Encontro Nacional do Trabalho

Este Sábado decorre em Lisboa um Encontro Nacional sobre o Trabalho em Portugal organizado por sindicatos, ORTs, etc, com a participação também de vários académicos especialistas em trabalho, estarei a participar onde abordarei o tema da crise do sindicalismo, que soluções? Estarão sociólogos, psicólogos, advogados, e sobretudo trabalhadores de vários sectores, está aberto a inscrições de delegados sindicais, dirigentes de ORTs etc. Todas as informações aqui:


23 OUTUBRO, 10H-18.30H, FÁBRICA DE BRAÇO DE PRATA, LISBOA
“Os últimos anos têm sido marcados pela degradação dos direitos individuais e colectivos e das condições de trabalho. Em quase todos os sectores, tecnológicos, industriais, de logística, transportes, comunicações, saúde ou educação, mais e menos qualificados, homens e mulheres, fixos e precários, nacionais e migrantes, todos têm sido atingidos. Assistimos à queda do salário real, ao esvaziamento da negociação e contratação colectiva e à supressão da regra do tratamento mais favorável, ao aumento dos horários e intensidade do trabalho e das jornadas e turnos, ao assédio moral, aos ataques ao direito à greve, ao esboroamento da solidariedade, ao trabalho forçado nos campos, à degradação da saúde mental e física dos trabalhadores e a violentos ataques aos sindicatos e organizações laborais. Em vez de dar aos trabalhadores das “plataformas” contratos e condições de trabalho correctas, quer-se fazer da precariedade das plataformas a nova norma geral para todos.As medidas da pandemia afectaram os trabalhadores de forma drástica. Houve despedimentos em massa, quando antes o país já tinha assistido à triplicação do número de pessoas a auferir apenas o salário mínimo. O dinheiro da Segurança Social, que é a parte do salário que os trabalhadores descontam para pagar colectivamente as suas pensões na velhice e prestações sociais como as do desemprego, foi usado para salvar as empresas e a propriedade patronal. A sua sustentabilidade fica comprometida.Tudo isto vem acompanhado de grande insegurança no quotidiano de quem trabalha. Perde-se o sentido e a qualidade do trabalho, os jovens emigram, o mercado interno entra em decadência.Este Encontro Nacional junta organizações de trabalhadores, sindicatos, delegados sindicais, membros de comissões de trabalhadores e todas as pessoas que, nas suas áreas, estão simplesmente empenhadas em resistir ao rumo declinante do país em matéria laboral.”

Inscrições solidariostap.galp@gmail.com

Ataques maliciosos ao pensamento crítico são o “novo normal”?

Resposta ao DN hoje publicada no jornal

Uma rápida pesquisa de vinte minutos e concluo que intervenientes académicos chamados a se pronunciar na peça de Fernanda Câncio têm artigos duplicados em revistas indexadas, não referenciados, e artigos republicados também em livro e capítulo de livro. Por elegância – e por respeito pelas instituições académicas – não citarei nomes nem artigos. Mas pergunto-me, daria isto um artigo com o nome destes académicos, com “fraude” no título, chamada de capa no DN, quatro páginas e fotografias? Ou tal tratamento é reservado a uma mulher, candidata a concursos públicos, e não a homens dentro da carreira? 

  1. O artigo citado no artigo de Fernanda Câncio na revista Critique (indexada na Scopus) foi aprovado para publicação antes de publicado em livro. Se Fernanda Câncio se tivesse informado saberia que entre o tempo de submissão e aprovação de artigos para revistas científicas e a sua publicação decorrem entre um e cinco anos. E que tenho provas da data de aceitação. 
  2. Não existe nenhum artigo igual com autorias distintas. Estão online em acesso livre. O artigo publicado em coautoria teve naturalmente o contributo da investigadora Luísa Barbosa Pereira, que comigo fez pesquisa.
  3. Ter um artigo científico publicado também em capítulos de livros não só é prática comum, legal, ética, como útil cientificamente. Qualquer autor com uma obra publicada tem dezenas de trechos de textos inteiros republicados em capítulos de livro ou em livros seus. É legal e correto. Os autores são donos dos seus textos, publicam-nos onde querem. Isto é banal: nos mais destacados cientistas nacionais e internacionais da minha área é generalizado.
  4. A importância disto para um júri de concurso é nenhuma. A função de um júri académico não é contar artigos e caracteres. Para isso bastaria um computador ou uma secretária. Um CV não se mede a metro, nem ao quilo. Evidentemente que, como pendia sobre mim a acusação ignóbil de ter duplicado as minhas publicações, eu tive de fazer a discussão nesse campo, mas um CV não é, nunca foi isso. 
  5. Se eu me tivesse autocitado ou mudado usando um dicionário de sinónimos alguns dos meus artigos para capítulos, isso seria talvez medíocre, mas ainda assim legal.
  6. Publicar o mesmo artigo duas vezes é contraproducente para o autor, tende a diminuir o fator de impacto: conta mais para o CV um artigo citado dez vezes do que dois citados duas vezes. O autor pode fazê-lo – se a revista não exigir exclusividade face a outras revistas – para chegar a uma maior audiência, mas isso diminui o fator de impacto – um dos itens mais reconhecidos hoje por júris (o que não apoio, mas é assim).
  7. Em júris muito competitivos o autor é obrigado a selecionar três a cinco artigos, e é assim na FCT também. Nos concursos para a carreira docente somos obrigados a entregar cinco obras integrais para o júri ler. O CV pode demonstrar que publicou muito ou pouco, em revistas conceituadas ou não, se é um autor muito lido ou não, mas a qualidade do trabalho só pode ser avaliada conhecendo a obra na totalidade. Em alguns concursos que fiz como investigadora visitante nem sequer tive de entregar o CV – ninguém vai ler 115 páginas e contar artigos! –, mas apenas selecionar cinco páginas dele, um projeto, e entregar cinco livros, que o júri lê. É isso que se faz. Não conheço concursos destes sem entrega obrigatória de obras. No Brasil junta-se ter de dar aulas públicas – aqui, na agregação, também. Ou alguém acha que os júris não sabem distinguir obras de republicações?
  8. Terá escapado à jornalista que o meu CV com “milhares de caracteres repetidos” foi selecionado pela direção do IHC entre os 15 melhores, entre 400, para a avaliação do próprio IHC junto da FCT.
  9. Há problemas éticos a debater na academia e na sociedade? Há. Por exemplo, uma jornalista achar que se pode substituir a um júri nomeado pelo conselho científico é um gravíssimo problema ético – querer fazer de “justiceira” e substituir-se aos órgãos científicos. Andar a contar caracteres do meu CV que foi defendido com sete catedráticos especializados é grave, risível e lamentável. É como a jornalista pegar na bula de um medicamento e ir para os jornais dar lições de medicina. 
  10. Há muitos problemas éticos que devem ser discutidos, mas não certamente a partir do “caso” criado em volta de mim. Por exemplo, há quem tenha feito o doutoramento e depois disso não investigou nem inovou mais, mas mesmo assim isso não é ilegal. Há quem se autocite, inflacionando o seu fator de impacto científico. Há grupos de académicos, e não só nem principalmente nas ciências sociais, que se citam alegre e repetidamente uns aos outros para benefício mútuo (isso já tem sido abordado na imprensa, não sei se na portuguesa). Há quem use uma pesquisa e a “salamise” (parta em fatias para dar muitas publicações). É altamente questionável, também, que estejamos a ceder os nossos textos e direitos a revistas que depois proíbem a sua cópia noutra revista e vendem os nossos direitos sem nos pagar, ganhando milhões – isso, sim, é generalizado. Para contrariar isso tem havido uma política de open access cada vez maior, a que aderi com entusiasmo. Por isso a jornalista poderá ler, caso lhe interesse, “milhares de caracteres repetidos” escritos por mim em acesso livre. 
  11. Nas 115 páginas do meu CV há uma entrada que marca a minha carreira como historiadora, porventura mais importante que todas as outras, A História do Povo na Revolução Portuguesa. É uma obra publicada em várias línguas, debatida, lida e estudada em várias universidades. Em Portugal sou contactada pela jornalista para debater a minha pesquisa inédita sobre o 25 de Abril? Não: para contar caracteres.
  12. Mais de 200 académicos do mundo inteiro, chocados com a campanha de difamação contra mim (é disso que se trata), deram o nome (não são anónimos) em defesa do meu percurso académico. Dezenas deles são chefes de departamento e editores de revistas científicas. Há muita gente perplexa com a violência desta perseguição. Andaram atrás dos meus editores, colegas estrangeiros, publicaram várias peças em jornais e revistas, sem fundamento ou intenção de verdade, procurando perseguir-me, o que configura uma tentativa de usar a imprensa para pressionar júris de concursos onde sou candidata, impedindo que possa disputar em igualdade de circunstâncias um lugar efetivo na universidade. Não estará aqui a “fraude”? Ou vamos ter de aceitá-lo como o “novo normal” neste admirável mundo novo?

