O Sentido da Vida

Acabámos de ver a extraodinária reportagem na RTP 1, Linha da Frente, sobre uma médica que trabalha em intensivos na pandemia, seguida das intervenções das médicas Maria João Brito, e Maria Frasquilho, ambas imperdíveis. Dei por mim a perguntar aqui em casa “mas porque achamos isto extraordinário, se já conhecemos tudo isto e mais, há anos, estudamos há muito tempo a organização do trabalho no SNS, recolhemos centenas destes testemunhos, sabemos, sem antever uma pandemia, como estas pessoas são empenhadas e se dedicam, se necessário, até ao limite”. A resposta é óbvia, e tem que ser lembrada hoje. É que nós estudamos o trabalho, que privilégio!, escutamos a cada dia os que trabalham, mas a maioria das notícias esquece quem trabalha. Quem trabalha, como trabalha, o que os move, como vivem, só é notícia em situações extremas. De resto os noticiários escutam governantes, ou patrões e empresários, quem trabalha desaparece do mapa, mesmo sendo 80% da população a que vive do trabalho, vai viver do trabalho ou já trabalhou e descontou. É a esmagadora maioria da população portuguesa. Há uns anos, a seguir ao 25 de Abril, havia nos jornais uma secção Trabalho e outra Economia. Depois passou só à secção Economia, desapareceu o Trabalho. E finalmente a dita secção hoje chama-se Negócios. Há 30 anos que em Portugal não existe uma secção noticiosa sobre quem trabalha, que é aquilo que – agora creio que ninguém tem dúvidas – faz mover toda a sociedade. Isto abriu portas ao desrespeito e a um tema que estudamos muito no burnout e condições de trabalho e vida, que os filósofos e psicanalistas deram sempre grande importância, o reconhecimento. Nós reconhecemo-nos no outro. E somos por ele reconhecidos. Burnout é alienação, de si e dos outros. Reconhecimento é relação. Médicos, enfermeiros, técnicos de diagnóstico, todo o pessoal que está nos hospitais (mais de 800 vergonhosamente infectados por falta de material), hoje ninguém pode dizer que vos falta “reconhecimento social, ou reconhecimento interpares”, que quando não existe é uma das razões do burnout. No meio desta tragédia reside aqui esta esperança sólida – reconhecerem-se agora no reconhecimento que a sociedade tem por vós. Isto é o contrário da alienação (do não se reconhecer, não se sentir em si, não encontrar sentido para o trabalho, no trabalho). É o sentido da vida, é o sentido ético, é o que sempre moveu estes profissionais, mesmo quando na aparência não parecia ser assim. Hoje as três médicas disseram-no, estamos aqui para salvar vidas, e daremos tudo por isso, e hoje ninguém duvidou. Nem elas, nem nós. Por isso, confesso, vi pela primeira vez aqui uma luz ao fundo do túnel, para lá das conferências de imprensa da secção Política de Estado e dos fanáticos do Estado de Emergência. Nestas médicas estava concentrada toda a nossa força potencial, capacidade de superação, e cuidado do outro. É esse o sentido da vida.

