A Grande Balda

Lembram-se das notícias que diziam que o terceiro período só ia contar 20% e que os alunos não iam ser prejudicados? Em Linda a Velha, Oeiras, decidiram que o terceiro período não poderia contar mais do que 20% para a nota. À semelhança de outras escolas. Em muitas os professores decidiram ainda que os alunos não teriam notas menores do que tiveram no segundo período. A mudar a nota, só para melhor. No liceu de Oeiras, na mesma Oeiras, a apenas 5 km, decidiram que a avaliação do terceiro período iria ser idêntica como se não tivesse existido pandemia ou ensino on-line. Parece que esta decisão foi tomada ao abrigo da “autonomia” dada pelo Ministério. Naturalmente é um caso para tribunais já que estes alunos concorrerão em pé de igualdade ao ensino superior. É portanto ilegal e inconstitucional. Por esse país fora multiplicam-se os casos semelhantes. Escolas lado a lado com critérios díspares. É uma afronta a quem paga impostos para o ensino universal. Não é autonomia. É a arbitrariedade, a falta de seriedade (um terceiro período “normal”, dizem), como sempre, tudo pago por nós. E claro, numas escolas os professores foram parte da solução (não baixar notas e reconhecer a excepção da pandemia), noutros foram cúmplices destes actos discricionários e irracionais pedagogicamente – avaliaram alunos on-line como se fosse um ensino regular presencial (sem palavras…). O Ministério está em silêncio deixando que cada director seja elogiado ou crucificado, quando se exigia do poder central a revisão imediata destas notas e a padronização de critérios com vista à igualdade de oportunidades – o mínimo que se exige num regime democrático. Ou isso ou comecem a publicar um ranking de critérios de avaliação para os pais decidirem onde a avaliação é mais sensata, irracional, uma balda, muito exigente, séria ou inflacionada, estilo cardápio ao serviço de cada freguês…assim podemos dizer que a escola deixou de ser universal e é um produto de consumo mercantil. Deprimente.
PS – há ainda escolas onde decidiram que o 3 período só conta 10%.

Gaspacho com livros, no jardim

Gaspacho com livros
Coisas maravilhosas para se fazer a um Domingo. Ver o filme, em acesso livre, com legendas, Lenin…the Train, uma interpretação magnífica de Ben Kinskley, grande cinema, excelente reconstituição histórica, a paixão por Inessa Armand, o papel de Kruspkaia, Lenin aqui chega-nos como é, nem demonizado, nem alvo de hagiografias tristes. Pegar numa manta e ir ao parque mais perto de si e ler “A Ideia de Europa” de George Steiner, uma reflexão sobre os mortos e os vivos da Europa, estátuas cheias de glória e sangue, a defesa do pensamento fundamental contra o ocaso vertiginoso da cultura norte-americana, o livro contra o automóvel, e que termina com uma referência esperançosa, final, a dois dos gigantes: Trotsky, e a ideia inicial e inteira do comunismo, e Espinosa, contra as paixões tristes. Reler mil vezes um pequeno livro “A Morte de Ivan Ilitch”, «Este livro tão breve, uma das maiores obras-primas do espírito humano, tem sido, desde a sua publicação, um motivo de controvérsia para a crítica: trata-se de uma obra sobre a morte ou de uma obra que nega a morte?» (António Lobo Antunes). E ainda ouvir Rocío Márquez, sem instrumentos, só a voz, o corpo, a alma toda da Andaluzia. Acompanha com gaspacho: tomate madura coração de boi, pepino sem sementes, pimento vermelho, pouco, um debate de alho, azeite, oregãos, tudo passado, 3 vezes, servir com figos pingo de mel.
Link para o filme. https://www.youtube.com/watch?v=qBndgWOdYqQ
Bom Domingo!!!!!

Quando o trabalho adoece

Recentemente um anestesista escreveu um belo texto aqui na internet onde referia como muitos dos seus colegas, já antes, mas sobretudo depois do COVID-19, passaram a achar que o doente era uma ameaça. Esse sintoma é generalizado, não sabemos bem a percentagem, mas é altíssimo. É um dos sintomas do chamado burnout e está intimamente ligado à qualidade do trabalho. Nos professores pode ser visto pela quantidade de professores que se queixam dos alunos, e não conseguem sozinhos resolver a questão com estes, bem como na quantidade de pequenos problemas normais em crianças que se agigantam nas salas de aula, e acabam em rebuscados processos com directores, pais e psicólogos em que o único ser com saúde mental intacta é a criança que fez asneiras.

Na verdade os médicos vêem os pacientes assustados como uns “chatos” e os professores os alunos como “insuportáveis”. Gostam, ou pensam que gostam, de doentes que são saudáveis e de alunos que não precisam de ser ensinados. É a inversão do sentido do trabalho de ambos.

Isto não se dá por falta de bom senso ou talento para a profissão, como tantos pensam. É um sintoma claro de desrealização e despersonalização – o trabalho não lhes dá prazer, é fonte de sofrimento, o sentido do trabalho, educar, cuidar, passa a ser como que um alvo a abater, porque é visto como fonte de afectos negativos. Daí que quando há estes sentimentos seja preciso conhecer o trabalho e como ele se organiza, sob pena de cada um destes médicos e professores se sentir culpado pelo seus sentimentos negativos, o que só agrava os mesmos.

