Vai haver uma Europa federal?

A minha intervenção no último apaga a luz sobre a Europa – as origens do pacto entre nações e dentro das nações entre classes, pós 1945. A sua quase impossível continuidade hoje, depois de 2008, porque é impossível manter lucros e salários, por um lado – as desigualdades aprofundam-se; porque o mercado proteccionista francês é incompatível com a política de exportações alemã.

Rentes ao fim do mundo

Amanhã são as eleições holandesas, a Holanda é uma das veias da Europa – saída natural geográfica do coração da comunidade do aço e do carvão, fundadora da CECA, isto é, da UE; e hoje – por extensão do seu domínio comercial – centro financeiro mundial. Não fazemos ideia de quanto do que consumimos e meios de pagamento circulam pelo porto de Roterdão ou pelas instituições financeiras Holandesas – não por acaso estão lá a maioria das grandes empresas do PSI 20 português. A Jerónimo Martins é uma espécie de sucursal da gigante mundial da distribuição holandesa, a Unilever, que circula os excedentes da Política Agrícola Comum e gere pagamentos.

O Porto de Roterdão, no delta do rio Reno, tornou-se a saída natural da região do Ruhr, ainda hoje o coração industrial alemão – todas as cidades pequenas juntas do Ruhr têm mais densidade do que Londres ou Paris e é no Ruhr – palco das guerras entre a França e a Alemanha – que está ainda hoje incorporada alguma da produção com mais valor agregado do mundo – pistons de aço de topo, trabalhados muito para além do milímetro, por exemplo (realizado por operários altamente qualificados cujos salários brutos podem atingir os 6 mil euros, para dar um exemplo). Estão em grande medida sindicalizados numa das mais fortes estruturas laborais do mundo, que financia o SPD alemão – o IG Metall. Os holandeses conquistaram pela força rotas comerciais aos portugueses, terão incorporado também algum do saber cartográfico e matemático de judeus expulsos da Península. Ainda hoje, ao lado da Sinagoga Portuguesa – Espinosa, nascido nos Países Baixos, era filho de judeus portugueses – dizia ainda hoje, ao lado da Sinagoga Portuguesa de Amesterdão está a estátua ao estivador, erguida em nome da maior greve contra o nazismo realizada na Holanda, em 1941, quando um decreto de trabalho forçado obrigada os judeus do porto de Amesterdão e operários navais de Roterdão a serem recrutados para os fábricas de guerra do expansionismo nazi. A greve contagiou todo o norte de Amesterdão mas como sabem foi derrotada. O balanço do nazismo são 60 milhões de mortes, foi a saída natural da burguesia e pequena burguesia alemão face à crise de 1929 e à luta dos operários contra o desemprego e a miséria.

A Holanda é uma sociedade mais conservadora do que parece. Amesterdão tem uma população rotativa de 50% – não é a Holanda. Amesterdão é um lugar turístico, com destaque para o turismo sexual e das drogas leves. Mas a Holanda é toda uma outra realidade. Uma política estatal financia os reformados com 700 euros mensais além da reforma, ricos ou pobres – mas uma mãe não consegue colocar os filhos na creche sem pagar em média uma brutalidade – 500 euros por duas tardes numa creche. Isto porque o desemprego baixo holandês é artificialmente garantido por uma política do Estado financiar que as mulheres fiquem em casa com os filhos – recebem para ficar em casa mas não para pagar a creche. 90% dos trabalhadores em part time são mulheres. Só 15% das professoras universitárias são mulheres e 1% catedráticas. Quando saem de casa ao fim de 4, 6 anos com os filhos as mulheres assumem trabalhos que são uma extensão do trabalho doméstico prévio –  são professoras, assistentes sociais, etc.

