Vivemos de Paixões, isso é saudável

Contra as relações líquidas, Relações densas. Amigos não são porque o dizem, é o que fazem um pelo outro; paixões são saudáveis e necessárias; o amor salva-nos não só porque somos amados mas porque amamos – o cuidar de é tão importante como ser cuidado por. O mundo digital não mobiliza sentidos essenciais: cheiro, olhar, tacto. A esquerda é individualista. Quando alguém não paga a quota do sindicato ou não cumpre com o que se propôs colectivamente não está a ter um acto de liberdade, mas de desrespeito para com a vida em sociedade, colectiva. Contra relações vagas, apostar nas relações sólidas – contra o frenesim dos movimentos e apelos constantes, superficiais, ganhar raízes.
Coimbra de Matos e Raquel Varela sobre o livro Do Medo à Esperança, RTP Internacional.

 

Ninguém morre de frio

Ninguém morre de frio. Morre-se da conta de electricidade. E o que é a conta da electricidade? Um documentário leva-nos a conhecer Agáfia – uma mulher, bicho, que vive nos confins da Sibéria para onde a família, perseguida, crente, fugiu. Agáfia está só – pesca, tem um tear, corta lenha, cuida dos animais e reza, reza, reza, contra o pecado. Agáfia pode morrer de frio porque, embora o documentário a procure retratar com um exemplo extraordinário de determinação, Agáfia está reduzida ao seu estado animal – sobrevivência, domínio diário da natureza para sobreviver. Agáfia vive a 3 ou 4 dias de rio! de uma vila na Sibéria, portanto, no fim do mundo. Onde há temperaturas, frequentemente, de 30 graus negativos. E a sua casa está quente. Porque ela apanhou lenha para a aquecer. Agáfia tem a produtividade de um trabalhador pré-revolução industrial – não existem motores, nem a vapor. Tudo depende praticamente da sua energia braçal – a sua história veio a público porque um tumor benigno com vários quilogramas e impede agora de cortar lenha com a mesma força e ela vê-se assim na possibilidade de morrer – só, velha, doente, longe de tudo, pode morrer de frio e de fome. Escreveu então a pedir ajuda, já com 60, 70 anos, não sei. Uma rede eléctrica nacional implica a construção de infraestruturas ao longo de décadas – estão ali concentradas, nas centrais e distribuição, milhões de horas de trabalho de homens e mulheres. Um incremento da produtividade história, com a introdução da máquina e da racionalização produtiva, colectiva. A vapor, e outras. António Mexia, cuja carreira andou entre os governos de Cavaco Silva e Santana Lopes, banca privada e outros lugares mal frequentados, recebe hoje 6800 euros por dia. Dizem-nos que é por ser CEO. Como CEO construiu centrais eléctricas, postos de transformação, sub estações, linhas de média tensão, linhas de alta tensão, de fato de macaco azul, ele é imparável, um trabalhador incansável, há décadas a meter a mão na massa. Quem trabalha é quem tem razão, lá diz a canção.
 
Nenhuma sociedade ocidental vive sem electricidade – há 10 milhões de portugueses dependentes da EDP que foi privatizada só quando esta rede esteve pronta. Tudo o que a EDP dá hoje é lucro, porque a EDP só foi privatizada quando todo o trabalho estava feito. Os custos ficaram todos connosco, em várias décadas. Como remunera capitais nacionais e internacionais (chineses, entre outros, com a exportação de energia, ah país de patriotas!) a «taxa de exploração do trabalho» (extracção de mais valia) aqui em Portugal tem que ser maior. O que significa este palavrão? Que a EDP tem que elevar as taxas fixas, em primeiro lugar; e em segundo pagar mal a quem trabalha (que o digam os call centres sub contratados); e em terceiro que exporta a energia que produzimos – produzimos mas não consumimos porque os salários não permitem pagar o que produzimos. Em Portugal hoje não se vai morrer de frio, mas de falta de consciência (e de revolta) de que os pés quentes de António Mexia – que faz parte do 1% mais ricos do mundo – são as mãos geladas de quem está em casa com uma mantinha, como nem a Agáfia está… na Sibéria de há 1000 anos, em pleno século XXI.
Documentário em acesso no link