Lembro-me de uma educadora dos nossos filhos, a Isabel, quando um deles fazia birras, naquela fase de birras homéricas de se lançarem pelo chão dos supermercados a fingir que estão a ser espancados pelo Golias e nós já estamos a dez metros a fingir que não os vemos, pelos 2 anos, 2 anos e meio, eu lhe dizer que estava exausta e ela respondia-me com um sorriso cheio tranquila, na maior, que eu deixasse o assunto com ela porque ela adorava ensinar a controlar birras e ele era um desafio para ela. Era uma educadora, feliz, com o sentido do seu trabalho. Para ela as crianças são desafios, individuais, e não umas coisas chatas padronizadas alvo de planeamento, jamais realizado, num Excel.

As crianças que são muito educadas não precisam muito de professores, grande parte delas a partir de certa altura serão em parte auto didactas, melhores que muitos de nós professores. Ser professor é educar e ensinar quem não sabe, é esse o nosso desafio, ser investigador é perceber o que não se conhece. Ser médico é atender pessoas doentes, assustadas na sua maioria, inseguras e talvez chatas. Porque vão ao médico porque estão doentes e essa é uma condição normal. Ser médico é ter prazer em cuidar quem está frágil. O sentimento generalizado contrário que se criou – de que alunos e doentes são uma ameaça -, é em grande medida uma naturalização de um adoecimento mental, que é resultado da perda da qualidade e do sentido do trabalho nas duas áreas mais nobres, a saúde e a educação.

Uma questão por responder

Agora é unânime, e quem teve responsabilidades directas nesta catástrofe económica junta-se ao coro dos críticos, lavando a mão como Pilatos. Lembro-me porém de, em 2016, o ter analisado assim no espaço público, como voz então quase a solo. Aqui fica para recordação: “Penso que o que vai acontecer com a TAP é o que aconteceu com a PT, falência a prazo (por causa dos empréstimos garantidos pelo Estado para a compra de aviões para rotas inviáveis, mas que geram juros aos accionistas); restruturação (eufemismo para despedimentos dos que ganham mais, com pré reformas pagas pela segurança social, e contração de salários mais baixos e mais precários); e, quando tudo isto acontecer, vai haver uma daquelas declarações dos governantes a dizer “que a TAP é uma empresa estratégica, trata-se do interesse nacional, tem que ser nacionalizada”, e assumimos todos nós os prejuízos da empresa, que entretanto distribuiu lucros avultados pelos accionistas”. Fim de citação – 13 de Outubro de 2016, Último Apaga a Luz, RTP3.

Não me interessa muito provar ter razão, estilo mãe chata que avisa os filhos “eu sabia”. De facto não era preciso ser um génio para saber o que se ia passar. O PSD fez a privatização, a UE estimulou, e o PS terminou o processo mantendo uma solução estranha (é accionista mas não manda nas contras). O resultado foi uma negociata em que a dívida era sempre garantida pelo Estado mas os lucros dos accionistas. Quem tem um compromisso com a verdade sabia o que era o “negócio” da TAP. O que interessa perceber aqui é como é que quem Governa repete ad nauseum os mesmos erros e finge-se surpreendido, sem que surjam alternativas políticas credíveis. Essa é a questão que não respondi e ainda não consigo responder.

Conversas com História

Caríssimos, todas as Conversas com História – programa de história pública que conduzo no CCB – deste ciclo estão aqui disponíveis – carregar link abaixo – para ver ou rever. Neste ciclo conversei com Ken Loach, Valério Valerio Arcary, Ivo Canelas, Joel Neto, Fernando Rosas, Álvaro Carvalho e Ricardo Araújo Pereira. CCB/RTP Palco.

Ken Loach
https://www.rtp.pt/play/palco/p7231/conversas-com-historia
Valerio Arcary
https://www.rtp.pt/…/p…/p7231/e470458/conversas-com-historia
Ivo Canelas
https://www.rtp.pt/…/p…/p7231/e471968/conversas-com-historia
Joel Neto
https://www.rtp.pt/…/p…/p7231/e475678/conversas-com-historia
Fernando Rosas
https://www.rtp.pt/…/p…/p7231/e477307/conversas-com-historia
Álvaro Carvalho
https://www.rtp.pt/…/p…/p7231/e472075/conversas-com-historia
Ricardo Araújo Pereira
https://www.rtp.pt/…/p…/p7231/e474662/conversas-com-historia

