Essencial é o Máximo

Não creio que as pessoas devam fazer confissões públicas individuais da sua vida pessoal, mas era importante termos um estudo, anónimo, sobre onde estudam os filhos das elites económicas, intelectuais e políticas do país? Esta é uma questão pública. Compreender se também estas crianças e jovens são cobaias e vítimas da degradação da qualidade da escola pública ou se há nichos onde se reproduzem elites com acesso ao conhecimento.
Uma escola inclusiva não é a que cria currículos aligeirados mas justamente o seu contrário, quanto mais as classes trabalhadoras e médias tiverem dificuldades mais aos seus filhos deve ser dado um currículo exigente.
O currículo é a sistematização do belo, justo e do bom, da ciência, da filosofia e da arte, do melhor que a humanidade ao longo da sua história produziu e realizou. As aprendizagens essenciais aligeiram o currículo para adaptarem uma força de trabalho a um mercado pobre, sem exigência ele mesmo.
Todo o país é turbinado nesta pobreza – a alunos poucos exigentes adaptam-se cursos de formação pouco exigentes, professores pouco qualificados, que cada vez sabem e podem ensinar menos, para uma força de trabalho barata que por sua vez arrasta para baixo todos os salários de manutenção dessa mesma força de trabalho – porquê pagar bem a um médico e a um enfermeiro que cuida e trata pessoas que ganham 600 euros e cujos a qualificação é saber carregar nuns botões de máquinas compradas ao estrangeiro? É mais barato não tratar bem essa pessoa e substitui-la. É um exemplo, poder dar mais – os salários em Portugal e no mundo são definidos pelo preço da forca de trabalho industrial, fundamentalmente. Uma escola pública degradada, para um mercado dependente e automatizado arrasta para baixo quase todo o país.
A rigor aprendizagens essenciais deveria ser o máximo, o máximo é essencial, o que Ministério propõe é o mínimo.

https://www.youtube.com/watch?v=85gwL1nomL8

Esquerda e Direita na Pandemia

Além da questão dos dados pessoais e da liberdade de circulação, o que não seria pouco, a ideia que subjaze a um “passe sanitário” para acesso a um supermercado ou restaurante configura de facto que a partir de agora certos Estados, onde tal é aprovado, podem restringir o direito dos seus cidadãos a acesso a bens vitais à reprodução da sua existência, para os obrigar a seguir ou impedir determinado comportamento individual – como a vacinação obrigatória não é legal, ou ninguém é obrigado a mostrar documentos pessoais de saúde fora de instituições determinadas, retira-se a possibilidade das pessoas terem acesso a bens essenciais – isto é ataca-se o direito à vida, à reprodução da existência.

Podia discutir os fundamentos ilegais de tal medida, os científicos (quem tem passe transmite a doença), os fundamentais (deve vacinar-se porque se está convencido de eficácia e segurança, não porque se tem uma espada na cabeça), mas o que me interessa são os filosóficos – hoje com vacinas, amanhã com outros assuntos considerados “emergentes”, do “interesse nacional” onde virtualmente poderá caber tudo, até uma crise económica, o que assistimos é a uma deriva, cujos contornos não faz qualquer sentido serem equiparados ao nazismo (é ridícula a comparação) mas que é uma deriva totalitária cujo desenho apenas vislumbramos, mas evidentemente implicam uma expansão do poder dos Estados sobre as vidas, que assenta na expansão do controlo tecnológico da liberdade de movimentos dos cidadãos e do fim da fronteira entre dados pessoais e Estatais, privado e público. Não é um chip no braço colocado por uma vacina, como podia pensar um pentecostal trumpista, é a servidão voluntária de que falava La Boete.

Para quem é de esquerda e vê no passe sanitário uma medida de defesa do colectivo recordo que o marxismo, nos seus princípios (incluindo em Marx), sempre defendeu o liberalismo como um avanço para a humanidade, que pecava pela pouca liberdade que trazia aos trabalhadores e não por excesso de liberdade. Na verdade, o que as revoluções sociais anunciavam é que a liberdade de que apenas usufruía quem tinha propriedade devia ser ampliada a todos – restringir direitos em nome do colectivo e “superior” interesse da nação ou do Partido foi obra de ditaduras como a estalinista, e todos os países que em nome do comunismo fizeram férreas ditaduras contra os trabalhadores – nunca foi uma bandeira da esquerda atacar as liberdades individuais, mas expandi-las.

Para o marxismo, explico de forma simples, o direito burguês e o princípio da liberdade individual era insuficiente, não era excessivo, nem excessivamente garantista. A revolução não era a restrição do indivíduo em nome do coletivo, mas a expansão do indivíduo, libertado dos constrangimentos materiais que atingiam grande parte das classes populares e trabalhadoras. Ver hoje gente de esquerda defender estes passes sanitários ou estar em silêncio com eles não os coloca na defesa do bem comum, mas na defesa do poder do Estado e da restrição impensável de direitos e garantias individuais.

Nesta pandemia criou-se a ideia mítica de que só existem dois campos, Bolsonaro e Trump e a posição da UE e da China – ou desprezamos a vida humana, ou defendemos uma ditadura mais ou menos musculada para fazer face à pandemia. A Suécia mostrou que há outro caminho, liderada pela social democracia. É a pedra no sapato de uma realidade óbvia – pode-se combater uma pandemia, e deve-se, sem pôr em causa a liberdade e com educação. A esquerda ao aceitar com o papão Bolsonaro o “passe sanitário” coloca milhões de pessoas que olham o óbvio – as suas vidas destruídas por estas medidas e a sua liberdade sufocada -, a seguir a extrema-direita, que tem cavalgado esta pandemia, não por o mundo estar cheio de negacionistas e terraplanistas (que não existem a não ser na cabeça de quem quis ridicularizar todas as críticas), mas por o mundo ter muita gente para quem a questão da morte por COVID não era a questão central da vida deles, e não é – porque a liberdade, o emprego, a saúde mental, a estabilidade das relações sociais eram mais importantes. Há muita gente no mundo que, ou porque não pode, porque a sua economia a isso obriga, ou porque tem conhecimentos científicos e filosóficos e princípios (sim, ainda há gente com valores ligados a estruturas de carácter pessoal e história), não aceita trocar liberdade por segurança.

