A Delação e o Assédio

Li o relato de uma jornalista, porque o Público de forma inexplicável o anunciou, de um alegado caso de “assédio”, contra editor. E de uma acusação de violência doméstica contra um deputado do BE, que não conheço, e que já retirou a sua candidatura – já foi julgado na praça pública. A sociedade outorgou-lhes o princípio da presunção de inocência, e isso é basilar.

A justiça quando não funciona não pode ser substituída pela presunção da culpa, sem julgamento. Fruto da ignorância democrática, muitos pensam que o princípio da presunção de inocência quer dizer que são inocentes ou culpados. Não. O que este princípio diz é que a pessoa acusada é inocente, e nós temos obrigação ética de defender a sua inocência. E quem acusou é que tem o ónus da prova. Estes dois princípios são basilares da nossa sociedade e não foram inventados pela sociedade patriarcal para defender os homens da acusação de assédio sexual. São dois valores humanistas que afirmam é melhor ter um criminoso ilibado do que um inocente culpado.

Os tribunais não conseguem dar reposta aos casos de assédio sexual, e muito menos aos de assédio moral que é, segundo todos os estudos (sublinho todos), muito mais comum do que o sexual. O assédio moral tornou-se banal, a forma normal de gerir empresas e fábricas, já que não há nem greves nem concentração social. O preço da força de trabalho é regulado pelo assédio moral. E o assédio moral é cometido de homens e de mulheres contra homens e mulheres – é lerem os relatos dos estudos para ver a galeria de horrores que os trabalhadores dos dois sexos sofrem na mão des gestores e chefias dos dois sexos.Muito havia a debater -e há – sobre todos os casos relatados.

Destaco além destes – centrais (ónus da prova e presunção de inocência), um dos relatos que afirma que o alegado assediador é “casado”. É demonstrativo do puritanismo e ultra conservadorismo do Metoo – não por acaso a imprensa de direita tem sido palco de delação, bufaria e devassa da vida privada, valor supremo, a quem chamam “direitos das mulheres”.. O adultério não é crime e as mulheres fizeram o 25 de Abril e, antes, o Maio de 68 para, entre outros direitos, terem amantes sem ser assassinadas, atenuante que estava antes na lei. Não quer isto dizer que as mulheres devam ou não ter amantes, mas que nós não valoramos moralmente aquilo que são decisões do âmbito da privacidade de cada um. É irrelevantes para quem quer denunciar um caso de assédio. Importante para quem promove nas redes sociais – e sim, o Público nunca poderia ter dado palco a tal relato, o assassinato de carácter, que se tornou vulgar nas redes sociais. No desejo de procurar cliques o jornalismo cria mais problemas para si próprio, já que estes casos ajudam a desacreditar os casos de assédio sexual que existem e são gravíssimos, ajudam a desacreditar o jornalismo.

E, repito, os tribunais não conseguem na maior parte das vezes dar resposta. E então, a resposta é a justiça bíblica? Acabou a democracia?Finalmente, ouvi a comentadora conservadora Helena Ferro Gouveia explicar-nos que quando um homem diz “és bonita” é galanteio, quando diz “tens umas pernas bonitas” é assédio. O que diria Kollontai, Simone Beauvoir e Natália Correia deste novo índex das palavras abençoadas com água benta, que retiram qualquer capacidade à mulher de decidir livremente o que pode e não pode escutar de um homem? Ela explica-nos, como se tivéssemos 5 anos: as mulheres sofrem assédio e não sabem. Somos todos estúpidas, vítimas da nossa estupidez…Por fim, as relações assim serão o quê? Marcadas numa aplicação, com menu de palavras autorizadas, e contrato assinado? Sim, uma mulher consegue distinguir um galanteio, um piropo, uma sedução falhada, de assédio, não precisamos de Ferro Gouveia a ensinar-nos.

A violência contra as mulheres no mundo, sobretudo pobre, é brutal; o assédio sexual é bárbaro, tudo isto é demasiado sério para ficar nas mãos de uma vendeta que se auto denomina representante das mulheres. Não me representam.Trabalho com trabalhadores, em estudos com milhões de dados onde está também o assédio sexual e moral, e as questões de género – estudamos 12 sectores portugueses, só de docentes temos 2 milhões de dados – há muitas opiniões no meio científico sobre o que é ou não assédio, não há uma discussão fechada sobre isto; vivo num meio intelectual onde conheço dezenas de mulheres que não se revêm nestes métodos; e conheço várias correntes feministas, distintas umas das outras, que não se reconhecem nestas delações. Por isso os debates sobre o tema não têm sido debates. Mais uma vez falhamos em abrir o contraditório e perceber que em democracia o debate só existe quando existe contraditório, e que só assim há democracia.

Finalmente lamento o silêncio de tantos homens sobre este tema, que aterrorizados que a inquisição caia sobre eles, deixaram de opinar publicamente sobre o nova moral e os costumes puritanos, como se não tivessem “lugar de fala” – nem o assédio sexual real, nem as acusações na praça pública são um assunto de mulheres, mas de todos nós. O Metoo desacredita as mulheres, desacredita o assédio sexual, e contribui para a desconfiança generalizada na sociedade, que fica sujeita a um clima de terror. É mais um passo em frente na já longa desagregação social e democrática.

Rir é Proibido

A minha relação com o futebol é inexistente, mas não acho mal que outros gostem, e gostem muito. Não fico nem triste nem contente com resultados, é-me indiferente. Porém, não sou crítica do entusiasmo, nem dos desportos colectivos, nem da euforia. Ainda hoje me pergunto, claro, quando o Benfica e o Sporting me vão devolver o que lhes paguei em escola e saúde de qualidade – sendo que eu não faço parte dos clubes mas paguei ao Novo Banco e BCP, na hoje chamada hoje dívida pública. Passou de uma dívida de um clube de futebol privado a um acto de sacrifício de todos nós, menos, naturalmente, dos que ficaram com as centenas de milhões que não foram expropriadas pelo Estado. Dito isto, o ar do tempo conservador está aí a explicar que aqueles malandros foram para a rua espalhar Covid-19. “Agora é que vão ver os mortos!”. Isto na semana em que foi divulgado que em mais de 5 milhões de trabalhadores houve menos de 290 mil estiveram em layoff (e uma parte parcial!), junte-se os 15% de teletrabalho e temos mais de 85% de todos os portugueses sempre desconfinados a trabalhar, se tirarmos o desemprego, mais de 4 milhões nunca pararam, leram bem, nunca. Ou seja, esta gente toda, que ontem esteve de verde na ruas, esteve sempre apinhada em transportes públicos, ou transportes colectivos de fábricas e empresas, a trabalhar, a ir ao supermercado, e depois “ai senhores! que foram rir para a rua”. Rir, vejam bem, que indecência. Em confinamento medieval pede-se um comportamento do Santo Ofício, rir é pecado, é uma expressão do Diabo.No capitalismo pode parar tudo menos a produção de lucro – foram paradas esplanadas mas sempre se construíram carros às 4 da manhã; foram vedadas praias mas nunca pararam de fabricar vestidos às 2 da manhã. Só isso foi essencial, indispensável. Tudo que seja afectos, festa e celebração faz parte da peste. Rir é proibido. Faz-me lembrar uma cena que adoro dos Gato Fedorento, em que os tipos imitavam uma sessão de cinema estilo King (cinema que eu frequentava semanalmente, confesso), e a certa altura o filme era tão mau que poucos lá ficam. Sobra um tipo, de óculos de garrafão, se a memória não me falha, e que a certa altura esboça um ligeiro sorriso e o Sr. que cuida da sala vai ter com ele indignado e diz-lhe “O Sr veio aqui para rir? Aqui não se ri!”. Divirtam-se! E, como diz o Sr. Pedro, operário, agora é abrir os arraiais que eu não gosto de futebol mas sou adepta do clube dos Santos Populares. E agora, sem turistas que bebem milkshake e comem paelha tradicional portuguesa na Rua Augusta talvez possamos voltar a Alfama, comer uma sardinha a um preço normal, e dançar sem sermos esmagados pela libertação do frio do norte da Europa.

