Portugal Bonapartista

Era há um ano 15 dias de confinamento para “achatar a curva” e preparar o SNS. Temos menos de 2000 internados e anuncia-se um confinando por mais 2 meses. É evidente que o que está em causa não é a pandemia nem o SNS, é o desenho do regime político. A democracia foi suspensa e nós colocados em ameaça permanente de, consoante nos portamos “bem ou mal”, ficar em prisão domiciliária. Tudo, diz Costa, não é escolha dele e de Marcelo “mas dos cientistas”. A questão é porque Costa não escolheu cientistas como Torgal, que são contra o confinamento, nem leu o grupo mais renomado de epidemologia do mundo, da Universidade de Stanford, nos EUA e escolheu os cientistas que nos colocam na mão de um Rt que quanto mais baixo for o contágio mais ele se mantém. Sim, o que temos é o desenhar paulatino de um novo regime político em Portugal – não é democracia liberal, é um novo tipo de bonapartismo. Historicamente sabíamos que ia acontecer em breve – a crise de 2008 e o seu desenlace na longa duração, com os conflitos e greves previsíveis com o declínio salarial, ia provocar um reforço do autoritarismo. Não vamos sair dos alertas, do risco, da emergência, agora o Estado tem sobre nós uma espada de ameaça, contra as liberdades fundamentais. A pandemia não é uma invenção, e é grave em algumas populações, sobretudo idosos e obesos, mas a gestão dela caiu que nem uma luva na crise económica mundial que se desenhava desde 2018/2019 com a crise das dívidas públicas impagáveis. Portugal é há 1 ano e oficialmente um regime sem liberdades democráticas, supostamente suspensas temporariamente, mas de facto veio para ficar – o Estado dispõe arbitrariamente do mais elementar da nossa vida definindo o limiar de “risco” com os padrões que quer, para se legitimar.

7 thoughts on “Portugal Bonapartista

  1. O cenário é exactamente esse que descreveu cara Raquel Varela. Mas sabe o que mais me dói e choca? A incapacidade e a ignorância demonstrada pelas pessoas, que não têm culpa nenhuma de tudo isto. Ontem passei pelas redes sociais para observar qual a reacção das pessoas ao plano de “libertação condicionada” definido por Costa. O resultado é um conjunto de reacções absolutamente assustadoras de pessoas focadas no próprio umbigo ou que parecem viver numa realidade paralela. Encontrei os que não sabem ainda o que é venda ao postigo; os que perguntam, indignados, pelo público no futebol; os que dizem que agora é que vamos todos morrer; os que acreditam que no Natal andou tudo em festa e se não fosse isso estava tudo bem; os que acham que o povo está a querer demasiada liberdade, demasiado cedo; os que perguntavam se podiam fazer isto ou aquilo, como se estivessem a implorar uma guloseima aos papás e, pasme-se, os que agradeciam (num tom sincero, sem ironia) o facto de poderem voltar a trabalhar, para dar aos filhos o que tem faltado… Simplesmente triste e chocante. Senti-me verdadeiramente impotente e abalado ao ler tudo aquilo, pois sei que reflecte a posição de milhares de pessoas por esse país fora.

    É o resultado infeliz, não só de uma comunicação sensacionalista e histérica dos media e do governo ao longo do último ano, mas igualmente de décadas de desinvestimento nas pessoas e no seu bem-estar. Falta-nos educação de qualidade, cultura, condições de trabalho decentes, acesso universal a bens e serviços fundamentais e, como tal, de crise em crise chegámos aqui, ao ponto em que agradecemos que nos deixem trabalhar, se possível, para alimentarmos os nossos filhos.

