Há democracia plena sem direito à informação segura?

Há democracia plena sem direito à informação segura?
Na semana passada fez capa de jornais o Relatório da OCDE, estou com os meus colegas à procura do Relatório e ninguém o encontra, isto é, os jornalistas não leram, analisaram, criticaram e nos informaram sobre o Relatório, limitaram-se a ir à conferência de imprensa e fazer aquilo que se chama de «microfone». Hoje, embora o tema me interesse, não sei dizer o que penso do Relatório, nem bem nem mal, só que não o conheço. Se assim é o jornalismo basta irmos aos sites do Governo e da OCDE ler os comunicados de imprensa. Para isso não é necessário uma redacção de jornal. O corolário disto é que nunca tivemos tantos jornais com tão poucas notícias.
Advertisements

“crises de valores”

«As “boas acções”  já não são nobres gestos do coração, mas as acções valorizadas na Bolsa. E é na Bolsa que ocorrem as “crises de valores”» Eduardo Galeano[1]

[1] Eduardo Galeano, O Teatro do Bem e do Mal, Porto Alegre, L&PM Editores, 2002, p. 52.

História do Povo na Revolução Portuguesa nos Estados Unidos

Celebramos uma notícia maravilhosa. Por isso, ontem abrimos uma garrafa do meu vinho preferido, que naturalmente tenho que manter escondido antes que suba no raiting, comemos lagartinhos de porco preto da aldeia dos meus avós, Garvão, e ainda grelos salteados que a Dona Jesus do mercado ao lado de casa me arranjou, prontos a ir para a panela. A razão de tanta felicidade é que chegou o meu contrato de publicação da História do Povo na Revolução Portuguesa nos Estados Unidos. Um número muito grande de pessoas, no trabalho, na vida política, na esfera pública, e em casa foram fundamentais para esta epopeia de quase uma década de estudos e escrita. Para eles todos, o meu obrigada.
Somos também o que fazemos e os livros que escrevemos. Escrever a História do Povo transformou-me como pessoa, foi um antídoto precioso contra o cinismo que abate tantos intelectuais. Mais do que a minha determinação em ser optimista e confiar em sectores de trabalhadores organizados, manual e intelectuais, o que funcionou em mim este anos foi o estudo real de factos que hoje nos parecem impossíveis. Ainda hoje – não estou a brincar – de cada vez que Trump fala ou um desgraçado monstruoso dispara sobre os colegas da escola eu vou ler sobre o Maio de 68 e escrever sobre a Primavera de Praga. Sem o bom senso da decência dos grandes homens e mulheres do passado estamos condenados a achar que a barbárie e a distopia são os únicos caminhos. As operárias da Candininha ou os operários da Lisnave, os médicos do Serviço Médico à Periferia ou ou professores se Santiago do Cacém, deixaram-me esta visão mágica do futuro. Eu escrevi uma história deles, mas quem fez a história foram eles.
Não vivi a força das mudanças colectivas emancipatórias, mas estudar a revolução, dia a dia, levou-me para lá, levou-me a acreditar que é possível que as pessoas mais esmagadas, pobres, e mesmo tantas vezes cobardes, se libertem do medo, colectivamente, se superem e ajudem a construir um mundo melhor, e que nos deixaram como legado. Ao fazermos a cronologia da revolução, pela primeira vez centrada exclusivamente nas greves, manifestações e ocupações, de fábricas, empresas e casas, chegamos a uma periodização distinta sobre a Revolução de abril daquela que era até agora apresentada, e que tinha como ponto de partida as datas dos golpes e as mudanças de governos provisórios. O ângulo da análise sai, neste livro, das instituições para o campo social. Questionamos a ideia de que haveria uma simbiose entre Revolução e Estado.
A história da Revolução Portuguesa, como a história de qualquer revolução, é a história do Estado e da construção de um poder paralelo a esse Estado, dos que já não conseguem governar como governavam e dos que já não aceitam ser governados da mesma forma. Este livro trata de uma parte da construção desse poder paralelo, dos que já não «querem ser governados» como eram. Raquel Varela
«Este livro apresenta-nos uma rigorosa investigação sobre a revolução portuguesa que ambiciona dar voz aos que não tiveram voz. Nos livros de história eles são, não poucas vezes, invisíveis. Anónimos, os seus retratos nas manifestações dizem-nos tudo o que precisamos de saber sobre a esperança e a frustração, a fúria e o medo, o entusiasmo e a ilusão, e tudo aquilo que oferece grandeza à vida e não cabe em palavras. Foram eles que fizeram a revolução. Nas páginas deste livro bate um coração que tem respeito e admiração por essa gente» Valerio Arcary, Historiador.
«É preciso reconhecer também que o livro apresenta uma
impressionante sistematização de dados quantitativos, desenvolve narrativas detalhadas que reconstituem para o leitor determinados acontecimentos e processos, mas antes de tudo, investe muito bem em análises qualitativas inovadoras sobre o papel da classe trabalhadora na revolução portuguesa». Marcelo Badaró Mattos, Historiador.
«Raquel Varela é uma das mais brilhantes críticas sociais de Portugal dos nossos dias.»
Ricardo Antunes, sociólogo, Unicamp, autor de Os Sentidos do Trabalho
«Raquel Varela é uma investigadora sagaz e dedicada da história global do trabalho e tem sido uma inspiração, em Portugal e a nível internacional, para os jovens investigadores desta área.»
Jan Lucassen, fundador da história global do trabalho, ex-diretor do IISH, membro da Academia Real de Ciências holandesa