Deixo uma nota final da coordenadora da área da saúde da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Dra. Sílvia Jardim, uma dos, até agora, 240 subscritores da carta pública de académicos e intelectuais feita em minha defesa, e que muito me tocou porque creio que toca no essencial: um ato de violência persecutória contra uma académica crítica:

“Defender a voz de Raquel Varela como mulher portuguesa, intelectual e historiadora em Portugal e no mundo é defender o pensamento crítico, a pesquisa verdadeiramente científica no campo das humanidades, a liberdade do debate de ideias e de políticas públicas e ser intransigente com qualquer abuso opressor e especialmente com a violência de qualquer ordem e, especialmente, a violência psicológica implicada nos ataques à idoneidade de caráter da pesquisadora em tela. É também a defesa de uma voz altissonante na academia em prol do trabalho e dos trabalhadores. Repudio veemente a campanha difamatória sofrida por Raquel Varela”

Sílvia Rodrigues Jardim

Médica. Doutora em Psiquiatria

Coordenadora da Saúde do Trabalhador 

Universidade Federal do Rio de Janeiro

Caso o DN não reponha a verdade, reservo-me o direito de usar de todos os procedimentos necessários, incluindo os judiciais, para fazê-lo.

Raquel Varela

Marx Apanhado em Auto Plágio

Por António Simões do Paço

O famoso intelectual Karl Marx foi apanhado em autoplágio pelo Notícias. Marx teria usado, na sua obra mais conhecida, O Capital, “milhares de caracteres” já usados em obras anteriores, como os “Manuscritos económico-filosóficos de 1844” e “Contribuição para a crítica da economia política”.Marx, falecido em 1883, pode agora ter de responder perante estas acusações “de grande gravidade”. Perseguido em vida e até expulso de alguns países europeus devido às suas “atividades suspeitas”, este radical iliberal poderá agora ser expulso do seu lugar no cemitério de Highgate, em Londres, se as alegações do News of the World, como se diz em português moderno, forem confirmadas pela comissão científica que certamente será formada para investigar o ponderoso assunto. Contactado por email pelo jornal, ter-se-á recusado a prestar declarações. Apenas se lhe ouviu uma exclamação com forte sotaque alemão: “Fuck you, Arschloch!”

O Artigo Difamatório de Fernanda Câncio

A propósito de um artigo difamatório publicado hoje no DN sobre mim da autoria de Fernanda Câncio, deixo os seguintes esclarecimentos, bem como uma nota final sobre este caso enviada pela coordenadora para a área da saúde da Universidade Federal do Rio de Janeiro, médica e professora Dra Sílvia Jardim.

1. O artigo citado na revista Scopus Critique foi aprovado para publicação antes de publicado em livro. Se Fernanda Câncio se tivesse informado sabia que entre o tempo de submissão e aprovação de artigos a revistas e a sua publicação decorrem entre 1 a 5 anos. E que temos provas da data de aceitação.

2. As sugestões da parte de António Araújo a questionar todos os júris dos meus concursos (mais de 100 académicos ao longo da vida avaliaram os meus CVs em distintos momentos) são do mais ignóbil que já li nesta campanha difamatória.

3. Não existe nenhum artigo igual com autorias distintas. Estão online em acesso livre. O artigo publicado em co-autoria teve naturalmente o contributo da investigadora Luísa Barbosa Pereira, que comigo faz pesquisa.3. Colocar este assunto na capa, referenciando por exemplo Fernando Rosas, quando no texto o mesmo explica que não “se está a referir ao meu CV”, é no mínimo lamentável. Até a escolha da minha foto – escolhida para corroborar suposta “fraude” é um tratado sobre o mau jornalismo e a crise deontológica que o mesmo atravessa em alguns casos.

4. Ter um artigo científico publicado também em capítulos de livros não só é prática comum, legal, ética corretamente, como útil cientificamente. Qualquer autor com uma obra publicada tem dezenas de trechos de textos inteiros republicados em capítulos de livro ou em livros seus. É legal. Os autores são donos dos seus textos, publicam-nos onde querem. Isto é banal – nos mais destacados cientistas nacionais e internacionais da minha área é generalizado. Ninguém recebe por republicações direitos de autor.Há muitos dos autores, sobretudo os mais velhos, que têm mesmo em revistas científicas, até 3 e 4 vezes o mesmo artigo. O que não constitui crime. Recentemente estas revistas começaram a impor que o texto não deve ser publicado noutras, e, portanto, na geração mais nova é mais raro haver republicações em revistas. Penso que não tenho, em 70 artigos, nenhum integralmente repetido, e se tiver partes é em menos de 20% dos artigos. Por exemplo, caracterizamos a população de Portugal e repetimos essa parte em dois artigos distintos; o contexto do 25 de Abril, etc. Se eu quero falar de comissões de trabalhadores, introduzo o mesmo contexto para falar de educação no 25 de Abril. É legal, normal, não há notícia alguma.

5. A importância disto num júri de concurso é nenhuma. A função de um júri académico não é contar artigos e caracteres. Para isso bastaria um computador ou uma secretária. Um CV não se mede a metro, nem ao quilo. Evidentemente que, como pendia sobre mim a acusação ignóbil de ter duplicado as minhas publicações, eu tive que fazer a discussão nesse campo, mas um CV não é, nem nunca foi isso. Em júris muito competitivos o autor é obrigado a selecionar 3 a 5 artigos, é assim na FCT também. Nos concursos para a carreira docente somos obrigados a entregar 5 obras integrais para o júri ler. O CV pode demonstrar que publicou muito ou pouco, em boas revistas ou não, se é um autor muito lido ou não, mas a qualidade do trabalho só pode ser avaliada lendo textos na totalidade. Em alguns concursos que fiz como investigadora visitante nem sequer tive que entregar o CV – ninguém vai ler 115 páginas e contar artigos!– mas apenas selecionar 5 páginas dele, um projecto, e entregar 5 livros na íntegra, que o júri lê. É isso que faz. Não conheço concursos destes sem entrega obrigatória de obras. No Brasil junta-se ter que dar aulas públicas – aqui, na Agregação, também. Ou achavam que os júris não sabiam distinguir obras de republicações?

6. Terá escapado à jornalista que o meu CV com “milhares de caracteres repetidos” foi selecionado pela direção do IHC entre os 15 melhores, entre 400, para a avaliação do próprio IHC junto da FCT.