No fundo a política de COVID-19 fez-me lembrar desde cedo o “Viva a morte”, grito franquista – um autêntico elogio da morte contra o sentido da vida é o que temos assistido em nome “da saúde pública”. Fala-se de morte e doença, todas as conversas públicas e privadas transformaram-se numa antecâmara da lista de espera numa urgência, a vida foi transformada na morte. É uma pena que milhares de pessoas não compreendam que muitos partidos de esquerda liberal, como é o caso de Portugal, apoiaram esta política mas que ela é uma política de Direita, é um “viva a morte”, gritado em nome da vida -como sempre foi na história das lutas pelo Poder, a barbárie é oferecida como civilização. Se a esquerda, com excepções claro, colapsou moralmente nesta pandemia, aceitando a chantagem “ou Trump ou modelo chinês”, a direita nada tem a oferecer, a Direita liberal morreu com o capitalismo concorrencial no século XIX, o que sobra hoje são seres solitários, que aceitam nesse liberalismo cujo desenho monopolista do capitalismo impede – nunca as empresas foram tão dependentes dos Estados (e não, como se pensa, o contrário) – virtualmente todas estão hoje na mão de bancos que está na mãos dos Estados. A Direita que sobra real é entusiasta de “passes sanitários” porque a sua essência é a defesa de uma sociedade desigual, imutável, alicerçada sobre o trabalho dos outros. O moralismo, puritanismo e conservadorismo que cresce neste caldo é evidente, e tem o outro lado, o identitarismo na esquerda, acompanhado sempre de pedidos de mais Estado a regular comportamentos. Direita e Esquerda unem-se na defesa do Estado, quando sabemos todos, e Marx sabia-o como ninguém que qualquer sociedade saudável é marcada pela diminuição do Poder do Estado e não pelo seu aumento.

O que fazer neste cenário? A conclusão é que, em suma, muitos, eu diria a maioria, tem um sentimento de orfandade – é verdade, é assim que estão. Com um passe na mão ou sem ele, e todos sem direcção política e rumo. É uma crise de direção. Cada vez maior.

Otelo

Ando há alguns anos a tentar escrever a história do 25 de Novembro e da esquerda militar, vou acumulando dados e trabalho de arquivo, dezenas de entrevistas, mas ainda não me sentei a escrever. Havia e há uma pergunta central, “quem fez sair os Páras?”. Os envolvidos deram-me, todos, o nome, um nome, mas com a promessa de que só quando essa pessoa estivesse morta o publicaria. Otelo também me pediu isso (não foi ele claro que os fez sair, já agora). Tal resposta ajuda a compreender muito o papel dele (ficaria mais bem visto aos olhos do regime, de certa forma, clarificando o papel dele, diria ingénuo nesse dia – termo que usei com ele nas nossas longas conversas e almoços em Oeiras, com imenso respeito e admiração como já referi). A sua lealdade falou mais alto: “Raquel Varela pá, só quando ele morrer, pá, é que peço para o publicar – até lá prometa não o fazer, pá“. Dizia 3 vezes pá a cada frase. Para mim como historiadora da revolução saber e publicar isto é um trunfo enorme, embora não se deva exagerar o valor desta pergunta no quadro do processo, mas sobretudo ajuda-me a explicar um puzzle muito complexo.

Não o publicarei claro, como me comprometi – a pessoa continua viva, como compreendem, e Otelo morreu sem mágoa alguma por não ter essa parte da sua vida esclarecida porque a sua lealdade aos camaradas sobrepunha-se.

Assinalo que essa tem sido a minha experiência com quase toda a chamada esquerda militar – deram-me arquivos privados para as mãos, pediram-me sigilos difíceis, confiando, nunca esconderam divergências com o Grupo dos 9, sem porém ataques vis ou ressentimentos, apesar de terem sido presos no 25 de Novembro, mais de 100 destes oficiais, e de terem visto golpistas como Spínola agraciados e PIDEs perdoados. Tenho de facto a sensação que me fui cruzando ao longo destes anos com uma das melhores coisas que este país produziu (e não tenho simpatia pessoal nem pela instituição militar nem pela luta armada). Volto à esquerda militar. Um grupo de homens que, tal como Otelo, tiveram o poder ou podiam ter tido mas queriam realmente entregá-lo ao povo. Essa noção – que se substitui de certa forma ao poder popular democrático ( a que chamamos substitucionismo) é errada – dar o poder ao povo ou conquistá-lo com o povo não são a mesma coisa – daí a minha questão com a democracia laboral, é por aí que se muda um país a sério e não pelas forças armadas ou a luta armada. A esquerda nunca saiu debaixo do MFA em 74-75, ainda que da ala do MFA de esquerda. O atraso das forças políticas em Portugal permitiu o poder popular expandir-se, o vazio foi ocupado pelas comissões (sovietes à portuguesa) mas ao mesmo tempo deixou-o sem uma direção – assim é a dialéctica da vida, assim é a história, um desencontro de tempos. Este desencontro é o busílis de toda a história.

Ainda assim a esquerda militar, de que Otelo será sempre o líder de facto, tem esse dom de nunca ter desejado o poder pelo poder. Entregaram-no aliás. Com uma enorme ingenuidade e generosidade juntas. Eram (muitos ainda são) românticos revolucionários tal como Otelo. Não me parece por isso escandaloso que o Estado declare luto nacional por Spinola – chefe de dois golpes de Estado e ligado à direita bombista – e à irmã Lucia, uma criança que viu uma “aparição”. E não o declare a Otelo. Otelo sempre foi maior do que o Estado, independente dele, sempre foi também muito maior do que as fronteiras de Portugal. Ontem o mundo inteiro noticiou a sua morte. Por causa da sua vida. Otelo estava desde o 25 de Abril, com muitas incoerências, de certa forma, como alguém aqui lembrou com graça, de luto pelo Estado português e profundamente ligado ao povo a que o mesmo Estado pouca importância tem dado ao longo da história deste país.

Há uma coerência nesta decisão de não haver luto nacional – se pensarmos com generosidade histórica, Otelo foi maior do que o Estado. Onde o luto seria marcante era nas camadas populares – temo que porém 45 anos sem lutas sociais marcantes (sobretudo desde 1984-86 a anemia sindical é galopante) não ajudarão a memória que este dia merecia. A esperança que ele encarnou não existe hoje – Otelo tinha esperança e desejo de futuro, mesmo aos 83 anos esse tom esperançoso, que é uma fé numa classe social, mais do que um traço de optimismo subjectivo, nunca o abandonou – essa ausência de cinismo e resignação é uma das qualidades centrais das grandes figuras históricas que marcam, com apoiantes e detratores, as nações. Estes homens ficam para a história, por isso também. Pela sua confiança nas pessoas comuns.