 

A ocasião não faz o ladrão

Hoje recebi uns amigos especiais para almoçar. E a minha mãe – muito especial, claro. Quando o almoço começou, há muitos copos e gargalhadas atrás, a minha mãe chegou e trouxe-me laranjas, das laranjeiras da nossa casa, lá do campo. Uma caixa, com mais de 10 kg. No meio da confusão do início do almoço tirei as laranjas do carro e coloquei-as na rua, em cima da caixa da electricidade. Agora, no fim do almoço, muito para lá do sol se pôr, a minha mãe lembrou-se que me tinha trazido ovos caseiros, um dos meus filhos foi ao carro buscá-los. E de caminho passou por uma…caixa de laranjas! Onde eu a tinha deixado há 6 horas atrás. É para nos recordarmos que no país onde Ricardo Salgado é um respeitável colunista de jornais há um grupo de pessoas, grande, que ainda acha que os bens dos outros não são para ser roubados, que o trabalho dos outros é deles e não nosso. A ocasião não faz o ladrão.

A «Doutrina Soares»

Mário Soares morreu com honras, merecidas, de funeral de Estado. Era o seu Estado, o seu regime democrático-representativo. De que ele foi não o pai – isso seria uma oligarquia –, mas um dos dirigentes fundamentais. A sua importância como dirigente político foi marcada não pelo que fez como resistente antifascista, preso 12 vezes, ou pela liberalização das leis laborais dos anos 80 ou pela resistência à troika neoliberal pós 2008. Nenhum destes acontecimentos exigia homens excepcionais, recordo.

Onde ele foi extraordinário, o que o levou ao pódio da história mundial, foi em 1974-75. Não por acaso no dia da sua morte – de uma vida de 92 anos – as duas grandes polêmicas que envolveram a sua figura e dominaram as redes sociais foram «Soares, o culpado da contra-revolução», «Soares, o culpado da descolonização». Penso que em relação às duas afirmações há muito de memória e pouco de história.

Em 1974 aconteceu em Portugal algo raro. Muito raro. Um golpe de estado abriu as portas a uma revolução social. E o que é uma revolução? É esse momento da história em que o poder de Estado é questionado pelas massas – ao início são só isso, massas. Depois, paulatinamente, organizam-se conscientemente em comissões de trabalhadores, moradores, comissões de gestão democrática e são disputadas pelos partidos políticos.

O Partido Socialista(PS) não existia e passou de um pequeno grupo marginal com poucas dezenas de militantes para um partido de massas com 80 mil pessoas no Verão de 1975; o Partido Comunista Português( PCP) passou de um partido de vanguarda de 2 a 3 mil militantes em Abril de 1974 para um partido com 100 mil um ano depois. Percebem a força social? A história muda num dia o que não muda em décadas. Isto acontece porque milhões de pessoas, «de baixo», passam a ter uma palavra directa sobre a sua vida. A política deixa de ser uma actividade de especialistas e profissionais. É o espectro da autodeterminação.

Esta revolução não esperou sequer pelas eleições para a Constituinte em Abril de 1975: em poucos dias ou semanas, a seguir ao 25 de Abril, foi quase totalmente desmantelado o regime político da ditadura e substituído por um regime democrático. A democracia nasceu aí. Quando Soares e Cunhal chegaram do exílio a Portugal, este já era um país democrático, onde se podia organizar, falar, publicar. Votar, e muito, nos locais de trabalho.

Foi a última revolução europeia a colocar em causa a propriedade privada dos meios de produção. Isso resultou na transferência, segundo dados oficiais, de 18% do rendimento do capital para o trabalho, o que permitiu o direito ao trabalho, salários acima da reprodução biológica (acima do “trabalhar para sobreviver”), acesso igualitário e universal à educação, à saúde e à segurança social. Ou seja, o Estado Social.

