Gestão Profissional

Estava aqui a analisar um Relatório que estamos a terminar sobre um sector em Portugal – de trabalho operário especializado na área da aviação – e vejo que a maioria diz que não é bom no que faz, e aponta erros de gestão, planeamento, tudo ao molho” sem racionalidade e colocando potencialmente em perigo outros”. E pensei que essa foi a resposta que recebemos dos maquinistas do metro, dos comboios e de todos os meios de trabalho industrial que temos estudado. Quando vamos para os professores e médicos quase todos se dizem exaustos ( e estão) mas a fazer “um bom trabalho”, a culpa é dos alunos, das famílias, dos utentes… Às vezes brinco e digo que pena não termos alunos que já sabem tudo e pessoas saudáveis para tratar…

Tenho dito a médicos e professores que não é possível estarem exaustos e fazerem um bom trabalho, uma das duas é falsa. Que deviam, na minha opinião, não mentir a si próprios (há teses sobre isto na psicologia muito interessantes). É preciso uma grande coragem e verdade consigo para dizer à sociedade “o que eu faço faço mal” porque as condições que me dão são péssimas. Dizer que os alunos estão bem educados quando vemos a decadência da escola, ou que as pessoas estão com a saúde cuidada é uma reacção corporativa que não ajuda em nada a resolver a chave do problema. A verdade não resolve os problemas, mas sem ela não mudaremos nada.

Se o discurso neoliberal diz que os professores e médicos são os responsáveis pela má qualidade dos serviços a resposta não pode ser “os serviços estão muito bem”, como argumenta sempre o Ministério e os sindicatos. A resposta deve ser -a má qualidade existe sim, e a culpa é da gestão, da formação, da organização, dos fins e dos meios, a má qualidade é da gestão neoliberal.

Andar a negar o óbvio só coloca a população contra estes profissionais, que deviam ser os primeiros a dizer “estamos a fazer mal” e “precisamos de condições para fazer bem”. Manter o discurso de as condições de trabalho “são péssimas mas a escola e os hospitais estão óptimos e nós somos todos muito bons” é negar evidências. Ninguém pode ser bom profissional num mau ambiente de trabalho. As pessoas cada vez ensinam pior, tratam pior, e isso faz mal a todos nós mas desde logo a elas próprias porque não se realizam no trabalho; são na sua larga maioria excelentes profissionais de tiverem boa formação e condições de trabalho. E não têm. Aliás trabalham em dobro e em triplo e mesmo assim cometem-se erros, falhas, na medicina protegem-se com protocolos que eles mesmo falham e na educação o desastre está à vista.

Não são os trabalhadores que gerem os seus locais de trabalho – são gestores. É aí que está a responsabilidade, que em ultima analise é sempre política. São gestores, e não trabalhadores, porque os governos assim o decidem.

O delírio tecnocrático trouxe-nos aqui. Nenhum local de trabalho pode ser bem gerido se não o for por quem trabalha e conhece cada canto do “real do trabalho”. É por isso que sempre defendi a gestão democrática dos trabalhadores, que foi sendo responsabilizada pelos maus resultados. Ora há 40 anos que acabou a gestão democrática na saúde e há 10 nas escolas, substituídos por gestores – o resultado está aí. Pior é difícil: serviços sem funcionar, pessoas a quererem fugir dos locais de trabalho, colapso de alguns sectores, desmoralização, assédio como forma diária de gestão, absentismo crescente, doenças. Um falhanço rotundo é o da gestão profissional, desde logo porque das profissões reais que gerem nada sabem. São décadas de prova de falhanço da gestão profissional, parem de culpar os profissionais, que podem sim ser responsabilizados, e as suas organizações, por não lutarem contra este estado de coisas. Agora que não são eles que definem como trabalham – são os gestores – isso é indubitável.

Resposta a Irene Pimentel

Irene Pimentel comentou o facto de eu ter comparado o direito a desertar na guerra colonial, com o direito a desertar da Rússia e da Ucrânia. No texto cheio de calúnias e ressentimentos (esta sina de país pequeno e periférico), o único argumento que vale a pena é debater, e do qual discordo, é este. É um argumento simples, creio simplista, como explicarei aqui: Portugal estava no lugar errado, a Ucrânia está no lugar certo, em Portugal deve haver deserção, na Ucrânia conscrição militar.

Isto a propósito de eu ter defendido, aliás desde o início da guerra, que os russos devem combater Putin e os Ucranianos devem combater Zellensky, e que nenhum russo ou ucraniano deve ser obrigado a combater. E ter chamado a atenção para o facto de que, pese embora a propaganda para criancinhas a que temos assistido de ambos os lados, a Ucrânia decretou desde o início que nenhum homem entre os 18 e os 65 anos podia sair do país e a Rússia até hoje só convocou voluntários e agora 300 mil reservistas, numa população de 150 milhões. Os que fogem – quanto a mim bem – podem fugir da Rússia. Da Ucrânia o democrata Zellensky decretou que para defender a pátria um homem deve ser obrigado a ir para a guerra. Não é a minha opinião.

Como aliás nunca defendi que os camponeses africanos fossem obrigados a entrar nas fileiras dos movimentos de libertação, se o fizessem voluntariamente sim, obrigados nunca. E só o defendi porque não era uma “guerra patriótica” que estava em causa nas colónias portuguesas, mas uma revolução anti colonial (palavra que Irene Pimentel não usa nos seus livros, usa a de Estado – guerra colonial). A revolução anti colonial era a possibilidade, que foi derrotada, dos movimentos de libertação tomarem o poder e derrotarem não só o Estado português, mas controlarem democraticamente a sua produção e os seus países – isso foi malogrado. Foi a “pátria” africana que venceu e a “pátria” africana rapidamente fez negócios com a “pátria” portuguesa, europeia, chinesa para vender a “pátria” onde os povos de África ficaram como espectadores miseráveis.