É uma sociedade rica, em média. Mas 20% dos trabalhadores ainda se encontram no sector industrial – empresas como a gigante Philips – e esta estatística mascara o facto de  que muitos sectores de indústria aparecem estaticamente como sector dos serviços. A Holanda tem uma das mais intensivas e desenvolvidas agriculturas mundiais, parcelada mas altamente produtiva. Um amplo mercado interno. Tudo indica que o voto na extrema-direita vem da chamada pequena burguesia xenófoba e proprietária, mas também do voto do partido social-democrata, no poder a partir da segunda metade dos anos 90. Grande parte da classe trabalhadora vota no Socialist Party, um partido de esquerda com mais representação hoje dos que os social democratas. Tem origem no maoismo, forte na Holanda e Bélgica na década de 70, mas tornou-se diria algo como um partido verdadeiramente social-democrata. O desastre do neo liberalismo, em suma, explica, mais do que as migrações, a ascensão desta direita assustada. Geert Wilders, o «Trump holandês» oferece proteccionismo,  expulsão e guerra como receita para o desastre neoliberal – está numa ponte encurralado, olha para um lado e vê social-democratas e liberais a salvar bancos, olha para o outro e vê operários e sindicatos desmoralizados com o fim do pacto social. Está disposto a fazer explodir a ponte.

Celebram-se agora os 60 anos do Tratado de Roma que fundou a CECA/CEE/EU, não foi o movimento operário directamente mas a II Guerra Mundial que colocou o proteccionismo francês e o expansionismo alemã numa rota obrigatória de cooperação. A crise de 2008 coloca-os novamente na rota da guerra. Wilders não vai ter votos para formar uma coligação. Não para já. Mas um alarme toca já em toda a Europa, mesmo que no grito desesperado e leviano  – sem outro fim que não o fim do mundo – de um escritor emigrante, Rentes de Carvalho. Vai a burguesia europeia suicidar-se como em 1939? E o movimento operário, ainda tão forte, no centro rico da Europa, vai deixar?

Visão Global entrevista

Não é, creio, a imigração que explica o reforço da extrema-direita, mas o desemprego e a incapacidade da social democracia garantir o pacto social e a mobilidade social. O Brasil e a Índia não têm questão migratória e viraram dramaticamente à direita. A quem queira rever a entrevista que dei ao Visão Global na Antena 1 sobre a Holanda e a extrema-direita, a Europa, as rotas de comércio e financeiras com epicentro no porto de Roterdão. e a composição social e eleitoral da Holanda, que vai a votos dia 15. Comentários do embaixador José Cutileiro.

http://www.rtp.pt/play/p282/visao-global

Uma Nova Portugalidade

A dimensão pública sobre o que se passou na FCSH obriga-me de facto a tomar posição. E a minha posição clara é a defesa solidária do meu director Francisco Caramelo da calúnia e perseguição que está a sofrer numa luta política que não olha a meios para atingir fins. A Nova Portugalidade é uma organização fascista que escreveu à FCSH dizendo que estaria a ser ameaçada e que ia levar seguranças privados para a conferência de Jaime Nogueira Pinto. O director, Francisco Caramelo, tinha três opções: ou chamava a polícia – coisa que nenhum director ousa e bem fazer para dentro de uma Universidade; ou adiava a conferência esperando menos barulho – o que fez; ou deixava ter lugar uma batalha campal entre os estudantes de esquerda e os de extrema direita acompanhados pela milícia privada PNR. Optou pela segunda. Daqui a dizer que censurou seja o que for é um passo intolerável – não é censura, é queima de bruxas medieval do bom nome de alguém. A triste atitude de Vasco Lourenço da Associação 25 de Abril ou o oportunismo do CDS, a rapidez com que todos vieram comentar o que desconheciam fazendo aquilo que o líder desta – até há 5 dias – seita extremista aconselhou no seu facebook a fazer: “foi cancelada, enviem para todo o lado, vai ser bom para a Nova Portugalidade”. A armadilha a F. Caramelo e à FCSH era óbvia. Quem nesta página me conhece pessoalmente sabe que nunca pautei o meu percurso académico com reverência ao poder hierárquico, seja de quem for.  Também não sou de nenhum dos partidos da Associação de Estudantes. O que escrevo aqui escrevi com absoluta convicção de que o director da FCSH foi colocado numa armadilha, da qual a única forma de não sair queimado era ter deixado acontecer uma batalha campal, que o PNR tinha preparado de antemão. Sobre isto deveriam os estudantes de esquerda e democratas reflectir: só se grita avante quando se tem tropas. Tomaram uma posição moral de não se opor a que JNP falasse mas que a Nova Portugalidade fosse proibida de utilizar a Associação como veículo de auxílio à organização – fizeram bem, a Universidade pauta-se por dar consequência à proibição legal de organizações fascistas. Mas com a extrema-direita não chega uma luta moral, há que ter força social organizada. Ideias, boas ou más, leva-as o vento, organização colectiva é o que determina o rumo das sociedades.
Com a mesma indignação que se disse alvo de censura e defensor dos valores democráticos o colega académico Jaime Nogueira Pinto deveria exigir que o PNR deixe de ameaçar fisicamente os estudantes de uma universidade, a FCSH – isso seria elevação democrática. No caminho deveria deixar claro que foi convidado pelo seu colega e nosso director a nova conferência, organizada pela direcção da FCSH e não por um seita extremista. Nem tudo vale na arena política. Aguarda-se também uma palavra de Vasco Lourenço, com responsabilidades históricas e tantos que sem ler ou saber apressaram-se a chafurdar na lama. É que se o caminho neste país é aproveitar todos os factos para promover a sua chafarica deixando na lama o nome não interessa de quem, vale tudo, porque os fins justificam os meios, então é caso para dizer que já estamos a viver…como direi…uma nova portugalidade.