Assédio e Sedução, no Palavra de Honra

Ontem debatemos o assédio, aqui fica o programa completo que pode ser ouvido no link. Destaco uma nota – a do Joel Neto sobre o papel do jornalismo, em particular do jornal Público ao ter publicado uma denúncia de alegado assédio que, em momento, algum a lei configura como tal. Qual é o papel do jornalismo nestes casos e nestes debates? Que vai ser de jornalismo se é exercido nestes casos em nome da propagação das redes sociais, à procura de partilhas pelos propino jornal, e não em nome da verdade, da investigação, da verificação de fontes, portanto, da informação?

https://www.rtp.pt/play/p8129/palavra-de-honra

“Comunidades Imaginadas”

Benedict Anderson chamou às nações “comunidades imaginadas”. Poucos terão reparado que as fronteiras regressaram à Europa neste ano, com bloqueios que nos fazem lembrar as filas para passar Espanha antes de 1986, sendo que não fomos preparados com cervejas e caramelos para passar o tempo de espera. Por outro lado a digitalização torna tudo frio, já não há tempo para observar o guarda fronteiriço e as suas prováveis indiossincracias. Vivi e trabalhei na Alemanha, agora na Suiça em plena pandemia, a viajar todas as semanas por razões laborais. O que tenho assistido por esta Europa fora é digno de registo, sobretudo agora que em plena cimeira se afirma a solidariedade europeia, todos a uma só voz. Na Europa solidária há de tudo um pouco, só não há dois países com as mesmas regras: há países que pedem PCR outros só antigénio; outros 48 horas, outros 72 horas; há os que obrigam quarentena e outros que não; uns 10 dias, outros 14 dias; há os, como Portugal, que impedem o acesso dos próprios residentes ao país se não tiverem PCR, claro que muitos há que não fazem tal aos seus próprios cidadãos! – o bom aluno nunca falta às aulas. Vi em Madrid vários portugueses ficarem na fila sem embarcar para o seu próprio país…desde que seja por ar, por terra não há PCR, Dra Graça; há na Europa os que verificam ostensivamente cada papel, um QCode, o PCR, o CC, o formulário, outros passamos como se nada fosse; há os que decidem que só voamos com máscara cirúrgica, outros com F2, outros ainda pode ser de pano – imagino o que será a Europa social solidária se não alcançámos ainda a famosa PMC Política Máscara Comum. Evidentemente que todas as variantes na Europa estão espalhadas porque há milhões de pessoas que vivem num país, trabalham noutro, as cadeias logísticas estão interligadas e há milhares de casamentos mistos. Somos europeus. Pedir um PCR a quem vem de Madrid é o mesmo que o pedir a quem vem do Porto. O vírus não é imaginado, infelizmente, mas a comunidade que pensa que ele conhece fronteiras é.

Resposta de Peralta e de Judice

Os dois artigos de resposta de José Miguel Judice, e de Susana Peralta – deixo-os aqui em acesso livre agora. Obrigada a ambos pelo debate com tanto nível (é raro neste país fazer-se um debate frontal de ideias, com discordância, que não termine em argumentos ad hominem). Aqui ficam, voltarei como prometido ao debate.


