Marcelo ainda não foi abraçar os estivadores

Há anos que nos estudos do trabalho se desvaloriza o peso das lideranças e se valoriza o ambiente social, mineiros seriam mais combativos que médicos, dizem. Os trabalhadores portugueses têm explicado o peso dos estivadores – o sector onde há menos paz social em Portugal – porque…são estivadores. Ora, esta explicação não explica (quase) nada. Na Auto Europa não há conflitos sociais e lutas operárias importantes, pelo contrário, houve uma importante derrota, e no entanto são já mais de 5 mil, operários, a trabalhar juntos, no mesmo ambiente. Os médicos são dos sectores onde há mais greves com menos perdas – apesar de tudo – em Portugal. E o que dizer dos pilotos? Ou dos que maquinistas? A maioria das lideranças dos médicos acredita no SNS e as da Auto Europa acreditam nos accionistas da VW, com quem partilham, a co gestão da empresa. O “ambiente” não explica os distintos comportamento e recursos de acção colectiva e práticas de sindicalismo.
 
O peso no lugar da produção é muito importante – há sectores estratégicos, isso sim é um argumento. Mas não chega, a Auto Europa é dos sectores mais importantes do país e eles perderam, estando a laborar ao fim de semana com perdas salariais reais, 1 ano depois da greve que fizeram. E, aqui queria chegar: os estivadores de Leixões e da Madeira estão divididos em dois sindicatos, um que apoia a estratégia dos patrões, e outro que se filiou ao Sindicato de Lisboa, fazendo o Sindicato Nacional. São todos estivadores, com um modo de vida muito semelhante. O lugar de trabalho, o ambiente social, o bairro, num conceito histórico muito caro a EP Thompson, a “experiência” da formação da classe trabalhadora, na realidade não explica quase nada. O que explica quase tudo no campo da teoria social são dois factores, força real na produção – poder parar e prejudicar de facto o processo de acumulação – e a liderança política.
 
O Sindicato de Lisboa (agora nacional) é forte porque funciona em plenário, mas sobretudo tem uma estratégia quase única no país, que reporto à sua liderança, que não aceita condições em média piores para os mais novos em troca de direitos exclusivos dos mais velhos. Esta visão da “totalidade do mundo do trabalho”, ou seja, impedir divisões salariais explícitas e carreiras distintas, fez com que dezenas de estivadores tivessem deixado o sindicato de Leixões e o da Madeira para se filiarem ao de Lisboa, que tornou-se estatutariamente um sindicato nacional.
 
Isto gerou uma violenta reacção dos patrões de Leixões e Madeira (que são um quasi monopólio no país e na Ilha porque são em geral os mesmos donos das empresas nos outros portos) e um alerta nacional, que está uma originar uma crise em várias empresas porque o cimento, a pasta de papel, os carros, etc. são exportados em todo o país. E todos os estivadores dos outros portos, incluindo de Setúbal onde são exportados os carros da VW, decretaram greve ao trabalho suplementar – de solidariedade – a Leixões e Madeira. E todos os patrões de norte a sul se uniram contra a existência do sindicato nacional de estivadores.
 
O assédio tornou-se assim uma prática nas denúncias nos estivadores de Leixões e Madeira (aliás em páginas abertas de redes sociais identificadas, junto da ACT, nos media) que mudaram de sindicato. A estes, que mudaram, não são dadas horas extraordinárias – passando de auferir 1200 euros para 600 euros – e alguns são colocados na função de varrer o convés, sistematicamente.
 
Ora legalmente isto configura uma ilegalidade porque significa que através destas práticas de obstaculiza a filiação sindical livre, um direito, é preciso sublinhar, constitucional. Decorre uma greve nacional a este facto, esta semana vai haver uma manifestação, e o Governo está em silêncio. Marcelo ainda não foi abraçar os estivadores.
 
