Breve História da Europa

Ao contrário do que foi amplamente divulgado nas últimas décadas – e tantas vezes repetido mesmo por historiadores – o boom do pós guerra não se deve só nem principalmente à exploração da periferia do mundo e das colónias (embora sem ela não se pudesse realizar, porque daí vinham matérias primas que foram deixando na misérias as populações desses países). O boom do pós guerra deve-se em primeiro lugar à disciplinarização da força de trabalho alemã e japonesa onde se encontraram as maiores taxas de extracção de valor. A teoria dos “direitos humanos” que isola a classe trabalhadora europeia, superficialmente descrita como uma «aristocracia operária» é incapaz de explicar as taxas de crescimento do pós-guerra porque só a teoria do valor e a direcção política o explicam na totalidade. Nenhum povo foi tão explorado no século XX como o norte-americano e o europeu, embora a miséria seja muito maior na periferia. Isto só a teoria do valor permite compreender. A crítica ao eurocentrismo tentou compreender o sul global sem inseri-lo na totalidade social. Falhou em compreender todo o significado político das revoluções europeias, incluindo as de 1945/47; bem como o que fez à classe trabalhadora alemã e japonesa a destruição de alguns dos mais valiosos quadros no nazismo e no Império.
 
Mas um outro fator, quase arrepiante, vai ser fundamental: a guerra tinha destruído a vida civil, mas não as fábricas. Primo Levi descreve em Auschwitz: «Para saber como ia a guerra nem sequer precisávamos de notícias de longe. De noite, quando todos os barulhos do campo se apagavam, ouvia-se cada vez mais próximo o rombo da artilharia: a frente já ficava a menos de uma centena de quilómetros de distância, dizia-se até que o Exército Vermelho já estaria nos Beskides. A fábrica gigantesca em que trabalhávamos tinha sido mais do que uma vez bombardeada pelo ar, com precisão científica e maligna: uma bomba, apena uma, na central térmica, deixou-a fora de serviço durante duas semanas; assim que os danos foram reparados, e a chaminé recomeçou a deitar fumo, mais uma bomba, e assim por diante. Era claro que os russos, ou os aliados em concertação com os russos, queriam impedir a produção, sem destruir os equipamentos. Queriam ficar com eles quando a guerra acabasse, e de facto foi o que fizeram: hoje é a maior fábrica de borracha sintética da Polónia.»
 
Tony Judt é cortante, sobre este tema, na sua História da Europa depois de 45: a «guerra nem sempre é um desastre económico, pelo contrário, pode ser um poderoso estímulo para algumas áreas». A Segunda Guerra Mundial, que fez, como escrevemos, 50% de mortos civis, contra os 5% da Primeira Guerra Mundial, vai, segundo Judt, ser devastadora para as pessoas e os lugares, mas poupará as fábricas e
empresas: «Menos de 20% do sector industrial alemão tinha sido destruído; mesmo no Ruhr, onde a maior parte dos bombardeamentos aliados foram concentrados, dois terços das fábricas e maquinaria sobreviveu intacta […]. A Grã-Bretanha, URSS, França, Itália e Alemanha (Japão e EUA), todos saíram da guerra com um stock de máquinas para recomeçar.»
 
In Breve História da Europa. Da Guerra aos Nossos Dias

Advertisements

Workers of the World

A nossa revista académica Workers of the World, agora indexada e financiada pela Cornell nos EUA, já tem o seu número 9 online. Editor executivo é o António Simões Do Paço

This issue had as guest editors José Babiano, from Fundación 1o de Mayo, Spain, and Javier Tébar, from Universitat Autònoma de Barcelona – Fundació Cipriano García, who organized a dossier on “trade unionism in the era of globalisation”.
In its miscellanea section it also includes an article by Jesper Hamark, from the University of Gothenburg, Sweden.

 

https://digitalcommons.ilr.cornell.edu/do/search/?q=corporate_author%3A%22Strikes%20and%20Social%20Conflicts%20International%20Association%22&start=0&context=36020&facet=

Amor e foie gras

Acabou de chegar o meu IRS. Estou a fazer as contas a quantas garrafas de Moet Chandon paguei e não bebi. O valor não foi para os professores dos meus filhos nem para os médicos dos meus pais, mas para a nação. O meu amor à nação é tanto que sinto o gosto frutado das framboesas e o toque de canela do champanhe que Mexia e Salgado estão agora a beber de entrada, ao almoço, acompanhado de foie gras. Com o meu dinheiro. É preciso saber viver com amor a felicidade dos outros.

A Banca

Aquele momento em que percebemos porque somos pessoas sérias e poupadas, sem vícios, que o Estado trata de taxar para nos proteger, é tudo para o nosso bem, e já não andamos mal comportados a viver acima das possibilidades e esta semana nem vamos jantar fora e até andamos de bicicleta para ajudar o planeta, há que fazer sacrifícios, aguentar e não ser piegas, a blusa nova nem é necessária, e fechamos a torneira enquanto lavamos os dentes e carne até faz mal, melhor é só comer massa, a pirâmide alimentar explica. Ainda não se mediu claro a correlação entre esperança média de vida e infelicidade, o medo e a tristeza. Mas a cada vez que mais um banqueiro falir teremos sempre o fado, que em português é também destino: «Basta pouco, poucochinho pra alegrar Uma existência singela»
 
Resumo, com citações, do Expresso Economia dia 2 de Junho, secção Descodificador, página 3:
O Estado vai meter mais dinheiro no Novo Banco?
-É possível e até provável.
Quanto já foi injectado
-Bastante.
Isso terá impacto no défice?
-Já teve.
Pode haver uma nova resolução?
– Difícil, embora não seja impossível.

