Querida Endesa

Endesa, minha querida. Escrevo-te mais do que ao meu amor. E aqui, é precisamente aqui, que começam os nossos problemas, meu e teu Endesa. Se eu escrevo mais a uma companhia de distribuição de electricidade do que ao homem que amo algo vai mal no reino de Portugal. Ou da China. Ou do fundo financeiro do Qatar, não sei quem surfa este roubo, em que paraíso fiscal passas férias, estimada Endesa. Fazem vocês estimativas do meu consumo, a partir, sempre, do mês de Janeiro, o que mais gasto, o mais frio. Assim, desde então, pago mais todos os meses do que devo. Sugeres-me então que eu transmita por internet a leitura real, com uma password – a centésima password que tenho guardada, e que tem que ter número, letras ufa…- mas a leitura afinal só é considerada no dia tal ao dia tal e justamente eu entro na página no dia errado – azar o meu – e 20 minutos depois (tinha-me esquecido pela enésima vez da password) consegui dar a leitura, mas a mesma não pode ter zeros, volta tudo ao início. Finalmente, muitas cartas depois, dias de vida e de delicadeza que me tiram, tempo de amar, e descobrem que têm que me devolver o dinheiro que entretanto amealharam em 9 meses e investiram, sei lá, no fundo de pensões dos professores da Califórnia ou dos marinheiros da Nova Zelândia, o qual naturalmente só rende algo a Endesa se cortarem aos professores e marinheiros o salário – são os famosos “resultados positivos” das empresas medidos como se sabe pela intensidade de remuneração dos seus accionistas no balanço anual. É claro que agora o mercado é livre, posso trocar para a EDP. Livre de responsabilidades, planos, seriedade, livre de concorrência, oferta garantida, livre dos infernos de quem como eu, junto com milhões, vive honestamente do trabalho em vez de estar no paraíso fiscal que partilham com a rainha de Inglaterra e as sociedades de especuladores a que têm o hábito de eufemisticamente chamar Bancos. Posso pagar ao Mexia em vez de a ti Endesa, chama-se escolha, mas espera o Mexia também vai de férias ao Panamá? Estás a rir-te?! Pois é, escolhemos não escolher, o tal não há alternativa, risco sistémico. Não te rias, Endesa, tenho uma profissão linda – estudo a história do movimento operário e do trabalho e posso jurar-te – isto não vai acabar bem. Viver sentado num Banco à espera que o trabalho dos outros nos caia no colo mais cedo ou mais tarde dá mau resultado.

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A dívida desvia recursos públicos para o sector privado

 

“Não se gere uma sociedade distribuindo subsídios e assistência mas distribuindo o trabalho que existe por todos, impedindo assim que o desemprego actue como o regulador do preço dos salários.
 
Os Bancos têm que ser públicos, não podem ser sociedades privadas de especuladores. Não podemos ter uma sociedade na mão de interesses restritos que quando colapsam arrastam consigo a vida de milhões de pessoas.
 
Um Governo não pode exigir aos cidadãos que paguem a dívida sem nunca ter apresentado a factura, que a contraiu, como, em beneficio de quem. Quem tem medo de uma auditoria à dívida pública?
 
O Pleno emprego não implica estagnação, pelo contrário – inovação. O medo de perder o emprego leva a queda da produção e à degradação das relações sociais. Não podemos tolerar um único desempregado porque isso é imobilização de capacidade produtiva.
 
Em Portugal tivemos o 7ª melhor serviço nacional de saúde do mundo, é uma conquista impar da planificação da revolução dos cravos, que foi posto em causa pela Troika – hoje pagam com a exaustão médicos, enfermeiros e profissionais de saúde a remuneração da propriedade dos detentores da dívida, na forma de títulos. Como se pode pagar em juros – que até a Idade Média considerou uma forma iníqua de viver – o mesmo que se gasta a tratar e cuidar de dez milhões de pessoas?
 
Dois acontecimentos marcam hoje, como foi referido, este dia – a revolução russa, que suspendeu a dívida contraída para a barbárie da I Guerra Mundial; e a crise de 29. Por isso termino com as palavras de Toma Joad, em As Vinhas da Ira…”
 
Raquel Varela defende a suspensão do pagamento da dívida com uma auditoria integral à mesma.
Senado brasileiro, Comissão de Direitos Humanos, 7 de novembro de 2017.