Dar uma direcção a este rio avassalador é tarefa de homens e mulheres que jogam um papel individual insubstituível na história. A luta entre as classes e fracções de classes selecciona os mais capazes – pacientes, emocionalmente firmes, destemidos, determinados. Acreditam num programa político maior, para além de si próprios – não são homens de carreira individual, mas de direcção colectiva. São raros. São os dirigentes.

Em 1976 Kissinger agradece pessoalmente a Olof Palme o apoio dado a Soares contra a Revolução dos Cravos. Soares estava muito mais próximo ideologicamente de Allende, morto por um golpe de estado co-dirigido por Kissinger, do que do secretário de Estado norte-americano. Nesta altura o SPD alemão tinha transferido para Portugal a maior soma de dinheiro alguma vez transferida para um partido fora da Alemanha, para construir o PS – recrutar quadros, abrir sedes, ir gerir sindicatos, câmaras municipais e instituições. O mesmo fez o PCP, com a apoio da URSS, via em grande medida a Alemanha de Leste. Disputavam, PS e PCP, a organização daquele mar de gente.

Soares convenceu os seus pares nacionais e internacionais de uma estratégia absolutamente nova no quadro das revoluções pós 1945. A derrota da revolução não seria feita com recurso a um golpe militar sangrento e repressão generalizada, como era hábito, mas com um misto de golpe militar controlado (25 de Novembro) e instauração de um regime civil, de democracia representativa. Tudo ao contrário do Chile. Começa assim, a partir de Novembro de 1975, com a imposição da “disciplina”, isto é, da hierarquia, nos quartéis. E consolida-se através de um processo de “contra-revolução democrática”.

Portugal é o primeiro exemplo de sucesso de uma revolução derrotada com a instauração de um regime de democracia representativa. Modelo que vai ser usado na Espanha franquista e mesmo no Chile, Brasil e Argentina dos anos 80, a «doutrina» Carter. Podia e deveria ser chamada a doutrina Soares.

Mas para esta contra-revolução, ou normalização democrática como lhe chamam os media hoje (curioso que mesmo os historiadores mais conservadores nos anos 80 não fugiam ao termo contra-revolução), digo, para esta contra-revolução se impor teve de pôr fim à democracia de base, nomeadamente nos quartéis, nas fábricas, nas empresas, nas escolas e nos bairros. E isso era o lado mais impopular de Soares. É aí que nasce o mito fundador do regime, o de que o fim da democracia de base, que Soares dizia apoiar, era o mal menor face à ameaça de uma ditadura soviética. Tanto que Soares diz fazer o 25 de Novembro contra a «social-democracia capitalista e socialismo ditatorial soviético».

O PCP nunca quis fazer uma revolução socialista em Portugal. E tinha tanto medo das fábricas controladas pelos trabalhadores como o PS. Isso não significa que o PCP não tenha querido ocupar lugares no aparelho de Estado. Quis e muito. E o PS também. Até Setembro de 1975 ocupou muitos lugares no aparelho de Estado e partir daí há um volte-face e é o PS que passa a ocupar esses lugares, de tal maneira que Cunhal tem um texto onde diz que “o nosso apoio ao VI Governo diminui consoante os lugares que nos dão no Governo e consoante nos abrem ou fecham a torneira do Estado”.

O discurso do PCP é um discurso em que defende a revolução socialista mas que vai às portas das fábricas distribuir folhetos para acabarem com as greves, porque as greves são contra os Governos Provisórios onde o PCP está em…aliança com o PS e o PPD. Carlos Carvalhas em 1975 no Governo aprova dois documentos contra o controlo operário que existia de facto nas fábricas dizendo que o controlo operário não podia pôr em causa a economia nacional e a economia nacional tinha 92% da mão-de-obra trabalhando na economia privada, cuja propriedade não é questionada pelo PCP. É um discurso em defesa da revolução socialista que põe fim ao V Governo porque diz que o V Governo não pode avançar, tem de haver uma coligação com o PS, com o sector do Grupo dos Nove, tem de haver uma reconstituição do MFA.