CV Raquel Varela

Sei que há um órgão de comunicação social a tentar fazer uma campanha negra contra mim que envolve o meu currículo (a surfar tudo indica disputas e lutas políticas internas). O meu CV e trabalhos são públicos, em várias plataformas distintas, e aqui o deixo novamente. Qualquer campanha de difamação que envolva o meu nome para tentar denegrir o meu trabalho será levada, nos tribunais, por mim, até às últimas consequências. Será, se necessário, acompanhada de uma campanha pública e internacional em defesa do meu trabalho. Se há algo que tenho brio na vida é sobre a seriedade do meu trabalho.

Otelo

A minha intervenção hoje na TVI sobre Otelo: “Ao contrário do que se propagou (na batalha pela memória vale quase tudo), Otelo foi no processo FP25 ilibado de todos os crimes de sangue. É útil comparar por exemplo com Spínola, que fez dois golpes de Estado depois do 25 de Abril e fugiu para a Espanha franquista, onde se exilou, e de onde teve um papel dirigente da extrema-direita bombista (ELP e MDLP), nunca foi a julgamento e foi condecorado em 1987 em Portugal com a “Grã-Cruz (…) do Valor, Lealdade e Mérito”. Pensar Otelo a partir da FP25 é uma construção que procura apagar o papel único que teve na nossa história – Otelo é uma das figuras mais importantes da história contemporânea de Portugal, não é isento de contradições mas em primeiro lugar é o militar que comandou uma operação brilhante, ainda hoje referência internacional no campo militar, que colocou fim a 48 anos da mais longa ditadura europeia e a uma guerra colonial que mobilizou mais de 1 milhão de homens contra a auto-determinação dos povos africanos (…)

O incómodo de Otelo é outro, é o 25 de Novembro, a linha divisória que ainda hoje desune dois países, o da democracia participativa, em que ele acreditava, embora com muitas ambiguidades e até pouca coerência ideológica, e o da ideia de que o povo é “caótico”, não “sabe pensar”, e o melhor é remete-lo à função de votar de 4 em 4 anos porque os “políticos profissionais sabem o que é melhor para o país”. Esse conflito é hoje a grande batalha em torno da figura de Otelo, e o marco mais importante não é as FP25, mas a sua prisão nessa mesma altura, pouco tempo depois de, em pleno despedimento da Lisnave (o último bastião dos direitos laborais), Otelo ter assumido que era de novo candidato, na maior crise que o país atravessava em 1982-87, ameaçando ser novamente uma figura de resistência e ressuscitar, com muitas contradições, é certo, os fantasmas da revolução social em plena “Europa Connosco” e início da longa e ainda mais aprofundada dependência do país, que o PS e o PSD pilotaram e o PCP seguiu, com uma ideologia contra mas uma prática anémica, cujo centro foi sempre a salvação da burocracia sindical, que primeiro cedeu na Lisnave, a seguir cedeu em todas as empresas.

Como a esquerda à esquerda do PCP nunca conseguiu criar líderes, e esteve sempre debaixo do chapéu de chuva militar, Otelo tinha esse papel de unir o “poder popular”, por isso nas eleições de 1976 teve não só quase 18% de votos mas um país inteiro, que acreditava no socialismo, mobilizado atrás de si naquele que foi o movimento eleitoral mais participado popularmente desde o 25 de Abril – nunca uma eleição popular teve a participação espontânea e massiva que teve a campanha de Otelo em 76. O seu papel na luta armada seria sempre, a acontecer, um fiasco, como foi toda a luta armada na década 70 (erro crasso da esquerda em muitos países, que com ela se auto isolou), já o seu papel político não estava vetado ao fracasso, pelo contrário. O esmagamento da Lisnave, em 1986/87, foi vitorioso, Otelo estava preso. A partir daí conhecem a história – com a Lisnave de rastos ergue-se a concertação social, despedem-se os mais velhos, com pré reformas douradas, e abrem-se as portas à precariedade generalizada, com os despedimentos massivos limpam-se as empresas e bancos de trabalhadores bem pagos, e fazem-se as privatizações, limpas de custos, e que faliram como castelos de cartas a partir de 2001 – 2008 – PT, Banca, etc, uma década foi o que levaram a destruir as empresas que receberam capitalizadas pelas lutas da revolução, de que hoje desdenham.

Podia Otelo, se não estivesse na prisão, ter tido um papel diferente nesta história? Não sabemos, porque não aconteceu, na história. Mas é uma hipótese a ponderar, politicamente, no quadro da convulsão dos anos 80.

Para se poder comentar história, dever de todos nós, não é necessário ser historiador. Mas é importante pelo menos dar-se ao trabalho de ler e conhecer a história que se quer comentar”.

A quem queira ler mais sobre este período da história do país escrevi um capítulo no livro Quem Paga o Estado Social em Portugal? (que coordenei para a Bertrand), onde desenvolvo este tema. Capítulo: Ruptura e Pacto Social em Portugal.

Brincar aos Deuses

Li hoje a notícia na Renascença sobre as crianças pequenas que estão internadas na Estefânia com doenças respiratórias devido aos confinamentos e os relatos da directora de pneumologia, Dra. Ana Casimiro. Já lá irei. “Uma onda de infeções respiratórias fora de época está a levar milhares de crianças aos hospitais.As urgências estão cheias de crianças até aos cinco anos, muitas a precisarem de oxigénio por causa de vírus que são habituais no inverno, mas muito raros no verão”. O fenómeno está a acontecer nos países com confinamentos, e a Nova Zelândia é um dos casos mais graves (o que mais confinou, orgulhosamente). Numa recente série que vi sobre o pós guerra alemão a jovem candidata a estudante de medicina na RFA sofre o preconceito de ser mulher, e na hipótese de não ter vaga face aos candidatos homens, faz um discurso irritado sobre porque quer curar pessoas, o que convence o regente do curso a aceitá-la que lhe diz esta frase belíssima, “há duas formas de nos comportarmos como Deuses, matando pessoas e salvando pessoas”.

É da literacia comum que o nosso sistema imunitário se forma no essencial nos primeiros 3 anos de vida. Forma-se em confronto com milhares de vírus e bactérias, mais de metade do nosso corpo não são células humanas, mas micro organismos, o professor Sobrinho Simões disse-o recentemente na Televisão, com a sua calma. Não se sabe tudo destes micro-organismos, nem do sistema imunitário, a medicina, ao contrário do que se pensa, é uma ciência muito recente, e o desconhecido é ainda dominante. Muito do que se sabe é por observação, empirismo, e não porque se conhecem exactamente os processos.

