É preciso proibir tablets e telemóveis nas escolas

AA ignorância, e a falta de relações sociais nas escolas deste país galopam a olhos vistos. Mas a responsabilidade é dos adultos. De todas as distopias a que mais me convence é a do colapso cultural pelo domínio tecnológico, o uso do telemóvel e tablets. O homem agarrado à máquina, dependente da máquina. Dou aulas em Associações, sindicatos, centros culturais, municípios, tenho com frequência públicos de centenas de pessoas, na sua larga maioria ou reformados ou mais velhos, todos com mais de 50 anos estão com caderno na mão a tomar notas, a escrever, a questionar, a rir-se comigo. Não sei como e quando se deu a ruptura nos hábitos de leitura das gerações mais novas. Mas ninguém se iluda – o nosso cérebro precisa de ler, descansar sobre o que leu, pensar sobre o que leu, escrever com a mão (cujo tempo e fixação na memória e reflexão é distinto do teclado), para criar mais, pensar mais e melhor.

Em Silicon Valley, onde se inventaram os telemóveis, os quadros superiores criaram escolas para os seus filhos onde não existe qualquer aparelho tecnológico, e os telemóveis estão proibidos. Descobriram por exemplo que quem usa telemóvel tem mais depressão, mais obesidade. E que quem constrói um cubo físico ganha noção de volume, quem o faz no tablet não. Que brincar e pular, colectivamente, é fundamental para produzir hormonas de bem estar, ter um fisico saudável, e saber relacionar-se. Precisam de horas e horas por dia destas brincadeiras. Os mesmos engenheiros que colocaram um tablet ou telemóvel na mão de milhões de crianças e jovens permanentemente hiper estimulados por um écran, cuja luz “azul”, brilho, repetição, e hiper actividade são destrutivos para o pensamento abstracto, e as emoções. Vou a escolas e nos intervalos há dezenas de miúdos ao lado uns dos outros cada um, sós, sozinhos, a olhar o telemóvel. Os psiquiatras já alertaram para uma epidemia de depressão por falta de afetos provocada pela solidão das redes sociais, que são uma aparência de relação. Não são “redes sociais” mas a destruição da sociabilidade. Não nos dão bem estar porque, embora elevem níveis de prazer cerebrais imediatos, no médio prazo têm o efeito contrário, destroem esse centros de bem estar localizados no nosso cérebro. Têm um efeito que hoje muitos médicos comparam à droga, como a cocaína – no imediato prazer, no médio prazo depressão. Sim, podemos estar à beira de uma catástrofe emocional, relacional e intelectual pelo domínio que os telemóveis têm hoje. Não sei como esta geração vai pensar, criar, sorrir, convencer ou discordar, gerir conflitos, e mesmo fazer amor, construir amizades, cuidar dos seus e ser cuidado.

Os meus filhos sempre tiveram regras apertadas no uso destas máquinas, às quais não tiveram algum acesso até aos 12 anos, a TV estava desligada de segunda a sexta. Liam 2 livros por dia para crianças. Este mês um deles, que aprendeu trompete, lê Sagan e Sachs, toca cavaquinho, é auto didacta de italiano, um desportista, e um tipo super bem disposto (não é um chato, marrão) informou-nos que tirou todas as redes sociais porque aquilo “distrai-o de pensar e porque não precisa de filmar e tirar fotos porque o melhor fica cá, na nossa cabeça”. Estuda ciências mas conseguimos convencê-lo que se for para ciências, ou medicina, precisa de ser culto, e abrir horizontes. Não pode só estudar biologia e matemática. Não pode não ler os clássicos. Está a tirar um curso de desenho, e ontem perguntou-nos quando vamos começar o nosso recém baptizado Clube de Cinema José Mário Branco, ao qual, sugeriu ele “podemos adicionar um clube de leitura”. Não vos digo isto para “mostrar” os meus filhos, que “geniais”. Eles são novos, educá-los tem sido um desafio, às vezes sem grandes certezas. O que vos posso garantir é que esta atitude dele vai fazê-lo mais autónomo, mais inteligente, mais critico, menos manipulável e, por isso, mais livre. Por ser ele a fazer, e não a máquina a fazer por ele.