Festa da Precariedade gera surto de Lisboa

Hoje o Publico notícia em destaque “Trabalhadores clandestinos do sector da construção no centro do combate à pandemia”. Alfabetizei um aluno há muitos anos que veio de Cabo-verde, 12 ou 14 anos talvez. Foi das experiências mais incríveis da minha vida. Morava num bairro miserável, anti social (dito social ou municipal), tinha 19 anos, não sabia ler nem escrever, e era assediado pelos traficantes de droga e todo o tipo de lumpens do bairro – estes actuavam como uma força repressiva a par da política, no dito bairro os trabalhadores viviam entre o medo da política e o medo dos lumpens. Às 5 da manhã vinha uma carrinha buscá-lo, ele ia para as obras o dia todo como servente, e às 18 horas em ponto estava, com os olhos avermelhados, exausto, mas de costas erguidas, com um caderno na mão a escrever e anotar tudo, tratando-me com um respeito inesquecível. Nunca mais o vi, gostava de saber se está bem. Um dia levei-o ao castelo de São Jorge e, ele, junto com outros, emocinou-se, muitos choraram, não me recordo se ele chorou. O bairro anti social era a 20 km do castelo, eles nunca tinham ido a Lisboa, compreendi nesse dia. Que vergonha do meu país, que vergonha do mundo, eles deviam comer e estar vivos, ir a um museu era impensável.
Foi preciso uma pandemia para o poder político assumir que temos um grave problema na construção. Há anos que alertamos que em Portugal morrem mais de 100 operários em média por ano, a maioria nestes sectores e da logística. Fala-se (e bem) das mulheres vitimas de violência doméstica e da necessidade de parar este drama, mas não se fala dos mais de 100 homens mortos todos anos por razões evitáveis. Mortos não se comparam em números, todos as mortes evitáveis são um problema grave. Chamo apenas a atenção para dois pesos e duas medidas. O sector da construção não tem um problema sério de COVID-19, tem um grave problema de miséria, falta de segurança, doenças e morte. Todos os anos. Não era preciso uma pandemia para se saber. A miséria destes trabalhadores está visível aos olhos de todos nós quando passamos em qualquer obra.
Não fica muito bem à DGS alertar agora que está ali um problema de saúde pública. É que esse problema está ali há anos, mas foi preciso estes operários “aparecerem” como veículos de contágio para a classe média para assumirem que estes homens existem, fora do andaime. Têm, a par da logística, o maior índice de acidentes mortais no trabalho do país; aos 45 estão diabéticos, com tensão alta, e colesterol por causa da alimentação baseada em hidratos de carbono; o alcoolismo para suportar tudo isto…; apesar do trabalho exigente e duro não ganham o suficiente sequer para se alimentar ao mês, têm dependência regular cíclica de Bancos Alimentares, caridade degradante; os acidentes que não acabam em mortes, têm como consequência muitas vezes a incapacidade grave para toda a vida, acabando muitos a dormir na rua quando, depois de partirem o braço, perdem o trabalho – é aí que Marcelo Rebelo de Sousa entra em acção política para combater o “grave problema dos sem abrigo”. Nem falo claro dos contratos inexistentes, dos salários miseráveis, da clandestinidade, de nunca terem ido a Lisboa, de não saberem o que é um Museu. Perdoem-me, mas que vergonha alheia sinto nestas horas em que muitos destes homens receberam um telefonema da DGS, provavelmente pela primeira vez na vida, e aparecem nos discursos do Governo. O Estado descobriu que eles existem, com o COVID-19. Que está para aí na centésima ameaça e risco que estes homens sofrem todos os dias. Até aqui nunca ninguém lhes tinha ligado a perguntar como estão? Mas todos os dias as empresas para as quais trabalham têm jornais inteiros dedicados a estas, a começar pelo “vamos agora saber como andam as bolsas de valores”, “acordam em alta, animadas”. A festa da precariedade é afinal responsável pelo maior surto de COVID-19.
No meio disto o Partido Chega de extrema-direita resolveu fazer uma manifestação contra as empresas de trabalho precário? Contra o desprezo a que o Governo vota estes cidadãos que erguem as nossas casas? Não, contra eles, contra os operários e as trabalhadoras negras. Contra o meu aluno de Cabo-verde, um negro que seria para André Ventura a causa dos males do país. Fico a pensar como há trabalhadores que se deixam enganar tanto e ainda acham que este Ventura é solução para o que quer que seja.
Hoje o Publico notícia em destaque “Trabalhadores clandestinos do sector da construção no centro do combate à pandemia”. Alfabetizei um aluno há muitos anos que veio de Cabo-verde, 12 o…

Pagamos a educação, e não a recebemos.

Pagamos a educação, e não a recebemos.

Nunca fui a favor de rankings, uma criação neoliberal. Não acredito que a base do avanço científico esteja na competição, mas na cooperação. Sou a favor de um ensino de qualidade, universal, público. E penso que ele pode ser massificado e excelente. Mas afirmar que os rankings não dão uma noção do país no campo da educação é desconhecer o país. Eles demonstram a realidade: a maioria do ensino privado é em média inferior ao ensino público; há um número de escolas, quase todas privadas, onde existe de facto aquisição de conhecimentos; a maioria das escolas públicas não passas de níveis médios medíocres, a coisa vai de médias de 12 a médias de 1,7 – em 20.

O lugar de onde saem estas crianças, no fim da escola, é o mesmo de onde partiram. Ou pior, na verdade, porque com a proletarização das classes médias e a massificação da tecnologia, e a desqualificação das profissões em geral, filho de médico pode ser cada vez menos médico, filho de operário será filho de operário, o próprio médico é proletarizado. Ou seja a escola não tem qualquer peso na mobilidade social. E atenção – estes rankings dão um panorama desolador – mas a realidade é ainda pior. Porque os critérios de exigência foram caindo com o tempo. Se compararmos hoje um 16 com um 16 há 20 anos, seria porventura um 12, talvez. Em termos de aquisição de conhecimentos de facto, concluiremos rapidamente que a maioria dos alunos em Portugal está negativo. Em suma, estamos pior.

