THE PORTUGUESE REVOLUTION and workers control

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THE PORTUGUESE REVOLUTION, the process popularly known as the “Carnation Revolution” that lasted from 25 April 1974 to 25 November 1975, took place against a backdrop of military humiliation in defeat by peasant guerilla movements in the Portuguese colonies of Guinea-Bissau, Angola and Mozambique. However, an analysis of four distinct types of social conflicts-strikes; demonstrations; occupations of factories, other workplaces, and public services; and occupations of vacant houses – suggests that class struggle within Portugal was the essential dynamic of the Revolution. Revolution came to Portugal through an active workers’ movement against fascism within the context of a global economic crisis. Working people had decided it was time for democratic change.

http://www.lltjournal.ca/index.php/llt/article/view/5760/6621

 

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A Ciência do “Imperialismo”

Vivemos de ideias feitas. Todos nós. Nas nossas áreas conseguimos mais ou menos resistir à pressão do pré-conceito e do provincianismo, mas não é fácil. Desde logo é, em virtude do tempo limitado, impossível termos um sentido crítico sobre tudo. É assim que confiamos nas recomendações de saúde das revistas ou nas imagens de uma notícia, ou nas indicações que um transeunte nos dá na rua. Isso não me choca – nem o mais obsessivo conseguiria viver em permanente sentido critico. O que me incomoda, cada vez mais, é a determinação com que assumimos posições ou verdades sobre assuntos sobre os quais temos poucas evidências. Abraçamos hipóteses sem cautela, não as chamamos hipóteses mas verdades inquestionáveis, não vamos para um caminho onde nos enviaram com calma, porque pode estar errado, vamos com determinação.
Vem isto a propósito das minhas reflexões sobre a conferência de História Global e Mundial que teve lugar este fim de semana, na maravilhosa cidade Budapeste. Porque a conferência foi aberta por uma palestra inaugural do Tamás Krauz sobre Lénine. Foi isso mesmo, a que é hoje a maior conferência do mundo sobre história global, financiada com dinheiro da ciência alemã, e na qual estavam investigadores de todas as áreas das maiores universidades do mundo teve na abertura o debate do seu livro sobre Lénine, que é hoje o livro mais debatido neste campo, premiado, e que deita por terra milhares de banalidades que se escreveram em décadas de liberalismo, entre elas a maior, Lénine teria, em pensamento e acção, sido uma espécie de Estaline inicial (pelo contrário, o seu combate político e – sublinho – intelectual, a Estaline é central); ou a que diz que Lénine era um dirigente da acção, quando estamos perante uma das reflexões mais densas que existem no campo da teoria. Para estas ideias sem consistência contribuiu não só o liberalismo, mas a própria memória construída pelos Partidos Comunistas afectos à URSS, que apoiaram a contra revolução russa estalinista, e reduziram o pensamento de Lénine a umas frases descontextualizadas, embrulhadas nuns resumos para consumo interno, que hoje estão (e bem!) no caixote de lixo da historiografia.
A conferência é na realidade alemã, britânica e norte-americana e holandesa, foram eles que me trouxeram (financeiramente) aqui. É em Budapeste porque é a cidade mais bonita do mundo, calma, ampla, o Danúbio acompanha-nos para todo o lado, escuta-se música clássica ou jazz em qualquer canto, tem os cafés – de origem imperial – mais acolhedores do mundo, perdoem-me o exagero, mas Budapeste é tudo.
Sabem o que vi na conferência? Uma grande desgraça, consumada, que nos últimos anos já me tinha vindo a incomodar. A distância entre a ciência que se produz nos países centrais e periféricos é cada vez maior – a história global do trabalho é cada vez mais uma história realizada por quadros dos países centrais ou quadros dos países periféricos que são captados para as melhores universidades dos países ricos, e que fazem ciência de excelência, porque aí têm salários, reconhecimento e condições de trabalho dignas.