Sabemos que as crianças sem contacto com outras crianças não só podem sofrer atrasos graves no desenvolvimento como a sua saúde pode estar, seriamente, em risco, se não contactam e são expostas a microorganismos. Evidentemente que não se trata de não as vacinar com vacinas seguras, ou colocá-las em perigo com doenças graves, mas há uma dose de mexer na terra, e tocar nos braços babados do bebé do lado que são fundamentais à vida de cada bebé. A Dra Ana Casimiro foi citada pelo DN afirmando que a Estefância está sem mãos a medir com os internamentos de crianças pequenas com vírus não Covid mas respiratórios, porque as doenças que não apanharam num ano estão a apanhar agora ou porque no ano anterior não ganharam imunidade a estas doenças, cito-a. No Guardian a notícia sobre a Nova Zelãndia era mais preocupante na sua conclusão – não se está só a adiar doenças, está-se a mexer, como Deuses, na formação do sistema imunitário destas crianças.

Os pais não estiveram confinados, estiveram a trabalhar na sua maioria, mas elas, no caso de pais mal orientados por políticas de saúde pública erradas (e estes são os primeiros responsáveis, os governos), assustados pela força mediática, ou já antes narcísicos, colocando os seus medos à frente do bem estar dos filhos, foram privadas do contacto com os micro organismos – o impacto disto no futuro é incerto. É um alerta enorme porém. Quando ele lhe respondeu que há duas formas de ser Deus esqueceu-se de contar aquela anedota que eu gosto tanto – “qual a diferença entre ser médico e ser Deus? É que Deus não pensa que é médico”. Estes dois anos elevaram a ciência à categoria de Deus. Sempre que há Deus, o milenarismo é inevitável. O milenarismo é a teoria do fim do mundo, chega com doenças, com a “catástrofe climática”, o dilúvio ou a praga dos céus. Dura há 2 mil anos. Há 2 mil anos que no ano seguinte o mundo acaba. Desta vez o fim do mundo não é um castigo de Deus, mas uma certeza “científica” – sendo que nunca os princípios básicos do fazer ciência foram tão maltratados – verdade exterior ao sujeito, verificação empírica, precaução, dúvida, contraditório, tudo desapareceu da ciência, ficando no seu lugar Deuses que brincam com a vida das pessoas.

A ciência é hoje um Dogma usado por “influencers” numa guerra mediática, que espezinha, ostraciza e nega o pouco que sabemos – sim, sabemos pouco. Mas em breve vamos saber mais: a Suécia tem crianças com baixa imunidade a encher as pediatrias? Tem uma mortalidade mais alta ou mais baixa do que os países que confinaram? Vai ter 4, 5 ou 6 vaga? Qual a queda do seu PIB e o seu impacto futuro na saúde pública? Temos tempo, antes do mundo acabar, de responder a estas perguntas.

Do obscurantismo e a selfie

Vou ser didáctica. Quem toma a vacina está protegido e continua a ser um factor de contágio, pelo que quem não a toma quanto muito põe-se em risco a si, não aos outros, sobretudo quando estamos a atingir graus elevadíssimos de tomas voluntárias. A vacinação trouxe à humanidade avanços extraordinários. As vacinas do plano nacional de vacinação têm décadas de estudos dos seus efeitos secundários a longo prazo. Esta vacina encontra-se em fase de testes, por isso não é uma vacina aprovada, mas autorizada emergencialmente. Há um grupo de pessoas, com mais de 80 anos e, com menos mas patologias várias indentificadas que tem um alto risco. Havendo, como há, um grau de incerteza face à vacina – sobretudo naquilo que não há ainda tempo de conhecer (efeitos crónicos ou a longo prazo) – quem tem alto risco ganha em tomar a vacina, mas a decisão cabe a eles, porque nenhum Estado pode obrigar alguém a tomar um medicamento, seja ele qual for. Quem não tem riscos altos, tem todo o direito de ponderar o que quer fazer até porque quem a toma, segundo se afirma, está protegido, portanto quem não a toma eventualmente põe-se em risco a si, não aos outros, que se vacinaram. O certificado digital assegura que as pessoas vacinadas têm liberdade de circular e infectar sem ser sujeitas a testes, ou seja, não serve para nada em termos de contenção do vírus mas como pressão para a vacinação. Estamos no século XXI – se querem convencer as pessoas a tomar as vacinas era bom haver mais do que fotos no Facebook (intimas, já agora) de gente a tomar a vacina, ou proibição de entrada no restaurante. Vacinas tomam-se em função da sua efectividade e segurança, não como moeda de troca de direitos elementares. Segundo a OMS as crianças não devem ser vacinadas porque ficam com doença ligeira ou, na sua maioria, sem qualquer sintoma, já os idosos em África deviam ser vacinados. Mas África não garante mercado a farmacêuticas. Todo o debate da vacinação dos jovens não tem rigorosamente nada a ver com contagiarem a avó (segue a chantagem doentia, porque não a avó a deprimir o neto fechando-o em casa?), já que a avó está vacinada, e eles vacinados vão continuar a contagiar. O debate é se há ou não vacinas para o mundo dos idosos ou doentes pobres no mundo inteiro, fora dos países ricos. Quando se escolhe vacinar jovens sem doença na Europa e se deixa sem vacinas gente com 70 anos em África está-se a dizer que não há altruísmo, mas negócio. Biden está preocupado com as redes sociais que segundo ele impedem a vacinação dos jovens na América, esperamos o mesmo altruísmo da Big Pharma norte americana a mandar vacinas para a América Latina e África. A OMS não se cansa de dizer – o problema não está nos jovens não vacinados mas nos pobres idosos no resto do mundo que não têm vacinas. O Facebook tem sido o maior motor da campanha a favor da vacinação nos países ricos, que esqueceram que há países pobres, ao contrário do que Biden disse apelando a mais censura milhões de pessoas resolveram publicar gratuitamente a sua foto levando a vacina, numa exposição da sua intimidade, esquecendo que vacinas tomam-se com informação segura, e não com fotos ou passes para comer um Hamburguer. Com a sua foto deram mais um contributo para o obscurantismo que vivemos, e nisso sim, o facebook teve um papel, não de ser obscurantista, mas de ser o vector dessas fotos obscurantistas quem em vez de informação clara oferecem o lugar de fala, que agora é o lugar de toma.