7. Há problemas éticos a debater na Academia?Por exemplo, uma jornalista achar que se pode substituir a um júri nomeado pelo conselho científico é um gravíssimo problema ético – querer fazer de justicieiro e substituir-se aos órgãos científicos é grave. Andar a contar caracteres do meu CV que foi defendido com 7 catedráticos especializados, é grave, e lamentável. É como a jornalista pegar na bula de um medicamento e ir para os jornais dar lições de medicina. Se não fosse trágico, era cómico. Há muitos problemas éticos nos CVs hoje. Creio que não são os meus. Por exemplo, há quem tenha feito o doutoramento e depois disso não investigou nem inovou mais, isso configura auto plágio, mas mesmo assim não é ilegal, ainda que cientificamente mediocre. Há quem use uma pesquisa e a salamize (parta em bocados para dar muitas publicações). É altamente questionável, também, que estejamos a ceder os nossos textos e direitos a revistas que depois proíbem a sua cópia noutra revista e vendem os nossos direitos sem nos pagar, ganhando milhões – isso, sim, é generalizado. É o problema do produtivismo, “publique ou pereça”. Contra tudo isto tem havido uma política de open access cada vez maior, a que aderi com entusiasmo. Por isso a jornalista pode ler “milhares de caracteres repetidos” meus em acesso livre. Aliás, quando me ligam e pedem um texto digo logo sim: onde quiserem publiquem, e em acesso aberto, sem me pagarem nada.

8. Há mais de 200 académicos do mundo inteiro chocados com a campanha de difamação, que deram o nome (não são anónimos) em defesa do meu percurso académico, dezenas são chefes de departamento e editores de revistas científicas. Há já uma parte do país perplexa com a violência e a barbárie desta perseguição, andaram atrás dos meus editores, colegas estrangeiros. Já ninguém anda a debater o meu CV, nunca foi assunto, – aliás o mesmo só pode ser debatido entre especialistas, porque os outros não fazem a mais pequena ideia do que estão a falar. Nas minhas 115 páginas de entradas de CV há uma entrada que marca a minha carreira como historiadora, porventura mais importante que todas as outras, A História do Povo na Revolução Portuguesa, é uma obra publicada em várias línguas, debatida, lida e estudada em Universidades várias na Europa. Em Portugal sou contactada pela jornalista para debater a minha pesquisa inédita sobre o 25 de Abril? Não – para contar caracteres. É risível. Decadente. Revela uma parte do um país carcomido.A maioria do país não está a pensar no meu CV, está chocada com o que isto significa porque demonstra que há nichos de decadência democrática na Academia e na Imprensa, que usam métodos de terror para disputarem lugares. Não há memória em Portugal de uma campanha desta natureza contra uma mulher, académica, figura pública. É ignóbil. Usar de campanhas públicas difamatórias contra quem está a prestar concursos em processo de avaliação é repugnante. Usar do terror – supostos testemunhos de alunos, até um morto! – assediar-me, como stalkers há 3 semanas, a mandarem-me mensagens, é digno de chefes de campos de terror. O país está chocado. Não com o meu CV – que demonstra muito trabalho colectivo e um certo excesso de trabalho individual, pouco salutar para mim. O país está chocado com a quantidade de meios usados nesta campanha difamatória. Uma mediocridade, assente na total ausência de respeito pelas instituições e pelo Estado de Direito.

Uma nota final da coordenadora da área da saúde da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Dra Sílvia Jardim”Defender a voz de Raquel Varela como mulher portuguesa, intelectual e historiadora em Portugal e no mundo é defender o pensamento crítico, a pesquisa verdadeiramente científica no campo das humanidades, a liberdade do debate de ideias e de políticas públicas e ser intransigente com qualquer abuso opressor e especialmente com a violência de qualquer ordem e, especialmente, a violência psicológica implicada nos ataques à idoneidade de caráter da pesquisadora em tela. É também a defesa de uma voz altissonante na academia em prol do trabalho e os trabalhadores. Repudio veemente a campanha difamatória sofrida por Raquel Varela.”Sílvia Rodrigues JardimMédica. Doutora em PsiquiatriaCoordenadora da Saúde do Trabalhador Universidade Federal do Rio de Janeiro

Um País Chocado com uma campanha difamatória

Escrevo este texto porque uma jornalista contactou-me a propósito de “milhares de caracteres” de artigos “publicados por mim em capítulos de livros, ou livros”. Sublinho, porém – não tomem este caso como o de todo o jornalismo, temos excelentes jornalistas e muitos em choque com esta campanha, que fizeram questão de subscrever a carta pública em minha defesa e de me escrever pessoalmente. Escrevo a todos os que me leem, criticam com diálogo, e que me merecem o maior respeito.

Três notas rápidas: legal, ética, e mais importante, no fim, a substancial – uma campanha difamatória que, em três semanas, ganhou contornos de campanha pública e privada de terror.

Ter um artigo científico publicado também em capítulos de livros não só é prática comum, legal, ética corretamente, como útil cientificamente. Qualquer autor com uma obra publicada tem dezenas de trechos de textos republicados em capítulos de livro ou em livros seus. Ou artigos inteiros publicados em livro.É legal. Os autores são donos dos seus textos, publicam-nos onde querem. Isto é banal – nos mais destacados cientistas nacionais e internacionais da minha área é generalizado. Ninguém recebe por republicações direitos de autor.

Há muitos dos autores, sobretudo os mais velhos, que têm mesmo em revistas científicas, até 3 e 4 vezes o mesmo artigo. O que não constitui crime. Recentemente estas revistas começaram a impor que o texto não deve ser publicado noutras, e, portanto, na geração mais nova é mais raro haver republicações em revistas. Penso que não tenho, em 70 artigos, nenhum integralmente repetido, e se tiver partes é em menos de 20% dos artigos. Por exemplo, caracterizamos a população de Portugal e repetimos essa parte em dois artigos distintos; o contexto do 25 de Abril, etc. Se eu quero falar de comissões de trabalhadores, introduzo o mesmo contexto para falar de educação no 25 de Abril. É legal, normal, não há notícia alguma.

É legal, mas será ético?

A importância disto num júri de concurso é nenhuma. Acham mesmo que a função de um júri académico é contar artigos e caracteres? Para isso bastaria um computador ou uma secretária.Um CV não se mede a metro, nem ao quilo. Evidentemente que, como pendia sobre mim a acusação ignóbil de ter duplicado as minhas publicações, eu tive que fazer a discussão nesse campo, mas um CV não é, nem nunca foi isso. Em júris muito competitivos o autor é obrigado a selecionar 3 a 5 artigos, é assim na FCT também. Nos concursos para a carreira docente somos obrigados a entregar 5 obras integrais para o júri ler. O CV pode demonstrar que publicou muito ou pouco, em boas revistas ou não, se é um autor muito lido ou não, mas a qualidade do trabalho só pode ser avaliada lendo textos na totalidade. Em alguns concursos que fiz como investigadora visitante nem sequer tive que entregar o CV – ninguém vai ler 115 páginas e contar artigos!– mas apenas selecionar 5 páginas dele, um projecto, e entregar 5 livros na íntegra, que o júri lê. É isso que faz. Não conheço concursos destes sem entrega obrigatória de obras. No Brasil junta-se ter que dar aulas públicas – aqui, na Agregação, também. Ou achavam que os júris não sabiam distinguir obras de republicações?

Há problemas éticos a debater?

Por exemplo, uma jornalista achar que se pode substituir a um júri nomeado pelo conselho científico é um gravíssimo problema ético – querer fazer de justicieiro e substituir-se aos órgãos científicos é grave. Andar a contar caracteres do meu CV que foi defendido com 7 catedráticos especializados, é grave, e lamentável. É como a jornalista pegar na bula de um medicamento e ir para os jornais dar lições de medicina. Se não fosse trágico, era cómico.