 

Nota ao Presidente do Conselho Nacional de Saúde

O Presidente do Conselho Nacional de Saúde veio sugerir que enfermeiros exerçam tarefas de médicos. É a opinião do FMI também, da bastonária da Ordem e, infelizmente, do Governo.

Deixo sobre isto rápidas notas e 3 imagens, demonstrando a ausência de dados científicos destas afirmações, que mostram a gravidade da declaração política que foi proferida por Jorge Simões.

1)Desde o final dos anos 1990, começamos a voltar ao sistema do Estado Novo – saúde pobre para pobres, média para médios (cada vez menos) e inexistente para ricos tendencialmente. Por diversos factores, já não podemos falar de um SNS para todos porque as mudanças que se deram são qualitativas. Neste momento, aqueles que têm dinheiro  têm acesso a uma saúde boa e rápida, e quem não tem dinheiro não têm esses cuidados. Estamos a regressar a uma saúde – para quem «vale pouco» no mercado de trabalho, a maioria dos salários em Portugal/desempregados e reformados  – indiferenciada – é aí que o FMI entra a sugerir que enfermeiros exerçam tarefas de médicos.

Faltam enfermeiros para outro tipo de tarefas, e os que existem trabalham em exaustão máxima, mas não são necessários para substituir médicos  – por exemplo, faltam enfermeiros para ensinar mães a dar de mamar e as ajudar, e faltam pediatras para que todas as crianças tenham um pediatra, um médico especializado. Se temos esse saber porque não os disponibilizar a todos? Porque temos uma saúde geral e familiar para os pobres e um pediatra para quem paga? Os exemplos multiplicam-se.

2) Após a aplicação do ‘Memorando de Entendimento’ da troika, a produção de cuidados de saúde (o mesmo número de consultas ou atendimentos) é mantida com menos dinheiro e menos investimento. (ver nosso gráfico).

3) O actual funcionamento do SNS é feito à conta da intensificação do trabalho dos médicos e dos internos, sobretudo os médicos mais jovens; da intensificação do trabalho dos médicos de família e também dos enfermeiros e pessoal auxiliar.

4)  O sistema português foi um dos melhores do mundo, após 1974. Até 74 era marcado por uma saúde relacionada com o preço da força de trabalho – quem” valia pouco” no mercado de trabalho tinha a acesso a cuidados indiferenciados, os outros, mão-de-obra escassa, a cuidados especializados. Isso fez com que nunca, até 74, tivéssemos escala para um serviço de excelência porque para ter serviços de excelência é preciso atender muitas pessoas, e não uma escassa minoria. Só a grande escala do SNS permite formação e cuidados de saúde de alta qualidade justamente porque a escala amplia os recursos.

5) Os centros de saúde estão abertos a horas impossíveis para os trabalhadores. Só trinta por cento das consultas de especialidade nos hospitais é que são referenciadas pelo médico de família. O hospital é cada vez mais um centro de treino como era no Estado Novo. Os nossos números mostram que os médicos estão em treinamento, em grande número. Ficam em formação no hospital e depois saem para trabalhar fora do SNS ou então não ficam em pleno ou em regime de exclusividade. O Serviço Nacional de Saúde aumentou o recurso a médicos “em fase de formação na especialidade”, e que transitam depois para o sector privado, degradando a situação de profissionais e utentes.

6) A única forma de acabar com estas políticas – e garantir saúde igual para todos, desígnio de dignidade civilizacional – é acabar com os hospitais SA/EPE, regressar a um regime de exclusividade bem pago dos profissionais de saúde, e reintroduzir a gestão democrática – a gestão privada de hospitais é um desastre enquanto eficiência, se medida pelo número de pessoas com acesso a bons cuidados de saúde.

Se 40 mil médicos a tratar dez milhões de pessoas, defendendo as suas carreiras, são uma corporação o que são alguns milhares de accionistas e suas famílias que vivem da remuneração de títulos da dívida pública pagos com o corte de salários de médicos?

