Resposta a Irene Pimentel

Com resistência venho aqui responder a Irene Pimentel. Várias pessoas têm-se dirigido a mim constrangidas e com facis de pena mesmo, pelas afirmações que Pimentel feito sobre a Exposição de que sou curadora dos 45 anos do 25 de Abril. Perguntam se estará bem de saúde mas eu com o tempo aprendi a não tratar como doença a falta de carácter, e por isso sou implacável – até porque quando se tratam os outros como perturbados tendemos a perdoar, o que na verdade é só cobardia para enfrentá-los e evitar conflitos. E esse silêncio é um contributo para a indigência intelectual que, mais cedo do que tarde, nos afecta a todos. Numa palavra medo do debate contraditório – um mal de um país pequeno com uma elite minúscula.

Aqui vamos então. Não conheço as afirmações porque não leio o seu mural, nem tenho a ele acesso. Mas uma delas, segundo me disseram, é a de que existiria um erro de concordância entre a legenda de um nome de um preso político e a fotografia na Exposição presente no Palácio do Egipto em Oeiras. Ora, Pimentel é historiadora da PIDE e dos presos políticos, devia ter reparado que não há um mas vários «erros» de concordância, porque há dois quadros na Exposição, lado a lado, um com nomes, outro com fotografias e não há ligação entre ambos. Quisemos colocar uma lista nomes e uma lista fotografias de presos nos 45 anos da libertação destes presos.

Agora vamos ao essencial. A inveja, o pecado capital da mediocridade de parte, substancial, da intelectualidade portuguesa, que é também, por sermos pequenos, a vasta maioria dos que se propõem pensar o país e insistem em debater o acessório, o superficial, desde logo porque não dominam a teoria – IP escreveu vários livros sobre o Estado Novo sem conseguir em nenhum deles caracterizar o regime político (entre outras confunde fascismo com bonapartismo), muito menos pensou uma teoria do Estado, para IP o Estado resume-se à sua dimensão de coerção e não de produção de valor. O que dizer da “benevolência” com que viu a PIDE na tua tese de doutoramento até vir a historiadora Dalila Cabrita Mateus explicar que nas colónias havia outra PIDE, e que a PIDE na metrópole e nas colónias era parte do mesmo Estado.

Dediquei 20 anos a estudar a revolução, sou a autora com mais investigação cientifica, publicações e traduções no estrangeiro sobre a revolução. Pimentel podia ter entrado na Exposição e nos meus livros e debatido teses polémicas no campo da historiografia que assumi, desenvolvi, ou propus nas minhas obras: que a revolução portuguesa começa em 1961 nas revoluções anti coloniais, que a base dessas revoluções foi o trabalho forçado, que foi uma revolução, dos cravos, com mais mortos (110 mil ao todo entre os da metrópole e os das colónias); que o controlo operário começa antes do 11 de Março e leva ao 11 de Março, que o PCP não queria tomar o poder e que foi, a sua direcção, conivente com o 25 de Novembro, que as conquistas da revolução são realizadas por organismos de duplo poder (comissões trabalhadores e trabalhadores) contra o Estado, ao contrário da tese (bem defendida esta, de Boaventura Sousa Santos que defende que foram dentro do Estado), que o 25 de Novembro foi a contra revolução democrática que deu origem ao regime liberal actual, que não é por isso filho da revolução de Abril mas da contra revolução. Defendi, sustentado na maior investigação de números de greves, manifestações e protestos alguma vez aqui publicada (está na minha História do Povo) que a revolução dos cravos é uma das maiores do século XX e a maior da Europa do pós guerra. Tudo isto não é a palavra de Deus, pode e deve ser debatido no nosso campo. O que não podemos é andar a debater legendas – para isso não há entusiasmo, lamento.

Sem arrogância vos digo – com muita sinceridade – que todos os meses vou a universidades estrangeiras apresentar estas teses, e aí respiro de felicidade, e alegria mesmo, por estar entre pares onde se debate com uma intensidade e honestidade que raramente encontrei aqui. O que me leva sempre a pensar como foi importante ter decidido fazer uma carreira internacional, sem no entanto não deixar Portugal, porque se eu tivesse feito a minha carreira só aqui tinha uma altíssima probabilidade de ainda estar, com mais de 30 anos de carreira, como Irene Pimentel, a discutir, com veneno na boca, a legenda de uma fotografia, que ainda por cima…nem sequer é legenda.

Aproveito, para não terminar com igual vazio ao que vai na pena de IP, e deixo aqui um vídeo onde expliquei parte destas teses este mês na Universidade de Budapeste. Onde estive a debater o duplo poder e o controlo operário depois do 25 de Abril – isto numa conferência sobre os 100 anos da revolução húngara.

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