Link para a OMS. https://www.who.int/publications/i/item/WHO-2019-nCoV-Policy-brief-Mandatory-vaccination-2021.1?fbclid=IwAR0Qhud5VuRh14jS7Hu_TmPMO5AmPgYoWDQRmVHF7Txu4r7uOrB2ontf0hw

Curso História e Literatura

Darei também este curso no ano que vem, uma sessão por mês, História e Literatura. Sempre ao Domingo final da tarde, online.Este curso vai levar-nos à história pela mão da grande literatura universal, e à literatura pelo olhar da história. Propomo-nos conhecer o czarismo através da obra de Nicolau Gogol, o fascismo pela pena de Jack London e o seu Tacão de Ferro, a história do Holocausto e da resistência judaica no romance de Primo Levi, até ao panorama histórico do século XX em O Homem que Gostava de Cães, de Leonardo Padura, entre outros. Dez sessões, dez livros, que abordarão a história contemporânea, os autores e as suas obras, e as principais correntes literárias.SESSÕES:19 setembro 2021 – Almas Mortas, de Nicolau Gogol 17 outubro 2021 – Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis 14 novembro 2021 – O Tacão de Ferro, de Jack London 12 dezembro 2021 – O Adeus às Armas, de Ernest Hemingway 16 janeiro 2022 – As Vinhas da Ira, de John Steinbeck 13 fevereiro 2022 – O Amor Louco, de André Breton 13 março 2022 – Se Não Agora, Quando?, de Primo Levi 10 abril 2022 – 1984, de George Orwell 15 maio 2022 – Levantado do Chão, de José Saramago 26 junho 2022 – O Homem que Gostava de Cães, de Leonardo Padura Professores Raquel Varela e Roberto della Santa As sessões decorrerão das 18h00 às 19h00, na plataforma Zoom (não serão gravadas).

https://www.bertrand.pt/evento/curso-de-historia-e-literatura/176885?fbclid=IwAR04DiqJHWkstUDxPnmhUa-XTFVrcYvDsFCL_Fn72qJa8sWH4iOT39_71qg

A Democracia, o Normal e os “Homens de Bem”

Karl Marx defendeu que a tendência do capitalismo era a supressão da democracia. Por várias razões, nenhuma delas devido à “maldade” ou “ganância” dos seus actores, proprietários de fábricas, bancos, meios de transporte e comunicação. Era irrelevante se um capitalista era um “homem de bem”, porque a questão não podia ser olhada ao nível do indivíduo.Marx via o capitalismo como um factor de progresso face aos modos de produção anteriores, como o feudal – ao libertar a sociedade dos privilégios dos senhores e os trabalhadores da terra, a burguesia revolucionária impulsionou como nunca o desenvolvimento das forças produtivas – não se compara a capacidade de produção de uma enxada com um trator, de uma fábrica com trabalho domiciliar de autossubsistência. Porém, a tendência inevitável do capitalismo era para o bloqueio deste desenvolvimento. E para a consequente bonapartização dos Estados. Desde logo porque nas empresas e nas fábricas nunca houve democracia, a não ser em épocas revolucionárias. A democracia para à porta do Trabalho. Logo o lugar mais importante – porque é o que dá o sentido da vida -, para a exercer.Segundo, porque todo o desenho democrático da sociedade se deve ao movimento operário que em décadas de protestos, greves e revoluções conquistou o direito ao voto, reunião, associação, liberdade de expressão. Há um rio de mortos atrás dos nossos direitos. Não foi a força civilizadora da burguesia, mas a sua derrota aqui e ali, pelo movimento operário (trabalhadores organizados) que nos legaram direitos que hoje temos por adquiridos.Porém Marx referia outra razão – a democracia não seria o normal na história do capitalismo, direitos não eram “adquiridos”, porque a concorrência seria progressivamente eliminada à medida que o modo de produção se desenvolvia, dando lugar a monopólios; e o lucro progressivamente ia impedir a produção de riqueza, e destruir o principal meio de produção – os trabalhadores.Foi um modelo de desenvolvimento das forças produtivas que se transformou num modelo destrutivo das forças produtivas. Hoje, quando olhamos as duas Guerras Mundiais, a indústria de bens desnecessários, a erosão dos serviços públicos de qualidade ou a obsolescência programada, em que o que usamos se esgota ao fim de pouco tempo (e que vem acompanhada do esgotamento, obsolescência, de quem os produz, com horários e condições de trabalho que adoecem os trabalhadores) verificamos a importância desta análise, há 200 anos.Por fim Marx sustentou que a tendência para a concentração de riqueza e ampliação da pobreza levaria a crescentes conflitos sociais. A que os Estados democráticos responderiam sendo cada vez menos democráticos, com medidas autoritárias e bonapartistas em “nome do interesse nacional”, que era a fórmula mágica da classe dirigente designar aquilo que era no fundo apenas do interesse da sua classe e dos seus herdeiros/membros. O Bonapartismo não é a resposta de “homens maus”, é a essência normal dos “homens de bem” que comandavam o declínio do modo de produção.

Coimbra de Matos: “penso em ti, logo existo”

Deixo aqui na íntegra o meu testemunho hoje no Público sobre Coimbra de Matos. Qual é o sentido da vida? Coimbra de Matos fugiu sempre de respostas floreadas. Não tinha medo das contradições. Nem do contraditório. Há um sentido para a vida, muito para lá do hedonismo moderno, dos que furiosamente vivem um dia de cada vez… cada vez com menos horizonte. A resignação é desumana porque o homem, ao contrário dos animais, faz-se projetando futuro.

Respondeu que há um caminho para ser feliz. E sustentou-o cientificamente com 60 anos de clínica e investigação com observação. Em que deitou no sofá os pacientes. E a todos nós, Portugueses, como nação. Com uma calma oracular e terna. Estivemos ali, deitados sob a escuta atenta do seu pensamento crítico, e eles iam-nos analisando, desde a Inquisição. Entre goles do vinho que saboreávamos, nas nossas longas conversas, no meio das baforadas de cigarros que nunca deixou. O caminho da felicidade, o sentido da vida, não era, para Coimbra de Matos, o da autoajuda, mas o das relações. Penso em ti, logo existo. Somos o que fazemos para mudar aquilo que somos na relação com os outros. Uma autêntica pedrada no charco de tantos lugares-comuns: o do neoliberalismo, que nos diz que devemos pensar em nós e ser competitivos; o da psicanálise clássica, dizia ele, demasiado centrada no fardo do passado. Em Coimbra de Matos há futuro. E há cooperação. A vida não é um jogo de soma zero, é um jogo de somar.