DGS: no desnorte encontrar um rumo

Num dia há regiões com mais mortos e no dia seguinte menos, na mesma região; no outro duplicam; os curados são sempre os mesmos, há vários dias, Sandra Felgueiras, jornalista, é odiada por ser jornalista, perguntando o óbvio – a matemática não bate certo.
A DGS espelha o estado a que chegámos. Não é boa ou má vontade, é desorganização estrutural. Os serviços públicos em Portugal estão paralisados pela má organização interna, desde logo porque vivemos numa economia de mercado, não planificada. Começa aqui o problema número 1, o elefante na sala – não há planos, muito menos estratégia de longo prazo, os serviços estão ao serviço do mercado, volátil, subcontratações, sem stocks, sem planos de longo fôlego, é isto o mercado. Querem capitalismo mas bem organizado quando a essência do capitalismo é a anarquia da competição, local, nacional e global. Pedrogão Grande não é só total desorganização, é que um mercado de eucalipto, em vez de um plano de sobreiros, não podia dar outra coisa que não fosse a total desorganização. Não existe boa organização para uma má economia. Bons meios num fim irracional. Produzir para dar lucro, em vez de bem estar, é o nosso erro capital. Já lá irei, à democracia e à liberdade, que nos devem orientar sem excepções algumas, sem aspas.
O segundo passo é este: para um mau plano é difícil arranjar pessoas boas. A consequência é que os melhores quadros não querem aceitar fazer parte destes serviços, afastam-se deles, e muitas vezes são afastados, e as chefias intermédias são, não raras vezes, ocupadas por pessoas mais incompetentes ou mesmo medíocres, que foram seleccionados sobretudo por fidelidade aos partidos que gerem o aparelho de Estado ou redes de afectos num país pequeno.
A isto junta-se a separação que permite a alta produtividade fordista, grandes margens de lucro mas um desastre económico cíclico. É a separação entre quem pensa e manda, entre quem faz e quem obedece. A separação entre trabalho intelectual e manual – quem trabalha no terreno foi sendo progressivamente arredado de decisões, é um mero executante, muitas vezes de decisões absurdas, que não escutam quem conhece os terrenos e as áreas. E, de tanto não pensar, às vezes as decisões das chefias até são boas e os que estão no terreno não as conseguem aplicar, porque já não sabem pensar.
A China tem uma economia planificada – correcta – e uma ditadura nos locais de trabalho e no país- muito incorrecto. Por isso nada funciona bem, ao contrário do que aqui tem sido louvado – sabemos hoje que a China mentiu nos números, e mentiu muito, como também sabemos que uma boa parte do que vem de lá é defeituoso, colegas meus na Holanda chegaram a calcular que o defeito de fabrico antes do COVID-19 chegava aos 30% para produtos regulares.
O número de incompetentes é grande no Estado em Portugal, e como estão em lugares e chefias abafam o número de competentes – felizmente, creio, em número muito superior, sim, a maioria das pessoas com uma boa organização do trabalho, trabalha bem. Os números da DGS não funcionam, desde logo porque não há meios, medicina legal em quantidade suficiente (já não havia antes da pandemia), computadores que funcionem, pessoas para juntar e agregar em cada região. A Faculdade do Porto ontem anunciou que em Portugal morreram mais 500 pessoas este ano do que no Março passado, mas só 100 são atribuídas oficialmente à pandemia. Percebem onde estamos na curva se em vez de 100 morreram 150, 200, 300 ou 400?
Como não há democracia nos locais de trabalho, o trabalho é feito pouco por empenho e muito por sistemas de controlo e vigilância. Junta-se a isto tudo modelos de gestão do trabalho estilo SIADAP que trituraram os melhores quadros, impondo o assédio moral sobre os tipos mais brilhantes, e mais contestatários. Pelo que me chega dos testemunhos de Hospitais, forças de segurança, e outros serviços, este é o padrão que estão todos a viver, que resulta num desnorte. Alertámos anos que isto se devia à falta de democracia interna nos locais de trabalho – as hierarquias são definidas em nomeações políticas e não em votos de confiança e competência. Quando tudo isto começou um tipo da minha família, que esteve num destes lugares, avisou-me “cuida de ti que nada disto vai funcionar, deixa-te do Dom Quixote, mesmo que eles tenham boas ideias, ninguém as consegue aplicar”, respondi-lhe, “não creio, o que isto vai mostrar é que para algo funcionar tem que se mudar a organização do trabalho e confiar mais nas decisões colectivas e democráticas”. Este ano demos um curso de vários dias de prevenção de burnout num município, a pedido dos trabalhadores com anuência do vereador, que reconheceu que algo de muito errado se passava ali. O que descobrimos foram excelentes profissionais, também em algumas chefias intermédias que estiveram no curso, todos triturados num modelo organizativo-laboral disfuncional. O melhor dos tipos sucumbe à má organização em vigor.
O desnorte da DGS chegou ao Norte, porque o desnorte do Norte também chegou à DGS, aqui no Sul, a má troca de informações e decisões não é, como tantos acreditam, um problema de comunicação. É um problema estrutural do país, que urge mudar.
Uma má organização do trabalho explica quase tudo numa sociedade, seja na DGS, na Polícia, numa escola e na recolha do lixo, no porto e na estação de comboios. Mas para se entender a má organização do trabalho é preciso entender a má economia em que se escolheu viver – ou que escolhemos não pôr em causa. Ainda aposto as minhas fichas na minha visão Quixotesca. Em muitos lugares as pessoas compreenderam que para trabalhar bem tem que haver um objectivo de bem comum, um plano definido e aplicado democraticamente. Hoje terminei um belo romance, O Homem Quebrado, sobre aliás a organização do Estado, onde encontrei a seguinte frase, mais ou menos isto – quando ler um livro pela ordem não bate certo, é melhor parar e começar a sonhar.
Os defensores de Rui Moreira e os amantes das teorias da conspiração afirmam que a DGS mente, para esconder algo, os defensores do PS partilham a fotografia da Dra Graça Freitas como se fosse a Nos…