A pátria portuguesa tem banqueiros que levaram à falência os serviços públicos, elites empresariais que surfam a dívida pública, esgotando hospitais e escolas, empresários que jogam com habitações na bolsa, políticos que fazem leis para proteger tudo isto, como tem a pátria ucraniana e a pátria russa. Portugal tem gente que vive do trabalho, e que acredita na igualdade e liberdade como valores indissociáveis, como tem a Ucrânia e a Rússia – é essa a minha pátria, a de quem vive do seu trabalho e não suporta a desigualdade social e a falta de liberdade.

Na Ucrânia, relatado pelas ONGs e até em entrevista da RTP, da BBC etc , havia milhares de homens a querer fugir e foram impedidos, aliás os que fugiram ou se recusaram a voltar ao país, como tantos imigrantes ucranianos mesmo em Portugal que foram chamados (nunca entrevistados), estão sujeitos a multas impagáveis. Da Rússia – pelos vistos – há filas e filas a sair e podem. Fazem bem, eu não ia defender com a minha vida Estados, nem Putin, nem Zellensky, nem Biden ou Costa. A minha vida vale, e creio que a de todos, muito mais do que ser um peão da luta geoestratégica dos Estados.

Agora dizem alguns, e Irene Pimental, na sua simplicidade teórica. Mas uns são agredidos outros são agressores. É o argumento, historicamente conhecido, de “defesa da pátria”.

Primeiro uma questão de princípio minha, que é ideológica: nenhum homem em momento algum da história deve ser obrigado a combater. Admiro quem combateu pela revolução espanhola, não admiro nem nunca admirei quem combateu por “pátrias”. Nunca tive simpatia pelo nacionalismo do MPLA e sempre reivindiquei como minha a luta de Amílcar Cabral.

Mas vamos ao argumento de Irene Pimentel e vejamos a sua falta de sofisticação teórica. Irene Pimentel não compreende, como não compreende tanta gente (ela porém como investigadora devia conhecer teoria dos Estados) que esta não é uma luta entre ucranianos e russos, é uma invasão do Estado russo, a que se opõe o Estado ucraniano. Estados não são sociedades. Estados não são as populações. A vida das sociedades não se reduz, nunca, à actuação dos seus Estados.

É o bê-á-bá da história. Esse erro, de tantos mesmo na historiografia, é comum. Pensar que a única força de uma sociedade é o seu Estado e os governos e os exércitos que os representam.

Talvez eu me explique melhor com o Irão. O Irão nunca avançou um milímetro na sua democracia com sanções e bombas, e agora o regime abana – que caia! – com manifestações de massas, que já envolvem sindicatos. As sanções são uma penalização dos povos e um jogo económico financeiro de quem brinca a mandar no mundo.

Os ucranianos não são o seu Estado. Milhões de ucranianos, e nem me refiro aos russófonos, não têm nenhum interesse em lutar ao lado do seu Estado, mas sim contra ele. Porque o seu Estado, representado por Zellensky, deixou o país ser o campo de bola onde a NATO, a China e a Rússia jogam a sangue. Porque vendeu as terras dos camponeses às multinacionais da União Europeia e norte-americanas; porque está a querer expropriar até as sedes dos sindicatos na Ucrânia e porque aproveitou a “defesa da pátria” para flexibilizar a lei laboral a níveis século XIX. Tal como na guerra civil espanhola, os ucranianos que queiram vencer terão que lutar contra Putin, e contra Zellensky, cuja política é a de vender o que sobra do país à UE e aos EUA. E sim, os ucranianos não poderão fazê-lo sem uma luta de solidariedade internacional, nossa, que não existe.

Porque a única que existe – com a esquerda no estado catatónio que está – é a direita como política, mesmo em pessoas de esquerda, que como Irene Pimentel defendem políticas que levam de facto ao holocausto nuclear. Isso não é só de direita, é lunático e criminoso.

Esta visão não é só historiograficamente insustentável. Ela é uma deriva que demonstra que quando os nossos Estados estão dispostos a ir para a guerra não falta quem, talvez por nunca ter compreendido qual o lugar dos Estados nas sociedades, defende hoje que podemos ir para uma III Guerra Mundial.

A única saída para a Ucrânia é a do passado internacionalista, quando os trabalhadores se ergueram, qualificados, manuais, nacionais e migrantes, na Rússia e na Ucrânia, em todo o mundo, contra os seus Estados, paralisaram os países com greves gerais, controlaram os lugares de produção e as terras, trabalharam e exigiram democracia real em todas as decisões, desde logo nos locais de trabalho. Essa é a única via possível e realista. O resto, bombas da NATO, onde Portugal está, fazem parte da guerra e não da paz, fazem parte da catástrofe que é a divisão do mundo. A saber também que, quando se derem revoluções, a NATO, a UE, e Zellensky vão ser os primeiros a sentaram-se à mesa com Putin para as esmagar. Lá está, os Estados na hora h sabem sempre de que lado estão. Saibamos nós também estar do outro lado.

Link para artigo sobre a venda a desbarato da Ucrânia ao capital estrangeiro

https://thenextrecession.wordpress.com/2022/08/13/ukraine-the-invasion-of-capital/

Jovens “mimados” e a resignação dos pais e professores

Sobre o debate aqui ontem, afinal com que dinheiro podemos ou devemos viver? E os jovens na Universidade, podem alimentar-se com 15 euros? Não andam a “abusar” de nós? Que “menininhos fizemos nós?”

Primeiro, uma boa parte dos jovens está sem entusiasmo pela vida, pela escola, pelo futuro. E tem razões para isso. A escola não lhes dá um “conhecimento” para uma “profissão”, mas “tarefas e competências” para um mercado de trabalho decadente. Este país não é para eles. Os professores deles devoraram esta ideologia das competências e do empreendorismo, enquanto vêem os alunos afundarem-se nas esperanças de viver aqui com um trabalho digno. Os jovens não são grande coisa, porque os adultos à volta deles, pais e professores, são o espelho da resignação social que os políticos inculcaram, e as organizações de trabalhadores foram impotentes em lutar contra. Temos jovens sem força e entusiasmo, porque assim estão os seus pais e professores, todos trabalhadores, qualificados ou não. 