Cresceu a cavalgar os socalcos que fizeram do rio Douro, bravo e inóspito, uma obra de arte. Trabalho duríssimo para os “de baixo”, que com as mãos fizeram um dos mais belos lugares do mundo, onde o trabalho ganha beleza e sentido como atividade. Trabalho no qual o homem encontra um sentido, um saber-fazer, de criatividade e construção. Sem falsos mitos dos heróis do trabalho, dos Stakhanovistas, ou do “pobrezinho, mas feliz” do salazarismo. Ele viu na força dos carregadores de uvas, submissos, a potencialidade da resistência à submissão. Coimbra de Matos não tinha dúvidas: as pessoas são melhores do que as instituições.Passou pela neurologia, mas foi na psiquiatria que se encontrou. Mas não ficou só por aí. Entrou na psicanálise e refundou-a. Nos EUA afirmaram que Coimbra de Matos tinha encontrado o “elo inexplicável” da transferência. O paroquialismo português, de que ele sempre fugiu, nunca chegou a reconhecer o seu lugar na história da psicanálise mundial. Coimbra de Matos é universal. Quis tratar as causas das doenças mentais e condenou com veemência as farmacêuticas que medicalizam as doenças. Um negócio – que é a negação do ócio. O ócio, o prazer, a criação, deve ser esse o sentido da vida. Ao contrário de tantos psicanalistas que fugiram do tema da depressão, ele abraçou a sua compreensão. E a sua cura. Mais cedo ou mais tarde – nunca muito tarde, de preferência –, queria “livrar-se” dos pacientes: dar-lhes alta, queria que eles construíssem novas relações felizes. Só os saudáveis abraçam o que é novo, só os que têm saúde mental olham o desconhecido com curiosidade; os doentes olham o outro com medo e desconfiança. Falta também tudo isso, insistia ele, nos locais de trabalho: cooperação, confiança, afecto, democracia. E tempo. É preciso trabalhar menos e melhor. Por isso dizia-se um socialista, defensor de um modelo cooperativo de sociedade. A cooperação está na base da diferença. E da liberdade. O sucesso da nossa evolução não é a competição, afirmou vezes sem conta.

Beber sempre o mesmo vinho é uma chatice. Ele e o seu irmão Zé, para quem olhava com indisfarçável ternura, como se ele ainda fosse a criança a quem ensinou travessuras, são produtores de vinho, um delicioso néctar feito renunciando às técnicas altamente produtivistas e padronizadas que fazem o mesmo vinho, todos os anos, saber ao mesmo. O dos Matos é um vinho de artesão. Porém, adorava provar um novo vinho, de qualquer parte do mundo. Fazer sempre o mesmo cria rotinas que matam as relações. Há relações saturadas. O segredo de uma boa relação é não ser saturada. Uma relação é um ato de rutura com a rotina. As relações não são, como declara a literatura romântica, o encontro com a alma gémea, com a metade afastada de mim… Pelo contrário, no amor as pessoas não encontram o que lhes falta. Elas complementam-se, o amor acrescenta. Ateu radical, filho de médicos produtores do Douro, da parte da mãe, família de médicos, cultos e letrados em tempos em que metade da população era analfabeta; da parte do pai republicano, progressista, num país onde durante 48 anos não se saboreou a palavra liberdade a não ser na boca dos resistentes. Em casa todos se tratavam por tu, coisa invulgar naqueles tempos no Douro, lugar de sofrimentos atrozes para os trabalhadores rurais onde os mais ricos proprietários ainda tinham, recorda Miguel Torga, o costume de no início da vindima exigir como praxe que um dos trabalhadores, em geral um homem descalço, pobre, faminto, ajoelhado, limpasse com um lenço branco as botas ao patrão, perante o olhar de todos os outros que iam trabalhar. Um ritual de humilhação.Zangou-se com as palavras domínio, poder, hierarquia, Estado. É um produtor de vinho e um fazedor de homens livres. Entra-se na sua vida e não se sai o mesmo.

Domestica-se muito neste mundo, e isso faz-nos mal desde crianças, dizia Coimbra de Matos. Domesticam-se as crianças, impondo limites duros, em vez de lhes ensinar que a própria realidade tem limites. Domesticou-se Portugal, desde a Inquisição, com um hiato de liberdade no 25 de Abril, revolução que viveu com entusiamo, depois de já como médico ter assistido à guerra colonial, da qual voltou ainda mais convencido de como “a tropa é fandanga”, cheia de tiques de poder.

“Foi no dia 2 ou 3 de Maio pela 9, 10 horas. Eu estava no Hospital Júlio de Matos. O João dos Santos apareceu lá com o carro cheio de cravos vermelhos e o convite ‘Vamos ocupar o Instituto de Assistência Psiquiátrico’ (órgão central de coordenação e administração dos serviços psiquiátricos, num segundo andar da Rua Pinheiro Chagas). Fomos até lá uns vinte ou trinta. O diretor tinha saído. O subdiretor pôs uma primeira condição para ser substituído: tinha de assinar os cheques. Respondi-lhe: Mas na minha presença. (Entretanto tinha sido eleito, nas escadas e de braço no ar, para tal função.) Pôs uma segunda questão: precisava de uma ordem da Junta de Salvação Nacional. Fomos lá. Falei com um major. Perguntou-me se era pelo povo, disse que sim. Trouxe um papel escrito à mão. À saída falei para a TV. E assim acabou a Tomada do IAP.”Resistir contra quem nos espezinha. Saborear a palavra liberdade como se bebe um longo porto. Não esperar como vítima, não ficar quieto, acossado. Dizer não! Quis que os seus doentes se curassem a dizer não. Que não se adaptassem a ambientes que lhes fazem mal, antes mudassem os ambientes para que lhes fizessem bem. Entusiasmo é a palavra chave para se ser feliz, dizia o homem que nasceu em plena crise de 1929. É também a dele em gesto. O seu gesto mais comum é abrir os braços, e receber o novo. Diz “não” de braços abertos. Nunca se encolhe. Era forte, determinado, a mãe queixava-se disso. Subia a cavalo as encostas do Douro, até lá acima, em São Leonardo da Galafura, e contemplava o horizonte, as possibilidades, o futuro.

