Ver para crer

Estou como muitos a ver o cortejo há uma hora, e estou muito surpreendida. As ruas, até agora, estão quase vazias. Porém, há 4 dias que a cada hora há uma mobilização de todas as televisões para a participação popular no funeral, com pedidos explícitos de participação, com hora e detalhe do local do cortejo, mapas indicativos. Não é, até agora, o funeral de Costa e Buiça, de Cunhal, de Amália ou de Eusébio. Não sei qual a razão. Porque o PS deixou de ter força mobilizadora, nomeadamente nos sectores médios que antes estavam sob direcção sindical do PS (professores, funcionários públicos, bancários, seguros, etc); porque os retornados vivem na memória do império; porque a separação entre a política e a população é cada vez maior; porque as alianças à sua esquerda e direita nunca foram assumidas pelos militantes; porque o projecto que Soares acarinhou, um capitalismo regulado e solidário à escala europeia, não existe mais. O facto é porém indesmentível – até agora trata-se de um funeral de Estado, de figuras da política e das instituições, não é um funeral popular. Os comentários dos jornalistas que acompanham o cortejo são por isso quase esdrúxulos, falam da «emoção dos populares» e a imagem é de algumas centenas de deputados nas escadas da entrada da AR, os «populares». À volta está tudo vazio e lá em baixo alguma dezenas de pessoas numa fila única junto ao passeio. A Rua de São Bento está vazia. Vazio estava o jardim de Belém. O largo do Rato, sede do Partido, tem algumas centenas de pessoas e os jornalistas dizem «está repleto». Cabem todos nos passeios.
Não acho que um homem vale pelo número de pessoas que vão ao seu funeral, felizmente – mas relatar o que não se vê deixa-me perplexa.

À procura do pai

Estou a escrever sobre Soares. Fui ao baú do (muito) que investiguei sobre ele durante o biénio 1974-1975, a razão é que fiz a minha tese de doutoramento sobre o mito no qual Soares se ergue, o do que o PCP queria tomar o poder. O de que havia o perigo de Moscovo tomar conta do país. O PCP e Moscovo queriam Angola, aqui queriam direitos laborais e sociais. Não conteve, o PCP, um sector do seu partido e sobretudo não conteve o movimento de trabalhadores que construíram, contra o PCP e o PS, um poder dual no país contra o Estado – que aprovava uma lei e nas fábricas não se cumpria. Bom, mas hoje é quase impossível perante os gritos de amor e ódio, veneração acrítica e infantilidades que tem quem desconhece a história, escrever – o ruído é quase esmagador. Há algo porém que posso já escrever. Soares não é o pai da democracia, isso é ridículo. Nem ele, com a sua maleabilidade de alianças, e táctica e paciência, jamais aceitaria tal designação. Porque isso transforma a democracia numa oligarquia unipessoal. Contra a qual ele, que eu não apoio nem nunca apoiei, lutou. Porque Soares era um defensor do capitalismo regulado, social democrata, contra uma direita que era a favor do capitalismo com uma ditadura, que pela proibição de partidos e sindicatos regulava o preço do salário. O sonho de Soares – capitalismo de rosto humano, pacto social entre lucros e salários – ruiu com ele vivo, em 2008, mas que ele acreditava nisso, acreditava. Nunca acreditou em poderes pessoais. Chamar-lhe «pai da democracia» não é um exagero da hora da morte, quem nos dera que fosse só isso! Esta ideia de «obrigada, pai da democracia», uma democracia que tem origem em 13 anos de luta dos trabalhadores forçados das colónias, dezenas de milhar de mortos negros e quase 10 mil portugueses, para defender o grupo CUF e mais 4 famílias, lutas dentro do exército – o MFA não arriscou a prisão mas a vida! – e direitos conquistados nas ruas (vou repetir, os direitos democráticos, de associação, reunião, etc, foram conquistados nas ruas!) é o que ainda temos do país de Salazar. À procura do paizinho, ….sempre de costas dobradas a agradecer ao poder.