Artigo de José Miguel Júdice”Quem deve pagar a crise? O meu acordo com Raquel Varela”A Professora Raquel Varela escreveu no PÚBLICO de quinta-feira um texto intitulado “Quem deve pagar esta crise? Um debate com Susana Peralta e José Miguel Júdice”. Quero começar por dizer que o que ela refere corresponde ao que venho declarando em público há anos.No entanto, ela afirma o seguinte: Miguel Júdice, no seu espaço de comentário da SIC (29-9-2020), defendeu a mesma ideia de Susana Peralta. Para ele, uma família que ganha mais de 50 mil euros brutos são, cito, ricos. Mais de 100 mil brutos “milionários” e mais de 250 mil “multimilionários”.Quando se usa o raciocínio irónico, como eu fiz, por vezes somos mal interpretados. Foi o que aconteceu. Vejamos o gráfico que surgiu nos écrans da SIC Notícias no dia 20 de Setembro e no mesmo dia no Expresso online:FotoTudo o que então disse (e repeti em programas seguintes) foi no sentido de demonstrar a brutalidade dos impostos sobre o rendimento das famílias e a necessidade de os baixar. Por isso propus, e venho propondo, que haja um choque fiscal sobre as famílias que pagam IRS com rendimento bruto inferior a 50.000 euros por ano. E apenas sobre esses, não por discordar que a redução atingisse todos, mas devido aos constrangimentos orçamentais conhecidos e a considerações de (in)justiça relativa. Também por isso, a minha proposta é que esse choque fiscal não tenha para já efeitos nos escalões superiores. Com esta cautela, o que proponho é viável. Sem ela, acabaria a ser dito que eu proponho baixar o IRS aos ricos.Para reforçar a brutal carga fiscal usei o célebre critério dos 0,1% e 1% do total dos contribuintes e disse que por esse critério as 0,06% famílias do gráfico serão os nossos multimilionários, os 0,8% serão os nossos milionários e os 4,3% (que têm rendimentos brutos entre 50 e 100.000 euros) serão os nossos ricos.Como Raquel Varela refere, não é verdade que seja rico quem ganha menos de 100.000 euros brutos por ano. E isso é motivo para ninguém com um mínimo de bom senso sequer pensar em aumentar o IRS e demonstra que somos um país muito pobre em comparação com os países da OCDE, mesmo se olharmos para os menos pobres entre nós.Por isso, desfeito o equívoco, concordo com Raquel Varela e saúdo o seu texto. E quero continuar a debater com ela. Até porque a proposta de choque fiscal que defendo vai ter evoluções importantes em breve.”
Artigo de Susana Peralta”O que é ser rico em Portugal? (Um debate com Raquel Varela)”Raquel Varela escreveu ontem um texto para debater comigo quem deve pagar a crise. Vamos, então, ao debate.Numa entrevista ao PÚBLICO, publicada a 20 de abril, o Sérgio Aníbal perguntou-me o que são os rendimentos mais altos e se não apanhavam a chamada “classe média”. Eu respondi com um facto: só há 10% dos contribuintes que ganham mais de 50 mil euros brutos por ano por agregado familiar. Na verdade, arredondei para cima, porque há apenas 8,75% dos 5,3 milhões de agregados que entregaram declaração de IRS em 2018 com rendimento bruto acima de 40 mil euros. Mas também disse que há muito rendimento que não é tributado e não surge nesta estatística, o que faz com que a carga fiscal seja injusta.Ao contrário do que afirma Raquel Varela, eu não estava a defender que a carga fiscal sobre estas pessoas deva aumentar. Mas também não disse, nem digo, que não devia. O meu objetivo foi chamar a atenção para dois factos: que não é preciso ganhar muito para fazer parte dos mais ricos deste país e que, se há muito rendimento que aparece nas contas nacionais e não na Autoridade Tributária (AT)​, é porque há formas, muitas delas legais, que fazem com que ele desapareça das malhas tributárias.Os números que aqui deixo incluem rendimento de trabalho e de capital. No caso da World Inequality Database, chegam mesmo ao rendimento de capital tributado em sede de IRC. Quem detém o rendimento, em última análise, são sempre as pessoas. A separação entre capital e trabalho perdeu importância no mundo dos CEOs e dos trabalhadores bem pagos dos sectores dos serviços e financeiro, que combinam rendimentos de capital e de trabalho. Está na altura de pensarmos em rendimentos elevados, independentemente da fonte.Quem são os 1% mais ricos? Os valores aqui reportados da AT são todos aproximados, porque a informação disponível não me permite situar exatamente o percentil. O top 1%, na AT, em 2018, são os agregados com mais de 100 mil euros por ano. Detêm 8% do rendimento bruto e contribuem quase um quarto da coleta. No Inquérito às Condições de Vida e do Rendimento (ICOR), do INE, os top 1% têm mais de 137 mil euros por agregado. Na World Inequality Database (WID), o valor para Portugal corresponde a 150 mil euros por adulto.Quanto aos 10% mais ricos, na AT são os agregados com mais de 40 mil euros, que detêm um quarto do rendimento bruto e suportam 40% da carga fiscal. No ICOR, o top 10% são os agregados com mais de 56 mil euros e na WID são os adultos com mais de 50 mil euros. Os valores na WID são por adulto e os restantes por agregado. A conclusão que se impõe é que há muitos euros em falta das declarações de IRS. Passo a explicar porquê.No Twitter, coloquei no outro dia umas estatísticas da WID e alguém, surpreso com as discrepâncias com a AT, sugeriu que estas “cheiravam mal”. É tudo absolutamente inodoro. Há várias fontes possíveis para analisarmos a distribuição do rendimento e nenhuma é melhor do que a outra. As estatísticas de IRS publicadas pela AT têm o rendimento tributado, em sede de IRS, no momento da declaração de rendimentos. Não têm o rendimento todo. Por exemplo, os rendimentos de capital que são tributados na fonte, com a taxa liberatória de 28%, são de englobamento opcional. Isto é, cada contribuinte pode decidir se quer ou não somá-los ao rendimento restante. O englobamento implica que o rendimento de capital é tributado à taxa marginal, que depende do rendimento total. Logo, são os contribuintes mais ricos, com taxas marginais superiores a 28%, que têm interesse em não englobar os rendimentos de capital e, por isso mesmo, é mais provável que o rendimento em falta nas declarações de IRS seja precisamente dos mais ricos.A outra razão para o rendimento não aparecer todo nas declarações de IRS é que há estratégias de planeamento fiscal agressivo que fazem desaparecer rendimento. Estas estratégias, umas mais legais do que outras, envolvem quase sempre passar rendimento entre as esferas do IRS e do IRC, e são também mais utilizadas pelos contribuintes mais ricos. Do lado dos contribuintes mais pobres, os agregados familiares com rendimento até 8500 euros por ano não são obrigados a entregar declaração de IRS. É outra parte do rendimento, menos substancial, que não está nos dados da AT.O Inquérito às Condições de Vida e do Rendimento é baseado numa amostra e o rendimento é declarado pelos próprios – logo, medido com erro. Mas tem duas vantagens: inclui as transferências da segurança social e cobre toda a população, mesmo aqueles mais pobres que não declaram IRS. Finalmente, temos a World Inequality Database, que produz estatísticas de distribuição do rendimento combinando os dados da AT, os inquéritos e as contas nacionais, procurando que a distribuição do rendimento reflita a totalidade do que é gerado no país num determinado ano, plasmado nas contas nacionais.O Luís Aguiar-Conraria escreveu há dias no Expresso que era bom que nos convencêssemos que “a decisão de aumentar os impostos é tomada não quando estes sobem, mas antes, quando se aumentou a despesa pública”. Eu acrescento que era bom também começarmos a debater isto de forma adulta e informada. Podemos eliminar tributações autónomas, esquemas vários de otimização fiscal de empresas e pessoas, possibilidades de dedução de despesa em sede de IRS, criar mais um escalão no top 1%, mudar as taxas marginais dos escalões mais elevados ou mexer no IRC. O que não podemos é continuar a fazer apelos ao novo contrato social sem pagar para ele. E podemos, claro, discutir se queremos tributar a riqueza. Quando Raquel Varela refere que as 25 famílias mais ricas de Portugal têm 18 mil milhões de euros e contrasta isso com os 50 mil euros por ano dos agregados, supostamente médios, que eu supostamente quero tributar, está a misturar património com rendimento. Alhos com bugalhos, portanto.Eu também gostava que o país fosse mais rico. Mas não é por um rico português ser pobre quando comparado com um rico dos Países Baixos que ele é menos rico quando comparado com um pobre português. E, já agora, onde está a famosa classe média? Se for quem fica a meio, com metade dos agregados mais pobres e a outra metade mais ricos, é um agregado com 23 mil euros brutos, de acordo com o ICOR, e um adulto com 15.600 euros, de acordo com o WID. Nada que se compare, portanto, aos 50 mil euros brutos que Raquel Varela utiliza para a definir. Não, a nossa classe média não gasta 200 euros num dia a “ir ao teatro e comprar um livro a cada membro de uma família de quatro e jantar”, muito menos despende 700 a 1000 euros por mês para se alimentar “com qualidade”. Raquel Varela, de quem também aprecio lutas várias, tal como ela afirma apreciar outras minhas, acha que a classe média são as pessoas que têm o orçamento da família dela. Lamento, mas não são.”

Quem deve pagar esta crise? Um debate com Susana Peralta e José Miguel Júdice

O meu artigo hoje no Público (tb em versão impressa) em debate com Susana Peralta e José Miguel Judice sobre quem deve pagar a crise.”Susana Peralta deu uma entrevista aqui no Público onde defendeu o aumento de impostos para os sectores médios, quem ganha mais de 50 mil euros por ano, argumentando que a crise mostrou um país desigual, não há dinheiro e são precisos apoios sociais. Miguel Júdice, no seu espaço de comentário da SIC (29-9-2020) defendeu a mesma ideia de Susana Peralta. Para ele uma família que ganha mais de 50 mil euros brutos são, cito, ricos. Mais de 100 mil brutos “milionários” e mais de 250 mil “multimilionários”. Sublinho – destes 50 mil euros brutos 50 a 70% são impostos (diretos, indiretos, taxas) e contribuições sociais. Ou seja, restam a esta família cerca de 2 mil líquidos.Por sua vez as 25 famílias mais ricas de Portugal têm 17,9 mil milhões de euros (dezoito mil milhões), o equivalente a 10% da riqueza nacional. Serão o quê para Júdice? Ultra-híper-super-multimilionários?

