Resposta a Irene Pimentel

Com resistência venho aqui responder a Irene Pimentel. Várias pessoas têm-se dirigido a mim constrangidas e com facis de pena mesmo, pelas afirmações que Pimentel feito sobre a Exposição de que sou curadora dos 45 anos do 25 de Abril. Perguntam se estará bem de saúde mas eu com o tempo aprendi a não tratar como doença a falta de carácter, e por isso sou implacável – até porque quando se tratam os outros como perturbados tendemos a perdoar, o que na verdade é só cobardia para enfrentá-los e evitar conflitos. E esse silêncio é um contributo para a indigência intelectual que, mais cedo do que tarde, nos afecta a todos. Numa palavra medo do debate contraditório – um mal de um país pequeno com uma elite minúscula.

Aqui vamos então. Não conheço as afirmações porque não leio o seu mural, nem tenho a ele acesso. Mas uma delas, segundo me disseram, é a de que existiria um erro de concordância entre a legenda de um nome de um preso político e a fotografia na Exposição presente no Palácio do Egipto em Oeiras. Ora, Pimentel é historiadora da PIDE e dos presos políticos, devia ter reparado que não há um mas vários «erros» de concordância, porque há dois quadros na Exposição, lado a lado, um com nomes, outro com fotografias e não há ligação entre ambos. Quisemos colocar uma lista nomes e uma lista fotografias de presos nos 45 anos da libertação destes presos.

Agora vamos ao essencial. A inveja, o pecado capital da mediocridade de parte, substancial, da intelectualidade portuguesa, que é também, por sermos pequenos, a vasta maioria dos que se propõem pensar o país e insistem em debater o acessório, o superficial, desde logo porque não dominam a teoria – IP escreveu vários livros sobre o Estado Novo sem conseguir em nenhum deles caracterizar o regime político (entre outras confunde fascismo com bonapartismo), muito menos pensou uma teoria do Estado, para IP o Estado resume-se à sua dimensão de coerção e não de produção de valor. O que dizer da “benevolência” com que viu a PIDE na tua tese de doutoramento até vir a historiadora Dalila Cabrita Mateus explicar que nas colónias havia outra PIDE, e que a PIDE na metrópole e nas colónias era parte do mesmo Estado.

Dediquei 20 anos a estudar a revolução, sou a autora com mais investigação cientifica, publicações e traduções no estrangeiro sobre a revolução. Pimentel podia ter entrado na Exposição e nos meus livros e debatido teses polémicas no campo da historiografia que assumi, desenvolvi, ou propus nas minhas obras: que a revolução portuguesa começa em 1961 nas revoluções anti coloniais, que a base dessas revoluções foi o trabalho forçado, que foi uma revolução, dos cravos, com mais mortos (110 mil ao todo entre os da metrópole e os das colónias); que o controlo operário começa antes do 11 de Março e leva ao 11 de Março, que o PCP não queria tomar o poder e que foi, a sua direcção, conivente com o 25 de Novembro, que as conquistas da revolução são realizadas por organismos de duplo poder (comissões trabalhadores e trabalhadores) contra o Estado, ao contrário da tese (bem defendida esta, de Boaventura Sousa Santos que defende que foram dentro do Estado), que o 25 de Novembro foi a contra revolução democrática que deu origem ao regime liberal actual, que não é por isso filho da revolução de Abril mas da contra revolução. Defendi, sustentado na maior investigação de números de greves, manifestações e protestos alguma vez aqui publicada (está na minha História do Povo) que a revolução dos cravos é uma das maiores do século XX e a maior da Europa do pós guerra. Tudo isto não é a palavra de Deus, pode e deve ser debatido no nosso campo. O que não podemos é andar a debater legendas – para isso não há entusiasmo, lamento.