O importante não é o que o PCP diz, mas sim o que faz. Quem põe fim ao V Governo é o PCP. Quem impede a Intersindical de sair é o PCP, quem impede os fuzileiros de sair no 25 de Novembro é o PCP. A história política do PCP não se pode fazer sem as fontes. A estratégia do PCP não tem como objectivo a revolução socialista. Tem como estratégia que Portugal fosse uma democracia no quadro da divisão do Mundo pactuada em Ialta e Potsdam, no final da II Guerra Mundial. Portugal estaria na esfera da Aliança Atlântica. Por isso, o PCP não defende nem apoia em 1975 a saída de Portugal da NATO.

O PCP é parte da construção da democracia e não uma ameaça à democracia. É parte do regime e dentro do regime disputa os trabalhadores organizados e melhores condições para os trabalhadores e fê-lo em 1974 e 1975, não questionando o regime, não questionando o sistema político. Quem não compreende isto não percebe o que é Portugal, os sindicatos e o pacto social nascido em 1976.

As tentativas de controlo do aparelho de Estado por parte do PCP (IV Governo) e por parte do PS (VI Governo), que existiram efectivamente, não têm nenhuma ligação com a democracia que vigorava nas empresas e nas fábricas e que foi cada vez maior ao longo de 1975, colocando sucessivamente em causa medidas de Governos que jamais foram eleitos. Estado e revolução não andaram de mãos dadas. O PS e o PCP estavam no Estado, a revolução fora deles.

Soares não foi o culpado da descolonização. Não havia nem nunca houve descolonização boa. A colonização é que foi culpada do seu trágico fim. Porque era um modelo de economia assente no trabalho forçado, deslocação de populações e polícia política – a PIDE nas colónias era uma pequena Gestapo, que actuava de facto em ligação directa com o exército colonial, recorrendo, por exemplo, ao assassinato directo de elementos «subversivos».

Foi dado a escolher aos portugueses pobres nos anos 50 do século XX se iam para França trabalhar como robôs nas fábricas da Renault ou ser pequenos patrões, comerciantes e funcionários nas colónias. Alguns escolheram a segunda via – e perderam tudo em 1975. Não porque Soares lho tirou mas porque eles ergueram as suas casas em cima da destruição das casas dos outros.

A PIDE nas colónias não escondia os seus informadores porque quando os pides entravam num lugar público os colonos levantavam-se e faziam uma vénia. Na vida tudo são escolhas e todas têm consequências. 60% do salário dos mineiros moçambicanos forçados pelo exército português a trabalhar nas minas da África do Sul era entregue em ouro ao Estado português, que depois lhes pagava uma parte em moeda local desvalorizada. O restante vinha para os cofres de Lisboa e era transferido para os 5 grupos económicos que dominavam o país. E que antes disso não eram grupos económicos mas mercenários. A Soares e dezenas de outros políticos ficou a responsabilidade de fechar a porta de um dique que se tinha aberto irreversivelmente depois de em Janeiro de 1961 os trabalhadores forçados da Cotonang terem feito greve por tempo indeterminado e terem sido regados com napalm pelo exército português. Com alta inflação aqui, desemprego galopante e milhares de pessoas em bairros de lata em 1975 os retornados foram colocados em hotéis na linha do Estoril – por Soares também. Vieram mal, perderam, tudo; muitos ficaram chocados com o país que encontravam, de mulheres de lenço preto na cabeça. África, para eles, era uma terra de liberdade. Mas foi o país que os acolheu, centenas de milhares, da noite para o dia, tentando acomodá-los o melhor possível.

Descobriram, em 1975, que ninguém é livre na prisão dos outros.

Nunca tanta gente decidiu tanto na história de Portugal como em 1974 e 1975. Hoje esse passado revolucionário — quando os mais pobres, mais frágeis, quantas vezes analfabetos, ousaram agarrar a vida nas mãos — é uma espécie de pesadelo histórico das actuais classes dirigentes portuguesas.