Não se esperaria outra coisa de um cenário educativo em que não há carreiras, progressão nas carreiras, liberdade de ensinar, boa formação. Para que não pensem que acuso este ou aquele sector da educação, um dos problemas mais graves está na Universidade. Até ao início dos anos 90 os cursos tinham 4 a 5 anos, e um semestre era um semestre. Depois, Cavaco Silva inventou a via educacional e a via cientifica – esperando que quem ia ensinar devia saber menos. Veio o Processo de Bolonha, que foi a machadada final – cursos de 3 anos, em que um semestre é de facto um trimestre. É impossível garantir ensino de fundo nestes termos. Falamos em excelência, como meta, mas cada vez estamos mais longe dos mínimos.

Este é apenas um de vários problemas. Nos quais os docentes têm sido as vítimas mais massacradas e os Ministérios os responsáveis. Só há uma coisa que não se perdoa aos professores, e eu também sou professora. Não resistirem. Depois da derrota de 2008/2010, com Lurdes Rodrigues, os professores ficaram desmoralizados. Muitos aliás dizem-me aqui que tenho razão mas que a culpa é das “ordens das direcções”. Desculpem, a culpa é nossa que aceitamos, sem contestação, sem apresentar alternativas, as ordens. A culpa não é certamente das crianças e jovens – eles sim, são as maiores vítimas de todo este processo – e, no entanto, hoje quantos de nós não escutamos os professores dizer que a culpa é do “miúdo que não estuda”, que “não gosta da escola”, que é indisciplinado, e despachado para um curso menor ou o ensino (dito) profissional, que lhes garante uma via certa para os baixos salários.

A responsabilidade é à cabeça dos Governos. E é de quem não resiste a estes. E nunca dos alunos – sobretudo dos mais pequenos, que nada podem fazer contra uma escola que não os estimula. Por favor, não me venham dizer que o problema é falta de iPads e computadores, porque isso têm eles em casa e em todo o lado, estão horas enfiados nessa caixinha delirante. Salvam-se cada vez menos, como se viu nos rankings, os que em escolas excelentes têm poucos alunos, muito bons professores que trabalham em boas condições, e os que ainda podem pagar um professor privado (eufemisticamente conhecido como explicador). De lembrar que tudo isto acontece num país onde quem trabalha, operário ou professor, paga impostos como um condenado para ter educação de qualidade. E não a tem.

Em Portugal há mais resorts turísticos do que boas escolas

Culpabilizar os rankings pelo mau estado da educação ou apontar que revelam desigualdades é o mesmo que ir ao médico e zangar-se com o termómetro que nos diz a temperatura. Os rankings são um medidor, um dos, de uma doença sistémica. Sou contra exames, porque eles obstaculizam uma educação de qualidade. O que porém os rankings revelam é uma parte importante da realidade – a larga maioria da educação do nosso país é medíocre – a média ou é negativa ou está no limitar. Isto nas públicas e nas privadas – sim, não vale a pena pagar.

Salvam-se no meio deste panorama uma dúzia de escolas, todas privadas, muito boas, não mais de uma dúzia, onde curiosamente se manteve uma estrutura de ensino clássica. Em quase todas as escolas por esse país fora há inovadoras “pedagogias de competências” e os professores quase têm que dançar nas aulas, por um salário mau e precário muitas vezes. Nas outras – nas poucas escolas excelentes -, há ensino, ou seja, conhecimento científico. E os professores são bem pagos e reconhecidos.

Podemos continuar a negar esta evidência falando do “esforço” brutal de todos. O esforço existe, de facto, mas é suor e cansaço por um caminho errado, que não nos leva a lado nenhum. Estamos sem mapa, ou seja, sem uma estratégia educativa para a maioria da população, votada à mediocridade sempre a coberto de grandes “inovações” “autonomia” “flexibilidade” pedagógica, e outros vazios retóricos que se acumulam à medida que tudo piora, e fica evidente aos olhos de cada um.

O resto da temperatura dos rankings já sabíamos. Bairros mais pobres, educação mais pobre; pais médios, educação média. Isto é, a escola não cumpre qualquer papel em combater a desigualdade e serve não o conhecimento mas um mercado de trabalho pobre e mal qualificado. São os resultados medíocres de e para um mercado de trabalho medíocre. Desse ponto de vista a escola cumpre o seu papel e os Governos não se enganaram – a escola cria uma sociedade de trabalhadores pouco ou mediamente qualificados, sem domínio do conhecimento fundamental, que servem um país atrasado, que não produz nada fundamentalmente e vive de turismo e exportações cuja cadeia valor está fora do território, nos países centrais. O panorama é desolador. Mas este é o resultado esperado de um país que tem mais resorts turísticos do que boas escolas.

Quem governou nos últimos 40 anos fez escolhas, e elas estão aí. Somos excelentes na gastronomia, muito bons no turismo, e muito maus na educação. Podem sempre dizer-me que na natureza humana só uma pequena percentagem é excelente. Respondo-vos que isso é falso – quando mudamos os ambientes a larga maioria é excelente. Podem também dizer-me que a culpa é do vizinho do lado. Mas eu não acredito que possam os pais culpar os professores; os professores culpar os pais; os professores do superior culpar os da primária; e os da primária recordarem que foram formados no superior. Tudo isto é verdade e o que diz? Que estamos numa boa de neve que cresce cada vez mais, enquanto rola montanha abaixo. Quanto pior é a educação no primário, pior será no superior. Quanto pior é no superior pior será no secundário. Quanto piores forem os professores, piores serão as crianças. Quanto piores forem os pais, piores ficarão as crianças, que um dia também serão pais e professores. Uma avalanche.

