Mortos-vivos

Um aluno na Universidade de Concordia no Canadá descobriu agora que um dos professores que estava a dar aulas estava morto desde 2019…

Tenho que fazer uma explicação sobre a piada que vem a seguir para que todos a percebam e a explicação vai tirar parte da graça, mas sou obrigada a fazê-lo rapidamente. Para o marxismo é cara a distinção entre trabalho morto e trabalho vivo – dois conceitos fundamentais da economia política. O trabalho morto são por exemplo as máquinas, que foram feita por outros trabalhadores vivos. Isto quer dizer que tudo é trabalho, mesmo a tecnologia que diminui postos de trabalho já foi outrora trabalho vivo (engenharia, design, física, aulas para estes físicos, alimentação, etc). Todo o valor que existe na sociedade tem origem no trabalho. É um conceito muito importante, por exemplo, com base nisto defende-se que se há automação deve haver diminuição das horas de trabalho, distribuição de lucros pelos trabalhadores, etc, entre outras consequências. Tudo o que existe é produzido pelo trabalho, em suma.

A Guga é uma das minhas melhores amigas, professora universitária, já aposentada, somos vizinhas, está confinada há quase 1 ano, mas nunca perdeu o sentido humor, nem nós a grande amizade que nos une, mesmo se não concordamos sobre parte das medidas face à pandemia – aliás a nossa amizade nunca foi abalada por divergências, pelo contrário. Digo isto porque ela tem algum risco pela idade, embora seja magra, saudável e mulher de longas caminhadas diárias. Mas ri-se de tudo, e tem-se rido disto tudo como ninguém – o humor como antídoto do medo. Isto porque tem uma saúde mental de ferro. O comentário dela ao professor morto a dar aulas é um desses momentos de alto humor – “um professor morto a dar aulas vai-nos obrigar a uma reconceptualização do trabalho morto e trabalho vivo”. (pausa para rir sem parar)

Li hoje que em resposta ao riso generalizado pelo mundo a Universidade de Concordia emitiu um comunicado a dizer que “as aulas do professor morto há 1 ano são apenas um instrumento de trabalho” (teaching tool, no original). O capitalismo na sua fase de declínio é uma fonte inesgotável e permanente de anedotas como reacção ao horror. Um morto a dar aulas.

Podem escrever – pago um jantar se perder. Em breve (poucos anos) vamos ter isto generalizado pelo mundo (vai haver patentes sobre aulas de mortos e elas vão entrar no currículo) e grande parte das pessoas vai aceitá-las, como já aceitam chamar “sala de aula” a 20 pessoas a olhar sozinhas em suas casa um ecrã, num simulacro de ensino, que até já se chama “ensino-online”, embora ninguém ensine nem ninguém aprenda, como fazem “testes virtuais de preencher quadrados” e acham que estão a facilitar a vida aos alunos – é a automação dos professores. “Faz-se o que se pode” – respondem-me, até muitos professores respondem isto, para meu espanto.

É verdade – justamente esse é o problema – só se faz o que se pode. Não se sonha com nada melhor que poderia ser. Ninguém sonha com o melhor e vão fazendo o “que se pode”, “mais ou menos”, orgulham-se de se adaptar ao erro e chamam a isso “esforço e dedicação”, aceitando tudo. Até que um dia…há um morto a dar aulas.

3 thoughts on “Mortos-vivos

  1. Se as universidades, e escolas, são dirigidas por esquerdistas, professores esquerdistas… qual a razão de terem formado uma sociedade desigual, hipócrita e doentia?

  2. Drª Raquel, se/quando um professor diz “Faz-se o que se pode!”, acredite que nem sempre significa que não possa fazer mais nada, que não queira experimentar/explorar outras alternativas, ou até mudar algumas das condições em que trabalham. Acredite que muitos lutam e falam alto nas suas escolas para que alguns métodos e procedimentos possam ser melhorados ou mesmo alterados. Outros ainda há que, no limite das suas forças, já só sussurram sugestões e propostas. E as metas de sucesso e indicadores de medida? As medidas universais e outras que tais? E os Planos disto e daquilo? E o que mais temos ainda de fazer para que os alunos não trabalhem tanto e todos passem de ano? Uma verdadeira dor de cabeça que só pode ser evitada se cumprires escrupulosamente o que te mandam, caso contrário, “levas na cabeça”!
    Sendo profissionais especializados, a maior parte com grande experiência, pessoas e intelectuais capazes de pensar, refletir e agir, os professores quase nunca são reconhecidos como tal. Tão frequentemente, após muitas horas de aulas, e de preparação das mesmas, elaboração de materiais, testes e correções, nas horas extraordinárias (não há direito a pagamento) das reuniões, em fins de tarde, em várias estruturas pedagógicas das suas escolas, e em suas casas, aturadamente, os professores leem, analisam, discutem, concluem, propõem, decidem e escrevem – sim, escrevem muitas atas, preenchem muitos documentos, assinam muitas propostas, aprovam/não aprovam muitas estratégias, entre outros assuntos das ordens de trabalho – deixando uma grandiosa herança para memória futura e para quem se interessar por ela. Digo futura, porque ainda tenho a esperança de que esse trabalho profícuo, a energia e o tempo que consumiram, não sendo aproveitados no presente, venham a ser aproveitados por alguém com responsabilidades na Educação do país. As escolas estão cheias de gavetas, estantes e armários velhos, onde descansam papéis (muitas vezes cópias de cópias) pastas e arquivos (alguns “mortos”), e ainda computadores cheios de pastas e arquivos recheados de preciosidades pelas quais muito poucos demonstram curiosidade em conhecer. Por vezes, é necessário limpar-lhes o pó, não vá a inspeção querer fazer-lhes uma visita.
    Contudo, a desvalorização, a indiferença e o desrespeito perante o papel da Educação e dos seus profissionais tem aumentado de uma forma generalizada entre os parceiros sociais – sociedade civil, alunos, pais, Ministério da Educação e Governos. Houve como que uma “lavagem ao cérebro” e os professores e as escolas há muito que passaram a ser vistos como o “bode expiatório” do que corre mal na Educação/educação, e até na economia, sendo por isso o “elo mais fraco” da engrenagem social. Por muito que lutem e resistam, os professores foram sendo veladamente, e ultimamente, descaradamente maltratados, silenciados e esquecidos pelos poderes que os tutelam. Depois, vieram a pressão, o stress, o medo, a angústia e o cansaço. Fala-se e escreve-se (pouco) sobre o burnout da profissão, uma doença que faz com que muitos professores pareçam “mortos-vivos”.
    Agora, muitos poderão/poderiam perguntar: por que razão os professores dizem “Faz-se o que se pode!”? E por que razão são o “bode expiatório” e o “elo mais fraco”? É preciso aguçar o bichinho da investigação e querer descobrir e debater para melhor informar quem ainda não compreendeu que o sistema educativo português anda há muito a enganar sucessivas gerações de pais e filhos e a comprometer o seu futuro.

  3. Os mortos são presença diária em todo o lado. Nas aulas só falamos de mortos. Quando as tecnologias nos permitem ouvir e ver os mortos, não há que resistir mais do que quando passaram das ardósias para os cadernos. Os professores mortos só podem ter a idade da video fixação. Os restantes serão os mortos transmitidos pelas anteriores fixações: fotografia, pintura, escultura, escrita, etc. Compreendo o incómodo que será se tivermos de voltar todos ao ócio porque as máquinas (principalmente a IA) serão os escravos do futuro. Não saberemos aproveitar o tempo disponível!

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s