Por exemplo, terá escapado à jornalista que o meu CV com “milhares de caracteres repetidos” foi selecionado pela direção do IHC entre os 15 melhores, entre 400, para a avaliação do próprio IHC junto da FCT? Informação que nunca lhes chegou, de tantas que chegaram sob suposto anonimato.

Há muitos problemas éticos nos CVs hoje. Creio que não são os meus. Por exemplo, há quem tenha feito o doutoramento e depois disso não investigou nem inovou mais, isso configura auto plágio, mas mesmo assim não é ilegal, ainda que cientificamente mediocre. Há quem use uma pesquisa e a salamize (parta em bocados para dar muitas publicações). É altamente questionável, também, que estejamos a ceder os nossos textos e direitos a revistas que depois proíbem a sua cópia noutra revista e vendem os nossos direitos sem nos pagar, ganhando milhões – isso, sim, é generalizado. É o problema do produtivismo, “publique ou pereça”. Contra tudo isto tem havido uma política de open access cada vez maior, a que aderi com entusiasmo. Por isso a jornalista pode ler “milhares de caracteres repetidos” meus em acesso livre. Aliás, quando me ligam e pedem um texto digo logo sim: onde quiserem publiquem, e em acesso aberto, sem me pagarem nada.

Há mais de 200 académicos do mundo inteiro chocados com a campanha de difamação, que deram o nome (não são anónimos) em defesa do meu percurso académico, dezenas são chefes de departamento e editores de revistas científicas. Há já uma parte do país perplexa com a violência e a barbárie desta perseguição, andaram atrás dos meus editores, colegas estrangeiros. Já ninguém anda a debater o meu CV, nunca foi assunto, – aliás o mesmo só pode ser debatido entre especialistas, porque os outros não fazem a mais pequena ideia do que estão a falar. Nas minhas 115 páginas de entradas de CV há uma entrada que marca a minha carreira como historiadora, porventura mais importante que todas as outras, A História do Povo na Revolução Portuguesa, é uma obra publicada em várias línguas, debatida, lida e estudada em Universidades várias na Europa. Em Portugal sou contactada pela jornalista para debater a minha pesquisa inédita sobre o 25 de Abril? Não – para contar caracteres. É risível. Decadente. Revela uma parte do um país carcomido.

Estamos perante um inequívoco ataque ad hominem, uma bola de neve irracional. Não me intimidam. Mas era bom que percebessem que isto é uma vergonha pública para quem promove e alimenta esta irracionalidade. Sim, a maioria do país não está a pensar no meu CV, está chocada com o que isto significa porque demonstra que há nichos de decadência democrática na Academia e na Imprensa, que usam métodos de terror para disputarem lugares. Não há memória em Portugal de uma campanha desta natureza contra uma mulher, académica, figura pública. É ignóbil. Usar de campanhas públicas difamatórias contra quem está a prestar concursos em processo de avaliação é repugnante. Usar do terror – supostos testemunhos de alunos, até um morto! – assediar-me, como stalkers há 3 semanas, a mandarem-me mensagens, é digno de chefes de campos de terror.

O país está chocado. Não com o meu CV – que demonstra muito trabalho colectivo e um certo excesso de trabalho individual, pouco salutar para mim. O país está chocado com a quantidade de meios usados nesta campanha difamatória. Uma mediocridade, assente na total ausência de respeito pelas instituições e pelo Estado de Direito.

“Raquel Varela invade Inatel”

“Raquel Varela invade Inatel” – ou do humor como antídoto da barbárie

Uma campanha difamatória vive de alimentação constante de rumores, testemunhos anónimos, até já de um testemunho de uma pessoa morta (se tivessem sido educados pelas minhas avós garanto-vos que pensavam duas vezes antes de ter um “testemunho anónimo de um morto”), bufos, suposições etc. Há cursos e agências de comunicação especializados nisto, conheço alguns dos actores bem de perto em Portugal. Por aqui chama-se “campanha negra”, é assim que é pedido quando é encomendado, e tem selo de produção profissional. Se há quem lhe dê abrigo em jornais, a responsabilidade é destes.

A ideia não é invocar o Estado de Direito – uma campanha difamatória existe justamente quando não existe Direito -, mas lançar um clima de suspeita, intimidando o alvo, é um processo de bullying que visa desmoralizar o adversário. Não tenho contribuído para este processo nem o vou fazer com ping pong de respostas, porque somos adultos, a esta altura lê quem quer, o que quer. Nem Salazar se lembrou de usar um testemunho anónimo de alguém que morreu, creio – se isto não chegou para perceber com que gente estamos a lidar é porque não querem compreender.Colaboro com a minha Instituição, prestando todos os esclarecimentos em sede própria, e assim o tenho feito com toda a lealdade. Não funciono sob ameaça de escândalos em alguma imprensa, não me intimido, e acho que isto é uma ameaça a todo o sistema académico, e não a mim particularmente.

Se a ideia é que eu deixe de trabalhar, hoje passei o dia em reuniões de trabalho, até um bom e velho almoço português de trabalho, como se sabe a melhor mesa de reuniões em terras lusas. Nunca respondi na vida por nenhum inquérito por assédio laboral, nem algo sequer vagamente semelhante em qualquer sede de inquérito. Como a nota da Reitoria faz saber nunca respondi a nenhum procedimento disciplinar. Mas sabem uma coisa? Há colegas que respondem, muita gente séria respondeu, isso é matéria interna às instituições e não areia de telenovela de má qualidade, e ranking de partilha de notícias. Porque passou por aqui, neste canto da Europa, também a revolução liberal, e os pelourinhos hoje são lugar de passeio de pombos. Os seres humanos deixaram de os frequentar e de se submeter à queima pública, sob palmas, uivos e baba – os que antes iam à praça ver fogueiras de bruxas hoje querem vender o que acham que são notícias, há quem queira ler. Não contam comigo.

Tudo o que envolva ataques ao meu bom nome é seguido em sede própria de Direito, já que este clima de terror não me visa atingir a mim, mas a todos os académicos que prezam o seu trabalho.

Tenho no meu cardápio em 12 anos de docência em várias instituições nacionais e estrangeiras dezenas de testemunhos, muitos dos quais nas suas teses, escritos, da relação que me norteou com os alunos e deles comigo. Tantos deixaram-nos aqui estes dias, com nome completo, sem anonimato. Isso não dá notícia, porque nestas campanhas não estamos no campo da informação mas da ilegalidade difamatória.

Agora para algo sério. Confesso: dei dentadas no meu irmão, em pequena – que faziam parte do manual de defesa de irmã mais nova; coloquei pastilha elástica na fechadura de portas; toquei a campainhas e fugi, e lancei dezenas de balões de água da janela, mesmo fora da época oficial do Carnaval.

A maior tropelia que fiz na vida foi na Zambujeira, agora já se pode contar. Éramos um grupo de 30, sempre os mesmos, desde crianças. Crescemos lá, íamos à pesca, à lajinha dar mergulhos, aos alteirinhos namorar, apanhar isca para os pais pescarem, caçar grilos nas sardinhadas, e claro, andar a cantar com o Toino Carangueijo. Uma espécie de 30 Tom Sawyers à solta. Todos mais ou menos filhos de um grupo de amigos, uma comunidade de gente em geral progressista e divertida, que se reunia por ali de julho a setembro. Um dia viemos todos da discoteca, entre os 14 e 17 anos, algo por aí, e fomos dar um mergulho vestidos ou nus, numa piscina de uma casa, de um dos amigos dos nossos pais, às escondidas. Andámos nisto vários dias, ele, que era um coração bom, assim que ouvia barulho acendia a luz da piscina para nos dar tempo de fugir. Um dia fartou-se, chegou lá, estávamos 30 dentro da piscina, sem saber o que lhe dizer, ele olhou para nós, nós em silêncio – todos a fazer contas às repreendas que íamos levar – e perguntou com um ar muito sério e sincero: “Mas vocês pensam que isto é o Inatel?”. Rimos sem parar, ele queria ficar sério, e metade dele estava zangado, continha também o riso, ninguém conseguia parar de rir. Os nossos pais, que se reuniam no largo, no café Rita, preparados para se chatearem connosco, quando contávamos a cena riam-se incontroladamente. Deixámos de ir ao “Inatel” e ainda hoje nos rimos daquela cena.

