Para Onde Vai Portugal?

“Este livro começa com uma questão: para onde vamos? Segue o ritmo premeditado de um ensaio, uma reflexão, sobre as prováveis saídas de desenvolvimento ou regressão social, o significado político do Estado social hoje e do pleno emprego e de como estes podem ser a alavanca de uma resposta civilizada à decadência nacional; é um ensaio também sobre as origens da baixa participação política dos mais jovens em Portugal e as propostas para enfrentar a crise atual do sindicalismo e da organização social. É ainda uma reflexão sobre relações humanas, costumes, sexo, amor, numa crítica à padronização/mercantilização quase total dos comportamentos sociais, que atingiu níveis inéditos, da alimentação à intimidade. Termina no início: de onde vimos? Um olhar, aqui mais historiográfico, sobre o passado, para aquilo que considero o projeto falhado de desenvolvimento nacional nos séculos XIX e XX — falhado na sua versão liberal, mas também nas alternativas históricas de oposição que se lhe tentaram opor sem um projeto estratégico autónomo daqueles a quem queriam opor-se.

Nunca acreditei na esquizofrenia daqueles que advogam que o trabalho académico e a política são dois campos distintos. Não se faz ciência sem impacto e compromisso social transformador. E não se faz política ignorando a ciência, baralhando os dados, confundindo as metodologias, ao sabor dos tempos eleitorais ou das táticas partidárias. Uma sociedade que não identifica os pontos nevrálgicos dos seus dramas, porque teme as conclusões, não conseguirá sair do retrocesso histórico e está a adiar — e a agigantar — conflitos inevitáveis. Creio que há soluções, este é o eixo deste ensaio, que garantem uma produção racional de bens e serviços, o pleno emprego, o Estado social e o acesso ao lazer para todos. Mas todas as soluções têm problemas. E não se resolvem problemas escamoteando-os, ou omitin- do-os, para não incomodar o senso comum, esse enorme balão cheio de nada. Um avião descola sempre contra o vento.

Perguntaram-me um dia, no Festival Literário da Madeira, brincando com Fernando Pessoa, se «todos os revolucionários são estúpidos». Alguns são — a estupidez é democrática, atinge muitos, e os revolucionários não escapam. Não parece ser por aí que se distinguem os revolucionários. Antes por outro lado: o da coragem de recusar o senso comum, de não ceder ao pensamento mágico. «Temos fantasmas tão educados que adormecemos no seu ombro…», como escreveu Natália Correia. Os revolucionários não mentem a si próprios, nem aos outros. Não temos fantasmas educados. Sabemos que o mundo muda. Mesmo que a Terra pareça estar parada, ela move-se. Mas o mundo não muda sozinho para melhor. Os revolucionários sabem, com uma angústia profunda e um otimismo incorrigível, que se não mudarmos o mundo, o mundo mudar-nos-á a nós e corremos o risco de ficar tão feios e brutos como ele, e achar que só o que se compra e vende é que tem valor, que os mercados estão nervosos, e que as pessoas brutalizadas são pouco robustas. Se um «otimista é um tolo», como escreveu Ariano Suassuna, «e um pessimista um chato», «bom mesmo é ser um realista esperançoso», como ele rematava. Escrevi este livro com estas duas ideias: realismo e esperança. Não sei se consegui ter ambos. Isso só os leitores poderão avaliar.”

(2015) Bertrand
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4 thoughts on “Para Onde Vai Portugal?

  1. Pingback: Para Onde Vai Portugal? – Museu da Autonomia

  2. Raquel, vejo na sua foto de capa a riqueza do pormenor e a necessidade do distinto, desculpe a irrelevância do reparo.

  3. Eu acho que consegui pouco no imediato, e conseguirá muito quando o choque começar.

    Realidade e esperança otimista, reza pelos bons, falsidade e demagogia reza pelos menos bons,

    subversão, subversão vem das escolas e máquinas, que nos governam, (nome políticas) de selfies e mais selfies; que línguas,

    e mais línguas de gato para pobre “passas e nozes se enganam os tolos”. Virá a conta para uma sociedade de nada.

    Parabéns pela edição. A.Borges

  4. Já Marx asseverava que a exploração mais desumana não resulta da maldade psiquica do capitalista, mas sim do próprio sistema de mercado que compele os “empreendedores” a esmifrar o mais possível a força de trabalho. Se não fizerem, outros o farão e o tal cairá na falência. Isto para dizer que dentro do capitalismo não existe solução nem é possível domesticá-lo como muitos defendem. Todas as tentativas nesse sentido já falharam. Para quê insistir? Paremos de dar murro em ponta de faca. Partamos para outra.

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