Abstinência sexual? Cuidado, afecto, segurança…

Vim em defesa do CDS sobre a abstinência sexual – antes de me crucificarem, logo a mim, uma ateia, a favor do aborto, deixem-me explicar-me. A primeira razão é que ninguém leu o comunicado, muito menos o jornalista que fez o título bombástico. E devemos enfrentar os desacordos com honestidade, não deturpando a mensagem porque não gostamos do mensageiro. Há uma pressão social entre os jovens para a vida sexual começar cada vez mais cedo – isso é um erro porque o ganho da humanidade com as crianças no último século foi justamente tirá-las do mundo do trabalho e estender a parte de educação e protecção, o que teve como consequência o aumento do tempo da infância. Exagerámos, uma vez que esta infância está a chegar aos 40. Exagerámos porque não associamos direitos a deveres. E porque somos patologicamente narcisistas e queremos é amor, ou simulacro de amor sem conflitos. Mas não quero fugir do tema. Educar sobre sexo, como?

O CDS é um partido rentista, não vivem sobretudo do trabalho mas da remuneração da propriedade que herdaram, seja em terra seja em títulos de acções – nada explica tão bem os interesses que representa como a subsídio-dependência dos seus membros da CAP (agricultura) para receber dinheiro dos impostos da UE para pararem de produzir – vivem portanto não de trabalhar mas da renda da propriedade da terra, terra que, lembro, Deus deu à humanidade. A sua relação com a terra – que depois se ampliou para rendas móveis (sector financeiro, dívida pública, PPPs, imobiliário) leva-o a procurar conservar uma estrutura de família onde a todo o custo se impeça a divisão desta propriedade. Esta excrescência semi feudal faz com que a relação entre o partido e o fundamentalismo cristão – da Opus Dei, por exemplo -, seja uma constante. É por isto que o CDS vem defender a abstinência sexual. Ou seja, pelas piores razões.

Mas…As relações voláteis, superficiais de hoje são a cara da velocidade da rotatividade dos capitais, tudo é para trocar rapidamente – isto teve como consequência uma diminuição da educação como cultura e um retorno paulatino ao estado selvagem da humanidade na educação das crianças que é «deixá-las fazer o que querem» – algo que não existe porque elas não sabem o que querem, elas querem um conjunto de valores, princípios, regras que adquirem do mundo em que vivem. Não há vazio. Estão assim em modo de auto gestão, o que faz com que estejam a retornar a hábitos e formas de estar essencialmente instintivas e repetitivas – comem mal, dormem mal (quando querem), pensam mal. A cultura, enquanto construção, isto é, a contrariedade da natureza e dos instintos, está cada vez mais ausente. Isto faz com que uma criança de 14, 16 anos seja infantil, não tenha responsabilidade sobre trabalhos na escola ou em casa (o que acho errado mas muitos parecem achar normal), mas tenha relações sexuais, o que muitos acham normal ou inevitável.

Ora, a ideia de que a educação sexual deve contemplar que ninguém tem que ser «careta» porque começa a ter relações sexuais aos 18 ou 20 anos não é, desculpem, errada. Ideia errada é a pressão que há entre os jovens, muito jovens, de que o sexo é tão natural como não se levantar do sofá para ir buscar um copo de águia e pedir à mãe para o trazer… Tão natural que a pergunta «és virgem?» ou é respondida com uma mentira, ou com álcool (dizem os estudos, não eu) ou com medo, medo de dizer que não é virgem. A palavra abstinência é má, mas as palavras cuidado, segurança, atenção, confiança, são boas. O sexo acima de tudo é uma decisão de liberdade, portanto não pode ser tabu, nem para proibir nem para impor. A educação sexual ideal seria para mim a que fala de saúde, reprodução, prazer e corpo, amor e liberdade. Tão mau como um mundo onde o prazer e o amor são tabus, proibidos, ou os casamentos se prolongam para salvar heranças de família (ai ai CDS…), é um mundo onde uma claque de miúdos ditos modernos define qual é a idade para alguém começar a ter relações sexuais e a partir de que data ele começa a ser um careta…