A humilhação como prática pública de demover a sindicalização no novo sindicato ou em qualquer organização tem que ser inequivocamente questionada pelo Governo. A liberdade sindical foi conquistada pela primeira vez em Inglaterra há 190 anos com o cartismo e os Mártires de Tolpuddle, que foram presos em degredo para a Austrália construir em regime de trabalho forçado ferrovias com 40 graus ao sol. Tudo em defesa do sindicalismo livre. Este é o problema que está hoje no país em cima da mesa – não se ganham lutas com práticas desumanas. E a humilhação está entre as mais desumanas. Para acabar com elas o movimento operário europeu produziu milhares de lideranças presas, perseguidas e mortas para que o passado não nos atormente sempre nos sonhos de uma vida bela, digna, de cabeça erguida e não de costas dobradas num convés.
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O Fim da Linha

Partilho convosco o testemunho de uma professora que recolhemos no estudo do burnout, sem mais comentários da minha parte, peço-vos a paciência de em 3 minutos chegarem ao fim da leitura:
«O MEU TSUNAMI PROFISSIONAL.
Ali estava eu na sala de espera de um conhecido psiquiatra. Deixara de dormir,a angústia dolorosa aumentava de dia para dia, a ansiedade começara a fugir do controlo.Quem diria que uma professora alegre e envolvida iria chegar a tal estado de erosão psíquica!?!Tudo parecia irreal,um pesadelo,um castigo.
Aos poucos a carga burocrática tornara-se a primeira tarefa a que era preciso responder come eficácia :relatórios, grelhas, planos, papéis inconsequentes, um calvário para quem gostava da relação de aprendizagem com os alunos.
Um sentimento de impotência e de culpa dominava a criatividade e a preparação das aulas. Aumentou o tempo de presença na Escola, sem o recato de um espaço para poder pensar e refletir. As aulas de substituição eram penosas,não eram os nossos alunos e nós não éramos os seus professores, não eram as nossas disciplinas. Que raio estava a acontecer a toda uma geração que vivia de bem com o ensino? Que fizemos de tão mau para nos tratarem assim?
Entro para a consulta. Num esforço de sistematização comecei a dizer o que sentia e a fobia que silenciosamente se entranhara, sob a forma de insegurança.
De repente tudo era feito para a mal amanhada avaliação, tudo na plataforma informática a qualquer hora,perdendo-se aquele toque humano de troca de opiniões. Não havia tempo. Era tudo para ontem,sem lógica,sem bom senso.
A AVALIAÇÃO,O FIM DA GESTÃO DEMOCRÁTICA E A DIVISÃO ENTRE PROFESSORES TITULARES E NÃO TITULARES quebraram cumplicidades e solidariedades muito necessárias a um bom desempenho.
Adorei a minha profissão, levantava-me a assobiar, vibrava com os alunos, relaxava na sala dos professores. E agora? Agora queria fugir. Porquê? Sentia desconsideração, uma despersonalização ambiental, restavam os alunos.
Estes, fruto do clima estragado entre professores,também se ressentiram e alguns espreitavam fissuras para galgarem oportunisticamente terreno,com muitas direções a apoiarem os pais sem critério. Era toda uma disfunção profunda da democracia que se instalara na ESCOLA. Foi esse o trabalho sujo do sistema de avaliação dos professores: pôr uns contra os outros,com custos pessoais e sociais. Em termos de transmissão de Know-how foi um hiato que se refletirá com toda a certeza no futuro.
Eu tratei-me e tive bom suporte familiar. Há milhares a penar,de mansinho, como quem mói um sentimento.
Quero acrescentar que uma colega ,excelente profissional, adoeceu com um cancro .Adorou estar no IPO, porque ao contrário da Escola, não havia histeria, as pessoas eram afáveis, não tinha que lidar com o absurdo, estava em paz!»
Se outros professores quiserem deixar o seu testemunho individual podem enviar para o meu email com identificação e data de nascimento. raquel_cardeira_varela@yahoo.co.uk

O Governo a comer Marisco

O problema desta notícia conto-vos com um conto de traição de Zola, engraçado. É uma das armadilhas em que tropeçam às vezes estudos científicos, caem os jornalistas e que o Governo, conhecer dos números, usa para se erguer. É confundir causa-efeito com correlação. Os professores não ganham mais porque são professores, o que seria correcto na minha opinião (todo o dinheiro em educação e salários para um país não é gasto, é investimento). Não é o caso de Portugal, quando se compara graus de qualificação os professores estão na média (média que é baixa, num país de baixos salários). Este estudo compara gerações atravessadas pela revolução em 74 e o fim do pacto social em 86 – ora o hiato salarial pode ser entre gerações superior a 1000 euros no ensino, lá está eu tenho 4 carros, vocês nenhum, a média é cada um de nós tem um carro. Finalmente o estudo calcula o salário bruto – ora o salário indirecto (serviços públicos, pensões etc) é em Portugal e na UE medido pelas funções sociais do Estado, e em Portugal é dos mais baixos da Europa, isto significa que um professor português tem que pagar serviços que nos países, comparáveis no estudo, são garantidos pelos impostos. O conto do Zola é o seguinte, uma senhora não conseguia engravidar, o médico manda o marido comer marisco, ambos vão para a costa passar uns tempos, o marido a comer marisco, ela começa a ter um caso com o pescador, engravida, regressam à cidade e o marido, feliz, vai ter com o médico e diz, Sr Dr. é verdade, resultou comer marisco!
O Conto está no livro Os Ombros da Marquesa.