Fragmentação pós-moderna e a ascensão da extrema direita

Mais do que o crédito do Banco Central Europeu (BCE), a imigração é o principal fator de diminuição do valor trabalho na criação de novo valor criado [1] na recente década, segundo o economista Michael Roberts. Olhemos um exemplo, o da quarta maior economia europeia. A população espanhola passou de menos de 40 milhões em 1999 para 47 milhões em 2010 [2]. a maior parte deste salto, um dos mais espetaculares no continente europeu, é resultado de migrações de Equador, Bolívia, Marrocos, etc. [3] Na Alemanha residem hoje 1,5 milhão de turcos com nacionalidade turca, que foram para o país em seis vagas de migrações desde 1961 [4]. Isso não inclui nem a imigração temporária – determinante depois de 2000 – nem as gerações já naturalizadas [5].

A imigração é de fato uma das grandes fraturas que divide a sociedade europeia, e não só – o tema ocupou um do lugares-chave na eleição de Donald Trump para presidente dos EUA. A sociedade divide-se transversalmente quanto a este tema. Não é difícil encontrar um liberal que defende a imigração como “direito humano”. Nem um operário que esteja contra. Se a extrema-direita eleitoral questiona os migrantes, os partidos liberais são entusiastas da livre circulação – ainda que não da sua legalização. O tema atravessa, de forma não homogênea, as classes sociais.

Argumentamos aqui que a razão é sobretudo de ordem política – a ausência de partidos fortes que representem interesses ligados às classes trabalhadoras deixou-as reféns de dois tipos de políticas nacionalistas. A complexidade de atitudes diante das migrações tem sido mediada sobretudo por duas visões, em suma: a racista/proibicionista (setor de extrema-direita) e a defesa da livre circulação de força de trabalho (partidos liberais e conservadores e social-democratas) e dos direitos humanos (partidos social-democratas). Não existe, a este respeito, uma política internacionalista com influência real nas sociedades europeias hoje.

O real impacto das migrações na vida dos povos (de onde saem e qual o impacto nos países de onde vêm) e na dos países onde chegam tem sido ignorado. Fala-se do direito a ir. Nunca do direito a ficar. Isto é, do direito a dispor dos seus recursos, ser força de trabalho – e viver – no seu país.

O direito histórico à autodeterminação dos povos disporem dos seus recursos e meios de sobrevivência – que celebra-se no fim da I Guerra Mundial [6] – é hoje marginal nos discursos das lideranças europeias. A razão fundamental é que a iniciativa da defesa das migrações parte das classes dirigentes europeias, para contrariar a elevação salarial, pela escassez previsível da força de trabalho.

