Pagamos a educação, e não a recebemos.

Pagamos a educação, e não a recebemos.

Nunca fui a favor de rankings, uma criação neoliberal. Não acredito que a base do avanço científico esteja na competição, mas na cooperação. Sou a favor de um ensino de qualidade, universal, público. E penso que ele pode ser massificado e excelente. Mas afirmar que os rankings não dão uma noção do país no campo da educação é desconhecer o país. Eles demonstram a realidade: a maioria do ensino privado é em média inferior ao ensino público; há um número de escolas, quase todas privadas, onde existe de facto aquisição de conhecimentos; a maioria das escolas públicas não passas de níveis médios medíocres, a coisa vai de médias de 12 a médias de 1,7 – em 20.

O lugar de onde saem estas crianças, no fim da escola, é o mesmo de onde partiram. Ou pior, na verdade, porque com a proletarização das classes médias e a massificação da tecnologia, e a desqualificação das profissões em geral, filho de médico pode ser cada vez menos médico, filho de operário será filho de operário, o próprio médico é proletarizado. Ou seja a escola não tem qualquer peso na mobilidade social. E atenção – estes rankings dão um panorama desolador – mas a realidade é ainda pior. Porque os critérios de exigência foram caindo com o tempo. Se compararmos hoje um 16 com um 16 há 20 anos, seria porventura um 12, talvez. Em termos de aquisição de conhecimentos de facto, concluiremos rapidamente que a maioria dos alunos em Portugal está negativo. Em suma, estamos pior.

Não se esperaria outra coisa de um cenário educativo em que não há carreiras, progressão nas carreiras, liberdade de ensinar, boa formação. Para que não pensem que acuso este ou aquele sector da educação, um dos problemas mais graves está na Universidade. Até ao início dos anos 90 os cursos tinham 4 a 5 anos, e um semestre era um semestre. Depois, Cavaco Silva inventou a via educacional e a via cientifica – esperando que quem ia ensinar devia saber menos. Veio o Processo de Bolonha, que foi a machadada final – cursos de 3 anos, em que um semestre é de facto um trimestre. É impossível garantir ensino de fundo nestes termos. Falamos em excelência, como meta, mas cada vez estamos mais longe dos mínimos.

Este é apenas um de vários problemas. Nos quais os docentes têm sido as vítimas mais massacradas e os Ministérios os responsáveis. Só há uma coisa que não se perdoa aos professores, e eu também sou professora. Não resistirem. Depois da derrota de 2008/2010, com Lurdes Rodrigues, os professores ficaram desmoralizados. Muitos aliás dizem-me aqui que tenho razão mas que a culpa é das “ordens das direcções”. Desculpem, a culpa é nossa que aceitamos, sem contestação, sem apresentar alternativas, as ordens. A culpa não é certamente das crianças e jovens – eles sim, são as maiores vítimas de todo este processo – e, no entanto, hoje quantos de nós não escutamos os professores dizer que a culpa é do “miúdo que não estuda”, que “não gosta da escola”, que é indisciplinado, e despachado para um curso menor ou o ensino (dito) profissional, que lhes garante uma via certa para os baixos salários.

A responsabilidade é à cabeça dos Governos. E é de quem não resiste a estes. E nunca dos alunos – sobretudo dos mais pequenos, que nada podem fazer contra uma escola que não os estimula. Por favor, não me venham dizer que o problema é falta de iPads e computadores, porque isso têm eles em casa e em todo o lado, estão horas enfiados nessa caixinha delirante. Salvam-se cada vez menos, como se viu nos rankings, os que em escolas excelentes têm poucos alunos, muito bons professores que trabalham em boas condições, e os que ainda podem pagar um professor privado (eufemisticamente conhecido como explicador). De lembrar que tudo isto acontece num país onde quem trabalha, operário ou professor, paga impostos como um condenado para ter educação de qualidade. E não a tem.

5 thoughts on “Pagamos a educação, e não a recebemos.

  1. «Pagamos a educação, e não a recebemos»,

    Porque o Estado, como sabem as pessoas melhor informadas, é controlado nos bastidores pelo Grande Capital (h*tps://fotos.web.sapo.io/i/o41140ea4/17596647_i1zW0.jpeg) – cujo interesse é que as pessoas sejam o mais ignorantes e estúpidas possível, para que sejam mais fáceis de enganar e de explorar.

    (Sendo também que, por querer este Grande Capital eliminar as pessoas que irão estar “a mais”, assim que se finalizar a substituição da dita classe proletária por robots e Inteligência Artificial, não interessa ter um SNS que cuide muito da vida das pessoas – e, por isso, estamos também a pagar antecipadamente por um serviço de saúde que cada vez menos temos.)

    «Só há uma coisa que não se perdoa aos professores, e eu também sou professora. Não resistirem. (…) Desculpem, a culpa é nossa que aceitamos, sem contestação, sem apresentar alternativas, as ordens.»

    Bingo! (Os governantes que decidem isto são uns poucos em Lisboa. E, os professores que lhes obedecem são aos milhares.)

    E, é por estas e por outras, é que cada vez mais (apesar de ser socialista) o meu desprezo pelo PCP aumenta – com a sua FENPROF sempre preocupada apenas com manter o emprego dos “guardas dos campos de concentração” mentais que temos, em vez de fazer alguma coisa quanto à cada vez maior e gritante falta de qualidade do sistema de ensino que temos (ex: h*tps://zap.aeiou.pt/reducao-programas-secundario-ameaca-212037).

