A economia política dos fogos

Estava há 2 dias com uma dúvida – algo se passava que eu não compreendia, um puzzle a que faltavam peças. A pergunta que estava na minha cabeça é porque é que o Presidente da Liga dos Bombeiros, que disse as coisas mais irresponsáveis e panfletárias que alguém pode dizer nesta situação foi entrevistado 100 vezes mais do que os especialistas em fogos florestais com 60 anos de trabalho acumulado.
Quero recordar-vos que Jaime Marta Soares em cima de um fogo fora de controlo a meio da noite deu declarações em directo aos jornalistas a dizer que “tinha os meios necessários” e que as pessoas quando foram para aquela estrada certamente pensavam que o fogo estava a kms e «inadvertidamente, olhando a distância a que estaria o fogo» – contínuo a citar – não tiveram “a serenidade, o sangue frio, para fugir a essa situação”. Hoje sabe-se que as pessoas estavam a fugir não de um fogo a kms mas das suas casas a arder, onde os bombeiros, dele, não conseguiram sequer chegar. Desconfia-se de pior – algumas teriam sido direccionadas para aquela estrada pela GNR. Coloco no condicional a questão da estrada porque ao contrário de M.S. aguardo o inquérito. Ele não, ele fez o balanço da sua actuação em directo, qual presidente do clube de futebol local. Tem sido juiz em causa própria – não há em Portugal uma entidade independente que fiscalize a sua actuação, mas nem era preciso porque ele em directo, no local, no meio da catástrofe fez análises, tirou conclusões, e os jornalistas publicaram-nas. É o mesmo que eu dar nota 20 aos meus alunos sem ter olhado sequer para as teses. Esta passagem de M.S. a Deus é certamente influenciada pela ideia de que bombeiros não são políticos, ainda que o cargo de M.S. seja esse – presidente de uma Liga de Corporações que eu não faço ideia (os jornalistas fazem?) como funciona, quem representa, quem votou nele, se é por voto, nada. M.S. foi o homem que anunciou ao país, também na hora – contra a opinião dos meteorologistas e silvicultores, com cargos e doutoramentos – que tudo aconteceu por uma situação “inédita e imprevisível”. A tal que todos, sem excepção, que trabalham na área previram.
Hoje fui andar a pé, um par de horas, sozinha para pensar nesta questão – como uma Liga de Bombeiros ganhou este poder? Estamos na mão de um dirigente de colectividades que do alto da sua sabedoria fez saber ao país, em directo, tudo o que tinha acontecido, ainda estava a acontecer. E nada aconteceu como disse.
Penalizo-me por ter levado dois dias a compreender. Há uma economia do fogo – tantos o disseram e bem. Mas o que significa isso? Significa que o dinheiro é canalizado para o combate e não para a prevenção. Muitos o escreveram já. Mas o que significa isto realmente? Significa que se o nosso dinheiro de impostos é gasto na prevenção em guardas florestais esse dinheiro é usado em salário, força de trabalho, não tem, para além do consumo do trabalhador (casa, comida, roupa) nenhum impacto na economia que implique produção de lucro. Ele vai trabalhar com o cérebro e os olhos e uns binóculos. Mas são precisos muitos, ou alguns, espalhados. Mas, se o dinheiro é gasto no combate ele é massivamente usado em compra de carros de combate, equipamentos/roupas complexos, aviões, importações – adivinho alemãs – e ao que parece 500 milhões para um sistema de comunicações…que falhou. Dizem que há redundância dos equipamentos mas as pessoas estiveram quase 24 horas na aldeias sem conseguir ligar a ninguém, dependentes de um vulgar telemóvel que custa 80 euros. O paralelo com a saúde é evidente, há uma economia política da doença – se a pessoa for ao médico e aprender a alimentar-se e tiver um salário decente come bem; se ficar obesa vai mobilizar 1/6 do orçamento do SNS para medicação e afins para os diabetes. A «conversa» do médico ou do enfermeiro não dá lucro a ninguém, é um serviço, com custos exclusivos em força de trabalho. A diabetes porém é uma das mais lucrativas áreas de tratamento do mundo.
Espero não ter que repetir depois deste artigo o óbvio. O fogo não é causado por bombeiros, mas pelas razões que todos já apontaram estes dias de ordenamento da floresta. Os bombeiros são heróis. Necessários, deviam ter salários decentes e ser profissionalizados e respeitados porque ganham – cito um bombeiro numa carta aberta a Marta Soares – o mesmo num dia a trabalhar que um bombeiro alemão 1 hora de prevenção. Mas estava na hora de perguntar a muitos destes heróis se não aceitam ter formação e ser guardas florestais. Estava na hora de termos uma economia política das pessoas. A Marta Soares lamento mas do que assisti nestes dias não tenho palavra alguma de alento para lhe dar – num país a sério já estava demitido. Como estamos numa nação em decadência está ao lado da Ministra a dar conferências de imprensa, a tal ponto que às vezes me pergunto se a Ministra é que é assessora de Marta Soares.
António Costa tem passado por tudo isto com a inteligência que passa desde que tomou poder – pede calma, não tira conclusões, diz que não sabe o que se passou, e deixa que todos falem por si e digam asneiras, quanto ele é um sereno – e discreto – PM de um país em ansiedade profunda. Costa inventou a forma de fazer política: é preciso que não falem de mim.
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12 thoughts on “A economia política dos fogos

  1. Em Portugal, infelizmente, “arranjam” lugares a pessoas politizadas, que nada percebem do lugar em que foram colocados…(tacho). Isto é uma vergonha. ! Ainda vão culpar os infelizes que faleceram !!!