Sem arrogância vos digo – com muita sinceridade – que todos os meses vou a universidades estrangeiras apresentar estas teses, e aí respiro de felicidade, e alegria mesmo, por estar entre pares onde se debate com uma intensidade e honestidade que raramente encontrei aqui. O que me leva sempre a pensar como foi importante ter decidido fazer uma carreira internacional, sem no entanto não deixar Portugal, porque se eu tivesse feito a minha carreira só aqui tinha uma altíssima probabilidade de ainda estar, com mais de 30 anos de carreira, como Irene Pimentel, a discutir, com veneno na boca, a legenda de uma fotografia, que ainda por cima…nem sequer é legenda.

Aproveito, para não terminar com igual vazio ao que vai na pena de IP, e deixo aqui um vídeo onde expliquei parte destas teses este mês na Universidade de Budapeste. Onde estive a debater o duplo poder e o controlo operário depois do 25 de Abril – isto numa conferência sobre os 100 anos da revolução húngara.

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O 25 de Abril, entrevista

Entrevista que dei ao Oeiras Actual um pouco sobre tudo, as crianças hoje, a vida pessoal e familiar, a revolução e o papel da história, o 25 de Abril. A entrevista está em acesso livre.

‘Quando mudamos um país ele muda-nos com ele’, é o mote da exposição sobre o 25 de Abril que conta com a curadoria da historiadora e investigadora Raquel Varela. A palavra ‘exposição’ é redutora. O que se pretende é algo mais amplo e vasto. Vamos lá ser destemidos, afinal, falamos dos propósitos de Abril. A ideia é questionar, mudar, interpelar, cutucar, transformar. (…) E não pode perder. E levar os seus
familiares, amigos, filhos, gente nova e velha, porque não podemos ser ausentes da nossa própria história. Não podemos.

OA: Raquel, 15 livros em dez anos, mais filhos, qual o segredo?

RV: (risos) Até acho que são mais de 15. É possível porque sou apaixonada pelo meu trabalho; porque trabalho muito em equipa, tenho muitos alunos, muitas teses, muitos projetos nacionais e internacionais. E, também, é possível porque eu tenho uma família maravilhosa. Os meus filhos são educados segundo princípios do séc. XIX: muito respeito, autoridade e carinho coletivo. Eu, o pai deles, o meu marido, os meus pais, uma ama que eles tiveram durante muitos anos – a Guida de Vila Fria por quem tenho uma estima imensa- todos juntos são um apoio fundamental.

Não sofre daquilo que muitas mulheres sofrem que é a culpa do tempo que não passam com os filhos?

RV: Eu trabalhei bem isso porque sou muito crítica, quer dos novos feminismos quer do machismo. É algo que tenho refletido muito porque tem a ver com o meu trabalho. O grande problema das crianças de hoje é dia é a falta de sociabilização com outras crianças. Nós, historicamente, nunca estivemos tanto com os nossos pais como agora estão.

A licenciatura em História surgiu por paixão?

RV: Completamente. Estive em Direito até ao terceiro ano e mudei. Primeiro entro para História, mas o meu pai, que queria que eu fosse para Direito, permitiu-me que eu tivesse um ano sabático, a viajar e uma vida boa, para que concorresse no ano seguinte para Direito. E entrei em Direito.

Esse ano sabático não teve grandes resultados.

RV: Não, não teve porque no terceiro ano resolvo ir para História que era aquilo que eu sempre quis. E é aquilo que gosto de fazer.

De onde vem essa paixão?

RV: Cresci num ambiente de gente curiosa. Os meus pais sempre tiveram uma envolvência política e critica. Mesmo as minhas avós que não tinham as qualificações dos meus pais, eram mulheres muito curiosas, sempre a perguntarem porquê. O mundo obscurantista dos dogmas nunca fez parte
da minha família. E eu compreendi que sabendo o passado preparo muito melhor o futuro.

A História é o olhar de alguém sobre um facto. Não pode a História mentir?