https://www.publico.pt/2018/09/11/sociedade/noticia/professores-ganham-mais-35-do-que-media-dos-trabalhadores-qualificados-1843632

 

Breve História da Europa

A minha professora de História do Liceu Ana Paula Torres fez uma apresentação que aqui partilho da Breve História da Europa. Além do significou para mim individualmente penso que todos os que estavam naquela sala se aperceberam da riqueza daquela momento. Com, creio, talvez excessiva humildade Ana Paula deu uma lição de história. Escutámos com o seu humor detalhes deliciosos da relação professora-aluna vistos do ponto de vista da professora. Foi apenas a abertura. O que se seguiu foi de iluminar o pensamento – um domínio teórico, conhecimento profundo de fontes e metodologias, comparação, exemplos, actualização do estado da arte. Foi um mergulho na Europa. Identificação as ideias centrais do livro – que no texto que partilho a Ana Paula Torres separa com cuidado e sinalizando a tese principal do livro – a de que eu discordo da tese de progresso linear proposto por Hobsbawm. Não caminhámos sempre em frente no século XX – o horror não é a excepção no desenvolvimento das forças produtivas e das ideias políticas. Pelo contrário, o mais avançado convive com a barbárie na Europa, o binómio crise de 29 e revolução espanhola, nazismo e resistência, pacto social e neoliberalismo.
Foi um belo momento porque, embora excepcional não é uma excepção. Neste sentido: não sei qual a percentagem de maus professores em Portugal, como disse David Justino (nem ela sabe), nem como isso mudou em 40 anos, sei porém que tive alguns professores excelentes; e que devo isso a um tempo que combinou o reconhecimento público e intelectual dos professores do ensino secundário com a garantia de direitos laborais e autonomia democrática e pedagógica e muito mais liberdade curricular. As aulas deram eram apaixonantes. Não eram um programa pré definido ao milímetro preparados para testes de 15 em 15 dias. Havia testes mas havia liberdade de pensar e aprender mais além das necessidades do mercado, ou como se popularizou mais além do «capital humano».Foi brilhante também esta aula que deu agora, já aposentada, saiu com reforma antecipada por causa da burocracia e falta de democracia interna nas escolas. A aula está no link – com um rigor onde podem ter um aroma do que são aulas bem preparadas. Junto aliás entregou-me em papel um conjunto de críticas sobre o tema dos judeus e o nazismo, debatendo comigo as teses sobre o Holocausto.
Talvez, talvez, ao escutá-la hoje, pensei se ter tido a Ana Paula como professora 3 anos de liceu, quando já estamos na transição para parte da idade adulta, não foi fulcral para eu ter escolhido a profissão que tenho, que é, quase 20 anos depois, uma paixão afobada. Ela deu-me isso de presente, a paixão pelo passado como estrutura sem a qual nos perdemos num presentismo que é uma prisão. Nunca é muito afirmar, reafirmar as vezes necessárias, que só a história nos transporta para um futuro onde desejamos um dia viver.
O texto completa está em link

O Brasil tem solução?


