Quem Paga o Estado Social em Portugal?

Passaram neste mês 5 anos da primeira edição de Quem Paga o Estado Social em Portugal?
CRÍTICAS
«Evidencia-se a utilização do endividamento público meramente como um instrumento de mercado que possibilita a extração de recursos públicos e justifica cada vez mais a adoção de reformas neoliberais (…) Este livro instiga ao questionamento daqueles que trouxeram as economias dos nossos países ao atual estágio da crise.»
Maria Lucia Fattorelli, coordenadora nacional da Auditoria Cidadã da Dívida, Brasil, auditora fiscal.
«O dinheiro, enquanto dinheiro, não rende nada, ele não se multiplica nem se reproduz.»
Paulo Nakatani, economista
«A principal descoberta destes estudos é que os impostos cobrados aos assalariados equivalem aproximadamente aos gastos que lhes são dedicados.»
Anwar Shaikh, economista, editor associado do Cambridge Journal of Economics.
«A exportação dos custos das crises para os países periféricos foi um dos recursos históricos dos países centrais para preservar a governabilidade o centro do sistema. Mas teve e tem, também, os seus limites.»
Valério Arcary, historiador
«Este livro prova com números e factos que os trabalhadores portugueses contribuem para o Estado social o necessário para pagar a sua saúde, educação, bem-estar e infraestruturas.»
Os diversos artigos dos autores deste livro documentam o percurso que acompanhou a consolidação do Estado Social e a importância das contribuições dos cidadãos ao longo de décadas indicando que a solidariedade social é imperativa. Também se destacam as constantes ameaças das políticas neoliberais à consolidação do Estado Social sobretudo a partir da década de 80 em todo o mundo, e que se aprofundaram ainda mais a partir da atual crise que eclodiu em 2008. Um estudo que tenta analisar alguns dos principais equívocos associados às análises economicistas justificativas do fim do Estado Social tantas vezes evocadas como se se tratassem de uma força invencível da Natureza – o Estado-providência teria fim à vista por não ser financeiramente sustentável, por provocar monstruosos défices orçamentais, estagnação económica, crescimento da dívida pública, etc. (…) Este discurso neoliberal cria uma cortina de fumo sobre a realidade que importa aclarar.
“A divida não é pública, é um mecanismo de acumulação de capital, ou seja é uma renda fixa para quem detém os títulos da dívida. A dívida produz juros e esses juros significam uma renda fixa para quem compra os títulos, nomeadamente o setor financeiro” disse à Lusa a historiadora Raquel Varela, da Universidade Nova, e coordenadora do trabalho publicado em livro e que é apresentado hoje em Lisboa.
O livro socorre-se de dados do Instituto Nacional de Estatística e do Eurostat, estabelece a relação “desigual” entre os impostos pagos pelos trabalhadores e os serviços prestados pelo Estado a que os contribuintes têm direito e conclui que o sistema está a “roubar” os cidadãos.
“É um sistema semi-moribundo, sobretudo depois da crise de 2008 que, para não morrer, socorre-se dos impostos. No livro, os modelos e as contas que foram feitas não são modelos marxistas que vêm da fórmula clássica de `que só o trabalho produz riqueza`, nem são modelos qualitativos” explica Raquel Varela.
Segundo a historiadora, mesmo fazendo as contas do “ponto de vista liberal” os trabalhadores estão a ser roubados e não devem nada a ninguém e isso leva à questão da dívida pública.
“A dívida pública é uma forma de acumulação de capital e com formas um bocado primitivas que é quase de expropriação. Para a dívida pública ser elevada e para o pagamento da dívida pública poder existir – para o pagamento do juro existir – tem de se expropriar os trabalhadores do seu salário direto através dos impostos ou dos cortes salariais e do seu salário social” refere a coordenadora do livro.
Sendo assim, áreas como saúde, educação, estradas, bem-estar, saneamento, segurança social e que são pagos pelos trabalhadores, são transferidos para um mecanismo de renda fixa que são os juros da dívida pública.
“Esperamos é que a discussão deixe de ser qual a parte da dívida que é legítima e que não é legítima e que passe a ser: quem deve dinheiro, porque esta chantagem sobre os trabalhadores de que a dívida pública subiu porque os trabalhadores andaram a gastar mais é falsa. Do ponto de vista económico é uma falsidade”, acusa Raquel Varela.
“A dívida pública subiu em 2008 quando o Estado socorreu o setor financeiro, até ao momento isso não se passava e os trabalhadores não andaram a gastar de mais”, afirma a historiadora que defende a reflexão sobre um novo modelo de sociedade.
“Nós temos de repensar um modelo de sociedade em que toda a gente trabalhe menos. Não podem uns trabalharem 16 horas e outros nada. O desemprego vai aumentar porque estas são medidas recessivas e isso implica desemprego. Na verdade, aquilo que se verifica na Europa do Sul é aquilo que já se verificava nos países periféricos. O desemprego é estrutural e veio para ficar. Portugal tem excesso de mão-de-obra”, propõe Raquel Varela.
“Isto não é um modelo de sociedade que traga bem-estar às pessoas. Assistimos no país a fatores que nos deviam deixar apreensivos como o facto de abrirem cantinas porque o salário mínimo é tão mínimo e o desemprego é tão grande e os rendimentos sociais de inserção são tão vegetativos que há fome num país que tem toda a tecnologia para produzir o que se quiser” conclui Raquel Varela, coordenadora do livro “Quem Paga o Estado Social em Portugal”.
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Seminário Internacional: Esquema Financeiro Fraudulento e Sistema da Dívida

