Recursos desumanos

Em 1870 é apresentada no parlamento inglês, por ordem de sua Majestade, o Relatório sobre as Condições das Classes Trabalhadoras dos países estrangeiros . Um grupo de agentes consulares e diplomáticos envia de várias partes do mundo um relatório detalhado sobre que condições laborais iriam os capitalistas ingleses encontrar em cada país, desde Portugal ao Império Otomano, dos EUA à Grécia, com destaque para regiões – a Espanha tem um relatório por cada região. Nele podem ler-se o número de almas disponíveis para trabalhar, a sua formação média, tamanho da família, hábitos alimentares, habitação, higiene, trabalhos que podem ser ocupados por mulheres, meninas e meninos. No Império otomano há uma descrição detalhada das organizações associativas de artesãos e quanto ganham por categoria; o de Valência explica, além do número, que ganham mais no verão do que no inverno, provavelmente por escassez de força de trabalho disponível, já que estão a trabalhar nas próprias colheitas. O de Portugal recomenda os trabalhadores portugueses porque não bebem muito ao Domingo e por isso trabalham à segunda-feira, e porque “se contentam com pouco”. Aquilo que hoje seria um moderno estudo de gestão de recursos humanos, realizado provavelmente por uma consultora internacional, era já profundamente detalhado na Europa industrializada oitocentista – a visão do continente como um mercado de trabalho. Até onde podemos ir? Até onde nos deixarem.

Não há dinheiro nos off shores

«Não há dinheiro nos off shores, trata-se de uma passagem virtual, ele passa por uma caixa postal numa ilha qualquer para depois ser colocado onde se valoriza – títulos da dívida pública, imobiliário, acções de empresas. Ou seja, ele não “fugiu”, está aqui ao nosso lado, pode ser expropriado ao abrigo da lei de recuperação de activos. Basta ter com os poderosos a mesma mão de ferro implacável que se tem com um trabalhador a quem penhoram o salário porque tem dívidas de centenas de euros, ou um pequeno empresário a quem congelam todas as contas, sem decisão judicial, porque deve 5 mil euros».

 

Homem de grande firmeza e generosidade

Homem de grande firmeza. Zeca Afonso homenageou-o assim na música que cantava os seus feitos, cujo percurso juntou duas influências decisivas da segunda metade do século XX: o catolicismo progressista e o guerrilheirismo revolucionário de base camponesa, pós revoluções chinesa  de 1949 e cubana de 1959. O homem e as suas circunstâncias, portanto? Nem tanto. Nem sempre. Alípio começou por ser o que não era. É um revolucionário que nasceu para ser um conservador. Estava destinado a manter e reproduzir as estruturas da sociedade tal como ela se tornou – ou seja, manter os pressupostos que asseguram a mercantilização de todas as necessidades humanas. Em algum momento rompeu idealmente com isto, talvez quando foi viver junto dos mais pobres em Trás-os-Montes. Não sei. Não chega o encontro com a pobreza para nos levar a questionar a sua propalada inevitabilidade. O momento em que rompemos com um determinado quadro interpretativo do mundo é íntimo e em geral um salto qualitativo que é precedido de longas mudanças – mudamos, muito, mas só depois de grandes caminhadas, cansativas subidas e enormes quedas. E, claro, impulsos de amor. O sofrimento e o amor mudam-nos. Mas toda a mudança é mais lenta do que o seu momento visível.

A ruptura, idealista, com o quadro da manutenção da propriedade privada, dos privilégios de classe, da exploração do trabalho alheio deu lugar a uma ruptura material em Alípio, capaz de influenciar e transformar a realidade. Não rompeu em palavras com a sociedade capitalista, rompeu com o gesto mais distinto que existe – tornando-se dirigente de colectivos organizados. Para isso são necessárias qualidades raras, combinadas. É porventura o trabalho mais difícil que há – organizar colectivos humanos, com estratégia. Começou então um longo trajecto que a muitos pode parecer quixotesco mas que não se resume, como o nosso fidalgo de la Mancha, a ver nos outros o que eles não são – os revolucionários vêem nos outros o que eles podem vir a ser. Isso exige ver mais e mais além, e requer muita generosidade. Ver em comunidades pobres do mais pobre dos Estados brasileiro, São Luís do Maranhão, como se podia cooperar onde grassava apenas a luta pela sobrevivência é muito mais difícil do que ver a Dulcineia onde ela não está. Também exige, porém, escolhas, logo, conflitos, rupturas, e isso não se faz sem imensa coragem. Para abraçar um lado da humanidade é preciso combater o outro. Os sonhos só existem porque há homens que construíram os caminhos para eles. Alípio é um deles. Há poucos.

Nota: Este texto foi escrito para o livro que a Guadalupe Magalhães, pessoa de doçura e capacidade de organização raras, reuniu dedicado a Alípio de Freitas, seu amor.

 

 

 

Parar o comboio da História

“Nenhum Estado foi tão longe até hoje em qualquer regime com os direitos das mulheres como a revolução bolchevique em 1917”: Nenhum retrocedeu tanto provavelmente como o da Rússia Estalinizada – creches encerradas, abordo proibido, um “código” de família ultra reacionário.
Aconselho a leitura da obra da historiadora norte americana Wendy Goldman, feita em arquivos russos.

Aula Pública: greves na História

Este sábado darei uma aula pública para sindicatos e CTs sobre exemplos de greves bem sucedidas na história. Abordarei, entre outros, os seguintes temas: fundos de greve; greves com trabalhadores precários (à peça); greves com imigrantes, do XIX aos nossos dias (o papel da AIT em 1864 sobre este tema); o papel das famílias na organização da greve – o caso da greve dos mineiros ingleses; a estrutura financeira, relações com os partidos, tipos de greve; o papel dos serviços mínimos, hoje e na história. Entre outros abordarei as greves de ocupação dos EUA de Roosevelt; a greve dos sapateiros na I República portuguesa; a greve dos estaleiros navais de Naval Xixón nas Astúrias; a greve dos portuários portugueses. A entrada é gratuita mediante inscrição para os organizadores Associação A Casa. formacaosindicalcasa@gmail.com
Das 16 às 19 horas, Lisboa.

Nem um passo atrás

São as maiores assembleias de base em Espanha num sector organizado do movimento de trabalhadores desde a crise de 1981-1984 nos mineiros, indústria naval e siderúrgico. Na Europa deste Margaret Thatcher e os mineiros nada idêntico tinha lugar. Mariano Rajoy aprovou um decerto em que pretende despedir, em 3 anos, mais de 5 mil dos 6700 dos estivadores espanhóis. Diz que os estivadores são um monopólio e as empresas, cartelizadas, precisam de flexibilidade. A UE diz que multará a Espanha se não despedir os estivadores em mais de 100 mil euros ao dia. A resposta foi a maior onde de organização de base na Europa em 30 anos, uma onda de assembleias, “greves” de diminuição da velocidade da descarga; greve oficiais marcadas e, porventura, desde a greve de mais de 1 ano de Liverpool em 1997 – gravada num filme de Ken Loach – a maior onda de solidariedade internacional no sector – 65 000 estivadores dos EUA, Europa, África e América Latina dispostos a entrar em greve contra a precariedade dos estivadores espanhóis. Nada semelhante acontecia na Europa desde a década de 80 do século XX. O lema começou por ser “Estivadores unidos jamais serão vencidos” mas em Algeciras a base mudou o lema para “Nem um passo atrás”.

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