Em 2020 a parte do trabalho no PIB era de 35%, a do capital 41%. Mas os trabalhadores por conta de outrem são 4 milhões, os empregadores 222 mil. Há dinheiro; não está é na classe média. Os impostos sobre estas famílias e as corporações caíram de 55% na década de 80 para os atuais 20%… É preciso impor a um sector específico de empresas e famílias o ónus da resolução da crise social, cujo rendimento é cada vez mais – e de forma obscena – desfasado da condição da grande maioria da população. Eles são os ricos, que devem ser taxados. Não devemos taxar mais um médico ou um professor, mas envergonhar-nos do salário que têm nos serviços públicos e essenciais. Para sair da crise temos que subir os salários.

A taxação extra é uma medida a la troika: um empresário português que desvie o pagamento dos seus impostos para a Holanda onde obtém um “desconto” é um “empreendedor que subiu a pulso”; um professor ou um médico, um “privilegiado”. Parte da esquerda substituiu a luta pelo pleno emprego pelo direito ao subsídio de desemprego; o Estado Social pelo Estado Assistencial. É uma política que recorda a doutrina social da Igreja Católica: não há sujeitos que lutam, há vítimas que “precisam de apoios”. Os apoios sociais são pagos pelas reformas e segurança social dos trabalhadores, numa política de transferências dos sectores médios para os mais baixos, que pauperiza todos. Isto tem diminuído a desigualdade? Não creio: os médios são cada vez mais pobres, há concentração de riqueza e uma ampla camada de proletários, com os setores médios a serem massacrados por baixos salários e uma carga fiscal insuportável.Por isso não temos hoje no país uma classe média, esta foi proletarizada. O “privilégio” em Portugal é não ser miserável. 50 mil euros brutos são 2000 euros líquidos por casal, é o que pode ganhar um casal de professores no topo de carreira, ou de enfermeiros com muitas horas extra, motoristas, maquinistas.

Mesmo se fossem 50 mil euros líquidos estamos a falar de pagar as contas: 4000 por casal é o que ganham dois médicos em exclusividade no SNS com 20 anos de carreira, dois enfermeiros com dupla jornada, dois professores que dão explicações extras, e dois operários que trabalham de noite e aos domingos. Um casal que queira ir ao teatro e comprar um livro a cada membro de uma família de quatro e jantar gasta num dia 200 euros, se quiser colocar os filhos num ATL nas férias com qualidade são 300 euros por semana, se alugar uma casa em Lisboa são 1500 euros, se se alimentar com qualidade gasta 700 a 1000 euros por mês. Esta é a realidade. Assim, temos uma classe média pobre, esgotada, cujos filhos emigram, cérebros essenciais ao país saem, ausência de mobilidade social, exíguo mercado interno (quem pode comprar, e o quê, com estes salários?), desgaste cultural e científico. E uma população triste e desesperançada. Mais de 50% dos portugueses trabalha até 70 horas semanais, de facto, porque com os 2000 ou 4000 euros do salário, por 8 horas de trabalho, não consegue viver bem. Pelo que fazem horas extraordinárias (em permanência) com consequências, estudadas, de desgaste na saúde, burnout, desmotivação, doenças do trabalho (os nossos estudos no Observatório para as Condições de Trabalho e Vida mostram mais de 60% dos trabalhadores em exaustão). Acresce a degradação da qualidade de vida – mais de metade considera que a sua vida afectiva e sexual está afetada pelos longos horários de trabalho.

Os baixos salários, e a resignação ideológica que origina a falta de esperança, trazem todo um rol de mal-estar social: insegurança, má alimentação, casas geladas, saúde degradada; má qualidade de tempos livres, com os filhos perdidos durante horas agarrados a ecrãs, ausência de acesso à cultura.

Há também a realidade, com a qual Susana Peralta se preocupa com perseverança (preocupação que admiro), de quem ganha 600 a 900 euros/mês. De 10 milhões de portugueses 47% são pobres – depois das transferências sociais são 18%. A linha de pobreza só considera pobre quem é miserável, mas a realidade é outra – o ISEG calculou o salário mínimo real em Portugal: seria de 1100 euros. Há 5 milhões de ativos. E mais de 3 milhões de ganham até 1000 euros, são de facto 3 milhões de pobres e muitos pobres. E por isso estão numa destas situações. Ou em casa dos pais, ou a dividir casas, sem filhos quando os desejam, sonhos ou planos de futuro, e frequentemente adoecidos em pré-reformas aos 55 anos por desgaste dos sobreturnos. Ou, ainda pior, na ignomínia de trabalhar 8 horas por dia e ter de depender parcialmente do Estado, da caridade ou da família, e provar sistematicamente a sua pobreza: nas escolas dos filhos para ter comida e livros, no hospital onde lhes gritam no guichê “Está isento?”, a rastejar aos serviços públicos, pedir casas à Câmara, fazer prova de “pobreza energética”, e outros eufemismos de um país que se resume assim: a burguesia, não a do teletrabalho mas a classe proprietária das principais empresas, investimentos (banca) e que tem a hegemonia no Estado, não tem qualquer plano estratégico para o país, que se vê sem mercado interno, a não ser vendê-lo de 5 formas: exportações baseadas em baixos salários, turismo, exportar força de trabalho (emigração), especulação imobiliária e rendas fixas (dívida pública). Este pentágono do atraso é apresentado pelos governos como “saída da crise”. Portugal, o “bom aluno”, acelera alegremente rumo ao precipício.

Os processos que colocaram sectores médios da classe trabalhadora em luta por condições de trabalho e salários (que teriam um efeito de melhoria, por arrastamento em toda a sociedade), como as greves de enfermeiros, estivadores, motoristas, não tiveram apoio público. Apesar de eles terem sido os únicos nestes anos que disseram, em ações de luta concretas: queremos um país a sério onde possamos viver. Tiveram do Governo requisições civis e militares, instrumento nunca usado na pandemia para colocar sob comando único o sistema de saúde – a única medida eficaz e socialmente justa para salvar vidas. De um lado desempregados e baixos salários, do outro exaustão de horas extraordinárias – ambas são tendências antissociais, desagregam as sociedades. O trabalho é um direito, o subsídio, uma dependência que retira dignidade às pessoas. O trabalho humaniza, a dependência de subsídios desumaniza (e ainda alimenta o ressentimento social, e tudo isto por sua vez nutre a extrema-direita). Se não quisermos debater outra sociedade – eu gostaria de o fazer, de debater a sustentabilidade social na ótica da economia política do bem-estar e da felicidade (Bourdieu) –, fiquemo-nos pelo essencial: as pessoas não precisam de apoios sociais, precisam de trabalho digno. “

Raquel Varela, Historiadora, Universidade Nova de Lisboa

https://www.publico.pt/2021/05/06/opiniao/noticia/pagar-crise-debate-susana-peralta-jose-miguel-judice-1961308