Tenho, porém, a certeza, que esta decisão não pode ser individual, e familiar, não pode estar na mão de um tipo qualquer mais auto controlado, ou de pais mais conscientes – esta é uma questão de saúde pública. É preciso proibir a utilização de telemóveis e tablets nas escolas, seja no intervalo ou não. O Governo anunciou que vai comprar mais telemóveis e tablets para as escolas para melhorar a qualidade destas, quando as escolas para terem sucesso precisam de docentes bem pagos, turmas pequenas, intervalos maiores, redução do tempo de escola, muita brincadeira e muita ciência e pedagogia séria. Para aprender é preciso ser feliz, e para ser feliz é preciso aprender. O tablet vai ainda piorar tudo. As crianças são a nossa responsabilidade, dos adultos. Não nos podemos demitir.

18 thoughts on “É preciso proibir tablets e telemóveis nas escolas

  1. Muito bem dito.

    (E, se houver uma necessidade real de alguma criança ter algum, então que o guarde num cacifo e só o possa usar antes de entrar e depois de sair da escola.)

    A razão pela qual a classe empresarial dirigente de Silicon Valley proíbe os seus filhos de usar estes aparelhos (tal como o Steve Jobs fazia) é porque eles, melhor que ninguém, não só sabem dos seus efeitos negativos (sabiam que o deslizar dos ecrãs dos telemóveis pode ser tão viciante quanto são as “slot machines” nas quais foi obviamente inspirado? h*tps://www.telegraph.co.uk/technology/2018/10/02/pocket-slot-machines-smartphone-apps-turn-users-addicts-says/) como sabem eles também com que propósitos é que foram estes aparelhos criados.

    E, as razões pelas quais, não só estes aparelhos, como até a próprio Internet, foram criados, foram (1) para vigiar as pessoas e (2) para controlar as interacções das mesmas.

    Sobre o primeiro aspecto,

    Pensam que as câmaras e os microfones dos vossos aparelhos só são ligados quando vocês querem? Então, porque razão é que, por exemplo, o Mark Zuckerberg já foi fotografado a cobrir os mesmos? (h*tps://pplware.sapo.pt/informacao/mark-zuckerberg-tapa-webcam-do-portatil-fita-adesiva/).

    E, pensam que os vossos sistemas operativos vos garantem alguma privacidade? Então, porque razão é que há repetidos e repetidos indícios de “portas dos fundos” existentes nos mesmos? (h*tps://pplware.sapo.pt/microsoft/windows/atualizacao-windows-10-falha-seguranca-nsa/#comment-2529092 + h*tps://www.gnu.org/proprietary/proprietary-back-doors.html)

    Sobre o segundo aspecto,

    A maior parte das pessoas nem faz ideia do quão vigiada é a Internet, em si. Pois, o “Grande Irmão” (de Inteligência Artificial superavançada) que foi construído para vigiar a mesma, antes sequer desta ter sido estendida ao público, em geral, faz parte da muita tecnologia imensamente avançada que é propositadamente escondida desse mesmo público, para que possa o último ser alvo da mesma, sem que disso se aperceba (h*tps://blackfernando.blogs.sapo.pt/uma-muito-importante-e-interessante-127429).

    E, porque é que acham que há um claro incentivo para que as pessoas interajam na Internet, em vez de pessoalmente? R: Olhem para a censura política que ocorre no Facebook e afins – ou até para quem vê as suas contas no PayPal e outros serviços de dinheiro virtual serem “congeladas” (h*tps://web.archive.org/web/20171027043641/http://theworldjudge.com/trying-to-shut-down-pedophiles-will-get-you-shut-down-paypal-against-craigrsawyer-w-v4cr/) – e irão facilmente perceber tal incentivo.

  2. Pingback: É preciso proibir tablets e telemóveis nas escolas - Raquel Varela - VozProf

  3. Obrigada!!!! São minhas as suas palavras.
    É algo que me entristece imensamente, a demissão de responsabilidade de adultos, pais, instituições de ensino, governo. E o futuro, assusta-me!
    Sempre “protegi” os meus filhos do consumo dos media, sem tornar os media num tabu. Mas para a consciência de que a máquina é substituível e em última análise não é uma necessidade. A necessidade são as relações humanas, as experiências, o viver!
    Por sorte cresceram num ambiente de casa e escola na Alemanha em que está consciência também era propícia.
    Estamos a adaptar-nos agora a Portugal e a uma escola em que os meus filhos são os únicos sem smartphone e que não têm qualquer tipo de vício de jogo ou de redes sociais.
    Tentei falar sobre este tema na escola, mas senti uma grande resistência.
    Sinto pelas crianças tão novas e já tão manipuladas e alienadas, de um mundo real tão bom de viver.
    Que mais vozes como a sua se ergam e mais consciência!
    Obrigada!