“Que o último ventilador não seja para vocês”.

Quero contar-vos uma história, que vai atingir 100% da população, no fim desta quarentena.
 
O João saiu ontem cedo pela manhã de casa para ir trabalhar no aeroporto, foi de comboio, mora no alto de Algés, perto de Lisboa, e depois apanha o Metro, linha verde, linha vermelha – não tem carro. Vai cansado, embora esta semana tenha o turno de dia, não consegue dormir, já despediram 500 dos seus colegas, muitos amigos entre eles, outros conhecidos, com filhos, que angústia esta que o acorda às 2, 3, 4 da manhã…vê o relógio de madrugada, é tão cedo, tenta fechar de novo os olhos. Chega ao aeroporto, trabalha, sem máscaras, luvas, gel há pouco. Tenta sorrir aos passageiros, poucos, que por ali circulam. Agora todos os sorrisos são mais tristes mas mais sinceros, pensa. Regressa a casa, no fim do dia, de Metro e de comboio, o comboio vai com muita gente, todos os que não estão no twitter a trabalhar, pensa, ri-se para si. Ana espera-o, trabalhava num hotel, na recepção, fez o curso na melhor escola de turismo, fala 4 línguas, na perfeição, desde pequena tem jeito para as línguas e é, era, conversadora, conversava até demais, recorda o João. Foi despedida no início da quarentena, os patrões agora entraram em layoff, ajudados pela segurança social, mas não a readmitiram, ela não tinha contrato, responderam-lhe que não era despedimento, “era não renovação de contrato”. Ela quase não fala, agora, que saudades tenho de a ouvir, pensa o João. A Ana ganhava o salário mínimo mais subsídio de refeição, o João com os turnos chega aos 750, às vezes, com noites, 800. Dá para juntos pagarem 650 euros de renda por uma casa onde podem viver – sem sol, mas com luz, é um 4º andar, lugar porreiro para viver. Ele chega a casa, tem medo, terá sido contagiado hoje, nos transportes? No aeroporto? Diz-se “para, calma”. Olha para a Ana, desolada, abraça-a e diz-lhe “vamos dar um passeio aqui, curto, arejar, estiveste aqui fechada o dia todo”, vão de mão dada pelo passeio, não podem entrar no jardim municipal, fechado, seguem pelo passeio estreito, um atrás do outro, de mão dada, quando passa alguém, desviam-se para a estrada, sabem o que é distanciamento social, sabem que podem passear e a Ana não podia ficar em casa, mais, só, sem futuro, sem presente, sem falar.
 
A Maria tem estado agarrada à TV, ela e o seu gato, não conhece a lei e acha que ninguém pode sair de casa, só pode ir ao supermercado, o lugar mais contaminado, ninguém disse isso à Maria. Passear, 30 minutos, a Maria acha que é crime. Os senhores jornalistas ajudaram, só gritam “fique em casa” como se a Maria, além de burra, que sempre foi, não é de agora o mal, tivesse 3 anos, e não pudesse aprender pelo menos a lei. Os jornalistas não explicam à Maria que ela tem deveres, manter o distanciamento social, e direitos, dar um passeio. A polícia tem passado com o megafone, “fique em casa, fique em casa”, não há quase ninguém na rua, mas eles gritam “fique em casa, fique em casa!”. A Maria, depois da contagem dos mortos no noticiário das 8, vai à janela, afaga o seu gato, respira e nem sente ar entrar, estará já doente, pergunta-se aterrorizada, está tudo apertado na garganta. Suspira. O João e a Ana passam no passeio, agarrados para caber nele. Vão em silêncio – não sabem como vão viver, de quê, como vão pagar as contas, a casa, o futuro, ele afaga-lhe o cabelo, porque não consegue dizer-lhe mais nada, só a queria ouvir, não a quer perder, tinham planos, modestos, mas tinham. É durante este gesto, do afago do João à Ana, que, de repente, ouvem lá de cima a Maria gritar-lhes: “Assassinos! Que o último ventilador não seja para vocês!”.
 