Pausa
-1:37

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Raquel Varela
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A Velocidade como notícia

Queremos notícias rápidas, queremos compreender e formar opinião em minutos, se possível segundos. É impossível – há coisas na vida que exigem tempo para ser compreendidas – o meu comentário no vídeo em anexo sobre o uso de imagens excessivas de forma repetida. O jornalismo que faz da notícia a morte em directo do Embaixador em vez da relação de forças Turquia/Rússia corre o risco de não ser informação mas entretenimento, violento ou não.
A tese que referi no nosso programa é esta, foi uma sugestão do investigador Roberto Della Santa Barros e é de uma investigadora brasileira com quem entretanto troquei algumas linhas e que por falta de tempo não referi no vídeo em baixo mas aqui fica. ““Profissionalismo” e “objetividade”: o jornalismo na
contramão da política. Sylvia Moretzsohn. Universidade Federal Fluminense”. Está em acesso livre na net.
O programa em causa é o Último Apaga a Luz, na RTP 3, onde participo todas as semanas e dá ás sextas-feiras à 1 e 30 da madrugada, com repetição ao sábado às 13 horas.

Filhos, sinal exterior de riqueza

Entre o Natal e o Ano Novo estive de férias. Fiz com os meus filhos o que queria fazer. Fui a bons concertos, adequados a eles, claro; levei-os a ver bons filmes (Ken Loach, Kusturica e Chaplin), cozinhámos juntos, tocámos piano, e sai música de lá!; andámos de trotinete; fizeram surf; até um cavalete de pintura comprámos, onde, com um livro de arte na mão, treinámos as primeiras tentativas de pintura a óleo; convidámos os amigos deles para sair; brincaram e passearam com a família, as primas, que adoram; lemos, muito, e conversámos sobre a leitura, jogámos cartas. Só em três idas ao cinema gastei quase 60 euros porque pagam como adultos; como algumas das vezes convidei os amigos, subiu para 100 euros, 20% do ordenado mínimo – ir ao cinema! Ah, têm 12 anos, mas pagam tudo como adultos: subir o elevador da bica – 3,70 cada; o bilhete de comboio da linha para Lisboa – nesse dia levei 4 crianças, 17 euros ida e volta; a entrada no castelo custa 8,50 para adultos – não entrámos, há limites…Juntem pinturas, pincéis, concerto, livros…A única coisa gratuita foi o Museu do Aljube, que adoraram, e as igrejas de Lisboa. Juntem uns gelados banais, uns hambúrguers, um chá com bolo em Alfama, sem luxos, passear na nossa cidade. Se tivesse ficado em casa tinha comprado duas playstation, uma para cada um, que os «educavam» o ano inteiro…Há muito tempo que tento dizer isto quando oiço dizer «no país há pobreza mas todos têm um bom telemóvel» – não há nada tão barato para educar filhos como Televisão e jogos de computador e telemóveis. É aí, no aumento da produtividade dos pais, no catatonismo anti-social e virtual dos filhos, que reside o boom das novas tecnologias para crianças que, ainda por cima, actuam no cérebro exactamente como uma droga, promovendo mecanismos de recompensação e satisfação ao nível do cérebro cada vez que estes tocam num botão e o boneco salta, porque o objectivo foi alcançado.
 