RV: Pode. A História pode mentir muito, mas penso que há balizas. Não existe neutralidade mas tem de existir seriedade sobre os factos. Tenho de elencar os factos e depois, a interpretação que tenho de cada um deles. Naturalmente que mais do que nossa é de correntes historiográficas ou seja, as grandes correntes da História que nos influenciam. E a melhor forma é sermos sinceros e dizermos quais são essas correntes e deixa-las claras. Agora, importa salientar que a História não é um achismo, uma opinião sobre. É uma sucessão de factos que têm uma temporalidade. E não é só isso, porque se fosse só isso bastava elencar os factos e já os tínhamos. A História é, necessariamente, interpretação. É uma dança. Feliz e o mais harmónica possível, entre empírico e teórico, facto e análise, conceito e evidência. Essa dança tem sempre de ser a pares. Agora, reafirmo, não existe neutralidade. Mas tem de existir seriedade e rigor.

E quando perante um facto tão óbvio se depara com perceções, desse mesmo facto, tão distintas das suas?

rv. Irrita-me. Irrita-me muito. Não me incomoda ideias distintas das minhas, isso até gosto. Não há ciência sem contraditório, é doloroso mas temos de ser confrontados com opiniões distintas. O que me irrita é quando são interpretações que extrapolam a seriedade.

É desonesto
RV: Completamente.

Foi convidada pela câmara para ser a curadora da exposição sobre o 25 de Abril. Já não foi tudo dito sobre o 25 de Abril?

RV: Não, nem pensar. Esta exposição tem uma característica única em 45 anos de cerebrações, aliás, digo mesmo que estas celebrações são as mais importantes do país são de caracter nacional. Isto não é só uma história de Oeiras. É uma reflexão sobre o 25 de Abril. Este é um 25 de Abril popular. É o 25 de Abril e a revolução social que se
lhe segue muito centrado nas dinâmicas populares. O 25 de abril também é o 25 de Abril institucional. O 25 de Abril também é o 25 de Abril cultural. Há muitas formas de contar a história da revolução. E esta, aqui em Oeiras, é a sua dimensão popular. Que é aquilo que na nossa opinião distingue as revoluções das simples quarteladas ou golpes militares. Nós não tivemos só um golpe militar, nós tivemos um golpe militar com uma revolução. E durante muito tempo demos muito espaço à história politica e institucional e militar e pouco à história dos movimentos sociais. E é muito importante que se reflita sobre esse lado social. Estas pessoas pertenciam a um país analfabeto, atrasado, retrógrado. Elas próprias não eram pessoas com papel, eram submissas, medrosas, cobardes até e o 25 de Abril abriu as portas a que elas se transformassem. Muitos destes cobardes tornaram-se corajosos. Muitas pessoas ausentes da política quiseram participar. As pessoas transformaram-se quando transformaram o país. Este é o mote desta exposição e por isso se chama: quando mudamos um país mudamos com ele. E ainda há muito para se estudar.

45 anos depois?

RV: Sim, sem sombra de dúvida. Até porque agora é que começa a haver conforto por parte de investigadores para olharem com menos medo da reação dos vivos.

Mas estes 45 anos também distanciam gerações desse momento. Os mais novos, por exemplo, olham como se fosse algo que está lá muito longe no tempo.

RV: É verdade mas o 25 de Abril é o feriado mais celebrado em Portugal. Não há nenhum feriado com esta dimensão.
Juntas de freguesia, associações, clubes desportivos, bombeiros… são milhares de coletividades e associações e grupos que festejam este dia. Eu digo, meio a sério e
meio a brincar, que o Grândola deveria ser o nosso hino. Porque é, de facto, o feriado mais enraizado popularmente.

A Raquel não era nascida no 25 de Abril, mas teve desde pequena a noção da importância desse dia?

RV: Tive. E tive porque nasci numa família de esquerda fortemente antifascista. Sempre houve, na minha cabeça, um antes e um depois do 25 de Abril.

O papel de Oeiras no 25 de Abril acentuou-se pela sua proximidade geográfica à Capital ou há outros fatores que
levam a que tenha um papel fundamental?