    Dando um daqueles exemplos extremos, que tornam o princípio óbvio através do exagero, os julgamentos de Nuremberga demonstraram que o “obedecer a ordens” não é motivo para se ser ilibado num julgamento. Pois, todo o ser humano adulto que se preze tem obrigação de ter uma consciência.

    E, quanto às ordens que vêm de cima, se duvidam de que todo este processo de estupidificação é propositado, leiam o que escreveram (1) aquele que chegou a ser nomeado “Professor do Ano”, no seu estado, nos EUA, John Taylor Gatto (h*tps://en.wikipedia.org/wiki/Dumbing_Us_Down) e (2) alguém que trabalhou para o Departamento de Educação dos EUA, chamada Charlotte Iserbyt (h*tp://deliberatedumbingdown.com/ddd/).

    *

    Alex Jones: “…Because, very soon, everything degenerates and falls apart, and then you have no brains to pull from in the next generation…”
    John Taylor Gatto: “Exactly. And that’s what’s happening…”
    Alex Jones: “By the way, my dad is a pretty high-level executive in health care – I would say he’s one of the top thousand brains in health care in the country – and he gets sent to this five/ten thousand dollars seminars… And one day he called me from the Four Seasons, here in Austin, he was hearing… I forget the guy’s name… it was a really famous guy… he said ‘The New World Order has destroyed everyone’s brains with the Prussian model’ – my dad called me, from out in the hall, going ‘It’s incredible…’ – and he said ‘The guy says that our model has destroyed everyone, so now we don’t have anyone to pull from, except the homeschoolers, but we’ve got to keep it secret for management, because we’ve got to keep this other system in place’. But they admitted that they’ve overdone it…”

    — Alex Jones, a entrevistar John Taylor Gatto

    • P.S. – Como eu conheço as duas fontes estadunidenses que recomendei há cerca de década e meia, e mais de uma década, respectivamente, são ainda as referências em inglês que estou habituado a providenciar às pessoas. Mas, sei que o autor John Taylor Gatto já começou a ser traduzido para português: h*tps://www.wook.pt/livro/compreender-a-escola-de-hoje-john-taylor-gatto/170407 (E, assim sendo, já não há agora desculpa para dizerem que são ignorantes sobre o que tem a dizer este muito inteligente autor e também antigo professor.)

  2. “Até ao início dos anos 90 os cursos tinham 4 a 5 anos”

    Haverá que repor a verdade histórica: os cursos universitários em Portugal passam a ter 5 anos de duração progressivamente desde o fim dos anos 1950s, no mandato do ministro Leite Pinto; creio que este processo foi concluído por Inocêncio Galvão Teles por volta de 1968. Em geral (o regime não era igual para todos; só viria as ser uniformizado em 1973) os cursos tinham quatro anos de “aulas” formais e eram concluídos pela elaboração de uma tese (com diversas designações: “estágio”, “seminário”,…), cuja apresentação conduzia à atribuição do primeiro dos graus então existentes (a licenciatura e o doutoramento).

    “Depois, Cavaco Silva inventou a via educacional e a via cientifica”

    O seu a seu dono: o inventor dessa coisa não foi Cavaco. Quando Cavaco ainda estava a fazer o doutoramento em York e se calhar nem sonhava vir a ser político, o ministro da Educação Nacional de Marcello Caetano, José Veiga Simão, publicou em 1971 o “pacote” universitário incluído na reforma (da lei de bases) do ensino aprovada dois anos mais tarde (Lei 5/73 de 25 de Julho), reforma esta que cria o ensino politécnico (então visto como uma espécie de “universidade de 2ª classe”).

    Neste “pacote” universitário eram já criados dois ciclos no ensino superior: os primeiros três anos, que conferiam o grau de “bacharel” (que já existia desde 1968 nas faculdades de letras e que virá a sser extinto pela reforma da lei de bases em 2005), e os dois anos finais, divididos em todas as licenciaturas em dois ramos: o “pedagógico”, para formar professores, e o “científico”, destinado a quem seguiria uma profissão no âmbito das actividades ligadas às actividades económicas (as engenharias) ou das actividades de investigação.

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  4. Cara Raquel, como infelizmente está cheia de razão! Em particular, nem imagina como combati o baixar de braços dos meus colegas professores nessa altura em 2008! Eles diziam-me que tinham muito medo, que tinham famílias e casas a sustentar. Eu dizia-lhes que tinham razão em ter medo, pois José Sócrates e Lurdes Rodrigues eram implacavelmente antidemocráticos e sem escrúpulos. Mas não tinham razão em desistir da luta, por um motivo muito simples que eu pacientemente lhes explicava:
    “Não há advogados suficientes no país para instaurar processos a mais de 150 mil professores. Nenhum governo pode despedir 150 mil professores. Mas, mesmo que o queiram fazer, quem é nomeado para instrutor dos processos de averiguações e disciplinares nas escolas (aliás, sei que é o mesmo nas universidades)? Os professores! Mas se os professores continuarem a recusar-se a obedecer, não haverá processos nenhuns ou serão residuais, e esta será uma das raras lutas laborais que o patronato/Governo jamais poderá ganhar! É impossível perdermos!”
    Devo dizer que, na minha escola, não convenci ninguém, nem delegados sindicais que havia por lá vários. Fiquei absolutamente sozinho na greve que fiz de não participar na avaliação competitiva que nos quiseram impor e que só iria prejudicar ainda mais os alunos (Competição em educação, entre educadores? Onde é que isto pode ser benéfico para os alunos?). Percebi que seria o início do descalabro que foi e, mal pude, saí do ensino que amava e comecei, com 50 anos, uma nova vida a partir do zero.

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