Eu não esperei pelo Macron

Eu não esperei pelo Macron. Não esperaria pelo Macron para nada. Proibi os meus filhos de usar telemóvel no recreio e na escola e conto com uma ampla rede de cúmplices de professores e auxiliares há 3 anos, altura em que tiveram tal coisa. Em casa o limite são 30 minutos diários, nunca antes de deitar porque hiper-estimula e perturba a qualidade do sono, e jamais dormir com tal coisa no quarto. Sim, educar é escolher. Às vezes sem negociações. Porque eles não podem escolher? Porque não têm idade para escolher. Vão ficar traumatizados? Menos do que se ficarem horas a carregar no polegar e chamarem a isso “rede social”, “jogo”. Rede social é uma coisa que se constrói construindo relações, que se constroem brincando e jogando olhos nos olhos com os outros. Mexendo o corpo todo, fugindo e escondendo, chorando e provocando, saltando e rindo. O telemóvel é a aparência da relação. Já usei a palavra “construir” várias vezes nesta nota porque relações só existem para quem as constrói – não caem do céu. Os meus filhos brincam, correm, pulam, jogam. O telemóvel vai dar bons miúdos treinados para operários de automação. É esse o seu papel fundamental na sociedade infantil e escolar de hoje – treinar força de trabalho para um futuro fortemente mecanizado nas linhas de montagem, o “jogo” treina a obsessiva repetição da máquinas onde vão trabalhar. Sem abstracção e concentração. O fosso entre o trabalho intelectual e manual adensa-se. A consequência é obesidade, falta de força e coordenação motora, incapazes de se relacionar, e problemas neurológicos – olhem os estudos comportamentais da área que têm saído. Sim, devia ser totalmente proibido nas escolas. Dentro e fora das salas.

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Ciência com Vida

A Ciência com Vida pela mão de Isa Mestre entrevistou-me sobre a minha história de trabalho e vida, a casa, a família, o meio universitário e a relação entre a produção cientifica e as escolhas temáticas que escolhi estudar – trabalho e revolução. Quem queira ler, deixo aqui o link.
No fim do link há uma série de fotografias de infância que podem ser vistas carregando no cursor.

 

http://cienciacomvida.pt/raquelvarela/

Breve História da Europa

O meu novo livro Breve História da Europa chega esta semana às bancas. Foi na Europa, por europeus e contra, sobretudo, europeus que o maior genocídio da humanidade foi cometido, 80 milhões de mortos na Segunda Guerra. E foi na Europa que a mais avançada resistência social foi organizada desde a emergência dos sindicatos e partidos de trabalhadores no início do século até à Resistência ao nazismo ou a revolução na Hungria, para citar dois exemplos dos vários que percorremos neste livro.
A obra será apresentada pelo escritor e historiador Carlos Matos Gomes. Um dos mais irrequietos e críticos entre os intelectuais do país, o Carlos MG foi também um dos capitães de Abril.
Este livro começou com uma disciplina que leccionei no Brasil na UFF há alguns anos de História Social da Europa. Um obrigada a todos os alunos e colegas que me ajudaram a pensar a Europa. Não é um obrigada diplomático, foram alunos excepcionais em aulas com vista sobre o Corcovado que desafiaram-me com questões que tentei verter nestas páginas para todos. Pensei este livro para que pudesse ser lido por eles, pelos meus colegas, mas também pelo público em geral, pelos trabalhadores manuais e intelectuais dentro e fora da Europa que querem compreender esta parte da nossa história comum.
Convido os meus queridos amigos que seguem esta página, não podendo dirigir-me cada um de vós, para se juntarem a nós.
Dia 2 de Junho às 18 horas no Pavilhão da Porto Editora Autores que Nos Unem.
Um obrigada ao meu amor Roberto Della Santa, e aos meus editores Eduardo Boavida e Bárbara Soares, incansáveis.
O livro é dedicado aos meus pais, dois apaixonados pela Europa e que nos deixaram isso nas viagens fora de rota, de carro, que fizeram connosco pelo Continente e onde sempre nos ensinaram que não existe uma Europa única, não existem só «esses terríveis genocidas europeus« como hoje adora o nacionalismo periférico nem «esses valores universais europeus» como insiste um saudoso imperialismo. Na Europa há de tudo, em viagem eu e o meu irmão fomos ensinados «aqui foi a Batalha do Ebro, os bravos republicanos…ali os nazis, esses ca%&#…». Eu ainda não sabia escrever bem e já conhecia a reprodução da Guernica, que ainda hoje ocupa um lugar cimeiro nas paredes da nossa casa; tínhamos os romancistas da resistência francesa nas estantes e quando a minha mãe voltou de estudar da Dinamarca nos anos 80, mestrado creio, institui o pequeno-almoço germânico, que ficou para sempre nosso. Dos glaciares de Chamonix às províncias áridas da Espanha profunda, da França camponesa à Suiça da Heidi, a Europa na minha casa já era um lugar que desejávamos unido, justo e em paz. Foram os meus pais, na sua infinita curiosidade e amor genuíno a conhecer os outros, os primeiros historiadores da minha vida.