15 euros é muito, para quê? Que vida queremos ter? Comemos cada vez pior e colocamo-nos em risco com o que comemos. Cuidado com o plural – uma parte importante e minoritária da população come cada vez melhor. O que era normal há 40 anos, frutas, legumes, sopas caseiras, carne alimentada sem rações, pelo menos em parte, agora é “bio”, “gourmet” e só uma elite tem acesso. Em países como a França ou a Alemanha é possível comer bio mais barato do que não bio em Portugal porque há uma política de subsídios. Sim, na Holanda compro carnes e iogurtes bio mais baratos do que os made in pesticidas em Portugal. 

Os 15 euros para alimentar um jovem não incluem portanto nada bio. São 2 euros por refeição (5 a 6 refeições dia). Vai comer mal, com pesticidas, carregar nos hidratos de carbono, comer proteína (essencial ao funcionamento do célebre) de má qualidade – ou seja, frango de aviário (um mutante), salsicha, carnes gordas (entrecosto, etc). Peixe com zero de nutrientes proveniente de piscinas artificiais alimentadas de rações e pão com cereais brancos (açucares simples). 

Junto aos horários de trabalho do século XIX – para viver de forma menos miserável toda a gente tem 3 e 4 trabalhos e faz turnos extra (em permanência) – a alimentação é a grande responsável pela não saúde dos portugueses, que chegam aos 50 anos e estão obesos e cheios de doenças que aparecem nos outros países aos 75 anos. Assim a nossa esperança média de vida com saúde é 15 a 20 anos a menos que na Escandinávia. Vivemos o mesmo tempo mas sem qualidade de vida. Junte-se as reformas baixas, em que as pessoas vivem isoladas sem vida social – factor protector da saúde – e temos a tempestade perfeita. Uma parte do país, trabalhadores, deprimidos, sem saúde, sozinhos, assim é a velhice, e a velhice precoce.

Os jovens com 15 euros ao dia para alimentação, que são 450 mês, alimentam-se mal e não têm saúde. Nem democracia. O direito à cidade e à vida social no capitalismo depende dos lugares que podemos frequentar comprando algum serviço. Nada ou quase nada é gratuito. Cafés, restaurantes, teatros, cinemas, festas, viagens. Hoje tudo isso – que representa o direito ao convívio, acesso à democracia (só há democracia em participação colectiva) – está vetado à maioria dos jovens. Grande parte deles vive uma aparência de vida social (as redes sociais no ecrã) e não tem de facto vida social real.

E os suecos? Tão dinâmicos? Na Suécia um jovem aos 18 anos recebe 1000 euros do Estado mensalmente, a maioria, a fundo perdido. Aqui, são as famílias exaustas de trabalhar que conseguem sustentar os jovens às vezes até aos 30, 40 anos porque o que os pomposos “empresários empreendedores” lhes pagam não dá para viver, quanto mais para pagar casa. 

O que resta aos jovens, e a mim, de esperança, é que todos os fios desta frágil estabilidade social estão a romper-se, e isso não é mau, mau é continuar a assistir a este declínio, este barco a ir ao fundo e tocar violino. Depois de emigrarem, ou seja, serem exilados do país e da família, resta-lhes lutar contra isto. Pode ser que o façam e que, surpresa, ainda venham a viver muito melhor que os pais. Na verdade, tirando a migração, válvula de escape eterna do Estado português, e a migração não é uma forma de luta, mas de fuga individual, não resta ao Estado/Governo/Empresários nada mais, porque os salários que pagam e os horários que oferecem são do século XIX, são uma vergonha nacional. Todos os filhos de quem governa, e gere as empresas, médias e grandes, passaram por colégios privados, estudam fora, e claro vão a festas e restaurantes e comem “frango bio”, 15 euros não é o que gastam em alimentação mas em diversão, o que não acho mal – sempre achei que o socialismo era o bem estar para todos. Não há nada de burguês em querer viver bem, burguês é manter os outros mal para acumular uma riqueza que tem custos sociais insuportáveis.  

O que impressiona em alguns comentários é a resignação, a adaptação, a justificação do mal em que estão. Vamos “vivendo”, “vai-se andando”, “faz-se o que se pode”, “a guerra é a culpada”, “a inflação”. Ora, o que está claro é que em termos individuais as pessoas estão dispostas a sacrificar os filhos, dando-lhes cada vez menos, do que a lutar; e os jovens simplesmente não acreditam que podem mudar este estado de coisas, não só indo trabalhar e ajudar a família e estudar e ser super-homens (como tantos apregoam), mas lutando politicamente para mudar a sociedade em que vivem. Podem ir para um restaurante trabalhar à noite e estudar, vão estudar pior e não vão mudar a vida, o que muda a vida é a luta política. A alimentação e a ausência de lazer dos Portugueses hoje é um dos mais fortes indicadores da ausência de participação e organização políticas.

Quando se lutar pelo direito a comer bem, ir ao teatro, namorar e oferecer uma prenda a quem amamos, lutar para ser mais humano, em vez de nos adaptarmos a esta vidinha miserabilista, apregoada por políticos que não a têm , nem nunca tiveram, tudo mudará, e será para melhor. A demagogia ou utopia não é lutar por isto, demagogia é viver na Quinta da Marinha e dormir uma vez por ano com mendigos, como faz Marcelo Rebelo de Sousa. O que é impressionante é que não haja um editor de jornal a reparar nisto, e tantos a publicar tal afronta populista como prova da sua simpatia social. Não haja um editor a perceber que António Costa nunca terá a sua reforma em causa, enquanto corta a dos outros, que qualquer médio empresário ou grande jamais vai gastar em vida o que tem em off shores. Tudo isto é moralmente inaceitável. A adaptação a isto é uma patologia – não são os jovens que pedem muito quanto pedem 15 euros, somos nós que já não percebemos o que é o sentido da vida.