PEGADA – A Revista da Geografia do Trabalho

No Brasil há um grupo de investigadores de geografia do trabalho, uma área que na realidade existe em poucos países do mundo. O Brasil tem uma tradição de geografia crítica notável, desde Josué de Castro, Milton Santos, entre outros. A Revista académica Pegada/Revista da Geografia do Trabalho fez um número especial dedicado a Ricardo Antunes, convidaram-me para escrever um artigo que aqui deixo e que começo assim: «Ricardo Antunes é um dos cientistas sociais mais importantes das últimas décadas a contribuir para a compreensão do mundo do trabalho no mundo. O sociólogo brasileiro cunhou o conceito de “nova morfologia da classe trabalhadora”, como a “classe-que-vive-do-trabalho”, ampliando o seu conceito a uma classe não exclusivamente industrial mas sem cair numa pós-modernidade relativista que dilui a centralidade do mundo do trabalho.»

http://revista.fct.unesp.br/index.php/pegada/article/view/5818/4417

 

Carreiras e Serviços Públicos

Esclarecimento sobre a questão dos professores:
 
Quando referi na Revista de Imprensa que se Costa vai rever a carreira dos professores que seja «para melhor» estava a ser irónica. Irónica e não, na verdade. Explico-me. Os trabalhadores portugueses, professores incluídos mas não só, foram aceitando ao longo dos anos não lutar por aumentos salariais e completando os baixos salários com trabalho extra, em média em Portugal trabalha-se entre 50 a 70 horas semanais. 1000 euros está calculado como um salário baixo (estudo do ISEG), que permite apenas a reprodução da força de trabalho, isto é, pagar contas. A maioria dos professores encontra-se em Portugal entre 1000 a 1500 euros, entre os que estão no activo, por isso Costa não quer pagar os 9 anos de trabalho efectivo já prestado. Porque isso implica que porventura algo em torno de 50% vão para a reforma nesta faixa de salários. A rigor não pagar estes 9 anos é não pagar trabalho já realizado e usar o salário diferido (reforma) já prestado para sustentar as imparidades bancárias, que resultam na manutenção do défice baixo, alcançado com esta supressão de salários directos e indirectos.
 
Ora para mim estes são salários baixos e devem ser alterados para subir desde logo no 1º escalão e atrair os melhores e mais capazes a esta profissão. Da qual depende a qualidade de quem vai produzir no futuro. A minha ironia era dupla, se Costa mude a carreira que seja para melhor, e sim, as estruturas de defesa dos trabalhadores, sindicatos e outras, não podem viver eternamente na defensiva querendo conservar o que têm de pouco achando que o pouco é bom. Porque perdem a sua base social que está exausta por acumular trabalhos e horas. Uma parte dos professores com o salário que têm só tem duas hipóteses, ou dão explicações e fazem trabalho extra; ou não têm acesso a produtos culturais que são essenciais à sua formação porque não os podem pagar. Ir ao teatro, comprar 1 livro, se o fizerem uma vez por mês gastarão, 1 vez por mês, com combustíveis incluídos, 10% do seu salário.
 
Fiz e retomo aqui uma declaração de interesses, coordeno para a Fenprof um estudo de uma vasta equipa sobre as condições de vida e trabalho dos professores. Esse estudo já tem hoje resultados provisórios do maior inquérito realizado no país no sector. Vai ser apresentado em Lisboa dia 6 de Julho, no Forum Lisboa. Naturalmente é um estudo cientifico que envolve vários cientistas e nenhum de nos é sindicalizado na Fenprof nem esta alguma vez teve outro comportamento connosco que não fosse o exemplar, sublinho exemplar, comportamento de ajudar em tudo o que pedimos e nunca sugerir qualquer interferência. O empenho da Fenprof na recolha deste inquérito é das mais belas mobilizações de auxilio à ciência que assisti na minha vida como académica.
 
Dito isto quero afirmar também que vejo com bons olhos como cidadã – e com muita curiosidade como estudiosa de conflitos sociais – a actual greve que já envolve mais de 200 escolas que foi chamada por blogues e um pequeno sindicato, STOP, e que está a envolver milhares de professores de forma espontânea, o que para mim releva o extremo cansaço do sector com anos e anos de más condições laborais; a impossibilidade do PS salvar três bancos e parte da sua base social. É evidente que se avizinha uma crise política não só nos professores, no trabalho extra industrial, na laboração continua de milhares de trabalhadores da logística e exportação, nos médicos e enfermeiros, e tudo isto combinado com escassez de força de trabalho devido à emigração pós troika. Sim, não dá para ter sol na eira e chuva no nabal.
 
Eu, como cidadã, desejo sol no Estado Social, ainda que chova a cântaros na Banca e suas eternas imparidades, um nome pomposo para pessoas – não são mercados, são pessoas como nome – que emprestaram valores a quem não exigiram garantias, ganharam os juros desses empréstimos e quando faliram pediram aos nossos impostos, destinados a serviços públicos, para cobrir essas perdas. É imoral, devem perder o que irresponsavelmente assumiram e não pedir a quem trabalha que sustente o que a rigor não existe, sempre foi uma aparência de dinheiro. Estamos em risco sistémico de ficar sem serviços públicos que são a base da nossa civilização.

O Maio de 68 na Europa – Estado e Revolução / The May of 68 in Europe – State and Revolution

Publicámos na revista Direito e Práxis um artigo a 4 mãos sobre o Maio de 68. Eu e o professor Roberto Della Santa, cuja tese de doutoramento estuda o universalismo do marxismo inglês, a partir da New Left Review. Edição da professora Carolina Vestana da Universidade de Kassel/Germany.
Aqui fica em acesso livre.

http://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/revistaceaju/article/view/33600