Ou começamos a encarar o ensino a sério, e a pagar muito bem no sector da educação, em todos os anos de ensino, considerando que queremos ser um país excelente nesse campo ou, lamento, só vai piorar – um dia a bola rebenta lá em baixo e descobrimos que a casa não tem fundações e o telhado, excelente, caiu em cima de todos – ninguém se salva bem num país com estar estratégia de praia, sol, e rendas fixas de gestores.

Temos que traçar uma linha vermelha nas redes sociais

Imaginem que estamos num café, várias mesas de convivas, e entra um grupo de pessoas e arrota, solta gases e a seguir escarra no balcão. Se fosse real, abandonaríamos o café. Vem isto a propósito do apelo à censura cada vez mais notório por parte dos donos do Facebook, com a desculpa de acabar com os “discursos de ódio”, e dos comentários que li no site Jovem Conservador de Direita (JCD), sobre a minha pessoa (foram centenas), e que tenho lido ao longo de anos nas redes sociais ou caixas de comentários de jornais de referência.

Comecemos pelo início. O site JCD não é um site de humor, é um projecto político próximo da Geringonça, nascido por volta de 2015, com o clássico programa dos neoliberais de esquerda: pagarmos mais impostos para a “economia verde”, subsídio de desemprego em vez de emprego, assitencialismo social em vez de Estado Social (diminuir pagamentos de casas, electricidade, taxas moderadoras mas só para os miseráveis, os sectores médios que paguem), e identitarismo radical (feminismo, anti-racismo). E, não menos importante, apelo à censura ou, como dizem, ser “politicamente correcto” em nome da igualdade.

Portugal é um país pouco politizado. A política é hiper centrada no Estado. A sociedade civil, a esfera pública, é pobre. E quase todos os partidos com espaço mediático gravitam em torno no “sistema”, ou seja, do aparelho de Estado – do qual dependem materialmente os seus deputados, funcionários e assessores, a política é um emprego. Ao contrário de outras sociedades mais saudáveis politicamente, aqui quase todos têm medo de dizer eu sou do Partido tal, milito aqui, quanto muito dizem-se “activistas”. E criam heterónimos (movimentos, sites, associações) para fingir que não fazem política. O PCP é o que tem mais heterónimos, mas os outros Partidos todos o fazem amiúde. Quando chegamos a Barcelona, Espanha, por exemplo, é um sopro de ar fresco de liberdade – todos são do Partido A ou B, contra ou a favor da independência, com entusiasmo, sem mediações, linhas claras, e militar sem ter como ambição uma carreira política – a militância política é um acto da esfera pública. Aqui, um Estado hiper centralizador, macrocéfalo, desde a Expansão, criou, mais tarde, uma sociedade civil fraca, com excepção de explosões políticas maravilhosas onde a política passou a fazer parte da vida de todos e de cada um, ou seja, a democracia floresceu – como a revolução dos cravos.

Assim, em Portugal criam-se sites de “humor”, ou de supostas de denúncia de fake news (como os Truques da Imprensa Portuguesa), mas cujo objectivo é combater qualquer adversário da Geringonça, como é o caso deste Jovem Conservador de Direita. A direita também tem os seus, mas em geral tem muito mais espaço nos jornais clássicos, pelo que precisa menos destas mediações. É sabido que sou e fui sempre contra a Geringonça, essa solução governativa pró sistémica. Porque implicou a desmobilização de qualquer alternativa à esquerda. E assim abriu espaço a que se criasse um Partido anti sistema de extrema-direita chamado Chega – este foi o preço altissimo a pagar pela austeridade light de Costa com apoio do BE e do PCP.

Nada light para quem trabalha ou levou com métodos bonapartistas em cima contra as greves ou foi despedido sumariamente (estivadores, motoristas, enfermeiros). Abriu-se espaço a um monstro, o Chega, cujo objectivo é destruir todo e qualquer direito laboral, é isso o Partido Chega. Apresenta-se como anti-sistema (e isso hoje é uma necessidade se se quer crescer porque as pessoas já compreenderam que este sistema não funciona) mas nada de concreto apresenta a não ser atacar 37 mil ciganos, enquanto se cala com as péssimas condições laborais de 5 milhões.

Ora o que caracteriza a extrema-direita, como tão bem demonstrou a excelente reportagem do Público de Ricardo Cabral Fernandes, é a organização de milícias para atacar com violência o adversário. Uma esquerda anti-sistema tem um projecto político, goste-se ou não. Uma direita anti sistema tem um grupo de claques e milícias, grupo de artes marciais, ou submundo do crime, cujo objectivo é calar, amedrontar e silenciar os adversários pelo recurso à violência física e verbal.

Quem ler a caixa de comentários do JCD sobre mim encontra uma sucessão de vómitos e arrotos que dão vergonha alheia: há ataques pessoais, suposições que referem explicitamente o meu trabalho, os meus filhos, lugar onde acham que vivo e – lá se foi o politicamente correcto – uma rol de comentários de cariz sexual que se fosse feito sobre uma mulher desse público pró-Geringonça do JCD dava direito a 20 petições e 200 pedidos de prisão. Confunde-se liberdade de discordar com violência extrema, e há milhares de cúmplices neste esgoto moral que encolhem os ombros dizendo que “são as redes sociais”.