A globalização tem servido na verdade para sorver quadros da periferia, é assim que assisti a uma das melhores reflexões arrasadoras sobre a UE feita por um colega húngaro -József Böröcz –  trabalhar nos EUA (em Portugal seria trucidado ao dizer que a UE é um projecto imperialista de captação de recursos periféricos – foi publicado pela Inglesa Routledge Press, e nos EUA tem um lugar permanente no quadro de professores e o dinheiro que quer e precisa para estudar e ensinar); uma sobre contornos da demografia mundial por um albanês radicado em Inglaterra, na LSE; outra sobre os fluxos migratórios mundiais realizado por uma equipa húngara num co-projecto alemão, e por aí fora, podia dar aqui uma dezena de exemplos. Volto ao meu argumento inicial – não é que os países centrais captam quadros críticos a quem “lavam” o cérebro para se adaptarem aos cânones liberais (quem vive nos países pobres adora contar esta versão mítica), é que eles dão-lhes liberdade e dinheiro para produzirem trabalhos importantíssimos e sérios, críticos. É a famosa transferência de recursos.
Países como o Brasil, pela escala, têm resistido a isso porque, entre outras razões, durante duas décadas houve recursos públicos para pós-graduações mas também hoje o Brasil está numa deriva de cortes que a prazo vai fazer o que fez no sul da Europa ou na Europa de Leste – acenar-nos com financiamentos que nos obrigam a mudar de malas e bagagens rumo ao norte porque no sul os investigadores são mal pagos, carregados com burocracia, sem condições mínimas de trabalho (gabinetes decentes, com luz agradável, silêncio, temperatura acolhedora, etc), e às tantas temos que escolher entre chuva e má comida e tempo e condições para trabalhar a sério, e condições de trabalho ultrajantes. E liberdade real de investigação, que, ao contrário do que acena o senso comum, é pouca nos países ricos, mas maior do que nos países periféricos, desde logo porque a escassez de recursos torna a competição no sul mais feroz e portanto é maior a selvajaria de luta por esses recursos, com degradação dos locais de trabalho também ao nível das relações pessoais. Não são só os melhores operários, cirurgiões e enfermeiros que rumam ao norte, é também quem os ensina nas faculdades, os professores. E isso significa perder quadros hoje, já formados, mas também décadas de riqueza, ou seja, capacidade de formar novos quadros (é esse o papel de um professor). A pouco e pouco a mediocridade (e uns loucos que não conseguem viver sem goulash, moqueca e sardinhas) ficam no sul, e a excelência ruma ao norte.
Conheço o Tamás há alguns anos, foi ele – como director da Revista Consciência – que me trouxe pela primeira vez a Budapeste. Desde então temos estado juntos, em vários lugares e espaços de reflexão. Tornámo-nos amigos não só porque gostamos muito de conversar mas porque o Tamáz é uma pessoa deliciosa, de um grande humanismo – gosta de boa comida, tem um vigor extraordinário, aos 70 anos, em parte ganho no seu disciplinado exercício às 7 da manhã nos banhos do Danúbio, banhos (São ) Lukacs, a cuja diretora ele, com muita graça, pede para chamarem banhos György Lukács IL, em referência ao grande intelectual marxista húngaro. É um intelectual radical, de origem judia, que abraçou um caminho que tem influências leninistas, trotskistas, auto-gestão da Jugoslávia (algo com peso na esquerda no Leste) e sistema-mundo de Wallerstein. Além de uma inspiração intelectual, e portanto para mim um professor também, ele é um crítico feroz do capitalismo, e o seu inglês, quando reflecte sobre a deriva burocrática e ditatorial do “socialismo” na URSS e na Hungria é sempre interrompido pelas palavras, não sei se russas se húngaras, “kaput”, “idiot” “absurd” e “katastrof”. Ontem disse-lhe que essas são as 4 palavras que ele mais diz – rimos, muito. Isto depois de termos entrado em 5 cafés e só no quinto ele ter dito, é aqui que ficamos, aqui o café é bom, e café tem que ser bom. Eu vivi com entusiasmo a busca pelo melhor café, levo muito a sério pessoas que procuram o melhor da vida e não se contentam com qualquer porcaria, socialismo é abundância de liberdade, igualdade e qualidade de vida ou não é socialismo. Krauz é uma presença regular na TV Húngara e director do centro de história russa da Universidade de Budapeste. Estava a abrir uma conferência patrocinada pelo George Soros, um especulador financeiro mundial, que sabe que o Tamás é o caminho para captar quadros de esquerda para os países centrais. Soros está disposto a pagar o preço de Lénine ter entrado na academia, pela mão de Tamás, porque com ele vêm recursos. Que não são todos domesticados na Academia, como se pensa, trabalham, pensam, ensinam, Soros sabe que o poder está nas empresas e no Estado e o poder suporta académicos radicais, desde que fiquem na Academia. A conclusão desta curta reflexão é, sem mediações, a seguinte: a médio prazo a austeridade na ciência vai esvair os países periféricos de recursos que levaram décadas a formar. Quem sai leva consigo o que sabe. Chamam-lhe globalização. Chama-se, explicou Lénine, imperialismo.