São, portanto, razões mais simples do que as propaladas divisões de pele, etnias, credos religiosos, que, existindo (e existem), têm sido ampliados pelos media e a indústria cultural, a reboque de políticas de regulação da flexibilização e/ou queda do preço da força de trabalho. Têm como força intelectual a esquerda pós moderna que sobrepõe a fragmentação identitária às classes [7], mesmo quando todos os trabalhos empíricos que têm como objeto estudos da competição salarial demonstram que os trabalhadores não são racistas com outros trabalhadores que não se apresentam como concorrentes diretos. Ou seja, um quadro intelectual de uma empresa pode vir de qualquer país estrangeiro para a Europa que por norma é bem recebido – o racismo surge se e quando há concorrência salarial, portanto perda do controle dos fatores de trabalho.

Recordemos o trabalho de Dick Geary, que sustentou também que o machismo nas fábricas no século XIX estava intimamente ligado ao fato de as mulheres entrarem no mercado de trabalho ganhando menos [8], sendo portanto um concorrente direto e que a mesma hostilidade por parte dos operários era destinada a todos aqueles, mulheres, crianças, outros operários homens, que ganhassem menos. Isto quando não havia organizações sindicais internacionalistas – como o caso bem sucedido dos Wobblies nos EUA – que combatiam esta concorrência colocando em prática – e não só em palavras – formas de luta solidárias que levavam à elevação do salário para todos.

A imigração está relacionada com um fator objetivo – o valor da massa salarial e a segurança no emprego. As políticas de “apelo à tolerância” mantendo a concorrência salarial, o dumping, conduzem os trabalhadores organizados à desmoralização ou ao apoio a partidos de extrema-direita, porque o fator objetivo mantém-se. Numa sociedade mercantilizada – em que a própria força de trabalho é ela mesmo uma mercadoria, em concorrência entre si -, os trabalhadores concorrem no setor, concorrem no mercado nacional, e concorrem no mercado internacional, para vender a sua força de trabalho. Ora, as políticas migratórias do lado dos Estados europeus têm respondido prioritariamente à gestão da força de trabalho e não em primeiro lugar – nem principalmente – a causas humanitárias ou de inspiração multicultural. Sem laços de solidariedade efetivos – como cotização para greve dos que ganham mais em favor dos que ganham menos, como fizeram em Portugal os estivadores, mantendo ambos a greve até fixar todos os salários no valor dos que ganham melhor – , o racismo terá base social onde progredir. Porque o sentido de justiça dos trabalhadores diz-lhes que a trabalho igual deve ser pago com salário igual. Não podemos deixar que a extrema-direita usufrua do beco sem saída oferecido pela “livre circulação”. Ao nacionalismo xenófobo deve contrapor-se a organização internacionalista, não a livre circulação liberal que na verdade de livre só tem a venda pelo preço mais baixo da força de trabalho, alternada com o desespero do desemprego.

Raquel Varela é colunista do Esquerda Online, historiadora, investigadora e professora universitária. Especialista em história global do trabalho e história das revoluções.

NOTAS
[1] Michael Roberts, The Long Depression, Chicago, Haymarket Books, 2016, p. 147
[2] Michael Roberts, The Long Depression, Chicago, Haymarket Books, 2016, p. 147
[3] Michael Roberts, The Long Depression, Chicago, Haymarket Books, 2016, p. 147.
[4] Referindo as migrações pós 1945, a Turquia tinha, enquanto Império Otomano já uma história de migrações para territórios germânicos.
[5] Yasar Aidyn, The Germany-Torkey Migration Corridor, The Transatlantic Policy Migration, Migration Policy Institute, 2016, p. 4.
[6] Robert O. Paxton, Europe in the Twenthith Century, Orlando, Harcourt Publisher, 1975, p. 171
[7] Ellen Meiksins Wood, The Retreat of the Intellectuals, Socialist Register, 1990. Republicada em Jacobin (https://www.jacobinmag.com/…/ellen-meiksins-wood-gramsci-s…/ acesso em 2 de Fevereiro de 2018.
[8] Dick Geary, European Labour. Politics From 1900 to the Depression, New Jersey, Atlantic Highlands, 1991.