25 DE ABRIL ROTEIRO DA REVOLUÇÃO

Uma viagem pelos lugares que marcaram a revolução em Lisboa, Porto, Santarém e Peniche. O que aconteceu em cada lugar, um guia da revolução, acompanhado dos testemunhos de civis e militares de quem esteve lá, e da análise histórica. Há três anos fui responsável científica da elaboração de um roteiro da revolução dos cravos nas comemorações oficiais dos 40 anos do 25 de Abril. Muitas razões adiaram a saída da obra que hoje chega às bancas, uma delas – importante – a nossa decisão unânime de não eliminar textos por pressões políticas e partidárias. Este trabalho foi realizado com o comissário arquitecto José Mateus e a artista plástica Susana Gaudêncio, duas pessoas que não conhecia então, e que foram companheiros de trabalho de uma enorme seriedade, esforço, dedicação, confiança. Isso, se me permitem, também se celebra porque o trabalho é um processo e não um resultado, não é só um fim mas um caminho. Chega hoje às livrarias, pela mão do editor da Parsifal, Marcelo Teixeira. Inspiraram-nos os trabalhos da Red Viena, ou da Red Amsterdam, roteiros históricos da vida do movimento operário nas cidades europeias. Mas este foi apenas o pontapé de saída porque a isto juntámos um conjunto magnífico de testemunhos dos que tiveram a sorte de viver esses dias em directo, bem como uma análise para o grande público de historiadores, sociólogos. Um obrigada imenso a todos os que se juntaram a nós neste livro, um Roteiro da Revolução dos Cravos.
Participam nele as caras mais conhecidas da revolução como as mais anónimas que estavam na sede da PIDE quando foi atacada por populares. Historiadores de carreira e jovens investigadores. O trabalho gráfico da responsabilidade da Parsifal é cuidado. Estamos muito felizes com o resultado.