  4. “Em Silicon Valley, onde se inventaram os telemóveis”
    O telemovel não “foi inventado em Silicon Valey” mas em New Jersey pela Bell Labs subsidiária da Nokia Finlandesa.

  5. No fundo as crianças precisam é de mais tempo de recreio, de conviver e de se divertirem mais ao ar livre, a diferença entre um livro e um tablet é que um tablet é um “livro” interactivo que até conversa com eles, pode é vir a ser uma excelente ferramenta educativa, falta que os manuais escolares estejam também no tablet e que os jogos virtuais sejam educativos e não feitos para psicopatas e autistas.

  6. Aprecio muito o seu empenho numa sociedade portuguesa mais elucidada e mais ilustrada e mais desenvolvida mental e espiritualmente[ não tem nada a ver com religioes)
    Mas lamento que será tudo em vao , pois o Governo só está preocupado com os votos, e tambem é muito fechado sobre si proprio o que decide- decidido está e não ouve, nem escuta mais ninguem

  7. (Aproveito para deixar aqui também uma informação “extra”, sobre um assunto secundário que menciona.)

    A propósito do que diz, no seu texto, sobre um “recém baptizado Clube de Cinema José Mário Branco” (“ao qual, sugeriu ele ‘podemos adicionar um clube de leitura'”) tenho uma muito importante sugestão de leitura a fazer…

    Que é que, ninguém deve deixar os seus filhos verem cinema, hoje em dia, sem ler primeiro um importante livro, que explica como muita deste arte, na sua versão moderna, está cheia de chamada “propaganda subliminar” – que procura instilar certas ideias e instigar certo tipo de comportamentos (por norma, negativos).

    O cinema da actualidade está, cada vez mais, cheio de verdadeiro lixo e também material verdadeiramente nocivo (nomeadamente, violência gráfica) que deve ser evitado. E, tal material (criado pelos grandes interesses económicos) não está lá por acaso – pois, visa denegrir propositadamente, e de vários modos, as pessoas…

    Se quiser saber do que falo, o livro que menciono foi escrito por um socialista, membro dos serviços secretos russos, que é bem conhecido no mundo inteiro por ser uma pessoa credível: h*tps://www.bertrand.pt/livro/o-instituto-tavistock-daniel-estulin/14530212

  8. Olá Raquel. Esse é realmente um assunto muito importante e pelo que eu vejo está presente no mundo todo. Sou brasileiro, e observo que aqui se tornou rotineiro esses comentários de professores e pais, além de se observar na rua esse comportamento não só das crianças mas de adultos e jovens com maiores tendências de ficar corcundas porque simplesmente só olham pra baixo, parecendo galinhas indo pro abate.
    Mas isso não é o que mais dói, pra mim, em relação ao convivio social , mas sim quando estamos presente em roda de amigos ou colegas e não conseguimos por 1 minuto se afastar do celular, ou quando falamos com a pessoa e esta não tira os olhos do celular esse contato, olho no olho, cada vez mais esta se perdendo. E isso é realmente um male do século da informação e do smartphone , porém me parece um tanto quanto Ludista tentar barrar essa tecnologia que se inseriu de forma tão rápida em nossas vidas. Ao mesmo tempo que tem todos seus prejuízos hoje temos acesso dentro de sala de aula de questionar o professor , ou corrigir alguma confusão ou alimentar ainda mais as aulas com dados, e etc tudo instantânea com esse nano computador de bordo. Porém de fato isso é algo que só nos níveis escolares mais avançados são requiridos.
    Outro ponto que devemos estar alerta è que mais doq educar os filhos temos que educar os pais também sobre o consumo consciente desta tecnologia, os pais na urgência de calar o choro das crianças as expõe a doses de serotonina e dopamina cavalares vindo deste ecran, igual ao do que eu escrevo, para as deixarem ocupadas. Sem falar que as crianças observam e imitam o comportamento dos adultos.
    Já em relação aos jovens, cada vez mais fazem menos sexo, e isso sem dúvida nos deixa mais robóticos nos expõe mais a pornografia e nos deixa mais distantes não só de nós mesmos mas também dos outros. Vivemos uma sociedade que adoece de tristeza, solidão, depressão, do prazer de curtissimo prazo e etc, e sem dúvida os celulares tem seu papel nisso tudo. Assim a resolução do diagnóstico é simples não é sair por aí quebrando todos os celulares das pessoas ou as proibindo , mas, em um longo prazo, educar. Afinal escravizamos a máquina ou elas nos escravizam.

