Os Economistas e a “figura de urso”

Sem surpresa, quando disse aqui que os preços são exclusivamente fixados por lucros ou salários muitos perguntaram “então e as matérias primas, a energia, o mercado…a oferta e a procura?”. Alguns, com a ignorância atrevida dos tempos que correm, lembraram-se de dizer que eu não era economista (a certificação do “especialista”). Aqui fica a explicação de um economista Adriano Zilhão, na minha página, que publico por ser didáctica e impecável.

E deixo um conselho: eu não sou economista, podia ser e nada saber, sou professora de história e historiadora e também professora de história económica e social. Estive um ano da minha vida dedicada a estudar a teoria do valor trabalho e as crises capitalistas porque, em 2008, e escrevi e leccionei muito sobre elas, compreendi que não podia deixar de o fazer. São as primeiras páginas, muito difíceis do Capital de Marx. Estudam-se, não se lêem. Sem conhecer a teoria do valor marxista, hoje, arrisco a dizer não se compreendem as sociedades, seja em que disciplina for. Mas, agora o que é relevante: eu podia ser economista e não perceber nada de economia, o que aliás se viu nos comentários onde tantos economistas perguntavam pela “lei da oferta e da procura”, algo que só fixa preços na imaginação deles. Também podia ser operária, física e cozinheira e conhecer bem a teoria do valor-trabalho. O que impressiona nos comentários, e que nos devia fazer reflectir, é como tanta gente formada em economia, repete as mesmas vacuidades do governo a explicar que nada pode fazer face à inflação.

Um mergulho nos currículos das escolas de economia, que varreram a ciência social e a transformaram em matemática técnica ou comunicação em business devia há muito ter alertado tanta gente sobre o que (não) aprendem de economia em alguns cursos de economia.

Aliás, há dias perguntei a um grupo de jovens de 18 anos, com média de 18 em economia no 12º ano, todos a caminho de escolas de economia se conheciam Marx e, tirando uma, os outros olharam com espanto, nunca ouviram tal nome. Suspeito que assim continuarão, a achar que a lei da oferta e da procura fixa preços. Podem fazer como eu, também ninguém me ensinou Marx, enfiei a cabeça no livro anos para não fazer a chamada “figura de urso” ou, como se diz em buziness, ou zeinalbavês bear looking. Agora leiam e aprendam:

Adriano Zilhão

Pode-se deduzir do comentário de J. P. Costa que a sua formação é, “de todo”, económica. E, como qualquer um que estudou a economia escolástica e/ou nela crê, J. P. C. acredita que o “mercado”, local em que se “formam” preços, opera por uma espécie de magia.

Mas olhe-se melhor para a magia. Olhe-se para o mercado do petróleo (ou do gás). O que aconteceu, recentemente? Perante a guerra, sobretudo perante as sanções, passou a ser provável que a quantidade de petróleo oferecida no mercado baixasse muito, pelo menos no curto prazo.

Consequentemente, os grandes compradores de petróleo precipitaram-se para comprar o máximo possível, para poderem revendê-lo durante o máximo de tempo possível (antevendo, por outro lado, que os preços continuariam a subir, e eles fariam lucros chorudos na revenda).

Deu-se, assim, aquilo que em economês, se chama um desequilíbrio entre oferta e procura: o preço subiu, em consequência.

Mas o mercado não “fez” subir coisa nenhuma. O que aconteceu foi que os grandes vendedores viram que, se passassem a vender mais caro, continuariam a escoar todo o produto. Ou seja, disseram aos compradores: querem comprar? A gente vende, mas agora só vendemos a quem der (ainda) mais. Podes, compras; não podes, ficas de mãos a abanar, que há mais quem compre.

O preço não “ficou” magicamente mais alto, os vendedores aumentaram-no. Ora, e os custos, salariais e outros, dos vendedores de petróleo? Ficaram na mesma.

À diferença entre preço e custo (salarial e outro) chama-se lucro. Portanto, a subida de preços provocou uma subida dos lucros dos vendedores.