PS: Às Marias deste mundo informo que os portugueses ao abrigo do Estado de Emergência podem sair de casa em passeios curtos, ao ar livre e podem praticar exercício fisico, desde que não seja em grupo. Não podem ser ofendidos ou intimidados por isso e se o forem é crime – nem ofendidos pela burra da Maria, nem intimidados pela polícia a regressar a casa durante um curto passeio, desde que mantenham o distanciamento social.
 
Informo também todos os leitores que, ao abrigo da lei podem andar de Metro e de Comboio, mas não devem, é perigoso. É a minha opinião, não é a do Governo – a liberdade de expressão ainda não foi suprimida.
 
Esta carta é dedicada às Anas e Joãos deste mundo. Havemos de fazer uma limonada deste limão, dançaremos juntos vitórias, questionando os alicerces desta economia que diz que um despedimento é “uma não renovação” condenando à fome, à ausência de tecto, à miséria e ao desespero milhões. Vamos em breve nos afagar, e proteger, é a cura pela organização solidária e a resposta política construtiva.
E a Maria? Nada podemos fazer pela Maria. As pessoas gostam de dizer “tudo vai ficar bem”, “tudo se resolve”, mas isso não é verdade. É preciso dizer a verdade – muito gente não vai sair disto pertencendo à espécie humana porque ter-se-á tornado, contaminada pelo vírus do medo e da ignorância, num animal selvagem.

Polícia contra a Lei

Que delícia de prosa – um professor de matemática dá uma lição aos polícias desgovernados que não sabem e não cumprem a lei.

Eduardo Rêgo
46 min
Hoje fui interpelado pela guarda durante a minha caminhada na veiga de Afife…
Perguntaram-me a idade, onde morava, o que andava a fazer… Que deveria estar em casa!
Primeiro, educadamente, pedi-lhes que mantivessem a distância de segurança dos 2 metros, porque estavam sem máscara e vieram falar comigo sem se lembrarem dessa regra básica!

Depois, a brincar com eles lembrando-lhes que “nunca se pergunta a idade a um senhor”, respondi o óbvio:

“Eu estou a caminhar! No percurso que faço mais de 300 dias por ano, com algumas variações”.

Citei-lhes a alínea h do decreto que menciona as curtas deslocações para actividade física. E ainda a alínea d que refere cuidados de saúde, explicando-lhes que o meu cardiologista me ordenara há uns anos a caminhada diária,”faça chuva ou faça sol!”.

Insistiram que deveria estar em casa, porque assim colocava em risco os outros e eu próprio!

Perguntei-lhes se me diriam o mesmo à entrada para o supermercado. “Que não, porque isso era uma saída mesmo necessária”.

Disse-lhes que entre morrer de fome ou de problemas cardíacos, sempre escolhia a primeira, porque me daria muito mais tempo para fazer o balanço da vida e me despedir dos meus queridos.

E além disso, argumentei, é muito mais perigosa uma ida ao supermercado do que uma caminhada deste tipo. Já que aqui não há o risco que existe nas cidades do efeito de arrasto, em que vai um, depois o outro, e às tantas está uma multidão de centenas ou milhares a cruzar-se…

Vacilaram um pouco… Era a altura do argumento definitivo para os convencer da minha razão. Tirei do bolso o papel e mostrei-lhes a fórmula. Pareceram logo imensamente interessados. Expliquei-lhes os parâmetros. P é uma medida de “proximidade” num intervalo de tempo entre os instantes t_0 e t_1. N(t) é o número de pessoas que num dado instante t está a 10 ou menos metros de distância, ordenados por ordem de entrada no perímetro; quando alguém sai, são automaticamente reordenados. d_i(t) é a distância a que se encontra no instante t a pessoa i. E o 2 no numerador da fracção refere-se à distância de segurança de 2m. O expoente quadrático mede a não linearidade do perigo de contágio em relação com a proximidade e que é naturalmente inversamente proporcional a esta…

Finalmente disse-lhes, e pedi-lhes que acreditassem, que cálculos experimentais feitos em dias diversos da semana mostravam claramente que uma ida ao supermercado equivalia, no mínimo, a dois meses de caminhada.