O sentido da vida é fácil. É ser feliz, encontrar-se, a identidade. E encontrar-se nos outros, a relação. E é deixar uma obra para os que vêm. Eis um homem que sabia ouvir e tinha esta receita maravilhosa, quase mágica: ouvir atentamente quem precisa de falar. E avisava: 80% dos psicanalistas não fazem bem e podem fazer mal. Ria-se. Não há lugar a dogmas: ateu, republicano, matou reis, matou Deus. E com isso abraçou a humanidade. Apostou estrategicamente no ser humano, no devir, na mudança. Na revolução, não apenas na revolta, ou seja, depois do não, a verdadeira e duradoura mudança. Tinha 92 anos e olhava a humanidade cheio de esperança. Porque, dizia sempre, “quando não há caminho, abre-se!”

https://www.publico.pt/2021/07/04/sociedade/noticia/coimbra-matos-penso-logo-existo-1968854?fbclid=IwAR3Mx5SJeUDx6SHqAAPh1dUZ8OSykmKO8ELTDTNVVXaNj0MvpMN31AbK32g

Longe da Civilização

A morte da professora grávida do IST em Lisboa veio recordar-nos que há um hiato geracional no nosso país. Há uma geração de gente formada, cosmopolita que viveu e trabalhou ou simplesmente viajou para a Europa civilizada que não suporta a forma como se conduz em Portugal. Sou dessas. Ando a pé, de bicileta, raramente ando de carro e tenho medo das estradas e dos condutores portugueses. Medo e profundo desprezo.Tenho asco (não há melhor palavra) por gente que anda a 50km (ainda que seja o legal) a atravessar aldeias e bairros (onde andam muitas vezes a 100km/h); desprezo por tipos que na autoestrada se colam na traseira do nosso carro a 120 km/h para ultrapassar; chamo “animal” (para mim) aos tipos e às tipas que se “esquecem” de parar na passadeira e aos que aceleram antes de parar, para mostrar a sua arma – que penso ser sempre proporcional à falta de amor e de humanidade; tenho desdém pelos sucessivos Ministros que nada conseguiram fazer à guerra civil nas estradas portuguesas a não ser campanhas inúteis; menosprezo os que ultrapassam em curvas em estradas nacionais.

E sinto pena dos indignados que acham que há muitas ciclovias e, de facto, não conhecem o que é o prazer e a felicidade de andar a pé ou de bicicleta, e fazer disso mobilidade e vida, sem ter medo de ser esmagado; o prazer de deixar crianças irem para a escola sozinhas com 6 anos de idade, o prazer de ver um carro a 30km/h e ainda parar a 100 metros da passadeira – foi assim que vivi na Alemanha, na Holanda, na Suiça, e é assim em todos os lugares onde a civilização chegou em doses mínimas. Portugal tem estradas assassinas, condutores desgovernados, e depois muitas multas em zonas desnecessárias que servem como impostos. Acidentes acontecem, de facto, mas em Portugal a maioria das mortes na estrada não são fruto de acidentes, são políticas publicas.

A morte da professora pode ter sido acidental, não sei, mas na Suiça é normal uma mulher grávida andar de bicicleta na estrada e ainda levar na bicicleta outro filho bebé, depois de deixar o outro, com 6 anos, ir para a escola sozinho. Em vez de menosprezarmos as conquistas dos países mais ricos, devíamos exigir que esse fosse o nosso futuro. Na Holanda manifestações gigantescas nos anos 70 impuseram a regra de a bicicleta tem sempre razão numa colisão com carro, e dos 30km/h nos bairros. Lutaram. Ganharam um país onde se respeitam os peões e a lei do mais forte e da arma na mão (o carro) não vinga.

Transparências

O debate em torno do uso de um camufaldo sistematicamente pelo vice-almirante não é um debate sobre a pessoa em si, muito menos sobre a missão. A bondade ou eficiência da pessoa em causa não deve ser discutida. O debate é sobre populismo e autoritarismo. O mundo político, com escassa oposição – tirando curiosamente nos EUA, país onde à esquerda do Partido Democrático surgiu uma esquerda com algum grau de combatividade e programa minimamente consistente -, alimenta cada vez mais a ideia de que o caos da competição capitalista e da consequente desagregação social podem ser combatidos com uma autoridade providencial, e com medidas bonapartistas. O recurso a uma liderança militar para um trabalho de coordenação de saúde pública não significa que Portugal não tem quadros civis de saúde pública para o lugar, que conhecem melhor a organização da saúde e que podiam até fazer um trabalho melhor ou tão bom quanto. Esta escolha significa ausência de consenso no aparelho de Estado (entre PS e PSD) sobre que figura deve ocupar esse lugar. Simbolicamente passa a ideia – perigossíssima – de que o país para funcionar precisa de uma estrutura militar. Não fosse isto já por si extremamente grave, o vice-almirante optou pelo uso de um tipo de farda de guerra e de combate. Quando as coisas estão mal na sociedade resolvem-se com mais democracia e não com menos. Se a vacinação correu mal no passado não foi porque os “médicos são incompetentes” ou porque há um controlo democrático da saúde pública, mas justamente porque não há controlo democrático na saúde pública. Há muito que existem traços ditatoriais dentro do aparelho de Estado, central e autárquico, que vivem do amiguismo, do nepotismo, dos favores. Não é de fardas camufladas que o país precisa para funcionar, mas de transparência. Só há transparência onde há democracia real

Des – educar

A Fundação Belmiro de Azevedo publicou um estudo onde afirma que com melhores professores há melhores alunos. Na verdade esta foi a gorda que os jornais escolheram – se fosse o estudo, estaríamos mal – seria como afirmar que quem anda à chuva molha-se. A questão é como teremos melhores professores e como mudamos o cenário para uma escola pública de excelência para todos. Sobre isso a entrevista de Cláudia Azevedo, citada no ECO, é clara – automatizar ainda mais o processo educativo para um mercado automatizado. Vou explicar de forma simples mais uma vez: se eu ensino ciências fundamentais complexas e raciocínio abstracto e filosofia, eu consigo não só mexer num telemóvel como criar o telemóvel; andar de carro como criar um motor; ir ao jardim como desenhar uma cidade; ler um livro como escrever um livro. Se só ensinamos tecnologia do outro lado só se aprende a operar máquinas, não a criá-las. Nos países ricos faz-se ciência, nos pobres ensina-se a usar (e comprar) tecnologia. Num produz-se conhecimento, noutro aplica-se, um é independente, o outro dependente. Em Sillicon Valley os filhos dos criadores da tecnologia não só estão em colégios onde não há telemóveis, como se ensina filosofia grega clássica.

O nosso problema não é falta de máquinas na escola, é excesso delas, concomitante com a falta de de conhecimento e de amor ao conhecimento – sim, vivemos numa sociedade que promove e enaltece a ignorância todos os dias. O conhecimento só pode ser dado com muito bons professores, bem pagos, formados em muito boas universidades, onde chegam depois de ter muito bons professores no ensino secundário, onde chegam depois de ter muito bons professores no ensino primário, que ali chegaram porque tiveram muito bons professores na Universidade. E assim, em ciclos de conhecimento, interligados.