Creio que pode dar uma gorda: “Raquel Varela invade Inatel”.

Em defesa da historiadora e intelectual pública Raquel Varela

Mais de uma centena de académicos e intelectuais nacionais e internacionais assinam uma carta pública contra a campanha difamatória de que Raquel Varela está a ser alvo, em defesa do seu percurso académico e como intelectual pública. Entre os nomes, das Universidades de Lisboa, Oxford, Berkeley, Glasgow, Paris, Budapeste, Geneva, Freibug, Rio de Janeiro, São Paulo, Buenos Aires, contam-se alguns dos mais renomados cientistas mundiais, directores de centros, presidentes de associações académicas, directores de departamento, responsáveis de cadeiras, directores de revistas científicas, escritores e jornalistas. Vários dos subscritores são professores da Universidade Nova de Lisboa. Entre os intelectuais mais prestigiados a nível mundial que assinam a carta pública estão Michael Lowy, Robert Brenner, Yassamine Mather, Roberto Leher; os escritores Miguel Real, Joel Neto, Manuela Gonzaga; os professores catedráticos e catedráticos jubilados da Universidade Nova Helena Trindade Lopes, Teresa Rita Lopes, Luís Sobrinho, entre outros.

Em defesa da historiadora e intelectual pública Raquel Varela

Raquel Varela, historiadora do trabalho e dos conflitos sociais e intelectual pública em Portugal, tem estado a ser alvo de uma tentativa de assassínio de carácter que veio colocar a nu as relações desleais dentro da academia, a promiscuidade entre algum jornalismo e os promotores de “campanhas difamatórias” e a degradação da vida democrática em geral, com o crescimento de fake news e da extrema-direita.Um jornal, o Público, acusou-a, com chamada de capa e foto, de ter aumentado fraudulentamente as suas publicações, alegando ter como fonte uma “denúncia anónima”. Nenhum órgão dirigente ou científico da Faculdade tinha sido consultado ou pronunciado sobre o tema. Forçados por lei a publicar o seu direito de resposta, Varela demonstrou inequivocamente que nunca tinha adicionado qualquer publicação que não fosse da sua autoria ao seu CV, de acesso público a todos, e iniciou um processo por difamação.

Não contentes com a resposta, uma revista ultraconservadora faz um peça onde Varela é acusada de “pertencer a uma rede trotskista académica”, envolvendo também a sua família, marido e pai, este último dado como um dirigente, que efetivamente foi, de uma organização maoista de resistência à ditadura e à guerra colonial. Ninguém na academia pode ser indiferente a estes métodos de terror, de tentativa de destruição da carreira e bom nome de uma investigadora internacional cujos trabalhos versam sobre direitos laborais e história das revoluções. A academia não pode ser alvo deste tipo de métodos próprios de regimes totalitários. A ciência faz-se com liberdade e confronto de ideias.

Uma onda de solidariedade vinda de vários quadrantes, de académicos, figuras públicas, dirigentes sindicais, jornalistas, intelectuais insurgiu-se em Portugal e no Brasil contra o que consideram métodos de necrofilia da imprensa, dando eco a “fake news”. Varela é uma das principais intelectuais públicas críticas do país, reconhecida pelas suas posições em defesa dos direitos do trabalho.Os jornais escudam-se nas declarações de uma recém empossada direção de unidade de investigação (IHC) de onde Raquel Varela saiu recentemente, com mais 27 investigadores, por divergências, entre elas, na forma como tratavam os seus investigadores precários, o que levou o Grupo a solicitar na Faculdade a mudança para outra unidade de investigação.

Este é um caso exemplar de como o nepotismo dentro de um sector da academia e a necrofilia de alguma imprensa procura silenciar uma intelectual, uma mulher cuja carreira tem sido marcada por um contributo central para os estudos globais do trabalho e pela abertura da academia à sociedade, substanciada em centenas de palestras e dezenas de projetos com sindicatos e associações, pela sua presença desde há sete anos num programa semanal de debate na televisão pública, um programa na rádio pública e dezenas de artigos em jornais. A intervenção pública de Raquel Varela não se coíbe de criticar o poder, pauta-se pela defesa dos direitos do mundo do trabalho, colocando a centralidade do trabalho digno na agenda nacional. Não subscrevemos necessariamente todas as suas opiniões, mas defendemos o direito inalienável de os intelectuais não serem ameaçados com “campanhas difamatórias” porque abordam temas incómodos ao poder. A crítica do poder é uma função democrática essencial, particularmente nos tempos sombrios que vivemos. Sem a função de uma crítica independente, a Universidade, assim como a figura do intelectual, perdem a razão da sua existência.

Raquel Varela tem dezenas de livros e artigos publicados sobre história do trabalho, dos conflitos sociais, de Portugal e da Europa, vários traduzidos para inglês, alemão e francês. É presidente da Associação Internacional para o Estudos das Greves e Conflitos Sociais, membro do centro Karl Polanyi, cocoordenadora da Rede Internacional de Estudos do Trabalho e editora associada de revistas académicas como Critique – Journal of Socialist Studies e Labor and Society, e da série Wildcat da Pluto Press. Foi a primeira agraciada com a bolsa Simone Veil Project Europe e recebeu este ano o prémio Asicom/Universidade de Oviedo pelo seu contributo ímpar para a história global do trabalho. Defendeu este ano a sua Agregação perante um júri internacional em provas públicas, onde foi aprovada por unanimidade. É fundadora e coordenadora do Observatório para as Condições de Vida e Trabalho, que realizou 12 inquéritos ao mundo do trabalho em Portugal, que revelaram a toxicidade dos métodos de gestão que levam ao burnout, sofrimento ético, exaustão.Este tipo de métodos que visam intimidá-la são intoleráveis na imprensa, que dá eco a lutas internas dentro da academia, carcomida pela precariedade laboral, competição malsã, métodos degradantes de trabalho, que só podem ser combatidos com cooperação e solidariedade entre os investigadores. As ideias de cada um podem e devem ser criticadas, de forma radical de preferência. Já no trato das pessoas, inclusive quando se trata de adversários, devem imperar princípios de tolerância e de respeito. Aquilo a que assistimos hoje é à destruição desta regra fundamental de civismo e uma substituição do debate de ideias por acusações pessoais e calúnias. O défice de diálogo científico, dificultado pela própria estrutura social das Universidades, assoladas pela escassez de recursos e pela precariedade crónica, é acrescido pela constituição de feudos, relações de dependência e carreirismo.

Este tipo de campanhas ameaçam-nos a todos nós e a toda a sociedade, dando a entender que qualquer um, com voz crítica, se pode tornar alvo de lutas internas, que encontra, eco na degradação da imprensa, também ela cada vez mais destituída do seu sentido original – informação e formação – pela precariedade laboral dos jornalistas, conducente à promiscuidade com agências de comunicação, substituindo a informação pelo escândalo, a razão pelo “emocional turn”, em tempo de fake news. Que a voz da Raquel Varela nunca lhe doa, concordemos ou não com as suas posições. Não abdicaremos da crítica e da defesa de uma academia e de um jornalismo baseados no trabalho digno, com direitos, no combate à precariedade e à desigualdade social.

