O que é não é

De facto temos que debater a qualidade da informação – esse é um dos alertas estruturais da conjuntura da pandemia. Devemos com calma pensar aqui também. Hoje no Público ficamos a saber o que (quem pediu razoabilidade a ler dados) já sabíamos – o Covid não vai alterar a esperança média de vida mas a falta de cuidados médicos noutras doenças sim. Como referiu Jorge Torgal há uma pandemia mais grave que é do não tratamento de outras patologias. O Público dá a notícia, com boas entrevistas mas escolhe para gorda um título que permite concluir justamente o contrário.

A gorda: “Pandemia faz esperança de vida aos 65 anos descer”

Dentro da notícia “De acordo com o relatório de dados preliminares do número de mortes de 2020, publicado pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), morreram no ano passado mais 12.220 pessoas do que a média dos cinco anos imediatamente anteriores. (…)Em relação à média de 2015-2019, morreram mais 10.206 pessoas com 75 anos ou mais, das quais 8032 tinham 85 anos ou mais. O maior excesso de mortalidade situa-se em idades iguais ou superiores a 90 anos: houve mais 5085 mortes do que a média dos últimos cinco anos. (…)Por outro lado, a demógrafa está convencida que a elevada mortalidade deste ano “não vai afectar a esperança de vida à nascença” – um indicador que, segundo os dados mais recentes do INE, se fixou nos 80,93 anos no período de 2017 a 2019. Para que a idade diminuísse, era preciso que morresse muita gente antes desta idade, e o que está a acontecer é que a maioria das pessoas está a morrer já depois, acima dos 80 anos. Portanto, se morrem muito tarde, não contribuem para reduzir o número de anos de esperança de vida”, explicou ao PÚBLICO.”

Conclusão no final da notícia: “Nos próximos anos, os maiores riscos para o retrocesso nestes indicadores são os possíveis casos em que certas situações clínicas vão ser diagnosticadas ou tratadas tardiamente devido à alocação de recursos na luta contra a pandemia e ao próprio medo das pessoas que as leva a atrasar idas ao médico.”

Ou seja, a pandemia não tem efeito na esperança média de vida (EMV) mas o medo das pessoas irem ao hospital e a desorganização do SNS sim, vai ter e é substancial. Não é a pandemia que faz descer a EMV – foi e é a inaceitável gestão da mesma, que está a matar hoje e nos próximos anos adultos que muito antes dos 70 e 80 anos. Há meses que tantos pedem uma reflexão sobre estes dados. Continuamos com gordas que afastam as pessoas do SNS, quando é justamente isso que não pode ser feito. Não adiro à ideia de que o jornalismo é todo mau, é análoga à conversa simplista dos “políticos são todos iguais”. Mas esta estratégia de medo é irresponsável perante a sociedade. Que o Governo a adopte é parte da longa crise do Estado Social em declínio. Era o momento para o sector dos media e informação reflectir, não se deixando (bem sei que não é fácil) arrastar para este declínio Estatal. Não podemos e não devemos acrescentar à pandemia grave uma pandemia gravíssima de mortes precoces. Não se deve estimular assim o hiato entre a confiança do que se publica e os dados reais.

2 thoughts on “O que é não é

  1. O jornalismo é todo mau.

    Toda a imprensa de massas é, directa ou indirectamente, controlada pelos grandes interesses económicos – e também pelas sociedades secretas – que dominam a nossa sociedade. E, isto vê-se claramente pelos seus critérios editoriais.

    1) Toda a imprensa tem agora, no topo dos seus sítios na Internet (com o objectivo de criar medo e a ideia de uma emergência) os últimos dados e informações sobre esta pandemia… Que, afinal, pela sua taxa de mortalidade não é realmente pandemia, nem reduz a EMV.

    2) Toda a imprensa diz que o “aquecimento global antropogénico” é verdadeiro.

    Sendo um dos objectivos últimos destas duas mentiras, destruir a Economia que temos, para salvaguardar muito preciosos e cada vez mais escassos recursos naturais (i.e. a verdadeira riqueza do mundo) para as elites.

    Estão pessoas a morrer por causa destas mentiras?

    Óptimo, para as elites e seus lacaios na imprensa.

    É da maneira que sobram mais recursos para as primeiras e os últimos podem ficar com mais uns restos.

  2. Com todo o respeito, Dra. Varela,

    Para quem é activista socialista, você revela uma grave falta de consciência social, no que toca à natureza da Imprensa que temos.

    Há 100 anos, incluindo no nosso País, todo o movimento socialista sabia muito bem o que era a “imprensa burguesa” – e que interesses é que esta defendia (e, presumivelmente, o quão honesta é que seria esta).

    Hoje, a Alienação é de tal modo grande que, até entre quem se considera socialista, temos quem acredite que esta imprensa é agora “independente”.

    Acham que esta imprensa quer realmente manter-vos bem informados sobre o que realmente se passa no Mundo?

    (E, preciso eu sequer de apelar a que se informem sobre quem é que detém a Imprensa que temos? Ou, de chamar até a atenção para o dinheiro que o governo já deu e ainda quer mais dar à mesma? Assim como, de chamar a atenção para o facto de que, governos e grandes interesses económicos têm historicamente estado quase sempre alinhados?)

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