Portugal foi, ao lado do Vietname, o país mais acompanhado pela imprensa internacional de então, porque as imagens das pessoas dos bairros de barracas sorrindo de braços abertos ao lado de jovens militares barbudos e alegres encheu de esperança os povos de Espanha, Grécia, Brasil… E de júbilo a maioria dos que aqui viviam.

Hoje a tendência em Portugal e na Europa é de alta concentração da riqueza. Em 1945, a diferença entre um rico e um pobre, ou um trabalhador manual qualificado na Europa, era de 1 para 12. Em 1980, subiu de 1 para 82. E hoje é de 1 para 530. A União Europeia é uma corporação de acumulação de capitais. E a acumulação é incompatível com a manutenção de serviços públicos de qualidade, por causa da queda tendencial da taxa de lucro. A consequência é a destruição do Estado de Bem-Estar Social, um país atrasado, de baixos salários, declínio da qualidade do trabalho, emigração.

O que vemos em Portugal em particular e em outros países é na verdade a ascensão da assistência social, com a educação e a saúde públicas focadas cada vez mais nos pobres e desempregados e não em toda a sociedade. O modelo que fundamenta a social-democracia esvaiu-se. E Soares assistiu, ainda em vida, ao fim do seu projecto político.

Raquel Varela é Historiadora. Investigadora do Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa, onde coordena o Grupo de História Global do Trabalho e dos Conflitos Sociais e investigadora do Instituto Internacional de História Social, onde coordena o projecto internacional In the Same Boat?Shipbuilding and ship repair workers around the World (1950-2010). É coordenadora do projecto História das Relações Laborais no Mundo Lusófono. É doutora em História Política e Institucional (ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa).É neste momento Presidente da International Association Strikes and Social Conflicts. É vice coordenadora da Rede de Estudos do Trabalho, do Movimento Operário e dos Movimentos Sociais em Portugal.

Raquel Varela é historiadora. Publicou sobre a revolução dos Cravos os livros:

História do PCP na Revolução dos Cravos (Bertrand, 2011)

História do Povo na Revolução Portuguesa 1974-1975 (Bertrand, 2014)

25. April 1974 – Die Nelkenrevolution (25 de Abril. A Revolução dos Cravos, publicado na Alemanha, Berlim, Laika Verlag, 2012).

Revolução ou Transição? História e Memória da Revolução dos Cravos (Bertrand, 2012)

Greves e Conflitos Sociais no Portugal Contemporâneo (Colibri, 2012)

O Fim das Ditaduras Ibéricas (1974-1978) (Centro de Estudios Andaluces/ Edições Pluma, 2010)

Artigo publicado originalmente em http://esquerdaonline.com.br/2017/01/12/adoutrinasoares/

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CONVITE (1)

“Trabalho, Acumulação Capitalista e Regime Político no Portugal Contemporâneo”

Caros amigos,
Aqui fica o convite para a apresentação e debate do nosso novo livro “Trabalho, Acumulação Capitalista e Regime Político no Portugal Contemporâneo” (Colibri). Esta obra publica um conjunto de trabalhos de vários historiadores e cientistas sociais, e é organizada pelo Grupo de História Global do Trabalho e dos Conflitos Sociais do IHC (FCSH/UNL). Com este livro homenageamos os historiadores Dalila Cabrita Mateus e António Monteiro Cardoso.
Participam neste livro Fernando Rosas, Raquel Varela, Maria Augusta Tavares, António Simões do Paço, Marcelo Badaró Matos, Diogo Cancela, Luísa Barbosa Pereira, Felipe Abranches Demier, Miguel Pérez, Jorge Fontes, Eduardo Petersen, Michael Roberts, Camilo Domingues. No ano em que se celebram, os 150 anos da publicação de O capital, de Karl Marx, esta obra conta ainda com uma versão, revista, do capítulo A Chamada Acumulação Primitiva, de O Capital.
Esperamos podes contar com a vossa presença dia 23 de Janeiro, na FCSH/UNL, Av de Berna, às 14 e 30. A sessão é aberta ao público.
Os coordenadores: António Simões do Paço, Diogo Cancela, Maria Augusta Tavares, Raquel Varela
 