Raquel  varela é historiadora do trabalho, professora universitária e investigadora, coordenadora – com Renato Guedes – do Estudo « História do Serviço Nacional de Saúde em Portugal: a saúde e a força de trabalho, do Estado Novo aos nossos dias. Evolução do Esforço Médico no SNS depois do “Memorando de Entendimento», disponível em acesso livre aqui.

https://raquelcardeiravarela.wordpress.com/2017/04/01/estudo-sobre-servico-nacional-de-saude-raquel-varela-renato-guedes/

Entre o assédio e a difamação

O que mais me espanta nos escândalos de denúncias de assédio em Hollywood é que são realizados nas redes sociais – mais uma vez os EUA numa luta entre a barbárie e a barbárie, neste caso entre o assédio e a difamação, em ambos o abuso de poder e a total desprotecção da liberdade e dignidade individuais. A degradação da industria cultural norte-americana é um carro sem travões. Uma aliança sem princípios entre o liberalismo e o conservadorismo, acordámos para a triste realidade – o mundo das princesas encantadas da grande tela é um esgoto de violações e ameaças, e elas responderam, duas décadas depois! com a mesma lama em que cresceram virando monstros de denúncias públicas nas redes sociais em que o crime gravíssimo de violação (que tem penas escandalosamente baixas em todos os países) é misturado com o galanteio, a conquista, a força e o convite, o assédio e a chantagem, a sedução, tudo no mesmo saco, sem fronteiras, onde se destilam pormenores da vida íntima – que se lixe o direito ao bom nome, vida privada, presunção da inocência, segredo de justiça – como a justiça não funciona vamos fazê-la nas redes sociais. De fugir, de fugir. Trump não foi um acidente histórico, é mesmo parte de um mais amplo processo geral de degradação social dirigida por gente perigosa para quem os fins justificam os meios. E esta gente toda acha Estaline um monstro. Mal sabem quanto lhe devem em direitos de autor: se não és culpado, podias ser. Se és, já estás julgado. Queremos antes do tribunal uma confissão pública, de preferência de joelhos. E antes do tribunal, em nome da confissão prévia, apagamos o culpado da tela…

O Camarada Tulaev

Um dos livros que li este ano, um dos melhores de sempre.
O romance do Termidor Estalinista escrito não por um liberal com a visão distorcida e errónea da teoria do totalitarismo mas pela pena de um revolucionário, com uma precisão histórica de um bisturi. Só uma nota correctiva à descrição da editora – Serge não era um anarquista, começou por sê-lo, aderiu depois ao trotskismo, à Oposição de Esquerda. Era na verdade uma figura comum na história – um anarco-trotskista. Aliás, é dele a melhor análise sobre o levantamento de Kronstad. Imperdível este livro.
«Na noite gélida de Moscovo, o Camarada Tulaev, um alto funcionário governamental, é abatido a tiro em plena rua. Nesta visão panorâmica do grande terror das purgas estalinistas, a investigação policial que se segue alarga-se a todo o mundo desvendando redes inteiras de suspeitos unidos pelo simples facto de serem inocentes – pelo menos da morte em causa. Inquestionavelmente a melhor obra de ficção escrita sobre um dos momentos mais negros da história do século XX, não se limita a ser a história de um estado totalitário. Marcado pelo profundo sentido humano do autor Victor Serge, o lendário anarquista e exilado político, é um notável clássico da literatura mundial, uma história de risco, aventura e nobreza inesperada capaz de ombrear com o melhor de Hemingway ou Malraux.
«Aquilo que realmente surpreende quem lê hoje Victor Serge está muito para lá do enquadramento político a que muitos leitores cronologicamente mais próximos reduziam a sua obra. Aquilo que surpreende hoje é que seja possível ter escrito obras de tão enorme e inegável talento para apenas ser lido como um autor ‘político’.»Susan Sontag
«Um dos maiores romances russos do século XX.»Nicholas Lezard in The Guardian
«O brilhantismo deste romance é absolutamente inegável.»The Times
«Uma obra embebida em misticismo; um livro que almeja o cosmos como se Serge se voltasse para a eternidade do próprio universo para evitar o absoluto desespero que via à sua volta.»Matthew Price in Bookforum
«Que ninguém duvide da importância de Serge hoje. Uma voz que se ergueu contra o crime e a enorme desumanidade de um regime e que foi sendo calada por tremendas injustiças, é hoje lembrada pelo seu talento literário, ganha novo ânimo e chega a patamares onde nunca teria sido ouvida noutras eras.»Christopher Hitchens in The Atlantic Monthly
 https://www.fnac.pt/O-Caso-do-Camarada-Tulaev-Victor-Serge/a977665

Porque não te calas Rajoy?

