Festa da Precariedade gera surto de Lisboa

Hoje o Publico notícia em destaque “Trabalhadores clandestinos do sector da construção no centro do combate à pandemia”. Alfabetizei um aluno há muitos anos que veio de Cabo-verde, 12 ou 14 anos talvez. Foi das experiências mais incríveis da minha vida. Morava num bairro miserável, anti social (dito social ou municipal), tinha 19 anos, não sabia ler nem escrever, e era assediado pelos traficantes de droga e todo o tipo de lumpens do bairro – estes actuavam como uma força repressiva a par da política, no dito bairro os trabalhadores viviam entre o medo da política e o medo dos lumpens. Às 5 da manhã vinha uma carrinha buscá-lo, ele ia para as obras o dia todo como servente, e às 18 horas em ponto estava, com os olhos avermelhados, exausto, mas de costas erguidas, com um caderno na mão a escrever e anotar tudo, tratando-me com um respeito inesquecível. Nunca mais o vi, gostava de saber se está bem. Um dia levei-o ao castelo de São Jorge e, ele, junto com outros, emocinou-se, muitos choraram, não me recordo se ele chorou. O bairro anti social era a 20 km do castelo, eles nunca tinham ido a Lisboa, compreendi nesse dia. Que vergonha do meu país, que vergonha do mundo, eles deviam comer e estar vivos, ir a um museu era impensável.
Foi preciso uma pandemia para o poder político assumir que temos um grave problema na construção. Há anos que alertamos que em Portugal morrem mais de 100 operários em média por ano, a maioria nestes sectores e da logística. Fala-se (e bem) das mulheres vitimas de violência doméstica e da necessidade de parar este drama, mas não se fala dos mais de 100 homens mortos todos anos por razões evitáveis. Mortos não se comparam em números, todos as mortes evitáveis são um problema grave. Chamo apenas a atenção para dois pesos e duas medidas. O sector da construção não tem um problema sério de COVID-19, tem um grave problema de miséria, falta de segurança, doenças e morte. Todos os anos. Não era preciso uma pandemia para se saber. A miséria destes trabalhadores está visível aos olhos de todos nós quando passamos em qualquer obra.
Não fica muito bem à DGS alertar agora que está ali um problema de saúde pública. É que esse problema está ali há anos, mas foi preciso estes operários “aparecerem” como veículos de contágio para a classe média para assumirem que estes homens existem, fora do andaime. Têm, a par da logística, o maior índice de acidentes mortais no trabalho do país; aos 45 estão diabéticos, com tensão alta, e colesterol por causa da alimentação baseada em hidratos de carbono; o alcoolismo para suportar tudo isto…; apesar do trabalho exigente e duro não ganham o suficiente sequer para se alimentar ao mês, têm dependência regular cíclica de Bancos Alimentares, caridade degradante; os acidentes que não acabam em mortes, têm como consequência muitas vezes a incapacidade grave para toda a vida, acabando muitos a dormir na rua quando, depois de partirem o braço, perdem o trabalho – é aí que Marcelo Rebelo de Sousa entra em acção política para combater o “grave problema dos sem abrigo”. Nem falo claro dos contratos inexistentes, dos salários miseráveis, da clandestinidade, de nunca terem ido a Lisboa, de não saberem o que é um Museu. Perdoem-me, mas que vergonha alheia sinto nestas horas em que muitos destes homens receberam um telefonema da DGS, provavelmente pela primeira vez na vida, e aparecem nos discursos do Governo. O Estado descobriu que eles existem, com o COVID-19. Que está para aí na centésima ameaça e risco que estes homens sofrem todos os dias. Até aqui nunca ninguém lhes tinha ligado a perguntar como estão? Mas todos os dias as empresas para as quais trabalham têm jornais inteiros dedicados a estas, a começar pelo “vamos agora saber como andam as bolsas de valores”, “acordam em alta, animadas”. A festa da precariedade é afinal responsável pelo maior surto de COVID-19.
No meio disto o Partido Chega de extrema-direita resolveu fazer uma manifestação contra as empresas de trabalho precário? Contra o desprezo a que o Governo vota estes cidadãos que erguem as nossas casas? Não, contra eles, contra os operários e as trabalhadoras negras. Contra o meu aluno de Cabo-verde, um negro que seria para André Ventura a causa dos males do país. Fico a pensar como há trabalhadores que se deixam enganar tanto e ainda acham que este Ventura é solução para o que quer que seja.
Hoje o Publico notícia em destaque “Trabalhadores clandestinos do sector da construção no centro do combate à pandemia”. Alfabetizei um aluno há muitos anos que veio de Cabo-verde, 12 o…