Alojamento Universitário e modo de vida

À medida que se produz cada vez mais no mundo o retrocesso de vida de quem produz é maior. Um estudante hoje, em 2022, deslocado em Lisboa ou Porto gasta por mês, sem ir ao cinema, teatro, beber um copo ou jantar fora, tudo coisas do meu ponto de vista essenciais e necessárias, sem contar roupa ou material escolar, 1000 euros. A conta é fácil de fazer: 300 a 400 euros o quarto em Porto e Lisboa, 15 euros dia alimentação (um jovem gasta cerca de 3000 calorias dia se não fizer desporto, metade das que gasta alguém com 40 anos), precisa de grandes quantidades de proteína de boa qualidade. Se almoçar e jantar na cantina, comprar fruta e contabilizarmos um pequeno almoço decente, 2 lanches e uma ceia, 15 euros não dão. São 450 mês, o passe custa 20 euros. Ou seja, as pessoas estão a comer muito mal e a dar cabo da saúde sua e dos filhos para viverem, e estão abdicar de tudo o que nos faz humanos – cultura e lazer. As “pessoas” não somos todos nós, há quem governe o mundo, e seja responsável, e há quem seja governado e naturalmente é responsável, sobretudo as suas direcções sindicais e políticas, por não conseguirem mudar esta degradação humana que nos saltas aos olhos, ao mesmo tempo que milionários vão de férias ao espaço – o que há poucos anos seria uma metáfora risível, hoje é o espelho da decadência da concentração de riqueza. 

Sou dos que acreditam que a Universidade devia ser um lugar de produção e acesso ao conhecem-no para todos, um pouco como a praia, o último lugar democrático, onde todos entram a qualquer hora e a porta está sempre aberta. Hoje, por causa da imposição ditatorial do mercado, que engole de facto a democracia, estar na Universidade é um luxo, e isso devia indignar-nos.

Apesar deles

Não sabemos como teria sido o mundo sem a II Guerra Mundial mas podemos perguntar-nos se a revolução espanhola dos anos 30, a francesa da frente popular de 1936 tivessem levado o proletariado ao poder em ambos os países teria havia o “jogo de guerra” que entre 1936 e 1939 abriu caminho ao nazismo e em 1939 e 1940 assistiu paralisado ao seu avanço militar? Como teria a URSS – já burocratizada sob a ditadura estalinista – reagido a uma tomada de poder operário na Europa ocidental?

Não se pode arriscar a dizer o que tinha acontecido mas podem colocar-se em cima da mesa hipóteses – se a Espanha revolucionária, a França revolucionária tivessem vencido, a Áustria em 1934, Hitler teria marchado sobre a Polónia, a República Checa? Teriam os operários franceses, que não reagiram e confiaram na linha Maginot, assistido impávidos às ameaças alemãs se os seus partidos estivessem no poder com um programa de expropriações e controlo colectivo dos meios de produção? Não sabemos.

Mas sabemos que o que aconteceu não era inevitável. É tão errado afirmar que socialismo é inevitável como assumir que é impossível. Afirmar que a II Guerra era o curso natural da história, quando a história é antinatural, é histórica. Como teria reagido o proletariado alemã, sede do maior partido comunista alemão, encarcerado em 1933 se tivesse visto um novo sopro revolucionário com hipótese de vencer nas suas fronteiras?

Certo é que aquele que hoje aparece como um herói da derrota do nazi fascismo, Estaline, depois de 26 milhões de mortos nos territórios da URRS, ou os líderes da resistência de Estado nas democracias liberais – Churchill, Roosevelt, De Gaulle (e a nenhum dos quatro líderes se pode negar esforço na condução da guerra contra Hitler) – teria outro nome. Um herói “revolução” que teria evitado a guerra? E esses mortos – 80 milhões se contarmos também os de frio e fome – não existiriam. Mas isso não aconteceu. Pode-se dizer, olhando para os Acordos entre o Estado nazi e os aliados, e a URSS e os aliados, entre 1938 e 1939, que Hitler foi derrotado não por eles, mas apesar deles.

*Artigo trecho editado de Breve História da Europa, editado pela Bertrand agora em livro de bolso

Apesar Deles

Os Economistas e a “figura de urso”

Sem surpresa, quando disse aqui que os preços são exclusivamente fixados por lucros ou salários muitos perguntaram “então e as matérias primas, a energia, o mercado…a oferta e a procura?”. Alguns, com a ignorância atrevida dos tempos que correm, lembraram-se de dizer que eu não era economista (a certificação do “especialista”). Aqui fica a explicação de um economista Adriano Zilhão, na minha página, que publico por ser didáctica e impecável.

E deixo um conselho: eu não sou economista, podia ser e nada saber, sou professora de história e historiadora e também professora de história económica e social. Estive um ano da minha vida dedicada a estudar a teoria do valor trabalho e as crises capitalistas porque, em 2008, e escrevi e leccionei muito sobre elas, compreendi que não podia deixar de o fazer. São as primeiras páginas, muito difíceis do Capital de Marx. Estudam-se, não se lêem. Sem conhecer a teoria do valor marxista, hoje, arrisco a dizer não se compreendem as sociedades, seja em que disciplina for. Mas, agora o que é relevante: eu podia ser economista e não perceber nada de economia, o que aliás se viu nos comentários onde tantos economistas perguntavam pela “lei da oferta e da procura”, algo que só fixa preços na imaginação deles. Também podia ser operária, física e cozinheira e conhecer bem a teoria do valor-trabalho. O que impressiona nos comentários, e que nos devia fazer reflectir, é como tanta gente formada em economia, repete as mesmas vacuidades do governo a explicar que nada pode fazer face à inflação.

Um mergulho nos currículos das escolas de economia, que varreram a ciência social e a transformaram em matemática técnica ou comunicação em business devia há muito ter alertado tanta gente sobre o que (não) aprendem de economia em alguns cursos de economia.