A Índia em Odemira

Agora que Portugal descobriu Odemira talvez se perceba a fantasia que é defender confinamentos no Brasil ou na Índia (idem em Portugal, da Amadora a Odemira, pela sobrepopulação por m2 nas casas). Em Nova Deli há 20 milhões de pessoas, 4 milhões vivem na rua, e a outra grande maioria vive numa espécie de “casas” à razão de 20 a dormir juntos. Não há onde alojar os trabalhadores em Odemira, imaginem no Brasil ou na Índia. Também – deixando de lado a pala opaca do eurocentrismo – já devia ter ficado claro que, para esta camada de trabalhadores, a viver em condições de escravatura, o Covid deve ser a centésima causa de morte, e é por isso a centésima das suas preocupações, depois do frio, da fome, da tristeza e da humilhação, de que morrem todos os dias, e de dezenas de doenças muito mais graves originadas pela pobreza e a falta de vontade de viver uma vida que não é. Vejam a este propósito o filme o Tigre Branco – foi a primeira vez que vi um filme que mostrou o que vi na Índia, onde, há 4 anos, passei por várias pessoas em Nova Deli e fiquei tão mal, em silêncio, e o meu colega e historiador BP comentou comigo “acho que algumas destas pessoas que estavam no chão estarão mortas hoje ao fim do dia”. Era uma rua, no mercado velho, com milhares de pessoas que davam encontrões, entre si, e pisavam os milhares que estavam deitados pelo chão. Vi uma menina, quando ia a caminho do aeroporto e o táxi parou numa fila muito tempo, a levantar-se do chão onde dormia, fazer necessidades à minha frente, passar água em alguma parte do corpo, vestir o uniforme e seguir para a escola. Que dor, que mundo insuportável. Uma colega minha, que luta nas montanhas da Índia contra o feminicídio, indiana, premiada de uma ONG, disse-me quando esteve aqui em casa, depois dessa viagem que fiz, e lhe contei os meus sentimentos sobre a Índia, “estou na Alemanha (estava com o marido em viagem) e visitei os campos de concentração, e o que vejo ali no Museu não é muito diferente do que vejo hoje em algumas partes da Índia, as condições de vida, fome e sofrimento”. Como contar-lhe, a ela, que aqui se vêem notícias que falam da necessidade de um confinamento na Índia…É tudo arburdo, mas é um absurdo que só o eurocentrismo e a falta de noção das classes médias podem explicar.
Um pouco mais de empatia com as classes trabalhadoras, e um pedacinho menos de eurocentrismo, e compreenderíamos que só uma coisa podia ter salvo vidas (aqui e na Índia) – a requisição unilateral e sob comando único dos serviços e insumos de saúde no mundo. Mas isso seria ir contra os governos em vez de os apoiar nos confinamentos. Vejamos, não é que há um negócio que floresceu na área da saúde durante a pandemia, há vários – vários que ficaram, nessa área, milionários. Sim, entrámos e saíamos da pandemia sem um único negócio essencial à saúde pública ter sido requisitado, nacionalizado ou expropriado, enquanto milhões de pessoas foram expropriadas do seu emprego e por isso da sua vida, com os confinamentos. Os negócios não foram só em torno dos medicamentos, dos testes, das vacinas, nada disto é ou foi público neste período, em que a milhões se pediu para perder o emprego e “sacrificar-se pela saúde pública”. O negócio chegou a algo tão elementar como o oxigénio é produzido por 3 empresas à escala mundial, que se recusaram e recusam quase sempre a utilizar a capacidade instalada para desviar a produção de ar de utilização massiva nas indústrias e diversas fábricas – que nunca pararam – para hospitais. Portugal não precisa de dar oxigénio à Índia porque…a Índia é o maior produtor mundial de tal coisa! E também o é de vacinas. Só que na Índia não há casas, não há hospitais e o oxigénio para as fábricas nunca parou de ser produzido. Na índia perdem-se por ano dos pais 80 mil crianças. Em que mundo vivem parte dos europeus, das classes médias no sul global? Em que momento acharam que o COVID era o drama de pessoas que não têm nada? Segundo uma reportagem do Izquierda Diario argentino há 3 corporações que controlam 90% da produção de oxigénio no mundo – Air Liquide (francesa, opera em 80 países), Air Products (norte-americana, em mais de 50 países) e Linde (em mais de 100 países). Esta última juntou-se com a Praxair en 2018, una empresa dos EUA. No total facturaram U$S 61.500 milhões.
Bem vindos ao mundo real. Ou o mudamos realmente ou confiamos que os governos confinem as pessoas para elas não verem a realidade do mundo que não mudámos. Dando, assim, ao Estado poder para impor limites à liberdade e criando um clima, contagiante, de denúncia pública dos que carregam o vírus, a peste, por estarem vivos, enquanto lhes gritamos “Porque não te confinas tu, que vives na rua?”.