Esta nova onda de babysitter electrónica é o espelho não da potencialidade da modernização mas da sua decadência. E deixem-me colocar o dedo na ferida – os pais, cansados, desanimados, com pouco dinheiro, desmoralizados e sem vontade de educar com conflitos, nãos, e outras resistências, serão os primeiros, porque a perversidade humana é uma linha ténue, a dizer «eles querem ficar em casa a jogar». Eles querem? E onde é que eles escolhem? E como escolhem? «Os pais submetem-se e submetem os filhos», disse-me uma vez o psicanalista e pedo psiquiatra Coimbra de Matos – os salários e o tempo de trabalho no país são vergonhosos. E o modo de vida que incorporámos para aceitar isto é regressivo, decadente. Viver está a ficar insuportavelmente caro neste modo de acumulação onde as necessidades humanas são todas mercantilizadas, até aquela que levou milhares de anos a conquistar – o direito à infância. Ter filhos e conseguir educá-los com humanidade, com relações reais, com aprendizagem e não com repetição de mecanismos, no fundo educar filhos com trabalho vivo (humano) e não trabalho morto (máquinas) é hoje um sinal exterior de riqueza.

Ainda mal começou o revisionismo de 1917…

O Expresso escolheu fazer a biografia do coveiro da revolução russa – Estaline – que em 1928, depois de expulsar a Oposição de Esquerda, iniciou a longa marcha do trabalho forçado na URSS – Estaline. O líder da casta burocrática que chamava socialismo à acumulação particular de uma ínfima minoria, em cima de uma ditadura. Mandou fuzilar quase todo o comité central bolchevique e lideranças do exército vermelho nos processo de Moscovo. Foi portanto não o líder da revolução mas a cabeça da contra revolução. Não escolheu fazer a biografia do líder, Lenine, ou do líder da Oposição de Esquerda, Trotsky, um dos maiores generais da história que não só liderou a revolução como durante mais de 2 anos a bordo de um comboio derrotou mais de uma dezenas de exércitos contra revolucionários. É ainda o maior teórico do século XX, na minha modestíssima opinião que tive a sorte de ler uma parte muito pequena do que escreveu, a começar pela monumental obra História da Revolução Russa que por cá nem está publicada mas é de leitura obrigatória em algumas universidades norte-americanas – ah, a sabedoria do império! O Expresso convidou ainda um ex trotskista – Francisco Louçã – e um «herdeiro» dos exércitos brancos, Paulo Portas, para prefaciar a obra Estaline. Começa assim a celebração historiográfica da maior revolução da história da humanidade. E ainda só é dia 3 de Janeiro. Quando chegarmos a Dezembro o Hermitage não vai ser um palácio com lustres de ouro, pedras preciosas e 12 tipos de madeiras em cada chão trabalhadas à mão, com cristais nas paredes, construído em centenas de anos de servidão, mas um distinto albergue social. Estaline, que levou a Rússia para a II Guerra, ao não ter apoiado a frente popular francesa, a revolução espanhola e depois do desastre da política da Internacional comunista na Alemanha ainda vai acabar este ano como o herói que venceu a II Guerra…O que dá jeito hoje é propagar esta mitologia da historiografia liberal de que a revolução russa – 1917-1927 – é igual à contra revolução russa 1927-1991 – para que a barbárie que vivemos jamais seja questionada recorrendo aos melhores exemplos do passado. E, claro, dizer que dentro de cada socialista há um Estaline escondido. Mesmo que os socialistas tenham todos sidos mortos por…Estaline.

Na Via Láctea

Na Via Láctea – não percam: obra prima do Kusturica. Em cartaz. Um espécie de tese de doutoramento da Rosa Luxemburgo num filme politicamente incorrecto, brutal, excessivo, hilariante e muito bem humorado sobre a guerra sem fim, em que os mais fortes soldados têm como nome de código Sócrates e Homero; a galinha deixa os filhos morrer porque afoga-se na própria imagem; o urso, o mais solitário e selvagem dos animais não consegue chegar à barbárie humana; a matança do porco é uma brincadeira perto da guerra; e o amor, o amor a salvação. É uma visão apocalíptica da luta de classes porque na verdade ambas as classes colapsam, sobram pedras no lugar da matança, não há vencedores. Não é a minha visão do mundo mas é uma visão possível. Feita com genialidade. Paisagens magníficas, banda sonora de dançar na cadeira do cinema; fotografia…Tudo. Obra prima.