Que a SONAE, e o editorial do Público, propriedade da SONAE, cujo mercado opera em áreas cada vez mais automatizadas, da logística à distribuição, no fundo como alguém disse os dois homens mais ricos do país estão à frente de duas gigantes mercearias (Pingo Doce e Continente), onde se recebe a pronto e se paga a 3 meses, diga que lhes falta programadores para automatizarem as suas linhas de produção, é compreensível. Fazem o que devem para ter lucro e mercado – dois lugares que confesso não frequento. Que Ministros e jornais acarinhem estas estratégias, achando que é de mercearias que um país vive, e da operação de máquinas, é revelador sobre a concepção de educação que o Estado tem para quem anda na escola pública.

A Escola serve para dar o melhor do conhecimento produzido pela humanidade a todos – não serve para servir um mercado de trabalho cada vez mais pobre e desinteressante, desumanizado.

Um nota de simples de decoro. Nem no Brasil, onde a escola pública já foi destruída e a educação é defindida por instituições privadas, o Ministro da Educação frequenta apresentação de estudos privados. Por óbvia incompatibilidade de interesses. Em Portugal um estudo para a escola pública de uma empresa privada tem uma apresentação na abertura do…Ministro da Educação, e a presença de vários dos ministros anteriores. O que creio seria impensável há 3 décadas, por óbvio conflito de interesses. Falta-nos uma escola pública de excelência para todos, porque também nos falta saudável distância do mercado, e decoro político.

Noah

Tenho dúvidas em acusar de negligência pais que expõem os filhos a ecrãs 1 hora, 2, 3, 4 até 8 por dia. Mas que o são, são. Não gosto de sociedades onde os problemas sociais deixam de o ser para passarem a ser casos de polícia ou, como é ainda mais comum, medicalizados. Não tenho porém dúvidas que 1 hora de ecrã por dia rouba às crianças conhecimento, confiança, socialização, contemplação e noção do próprio corpo, calma e reflexão, raciocínio abstracto, imaginação, acção, auto estima e aumenta muito a probabilidade de doenças como obesidade, problemas de visão, hiperactividade, a longo prazo doenças degenerativas (por hiper estimulação do cérebro). Correr na terra ou na cidade, cair e levantar-se, subir às árvores e olhar o mundo ao contrário, aventurar-se, não ter medo do mundo é um dos maiores legados que podemos dar a uma criança. Não há separação entre coragem física e psicológica, domínio do corpo e inteligência intelectual, corpo e “alma” são um só. O que aconteceu aos pais do Noah, segundo o que se sabe, foi um gigante azar, que não desejamos a ninguém, e a liberdade com o que o criaram foi, tudo indica, a sua salvação. Qualquer criança educada numa cidade com pais que não o sabem ser, e não os deixam correr e cair, sair um segundo da sua vista, subir a uma árvore, brincar “à luta” com os amigos, tocar com as mãos o mundo, não teria, muito provavelmente, a capacidade de resposta que o pequeno Noah teve. Negligente não é ensinar os filhos a cair. É proibi-los de cair. O Noah não é um exemplo de pais pós-modernos freaks, estranhos. É um exemplo de normalidade no meio da mais absoluta anormalidade em que as crianças vivem com a transição digital e o domínio dos automóveis sobre as aldeias e cidades. O Noah lembrou ao país os milhões de crianças que estão fechados passivamente em frente aos ecrâs, em risco digital sério. Uma criança que sai de casa de madrugada e se perde em volta da casa é um evento raro, felizmente. A estupidificação, obediência, passividade, ausência de criatividade e até de linguagem complexa e de relações afectivas dos milhões que estão nos ecrãs – a garantir que os pais trabalham cada vez mais, as ruas têm mais automóveis, agora “verdes”, e estarão ainda a ser treinados para um trabalho automatizado – é um evento diário que sofrem as crianças portuguesas e na maior parte dos países. Era aí que a nossa crítica demolidora não devia hesitar um segundo. O Noah é o espelho para onde não queremos olhar de um mundo brutal que em nome da produção de mercadorias roubou às crianças quase todos os direitos de crianças, como os espaços de brincar, rir, correr, gritar e fazer amigos. E lhes deu em troca uma televisão portátil chamada telemóvel onde estão, como drogados, o dia todo.

Trabalho doméstico, dividir ou socializar?

Hoje o principal problema em Portugal na divisão do trabalho doméstico não é o machismo, mas os horários de trabalho insuportáveis de homens e mulheres, e a redução da família ao nucleo familiar restrito de dois com filhos, sem avós, e sem políticas públicas. Há casais que estão 3 anos sem ir ao cinema, namorar, viajar porque cuidam sozinhos dos filhos e trabalham, com transportes, 12 a 14 horas por dia.

Só se diz que as mulheres trabalham mais em média 2 a 3 horas de trabalho doméstico, o que é verdade, mas esquece-se de referir que os homens trabalham mais 4 horas de trabalho assalariado, e muitas vezes por turnos nocturnos, e ambos trabalham, se juntarmos transportes, 10 a 14 horas diárias, o grande desafio não é a divisão do trabalho doméstico por dois exaustos, mas a abolição destes através da socialização, ou seja, de políticas públicas, por um lado, e redução do horário de trabalho para todos, por outro (sem redução salarial).

Homens e mulheres que trabalham hoje em Portugal só têm duas hipóteses. Ou terceirizam o trabalho doméstico, o que faz parte da classe média, com empregadas, compra de comida feita, amas. E com frequência trabalham extra para conseguir pagar tudo isto. Ou não aguentam hoje o cansaço que é trabalhar cada vez mais, cuidar sozinhos dos filhos (sem avós por perto), e temos uma sociedade que de facto desistiu de ter filhos. Tem que haver políticas públicas que ajudem os casais, incluindo com coisas como limpeza de casas, lavandarias públicas e comida de boa qualidade em restaurantes públicos subsidiados. Ou há socialização do trabalho doméstico ou a vida em família é exaustiva e insuportável. Mais aqui no debate, que gosto tanto, com o meu querido amigo, de quem tanto discordo, o escritor Joel Neto. Todas as semanas – Palavra de Honra, Antena 1 às 19 horas.

https://www.rtp.pt/play/p8129/e551313/palavra-de-honra?fbclid=IwAR2Un6cwb4uCemgLpwsgfcVAByxWIg2OIdFunfs22BGgCMwoaWthHEDifAs