A questão é que este cenário de violência verbal extrema afasta muita gente séria que quer debater neste grande café. E dá espaço a que os donos do Facebook introduzam paulatinamente a censura. A minha nota final é sobre isto precisamente – temos que nos auto-regular para impedir que sejam os empresários do Facebook a fazê-lo por nós.

Precisamos de perder a ingenuidade política. Não existe Chega, Geringonça e Jovem Conservador de Direita, existem partidos políticos que representam interesses e classes sociais, destes nenhum representa os interesses de quem vive do trabalho manual ou intelectual em Portugal – não existe esquerda anti sistema, não existem dois polos opostos, existe uma crise política tremenda sem alternativas à esquerda. De um lado um “sistema” errado, que devora a vida das pessoas. Do outro uma alternativa que não o é, o Chega, porque aposta na desigualdade e na violência social.

Precisamos, por isso, de uma esquerda anti-sistema. Mas temos que o fazer recusando métodos de violência verbal (e física, claro). Tem que haver uma debate sério sobre alternativas, mas democrático nos métodos. O que temos é o inverso, a total ausência de alternativa na esquerda e, de cada vez que há uma voz dissonante que as apresenta, combatem-se essas ideias não com argumentos, que não existem, mas com métodos anti-democráticos, onde a violência verbal explicita é a norma.

Da minha parte já sabem – aqui todos são bem vindos, o contraditório é vital, o debate estimulante, com palavras duras e sem politicamente correctos, ou seja, sem censura. Tudo o que passe daí para ataques ad hominem, suposições sobre vida privada, violência verbal, leva-me a bloquear imediatamente. Quero ser eu a autoregular e não um qualquer empresário cotado em bolsa. E penso, com sinceridade, que essa é uma responsabilidade pública e colectiva nossa. Temos que traçar uma linha vermelha sobre aquilo que permitimos.

Se não tirarmos do nosso café estas pessoas estamos a impedir que todas as outras fiquem, e obrigá-las a assim a assistir a uma sucessão de vómitos, em que escarram restos de comida com cuspo para o nosso chão – coisa que ninguém saudável aguenta. É preciso impedir que este ambiente nas redes sociais continue. Não podemos assobiar para o lado, fingir que não é connosco, ou relevar quando é um ataque aos nossos adversários.

Não me interessa, para usar o caso mais extremista, a vida pessoal de André Ventura. O ataque tem que ser, implacável e certeiro, contra o seu projecto político, as suas ideias manipuladoras dos mais pobres, dos empresários desesperados, e de quem trabalha. Mas afirmando alternativas que expliquem aos iludidos no Chega que há outro caminho. E o caminho não é sufragar o Bloco Central ou a Geringonça.2 porque disso já tivemos e não serviu de nada. É preciso denunciar o caráter anti-democrático de todos os adversários políticos que não permitem a discórdia. Aliás JCD presta um serviço público que favorece a extrema-direita porque aposta na ridicularização pessoal do seu líder, Ventura, o que significa humilhar os seus eleitores. Foi assim que a esquerda brasileira combateu Bolsonaro, usando memes para o humilhar, o resultado foi que ele ganhou- porque em matéria de humilhação e brutalidade ele é muito melhor do que qualquer um à sua esquerda. A arma da direita é a violência. Não pode ser nesse campo que a esquerda vence.

Há que colocar um ponto final nestes métodos inaceitáveis que confundem polémicas duras com violência explícita. No meu mural já bloqueei centenas ao longo destes anos, vou continuar a fazê-lo. E serei contra que um accionista do Facebook o faça por mim.

Sem tabus: como chegámos aqui? Como saímos daqui?

A OMS afirma que divulgar o suicídio aumenta o suicídio. Muitos na área estão contra a posição da OMS. Esta directiva foi seguida durante anos, sem contraditório, por quase todos os jornalistas, em várias partes do mundo. Contra ela estão centenas (ou milhares) de profissionais de saúde, entre eles psiquiatras e psicólogos, em todo o mundo, que afirmam a hipótese contrária – temos que falar sobre o suicídio porque isso ajuda a preveni-lo. Em Portugal o professor Coimbra de Matos é contra a posição da OMS, em França Dejours também, são duas referências mundiais no campo da psiquiatria.

Não quero falar sobre o suicídio do acto Pedro Lima, porque não posso, desconheço totalmente os contornos do mesmo e é preciso um grupo muito especializado de cientistas de várias áreas para se compreender, ao longo de muito tempo de pesquisa, porque alguém se matou. Resta-me enviar os sentimentos à familia e aos próximos. Mas é evidente que ele nos convoca a todos, e por isso choca-nos mais. Trata-se não só de um de nós – ser humano -, mas uma figura pública do mundo da cultura. Que se suicidou no meio de uma profunda crise económica, cultural e sanitária da humanidade. Não quer dizer que tenha sido por qualquer uma destas razões que aconteceu, mas cada um pensou em si, nos seus, na humanidade e na terrível decadência social com que todos os dias nos deparamos. O que quero aqui defender é que se ponha fim ao tabu. E se abra a hipótese de falarmos abertamente sobre o tema, não no caso particular, mas no geral. No geral ocorre-me dizer algumas coisas:

Há um tipo de suicídio que tem subido sistematicamente desde os anos 90. O suicídio no trabalho (ou em casa, na rua, mas por causa do trabalho). Isto mexe com questões profundas da organização competitiva do trabalho, o homem como lobo de Homem está sempre em risco. Só, desamparado, ainda que cheio de gente no local de trabalho. Os métodos de gestão, a avaliação de desempenho individual, a precariedade, o assédio moral, tudo isso é um caldo catastrófico de mal estar. Quando há um suicídio no trabalho é porque há um mal estar generalizado nesse trabalho em quase todos os outros que não se suicidaram, o suicídio é como que a ponta do icebergue que mostra um método de trabalho tóxico. O que propõe Dejours e a sua equipa é que se abra uma discussão colectiva nos locais de trabalho quando há um suicídio, não se oculte porque ocultar é que vai trazer mais mortes porque aumentam as razões que levaram ao mesmo – a individualização, a solidão dos problemas. Não podemos permitir que cada um vá para casa, sozinho, pensar porque se matou o colega, temos que fazer esta discussão colectivamente, porque aí aumentamos os laços e por isso prevenimos o suicídio. Em Portugal preocupa-nos, como equipa do Observatório para as Condições de Trabalho e Vida, o suicídio nos médicos ou juizes, por causa – pensa-se – do sofrimento ético. São pessoas que têm a decisão sobre a vida dos outros na mão. Mas a questão do suicídio ultrapassa estas profissões, e está a aumentar em muitos sectores.

Sabemos – poderão ler no nosso site – que com as crises económicas actuais sucessivas deste modo de produção aumenta de certeza o suicídio.

Sabemos que ele é sub notificado, porque há tabus religiosos, mas também questões legais, de seguros por exemplo. Uma aluna minha uma vez, médica de saúde pública, contou (publicamente) como era coagida no norte do país a não escrever suicídio na declaração de óbito, e no sul não. No norte escreve-se com frequência “fractura do pescoço” (termo médico análogo) e no sul “suicídio”.

A questão do suicídio no trabalho tornou-se pública em França quando o psiquiatra Christophe Dejours, com quem colaborámos no Observatório, levou aos tribunais a France Telecom (e antes a Renault), quando gestores, bem pagos, se tinham morto, uns no trabalho, outros em casa mas “por causa” dos métodos de gestão. Em geral aliás as cartas de suicídio, comuns em grande parte dos casos, deixam explicito ou pistas importantes sobre as razões do mesmo. Essa contenda jurídica culminou no ano passado com a condenação dos administradores da empresa, acusados. Isso levanta questões muito complexas, porque implica questionamento do poder político, cúmplice, indemnizações para a família e, talvez o mais importante, retirar a “culpa” da família para o local de trabalho. Em Dejours conseguiu ajudar a pôr fim ao tabu. Recentemente suicidou-se uma directora de uma escola e a sua carta foi pública, acusava a direcção de Educação regional e o Ministério de uma pressão e indicações que ela considerava intoleráveis. O debate abriu-se na sociedade francesa, mais avançada do que a nossa. E o debate não foi sobre publicar ou não a carta pelos sindicatos e jornais, a questão foi que economia e que organização do trabalho levou à tragédia.

A componete genética nas depressões é secundária. Tem que haver um ambiente social tóxico que faça o gene da depressão espoletar/actuar. Reduzir as depressões à biologia não faz hoje (nem nunca fez) qualquer sentido. As pessoas deprimem porque as relações sociais estão mal, a depressão tem sistematicamente aumentado em todo o mundo desenvolvido em 30 anos e a genética não mudou. Estou pessoalmente cansada da genética da hiper actividade das crianças drogadas com ritalina, da genética dos trabalhadores exaustos drogados com ansiólitos, da genética das depressões drogados com medicações cada vez mais alienantes dos problemas de fundo.

Achar que tudo é culpa da familia, porque provoca ou não salva é judaico-cristianismo – não é ciência médica e social. A família é uma entidade que faz milagres, num mundo em colapso. E nós não vivemos de milagres. A família é subsídio de desemprego, casa, afecto, cooperação, cuidar das crianças, dos idosos, dos deprimidos, é banco de empréstimos para falências, é apoio, é tudo e não pode ser. A família não aguenta mais. Temos que construir uma sociedade melhor, baseada na cooperação e partilha de bens e riqueza social. A acumulação infinita, que se baseia na inevitável competição, e tem como consequência a desigualdade social, gera um mal estar que é impossível ocultar.

Escrevi sobre o suicídio no trabalho porque é o que conhecemos. Reitero que não conheço os contornos da morte do actor Pedro Lima. Pode ser ou não ser, jamais o poderei afirmar hoje. Não tenho sequer suspeitas, tudo está em aberto, nada conhecemos.
O que quis com este post foi defender uma hipótese na qual acreditamos profundamente -é preciso falarmos de suicídio. Sem tabus. Só assim saberemos a verdade. E só assim podemos ajudar os que cá estão, a mentira e a ocultação corroem-nos por dentro. Porque a ideia de que criando linhas telefónicas (não sou contra elas), drogando depressões (o eufemismo é medicalizando) se pode pôr fim a este drama tem-se revelado falsa. A depressão é um drama social, muito mais do que pessoal, cresce sem parar, e isto não se resolve em sessões de auto ajuda. O suicídio convoca-nos a pensar – e creio – sobretudo a transformar o mundo que nos pode salvar.