Aliás, há dias perguntei a um grupo de jovens de 18 anos, com média de 18 em economia no 12º ano, todos a caminho de escolas de economia se conheciam Marx e, tirando uma, os outros olharam com espanto, nunca ouviram tal nome. Suspeito que assim continuarão, a achar que a lei da oferta e da procura fixa preços. Podem fazer como eu, também ninguém me ensinou Marx, enfiei a cabeça no livro anos para não fazer a chamada “figura de urso” ou, como se diz em buziness, ou zeinalbavês bear looking. Agora leiam e aprendam:

Adriano Zilhão

Pode-se deduzir do comentário de J. P. Costa que a sua formação é, “de todo”, económica. E, como qualquer um que estudou a economia escolástica e/ou nela crê, J. P. C. acredita que o “mercado”, local em que se “formam” preços, opera por uma espécie de magia.

Mas olhe-se melhor para a magia. Olhe-se para o mercado do petróleo (ou do gás). O que aconteceu, recentemente? Perante a guerra, sobretudo perante as sanções, passou a ser provável que a quantidade de petróleo oferecida no mercado baixasse muito, pelo menos no curto prazo.

Consequentemente, os grandes compradores de petróleo precipitaram-se para comprar o máximo possível, para poderem revendê-lo durante o máximo de tempo possível (antevendo, por outro lado, que os preços continuariam a subir, e eles fariam lucros chorudos na revenda).

Deu-se, assim, aquilo que em economês, se chama um desequilíbrio entre oferta e procura: o preço subiu, em consequência.

Mas o mercado não “fez” subir coisa nenhuma. O que aconteceu foi que os grandes vendedores viram que, se passassem a vender mais caro, continuariam a escoar todo o produto. Ou seja, disseram aos compradores: querem comprar? A gente vende, mas agora só vendemos a quem der (ainda) mais. Podes, compras; não podes, ficas de mãos a abanar, que há mais quem compre.

O preço não “ficou” magicamente mais alto, os vendedores aumentaram-no. Ora, e os custos, salariais e outros, dos vendedores de petróleo? Ficaram na mesma.

À diferença entre preço e custo (salarial e outro) chama-se lucro. Portanto, a subida de preços provocou uma subida dos lucros dos vendedores.

A economia é uma coisa complexa? É. Empresas têm custos de todo o tipo: os salários que pagam directamente e muitas outras coisas, matérias-primas, produtos intermédios, serviços de transporte, financeiros, amortizações e por aí fora (deixemos de lado os impostos, que incidem sobre salários e lucros a jusante). Mas as matérias-primas e tudo o mais foram extraídas ou produzidas por outras empresas, que para o fazer também usaram trabalho: portanto, pagaram salários. E assim sucessivamente.

Se se “descascar” a produção de bens e serviços ao longo de todas as cadeias de produção entrecruzadas, tudo se reduz a trabalho humano.

E reduz-se a duas categorias de trabalho humano: a parte do produto do trabalho dos trabalhadores que lhes é paga (os salários, que são o preço pago pelo patrão para alugar a força de trabalho pelo tempo convencionado); e o trabalho dos trabalhadores que não lhes é pago (o lucro, o valor restante, a diferença que, depois de vendidas as mercadorias/serviços, fica no bolso do patrão).

Por essa razão, mesmo nas escolas de economia, há uma equivalência entre produto e rendimento: a soma do valor de todo o produto é igual à soma do valor de todos os salários e lucros (e suas sub-divisões).

Em conclusão: Raquel Varela tem razão. Todo o valor criado se reduz a salários e lucros, a soma dos preços todos é igual à soma de todos os salários e lucros. O “mercado” (incluindo o de trabalho) é o “local” em que se medem forças, onde se vê quem consegue torcer o braço de quem.

É menos mágico do que parece.

Como se faz um preço?

Como se faz um preço? Com lucros e salários. Mais nada. Não há notícia, na cadeira de produção, de aumento algum de salários no mundo. Os preços que existem são a resposta dos accionistas das empresas, sobretudo das grandes, que são quem fixa tudo no mercado. Chama-se lucros extraordinários. Não tem outro nome, nem outra causa. O salários dos trabalhadores da extracção de gas, dos navios, dos mecânicos, dos marinheiros, dos estivadores, dos camionistas, dos trabalhadores de supermercado que lhes vendem alimentos, dos agricultores, dos veterinários, dos professores e dos médicos de todos estes trabalhadores, nenhum salário aumentou. O que aumentou foram os lucros, e são obscenos, nas grandes corporações os lucros aumentam, como aumenta a venda de casas de luxo, carros de luxo, ouro, viagens de jets privados, vivemos uma catástrofe social. O governo e o Estado deviam pelo menos ter o bom senso de parar de dizer que não podem fazer nada – fazem, todos os dias, tudo. Fazem tudo para que nada mude e todos os que vivem do trabalho vejam o seu salário em risco e em queda livre, mantendo intocadas as rendas fixas na dívida pública e no imobiliário. Indigno. É indigno ir a um supermercado no século XXI e ver as pessoas alimentaram-se de latas de atum, óleo, massa, entrecosto, angustiadas, sem casa para viver, sem trabalhos dignos, sem forças e esperança, a estender a mão à caridade, para se “adaptarem” aos lucros de accionistas que auferem milhões de euros por ano. É isto que tem que mudar. Não vai mudar por mágica eleitoral. Só vai mudar quando as pessoas fizeram da política e da coisa pública uma necessidade e uma realidade diárias, e não uma profissão que outros “exercem” por nós.

É Preciso subir salários e pensões

Os portugueses e lá fora também foram convencidos que estamos numa economia de guerra de escassez. Os números, oficiais, desmentem cabalmente:

Os lucros das empresas do PSI 20 já vão, em 2022 no 1º semestre, em 75% de 20212, 2 mil milhões de euros. Lá fora idem, a Alemanha bateu recordes de lucro, 203 mil milhões, o Santander em Espanha já vai com mais 16% de lucro do que no ano passado , na França as 40 maiores empresas anunciaram lucros recordes de 170 mil milhões. Esta obscenidade é a massa, o arroz, o pão-carcaça dos portugueses que não conseguem comer proteína de qualidade, legumes, vegetais, educar os filhos com qualidade, ter saúde rápida e boa, esta obscenidade de lucros não se chama “guerra”, chama-se concentração de riqueza, protegida pelo Estado.

Estado que anuncia uma nano-migalha de menos de 10 euros por mês quando os salários estão a ser comidos pela inflação que engorda até o próprio Estado com impostos insuportáveis.