Eles retiraram-se com o papel na mão durante algum tempo e pareceram estar a debater a questão. Pareciam animados e entusiasmados no debate. Finalmente voltaram, sorridentes:

“Acho que o senhor tem toda a razão! Fizemos ali uns cálculos por estimativa para um período de uma meia hora, baseada nas nossas memórias de idas ao supermercado e ao que vemos por aqui… E achamos que tem razão”

“Bom dia e boa caminhada! Não se esqueça é do protector solar que o sol já começa a ir alto nesta altura, mesmo com a mudança da hora…”

Nunca houve fila na Ponte 25 de Abril

Ontem não houve nenhuma fila para a ponte, a caminho da praia. O problema do medo é quando ele nos tolda a visão, e nos leva a apoiar medidas que em vez de nos protegerem, nos colocam em perigo. A PSP resolveu fazer uma fiscalização na Ponte, a cada condutor, um a um, depois do Ministro da Administração Interna, com voz de comando, ter dito que era para impedir tudo, fechar marginais, “para as praias, em força!” – o mesmo Ministro que mantém o aeroporto aberto e sem quarentena obrigatória para quem chega de fora. Repito, o aeroporto está aberto! Esta fiscalização na Ponte, sem base legal, como hoje denunciam os juristas nos jornais, decidida por hierarquias da polícia depois de verem Ministros na TV (parece que a coisa está a funcionar assim em todo o lado, as chefias intermédias cumprem ordens da TV), dizia eu, esta fiscalização fez uma fila de vários km, que, entre outras coisas, impediu vários médicos de chegarem aos hospitais – denunciado pelos mesmos publicamente.

Na margem sul moram milhares de pessoas que trabalham em Lisboa, e na margem sul há milhares de fábricas não essenciais que permanecem a laborar e com turnos ao Sábado – bem vindos ao país real. Estes trabalhadores estão há duas semanas a pedir para ficar em casa e o Governo não o permite, mantendo abertas estas fábricas. Hoje a Espanha decretou o encerramento de todas as fábricas não essenciais, com pagamento aos trabalhadores. Portugal continua a brincar a fechar às marginais e às praias, em vez de as manter abertas, fiscalizando apenas aglomerados, seria o correcto. Cada português está já transformado num polícia do seu irmão que passeia com segurança, dentro da lei, ofendendo-o, gritando, e pedras não?, enquanto as medidas essenciais do Governo não são tomadas. Ontem um surfista foi retirado de uma praia deserta na Ericeira por três polícias, levado para a esquadra – estava seguro no mar, de lá foi retirado, por outros três que andam juntos num carro, local propício a contaminação. Uma mãe em teletrabalho sai para as traseiras do prédio com os dois filhos pequenos, sem mais ninguém, e a polícia grita-lhe de megafone – “já para casa”, quem manda aqui é o Presidente da Junta; ontem uma senhora sozinha, de olhos esbugalhados passou por mim na marginal, a 2 metros, que eu cumpro, e disse-me “não vá andar, a polícia está ali”, expliquei-lhe que a polícia não me pode impedir de andar, desde que eu cumpra a distância, e segui caminho, eu conheço a lei e o bom senso, ela, ignorante da lei, teme a força bruta da “autoridade”. A Autoridade, a Polícia, que, pelo que se viu na Ponte, e por estes exemplos, não conhece nem aplica a lei, aplica o que ouve de Ministros na TV e de pessoas que pedem sangue nas redes sociais. Está assim, a este nível, a aplicação da lei e da democracia em Portugal – o Ministro grita, a polícia vai à frente e a CMTV atrás, a lei que se lixe. E mal começou a “suspensão da democracia”. Imaginem o que está para vir.