Introdução:
 
Trabalho, acumulação capitalista e regime político no Portugal contemporâneo é um livro colectivo que tem por objectivo homenagear António Monteiro Cardoso e Dalila Cabrita Mateus, investigadores do Instituto de História Contemporânea falecidos em 11 de janeiro de 2016 e 30 de outubro de 2014, respectivamente.
Nascida em Viana do Castelo em 1952, Dalila Cabrita Mateus era mestra em História Social Contemporânea e doutora em História Moderna e Contemporânea, tendo focado a sua investigação na história das ex-colónias portuguesas e da guerra colonial. Sem deixar de ser professora no ensino secundário, estava ligada ao Grupo de História Global do Trabalho do Instituto de História Contemporânea da UNL.
A PIDE/DGS na guerra colonial 1961-1974 (Terramar, 2004) tornou-se uma referência para os interessados no papel da antiga polícia política nas ex-colónias.
Dalila escreveu vários livros com o marido, Álvaro Mateus, ex-militante do PCP (até 1987), professor, advogado, jornalista e professor, falecido em 5 de agosto de 2013, como o conhecido e polémico Purga em Angola (Texto Editores, 2009), sobre os acontecimentos do 27 de Maio de 1977. Desta parceria resultaram ainda títulos como Angola 61. Guerra colonial: causas e consequências (Texto Editora, 2011) e Nacionalistas de Moçambique. Da luta armada à independência (Edições Asa, 2012).
Em livros como Memórias do Colonialismo e da Guerra (Edições Asa, 2006) e A Luta pela Independências (Inquérito, 2006) Dalila Mateus estudou a resistência anticolonial, as memórias do colonialismo, o trabalho forçado durante o Estado Novo e a luta pelo poder em Angola.
“A Dalila era uma historiadora corajosa”, escreveu Raquel Varela no seu blogue por altura da morte da nossa colega e amiga, “e o seu acto mais destemido foi ter escolhido estudar a PIDE nas ex-colónias, provando que era uma polícia facínora, que cometia assassinatos, uma polícia muito eficaz que operava em relação estreita com o Exército, e com um apoio massivo entre os colonos que, ao contrário do que acontecia no ‘continente’, os acolhiam respeitosamente nas cidades africanas quando estes entravam num hotel ou restaurante (salvo honrosas excepções)”.
As entrevistas realizadas para a feitura de Purga em Angola, um material precioso que era necessário proteger, estão depositadas na Torre do Tombo. Também o seu arquivo foi entregue à guarda de Raquel Varela, num almoço tristíssimo dois meses antes da sua morte – dois livros estavam a caminho e muitos outros podem sair daquela imensidão de notas, documentos e saber acumulado. Aguardam o interesse dos investigadores, jovens e menos jovens, que queiram dar seguimento ao seu valioso trabalho.
António Monteiro Cardoso nasceu em Freixo de Espada à Cinta em 8 de Setembro de 1950. Estudou em Lisboa, onde se licenciou na Faculdade de Direito em 1974. Em Direito, no início dos anos 70, inicia uma actividade política organizada contra o regime que Caetano herdara de Salazar e contra a guerra colonial. Participa nos CLAC – Comités de Luta Anti-Colonial, e adere ao MRPP – de que viria a afastar-se em 1977. Exerceu funções como jurista em diversas áreas, em especial no direito da comunicação social, tendo publicado o livro Da Liberdade de Imprensa, com Alberto Arons de Carvalho e Nuno Godinho de Matos. Com Arons de Carvalho e João Pedro de Figueiredo publicaria também Direito da Comunicação Social.
A partir de finais dos anos 70, passou a dedicar-se também à pesquisa histórica, de que resultou a obra A Guerrilha do Remexido, em co-autoria com António do Canto Machado.
Desde então, orientou as suas investigações para os oratorianos de Freixo de Espada à Cinta e para Trás-os-Montes na época das lutas liberais, assuntos a que dedicou numerosos artigos, muitos deles publicados na revista Brigantia.