A situação real é catastrófica e será enquanto não se mexer nos lucros das grandes empresas. Os portugueses não conseguem pagar casa, alimentar-se com qualidade, viver com segurança económica e paz de espírito. Vivem mal e na corda bamba.

O governo anunciou um corte real das pensões, uma nova troika. É disso que se trata. Porque se tinha comprometido, há uma década, a aumentar as pensões de acordo com a inflacção e assim que a inflação chegou mudou a lei para cortar as nossas pensões e reformas.

A Segurança social não está em risco porque as pessoas envelhecem, ou porque as pensões são altas. Está em risco porque quem entra para trabalhar entra com salários miseráveis que dão poucos descontos para o bolo.

Toda esta política visa proteger não as pessoas – o país tornou-se insuportável para viver, as contas são impagáveis com os salários que temos -, esta política protege a dívida pública, uma renda parasitária privada, que sequer jamais em Portugal foi auditada.

O aumento dos juros pela UE com o apoio do Estado português significa que estão a organizar e provocar uma recessão, que vai destruir as pequenas empresas e coloca um garrote nas hipotecas.

O neoliberalismo não é menos Estado. É o Estado a proteger accionistas, corporações, e destruir a capacidade de reprodução até da própria força de trabalho, que não tem os mínimos, quanto mais a dignidade essencial e merecedora que todos devíamos ter como seres humanos.

Feira do Livro

Hoje estarei das 15 às 17 horas na feira do Livro para uma sessão de autógrafos, e às 17 horas no painel de debate Ler é Essencial: “Irene Vallejo, João Tordo, Nuno Caravela, Raquel Varela, Tânia Ganho e Teolinda Gersão, com a moderação de Pedro Vieira, conversam sobre o Livro, os hábitos de leitura, os desafios e as vontades e necessidades para o futuro.

A conversa Manifesto pela Leitura tem início às 17h no auditório sul da Feira do Livro de Lisboa e conta com todos os apaixonados pelo Livro. Vemo-nos lá!”

Compreender o Mundo

Para quem desconhece um dos melhores instrumentos de análise da história e da política, e para surpresa de tantos, Troysky na Folha de São Paulo, pela mão de Robert Scwartz. É caso para dizer que quem não leu a teoria do desenvolvimento desigual e combinado (elaborada em parte mas não só na monumental história da revolução russa de Leon Trotsky – simplesmente um dos melhores livros de história de sempre, Enzo Travesso acaba de elaborar justamente nesse sentido, na excepcionalidade desta obra) não saber localizar-se no mundo.

Tese de Trótski transforma visão de países periféricos como quintal do mundo

Roberto Schwarz, Roberto Schwarz 30 de julho de 2022

A tese do desenvolvimento desigual e combinado, de Leon Trótski, propõe um golpe de vista abrangente do ritmo irregular e planetário do capitalismo e, ao ressaltar as conexões dos países periféricos com o centro, muda o estatuto da sua condição de quintal do mundo.
O ritmo irregular e planetário do capitalismo escapa a nossos hábitos mentais, aprisionados na estreiteza nacional, na miopia de classe, na rotina das disciplinas acadêmicas e, também, nos esquemas do marxismo dogmático.
Ao colocar o acento nas descontinuidades do progresso, ou seja, nos seus deslocamentos súbitos, nas retomadas onde menos se espera, nas recombinações paradoxais com o atraso, sem esquecer os retrocessos, Leon Trótski (1879-1940) procurava fazer justiça à complexidade do processo real, que é contraintuitiva.
Sob este aspecto, a sua tese do desenvolvimento desigual e combinado do processo histórico era uma simples constatação de fatos pouco observados. Entretanto, pela crítica ao senso comum, às certezas da evolução linear e das localizações estáveis, ela era também um programa de desautomatização do espírito, instado a livrar-se de ideias feitas.
Tratava-se de exercitar um golpe de vista abrangente, internacionalista e aberto para o livre jogo do capital e da luta de classes, contrário à preguiça da visão corrente. À sua maneira, uma recomendação de genialidade, se não for muito pedir (com risco de escorregar para o chavão por sua vez). Se fizermos abstração da política —que, no caso, era o principal— havia afinidade com as audácias da arte moderna, que também justapunha o que o espaço histórico, o tempo e a normalidade separavam.
O interesse dessa posição para os países periféricos salta aos olhos. Uma vez ligada por dentro ao progresso dos países centrais —o seu polo oposto—, a condição de quintal do mundo muda de estatuto e ganha uma saliência inédita, tornando-se parte representativa e polêmica da atualidade, com direito à palavra.
A transformação é vertiginosa. De vestígios de um passado em vias de extinção, pitoresco no melhor dos casos, esses países relegados passam a problemas modernos, instâncias dramáticas do presente desigual e combinado do mundo.
Tornam-se provas vivas do que, décadas depois, no âmbito do desenvolvimentismo em crise, se chamaria desenvolvimento do subdesenvolvimento ou reposição moderna do atraso, formulações que em um primeiro tempo chamariam à revolução, mas depois colocariam em xeque o sinal positivo do futuro (e talvez o otimismo revolucionário de Trótski).

No plano da cultura, situações que pareciam condenar intelectuais e artistas à marginalidade irremediável agora os trazem à primeira linha do debate sobre o rumo perverso tomado pela modernização. Também no plano da ação política e econômica, a articulação ao que é novo desbloqueia —para bem ou para mal, frequentemente para mal— a paralisia anterior.
Os graus de liberdade de políticos e homens de negócio, agora muito mais descolados de seu povo, se é que isto ainda existe, aumentam. Não obstante, o salto nacional à frente, possibilitado talvez pela ligação estratégica ao polo avançado, que funciona como uma alavanca, não desaparece do horizonte.