A pergunta que todos os brasileiros fazem mas prendem na garganta, com angústia – e que fora do Brasil todos fazem, mas abertamente – , depois de ver arder o Museu Nacional, é “O Brasil tem solução?”. A pergunta que a Globo faz é “podemos cortar mais verbas para a ciência?”. Sim, a Globo, a que assisti no Rio de Janeiro, defende, depois da perda do Museu que “devemos fazer a reforma da previdência, cortando o salário dos funcionários públicos, cujo valor é responsável por não terem sido feitas obras no Museu”. A preocupação da direcção mediática e política do país, não é o Museu, irreparável, onde aliás a elite brasileira nunca foi tinha ido e uma parte só soube da existência quando estava em cinzas. A Pergunta da Globo hoje é “como usar o Museu para arrasar com o que resta de direitos públicos e cultura no país”. Neste Brasil onde não se pode sequer falar na existência de um Estado Social, como na Europa. Para tal fizeram uma pirueta estatística, e hoje o jornal Globo anuncia na capa que mais “de 87% do Orçamento da UFRJ é para pagar funcionários”. Ora a UFRJ já publicou o seu orçamento explicando o óbvio, os funcionários são pagos pelo orçamento nacional (Tesouro Nacional), não pode esse valor ser incluído no orçamento da URFJ porque não está nem nunca esteve na Universidade. O orçamento da Universidade esse caiu de 434 milhões em 2014 para 388 milhões hoje, em 2018, e foram feitos por parte da reitoria sucessivos avisos do perigo que corriam e correm as instalações. Resta-me dizer que no Brasil não há televisão pública. Em Portugal, com todas as criticas que se possam fazer, ela é de excelente qualidade e essa qualidade não é só da RTP mas serve de bitola, na forma e no conteúdo, aos desvarios do sector privado. Assistir à Globo é como assistir na Europa ao período televisivo de venda de colchões para aposentados às 4 da manhã, coisa que me acontece quando o meu amor está longe e eu acordo no sofá, pensando que o mundo está a acabar, pois vende-se uma máquina de abdominais eléctrica em que o corpo não se mexe. A diferença é que no Brasil é às 8 da noite e chama-se Jornal Nacional. É de tal forma que os jornalistas dão as notícias, explicam-nas, opinam sobre elas e só então passam à reportagem. Tudo isto num estilo infantilizado, que inclui um invariável “Você sabia?”.

Uma metáfora

É evidente que a esperança da humanidade está em quem vive do trabalho. Enquanto o ministro da cultura brasileiro fala em “tragédia” ocultando a sua responsabilidade política, chorando como qualquer plebeu sem poder, enquanto os bombeiros se debatiam com falta de meios também, os trabalhadores da UFRJ estavam, sem meios alguns a não ser as próprias mãos, a tentar salvar qualquer coisa. Metáfora de um país continente em decadência profunda num mundo em direção a um precipício. Nem os mortos e as múmias estão seguros neste século de capitalismo sem oposição.
A minha solidariedade a todos os colegas, professores, funcionários e alunos da UFRJ, ao seu reitor, Roberto Leher, homem de dignidade excepcional, que esteve recentemente em Portugal recebido no projecto da Fenprof, um amigo e um mestre da educação e ao director do Museu. São eles a esperança.

 

Mudar com o Passado

Deixo um curto comentário sobre a reformulação do ensino da história que creio ameaçado por vários fenómenos, na aparência nem todos conservadores.

Precisamos de exercitar a memória, o estudo calmo, a repetição mesmo. Sem isso não há análise crítica. A alternativa ao fascismo não pode ser criar bolsas de estudo de elite e o resto “brinca”. O prazer de aprender pode não ser imediato, pode ser uma superação que exige longo tempo, às vezes frustrante. A pedagogia parou entre o autoritarismo para as elites e o individualismo da balda para as amplas massas populares e médias, temos que ir muito além.

Em segundo lugar o “ensino para o mercado ou capital humano”, ora o nosso mercado é exportador e de baixos salários, o ensino não pode sujeitar-se a este mercado, pelo contrário, a nossa função não é criar escolas onde se aprenda a fazer camas e apertar rebites numa linha de montagem mas onde se aprende a ciência que permite fazer máquinas, software ou arte. O ensino não pode servir para simplificar o homem mas para o engrandecer.

A história não é memória, como querem os sectores pós-modernos. Ela não é manipulável para resolver as contendas políticas actuais. O passado é sujeito de hipóteses, não de alteração obscura. A história não pode servir para mudar o passado, ela serve sim para transformar o futuro.
A história é essencial ao futuro, só ela nos retira da armadilha presentismo, ou seja, da ideia de que não podemos mudar. A história é fundamental porque ela ensina a mudança e o domínio do homem contra as obscuras forças da resignação, sejam as da maioria da Igreja, do lado conservador, ou o relativismo e do cinismo pessimista, do lado progressista.