9 thoughts on “Festa da Precariedade gera surto de Lisboa

  1. É isso mesmo , vergonha alheia e “culpa” por não gritar mais alto e melhor.
    Obrigada pelos seus textos que vão “gritando” por muitos de nós que carregam os mesmos sentimentos. Parece inacreditável, estas situações são reais só não sabe quem não quer, (e há muito quem não queira) mas que a comunicação social e os nossos governantes (ditos socialistas?) persistam em os “esconder” é difícil de engolir.
    Só se tornaram visíveis quando as más condições “deles” atingiram ou “outros”

    • Recordemos que a exploração é uma dura e gritante realidade, onde manda o socialismo, governos de esquerda.

      • Mas existe algum (governo) País socialista e de esquerda? Qual o da China, Russia, EUA, na União Europeia?!
        Por fim; a exploração é por parte do capitalismo tanto privado como de estado….

  2. “Ambos os campos visam escamotear que, todos os dias, milhares de pessoas (incluindo muitas jovens crianças) morrem em fábricas, minas, estaleiros de obras, no trabalho. Eles têm um nome: “os condenados da terra”, os operários, os pequenos camponeses, dos quais o Capital precisa para saciar a sua sede de lucro. Eles são pretos, brancos, amarelos, velhos, jovens? Não, eles são acima de tudo explorados”
    Gilets Jaunes),

  3. Interessante mas de vazio significado em virtude de vir de uma marxista-cultural, de quem está no sector campeão do esclavagismo e criação de campos de concentração. Mude de cor!

  4. “Fala-se (e bem) das mulheres vitimas de violência doméstica e da necessidade de parar este drama, mas não se fala dos mais de 100 homens mortos todos anos por razões evitáveis.”
    Há muita gente à esquerda que esqueceu a luta de classes e prefere a guerra dos sexos: homens contra mulheres.

    • É verdade mas não deixa também de ser verdade as 100 mortes que ocorrem por completa falta de regulação das actividades económicas (= capitalismo selvagem), a começar pela banca.

  5. E, solidariedade internacionalista à parte…

    Quanta desta pobreza é que poderia ter sido evitada, se se tivessem fechado as fronteiras e não se tivessem deixado entrar imigrantes que servem como forma avançada de fura-greves?

    São os salários de miséria e as pessoas não aparecem para trabalhar?

    Aumentem então os salários, na lógica do “mercado livre” (de que, supostamente, tanto gostam) que as pessoas já aparecem…

    Mas, faz o Capital isto?

    Não, manda os seus governos-fantoche importar pessoas de países pobres, que ficam todas contentes por já poderem comprar um telemóvel no final do mês – e que vêm para cá manter os salários baixos.

    Resultado,

    Não só (1) se mantém, ou até aumenta, a pobreza e a desigualdade social, gerando mais lucros para o Capital – como, com a progressiva substituição da população europeia por pessoas de culturas atrasadas, habituadas a serem abusadas pelas classes dominantes, (2) se elimina a cultura local, que ainda tem a mania dos direitos e garantias – e de lutar pelos mesmos.

    Touché.

    P.S. – Não se esqueçam de pôr a suposta “Esquerda” (controlada, nos bastidores, pelo Capital) a dizer que quem faz este tipo de denúncias é “xenófobo” ou afins.

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