PRESS RELEASE

25 DE ABRIL
ROTEIRO DA REVOLUÇÃO
de
JOSÉ MATEUS | RAQUEL VARELA | SUSANA GAUDÊNCIO

UMA OBRA INOVADORA QUE PERMITE REVISITAR OS LUGARES QUE MARCARAM UM DOS DIAS MAIS IMPORTANTES DO SÉCULO XX

INCLUI MAPAS, FOTOGRAFIAS E DEPOIMENTOS INÉDITOS

Jaime Nogueira Pinto e o Sentido das Proporções

Sobre a FCSH, minha Faculdade. Esta semana começa uma greve mundial, 3 horas na Europa, 1 em todo o mundo, contra o despedimento dos estivadores espanhóis. Na Suécia param em solidariedade com os de Espanha; na Nicarágua, na Austrália – em Lisboa contentores desviados de Espanha não serão descarregados. O sindicato já o disse, custe o que custar. Uma maré de mulheres saiu à rua em Espanha, com os filhos, e disse Nem Um Passo Atrás – não vai haver despedimentos.
Na mesma semana, uma greve internacional de mulheres ocorreu ontem pela primeira vez na história da humanidade, não foi um simples dia da mulher, partiu a ideia da Polónia e da Argentina e contagiou-se aos EUA – Angela Davis, a histórica líder do movimento dos direitos civis dos EUA, apelou a esta greve. A extrema direita é um surpresa crescente na Holanda que vai a votos dia 15 de Março. Em Portugal o tema mais lido é uma suposta proibição de JNP – com quem já debati em televisão – falar. Tem isto dignidade de horário nobre. Ou seja, é fazer do tempo de antena de grupos políticos honras de noticiário. O director da FCSH não proibiu – vou insistir Não Proibiu -, adiou a conferência e reiterou o convite a JNP para a fazer mais tarde. Podem concordar ou discordar mas foi isto que aconteceu. A Nova Portugalidade não é JNP, é uma organização fascista, que facilmente seria proibida pela Constituição.
Conferências “censuradas” na Universidade e conferencistas quantos são e foram ao longo da nossa vida académica!? Não digo adiadas, nem para mais tarde,  falo das que são: “não convidados”, excluídos nos comités científicos; desconvidados por “falta de verbas”, alimentando uma situação de competição interna por carreiras afuniladas que mina o ambiente de crítica universitária e de exposição aos pares do trabalho, a função social da Universidade como espaço de crítica e mudança. Quem vai jogar a primeira pedra? Nada disto é muito correcto e justificável, mesmo que aconteça com frequência, mas é importante termos no espaço público a dimensão das coisas. Sobre liberdade de expressão, todos os dias abrimos a imprensa sustentada pelos meios empresariais, acabámos de vir de um congresso de jornalistas que retratou uma situação calamitosa, é Jaime Nogueira Pinto que se torna exemplo e mártir em vez de os milhares de jornalistas que denunciaram pressões e dos leitores que já não têm o que ler?
É urgente ter capacidade para ver a relevância e a irrelevância de agendas políticas que são vertidas nos media, os spins e as agendas das agências de comunicação e lobbies políticos. No quadro dos problemas – graves – universitários ou da liberdade de expressão  em Portugal este não é certamente um «caso» de estudo. Não tenho aliás opinião sobre o tema – deveria ou não te sido adiada ou deveriam andar à pancada para a Nova Portugalidade ter o mesmo espaço que teve não andando à pancada? Não sei, nem me interessa. O tema é, desculpem, irrelevante – é um fait diver. Achamos mesmo que o assunto mais importante que aconteceu esta semana em Portugal e no mundo foi este?

Inferno Fiscal

Segundo a Tax Justice 32 000 000 000 000 (12 zeros) de dólares passam por paraísos fiscais e não são sujeitos a pagamento de impostos. De acordo com a ONU os offshores – criados com o mercado de euro dólares a seguir à guerra, ao Plano Marshall e ao plano de suporte militar norte-americano na Europa – lavam dinheiro, dividido em 3 origens, 50% corrupção, 25% no narcotráfico e 25% no tráfico de armas. É impossível, de acordo com as mesmas fontes, distinguir, a partir do momento em que o dinheiro passa num offshore, se se trata de dinheiro empresarial ou lavagem porque a essência deste mecanismo é justamente ocultar a proveniência. Ainda de acordo com as mesmas fontes a existência de offshores sobe 30% o valor do crude com efeitos em toda a cadeia produtiva e de distribuição, nomeadamente no preço de bens essenciais como alimentação.