  2. “Os bombeiros são heróis. Necessários, deviam ter salários decentes e ser profissionalizados”

    Concordo inteiramente. Se um médico, que também salva vidas, ganha muito bem por isso, porque razão não há um bombeiro, que até arrisca a sua vida no processo, também de ganhar bem? É completamente ridículo – e até indigno – que haja corporações de bombeiros que façam até peditórios(!) para se conseguir sustentar(!). E, ainda mais ridículo é, num país onde impera uma corrupção responsável pelo “desvio” de enormes quantidades de dinheiro dos contribuintes para negócios fraudulentos, que beneficiam os interesses privados que dão ordens aos nossos políticos. (Oiçam o que tem Paulo de Morais a dizer.)

    “Há uma economia do fogo – tantos o disseram e bem. Mas o que significa isso? Significa que o dinheiro é canalizado para o combate e não para a prevenção. Muitos o escreveram já.”

    É o que também eu tenho vindo a suspeitar de… Isto é, de que o constante apontar (discreto, ou não – inclusive por parte de políticos, nos bastidores) para a indústria madeireira (que já se tem defendido, ao dizer que isto não a beneficia) não passa de uma distração. Pois, a indústria de combate aos fogos é que tem (inquestionavelmente) mesmo muito dinheiro a ganhar com tudo isto…

  3. “compra de carros de combate, equipamentos/roupas complexos, aviões, importações – adivinho alemãs”

    “o mesmo num dia a trabalhar que um bombeiro alemão 1 hora de prevenção”

    Sinceramente… Em vez de resolver arranjar soluções, mete se a culpa no vizinho… Típico!

  4. “Os bombeiros são heróis. … Mas estava na hora de perguntar a muitos destes heróis se não aceitam ter formação e ser guardas florestais.”
    Eu penso que a grande maioria dos que são bombeiros no interior do País e que estão desempregados aceitariam essa oferta, se lha fizessem (o que nunca aconteceu nem vai acontecer). Ter formação (que não há-de ser comparável à que os bombeiros têm obrigatoriamente de ter), “trabalhar com o cérebro e os olhos e uns binóculos” (que não é comparável com o trabalho que os bombeiros têm e fazem), seria um luxo para qualquer bombeiro. Depois, quando avistassem um fogo, era só ligar para os bombeiros o irem apagar. É claro que, se não houver bombeiros, o cérebro, os olhos e os binóculos são óptimos para ver e estudar o evoluir do incêndio.

  5. Drª, pelos vistos Doutorada, Raquel Varela. Relativamente ás suas conjecturas, e ideias ou desabafos, tão desacertados, talvez tivesse sido bem melhor, que em vez de ir caminhar sozinha, tivesse ficado em casa a investigar o que é a LIGA dos BOMBEIROS PORTUGUESES, bem assim como é e funcionam os CORPOS de BOMBEIROS que a protegem, e são detidos, não, não são presos, por Associações de Humanitárias de Bombeiros. Se quer saber, torne-se sócia de uma Associação, e quando houver eleições candidate-se. JC

  6. “…presidente de uma Liga de Corporações que eu não faço ideia (os jornalistas fazem?) como funciona, quem representa, quem votou nele, se é por voto, nada.”

    Na verdade os jornalistas não fazem ideia, muitas vezes, dos assuntos que abordam e que tratam. Provavelmente há muitos jornalistas que falam da Liga dos Bombeiros Portugueses (que tem o acrónimo LBP) chamando-lhe outros nomes (Liga dos Bombeiros Profissionais, Liga de Corporações, etc.).
    Tendo como data de fundação 18 de Agosto de 1930, a Liga dos Bombeiros Portugueses é a Confederação das Associações e Corpos de Bombeiros de qualquer natureza, voluntárias ou profissionais, que, estando legalmente constituídas e em efectiva actividade, obedeçam aos requisitos da lei geral e dos Estatutos da Liga dos Bombeiros Portugueses e se proponham realizar os fins neles preconizados.
    Ou seja, há 87 anos que a LBP existe, procurando defender sempre os interesses dos bombeiros portugueses. É provável que os seus dirigentes nem sempre o consigam fazer e, às vezes, tomem atitudes nas quais muitas Associações de Bombeiros não se revêem.
    Foram os associados da LBP (Associações Humanitárias, Câmaras Municipais com bombeiros, Empresas com bombeiros, Federações de Bombeiros) que votaram nos actuais dirigentes. Cada Associação Humanitária tem direito a dois votos: o do Presidente da Direcção e o do Comandante.

  7. Independentemente da pertinência do post que, em certos pontos é oportuno e válido, o que me causa espanto é que, os comentários duma esquerda radical ajudem ferozmente a direita. Porque estar sempre contra tudo? Porque sim!
    Parabéns!

  8. À medida que vamos lendo estas linhas, incrédulos, vamos ficando a pensar como um” puzzle”
    (este país) se completa com a grandeza dos crânios que(se governam) nos governam até que a ”vaca morra” e eles nem a urna oferecem.
    (Ainda querem que os imigrantes regressem… só se forem surdos e analfabetos que não é o caso)

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