ALORV e a mediocridade nacional

Na semana passada circulou na ALORV (Associação Lisbonense dos que Odeiam a Raquel Varela), com residência no facebook-Principe Real, um vídeo sobre mim, num programa de suposto humor da Rádio Renascença, que achou graça eu ter trocado o nome do pianista Sokolov, por Solokov. Tem 40 mil visualizações em 10 milhões, uma adesão de massas (agora terá mais), mas como há algumas coisas ali sérias (vigilância detalhada de 360 programas de TV!), achei por bem deixar-vos esta pequena nota.
Primeiro dizer que achar graça a trocar o nome do pianista ou a profissão tem algo de decadência nacional – tem a mesma graça de uma piada que eu fazia sempre aos meus filhos com 4/5 anos, era dizer “chichi e cocó”, às vezes aparecia no quarto deles de surpresa a dizer “chichi” – os tipos, de grandes bochechas e olhos enormes e doces, riam com gargalhadas de crianças felizes, contagiantes. A menos que sejam membros da ALORV, não vos causa estranheza num país com o Herman e o RAP alguém se divertir com tal piada? Certo – o humor é livre e é subjectivo. A critica à infantilidade dos conteúdos de entretenimento, porém, é muito objectiva – as coisas têm ou não qualidade objectiva, e em Portugal o declínio dos conteúdos é parte da degradação cultural. Tudo o que tem cultura – oh senhores ir à Gulbenkian! – é por sua vez alvo de despeito. Esses arrogantes que frequentam espaços culturais de qualidade e ainda dizem-no publicamente!
De degradação cultural falava eu no vídeo – que deixo aqui completo – demonstrando factualmente que mais de 80% dos portugueses não consegue ter acesso à cultura porque não tem dinheiro para tal. Uma família que vá ao teatro, cinema e concerto num mês para 4 gasta o salário mínimo. Isto tem arrastado a cultura portuguesa para baixo, e é um problema pré-pandemia porque com salários exíguos não há mercado interno e sem mercado interno não há escala para os artistas se desenvolverem. Como no passado, quem pode vai à Gulbenkian ou apanha um voo para Madrid – e isso, a degradação da cultura e dos salários dos artistas – é um problema real de Portugal, que devia ser combatido muito para além dos subsídios (necessários). Esse seria o debate a ter a partir do meu vídeo.
Mas o debate foi porém a Raquel Varela e o programa estratégico da ALORV – as alarvidades dos ALORV estão desenhadas no seu plano quinquenal. Os seus militantes não conseguem dormir em paz com o meu trabalho – atenção que este é um mal nacional, a mediocridade, a existência de poucos intelectuais públicos, os poucos lugares na Universidade, e no sector privado, pouco jornalismo independente, tudo isto cria a famosa inveja nacional – há uma parte importante das pessoas em Portugal cujo trabalho árduo é impedir ou lamentar o trabalho alheio. Cada vez que publico um livro, um estudo, na ALORV recalcam o ressentimento e publicam…mais um post no Facebook.
É aqui que vem a parte interessante e grave. Segue-se, a seguir à troca de nome no vídeo da Renascença, 5 cortes de programas meus desde 2013! onde se pretende demonstrar que eu faço tantos trabalhos que, ou não os faço, ou não os posso fazer bem, por serem demasiados para uma só pessoa (ignoram que trabalho muito, é certo, mas também em equipa e colectivos maravilhosos). O curioso (e grave) é o seguinte – desde 2013 participei em cerca de, calculo, 360 programas de TV. Há uma pessoa ou pessoas cuja vida é ver todos estes programas numa semana e conseguir cortar os 5m em que refiro o meu trabalho. A ALORV tem uma espécie de agente da STASI, um infeliz, cujo trabalho é viajar cada passo meu e ao fim de 7 anos conseguiu encontrar a minha falha cientifica imperdoável – troquei Sokolov por Solokov! “A camarada esteve mal, tem que ir à comissão de moral do Partido pedir perdão.”
Aproveito para dizer que o concerto foi maravilhoso, inesquecível.
Deixo à ALORV o meu cv completo (122 páginas para entretimento, defendidos em provas públicas) e o vídeo completo onde debato a questão do acesso à cultura pela população em Portugal. Deixo também uma sugestão – o livro Ressentimento da psicanalista Maria Rita Kehl. Deixo-o com boa vontade, porque ela explica como ele é auto destrutivo. Imaginem o que não teriam feito de criativo nas horas que passaram a (re)ver 360 programas de TV e como este trabalho de vigiar o “inimigo” à procura do inútil é do foro da patologia social.
Conto-vos finalmente outra história, esta divertida. Como tenho uma participação na esfera pública, e ligada à minha produção científica, semanal e há muitos anos isso exige-me algum grau de concentração e tensão, que equilibro com trabalho, viagens e uma vida familiar muito feliz, e acarinhando as amizades. É como ter sempre um jogo na mão de bolas a circular e não deixar cair nenhuma. Isso faz de mim um pouco stakanovista – trabalho muito e organizo tudo, excessivamente. Sei que os meus erros (não os lapsos, como o do vídeo) nunca seriam perdoados, apesar de ser perfeitamente normal (e saudável) errar. Na minha equipa erro é natural e sem ele não há ciência, errar e debater o erro é um sinal de força e seriedade. Mas na vida pública erro é prova de fragilidade – isso exige-me não só muito estudo de diversos assuntos (muito apoio de colegas em temas que não domino), como uma contenção e atenção muito dedicada quando falo em público. Também tem o outro lado, o reconhecimento público, todos os dias alguém me aborda na rua com palavras generosas, sobretudo repetindo uma frase que me deixa encantada “obrigada por ser a voz de quem trabalha”. Sei que é um exagero das pessoas, a influência das figuras públicas é muito menor do que se pensa, mas ser intelectual público tem, como tudo na vida, exigências e recompensas. Ora, para lidar com a tensão inventei uma nova forma de falar lá em casa, de vez em quando borrifo-me nas palavras e aponto para o comando da TV e digo, “passa-me o esquentador por favor”; ou olho para o creme e digo “tens que usar o azeite” – é um apetece-me dizer coisas sem pensar. Tal escape, que é uma brincadeira, passou a ser uma diversão para o meu marido e filhos, e eu faço-o inconscientemente, 3 ou 4 vezes por mês troco com alguma imaginação o nome às coisas e eles divertem-se imenso. A Renascença não sabe o que perde, dava mais 2 anos de programa da humorista residente para preencher a grelha e uns vídeos para verem enquanto eu estou na Gulbenkian a ver o electricista tocar violoncelo.
Haja saúde!

Eduardo Gageiro no CCB

Desta vez presencial. Vou receber o fotógrafo Eduardo Gageiro no CCB no Conversas com História. Não faltem se puderem. Dia 16 de Maio às 11 da manhã conversa aberta também com o público.
Eduardo Gageiro nasceu em Sacavém, a 16 de fevereiro de 1935. Empregado de escritório na Fábrica de Loiça de Sacavém de 1947 a 1957, conviveu diariamente com pintores, escultores e operários fabris, que o influenciam na sua decisão de fazer fotojornalismo. Começa a sua atividade de repórter fotográfico no Diário Ilustrado, em 1957. Foi fotógrafo do Século Ilustrado, da Associated Press e colaborou com grandes revistas do panorama nacional e internacional. Ao longo da sua carreira, editou mais de duas dezenas de livros, juntamente com escritores conceituados como António Lobo Antunes, José Saramago, José Mattoso, José Cardoso Pires, Sophia de Mello Breyner Andersen e Lídia Jorge.

https://www.ccb.pt/evento/conversas-com-historia-17/?fbclid=IwAR0rKMpSqj97y8vCUNN4u8FrxbhF08el7oLVnxrkjHSiLkVJz8VlUkhMxTI

Viajar e Conhecer

Uma boa notícia. Começo hoje na Suiça, na Universidade de Basileia, uma estância de investigação a convite do Instituto de Estudos Globais Europeus e da Fundação Suiça da Ciência para estudar história global da Europa, Suiça/Portugal e ligação à Ásia e rotas comerciais de trabalho na segunda metade do Século XX. Manterei, como sempre que trabalho fora, todos os meus trabalhos aqui na Nova, bem como os programas na RTP e Antena 1. Fico sempre feliz em sair, e feliz quando regresso. Levo na bagagem fazer o lago Constança de bicicleta, encontrar o meu grupo de amigos médicos que se têm dedicado na Suiça à solidariedade contra o embargo de medicamentos a Cuba (goste-se ou não do regime, proibir venda de medicamentos a um país é ignóbil), beber um magnífico Riesling, visitar Freiburgo, e subir mais uma vez, espantada pela paisagem, os Alpes.

Memória e História da Revolução

A grande batalha pela memória do 25 de Abril é uma batalha pela sua história, é no passado real e não no mitificado que se pode construir com consistência o futuro. PS e PCP tentaram controlar o aparelho de Estado e disputaram a direcção da revolução, mas a revolução não é feita por partidos, nenhuma é. Revoluções não são golpes de Estado nem conspirações, são dirigidas por partidos mas são feitas pelas massas (diferentes camadas da população), 3 milhões de pessoas em Portugal em greves, manifestações, ocupações, lutas sociais, construíram o que de melhor este país teve em 45 anos, associá-las a um viés ditatorial, caótico, não reconhecendo que foram elas, com o seu trabalho e formas de luta que construíram o SNS, a Segurança Social, a educação universal, é alinhar com a ideia, hoje dominante, de que as maiorias não podem fazer nada de bom. A rigor a história tem sido muito mais dura com a elites – raramente algo de bom foi feito sem amplas camadas da população que pela força revolucionária mudaram os países e as regiões. Nunca houve uma democracia tão plena em Portugal como nos 19 meses de revolução em que colectivamente as decisões eram abertamente debatidas, discutidas e votadas. Nunca tanta gente decidiu tanto na história deste pequeno país. Uma história total, ambicionada por todos, não é só a história dos resistentes. Mas não pode ser feita sem a história dos resistentes. Dos que não aceitaram as ordens sem primeiro as contestar, discutir e votar. E assim elas deixaram de ser ordens e passaram a ser aquilo que foram em grande medida no biénio de 1974-1975: decisões coletivas sobre a forma como uma sociedade quer viver.

Síndrome de burnout: futuro do trabalho?

Artigo imprescindível dos sociólogos do trabalho João Areosa e Roberto della Santa no Público. Tenho a honra de com eles fazer parte do Observatório para as Condições de Vida e Trabalho.