Conclusão. Um: o Governo só vai parar a produção não essencial quando tivermos milhares de mortos. Dois: muitos portugueses têm um ditador dentro da sua barriga, ao primeiro medo explicam logo, pacientes para nós ignorantes compreenderemos, que como “alguns não entendem o que é um passeio em segurança, o melhor é proibir para todos” – afinal havia um Salazar vivo dentro de muitos, na dúvida prende-se o país todo, que alguém vai pagar a factura dos contaminados nas fábricas e dos deprimidos na quarentena. Ou seja, o contágio continua, mas cria-se um ambiente de ditadura para fingir que ele não contínua.

Finalmente – concluí também – ninguém está chateado com o aeroporto aberto e o parque dos poetas fechado. É que quando eu ia ao Parque dos Poetas, antes da pandemia, só estávamos lá nós, a namorar num piquenique, o resto estava no shopping e a ver TV no sofá, pelo que não há qualquer razão para manter aberto este espaço, porque na quarentena ou fora dela os hábitos não mudam muito, a diferença é que agora é o terror, o que não é pouco, porque o lugar onde passam o fim de semana é o mesmo, o sofá. Agora esta malta que vivia entre o sofá e o shopping já pode argumentar que tem diabetes, hipertensão, e problemas cardíacos porque está a lutar pela saúde, portanto todos estão na zona de risco do COVID-19, e que o parque deve ser fechado para as dez pessoas que o frequentam durante todo o dia de Domingo não se transformem em criminosos propagadores do vírus. Entretanto claro, o aeroporto está aberto, na construção civil há 600 mil a trabalhar, sem parar, e os mesmos que estão no sofá, a cuidar para que o seus diabetes se mantenham em alta, podem ver em directo aviões inteiros chegar a Lisboa, sem fiscalização alguma, enquanto ofendem com gritos de ódio nas redes sociais os trabalhadores que foram obrigados a ir para uma fábrica de componentes automóveis fazer o turno do Sábado.

Entretanto a realidade é outra. O Governo quer manter estes sectores a laborar e usa como bode expiatório imagens que nunca existiram. A polícia como seria de esperar, já manda mais que o Governo – é o famoso Estado de Emergência. Muitos portugueses em pânico já fecharam a secção do pensamento.

Têm que rapidamente reativar o sentido critico, antes de espumar ódio nas redes sociais. Pior que uma crise pandémica e económica, era voltarmos 48 anos a pensar que há um tipo carismático, e os seus policias, a zelar por nós, pobres coitados, que, sem um polícia a intimidar-nos, não saberíamos agir correctamente.

É preciso acreditar mais nas pessoas comuns, e talvez um pedacinho menos nos responsáveis que, qual Titanic, tocam violino, enquanto o barco afunda. Se acreditarmos mais nas pessoas comuns, vai haver quem deles, saiba construir muitos botes, como se tem visto por esse país fora na construção de batas, protótipos, testes, solidariedade no alojamento, etc, pela sociedade, enquanto o Governo espera encomendas que, como explicou a DGS, fazem-se normalmente na hora (esta defesa do modelo sem Stockholm, em saúde, escapou a quase todos, mas faz parte da caderneta do incrível).

A maioria dos portugueses, incluindo os que estão nas fábricas, construção e aeroportos, querem ir para casa, cumprir a quarentena, e fazer 30 minutos de passeio para manter a sanidade mental, com distância social – isso pode ser feito em marginais abertas e jardins onde a polícia pode e deve fiscalizar se se mantém o distanciamento, só isso, e de preferência sem tiques intimidatórios – é que a polícia, até prova em contrário, se ainda vivemos em democracia, está aqui com um poder conferido por nós, ao nosso serviço, e não o inverso.