Puigdemont tem um mandado de prisão por ter realizado um referendo onde não só votaram – isso é fácil – mas se organizaram e empenharam mais de 2 milhões de pessoas – isso é raro na história. Tsypras, pelo contrário, quando desrespeitou um referendo foi agraciado pela Comissão Europeia. A mesma Europa que aplaudiu a criação de um Estado-tampão chamado Kosovo. Celebram-se neste ano que entra duas datas importantes – a Primavera de Praga e o Maio de 68, dois hinos da liberdade. Quem condenou os tanques soviéticos – legais no quadro do Pacto de Varsóvia – não pode ficar em silêncio por esta forma brutal de esmagar a vontade de povos, quer concordemos ou não com essa vontade. Rajoy, porque não te calas?

História a Sério

Sobre a terrível mão invisível do obscurantismo politico na ciência histórica. Estou há dois anos a escrever um livro sobre história geral, que resulta das minhas aulas. Talvez nunca me tenha demorado tanto num livro que vai ser pequeno em tamanho não só porque hoje trabalho um número de horas que nunca trabalhei, mas porque sendo uma síntese de um período longo deixar algum acontecimento ou personalidade de fora deixa-me incomodada – vou assim avançando com muito cuidado . Naturalmente haverá lapsos mas quero eliminar os principiais a montante. Assisto desde o início do ano às comemorações do acontecimento histórico mais importante do século XX, a revolução russa, acompanhadas com a eliminação da figura de Trotsky, que liderou política e militarmente a revolução, a vitória na guerra na civil e a oposição de esquerda entre os anos 20 a o terror dos anos 30. Não aparece criticado, o que é legitimo desde que fundamentado, claro. Desaparece – Puf! Qual magia medieval. Em Nome da Rosa, e claro, da defesa da tese da impossibilidade do socialismo, que é tão determinista -e por isso ahistórica – como a da inevitabilidade do socialismo.
 
Do lado liberal e do lado dos partidos estalinistas, que hoje estão encostados ao poder dependendo directamente e indirectamente de recursos das relações destas organizações com o Estado, servir esta história – a de que não houve alternativa à degeneração soviética para o terror -, é parte da sobrevivência dos seus interesses amarados ao aparelho de Estado em vários países do mundo. É bom escrevê-lo com todas as letras – dependem para sobreviver disto. Ora, o socialismo não era inevitável mas o terror também não. Não é impossível mas também não é garantido. Porque tudo é histórico, ou seja, resulta de escolhas sociais, ontem e hoje, sem fins garantidos, para o bem o mal, para o que quiserem – TINA – o famoso Não Há Alternativa da Margaret T não serve nem para a Inglaterra dos anos 80 nem para nada no século XX – há muitas alternativas, em tudo na vida as alternativas implicam escolhas, ganhos e perdas pessoais na vida, sociais na história – o resto é teleologia.
 
É da responsabilidade de quem é sério não fazer ciência para servir o poder. Fazer isto à revolução russa é o mesmo que eu fazer um livro sobre Portugal moderno e contemporâneo eliminando o Marquês de Pombal, outro sobre a ditadura apagando o Salazar, um sobre a revolução dos cravos eliminando o Mário Soares ou o Álvaro Cunhal porque não gostaria deles. Para nós, historiadores, este processo é obscuro – coisa própria de seitas religiosas. Vira costas à ciência. É lamentável. Termino citando a História da Revolução Russa do próprio Trotsky, um livro considerado em algumas das melhores universidades do mundo – a começar nos EUA e na Inglaterra claro – o melhor já escrito sobre o tema, por esse livro Trotsky ficou conhecido como «O historiador», já que teria conseguido o impossível, um retrato fiel dos factos, uma análise deles em mais de 400 páginas, apesar de ser um dos principais protagonistas: «A história de uma revolução, como toda história, deve antes de tudo relatar o que e como ocorreu». A frase do livro não termina aqui, se não seria positivismo, os factos não falam por si, mas pelo menos começar pelos factos é o mínimo que se exige a qualquer um.