Estimados colegas,

Em Novembro estarei em Brasília, no Senado Federal – Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa , a apresentar os resultados de Quem Paga o Estado Social em Portugal/ estudo da segurança social/estudo da evolução dos custos na saúde no SNS Português numa comissão internacional sobre a auditoria à Dívida pública de Portugal, Grécia e Brasil.

Apresentaremos também aí pela primeira vez a análise – e tradução (pela primeira vez) para português – de contratos sobre a dívida pública portuguesa com o Luxemburgo/Estatais não dependentes para securitizar dívida activa em Portugal.

Analisaremos com destaque o impacto desta nas condições de vida e trabalho da sociedade portuguesa.

O evento conta com a coordenação da Dra Maria Lucia Fattorelli, coordenadora internacional do estudo da dívida pública grega e com a ex presidente do Parlamento Grego, Zoe Konstantopoulou, o economista Michael Roberts, além da participação da Ordem dos Advogados do Brasil, e dos Auditores Fiscais.

Em link o programa

Saudações académicas
Raquel Varela

Seminário Internacional: Esquema Financeiro Fraudulento e Sistema da Dívida

https://www.sympla.com.br/seminario-internacional-esquema-financeiro-fraudulento-e-sistema-da-divida__199819

Seminário de História Política

Queridos amigos e colegas, farei a abertura do seminário de História Política em Salvador e darei um curso de dois dias na Universidade Federal da Baía sobre revoluções na história do século XX. As inscrições podem ser feitas no site. Organização do historiador Carlos Zacarias.
Estarão na conferência Muniz Ferreira, Valerio Arcary, Demian Melo, Aruã Lima, Igor Gomes, Marcelo Badaró, Pablo Pozzi, Fernando Penna, Rodrigo Ricupero, Cristiana F Lyrio Ximenes.

IV Conferência Internacional Greves e Conflitos Sociais

Está aberto, até o dia 10 de janeiro de 2018, o prazo para submissão de propostas de trabalho e de mesas redondas para a IV Conferência Internacional Greves e Conflitos Sociais, promovida pela Associação Internacional Greves e Conflitos Sociais (IASSC, na sigla em inglês), e a ser realizada de 10 a 13 de julho de 2018, na FFLCH/USP, São Paulo, SP, Brasil. Esta é a primeira ver que o evento ocorrerá fora do continente europeu. É possível submeter propostas aos 10 grupos de trabalho que irão compor a programação e também propor mesas redondas. Serão aceitas propostas em português, espanhol e inglês. Para conferir regras de envio das propostas acesse a chamada de trabalhos completa disponível em: http://bit.ly/IASSC2018. Convidamos todos os Colegas a divulgar e participar!

http://www.iassc2018.sinteseeventos.com.br/site/capa

Contra a expropriações dos pequenos proprietários

Um testemunho de um pequeno proprietário contra as expropriações propostas pelo Governo, mas que circundou a propriedade de carvalhos:

Cara Professora Raquel Varela.

Venho por este meio agradecer o seu texto “O comboio a arder vem em sentido contrário”. Finalmente encontrei alguém que passou a escrito alguns dos factos, interrogações e alternativas ausentes na maioria dos artigos, reportagens e debates sobre o mundo rural/floresta efectuados nos últimos meses.