A economia é uma coisa complexa? É. Empresas têm custos de todo o tipo: os salários que pagam directamente e muitas outras coisas, matérias-primas, produtos intermédios, serviços de transporte, financeiros, amortizações e por aí fora (deixemos de lado os impostos, que incidem sobre salários e lucros a jusante). Mas as matérias-primas e tudo o mais foram extraídas ou produzidas por outras empresas, que para o fazer também usaram trabalho: portanto, pagaram salários. E assim sucessivamente.

Se se “descascar” a produção de bens e serviços ao longo de todas as cadeias de produção entrecruzadas, tudo se reduz a trabalho humano.

E reduz-se a duas categorias de trabalho humano: a parte do produto do trabalho dos trabalhadores que lhes é paga (os salários, que são o preço pago pelo patrão para alugar a força de trabalho pelo tempo convencionado); e o trabalho dos trabalhadores que não lhes é pago (o lucro, o valor restante, a diferença que, depois de vendidas as mercadorias/serviços, fica no bolso do patrão).

Por essa razão, mesmo nas escolas de economia, há uma equivalência entre produto e rendimento: a soma do valor de todo o produto é igual à soma do valor de todos os salários e lucros (e suas sub-divisões).

Em conclusão: Raquel Varela tem razão. Todo o valor criado se reduz a salários e lucros, a soma dos preços todos é igual à soma de todos os salários e lucros. O “mercado” (incluindo o de trabalho) é o “local” em que se medem forças, onde se vê quem consegue torcer o braço de quem.

É menos mágico do que parece.

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5 thoughts on “Os Economistas e a “figura de urso”

  1. Boa noite,

    Desde aquele TedX na Universidade de Lisboa, salvo erro em 2015 -palestra sua que usei num trabalho de rvcc (aquela coisa da Educação para formar burros com o 12° ano directo… e os levar à universidade, que é o meu caso)- e sigo com alguma atenção os seus textos, maioritariamente acertivos -com uma ou outra discordância em um ou outro assunto. Também assisto aos seus videos YouTube (não vejo tv) do programa “o último apaga a luz”… acho que é assim.
    Neste texto -mais uma vez- tem razão. Algumas vezes bem que me esforço para não concordar consigo… mas acabo por concordar.

    Obrigado,
    Carlos Monteiro

  2. Naturalmente que tanto a Raquel como o Adriano têm razão (em quase tudo), mas importa reconhecer que não têm a razão toda. Sendo verdade que Marx realizou o mais profundo estudo sobre o capitalismo e suas caracterizações, também é verdade que, como não poderia deixar de ser, o mesmo evoluiu, transformou-se e reinventou-se a velocidades vertiginosas, coisa que a esquerda raramente reconhece ou admite. No caso em apreço, cumpre lembrar que o capitalismo que Marx tão extensamente descreve e analisa é o dos fins dos fins do séc. XIX, ou seja, o da triunfante revolução industrial voltado essencialmente para a produção. Ora esse capitalismo hoje desempenha um papel marginal na economia do globo. A maior fatia actual fica a cargo do capitalismo rentista e especulativo, não da produção. Logo, as categorias avançadas por Marx dificilmente se lhe aplicam. Neste, não há produção, apenas parasitismo e o pouco trabalho incorporado tende para zero dada a gigantesca desproporção com os montantes transaccionados. Aqui não é o trabalho que gera dinheiro, mas o dinheiro que gera mais dinheiro (+D). Claro que a lei da oferta e procura que nunca foi do agrado de Marx, continua a existir, muito embora os grandes jogadores do casino tudo façam para a torcer para o lado do mais forte.
    O assunto é bastante complexo e não vou alongar o debate.
    Nota: não sou nem pretendo ser economista.

  3. Alguém disse um dia que se os engenheiros e arquitectos tivessem as mesmas “liberdades” de pensamento (para não lhe chamar outras coisas menos simpáticas) dos nossos economistas, tínhamos prédios e pontes a cair todos os dias…

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