Maria Manuel Mota, uma homenagem aos cientistas do mundo

Maria Manuela Mota, cientista, criou num tempo record um teste que não depende do estrangeiro. A OMS, com o exemplo da Coreia, tem dito que esta é uma forma de impedir a propagação do vírus – testes em massa, aos sintomáticos e aos assintomáticos, e com muito menos impacto económico. Em Itália uma pequena vila fez isto e é o único caso de sucesso – chama-se Vo’ Euganeo, todos foram testados e com isso impediu-se a propagação da doença, mesmo no epicentro do furacão, no norte. Para todos nós esta resposta do sistema cientifico é uma lição extraordinária. Que nos ensina o valor do estudo e de esforço individual da cientista, mas, quero ressaltar, de todo uma equipa, de centenas de cientistas que, com ela, desenvolveram estes testes.

O teste que criou esta equipa ensina-nos muito sobre a grandeza destes cientistas, mas também sobre os erros estratégicos que foram cometidos por quem Governa (os cientistas não governam, não, não somos todos culpados por igual). A única coisa que podemos fazer agora é conhecer estes erros, e ter um poder político que não os repita. Maria Manuela Mota foi notícia duas vezes. Quando ganhou o Prémio Pessoa, em 2013, por ter desenvolvido investigação contra a malária, uma doença de pobres. Outros, com o seu estudo e dedicação, alguns físicos e matemáticos, foram, por exemplo, para empresas financeiras prever oscilações na bolsa de valores. Portanto, a outra lição é que nem tudo o que fazemos tem igual importância para a sociedade. A terceira lição, é que um país não pode ter como estratégia económica fazer hotéis, ter baixos salários e exportar produtos sem valor, deixando na precariedade centenas de cientistas, bolseiros sem contrato, que hoje trabalham com M. M. Mota, muitos dos quais daqui a 1 ano ou 2, a manter-se este rumo, não terão emprego. É que a segunda vez que Maria Manuela Mota foi notícia, em 2018, foi porque não tinha passado nos concursos FCT, a que os cientistas estão obrigados, porque não há carreiras, e só tinha salário até ao final desse ano. Um país sem cientistas não tem futuro.

Quando digo cientistas, se ela me permite, digo-os todos. Não só os que com ela trabalham, mas também as centenas que foram convidados a emigrar, que hoje são mão de obra essencial, que nos falta, para se poder passar de 600 testes a milhares. Saliento aqui também aqueles que se dedicaram a áreas pouco valorizadas pelos sistemas científicos nacionais, e que hoje se relevarem essenciais: a matemática e a física teóricas, que nos ajudam a prever a epidemia – e que são a base de toda a tecnologia, inclusive dos ventiladores – conheço alguns, doutorados nestas áreas, desempregados em Portugal, a trabalhar como professores contratados no ensino secundário; os geógrafos que previram que o crescimento desmedido de cidades ia por-nos em contacto com animais, aumentando o risco de pandemias – conheço dezenas desempregados; os epidemologistas que alertaram para a necessidade de parar as viagens de avião, há 3 meses; os que estudam a organização do trabalho na saúde, que chamaram a atenção para as poucas camas, poucos ventiladores, ausência de carreiras, necessidade de respeitar a democracia interna nos hospitais, que hoje foi vital para a reorganização destes; os economistas críticos que recordaram que é preciso stokcs de matérias essenciais de produtos vitais, em cada país, e que sabiam que a União Europeia era apenas um mercado, sem solidariedade interna, que à primeira crise ia deixar para trás os mais pobres, serventuários de uma eterna dívida; os filósofos, que pensam a organização social; os historiadores, que nos recordam que com pandemias muito mais graves, não houve crises económicas, e que esta, a crise económica, é evitável, mesmo na pior pandemia, se se apostar na produção cooperativa e colectiva; os sociólogos, que nos recordam que há 1 milhão de idosos, muitos ao abandono em lares privados porque não há um sistema público de cuidado dos mais velhos e os filhos não têm tempo e sequer dinheiro para cuidar deles; os músicos que cantam a esperança, e os actores que encenam outros mundos possíveis – talvez aqui esteja hoje a ciência que mais precisamos, depois dos testes em massa e dos ventiladores, precisamos com urgência dos que podem inventar outro mundo, que ainda não existe, tal como os testes não existiam.