Intervenções estas em grande parte efectuadas por “opinion makers” (sempre as mesmas caras) a soldo das industrias da celulose, debitando factos falsos sem qualquer contraditório e por políticos, de todo o espectro partidário, defendendo a expropriação em massa como a única solução possível (Francisco Louçã foi uma das raras excepções que aludiu desde cedo para este abuso).

É exactamente esta última o ponto mais grave e que poucas intervenções têm abordado. A tragédia dos incêndios de 2017, fomentada por décadas de políticas incorrectas de gestão florestal e más prácticas económicas, não foi uma tragédia para todos.

Para quem se informa, está atento aos acontecimentos passados e tem boa memória, foi fácil de constatar (desde o incêndio de Pedrogão) que esta era a oportunidade ideal que tantos esperavam e aparentemente preparavam com antecedência (basta ver o explicito programa político do CDS-PP, ou os discursos mais tímidos do PS e PSD, mas aliados às concessões feitas a certos grupos do sector florestal).

Graças ao horror que atingiu as populações, manipuladas pelo número de mortes e bombardeamento diário de imagens dramáticas e mau jornalismo pelos média, foi finalmente atingindo um objectivo até à data impensável.

Num país marcado pela presença da pequena e média propriedade, em grande parte do seu território, e de populações ciosas dos seus respectivos direitos, conseguiram finalmente preparar o caminho para que a mesma seja expropriada em massa em prol do latifúndio agro-industrial.

Podemos alegar que estas medidas irão enfrentar forte resistência por parte das mesmas populações, mas desde a década de noventa que o interior se desertifica a passos largos e se transforma num vasto deserto verde controlado (mais ou menos directamente) por grandes grupos económicos.

Não lhe querendo tomar mais do seu tempo, deixe-me somente partilhar uma pequena estória pessoal ocorrida nos últimos dias, numa das áreas mais afectadas pelos incêndios na Zona Centro.

Tenho em conjunto com a minha mulher uma pequena propriedade rural. Esta é composta por uma parcela com terras de pasto englobando vegetação autóctone (carvalhos, sobreiros), mas quase toda cercada por uma enorme mancha de acácias (espécie invasora e altamente inflamável).

Todos os anos investimos o nosso tempo e verbas na limpeza do mato e na manutenção das espécies autóctones, que consideramos uma mais valia por razões éticas e económicas. Sempre sofremos críticas por não “aproveitar bem a terra” e perdermos dinheiro e tempo em limpezas.

Segundo estes “especialistas” o correcto seria substituir todas as espécies autóctones por eucaliptos ou plantar uma cultura inútil qualquer, desde que fosse subsidiada pela PAC. Resistimos à pressão e fizemos à nossa maneira.

Segunda-feira passada fomos ao terreno ver os estragos. No meio de uma desolação de terra calcinada, que se assistia por quilómetros, vislumbramos a nossa propriedade quase sem marcas dos efeitos do fogo.

A pequena edificação de apoio agrícola estava incólume, as árvores autóctones chamuscadas pelo fogo rasteiro, mas vivas. Alguns dos sobreiros na periferia, que tinham estado em contacto com o fogo mais intenso, tinham o tronco carbonizado. Constatámos que raspando um centímetro deste carvão surgia uma cortiça perfeita por baixo. A constatação de milhões de anos de evolução, num clima dominado por fogos estivais, contra a opinião dos grandes especialistas da celulose que juram, quase diariamente, que o montado arde mais que as plantações ordenadas dos seus amos e senhores (sem nenhum jornalista questionar por porque motivo, a ser verdade, o montado ainda dominar no Alentejo).

Verifiquei em primeira mão que a aposta em espécies autóctones e a manutenção florestal não são mitos, aparentemente até funcionam. Porém não vejo exemplos idênticos nas televisões que inspirem, dêem esperança e eduquem.

Vejo apenas velhotes cansados, que só pararam de amanhar os terrenos quando ficaram sem forças e sós na sua aldeia, a serem apresentados quase como criminosos pirómanos. Vejo empresários regionais “empreendedores” a choramingar compensações, só porque que acharam que o melhor sítio para instalar um empresa que trabalha com materiais altamente inflamáveis era o interior de um eucaliptal ou pinhal cerrado (sem ninguém questionar o trabalho precário, a ausência de medidas de segurança ou a falta de seguros, prácticas pelos vistos avessas a tanta desta gente “empreendedora”).