A Carta está aberta à assinatura de académicos, intelectuais, escritores, jornalistas.Se desejar assinar, por favor envie um e-mail com nome e instituição paraacademicfreedomnow@gmail.com

https://raquelvarelacv.wordpress.com

Esclarecimento

O Público. Hoje coloca novamente a minha foto e nome em chamada online e escreve “Dois elementos do Conselho Científico da FCSH foram chamados a confirmar problemas detectados pelo Instituto de História Contemporânea e que valeram perda de apoio em concurso da FCT.”O conselho científico foi informado, da minha parte também, de todo o processo, e aí entreguei toda a documentação, bem como provas, respeitando as instâncias académicas. A notícia está de tal forma escrita que dá a entender que este vai “confirmar” o que diz o IHC. Aguardo que o jornal a corrija. Um conselho científico reune-se para avaliar um processo, é esse o verbo, não para o “confirmar”. Fico aliás muito satisfeita que siga caminho aí. É a primeira instância onde tudo devia ter sido informado, e não num comunicado para jornais de uma unidade que eu mesma tinha deixado e a qual me sonegou informações, e fez declarações públicas, reitero o que já escrevei em sede de direito de resposta, falsas. A nota hoje enviada pela Reitoria à comunicação social é clara – a Universidade tem instâncias onde resolve as suas questões internas. Porque insiste o jornalista Samuel Silva em usar este tipo de escrita jornalística, que só reforçam o carácter difamatório e que atenta contra o meu bom nome?

Nota hoje da Reitoria:

Relativamente à informação recentemente tornada pública sobre a investigadora Raquel Varela, a Universidade NOVA de Lisboa esclarece que:- A Universidade e a Faculdade de Ciências Sociais e Humanas têm órgãos competentes e adequados para dirimir qualquer situação desta natureza;- Considera-se lamentável que professores da Universidade NOVA de Lisboa utilizem o espaço público para fazer acusações que, até ao momento, não foram provadas, ao invés de recorrerem a esses órgãos, infligindo, desta forma, danos reputacionais gratuitos à Universidade e pondo em causa o seu dever de lealdade para com a instituição.

Nota de A Casa

A Casa – Associação de Defesa dos Direitos Laborais, Sociais e Culturais dos Trabalhadores em Portugal – junta a sua voz à de tantos nestes dias pela forma indecorosa com que o nome de Prof. Dra. Raquel Varela foi tratado por alguma imprensa, numa clara e inequívoca tentativa de assassinato de carácter, método cada vez mais comum para dirimir diferenças e lutas políticas, que ofusca a democracia e os direitos, liberdades e garantias. Raquel Varela sempre colaborou com os vários dirigentes sindicais desta associação, sócios ou colaboradores, com dedicação e de forma pro bono, dando cursos de formação em história do sindicalismo, das greves, dos direitos sociais, numa atitude que se marcou sempre pela seriedade, disponibilidade e mesmo, acrescentamos, solidariedade quando, em situações muitas delas públicas, fomos alvo de perseguições, assédio moral e campanhas de propaganda que visavam denegrir um sector inteiro de trabalhadores junto da opinião pública, como aconteceu com os enfermeiros, estivadores, professores, motoristas, entre outros. Uma sociedade democrática não pode pactuar com este tipo de métodos onde a calúnia e a infâmia substituem o debate frontal de ideias. Agradecemos publicamente todo o seu empenho no ensino e na divulgação do mundo do trabalho em Portugal, de que somos uma pequena parte. Este episódio lamentável deixa a nu que também em parte do mundo académico métodos de gestão baseados em práticas eticamente insustentáveis existem, o que só reforça a necessidade de um debate amplo em Portugal sobre as condições de trabalho, debate para o qual contamos com a sua dedicação como investigadora, que tem sido para nós tão importante.

Em defesa da investigação e da cooperação.

Nota do Grupo de História Global do Trabalho e dos Conflitos Sociais a propósito de Raquel Varela, sua coordenadora

Nos últimos dias têm-se multiplicado no espaço público ataques à idoneidade e percurso académico de Raquel Varela, através de artigos de jornal e um comunicado da direção do Instituto de História Contemporânea, unidade de investigação da NOVA-FCSH que integrámos até ao dia 10 de setembro deste ano. Trata-se de um ataque inusitado, repleto de alegações infundadas, insinuações sustentadas pelo anonimato, contas mal feitas, com argumentos que a seu tempo e nos locais próprios serão certamente escrutinados e, estamos certos, se constituirão em exemplo deplorável das piores práticas no jornalismo e na academia portuguesa. Perscrutar o percurso de uma académica, que é também intelectual pública, sem qualquer contexto, saber ou contraditório de facto, é expediente para a tentativa de suprimir a crítica, função primeira da Universidade. Não aceitamos trabalhar sob este tipo de chantagem. Somos quase três dezenas de investigadores, com trabalhos muito distintos mas que dialogam e muitas vezes divergem entre si. Esse é o legado das ciências sociais. É na crítica e no diálogo fraterno em cooperação que queremos trabalhar.

Prestamos aqui a nossa solidariedade incondicional a Raquel Varela que, com grande elevação, tem contribuído para o esclarecimento de todas as insinuações e alegações contra si, colocada numa posição que jamais devia ter vindo para os jornais, numa clara e inequívoca tentativa de assassinato de carácter, deplorável numa democracia. O aproveitamento de um jornalismo que quer partilhas escandalosas é uma ameaça aos direitos e liberdades e garantias dos cidadãos. A conivência deste com “guerras internas” da Academia é inaceitável. Como investigadores e cientistas opomo-nos a este ambiente tóxico. A ele contrapomos investigação em cooperação, total abertura, para dirimir frontalmente as divergências.O grupo de investigação de História Global do Trabalho e Conflitos Sociais existe há dez anos e neste período de tempo foi coordenado por Raquel Varela. Enquanto investigadores do grupo participamos dessa coordenação, eleita anualmente, e somos com ela parte dos seus sucessos e dificuldades. Foi em grande medida através da sua coordenadora que o grupo garantiu uma presença ímpar no campo da história contemporânea, nomeadamente no campo das realidades laborais, com inúmeras parcerias, dentro e fora do espaço académico.

O trabalho e experiência de Raquel Varela muito contribuiu também para que o grupo alcançasse uma internacionalização reconhecida e valorizada por todos os momentos de avaliação até hoje, constituindo-se como unidade de referência para tantos investigadores estrangeiros. Com uma forte ancoragem à História, o grupo diversificou-se na sua natureza e composição, somando investigadores de um conjunto variado de áreas, inclusive além das ciências sociais e humanas. Essa diversidade está refletida numa produção diversificada, no cruzamento interdisciplinar como método permanente, num entendimento das realidades sociais mais profundo e plural, na capacidade de integrar redes, nacionais e internacionais, fundamentais para o conhecimento científico.Essa realidade do grupo que foi determinante para a decisão da maioria dos seus investigadores de permanecer na NOVA-FCSH, abandonando o IHC, mantendo o grupo, mantendo objetivos e práticas de trabalho comuns. Uma unidade de investigação será sempre mais do que a prática da sua direção em cada momento, será a sua própria história, a afirmação dos seus princípios e valores no campo da investigação e divulgação científicas, numa concepção de democracia que valorize o conhecimento sem dogmas e tenha como objetivo uma sociedade livre, plural e de acesso universal ao ensino e à cultura. Essa herança do IHC nenhuma direção poderá levianamente ofuscar ou simplesmente apagar da história da FCSH. Ela sobreviverá a práticas que consideramos inaceitáveis e que nos levaram a sair desse instituto.