E, claro, não vou esquecer-me de quem transporta gasolina, descarrega alimentos, limpa hospitais, faz comida, pesca e semeia, está na caixa do supermercado ou na carrinha da distribuição, neste dias. E, por fim, mas em primeiro lugar, os médicos, enfermeiros, técnicos de diagnóstico, e todos os seus professores – desde a escola primária. Enfim, podemos, nesta homenagem a uma mulher brilhante, deixar aqui o nosso profundo agradecimento a todos os que trabalham no mundo. Os que estão a construir botes para salvar o país, enquanto o Governo toca violino e vê o barco, que construiu, ir ao fundo. Essa é a razão porque creio que temos razão para não entrar em pânico – nunca escondi que não apoio este e os anteriores Governos e agora ficou claro que a estratégia que tinham para o país nos levou ao abismo. Mas também ficámos a saber, pela acção do mundo do trabalho, intelectual e manual, que o potencial construtivo da nossa sociedade permanece superior ao potencial destrutivo. É preciso nestas horas terríveis confiar mais em quem trabalha, produz, estuda, e age, e que cria até o que não existia, num palco, num laboratório, é esse o sentido da vida. O valor de quem vive do trabalho é o que nos deve mover, agora que as bolsas perdem todo o seu valor.

Matemática e sociologia do COVID

Matemática e sociologia do COVID

Nenhum número fala sozinho. Tentarei explicar sucintamente. Os números não são para já assustadores, mas não sabemos o que se esconde atrás deles, mas sabemos em que país navegamos. Não devemos ser optimistas. Devemos assumir que sabemos que não sabemos.

O número de testes em Portugal é irrisório. A doença tem um período de incubação silenciosa, e os doentes críticos não chegam no imediato aos cuidados intensivos. Esta progressão leva dias a aparecer, o que está em baixo e que é o único padrão que nos pode dar reais direcções é a medida real de infectados – esta é de todo, por agora, desconhecida. Não só pelos que não têm sintomas, esse é um problema comum a todos os países, mas pela ausência de testes, Portugal é dos países que testa menos, contra as recomendações da OMS. Podemos ser o caso exemplar na Europa, ou podemos ser o tsunami catastrófico que se está a formar ao largo, na costa. Eu pertenço aos que acham que a segunda hipótese é mais plausível. E, sobretudo, havendo dúvidas, como há, pertenço aos que acham que por precaução se deve encerrar o aeroporto, fábricas e empresas não essenciais.

Também o defendo porque a população trabalhadora manual, que não pode ficar em casa, é em média muito mais doente aqui do que noutros países, isto é, tem mais factores de risco, como diabetes e hipertensão, graças aos salários baixos, que levam à má alimentação e sobretudo turnos desregrados ou jornada dupla. Espero enganar-me, espero muito estar totalmente errada. Não existe um COVID chinês e um COVID português, mas existe uma sociologia laboral, populacional e económica que é distinta consoante os países – os factores de risco em Portugal são em média muito altos, não só, como noutros países, entre os mais velhos, pela idade, mas nos mais novos, pelas doenças acumuladas aos longo de anos de maus salários e maus horários de trabalho.

Se estivermos a achatar a curva – e tenho pouca fé que estejamos – não resolvemos o problema, empurramo-lo, e aumentamos, essa é a vantagem, a capacidade de resposta do SNS. Resolver era porém outra proposta, é a nossa, a la Macau ou Dinamarca ou a la Coreia do Sul. Fechar as empresas e fábricas e aeroporto ou, caso da Coreia, testes em massa.

Para os que insistem em não compreender que jardins e passeios ao ar livre não fazem mal oiçam o Dr. Daniel Sampaio que disse que até os idosos devem dar curtos passeios. Hoje ligou-me um amigo, intensivista suíço, quando lhe contei que as pessoas têm medo de ir andar no jardim ele respondeu “ridículo!” e a seguir disse-me “tive dúvidas sobre a tua defesa do direito à greve, hoje acho que estavas correcta, ontem em Itália houve uma greve de 24 horas que obrigou as grandes indústrias não necessárias a fechar portas, até uma fábrica de garrafas de coca cola queria manter-se aberta – e foram os trabalhadores, com greve, que obrigaram o Governo italiano, de joelhos face a essas empresas (estou citá-lo) a ceder; a greve não é na saúde nem noutros sectores, foi nestes e foi a única forma de fazer estas indústrias cederem”.