Doutorou-se em História Moderna e Contemporânea, em 2005, no ISCTE-IUL, Instituto Universitário de Lisboa, com a tese “A Revolução Liberal em Trás-os-Montes (1820-1834) – O Povo e as Elites”. Interessou-se também por Timor-Leste e publicou Timor na 2.ª Guerra Mundial – O Diário do Tenente Pires, sobre a ocupação japonesa.
É autor, com António d’Oliveira Pinto da França, da obra Correspondência Luso-­Brasileira, vol. I Das Invasões Francesas à Corte no Rio de Janeiro (1807-1821) e vol. II Cartas Baianas – O Liberalismo e a Independência do Brasil (1821-1823).
Quando morreu, em 11 de janeiro de 2016, era membro desde há algum tempo do Grupo de História Global do Trabalho do Instituto de História Contemporânea da UNL. Transmontano, o António apaixonou-se por compreender o século XIX na sua complexidade, demonstrando que as revoltas “conservadoras” tinham pouco de nacionalismo ou ideologia e muito de sobrevivência. Os seus protagonistas eram, como ele afirma na entrevista que integra este volume – e que ele, já muito doente, foi cuidadosamente corrigindo, com a seriedade, o cuidado, a atenção, a clareza que punha em todos os seus trabalhos –, “camponeses pobres, que aproveitam a resistência contra os franceses para hostilizar os proprietários locais, acusando-os de jacobinos e afrancesados. Foi uma vaga de grande violência, que levou à pilhagem de casas e mesmo ao assassínio de magistrados e outras autoridades. Uma espécie de rebelião popular, que atingiu praticamente todo o País”.
Além das entrevistas com os dois homenageados, este volume integra um estudo de Raquel Varela, Felipe Abranches Demier e Luísa Barbosa Pereira sobre “Acumulação, regime político e revolução: contributos para a história do capitalismo português (séculos XIX-XX)” que procura demonstrar a tese de que “o projeto de desenvolvimento nacional que assentava na ideia de que a elevação dos salários e do bem-estar era compatível com o desenvolvimento capitalista e, portanto, poderia ser encontrado um equilíbrio entre frações de classes sociais distintas, jamais logrou êxito em Portugal”.
“Direito ao trabalho e segurança no emprego em Portugal (1951-2013)”, do jurista (e doutorando em História Contemporânea na FCSH) Eduardo Petersen, sustenta que “o direito ao trabalho constitucionalmente garantido e conceptualizado como um direito humano ao trabalho digno nunca foi assistido de condições plenas de efectivação, condições estas que hoje, no essencial, deixaram de existir”.
Em “Os dois andamentos do marcelismo”, Fernando Rosas fala-nos “da falência do reformismo chegado ao poder, a crónica da impossibilidade política de resolver a questão da guerra e, com isso, de levar por diante um processo de transição a partir do próprio regime. No primeiro andamento, tentar liberalizar sem abandono do esforço militar nas colónias; num segundo andamento, manter o esforço militar em África, sacrificando a liberalização e, com ela, o próprio regime”.
Miguel Pérez, em “Anos de brasa: uma visão do movimento operário português na década de 70”, conta-nos a história da reconstituição do movimento operário organizado em Portugal no período final da ditadura e na grande explosão social que se sucedeu ao 25 de Abril de 1974.
Jorge Fontes, em “O movimento operário na Setenave”, como que complementa esta história centrando a sua análise nos estaleiros navais da Setenave e na “sua importância na história das relações laborais em Portugal: do controlo operário aos ‘pactos sociais’ e à reconversão industrial”.
Em “A lei geral da acumulação capitalista e as relações de trabalho na actualidade”, de Marcelo Badaró Mattos, professor titular (catedrático) de História do Brasil na Universidade Federal Fluminense (Niterói, Brasil) e também investigador associado/visitante no Instituto de História Contemporânea da UNL, discute o quadro atual de crescimento e predomínio de um perfil “precário” da classe trabalhadora ao redor do mundo à luz da formulação da “lei geral da acumulação capitalista” expressa por Marx em O Capital.