O Mito da Auto-Europa

Tiago Franco, cujo testemunho aqui publico, foi engenheiro na Auto-Europa, formado nas Universidades públicas portugueses, custeadas por todos nós, emigrou, está na Volvo na Suécia. Merece ser lido, porque se este exemplo é a melhor empresa do país imaginem o que é o pior… É mais um caso de fuga de quadros, que não têm aqui quaisquer perspectivas sérias de futuro, enterradas em montar peças de lego sem valor agregado, para exportações fáceis, sem inovação, ciência, e com baixos salários, é mais grave quando ontem li as declarações de Ana Catarina Mendes do PS que, em vez de defender modelos de produção sérios, com qualidade de vida para quem trabalha, defender quem a elege, ameaçou – literalmente – os trabalhadores com deslocalização. Sou insuspeita de quaisquer simpatias pelos PCP, acho apenas lamentável esta seja a posição do PS, o estado da moral de quem está à frente dos destinos do país, uma espécie de funcionários que seguram o chicote do terror do desemprego sobre quem trabalha, sem ter uma palavra a dizer aos accionistas da Auto-Europa sobre mobilidade social, condições de vida dignas, fuga de cérebros, produção em massa repetitiva, bancos de horas, vida sem família e planos pessoais. Tiago Franco trabalhou no departamento de Engenharia de Qualidade da Auto-Europa entre 2001 e 2006 (Buy Parts assim se chama na AE). É formado em engenharia electrónica e está agora envolvido no projecto de táxis eléctricos para Londres. Obrigada a ele pelo testemunho.

“Interessa-me mais abordar o linchamento público dos funcionários da autoeuropa e como a ignorância nos prejudica enquanto povo.
Compreendo que a informação que circula não vem carregada de detalhes e para a opinião pública passa a parangona de que os funcionários não querem mais dinheiro para trabalhar aos sábados. São uns calões e ganham balúrdios. Ponto final. É isto que chove nas redes. Não sei porque insisto em ler comentários de notícias mas vou assumir, para me sentir melhor, que é uma espécie de guilty pleasure da azeitonice.
Li coisas como: “não querem trabalhar aos sábados? Então devíamos fechar os hospitais ao fim-de-semana para os gajos da autoeuropa!” ou “mas quando querem pão fresco ao sábado o padeiro não diz que não, seus chulos!”. Entre outras pérolas dignas de qualquer boca numa taberna da Madragoa, como se bens alimentares ou cuidados de saúde se pudessem escolher no calendário. Ou como se uma fábrica fosse um serviço aberto ao público e dependente de horários melhores para visita.
Compreendo que exista míngua de emprego no nosso país e que muitas pessoas se esfolem para aguentar cada mês, mas isso não nos pode retirar a lucidez de entendermos o que é a luta dos trabalhadores pelos seus direitos. Se os funcionários da AE cederem sempre a pressões, naquela que é a empresa modelo do país, o que acontecerá a cada um de vocês que trabalha em micro-empresas onde os trabalhadores nem piam?
A conversa de “se não aceitarem a produção do modelo X vai para a fábrica Y” é mais velha que o obrar de cócoras e é usada desde sempre. Ouvi isso há 12 anos na altura do modelo EOS e depois com o Scirocco. Agora ouvem com o T-roc ou lá como se chama a lata nova.
Em cada negociação lá se trocava trabalho extra por férias ou dias por aumentos congelados e por aí fora. As greves foram sempre evitadas e a produção sempre a crescer com novos modelos. Mas até quando? Até quando se dá asas à imaginação para aceitar mais trabalho sem dinheiro que se veja?
Quem agora chama nomes aos funcionários da AE já trabalhou numa linha de montagem? Já teve duas pausas de 7 minutos por dia para mijar? Já passou 20 anos todo dobrado a fazer os mesmos movimentos? Se acham que é tudo fácil e maravilhoso, porque não vão para lá? Entre 2000 ou 3000 que lá trabalham deve haver espaço para os génios do comentário no FB.
O que é que acham que um operador de linha, um técnico ou um engenheiro ganham na AE? Eu respondo: uma merda. Ganham uma merda. Ganham aquilo que alemão algum aceita na casa mãe, com condições que sindicato nenhum permite no desterro de Wolfsburgo.
O governo português deu incentivos por mais de uma década para a VW ter a fábrica ali. Depois tiveram mais uma década de salários baixos, aumentos miseráveis e down days. Em 4,5 anos a trabalhar ali, o meu salário aumentou 15 eur líquidos. Um operador de linha trazia 800 eur para casa, um técnico um pouco mais, um engenheiro cerca de 1100. Depois criaram uma empresa de trabalho externo (autovision) para reduzirem ainda mais os custos com os contratados e terem menos responsabilidades sociais.
Portanto…se 10 anos volvidos a técnica é a mesma e continuam a querer apertar quem trabalha, eu acho muito bem que não aceitem sábados obrigatórios e muito menos se não forem pagos como trabalho extraordinário.”

O amor não se compra. Nem se vende.