RV: Oeiras teve um papel que à medida que íamos fazendo a investigação se tornou maior do que pensávamos. Oeiras era uma das principais zonas do país com o problema das barracas. É também o primeiro concelho a acabar com elas, mas isso já nos anos 90. Houve as ocupações e a luta
contra as barracas que é um movimento social, e houve o SAAL que era um programa governamental para se tentar construir casas. Os técnicos da SAAL foram afastadas das maiorias da câmaras quando o programa acaba, em 1976, mas a câmara de Oeiras incorpora-os. Isso é absolutamente fundamental porque tínhamos aqui crianças que no 25 de Abril elas acordavam e não tinham orelhas porque tinham sido comidas pelos ratos durante a noite. Não havia saneamento básico que era a causa principal de mortalidade que era altíssima– nós vamos ter esse dado na exposição. Isto ainda antes da saúde. Tão simples como separar a água de beber da água de esgoto. Havia zonas em Oeiras onde havia uma torneira para 1700 pessoas. Isto em 1974 mesmo ao lado de Lisboa. O que torna Oeiras representativo a nível nacional, é a sua luta contra as barracas e contra os bairros de habitação clandestinos. Do ponto de vista militar também é importante por causa de Caxias e da sua prisão onde estiveram os presos políticos; também é importante por causa do regimento de artilharia de costa; vários militares do MFA e do Movimento de Capitães viviam aqui no concelho de Oeiras, entre eles o comandante operacional Otelo Saraiva de Carvalho. Oeiras tinha a unidade de polícia móvel que era o corpo de intervenção repressivo sobre os trabalhadores. Depois Oeiras tem uma dimensão fabril, sobretudo na Amadora e Carnaxide. Nessa altura Amadora pertencia a Oeiras Exato. E estamos a falar de fábricas multinacionais. Falamos de lutas fabris em fábricas multinacionais. Oeiras tem um grande papel. Um papel inquestionável no 25 de Abril.

O que se pode esperar da exposição, um maior conhecimento sobre o 25 de Abril?

RV: Sim, vamos clarificar o papel que cada interveniente, que já afloramos, teve. As pessoas vão perceber a centralidade de Oeiras na história nacional e na história local. E, por outro lado, vão ter essa dimensão popular. Mas a exposição está desenhada para criar sensações. Entra-se como se entrasse
no túnel da ditadura e sai-se no 25 de Abril e termina-se com uma interrogação: para onde é que queremos ir hoje?

É a primeira vez que é curadora de uma exposição, como foi esta viagem?

RV: Sim, é a primeira vez e gostei muito. E aceitei porque sabia, logo à partida, que tinha a possibilidade de ter uma equipa excecional a trabalhar comigo e à cabeça o designer Pedro Pascoa.

O que foi fundamental para si.

RV: Absolutamente, porque ele é, para mim, o melhor designer português a trabalhar. Não tenho dúvidas disso. E se não fosse esta dimensão esta experiencia tinha sido um desafio muito assustador e não foi. Foi um prazer enorme porque do outro lado tinha alguém que não pensa só formas, há uma relação profunda com os conteúdos. E deixe dizer que esta experiência com a câmara de Oeiras foi, de facto, muito interessante porque esta iniciativa envolveu uma vastíssima equipa. Por um lado houve uma grande autonomia científica, que foi, desde a primeira hora garantida, por outro, houve uma vasta cooperação.

É papel de uma câmara, seja a de Oeiras ou outra, dar a conhecer a nossa história?

RV: É fundamental. Nestas comemorações muitas vezes faz-se um museu ou uma exposição e fica-se por aí; e estas
comemorações juntam a parte cultural, educacional, multimédia, conferências, exposição, ou seja, nós fizemos, em Oeiras, um evento multidisciplinar facetado para que a História seja viva e que interrogue os participantes. Não é uma fotografia fechada. E o propósito final, qual é, porque parece-me que não é, unicamente, dar a conhecer o que se passou, sinto que é algo muito maior. É mostrar às pessoas que temos o poder. É importante que as pessoas percebam que nós somos os atores da nossa própria história. Não existe destino. Não existe fado assegurado. Nós temos na mão o que vamos fazer com este país. Esta noção, que é iluminista, é absolutamente fundamental. Fundamental.

http://www.cm-oeiras.pt/pt/municipio/boletimmunicipal/30dias/217_TRINTA%20DIAS_2019_web.pdf

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Semeando Cravos

Saiu no Brasil, na Revista de História da Biblioteca Nacional, edição de Março, nº 114, o meu artigo «Semeando Cravos».

