É só um lamiré

O meu pai faz hoje 70 anos. Entrou cedo na luta contra a ditadura, e teve sempre um coração anarquista-tolstoiano, que os anos, aliás, aprofundaram – despojado e generoso, nunca conheci ninguém tão pouco agarrado à propriedade embora seja um defensor radical da pequena propriedade e dos camponeses, o que o levou a conhecer como a palma da mão o Tirol, os Pirinéus, o País Basco, o Sul de França, e Portugal de uma ponta à outra. Nunca se deu bem com o mundo urbano, perante o espanto e risos dos netos disse um dia destes “Em Lisboa as pessoas passam umas pelas outras, e nem se cumprimentam”. Não por acaso tornou-se um brilhante Eng. Florestal, do tipo renascentista, domina vários assuntos e liga-os de forma a produzir encantamento em quem o escuta – vem de uma velha formação humanista e intelectual que não fragmenta o conhecimento, junta-o, numa totalidade cativante. Teve cargos de responsabilidade que o levaram junto com alguns colegas, entre eles a minha mãe, investigadora de genética do sobreiro, a uma luta permanente contra a eucaliptização do país, luta que perdeu, perderam, e perdemos todos nós. Há poucos homens neste país que saibam de florestas e ordenamento do território como ele – mas desistiu. Quando no fogo de Monchique lhe informei que o queriam entrevistar, ele respondeu-me, “não vou, os responsáveis são uns f/%$/&, vão destruir o país, diz que eu estou a plantar feijão na horta, não tenho tempo”.

Em pequeno na aldeia do Alentejo a minha avó contava que cada vez que lhe comprava uns sapatos ele voltava da escola descalço porque os tinha dado a algum amigo pobre, sem sapatos. Até hoje odeia ostentação e a última vez que recebeu um convite para um lugar muito formal disse-me “não vou, já nem tenho sapatos para estes jantares aborrecidos, depois da reforma dei esses sapatos todos!” – e riu-se feliz. Com todas as diferenças políticas que temos, nunca lhe vi tremer a mão na hora de ficar do lado de uma greve, do lado dos trabalhadores, sejam médicos ou maquinistas, professores ou estivadores, e mesmo que no Governo esteja alguém da sua simpatia. Para ele quem trabalha tem razão. Foi educado numa família que tinha sempre as portas abertas, mesmo aos caixeiros viajantes meio desconhecidos, os amigos de amigos, os primos dos primos, a casa das minha avós – Celeste e Bia, sua mãe e avó -, era literalmente a casa onde “entre quem vier por bem”; “em cada esquina um amigo”. Pela mercearia do meu avô passou muitas vezes o mais conhecido anarquista romântico, Gonçalves Correia, que lhe levou as obras de Tolstoi. Mais tarde o meu pai, na sua sinceridade, disse-me, surpreso, quando eu tinha 14 anos, “és uma ignorante”, quando lhe perguntei quem era o Tolstoi. Na sequência enfiei-me no quarto a ler Ana Karenina.

Na oposição à ditadura era ousado e divertido – tirava o fio aos eléctricos na baixa para poderem, no meio da imensa fila que se gerava, lançar propaganda proibida e fugir; passava as noites em velórios, depois das reuniões de fim da tarde para não ser apanhado pela PIDE a regressar a casa. Quando um dos netos escreveu um texto na escola desobediente a todas as normas, para a maioria dos professores foi uma enorme ofensa, embora uma professora, só uma, de filosofia, o tivesse considerado brilhante, ele – perante a nossa crítica finginda ao texto, que adorámos mas que não podíamos confessar à frente do autor, disse alto, à frente do neto, com grandes gargalhadas orgulhosas: “caramba, isso devia levar um prémio nacional de escrita!”. No PREC quando foram ocupar a sede do partido, perto da António Maria Cardoso, e como era perto do governo civil a polícia foi lá desalojá-los, e cercou o prédio, ele subiu e desceu os três andares a correr de megafone ordenando “vocês 20 para aqui; 40 espingardas para o telhado; as G3 para acolá”. Afinal não havia qualquer arma, e só havia 10 tipos na ocupação, a polícia desistiu, veio o COPCON que aceitou e deu a benção à ocupação. A sua capacidade de criar soluções, e sonhar, mantém-se intacta, aos 70 ainda sobe e desce a vida, inquieto, à procura de ideias para um mundo melhor, que partilha comigo, “Raquelinha, precisamos de conversar sobre…, é só um lamiré”.

3 thoughts on “É só um lamiré

  1. Será certamente uma das maiores riquezas que tem os seus pais…
    Quanto à história passada na Rua António Maria Cardoso, só pode ser verdade…
    Quem leu Tolstoi. e Ana Karenina.é , decerto boa gente
    Tudo de bom para si e seus mais queridos…

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