O Maio de 68, a revolução de novo «o impossível torna-se inevitável»

Em Maio e Junho de 1968 teve lugar em França a maior greve de sempre na história do país. Ela paralisou a França, levando ao desabastecimento, «as necessidades humanas, normalmente tidas por garantidas, agora apareciam visivelmente como um produto do trabalho humano» . Mas o seu alcance extravasou em muito Paris – da Cidade Luz ao México a Buenos Aires, de Pequim a Berlim, de Parga a Turim, todo o mundo viveu o “Maio de 68”. As classes altas e dirigentes com ansiedade. Os estudantes, as classes trabalhadoras e os intelectuais, na sua maioria, com um entusiasmo revigorante: «Nós lutaremos, nós vencermos, em Paris, Roma, Londres e Berlim» .

Se as duas maiores revoluções da Europa do pós guerra – Portugal em 1974 e a Polónia em 1980-81 – foram realizadas em países com ditaduras, sem tradição quer de democracia quer de partidos reformistas, o Maio de 68 veio, pelo contrário, mostrar que era possível contestar a acumulação capitalista e a propriedade privada, ocupando as fábricas, exercendo controlo operário sobre a produção, num país capitalista, avançado, com um regime de democracia burguesa. Para a esquerda revolucionária mundial foi, recorda Birchal, a prova de que era realista pensar em revoluções no ocidente. Para as classes dirigentes da Europa foi assustador.

Charles De Gaulle chegou a ficar sem reacção durante vários dias. Pouca ajuda podia ter então dos seus países irmãos – nas fábricas de Turim, nas ruas de Berlim, nas cidades dos EUA, a «imaginação» de milhões de operários silenciosos desde a guerra «tinha chegado ao poder». Nos primeiros dias pela voz dos seus filhos, os estudantes universitários do baby boom do pós guerra; nos dias seguintes pela força da maior greve operária da história da França.

O detonador foi o protesto estudantil cujo ápice é a noite das barricadas, quando os estudante se barricam nas ruas do Quartier Latin, na zona da Universidade Sorbonne, atirando pedras à polícia, que reprime brutalmente a manifestação, espoletando a reacção do movimento operário em solidariedade. Calcula-se que 9 milhões de trabalhadores se envolveram na greve, que teve o epicentro na indústria automóvel mas atingiu todos os sectores, dos cientistas do Observatório Meudon ao cabaré mítico Folies Bergères.

O baby boom do pós guerra e o impulso científico e tecnológico, a pari passu com as conquistas sociais do Estado Social, tinham aberto as universidades às classes trabalhadoras, o número de estudantes no ensino superior tinha passado de 175 mil para mais de meio milhão em dez anos (entre 1958 e 1968).

As greves de 1968 não podem ser compreendidas fora do contexto da crise cíclica de 1967 e do período de iniciativa mundial dos trabalhadores, com o centro nevrálgico nas fábricas norte-americanas de automóveis e no Maio de 1968 em França, de resistência à intensificação do trabalho , segundo o sociólogo Peter Birke. Esta tese é confirmada nos estudos de Pietro Basso sobre a evolução do trabalho no século XX e XXI .

No verão de 1967 o Governo tinha imposto o corte nos reembolsos das despesas médicas e reduzido a participação dos trabalhadores nas decisões do sistema de Segurança Social. A medida gerou irritação nos trabalhadores. Em Junho de 1967 a Peugeot tinha chamado a polícia antimotim para um conflito na fábrica e esta acabou por matar dois operários, facto que provocou indignação pública.

No dia 3 de Maio o governo encerra a Sorbonne. Os protestos tinham subido de tom, exigindo, entre outras reivindicação, a livre circulação no campus entre o sector feminino e masculino do campus. Começam confrontos entre a polícia e os estudantes que no dia 10 de Maio erguem -, pensa-se – cerca de 60 barricadas, onde participam vários milhares de estudantes. Paris tinha uma longa tradição de barricadas que o Barão Haussman, entre 1852 e 1870, tentou pôr fim arrasando com bairros inteiros, construindo avenidas largas, por onde pudessem circular as forças anti-motim, naturalmente também respondendo à crescente industrialização do país e da cidade. O Quartier Latin era porém de pequenas e esconsas ruas.

A reacção de repulsa geral à brutalidade da polícia sobre as barricadas estudantis obrigou os sindicatos a chamarem a greve geral para dia 13 de Maio de 1968. No dia da greve uma manifestação vê desfilar electricistas, trabalhadores do sector químico, funcionários públicos, metalúrgicos, pintores, ferroviários, professores, empregadas de mesa, trabalhadores dos bancos e seguros, decoradores, a «carne e o sangue da sociedade capitalista moderna». No dia a seguir, na fábrica Sud Aviation, em Nantes, os trabalhadores decidem entrar em greve por tempo indeterminado.