Para quem queira ler mais História da Revolução Russa de Trotsky; George Novack e a Lei do Desenvolvimento Desigual e Combinado; e os trabalhos imperdíveis de Neil Davidson.

www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2022/07/tese-de-trotski-transforma-visao-de-paises-perifericos-como-quintal- do-mundo.shtml

“Diz-me como trabalhas, dir-te-ei que velho serás”

A regra passou a ser o turno, a hora extra, o descompasso com a vida. São corpos disponíveis para a acumulação de capital que deixam de estar disponíveis para viver a partir dos 50, 60 anos.

No meu primeiro dia de trabalho na Holanda, há 10 anos, no Instituto Internacional de História Social, tive duas surpresas – diria Cantarella, o siciliano humilde e naïf criado por Andrea Camillieri –, surpresas surpreendentes. A primeira foi que a secretária me entregou, mal entrei, o cartão, computador, senhas, mostrou-me o meu gabinete, com vista para o canal, aquecido (o empregado de limpeza, marroquino, meu companheiro de tagines, deixava-me sucessivos recados em holandês “demasiado quente!”). A secretária pediu-me, nesse dia, a lista de todas as minhas viagens durante um ano para serem compradas. Perguntei-lhe se não estaria enganada, até junho de certeza? Cerca de uma hora depois – sem ter preenchido nenhum formulário linha a linha, casa a casa, quase ter vontade de desistir de viajar –, tinha todos os bilhetes no meu email. Confiança, responsabilidade, autonomia. A produtividade, ora aí está. Uma vez por mês tínhamos seminários onde apresentávamos as nossas ideias, com trabalhos, e críticas ao trabalho dos colegas, sujeitando os nossos a avaliação, em mesa-redonda. Aqui residia, na qualidade, a nossa avaliação.

A segunda foi muito mais impressionante. O ex-diretor, que tinha sido meu professor numa Masterclass, já perto dos 70 anos, perguntou-me se eu queria boleia (eu estava a viver com a família dele a 60km de Amesterdão, ia e vinha de comboio todos os dias confortavelmente, e a estação ficava a 1 km e meio do Instituto). Disse que sim, agradeço a boleia, ainda não estava totalmente familiarizada com o caminho. Quando chegou o fim do dia, nevava, dirigi-me à porta, e ele esperava-me…na bicicleta…! Eu ia de boleia na traseira da bicicleta do meu diretor, a nevar, e ele tinha 70 anos ou perto disso.

A minha vivência com ele e a esposa foi maravilhosa. Nenhum deles tinha carro ou carta de condução – as férias eram de bicicleta, era também na bicicleta que iam buscar os netos, faziam ginástica e ele, uma vez por semana, com temperaturas negativas e gelo, remo. Namoravam. Passeavam. A Televisão, para minha sorte, era numa pequena sala fora da sala de convívio e só era ligada para eles verem as notícias de 20 minutos (ainda me surpreende como é possível termos noticiários de 1 hora e meia). O resto da noite líamos, conversávamos e ele tinha um hobby, colecionava moedas. Um dia fui a Londres e encomendou-me um livro, que não posso reproduzir de memória, mas era algo como 600 páginas sobre, creio, as moedas da Índia cunhadas no império britânico num século específico. Ela tinha responsabilidades numa escola, dirigidas, se bem me lembro, a migrantes.

O contraste com Portugal fez-me então pensar, pela primeira vez, o que era ser velho aqui e o que era ser velho lá. O que era ser velho e pobre ou velho e remediado. Ou ainda velho, de classe média, mas num país empobrecido, como Portugal. Ou velho e rico. Dificilmente conseguimos conversar com alguém no nosso país com 65, 70 anos, na verdade 55, 50 anos sem saber que a pessoa tem o colesterol alto, é diabético, tem uma consulta marcada para o médico para a semana, foi operado a uma hérnia, tem uma condição cardíaca…São raras as pessoas em Portugal, com 70 anos, com quem podemos ir passear de bicicleta, quanto mais ir de boleia na traseira da bicicleta, a fintar a neve e o gelo.

Os números ajudam-nos a traçar o quadro – Portugal tem a mesma esperança média de vida do que a Holanda (81 anos, pouco mais ou menos) mas 15 anos a menos na esperança média de vida saudável face a vários países da Europa – em Portugal entre os 54 anos e os 57 (mulheres e homens) em média as pessoas deixam de viver em condições saudáveis. Na Suécia isto acontece aos 74 anos, em Portugal quase 15 a 20 anos antes do que os países centrais da Europa.

Estes dados da periferia têm causas sociais conhecidas. E soluções, políticas, também sobejamente conhecidas. E ignoradas pelo poder político.

São os baixos salários, a que vem agregada a má alimentação, e o frio dentro das casas e escritórios (há uma relação direta estudada na saúde pública e determinantes sociais da saúde entre 2 a 3 graus menos de temperatura e o espoletar de doenças). Depois da Troika, a revista de saúde Lancet publicou um estudo onde Portugal estava à cabeça nas doenças respiratórias e pneumonia, e eram associadas ao frio dentro de casa e trabalho. Longe do trabalho braçal da enxada e das cozinhas exteriores, onde a lenha aquecia sempre as refeições, hoje as pessoas trabalham de forma sedentária ou estão em casa com temperaturas que os adoecem; os longos horários de trabalhos e os turnos, sobretudo os noturnos, pagam-se com a vida – ao final de 5 anos de trabalho por turnos começa a disparar a possibilidade de doenças e síndroma metabólico (o famoso obesidade, diabetes, hipertensão).

Se em 1864, na fundação da Associação Internacional de Trabalhadores, em Londres, se exigia que o trabalho noturno devia só ser permitido de forma excecional e “a tendência deve ser a de suprimir todo o trabalho noturno”[1], hoje a laboração contínua coloca os trabalhadores em turnos e trabalho noturno quase como regra. Com impacto direto na degradação da sua saúde, vida afetiva, sexual, ócio – são corpos disponíveis para a acumulação de capital que deixam de estar disponíveis para viver a partir dos 50, 60 anos.