https://observatoriocondicoesvidaetrabalho.wordpress.com

Sem Palmas

Fui hoje de novo confrontada no SNS com a persistência de utilização de médicos em formação da especialidade, internos, pagos a preço de saldo, 1300 euros líquidos, assumindo funções de facto embora não de jure, de médicos já formados. Estes internos, muitos deles foram a linha da frente no combate à pandemia, não sabem sequer o seu futuro. O debate não é se há ou não mais vagas para medicina, é como se estão a tratar os médicos em formação e já formados. No país do défice zero reina a degradação do mais importante recurso de qualquer nação – a força de trabalho. Este esquema de os deixar sós, a fazer trabalho só, sem apoio, configura de facto a utilização de uma força de trabalho médica que em vez de 1700 recebe 1300. A pandemia, paradoxalmente, piorou a qualidade de vida da maioria dos médicos porque ou deixaram de trabalhar, que é o sentido da sua vida, pela paralisação dos serviços, e/ou deixaram de receber horas extraordinárias, que já faziam em permanência, ou não puderam compensar os baixos salários com o sector privado, que – tabu máximo – desapareceu, fechando portas, a não ser nos sectores hiper lucrativos (fazer testes, por exemplo, que isto são empresas, não estão aqui para brincar a tratar doentes…). Em suma, os médicos passaram a pandemia e não só não tiveram aumentos salariais, o que seria justíssimo e necessário, como ainda perderam rendimento. É um absurdo. Tudo isto é absurdo e merece naturalmente que estes respondam, como em França, com amplos movimentos que contestem este Estado de coisas, que não é já coisa nenhuma. E nos coloca a todos em risco, com ou sem pandemia, porque onde não há médicos e profissionais de saúde respeitados não há saúde da população garantida.

Uma Ponte sobre o Atlântico

Acabo de receber a notícia que fui galardoada com o Prémio da Associação Ibero Americana de Comunicação/Universidade de Oviedo pelo meu trabalho como historiadora internacional dos movimentos sociais e da história do trabalho.

Nós somos sempre muitos, eu sou os tantos com quem tenho a felicidade de trabalhar em colectivo, em cooperação, há muitos anos. Nenhum prémio ou louvor se dá a um cientista sem que ele tenha que o repartir por cada vez mais pessoas. Sós não existimos. As universidades e os empregos em geral pedem-nos o nosso CV e nunca o nosso CV colectivo, aquele que mais se aproxima da realidade.

Hoje quero dedicar este prémio a uma dessas muitas pessoas do meu, do nosso, CV colectivo, o meu marido, Roberto Della Santa. Quando atravessou o Atlântico para vivermos juntos deixou para trás uma carreira de professor universitário de teoria e filosofia das ciências sociais, porque em Portugal somos pequenos, esse lugar não existe. Este mês voltou a recusar um convite para regressar, abraçou Portugal com uma paixão e carinho temperados pelo seu olhar doce pela cultura portuguesa. Trouxe na bagagem tanto saber teórico que todos os dias me ensina algo sobre Portugal, que eu nunca tinha visto, embora já tivesse olhado tantas vezes para aquele lugar. Já doutorado, começou a tirar um novo curso, de língua e cultura portuguesa, e vai ser, certamente, professor de português em breve nalguma escola que o tenha a sorte de receber. Para quem viu o Merly, o meu marido é um Merly de carne e osso, um desses professores que nos transformam para sempre – são pessoas com a capacidade rara de fazer com que as ideias tenham força para nos mudar (em geral só as acções/experiências nos mudam, são poucos os que conseguem fazer isso com as ideias). Para ele, deixar de ser professor de teoria das ciências sociais numa das melhores universidades latino-americanas e tornar-se aqui professor de português de jovens é só mais um desafio, divertido. Eu ganhei com este salto atlântico uma fortuna. Todos os dias ele me desafia com questões filosóficas complexas, desperta-me curiosidade crítica, e me faz rir com uma combinação rara de humor e inteligência viva e – posso dizê-lo sem qualquer dúvida – é o teórico-critico mais honesto intelectualmente com quem me cruzei na vida. Imaginem agora tudo isto todos os dias regado com um amor eterno, apaixonante. Todos os dias, há muitos anos, acordo apaixonada. E, agora que já passaram uns anos, posso dizer que essa ideia que por aí corre nas bocas do mundo de que a paixão é um tempo curto não é verdade. A paixão faz parte de uma totalidade das relações de amor felizes – são as relações que sobrevivem, e ganham ao tempo.

Com a escrita da história do trabalho fomos construindo pontes entre o Atlântico, encurtando a distância entre cá e lá, fazendo do espaço ibero-americano só um, entre a Ibéria e a América Latina. Numa dessas travessias conheci o amor total.

“Afinal Salazar foi um bom ministro das Finanças?”

“Afinal Salazar foi um bom ministro das Finanças?”. Esta e outras questões, hoje às 16 horas entrevisto Fernando Rosas no CCB/RTP Conversas com História. A entrevista vai estar neste link a partir das 16 (antes não há acesso), mas depois fica online em acesso livre.

https://www.rtp.pt/play/palco/p7231/e477307/conversas-com-historia/836406?fbclid=IwAR0YivgvoVO-XYV73ZUTLKKkWZYOsKdu63FU0DJPiKylAKjZDA_iFfeqKO4