Bombas, do céu e da terra

Sou das que acha que um trabalhador que resiste não é igual a um que desiste. Que fazer mal o trabalho em resposta às condições laborais más não é o mesmo que fazer bem e organizar uma greve. Olhar pela janela e parar de trabalhar não é boicote activo e consciente, como gostam os que citam Rancière. Tem valor quem junta as peças, não quem actua só, morto de pena de si próprio. Há desistentes, há mesmo, e há incansáveis, há mesmo; há quem fale muito e há quem olhe a vida com responsabilidade e acção, juntando o ser e o fazer, a palavra e o gesto. Há quem viva deprimido – desculpa contemporânea para tudo – , e quem se faz à vida conquistando o futuro. Não tenho simpatia por auto-vitimização dos mais pobres. Pena têm os patos. Não há desemprego, pobreza, ignorância que perdoe fazer-se explodir matando inocentes. São umas bestas humanas. Mas não compro a propaganda ocidental que passa em horário nobre imagens de corpos em Bruxelas e no mesmo horário nobre jamais, jamais, passou as mesmas imagens de crianças, corpos inocentes esventrados palas bombas ocidentais. As imagens que nos chegam das guerras dos nossos países são sempre uns pilotos cleans, umas luzes nos cockpits e depois uns prédios destruídos e, claro, os «nossos» homens de Estado, impecáveis, com a bandeira azul e amarela atrás, explicando ao povo como levam a democracia ao mundo. Esta guerra não é minha, nem são meus os «nossos» governantes nem choro um segundo pelo destino do Estado Islâmico. Por mim, caíam ambos com a força da civilização dos de baixo, ao som das minhas lágrimas de felicidade. Bombas, do céu ou da terra, são bombas. Se me perguntam o que fazer não sei. Sozinha não sei. Sei que não é com muros e um polícia em cima de cada um de nós que se vai resolver nada; sei que não se pode bloquear os meios de sobrevivência e produção dos povos; sei que o mundo nunca produziu tanto e tanta pobreza. Sei também que temos que voltar a reorganizar o movimento social – e para isso precisamos dos tais, que organizam e não olham pela janela. Mas o resto está por inventar. Não é por não ter a fórmula certa que apoio a errada – nenhum terrorismo de Estado resolverá o estado actual do terrorismo.

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4 thoughts on “Bombas, do céu e da terra

  1. Cada vez odeio mais os deuses e a parafernália das religiões. Que vai ser de nós, os melhores, entre a massa alienada e estes assassinos? Entre o Alá e Jesus Cristo. Entre místicos, espíritas, adoradores de imagens, peregrinos.
    Tão mal representados! Um rato de sacristia, pela mão dos alienados, invadiu a República laica, refastelando-se beatamente consolado pelo beija-mão papal! Ignominioso.
    Cada vez mais odeio este cortejo de deuses, santos e fundamentalistas ranhosos e ignorantes.
    Não consigo deixar de enviar os meus pensamentos de raiva, contra a tirania cega da mentira abjecta religiosa, aos nossos amigos belgas.

  2. Relativamente à primeira parte do seu texto, tenho-lhe a dizer que o que tem como causa eu vejo como consequência, o valor intrínseco referido é para mim uma perigosa falácia capaz de gerar os mais odiosos sentimentos e a mais abjecta incompreensão. Olhar para os que perdem é sempre mais esclarecedor do que prestigiar os que ganham, aliás, penso até que uma das alterações prementes é mesmo a mudança deste paradigma.

    “Por mim, caíam ambos com a força da civilização dos de baixo, ao som das minhas lágrimas de felicidade”

    Que frase tão bonita.

  3. O que temos de fazer, é começar por informarmo-nos sobre a *verdadeira* natureza deste “Estado Islâmico”. Que não é mais do que um grupo fantoche da OTAN, que serve:

    (1) para roubar o petróleo a países do Médio Oriente que exercem a sua real independência; e

    (2) para criar pretextos para a criação de um Estado Policial europeu.

    (Sim… São os nossos próprios governos ocidentais, através dos seus serviços secretos, quem está por trás desta onda de atentados. E, enquanto não se informarem as pessoas sobre as várias provas e indícios que denunciam isto mesmo – podem começar por aqui: h*tp://blackfernando.blogs.sapo.pt/quem-realmente-esta-por-tras-destes-85197 – só irão as coisas piorar para todos, com leis que irão ser passadas para retirar as liberdades e garantias que foram conquistadas e criadas ao longo de séculos.)

    Depois, sim, podem tomar as ruas – não para manifestações ridículas, de gente que é fácil de enganar (e que vem para a televisão declarar o que qualquer criança também sente e é também capaz de dizer), mas antes para denunciar este verdadeiramente diabólico (h*tp://blackfernando.blogs.sapo.pt/para-quem-duvidar-que-a-penultima-87078) esquema de que estão a ser vítimas, antes que seja tarde demais para o fazer…

    (Mas, como é este um país de ignorantes que não lê nada mais para além do “Correio da Manhã”, ou das notas de rodapé do telejornal da TVI, está-se mesmo a ver que, a conseguir esta amostra de povo contrariar alguma coisa em termos de perda de direitos, só se for por “arrasto”, quando já todos os restantes países da Europa o tiverem feito.)

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