Não chorarei por ti Hollywood

Economia Política do assédio

Woody Allen continua por favor a fazer filmes, daqueles que nos lembram como nós próprios somos brutalmente manipuladores…mesmo, quem sabe sobretudo, com quem amamos.

A carta Deneuve, que não subscrevo na íntegra, trouxe para a praça pública a possibilidade de debater-se o que era interdito na questão do assédio. É um tema maldito. Em primeiro lugar o papel do Estado, queremos substituir uma sociedade machista por um polícia atrás de cada mulher? Em segundo lugar o erro na relação entre homem e mulher – nós erramos e erramos muito, e a maioria dos erros são perdoáveis. Em terceiro Hollywood vive aquilo que vou chamar uma luta ferrenha por descer os custos do trabalho – todos os homens afastados sumariamente das séries e filmes ganhavam 4, 10, 20 vezes mais. E não foram substituídos por homens ou mulheres a ganhar o mesmo. Aconselho vivamente a intervenção com números neste programa da Inês Pedrosa, que é feminista, conhece os números e demonstra como a competição em Hollywood está a levar a estes processos de Moscovo, ou processos de Los Angeles. Os salários mais baixos, ainda assim altos, na indústria cinematográfica estão em queda livre, como estão nos lugares de gestão. Porque há escassez de mão de obra nos países centrais, incluindo nos lugares de direcção – sobre isto aconselho os relatórios da Comissão Europeia sobre escassez de força de trabalho qualificada na UE e medidas a tomar, incluindo no campo do género.

Que o feminismo de esquerda, emancipador, num mundo onde a maioria das mulheres nesse sul global está muito mal, se possa alguma vez rever nestes objectivos e métodos deixa-me perplexa. A falta de horizonte independente das mulheres que aderiram a esta trincheira não pode ser desvinculada do avanço do conservadorismo, a começar pelos EUA pós eleição de Trump. Se em Portugal olharem outra realidade, a das classes trabalhadoras, porque Portugal tem a maior taxa de emprego de força de trabalho feminina da Europa o que vão ver não é a mulher a trabalhar em casa sozinha mas os dois, homens e mulheres, exaustos.

A carta Deneuve abriu, quer se queira quer não, um debate urgente. O do papel do Estado nas relações amorosas. E outro, tão ou mais importante, o das questões de modo de vida. Que seja uma mulher com posições políticas conservadoras a dar o mote não nos deve surpreender. A França tem uma tradição saudável de defesa dos direitos contra o Estado. E é um dos países do mundo onde por causa da cultura, dos direitos sociais, do laicismo a psicanálise é mais difundida. Com ela aprendemos como todos, homens e mulheres, somos ainda tão limitados na construção das nossas relações afectivas.

O assédio sexual é na maioria dos casos assédio moral. Desvinculá-lo do moral retira-lhe a carga de totalidade das relações sociais de trabalho e dominação para resumir a uma questão de género. O problema em suma não está na crise do capitalismo e de como este na sua fase de declínio destrói a vida e afectos mas na «natural» violência do homem. Ou seja, o problema não estaria nos locais de trabalho hierarquizados mas no homem. O que choca directamente com a realidade – é só irem a uma fábrica de homens operários ver como são tratados pela gestora – mulher -de recursos humanos…Submissão, terror psicológico, ameaças, vigilância apertada, sanções – é isto que faz uma doce mulher num lugar destes a milhares de homens, seus subordinados. E também o fazem muitos homens, a muitas mulheres. Mas o tema não pode resumir-se a homem mulher porque isso simplesmente ignora as alterações no mercado de trabalho estes 60 anos.

Dito isto o que se passa com os direitos das mulheres nos países do sul global devia obrigar a tomada de posições irredutíveis por parte dos nossos governos como ruptura das relações diplomáticas, são proibidas de exercer direitos elementares na Arábia Saudita, violadas massivamente na índia, impedidas de sair à rua como e quando querem em grande parte do mundo. Estarei nas ruas contra isso. A favor da gestão do preço da força de trabalho em Hollywood..enfim…Não chorarei por ti Hollywood.