A regra passou a ser o turno, a hora extra, o descompasso com a vida.  A tendência é para usar os trabalhadores até ao limite, o que naturalmente significa que esse limite chega muito antes da idade da reforma. Os Governos, conhecedores desta – a que chamei, nos estudos sobre trabalho, obsolescência programada da força de trabalho –, vão modificando as leis das reformas, aumentando por um lado a idade da reforma, e por outro, reconhecendo que ninguém aguenta estes ritmos, vão permitindo que as pessoas se reformem ou sejam encaminhadas para a segurança social com uma panóplia de exceções que os colocam a receber muito pouco, em casa, incapacitados ou muito limitados em termos de saúde. E aí começa o círculo vicioso, porque estão em casa já adoecidos, com baixos rendimentos, má alimentação…

Os cuidados de saúde, sobretudo primários, preventivos; e outros fatores menos mensuráveis metricamente, ainda assim cientificamente sustentados – a falta de autonomia nos locais de trabalho, a subjugação, o medo, a insegurança laboral, a falta de confiança interpares, a ausência de afetos, tudo podendo redundar em patologias da solidão –, tudo isto agrava cada vez mais as condições em que se envelhece.

Há evidentemente fatores no envelhecimento que nos colocam desafios para lá das classes sociais – para mim um dos mais complexos e difíceis de resolver é que o desenvolvimento da medicina permite prolongar a vida, por vezes sem qualidade, e não falo da eutanásia. Falo da grande questão: até que limite devemos intervir na vida das pessoas mantendo longos anos de vida que para muitos são também de enorme sofrimento? Aqui, claro, surgem questões éticas, para as quais não tenho resposta, mas que creio que deviam ser debatidas. Recordo-me de um dos meus grandes amigos, que morreu com 91 anos, me disse, quando o visitei, e estava numa cadeira de rodas, dependente, e assim esteve um ano, “isto não é vida”. Não creio que a eutanásia resolva este dilema ético, tão pouco o sei resolver. Penso, porém, que se devia pensar nele sem tabus. Com medo das perguntas, como encontraremos as respostas? Isto mexe com a dignidade das pessoas, o seu direito a escolher, a nossa vontade de não as perder, a forma como encaramos a morte, e naturalmente convoca-nos a pensar também a questão cimeira do papel dos lares em muitas sociedades.

Lares que na pandemia foram atores, em toda a Europa, sem exceção, de alguns dos mais tristes acontecimentos. Lares ou “casa de cuidado” (tradução livre) sabemos hoje não são, apesar do esforço louvável de tantas instituições e seus trabalhadores, propriamente lares (é certo também que muitas famílias não conseguem ter um lar, no sentido de casa onde há bem-estar e afeto). A forma solitária e resignada como a sociedade competitiva está organizada, aliada a horários de trabalho brutais, que impedem o cuidado dos mais velhos pelos mais novos, que trabalham; os núcleos familiares reduzidos;  a que se juntam doenças que exigem cuidados especializados, e, naturalmente, o aumento da esperança média de vida, e a pobreza cada vez mais generalizada (quem tem 1500 euros para pagar duas cuidadoras?), tudo isto faz com que o tema dos lares seja de uma enorme urgência.

Mais uma vez aqui a questão de classe e país não é idêntica – se na Suécia, por exemplo, há uma política de cuidado ao domicílio e só se vai para um lar quando se está mesmo muito doente, em muitos países os lares são muito vezes o refúgio de quem, cedo, não conseguiu compatibilizar o cuidado dos mais velhos com os horários de trabalho e os baixos salários.

Não quero, porém, reduzir a questão do envelhecimento a esta situação limite.

A forma paternalista com que tantos, com mais de 70 anos, em pleno uso de todas as suas capacidades, foram na pandemia vítimas de supressão de direitos, à margem da Constituição, reflete justamente esta ideia de que ser velho é estar no fim da vida. Não raras vezes vemos governantes, familiares, dirigirem-se aos mais velhos com autoritarismo e paternalismo – o corte das pensões na Troika anunciava já está ideia de que ser velho pode equivaler a ter direitos suprimidos. 

A realidade tem que ser outra. Podemos e devemos ter políticas que construam uma sociedade onde ser velho não é um retrocesso – o lugar dos mais velhos, os que mais deram à sociedade, e a quem tanto devemos, não pode ser encarado como um fardo, e o aumento da esperança média de vida como um problema.

Precisamos de soluções políticas que nos ajudem a cuidar de quem cuidou de nós, com o máximo de disponibilidade nos campos da saúde, sociais e afetivos. A eles, que são os nossos pais e avós devemos uma sociedade que não os envelhece antes do tempo, não lhes retira o direito a viver, namorar, passear, ser autónomos, respeitar as suas liberdades e direitos, e não os tratar com paternalismo e vitimização ou abuso de poder.  E devemos, claro, na hora da despedida, poder estar ao seu lado, com o mesmo carinho e atenção com que nos pegaram ao colo.

Publicado no número especial Envelhecer – União das Misericórdias Portuguesas

Professora Universitária FCSH/UNL HTC/ Socialdata Nova4Globe e Observatório para as Condições de Vida e Trabalho

https://ionline.sapo.pt/artigo/777703/diz-me-como-trabalhas-dir-te-ei-que-velho-seras?seccao=Opiniao_i

Alcarràs

Um filme maravilhoso, Alcarràs. Uma família produtora de alimentos, na Catalunha, na actualidade, é expulsa por uma empresa que na propriedade coloca painéis solares. Uma versão moderna do tema das Vinhas da Ira – a despossessão da autonomia, do sentido do trabalho -, e que deixa a nu os efeitos antieconómicos e desumanos do capitalismo-verde. O filme não é, porém, um panfleto político (como nunca foi As Vinhas da Ira), é uma filme de uma humanidade total, beleza, divertido e realista, sensível. Está ainda nos cinemas, que é onde acho que se devem ver filmes, confesso. O cinema é uma experiência que não se reproduz da mesma forma em casa, mas seja onde for vejam, é lindíssimo. As brincadeiras das crianças são inesquecíveis, de uma ternura imensa, como o são os olhares do avô, a sátira aos padrões de consumo cultural jovem, enfim, ide ver. Vencedor do Urso de Ouro no Festival de Cinema de Berlim