Sim, por enquanto ainda vive gente fora de Lisboa, mas face à instrumentalização agressiva dos média e galvanização de uma população maioritariamente urbana a favor das expropriações questiono-me igualmente até quando.

Espero sinceramente que o seu artigo seja lido por muitas pessoas e pelo menos algumas abram verdadeiramente os olhos para um problema complexo cujas soluções estão bastante longe do leque simplista de ofertas que nos apresentam diariamente.

Com os meus melhores cumprimentos

Ricardo Costa

Para Ontem

Publico aqui um texto que creio muito importante enviado para o meu blogue por um membro da protecção civil – sob pseudónimo – a seu pedido.
 
«Por detrás de um vasto e emaranhado corpo legislativo sobre prevenção, vigilância e combate a incêndios, na prática essas tarefas, que são distintas e complexas, estão, por todo o País, entregues aos Corpos de Bombeiros Voluntários que dependem de Associações Humanitárias e respetivos órgãos sociais.
 
Essa dependência acarreta, necessariamente, uma dependência da área operacional em relação à área da gestão.
 
De uma forma geral, a gestão das citadas associações está completamente focalizada na sobrevivência económica e financeira das mesmas e essa sobrevivência não é assegurada pela área operacional, que é como quem diz, a sobrevivência económica e financeira das associações de Bombeiros Voluntários não é possível pelas atividades de prevenção, vigilância e combate. Estas são apenas usadas como instrumento de angariação da subsidiação suficiente (proveniente do OGE e dos orçamentos municipais), sendo, depois, parte substancial dos fundos obtidos usados na aquisição de equipamentos que nada têm a ver com prevenção, vigilância e combate quer de incêndios quer de inundações. Os equipamentos mais comuns e profusamente adquiridos são as ambulâncias, o que permite às associações especializarem-se como operadores do rentável mercado de transporte de doentes, entre outras atividades, como por exemplo clínicas e até ginásios.
 
A maior parte das associações, com o objetivo da subsidiação, mentem despudoradamente em relação ao número real de efetivos voluntários e mentem em muitas outras coisas, nomeadamente na faturação das refeições disponibilizadas aos operacionais nos teatros de operações, à ANPC, quando na maioria dos casos essas mesmas refeições são disponibilizadas pela própria população e associações cívicas ou pelos municípios, ou seja, um esbulho permanente.
 
Da mesma forma que usam os fundos para a aquisição regular desses equipamentos de negócio, também não os usam para a formação dos seus efetivos voluntários. A formação que lhes é prestada é precária, prestada na maioria das vezes pelas próprias associações, incompleta, tecnicamente deficitária, em que os homens e mulheres são envolvidas em teatros de operações perigosíssimos sem o mínimo de preparação, literalmente atirados às chamas em territórios que não conhecem e atirados, também, à ira das populações.
 
No dia em que em Portugal alguma instituição independente fizer uma auditoria aos fundos recebidos numa década pelas centenas de associações (incluindo os que resultam das coletas organizadas junto das populações) e os “compaginar” com os verdadeiros fins a que foram destinados cairá “Carmo e Trindade” e parte substancial de tudo ficará explicado.
 
A prevenção, a vigilância e o combate de incêndios e inundações, em Portugal, é um enorme exercício de manha e de fingimento. Uma manha reconhecida, um fingimento consentido.
 
Mas a morte dos Bombeiros Voluntários nos teatros das operações não são nem manha nem fingimento, são desperdícios intoleráveis de vidas humanas generosas, desperdícios que poderiam ser evitadas se o Estado (que neste caso é como quem diz a Assembleia da República o os sucessivos governos) assumisse as suas responsabilidades em matéria de soberania.
 
A prevenção, vigilância e combate destas tragédias deve ser uma missão pública e encarada exclusivamente como um serviço público essencial que passará pela criação urgente de um Corpo Nacional de Operacionais Bombeiros, de cobertura nacional e base distrital, com tutela, hierarquia própria, dotada de meios técnicos e humanos profissionalizados (o que implica uma formação de qualidade, certificada) com protocolos de colaboração específicos com o Exército, com a Marinha, com a Força Aérea, com a GNR, com a PSP e com os Municípios.
 