    PS. Se nós escravizam num mundo distópico não muito distante a profecia da Skynet estará próxima .

  9. Mae austera em relacao a tecnologias, nao me parece mal, cada qual com a sua panca e ainda bem porque na diversidade penso estar algo que nos benificia a todos, a mim sempre me pareceu que o bom senso se encontra nem tanto ao mar nem tanto a terra. A tecnologia esta aqui para ficar, claro que como todos os vicios devera ensinar-se a ter algum auto controlo, mas a supervisao austera quase sempre gera resultados inversos ao pretendidos. Raquel Varela, espero que os seus filhos crescao felizes e saudaveis, e saudo-a por querer fazer um mundo melhor a imagem dos seus ideais, mas remar contra a corrente primeiro nao e facil e segundo quase nunca e o caminho correcto.
    Sou adepto do tentar-mos minimizar o uso da tecnologia e de usarmos todos os sentidos para nos relacionarmos socialmente e com a natureza, nada substitui a presenca fisica, mas nao da forma proposta.
    do pouco que li de si concordo com muitas coisas, nao com tudo claro.
    os melhores cumprimentos e uma boa continuacao para o blog

  10. Concordo, no geral. Sem dúvida, basta de tantos tlm/s , etc. As crianças devem voltará usar algo de precioso: o nosso cérebro.
    .No entanto, existe também , na minha opinião, um.certo fundamentalismo . P.ex. : TV .desligada de 2a a 6a feira?!
    Tudo o que é demais, não presta!

  11. Este texto não faz qualquer sentido e vai ao arrepio de qualquer pensamento educativo estruturado moderno. É uma reação populista e básica a um problema hipervalorizado que demonstra um completo e absoluto desconhecimento do que é a escola e o processo educativo.

  12. A escola onde só há adultos. As crianças deixaram de existir, aos poucos desapareceram, aquele lugar já não era saudável, a cor deu lugar ao cinzento e ao sombrio. A escola deixou de ter propósito, é um espaço de competição onde se ensina a obediência, a escola é um estranho lugar. A criação e o criador são na verdade a mesma coisa e a culpa é do espelho que apenas reflecte a degradação que parece vir de sitio nenhum. Proponho ensinar os adultos a serem crianças, vamos permitir tudo, a liberdade inclusive, vamos permitir a surpresa que só existe no entusiasmo.

  13. As tecnologias são uma realidade a que não se pode fugir sob pena de se focar para trás, tal a sua rápida evolução .As novas profissões são através do conhecimento da tecnologia .
    Agora , há que dosear o uso das mesmas, não só nas crianças ( papel dos pais e reforçado pelos professores) como nos adultos , de forma a evitar as adições que põem em causa o desenvolvimento equilibrado do ser humano , independentemente da idade .

  14. As tecnologias são uma realidade a que não se pode fugir sob pena de se focar para trás, tal a sua rápida evolução .As novas profissões são através do conhecimento da tecnologia .
    Agora , há que dosear o uso das mesmas, não só nas crianças ( papel dos pais e reforçado pelos professores) como nos adultos , de forma a evitar as adições que põem em causa o desenvolvimento equilibrado do ser humano , independentemente da idade .

  15. Partilho da sua opinião, mas acho que é possível existir um equilíbrio. É tudo uma questão de educação que devia começar em casa e tende a extinguir-se. Há que o utilizar devidamente. Em vez de obrigarem os pais a comprar calculadoras científicas que custam mais de 100 euros, que na maior parte das situações são utilizadas meia dúzia de vezes e depois ficam numa gaveta,porque não fazerem uso do telemóvel para esse efeito, por exemplo. É apenas uma opinião.

  16. Pingback: Artigo Mensal | CER - Colegio Espinheira Rio

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