Irlanda!

Feliz com o resultado do referendo do aborto na Irlanda – grande passo em frente. Mary Burns, amante operária irlandesa de Engels, ia gostar de ver este dia chegar. Ontem lembrei- me dela, que olhava o futuro – que não existia nos pensamentos de quem vive um eterno presente- com uma determinação como só os grandes utopistas são capazes. Esteve um século à frente da sua sociedade.

 

https://en.m.wikipedia.org/wiki/Mary_Burns

O patrão-trabalhador-camionista

O Brasil esteve parado com uma greve de camioneiros. Confesso que sou fã de comboios. O transporte ferroviário devia ser soberano, é ecológico, confortável, faz pouco barulho, adoro comboios. Mas esta greve é finalmente um sinal de força num país que precisa mais do que outros com urgência dessa força. Não somos todos iguais, há sectores muito mais fortes do que outros. O governo Temer que assiste impávido a greves de dois meses de professores entrou em pânico com os camionistas, porque eles param o país, são uma força objectiva, não têm medo, e têm um muro defensivo de escudos na mão – os próprios camiões. Os camionistas não podem ser esmagados como Temer faz com professores – quilos de gás lacrimogéneo atirado sobre professores, na maioria mulheres desarmadas. Se as crianças da escola pública estão dois meses sem aulas Temer olha para o lado, o seu filho está em escolas com professores bem pagos, sem greves. Mas os camionistas param até o helicóptero onde Temer se desloca, voando diariamente sobre a barbárie do país que quer agora privatizar a Petrobrás.

Um sector, não sei se de esquerda se de direita – acho que eles também não sabem, a confusão é cada vez maior – veio porém lembrar Allende no Chile e denunciar os camionistas. Previsível. Aqui em Portugal durante o Governo de José Sócrates passou-se o mesmo, os camionistas entraram em greve contra o constante aumento dos combustíveis que fazem do grupo Amorim o mais rico do país e tornam a vida das pessoas comuns e das pequenas e médias empresas insuportável. Estamos aliás numa nova fase de comer e viver pior para pagar estas rendas fixas concessionadas pelo Estado, com a gasolina a atingir preços exorbitantes que resultam no aumento de todos os preços, até das maçãs e legumes. A CGTP, maioritariamente dirigida pelo PCP, veio nessa altura explicar que a greve dos camionistas era um lock out “porque eles eram patrões”. Ora, passa-se que as grandes empresas de transportes não aderiram a essa greve, de 2008, que foi protagonizada por pequenos camionistas, ex trabalhadores das grandes empresas.

É fácil de compreender – a grande empresa no final dos anos 80 chamou os camionistas, deu-lhes o camião, em muitos casos deu mesmo, para que ele se tornasse patrão dele próprio. Além do salário para se bastar passou este novo patrão a pagar a segurança social, as revisões do camião, caríssimas por causa da quantidade de pneus a trocar, etc. Para sobreviver teve que chamar o filho e o irmão que rodam 24 horas por dia, martelando, alegadamente os controlos digitais que limitam a condução. Mesmo assim vivem pior do que quando eram trabalhadores. Embora juridicamente sejam patrões na verdade são trabalhadores. Porque não se acumula capital nestas “empresas”, circula capital – o que é muito diferente. Estes trabalhadores-empresários não controlam tempo, serviços, clientes, nada – pagam contas, cada vez mais contas. Mas há um sector que adora inventar inimigos, mulher/homem, branco/negro, intelectual/manual, agora «perigosos patrões». Tudo o que possa ser usado para desmoralizar categorias que finalmente se erguem contra injustiças elementares é esgrimido. Também ouvi o argumento de que estiveram contra Dilma, ops, então nós não somos os maiores defensores da independência dos sectores profissionais face a qualquer governo como condição elementar da sua democracia?

Um dia terei tempo para vos dizer ainda que Dilma e Allende são incomparáveis, Allende tem um lugar merecido na história. Ainda assim Allende falhou com os camionistas Chilenos e isso foi parte da tragédia que se seguiu, não foi o seu maior falhanço, como como sabem bem os marinheiros, os que não morreram. Deixo isso para outras núpcias, porque nos dias que correm cada assunto complexo tem que ser partido em dez pedacinhos – algumas pessoas têm horror a histórias reais feitas de pessoas reais e que não cabem naquela caixinha fechada em autoclave. Podem os camionistas brasileiros sair desta greve com um subsídio às empresas que vai ser sustentado pelos trabalhadores? Podem. Tudo é possível, mas se forem abandonados como “perigosos capitalistas”, uns desgraçados que vivem na estrada a conduzir 12 a 14 horas às vezes, garantidamente o resultado vai ser mais subsídios. A vida é como ela é, e só é para quem está lá na hora certa, sem tremeliques.