Este Corpo Nacional de Operacionais Bombeiros poderia, muito bem, absorver todos os efetivos voluntários ligados às associações que o quisessem (e também as pequenas forças profissionais de intervenção – GIPS e FEB) e as associações poderiam, perfeitamente, continuar a dedicarem-se ao transporte de doentes, aos ginásios, às clínicas, etc, etc., e viverem daquilo que o “mercado” possibilita.
 
A criação do citado corpo operacional e profissional, resolveria, por uma vez, todas as trapalhadas das descoordenações operacionais, dos comandos “pluri-céfalos”, das decisões tomadas por pulsões de egos e por necessidades económicas.
 
Há postos de comando instalados em teatros de operações que mais fazem lembrar uma opereta bufa, repleta de faisões engalanados, onde até há tempo para se beber um chazinho e comer umas bolachinhas, enquanto nos próprios teatros reina o caos e impera a morte.
 
Como se pode ler no célebre e recente Relatório da Comissão Técnica Independente, “teremos de orientar a atuação para a adoção de forças especializadas com elevado nível de qualificação, destinadas à resolução destas problemáticas, o que não se coaduna com amadorismos”. Acrescento que não coaduna com amadorismos nem com ganância.
 
O financiamento desse corpo operacional e profissional está por natureza já assegurado: bastará usar os imensos fundos do OGE e dos Municípios que são sistematicamente atribuídos às associações e suas representantes, com os resultados que o País, infelizmente, testemunha. O valor orçamentado pelo MAI para a ANPC e para o ano em curso foi de mais de 133 milhões de euros e para o próximo ano de mais 149 milhões de euros, montantes completamente incompatíveis com a qualidade do serviço prestado.
 
É evidente que o problema de fundo (a tragédia recorrente dos incêndios) não se resolve apenas com a criação deste Corpo Nacional de Operacionais Bombeiros, mas sim com novas políticas agrícolas, florestais, de planeamento demográfico e fiscais, mas a sua criação é condição sine qua non para que o mais importante possa começar a ser feito desde já: a salvaguarda de vidas humanas quer de bombeiros quer das populações afetadas. E isto para ontem!»
 
Coutinho de Moura, membro da protecção civil

O comboio a arder vem em sentido contrário

O Estado que abandona o país ao inferno explicou-nos estes dias que a culpa é dos pequenos proprietários que abandonam as terras. Dos 30 anos de Governos, desde Afonso Henriques. E da humanidade que provoca o aquecimento global. E por tudo isto não pode a Ministra ir de férias.

Assunção Cristas, que promoveu a plantação de eucaliptos em zonas agrícolas, e que apesar de ter menos votos que o PCP tem 4 televisões em cima mal diz “bom dia” pela manhã, veio exigir responsabilidades. A esquerda que apoia o Governo não cabe na roupa que enfiou e exige que o Passos Coelho e o Governo PSD se vão embora – mas não é o PS que está no Governo? António Costa – que já foi ministro desde Afonso Henriques e na pasta da Administração Interna -, afirma que a culpa é minha e vossa, de todos em geral e de ninguém em particular. O secretário de Estado, que já combateu fogos na sua casa, conta-se, veio exigir que façamos o mesmo – peguem nas mangueiras, limpem as ervas. O PSD está indeciso se se Trumpifica ou ressuscita Sá Carneiro.

A procissão vai no adro. Temos a maior área plantada de eucalipto da Europa e a maior plantada relativa em espécie não autóctone a nível mundial. Uma bomba de gasolina a céu aberto. Podem limpar até à última erva que vai arder como no Domingo, que se repetirá, com ou sem alterações climáticas. Somos assim: quentes e ventosos no verão. Especialistas, ideologicamente liberais, em fogos – como Henrique Pereira dos Santos e Paulo Fernandes – explicam-nos que o problema não é o eucalipto, porque se privatizarmos o combate a fogos as tragédias são travadas. A prova? As herdades da Portucel não ardem. Arderam, Domingo. As das celuloses e as arrendadas pelas celuloses, as privadas e as públicas, ardeu tudo. Miguel Sousa Tavares pede em horário nobre um imposto para pagar o combate a fogos, ou seja, para financiar o eucaliptal. A esquerda, que nunca usou a palavra expropriação para os accionistas do Banif, da CGD e do BES quer expropriação já e em força das terras abandonadas. Expropriação só é palavra maldita quando é sobre banqueiros, sobre velhos pobres é solução milagrosa.