Estava dado o mote. Seguiram-se duas semanas de greves em todo o país que envolveram 9 a 10 milhões de trabalhadores com ocupação generalizada de fábricas. Segundo Michel Seidaman a unidade entre estudantes e trabalhadores foi “transitória”, de poucos dias e em alguns sectores , mas o movimento de facto prossegue nas fábricas com uma força inaudita.

O movimento sindical tinha pouca força nas fábricas e empresas. A França tinha então uma baixa taxa de sindicalização, sobretudo depois do desânimo que tinha resultado das negociações dos sindicatos em concertação social, depois das greves de 1947. Havia em 1968, 3 milhões de trabalhadores sindicalizados, e em 1947 eram mais de 7 milhões. Mas, durante a greve geral de Maio os trabalhadores, espontaneamente – com influência de pequenos grupos trotskistas, maoistas e anarquistas -, criaram comités de acção, a partir de comités de greve. A 19 de Maio em Paris numa Assembleia conjunta estavam representados 149 comités. No fim do mês eram já 450.

Em muitos destes comités cria-se uma forma de controlo real da produção, foi decidido por exemplo, face ao desabastecimento, que serviços mínimos essenciais seriam prestados à sociedade, ficando notório o papel dos trabalhadores na produção e reprodução da sociedade – em muitos lugares os trabalhadores tomam decisões sobre toda a cadeia produtiva de um sector em greve. Mas só uma cidade entrará totalmente em situação de dualidades de poderes, Nantes.

Jena Paul Sarte e Margarite Duras solidarizaram-se com estudante da Sorbonne, e a orquestra do festival de cinema de Cannes entrou em greve. André Malraux, Ministro da Cultura e ex combatente da guerra civil espanhola, escrito do livro A Esperança , sobre a revolução em Barcelona, fica, para surpresa de muitos, do outro lado da barricada, apoiando o Governo. O Teatro Odéon, um dos 6 teatros nacionais na França, símbolo da burguesia vitoriosa e da criação de uma «alma» nacional laica republicana, foi ocupado sob o slogan «Quando a Assembleia Nacional se torna um teatro, todos os teatros burgueses devem tornar-se assembleias nacionais».

Raquel Varela, Breve História da Europa, Bertrand, 2018.

3 thoughts on “O Maio de 68, a revolução de novo «o impossível torna-se inevitável»

  1. Certo, Raquel, mas a probabilidade de tal voltar a acontecer é infinitamente remota.
    Há quem diga que a história não se repete, mas certos factos repetem-se mesmo. Exemplo: na Idade Média os esquadrões teutónicos invadiram a Rússia e foram derrotados. Mais tarde, o imperador Napoleão faz o mesmo e o resultado é um desastre. Após a revolução de Outubro, o civilizado ocidente tb invade e é esmagado. Na WWII, Hitler reune o maior exército de sempre e tenta esmagar os russos, mas é totalmente aniquilado. Agora os EUA estão a planear destruir a Rússia, como já fizeram na Líbia, Iraque, Afganistão, etc, e nunca aprendem nada com as sucessivas derrotas. O ocidente tem assim um historial repetido de invadir e desprezar a Rússia. Quem nada aprende com os erros está condenado a repeti-los.

  2. Tentativa de “revolução colorida”, para derrubar De Gaulle.

    Razão pela qual, tal como acontece nas “revoluções coloridas”, os objectivos dos manifestantes iam-se alterando à medida que o governo cedia e razão pela qual, ao contrário das verdadeiras insurreições de base e tal como acontece nas “revoluções coloridas”, esta é repetidamente celebrada pelos próprios órgãos de propaganda do Sistema, que até romantizam os actos de violência.

    De Gaulle era um nacionalista, contrário à União Europeia, FMI e demais instituições globalistas. E, falhadas n tentativas de assassinato, chegou depois a vez de usar a esquerda acéfala e antidemocrática que, tal como acontece nas “revoluções coloridas”, não quis saber de eleições ou de organizações sólidas e seriamente anti-sistema.

    Saiu temporariamente o tiro pela culatra aos interesses globalistas, mas há que camuflar eternamente os verdadeiros objectivos da insurreição, através de um romanticismo ridículo – até para o caso de vir a aparecer um outro De Gaulle e ser preciso novamente usar idiotas úteis.

    (Leia Webster Tarpley e William Engdahl.)

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