Um estudo – cujo conteúdo e metodologia não li – realizado a nível mundial indicou que 70% dos trabalhadores o que mais valoriza no local de trabalho são as relações pessoais/felicidade. Naturalmente felicidade inclui aqui salário, mas vai para além disso (não aquém). No topo das queixas nos locais de trabalho estão hoje duas: o salário que mal dá para viver e o assédio moral por parte dos superiores hierárquicos, a ameaça directa ou indirecta, acompanhada de estreita vigilância administrativa. Estou com essa ampla maioria de gente que valoriza o amor, senti-me hoje parte da humanidade – há muito me tinha apercebido que o amor faz melhor que o ómega 3, a linhaça, o complexo de vitaminas e um tal de memofante, nem sei como se escreve, oiço por aí. O amor prolonga a esperança média de vida, hidrata a pele, regula o ritmo cardiovascular, melhora o humor, fortalece as células, estou convencida que o amor é tudo, não me libertei da literatura do século XIX sendo que à máxima deles – morrer de amores – acrescentei uma ligeira adaptação moderna – viver de amores. Passa-se que o amor não se compra. Nem se vende. É uma construção complexa entre iguais – para ser amor. Por isso a rigor não há amor por coisas, nem animais, amor pressupõe igualdade e não relações de domínio e poder, controlo e servidão. As relações amorosas são por isso as mais difíceis de construir. A ironia da história é que no capitalismo produzem-se milhões de inutilidades, lembrando o velho das barbas, produzimos sapatos para pés que não existem. Essa produção à escala mundial de coisas desnecessárias padronizadas afasta-nos da humanidade, do nosso sentido relacional. Portanto, aproxima-nos dos animais, que lutam diariamente para prover necessidades básicas e sobrevivência, fazendo inclusive coisas que parecem amor (agradar a outrem). De tanto enfiarmos os pés em sapatos inexistentes começamos a deformá-los e a deformar-nos, às tantas pensamos que sem amar e ser amados, mas tomando pouco vinho, fazendo exercício regular e comprando óleo de onagra, passeando o cão de manhã e fazendo ioga à tarde, seremos felizes. E ninguém é feliz sozinho, nem ninguém é feliz quando está acompanhado em relações que só existem em função de duas variáveis, poder e medo – essa é a relação primordial dos locais de trabalho hoje. Medo e poder. Resta-me uma constatação empírica que fiz nas conversas que deram origem a um livro que fizemos, eu e o psicanalista Coimbra de Matos (Do Medo à Esperança) – os consultórios de psiquiatria estão apinhados de gestores, controladores de qualidade, CEO, especialistas em recursos humanos. A meio das nossas conversas vinha sempre o exemplo de um caso clínico de um gestor, uma gestora, um director, e uma palavrinha que CM usa com regularidade: narcisismo. Essa constatação empírica, que surgiu das conversas, é apoiada por estudos como este, ou por uma famoso, esse com metodologia médica/cientifica reconhecida. que nos EUA dava 20% de psicopatologia a gestores de topo. Vejam, eu escrevi psicopata e não neurótico, que neuróticos todos somos qb, como sabe quem viu os filmes do Woddy Alen. Estou a falar de doidos, certificados. A quantidade de gente desumanizada nessas profissões advém de inúmeros factores, não os vamos reduzir aqui a um (até porque escolherem essa profissão) – mas algo em comum têm, a brutalidade que provocam nos outros tem um efeito boomerang. O amor não se compra. Nem se vende.

Um sindicato exemplar

Jack Heyman, do meu lado direito, de negro, foi como marinheiro mobilizado para o Vietname, recusou-se a embarcar, ficou a organizar nos portos a resistência à guerra. Tornou-se depois estivador, um percurso relativamente comum nos portos. O seu sindicato, dele e de milhares de homens e mulheres foi, que eu tenha conhecimento, o único que fez esta semana uma greve contra o terrorismo supremacista branco nos EUA. Do lado esquerdo o actual presidente, Ed Ferris. O sindicato dos estivadores ILWU conquistou em 1934 a redução do horário de trabalho para 6 horas, sem redução salarial, para combater o desemprego. Na minha mão o cartaz da greve que realizaram no 1º de Maio contra a guerra do Iraque. Chamo a atenção para este facto – não fizeram manifestações, cartas de solidariedade ou discursos, pararam ontem e hoje os portos, perdendo um dia de salário, para lutar contra o que acham que está – muito errado – na política belicista americana ou no terrorismo.

Aqui um artigo escrito por ele sobre a luta dos estivadores norte-americanos.
https://www.counterpunch.org/…/class-war-on-the-waterfront…/

UFF – Economia

“A dívida pública nos 150 anos da publicação do livro I de O Capital de Marx” será o tema da minha conferência amanhã na sessão plenária do XII Congresso da Associação Brasileira de História Económica. 15:45 no auditório da Faculdade de Economia da UFF .