O economista Michael Roberts, autor do muito recente e actual The Long Depression (Haymarket, 2016), em “Robôs e inteligência artificial: utopia ou distopia, o futuro do trabalho?” discute as implicações destas novas tecnologias para o capitalismo. Mais concretamente, se “estão os robôs e a inteligência artificial destinados a tomar de assalto o mundo do trabalho, e, por conseguinte, a economia, nas próximas gerações, e o que é que isso significa em termos de empregos e qualidade de vida para as pessoas?”
Em “Consciência operária e acumulação capitalista”, Maria Augusta Tavares, do Grupo de Pesquisas sobre o Trabalho da UFPB-Brasil e também membro do Grupo de História Global do Trabalho e dos Conflitos Sociais do IHC/FCSH/UNL, tenta compreender porquê, “embora as formas de existência na sociedade capitalista sejam tão desumanas para o trabalhador”, “o discurso liberal advogado pelo Estado e materializado nas relações capitalistas tem sido assumido pela maioria dos trabalhadores”.
António Simões do Paço, em “A esquerda marxista e as questões do regime político”, investiga, a partir dos escritos de Karl Marx e dos seus críticos coevos ou contemporâneos, o significado do conceito de ditadura do proletariado, a sua génese e a sua relação com os acontecimentos históricos do período em que foi formulado.
Em “História, Acumulação e Literatura em As Vinhas da Ira”, Camilo Domingues, graduado em Artes Cénicas pela Universidade Federal da Baía e mestre em História pela Universidade Federal Fluminense (Niterói, Brasil), aborda o romance do grande escritor norte-americano John Steinbeck e a discussão ao redor da obra, do seu escritor e a partir dos factos históricos retratados, bem como a partir das suas abordagens literárias.
Este volume é completado por um famoso texto de Karl Marx, do livro I de O Capital, sobre “A chamada acumulação primitiva”, uma acumulação “que não é”, nas palavras de Marx, “resultado do modo de produção capitalista, mas seu ponto de partida”. “Essa acumulação primitiva”, escreveu Marx, “desempenha na economia política um papel análogo ao pecado original na teologia. Adão mordeu a maçã e deste modo o pecado desceu sobre o género humano. Explica-se a sua origem contando-a como episódio ocorrido no passado. Em tempos muito remotos, havia, por um lado, uma elite laboriosa, inteligente e sobretudo parcimoniosa, e, por outro lado, uma ralé preguiçosa que dissipava tudo o que tinha e mais que houvesse.” Assim se explicava, e explica, “que os primeiros acumularam riquezas e os últimos, finalmente, nada tinham para vender a não ser a sua própria pele”. Ora Marx, aqui no papel de historiador, trata de demonstrar como “na história real”, “a conquista, a subjugação, o assassínio para roubar, em suma, a violência, desempenham o principal papel”, não a preguiça ou a diligência de uns e outros. O texto em português que aqui incluímos é fixado por António Simões do Paço a partir de duas traduções em português já existentes, a da edição brasileira da Abril Cultural (São Paulo, 1984) e a de José Barata-Moura e Álvaro Pina para a Editorial Avante! e a tradução inglesa de Samuel Moore e Edward Aveling, editada por Friedrich Engels.
Não nos ocorre melhor forma de homenagear o António Monteiro Cardoso e a Dalila Cabrita Mateus que prosseguindo aquilo a que eles dedicaram boa parte das suas vidas: exercendo o trabalho de historiadores, que com eles tivemos o privilégio de partilhar.
Os coordenadores: António Simões do Paço, Diogo Cancela, Maria Augusta Tavares, Raquel Varela
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