Foram anos de intenso trabalho, de aprendizagens felizes e também de dificuldades. A ciência é um trabalho exigente e muito pouco reconhecido pelas políticas públicas, acossada pela falta de meios e sobretudo pela ausência de uma visão para o sector onde a grande maioria dos seus participantes vive condições de precariedade crónica. O mesmo se passa em tantos outros níveis das realidades laborais que têm sido objeto dos nossos estudos e que continuarão a sê-lo. Foram dez anos em que investigadores do grupo de História Global do Trabalho e Conflitos Sociais integraram o Instituto de História Contemporânea e para ele contribuíram com o melhor da capacidade dos seus membros. Agora é tempo de outros desafios, na FCSH, num lugar onde prevaleçam a transparência e a cooperação, a frontalidade nas divergências e controvérsias científicas, o cuidado e o respeito pelos seus investigadores.Os investigadores do Grupo de História Global do Trabalho e dos Conflitos Sociais

Raquel Varela exige pedido de desculpas ao PÚBLICO

“Nunca, em momento algum da minha carreira, inseri no meu CV um artigo, publicação ou atividade científica que não tivesse sido por mim realizado. Exijo um pedido de desculpas do jornal Público.

A diferença entre uma “narrativa” e a história

No dia 21 de setembro de 2021 (20 na edição online), o jornalista Samuel Silva publicou no jornal Público um artigo, com chamada de capa e acompanhado de uma foto minha, intitulado “Raquel Varela perde apoio para concurso da FCT devido a ‘erros’ no currículo”. Em subtítulo, dizia: “CV tinha entradas repetidas, que faziam aumentar a contabilidade da produção científica da investigadora”.Comecemos por esclarecer. Os investigadores universitários são obrigados em Portugal a preencher o seu CV numa série de plataformas. O CV fica, em acesso livre, na minha instituição, no Nova Research Portal; e no ORCID, no SCOPUS, no Ciência Vitae. Estas plataformas vão buscar automaticamente as publicações aos sites de revistas científicas, Google Scholar, entre outros. O artigo do Público refere-se a um concurso FCT que usa uma dessas plataformas, o Ciência Vitae. Estas plataformas sincronizam automaticamente dados fazendo “duplicações” regulares (repetem o mesmo artigo). Nunca tive conhecimento de serem contabilizadas por júris, onde quer que seja. Um cidadão comum pode não entender estes mecanismos, mas um “editor de ensino superior do Público”, Samuel Silva, não o pode ignorar. O meu CV – Nova Research Portal – é público, Samuel Silva teve acesso a ele. Não existem aí duplicações porque o sistema vai-as eliminando. Além de duplicações, que o jornalista sugere fraudulentas, junta um exemplo, como ser editor e publicar um artigo na mesma obra, ignorando que estamos obrigados a assinalar dois momentos de avaliação distintos (coordenar uma obra, publicar nela).

Sem cronologia não há história

O IHC contactou-me no dia 27 de julho de 2021 dizendo ter uma denúncia anónima de “erros” no meu CV que chegou a um jornalista e órgão de comunicação social. Respondi no mesmo dia perguntando que “erros”, que “órgão de comunicação social” e pedindo ao IHC que desse o meu contacto ao jornalista. A direção do IHC respondeu, em 9 de agosto, solicitando a correção de erros a um concurso FCT, 4ª edição. Respondi novamente, de férias legais, insistindo que não sabia de que erros se tratava. Não podia corrigir eventuais erros que desconhecia. A direção do IHC respondeu no dia 6 de setembro, quase um mês e meio depois do meu pedido, dizendo que os erros alegados na “denúncia anónima” eram no resumo do Ciência Vitae entregue no concurso, e que o jornalista que comunicou a denuncia anónima era Samuel Silva, do Público. Respondi que estiveram durante um mês e meio a enviar-me emails, sonegando informação (acrescento em flagrante desrespeito pela lei a que estão obrigadas as entidades de acolhimento dos investigadores), e que estes métodos eram intoleráveis da parte da direção de uma instituição, da qual, depois de anos de hostilidade (cujos contornos são internos à UNL é aí que se resolvem), saía. Em 10 de setembro eu e o Grupo de Estudos de História Global do Trabalho, que coordeno, saímos do IHC. 27 investigadores solicitaram à FCSH a constituição do grupo numa outra unidade de investigação. No mesmo dia comuniquei ao IHC a minha desvinculação do IHC, junto com o meu Grupo.

No dia 17 de Setembro de 2021, sou, pela primeira vez, contactada pelo jornalista Samuel Silva, alegando uma “denúncia anónima”: “Pudemos também confirmar a pertinência dessas queixas, consultando o seu currículo público no portal Ciência Vitae. Há várias entradas relativas a publicações que surgem duplicadas.” Respondi que o meu CV é público, e que não respondia a denúncias anónimas, que não havia erros no meu CV. O jornalista respondeu que não me “confrontava com a ‘denúncia anónima’. Confronto-a, isso sim, com a conclusão a que o IHC chegou da avaliação do seu CV”. Obviamente, a alegada “denúncia anónima” era afinal um expediente: o Público era a fonte do IHC e o IHC era a fonte da notícia do Público. Durante quase dois meses, o jornalista Samuel Silva teve tempo para contactar, segundo diz no seu email de 17 de setembro de 2021, quase toda a gente (cito: “Reitoria, a Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, a FCT e o IHC”), menos eu. Durante todo esse tempo, a figura da “denúncia anónima” foi usada tanto pela atual direção do IHC como pelo jornalista do Público. Eu recusei responder a “denúncias anónimas” (ilegais) e exigi ao IHC que substanciasse os alegados “erros”.Por ignorância destas plataformas e de como se constrói um CV, que deixavam o seu artigo sem qualquer substância, o jornalista voltou à carga. Em 22 de setembro surge nova “notícia” no Público, com base exclusivamente numa nota da atual direção do IHC, afirmando que “Raquel Varela contabilizou 67 artigos científicos. Só tinha ‘metade’ desse número. Dos 38 artigos que a investigadora dizia ter publicado como única autora nos últimos cinco anos, o Instituto de História Contemporânea também só encontrou ‘um terço’”. A notícia foi colocada online às 18:46 do dia 21 de Setembro, sem qualquer contraditório, e o jornalista em causa contactou-me por email (tendo acesso ao meu telefone) às 18:14, email a que não tive acesso nem forma de responder em tempo útil. A nota do IHC que o Público cita sem qualquer verificação pretende fazer uma contabilidade do CV e usa expressões como “aproximadamente”. Podem ler-se coisas no Público, com base na nota, como “tem pouco mais de uma dezena” de artigos indexados em três índices nos últimos cinco anos, como autor. São 18, só nessa categoria.

Quando da entrega da candidatura ao referido concurso tinha não 67 artigos indexados publicados mas 68. Não metade, como alega a notícia na “gorda”. Não há, nunca houve, qualquer artigo não publicado referido no meu CV. A FCT ou a FCSH nunca me contactaram por “alegados erros” no CV. Na primeira página do concurso entregue à FCT temos de colocar os links para as plataformas e CVs (coloquei quatro links distintos com o CV completo nessa página, dois obrigatórios e dois voluntários), preencher o Percurso académico, Plano de atividades e Resultados, destacar as cinco principais obras publicadas, tudo com limitação de caracteres. No resumo do CV (e não no CV, como é referido na nota do IHC) não referi todas as indexações dos artigos (indexações que sempre estiveram no CV) por limitações de espaço no Percurso, e logo em baixo, na mesma página, no Plano e Resultados, na primeira linha, estão os artigos dos últimos cinco anos (“41 artigos indexados”, sem qualquer nota de indexações). Junto print screen. Mais: tendo em conta a atitude hostil da atual direção do IHC, informei oficialmente a FCT, e antes de qualquer artigo no Público, por carta registada de que, caso existisse alguma ambiguidade no Percurso do CV (não colocar todas as indexações), juntava resumo discriminado das indexações com o pedido de que fossem entregues aos avaliadores.