Quero acalmar todos – mais uns anos de fogos e vão ter tudo o que desejam – não há ninguém no interior, o fogo expropriou-os, essas propriedades serão de gestão em parceria público-privada com eucaliptos em que o Estado sub-concessiona a uma empresa privada de combate a fogos a prevenção e combate, e as celuloses recolhem a matéria-prima sem riscos. Sem riscos…não é bem assim – podemos ter o melhor ordenamento de sempre que enquanto tivermos um país com manchas de eucalipto desta natureza vai arder, a diferença é que o Estado assume a conta e o dinheiro que hoje é canalizado para o caciquismo local a que ainda têm o desplante de chamar Autoridade de Protecção Civil vai directo para uma empresa privada de combate a fogos. O que são as ajudas – obviamente urgentes e necessárias – às famílias enlutadas se não e também subsídios indirectos às celuloses? Ficará o país todo como as auto-estradas da Brisa e da Ascendi onde no Domingo pais e filhos passaram num túnel em chamas – um negócio com custos públicos e lucros inteiramente privados. Pagamos tudo isto, caro Sousa Tavares, com impostos, há muito. Directos e indirectos já ascendem a mais de 50% do nosso salário, incluindo um imposto que todos pagamos desde 2003 sobre os combustíveis para…combater fogos. Humor negro? Não, aqui é assim, apagamos fogos com gasolina. E depois, quanto tudo for finalmente só eucalipto os jovens que viviam no interior vão servir à mesa para Inglaterra e mandam uns tostões para os velhos que por cá ficaram, que foram para o centro de desemprego ou o lar de idosos da vila mais próxima. Em História usamos para classificar isto o conceito de «decadência nacional».

Em vez disto podemos ter outro país.

Deixamos de importar laranjas do sul de Espanha cancerígenas produzidas com o desvio de águas da Península e comemos comida saudável produzida pelos nossos jovens que, subsidiados, se fixaram no campo, em redor das cidades – eu não me ofereço, o campo ao fim de 3 dias dá-me falta de ar, mas pago com gosto impostos para isso. A CP passa a transportar passageiros que em horários regulares podem viver nas vilas perto das cidades, ir e vir trabalhar todos os dias, sem custos de poluição e sem estarem enjaulados em apartamentos minúsculos, que têm que arrendar a turistas metade do mês. Proibimos, com um decreto de Estado, a eucaliptização do país e plantamos carvalhos, madeiras nobres, nozes e figos para todos os portugueses; realizamos com um cadastro – feito por funcionários do Estado e não em livre iniciativa de aparecerem ou não os proprietários, como quer este Governo – e financiamos a aquisição pelos proprietários de junção de terras para se tornarem viáveis. Nelas teremos mais agricultura sustentada – viram como eu sou ecológica mesmo sem achar que o aquecimento global é indubitável. De onde vem o dinheiro? Dos latifundiários da PAC que recebem subsídios, onde nada se produz com excepção de umas caçadas; e, claro, da dívida pública, que nasceu antes dos impostos, ideia Inglesa só podia, em 1694 – cria-se por decreto um banco privado para emitir notas – privilégio que o Estado dá ao Banco – e este empresta ao Governo o que o Governo lhe dá, chama-se a esse Banco de Inglaterra, ou de Portugal, e depois cobram-se impostos porque…há uma dívida.

Vamos ter vida no campo, um país a sério, morreremos velhos mas felizes, de causas naturais e não de desastres políticos. E os ministros até poderão ir de férias.

As matas nacionais da Marinha Grande em 1978 tinham 40 guardas florestais e 200 trabalhadores rurais – resineiros e outros. Isso é Estado Social. Hoje têm 1 director regional em Coimbra, um chefe de departamento em Coimbra, creio que 1 ou 2 na Marinha Grande e zero guardas florestais. Neste Domingo, cito a gravação em pleno incêndio entre a Protecção Civil: «Não tenho efectivos para fechar a estrada a arder. Escuto. Não me responsabilizo. Escuto».

A próxima vez que celebrarem o sucesso de um governo que paga antecipado a “dívida” ao FMI respirem fundo. A luz que vêem é o comboio em sentido contrário.

E a resignação o espelho de uma sociedade ideologicamente doente.