dos investimentos em que apostaram é muito superior à realidade. O que estou a dizer é que mesmo que acabassem com todos os professores e colocassem todos os alunos 8 horas por dia a carregar em botões doentes não conseguiram fazer dinheiro real para pagar as apostas que fizeram. A IA não é inovação, mas economia de guerra. (um dia voltarei ao tema).

Bom, mas agora o importante é dizer o seguinte, há muita gente chateada porque a digitalização correu mal, mas António Teodoro, que foi líder da Fenprof, recorda neste belíssimo e imperdível artigo que qualquer exame que possa ser digitalizador não é exame, não é educação, não é avaliação. Texto tão corajoso que diz o seguinte – avaliar é um processo subjectivo. Grande!

Teodoro está historicamente ligado a uma forma de sindicalismo de pacto social – o da Fenprof de que foi fundador a seguir à revolução- que não é o meu (o meu é o da independência dos sindicatos contra o Estado), mas este artigo demonstra bem como os sindicatos hoje estão a milhas do elementar que já foram em termos de ideias. E não falo só da Fenprof, quem não estude a fundo o que é a educação, não consegue pensar estrategicamente, mesmo lutando. Luta, mas não sabe para onde. Este é um artigo que subscrevo de alto a baixo e que devia ter orientado toda e qualquer comunicação dos sindicatos e partidos de esquerda. Andam a criticar a “incompetência” do processo quando a questão é só uma – exames digitais não medem nada na educação, são apenas e só a forma de acabar com o professor e com o aluno, e fazer da escola coutada privada de empresas.

“As dificuldades verificadas na realização digital dos exames nacionais desencadearam um intenso debate público. Falhas técnicas, plataformas instáveis, dificuldades de acesso e problemas organizativos ocuparam naturalmente o centro das atenções. Tudo isso merece ser discutido e corrigido. Mas concentrar o debate apenas nesses aspetos é correr o risco de confundir os sintomas com o problema principal.

Há muito que a investigação em educação chama a atenção para um aspeto essencial: o conhecimento não é uma simples acumulação de informações ou respostas corretas. Aprender implica estabelecer relações, construir coerência, desenvolver formas de pensamento e de argumentação. É precisamente por isso que a avaliação escolar nunca pode ser reduzida a um mero exercício técnico de medição. Ela envolve sempre uma determinada conceção do que significa conhecer, compreender e pensar.

A questão decisiva, portanto, não é a digitalização dos exames. É a conceção de avaliação que a digitalização tornou possível.

Até há poucos anos, a logística da correção impunha limites relativamente claros. Em regra, um professor lia integralmente a prova de um aluno, acompanhava o seu raciocínio e formulava um juízo global sobre o desempenho demonstrado. Hoje, a tecnologia permite outra realidade: a fragmentação da prova em múltiplos itens, distribuídos por diferentes classificadores. Um professor corrige apenas uma questão; outro, uma resposta de desenvolvimento; outro ainda, um conjunto específico de itens. Nenhum lê o exame na sua totalidade.

Esta transformação remete-nos para um conceito clássico da sociologia do trabalho: o taylorismo. No início do século XX, Frederick Taylor defendeu que qualquer processo complexo poderia tornar-se mais eficiente através da divisão do trabalho em tarefas simples, repetitivas e rigorosamente normalizadas. A produtividade aumentava, avariabilidade diminuía, mas o trabalhador deixava de dominar o processo global. Tornava-se especialista numa pequena parcela da produção.

Algo semelhante parece estar a acontecer na avaliação escolar.Os defensores deste modelo invocam frequentemente a docimologia, a ciência dos exames, e fazem-no com fundamento. Desde os trabalhos pioneiros de Henri Piéron, sabemos que diferentes professores podem atribuir classificações distintas à mesma prova. A avaliação não é um ato puramente mecânico e está sujeita a variações de julgamento. A docimologia constituiu, por isso, um avanço importante ao chamar a atenção para a necessidade de critérios claros, formação dos classificadores e procedimentos que reduzam a arbitrariedade.Mas a lição da docimologia é mais complexa do que muitas vezes se admite. Os seus autores distinguiram sempre entre dois conceitos fundamentais: fiabilidade e validade.A fiabilidade refere-se à consistência dos resultados: diferentes classificadores atribuem classificações semelhantes à mesma prova? A validade coloca uma questão mais exigente: estamos efetivamente a avaliar aquilo que pretendemos avaliar?