Para se compreender a enormidade da acusação lançada contra o meu bom nome eis uma nota final para o leitor: o concurso a que concorro é o nível mais alto da carreira, só se pode concorrer com agregação, provas públicas que realizei e que implicam a defesa perante um júri nacional e, no meu caso, também internacional, do CV. Sem certificado de agregação não podemos concorrer a este nível. Ter 40, 50 ou 60 artigos indexados é irrelevante para um avaliador nesta fase da minha carreira, porque em média na minha área tem-se bastante menos do que isso. Eu tenho 68, dos quais 17 só no índice Scopus. Os avaliadores concentram-se no mérito do projeto que concebemos, no número de citações, e nas cinco principais obras elencadas. Não há qualquer vaga hipótese de eu ter procurado obter um benefício de forma fraudulenta em qualquer concurso. Os erros dos dois artigos do Público e da nota do IHC são factuais, atentam contra a minha honra. Estes métodos são intoleráveis, deontologicamente inaceitáveis numa sociedade democrática, que deve mobilizar-se contra a decadência ética na nossa vida pública.Raquel Varela25 de Setembro de 2021″

Print Screen CV FCT

Cópia do Plano de Actividades e Resultados entregue na FCT por mim aquando do referido concurso (lacrado, não sujeito a alterações da minha parte). É o print screen da minha página interna a que só eu e os avaliadores temos acesso. Como evitar passar vergonhas, e pensar duas vezes ou, como diz o grande Nelson Rodrigues, a vida como ela é.

“In the last 5 years I have published 41 peer review articles; 23 books and I have finishing successfully the supervision of 25 postgraduate students (Postdocs, PhD, MA and PhD internships) in contemporaneous and global history. I am one of the researchers in UNL with best international achievements, mainly in the area of European History: I became the first researcher awarded with Simone Veil Grant by LMU Munich, Germany; the first Portuguese historian to write a History of Europe (Pluto Press, 2021); I have received the ASICOM Prize, University of Oviedo, Spain, for my studies in global history; I was appointed senior researcher at the Institute for European Global Studies, Universität Basel; I was appointed chair of the Workplace section of the Global Labour History Network; I was the Portuguese responsible for to the project “Global Collaboratory on the History of Labour Relations, 1500-2000”, hosted at the IISH, funded by the Gerda Henkel Foundation (Germany) – within this Project I became PI of the funded project, in FCT “Relações laborais em Portugal e no mundo lusófono”, successfully concluded in 2015. In 2011, I became Group Leader of FCT, the Study Group on Global Labour History, at IHC (FCSH-UNL). It now comprises 44 researchers. Under my coordination the Group was evaluated in 2017 as outstanding by an international committee (CEPAC). I am PI of one national funded project (VIDAENFPORT) and, since 2011, one International Project on global history (ITSBOAT), which resulted in 2018 in an open access publication by the Chicago University Press (Varela et al, 2017). This gave me expertise to conduct global history research. This project was described in the annual evaluation of the IHC (2019) as outstanding. In 2015 we have founded the Observatory for Living Conditions, comprising 23 international senior researchers, I was appointed leader of this trans-disciplinary research group, recognized by its outreach activities and dissemination of knowledge. “

Esfera Pública

Caríssimos, o tempo das redes sociais é o do imediato. Irei certamente fazer um direito de resposta a duas “notícias” do Público, esclarecendo todos os factos, mas não é essa a minha prioridade, porque o meu CV não é a notícia. Podia deambular aqui comparando métricas de produção com colegas, o que me colocaria, como alguém já fez as contas, entre os primeiros CVs – tal exercício só me ficaria mal, porque sempre fui contra estes métodos, e serei, na Academia. O meu cv não só é publico como foi defendido em júris com provas escritas e públicas, realizadas com portas abertas, onde passei sempre com Muito Bom, Distinção (Doutoramento) e por unanimidade (Agregação). O meu CV não está em debate. A notícia que existe e que é importante, diria fulcral para a sociedade portuguesa, é o ambiente que se vive numa parte da academia, as lutas pelos lugares escassos e precários, os meios e os fins, o que é hoje um jornal e para que serve e qual o lugar dos jornalistas na nossa sociedade, e o que são processos públicos de tentativa de assassinato de carácter que se substituem aos lugares próprios, onde há defesa e provas, presunção de inocência e onus da prova, e que no fundo se tornaram o substituto do debate livre e frontal de ideias em Portugal. Quando não há argumentos sobram ataques da hominem. Estas são as notícias que merecem muita reflexão, e fico muito feliz, emocionada na verdade, pela reacção ampla nas redes sociais e mensagens privadas, da parte de colegas e anónimos, ter sido essa – a de a grande maioria das pessoas ter percebido que a notícia é “que curso de vida pública e democrática estamos a tomar, como país, ao aceitar estes métodos?”.
Hoje dou 7 horas de aulas a alunos de 9 nacionalidades aqui em Basileia. Dá-las-ei não só com o mesmo, como com mais entusiasmo do que nunca, e é aí que concentrarei o meu tempo.
Um dos temas que me convocou estes dias aqui, e que me fez pensar muito, foi o facto de pela primeira vez ter uma aluna de véu na sala de aula. Que é de uma inteligência, determinação, e delicadeza cativantes. Se publicamente devemos ser contra qualquer forma de opressão das mulheres, e a tolerância ao que é errado não nos deve fazer cair no relativismo de deixar de defender os nossos princípios, seria para mim intolerável, como foi tantas vezes defendido em alguns países, obrigá-la, em nome do Estado, a retirar o véu por ser uma instituição pública. Estou, felizmente, num dos países mais democráticos do mundo, onde mais gente sem ligação profissional à política participa na vida política. Tem sido uma bela lição. Uma coisa é o que defendemos, outra, muita distinta, é obrigar alguém, em nome da vontade da maioria, vestir ou despir qualquer peça de roupa. Hoje, ainda mais do que ontem, a minha batalha pelos direitos, liberdades e garantias individuais é inabalável. Obrigada a todos pelas palavras de solidariedade. O processo, como disse, segue para Tribunal, onde, com meios próprios e legais, fará o seu caminho, leve o tempo que levar.

Helena Trindade Lopes, Professora Catedrática da UNL, História

Raquel VarelaAcabo de ler uma “coisa”, num jornal que já foi de referência, a propósito de Raquel Varela. Para primeira impressão digo já duas coisas:1) Denúncias anónimas? Não aceito, nem respeito…2) O cavalheiro que assinou o texto no Público se fosse minimamente informado saberia que ser editor de um livro é um registo e uma tarefa (de grande responsabilidade) e que escrever um artigo nesse livro é outra tarefa e, por isso, outro registo. No exemplo dado não há qualquer incorrecção. De resto, estas são mesmo as regras estipuladas para o preenchimento do CV no Ciência Viva que permitem aferir coisas distintas: edições de obras, por um lado e capítulos de obras ou artigos, por outro.Quando essa gente anónima – gente sem coluna vertebral, pidesca – quiser discutir estes temas na praça pública, eu estarei disponível para o fazer. Mas em voz alta, dando a cara, o nome, a reputação individual! Denunciantes anónimos 50 ANOS DEPOIS DE ABRIL?