“Sinto que não consigo continuar mais”, afirma um professor atormentado pela sua rauda conversão digital para o saber-fazer didático. “Eu não posso perpetuar estas más condições de trabalho”, declara um médico, ao terminar a difícil jornada hospitalar. O leitor que vive do próprio trabalho não terá dificuldades em reconhecer tal sensação aziaga de se chegar a um – nada metafórico – “fim da linha”, na vida laboral, nos mais diferentes sectores. Se já era assim, mesmo antes do ano desta epidemia global, digamos já que, depois de mais de 100 milhões de casos confirmados de Covid-19 e 365 dias de medidas securitárias, nada será como antes. Dois eventos metabólico-sociais de vulto tomaram de assalto o quotidiano de milhões: a nova crise económica internacional e uma nova pandemia global – ou, na verdade, sindemia – que afluíram catastroficamente ao redor do Planeta.No presente momento, dificilmente há alguém que não tenha ouvido falar em “Burnout”.

A expressão determinou o debate público europeu e preencheu as páginas dos jornais sem que, necessariamente, difundisse uma definição clara e/ou um consenso científico. Mas o que é a tal Síndrome de Burnout ou – já mais precisamente – o que o Burnout é? O sentido literal desta categoria anglo-saxónica é o de “arder”, “deixar-se queimar” e/ou “incendiar-se” – de dentro para fora, de ponta a ponta, de fio-a-pavio – e não resulta numa tradução consequente – ou sequer útil – numa primeira aproximação à língua portuguesa. No vocabulário corrente, fala-se em Burnout para designar algo que parou de funcionar devido à mais absoluta falta de energia. A figuração literária implica seres humanos que já ultrapassaram uma situação limítrofe no seu desempenho de nexo psicofísico. Tudo isto foi elevado à enésima potência com o espectro do lay-off, dos encerramentos e do desemprego, em meio à simultaneidade das crises que assolam o mundo do trabalho contemporâneo.

A Síndrome do Esgotamento Profissional (“Burnout”), por fim, compôs oficialmente a 11ª Classificação Internacional de Doenças (CID11) – à Organização Mundial da Saúde (OMS) – em Maio de 2019 como uma questão social relacionada ao universo laboral. Apesar de ter sido pela primeira vez criada pelo novelista inglês Graham Greene (1960) e, então, desenvolvida – no contexto das ciências da saúde –, por um psicanalista alemão, Herbert Freudenberger, durante a década de 1970, foi a equipa liderada por Christina Maslach, no Departamento de Psicologia Social da Universidade de Berkeley (1981-2017), que dotou a tal termo com maior sistematicidade. Na sua aclamada sintomatologia triádica, o distúrbio consistiria na adjudicação dos fenómenos de: 1) exaustão emocional avassaladora, 2) sentimentos de “cinismo” (apatia) e distanciamento do próprio trabalho e, por fim, 3) sensação de ineficácia pessoal ou carência de realização socioprofissional face ao emprego.

Não é a primeira vez que um ente nosográfico algo difuso trata de instituir uma relação entre o adoecimento psíquico e físico ao ritmo e intensidade das relações laborais no curso da moderna civilização capitalista. Entre finais do século XIX e inícios do século XX, a neurastenia torna-se no diagnóstico mais comum de doença mental finissecular. Tal condição clínica – que George Beard descreve como a “neurose da vida moderna” – encontra repercussões consideráveis nas sociedades da época. O autor já arrolava o advento da nova doença com as mudanças económico-sociais resultantes da revolução industrial. Com a franca transformação das formas de trabalho, o progresso técnico e a extensão da racionalização científica, nos anos 1950, tem lugar o surgimento de novas enfermidades ocupacionais. Mas deram também azo à expressão de sintomas vagos, dentre os quais os de fadiga e cansaço nervoso. Seriam os antepassados legítimos da Síndrome de Burnout?

Mais do que a escavação arqueológica de qualquer noção interessa-nos, sobretudo, a sua história viva. Maslach, apesar das nossas críticas à conceção psicométrica e, mais que tudo, positivista – de sua produção científica –, revela farta honestidade intelectual ao recontar a sua progressiva aproximação ao termo do dito «queimar-se pelo trabalho»: “Se alguém disser que eu criei o termo Burnout (como resposta ao stress laboral intenso e prolongado), não é verdade! Ninguém o inventou – é que ele já existe há muito, muito tempo! – e surgiu natural, espontaneamente, no vocabulário das gentes trabalhadoras.” O ato de fala começa a circular como uma intenção comunicativa, articulado ao sentido de determinado enunciado, no último quartel do século XX. O que hoje nomeamos como ofensiva do neoliberalismo reconverteu os ambientes de trabalho de modo lancinante – em praticamente todo o globo – em locais tóxicos, competitivos e algo atrozes. Esta realidade atingiu, em cheio, Portugal. Mas não sem certo atraso relativo. Enquanto as políticas de austeridade difundiram-se pelo mundo, o país viveu o momento mais alto de realização da classe que vive do próprio trabalho: o inverno glacial de Pinochet no Chile coincidiu com a flor da primavera de Abril em Portugal. As greves, assembleias e manifestações estampavam a palavra de ordem: “Trabalhar para viver — Não viver para trabalhar.” O sorriso farto é a memória icónica de 74-75. Mas a cadência da história global, embora tarde, não falhou em se firmar cá.

A coerção socioeconómica sobre os trabalhadores subiu a um nível insuportável, tendo em conta o avanço das forças sociais de produção das últimas décadas. A organização do trabalho, através de novos métodos e técnicas de gestão laboral, está a recrudescer o individualismo dos trabalhadores e – ato contínuo – o seu isolamento social. A solidão reina. Muitos locais de trabalho são hoje pautados por ambientes frios, hostis e carentes de sentido. Isso fragiliza a saúde mental dos trabalhadores e potencia as raízes do adoecimento laboral. É cada vez mais difícil passar incólume aos constrangimentos da organização do trabalho. A concorrência feroz já se estendeu do chão das empresas para o interior dos próprios trabalhadores. As metas e os objetivos impostos pela organização do trabalho – diga-se, em muitos casos, inatingíveis – não consideram, via de regra, as dificuldades encontradas pelos trabalhadores diante do trabalho real. Ao se destruir os grupos operários e/ou coletivos de co-laboração, a solidez da cooperação, confiança e solidariedade entre trabalhadores desvanece no ar, fatores decisivos em qualquer sector – de operários metalúrgicos a médicos especialistas. Determinadas práticas de injustiça estão já banalizadas, dentro das organizações, e tais fatores potenciam-nos a alienação, o estranhamento, a ansiedade, a depressão e, em casos extremos, o suicídio relacionado ao trabalho. O trabalho contemporâneo transformou-se já em um autêntico palco de sofrimento. De há muito que os cravos da vida laboral se foram.Em 1870 fora exposto no Parlamento inglês – a ninguém menos que a Rainha Victoria – o Relatório às Condições das Classes Trabalhadoras dos Países Estrangeiros. Um informe oficial detalhado sobre as condições laborais com que o imperialismo dominante se depararia em cada país – da Península Ibérica ao Império Otomano, dos EUA à Grécia – à época. A secção sobre Portugal recomenda, efusivamente, os trabalhadores autóctones, pois que: “não bebem muito aos Domingos – e, por isso, trabalham bem às Segundas-feiras”. E porque «se contentam com pouco».