Ora, as medidas destinadas a aumentar a fiabilidade podem, paradoxalmente, enfraquecer a validade.A correção fragmentada por itens tende, em princípio, a produzir maior uniformidade classificativa. Mas pode fazê-lo à custa da compreensão global do pensamento do aluno. O conhecimento não se apresenta sob a forma de respostas isoladas. Manifesta-se através da coerência de um raciocínio, da capacidade de estabelecer relações entre conceitos, de construir uma argumentação consistente ou de ultrapassar um erro inicial no desenvolvimento subsequente.Um professor que lê integralmente uma prova consegue, pelo menos potencialmente, apreender essa dinâmica. Pode distinguir uma formulação infeliz de uma incompreensão profunda, perceber a lógica interna de um argumento ou reconhecer formas de pensamento que escapam a uma leitura fragmentária.

Quem corrige apenas um item não dispõe dessa possibilidade. Avalia uma resposta, mas dificilmente avalia um pensamento.O paradoxo torna-se então evidente. Em nome da objetividade e da precisão técnica, corre-se o risco de perder precisamente aquilo que a escola deveria procurar reconhecer: a qualidade do raciocínio, a integração dos conhecimentos e a capacidade de pensar.

Esta questão remete-nos para um problema mais amplo: a transformação da própria profissão docente.

Durante muito tempo, o professor foi concebido como um profissional dotado de capacidade de julgamento. O seu trabalho implicava interpretação, deliberação e responsabilidade. Esse julgamento não era sinónimo de arbitrariedade; assentava em conhecimento especializado, experiência profissional e critérios partilhados.

Nas últimas décadas, porém, tem-se afirmado um paradigma diferente. Inspiradas pelas orientações da chamada Nova Gestão Pública, numerosas políticas educativas têm procurado substituir a confiança nos profissionais por sistemas de controlo baseados em indicadores, protocolos e procedimentos padronizados. A promessa é conhecida: reduzir a subjetividade, aumentar a transparência e tornar os processos mais eficientes.Mas permanece uma questão fundamental: será toda a subjetividade um defeito? Ou existirá uma forma de julgamento profissional — fundamentada, escrutinável e responsável — que nenhuma grelha de classificação consegue substituir?

A obsessão contemporânea pela medição tende a esquecer uma evidência simples: nem tudo o que é importante pode ser decomposto em unidades independentes sem perda de significado. Uma sinfonia não é apenas a soma das notas que a compõem. Um romance não se reduz à soma das suas frases. Também um exame não é apenas a soma dos seus itens.A digitalização dos exames não é, portanto, o verdadeiro tema deste debate. Ela constitui apenas o instrumento que tornou tecnicamente possível aplicar à avaliação escolar uma lógica de organização do trabalho baseada na fragmentação, na especialização e na estandardização dos procedimentos.

Está em discussão uma escolha política e pedagógica sobre o significado da avaliação e sobre o próprio lugar dos professores na escola. Queremos docentes capazes de exercer um julgamento profissional sobre o conhecimento dos alunos ou especialistas na aplicação uniforme de grelhas de classificação?A questão que importa colocar é outra: quando nenhum professor lê integralmente uma prova, quem avalia verdadeiramente o pensamento do aluno?A resposta é, no mínimo, inquietante.Porque o que está em causa é mais do que uma inovação tecnológica ou um problema organizativo. Está em discussão uma escolha política e pedagógica sobre o significado da avaliação e sobre o próprio lugar dos professores na escola. Queremos docentes capazesde exercer um julgamento profissional sobre o conhecimento dos alunos ou especialistas na aplicação uniforme de grelhas de classificação?

A resposta a esta pergunta ajudará a definir não apenas o futuro dos exames, mas também o futuro da profissão docente. E da própria escola, enquanto espaço de formação do pensamento, de construção do conhecimento e de reconhecimento da complexidade humana que nenhum algoritmo ou grelha de classificação consegue inteiramente capturar.” (Público)

A Prodigiosa Transformação da Classe Operária em Estrangeiros

Este Sábado venham, se puderem, ver no acolhedor cinema Fernando Lopes o filme que irei comentar, A Prodigiosa Transformação da Classe Operária em Estrangeiros. O realizador Samir “utiliza fotografias privadas de família, animações, excertos musicais e material de arquivo inédito para contar, de forma envolvente e divertida, a história da migração dos vizinhos do sul da Suíça, desde o pós-guerra até à atualidade.”.