  2. Construímos o Presente com memórias do Passado

    Verdades incontestáveis! Concordo inteiramente com o paralelismo do Portugal “Bonapartista” do passado muito presente, pequenino e mesquinho, mas que faz inveja a muitos porque é um belo jardim à beira-mar plantado, com umas vistas largas e únicas para o Atlântico e o Novo Mundo, ainda que de costas voltadas para a sua realidade e a sua História.
    Acrescentaria ainda o que me vai na alma há muito tempo: nada acontece por acaso e nada disto é inocente. Reprimir liberdades e direitos – educação, cultura, saúde, trabalho e direito à felicidade – fazer o povo assalariado implorar por trabalho e “migalhas” como pão para a boca, enganar o povo com a ideia de que mais vale ter algum (algumas migalhas) do que não ter nenhum, que podemos viver contentes com a ilusão de que ainda vamos tendo trabalho e salários (por isso calemo-nos bem calados), fazer esse mesmo povo acreditar que qualquer rebuçado atirado para adoçar o bico é o bastante para ser feliz, que vivemos bem comparativamente com o que se passa noutros países ainda mais desgraçados – são meios maquiavélicos para atingir fins políticos como aqueles a que estamos a assistir atualmente. Ainda hoje ouvi nas notícias sobre um trabalhador de um banco, e que até é sindicalista e luta na sua empresa por melhores políticas e direitos, foi despedido por já não ter vaga para o tipo de trabalho que fazia! A ser verdade, e depois do que tenho visto nesta minha curta existência, acredito que sim, mas tenho de fazer um esforço cada vez maior para me lembrar que estamos no século XXI, mas que o Estado de Direito a cujo nascimento assisti por volta dos meus 10 anos de idade, anda torto por linhas distorcidas.

    Quem pode ser feliz assim? Nem com o mal dos outros devemos ser felizes. Desde que nasci (e segundo sempre ouvi, já antes disso), que não ouço outra coisa que não seja “estamos em crise” (pelos vistos, continuamos nela), “é preciso apertar o cinto, é preciso poupar para o futuro” (que futuro poderemos ter se já não houver cinto para mais furos?), “vivemos em tempos de vacas magras” (quando foi o tempo das vacas gordas?), “temos de trabalhar muito para termos algum” (como é possível trabalhares tanto só para teres algum e viveres com tão pouco?), “o trabalho dá saúde” (mesmo que te mates a trabalhar!), “mais vale um pássaro na mão que dois a voar” (um pássaro preso na mão vai voar?), “a cavalo dado não se olha o dente” (se o cavalo estiver velho e cansado de tanto trabalho não vai poder dar ao dente por falta de sustento!), e isto só para relembrar algumas frases que ainda hoje me ocupam a memória, e que sempre me revolveram as entranhas, as quais traduziam a mentalidade política e social, o nível de vida e de felicidade em que as pessoas viviam.
    Até pode ter havido progressos, até pode muita coisa ter evoluído para melhor, sim, sei bem distinguir as diferenças e por que razões elas aconteceram, e a quem devo agradecer por elas, mas ainda continuo a ouvir as mesmas frases e a sentir a mesma revolta! Espero viver o tempo suficiente para ver este Presente ser só uma memória do Passado.

  3. Permita-me remeter o contextualizar da situação que descreve no artigo relativamente ao nosso país, para o nível europeu, através de uma entrevista realizada ao psicólogo belga Mattias Desmet, Professor de Psicologia Clínica na Universidade de Gand, o qual detém algum (bastante) curriculum na matéria…
    Caso, como acontece comigo próprio, não entenda nada da língua, o uso de um bom tradutor online resolve de forma simples o problema. Uso por rotina o DeepL, o qual aconselho, dado considerá-lo muito bom, inclusivamente superior ao da google.
    *ttps://www.dewereldmorgen.be/community/mattias-desmet-professor-klinische-psychologie-coronamaatregelen-onthullen-totalitaire-trekken/
    Semelhanças, coincidências, não são ocasionais, mas fruto de uma politica (geo-politica), centralizada em… talvez Bruxelas? Proveniente de, talvez, com origem em, absolutamente não… procure olhar lá mais para sul, algures entre a França, a Alemanha e a Itália.

  4. Remetidas que estão as pessoas, por condição, a amar a sua servidão, pode agora a luxúria do poder saciar-se em campo aberto, às claras e sem temer seja o que (e quem) for.
    A razoabilidade de quem nos governa existe, mas somente para ser utilizada como anestesia. Perdida a sensibilidade há que puxar do bisturi para nos cortar em mil e um bocados. De vez em quando, quase sempre por intolerância à dose ministrada ou manifesta incompetência do anestesista, alguém acorda em plena carnificina e como se vê? Desmembrado, desventrado e sangue, muito sangue.
    Parabéns à Raquel Varela pela insistência na tentativa de acordar outros antes da perpretação do ato. Para alguns, infelizmente, será sempre tarde demais.

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