Já em 1880, La Revue Socialiste publicaria um reporte em tudo distinto. Um senhor barbado, que viria a ser globalmente reconhecido, apresentara um conjunto de cem questões sobre as condições de vida e trabalho das mulheres e homens trabalhadores em França, posto que as autoridades públicas – considerava-se – e as entidades oficiais, faziam inquéritos sobre tudo (agricultura, finança, comércio), sem se interessarem nunca por saber como viviam os que trabalhavam. Seu nome era Karl Heinrich Marx.Durante os últimos anos, a equipa do Observatório para as Condições de Trabalho e Vida realizou inúmeras investigações-ações-participantes, de ampla extensão e vasta profundidade, como autênticos inquéritos ao mundo do trabalho no país. Com larga tradição intelectual, desde o fim do Século XIX – “enquête ouvrière” – até os dias atuais (da Johnson-Forest de CLR James nos EUA ao operaísmo autonomista dos Quaderni Rossi de Itália), tais estudos aliam a produção de conhecimento, o contato vivo com os trabalhadores e uma revalorização do que as estatísticas oficiam ocultam, constituindo uma ferramenta poderosa de interpretação e transformação social. Com composição interdisciplinar e multiprofissional – com o trabalho de médicos, psicanalistas, psicólogos, sociólogos, historiadores, antropólogos, geógrafos, assistentes sociais, matemáticos estatísticos, engenheiros de produção, professores e investigadores – e membros oriundos de pelo menos três países diferentes, desenvolvemos aí um novo modelo de investigação sócio-histórica global do trabalho baseado, este, em três eixos: a) um programa de pesquisa social teórico-crítico, b) um método empírico reflexivo, com base em “estudos de caso ampliados”, e, c) uma história pública e orgânica ao mundo do trabalho: estudamos já aos Professores, Estivadores, Autoeuropa, Aeronautas, Jornalistas e Pessoal de Saúde. O raio-x não é nada auspicioso: país semiperiférico, trabalho barato e declínio nacional.A situação da classe trabalhadora portuguesa – tal como a descobrimos no terreno –, já muito antes de haver os novos despedimentos coletivos (e reestruturações produtivas) no PORTO DE LISBOA, na GALP, na TAP e na GROUNDFORCE, era, já, terrífica. O índice de exaustão emocional de 65 mil professores do ensino básico e secundário estavam elevadíssimos e, depois da pandemia, houve uma avalancha de reformas antecipadas em todo o sector. O desgaste rápido dos tripulantes de cabina encontrou-os para além dos próprios limites e hoje o plano de cortes e contingenciamentos, em plena crise da aeronáutica comercial, atingiu-os em cheio. O distúrbio cardiovascular na força social de trabalho da AUTOEUROPA é alarmante, para dizer pouco. O sofrimento ético entre o pessoal do trabalho na saúde é um espectro fatal, que deteriora seu nexo psicofísico e a orientação vital para o trabalho essencial. Não se trata, tão-só, dos piores salários da Europa Ocidental – neste aspeto, Portugal é um tipo de “Norte do Sul” ou “Sul do Norte”, em termos globais –, mas de algo muito maior. Por fim, o que o «Maslasch Burnout Inventory» não apreende é que, muito mais do que fatores de adoecimento individual, o chamado «Esgotamento Profissional» (OMS, 2019) envolve uma questão pública – isto é, um problema social – de organização do trabalho vivo. E isto é brutal.

Em tão austera situação, não é tolerada qualquer ilusão relativa ao tão jactado «futuro do trabalho». O nada admirável “novo mundo do trabalho” divide-se entre os que fazem do lar a nova empresa (escola, escritório, consultório etc.) e os que, destituídos de quaisquer vestígios de proteção, sequer conseguem gerar rendimento – para si ou para os seus. Até o termo «mundo do trabalho» – i.e., a observação das várias esferas da vida trespassadas pelo “horizonte” laboral – talvez tenha já se exaurido de todo. Quando o trabalho – ou a falta dele – extravasa, e passa a ser um tipo de agenciador de todos os aspetos da vida – em uma era de epidemia e de crise total –, milhões são absorvidos pelo vórtex do “home office”, com a reconversão da “ex-casa” em célula produtiva. As jornadas em muito extrapolam os tempos regulares de trabalho e as demais tarefas preenchem os já tão poucos “espaços” restantes. Paralelamente, há quem sequer logre manter-se numa faina, seja por ter sido demitido – devido à recessão – ou porque a sujeição a turnos brutais acarreta doenças. Para não falar da bestial epidemia de saúde mental que nos aguarda na próxima esquina. Alguns aficionados falam em supostos planos de resiliência social, reconversão verde, transição digital, automação ou revolução do 4.0 como um ardil para se ocultar o pior. Para que haja um real futuro do trabalho – com dignidade, esperança e bem-estar – é urgente revalorizar, i.e., para interpretá-lo e transformá-lo, o liame laboral com futuro. Urge democratizar e desmercantilizar o trabalho como um todo.

https://www.publico.pt/2021/04/25/opiniao/noticia/sindrome-burnout-futuro-trabalho-1959774

Só 15% estiveram em teletrabalho

Os dados do INE foram finalmente divulgados. Entre Abril e Dezembro estiveram em teletrabalho 15,6% do total dos trabalhadores. Disse – aqui – nestas páginas e em tantos fóruns públicos, sem os dados ainda conhecidos, mas conhecendo o que é a força de trabalho portuguesa em anos de estudos, que nunca em momento algum estiveram confinados, calculei, mais de 30% dos portugueses e portanto jamais a progressão do vírus podia ter sido atribuída ao confinamento ou ao desconfinamento. Conhecendo a composição da população trabalhadora por áreas, regiões e sectores apontei o dado de pelo menos 70% a circular sempre. Na verdade foram 85% – 84.4%. Em Lisboa 75% estiveram sempre a trabalhar fora de casa. No Norte 88% esteve sempre a circular. Nos Açores e na madeira só 1, 3% esteve em teletrabalho e no Alentejo 4,3%. O comportamento do vírus pode ser atribuído a muitos factores (estado de saúde das populações, humidade, frio, pobreza, idade, imunidade, e muitos outros desconhecidos ainda). Não pode ser atribuído a um confinamento que nunca existiu. Lamento profundamente a precipitação que tantos colegas, com quem mantenho óptimas relações de trabalho, caíram, confundido o tempo da investigação científica com a sedução da exposição mediática – a credibilidade é o trunfo maior dos cientistas e dos intelectuais, não se pode ceder nunca a nenhuma pressão política que seja contrária à busca da verdade, primeira obrigação dos investigadores. Ser um intelectual público é uma honra mas uma responsabilidade gigante – não se atiram dados e conclusões sem sustentação. Lamento também o mal que foi feito aos jornalistas, na sua maioria precários ou com medo real de perder o emprego, sem democracia dentro das redações, a serem obrigados a noticiar uma realidade que nunca existiu. As pessoas estiveram expostas ao vírus nos transportes e no trabalho e foram obrigadas a prisão domiciliária pós-laboral, uma violência para a saúde psíquica, a vida humanizada, enquanto escutavam os responsáveis políticos dizer que a culpa era do comportamento delas que ousavam tomar um café ou ir à praia. Diz um velho princípio iluminista que a realidade não se inventa, está fora de nós. A vida como ela é.