Aqui a sinopse feita pelos editores da Revista:

«Revolução social que derrubou a ditadura portuguesa inspirou radicalismos também na Espanha, em transição nada pacífica
Historiadores como Valerio Arcary defendem que o fator exemplo é determinante na abertura de um período revolucionário. O “efeito dominó” que varreu ditaduras no sul da Europa nos anos 1970 reforça esta tese. Ele começou em Portugal.

A mais longa ditadura europeia já durava 48 anos quando um golpe pôs fim ao Estado Novo, no dia 25 de abril de 1974. Exauridos pela incapacidade de derrotar os movimentos de libertação em Angola, Guiné-Bissau e Moçambique, numa guerra que se prolongava desde 1961, os próprios militares portugueses deram início à derrubada do governo. Seguiu-se uma crise política combinada com uma situação revolucionária. A população, irada e exasperada pela repressão, pela inflação, pela pobreza, vem para as ruas e faz eclodir a Revolução dos Cravos, que dura 19 meses.

O nome era uma referência às flores que naquele período as mulheres de Lisboa distribuíam aos soldados. Paulatinamente, transformavam-se todas as estruturas do antigo regime – censura, polícia política, partido único – e evoluía-se para uma revolução social, capaz de questionar a propriedade privada dos meios de produção. Greves, ocupações de fábricas e ocupações de terras combinaram-se com novos métodos de organização política – como as comissões de trabalhadores, moradores e soldados – levando o país à nacionalização do sistema financeiro e à reforma agrária.»

As Nacionalizações em 1974-1975

Na História do Povo na Revolução Portuguesa defendi a tese de que as nacionalizações tiveram um carácter contraditório – por um lado significaram uma derrota para os sectores da burguesia que dominavam o sistema financeiro e produtivo mas, por outro lado, o carácter do Estado não se alterou e as nacionalizações foram uma forma de pôr fim ao controlo operário na Banca, retirando aos trabalhadores e colocando no Estado esse controlo, tese que, descobri só há cerca de um ano, e referi em livro, o próprio João Martins Pereira, secretário de Estado da indústria, tinha aflorado como possível. Deixo aqui um resumo de 4 páginas de um longo capítulo que desenvolvi em livro sobre o controlo operário e as nacionalizações.
Pode parecer a muitos uma discussão abstracta mas é de fulcral importância para os historiadores – dar poder ao Estado é muito diferente de tomar o poder do Estado, como sabemos os que estudamos revoluções no século XX. É por isso possível que, contraditoriamente, as nacionalizações tenham retirado poder aos trabalhadores, num modelo de regime bonapartista – MFA, IV Governo – que na aparência e com concessões aos trabalhadores parecia um regime dos trabalhadores, mas na essência foi a forma que a burguesia portuguesa encontrou para salvar os seus capitais – abdicar deles transitoriamente, mantendo o poder político no Estado. Ao contrário do que então advogava o PCP e o PS, os trabalhadores não tinham o poder político e do Estado e faltava-lhes o poder económico, tinham, como escreveu Valerio Arcary de forma acutilante, o poder económico, com o controlo operário nas fábricas, empresas, escolas e habitações, mas faltava-lhe so poder político, que de-legaram no MFA e nos partidos.
Publicado na revista da Associação de Professores de História.
“Na verdade, cremos, como refe- rimos, que em parte a nacionaliza- ção de algumas empresas é levada a cabo não só por razões objeti- vas, para evitar a fuga de capitais e a falência do País – controlo sobre o investimento –, como para evi- tar o desenvolvimento do controlo operário que introduzia uma situação de dualidade de poderes. Este proces- so levou à rutura da coligação PS-PCP e ao progressivo desmembramento do MFA, porque a situação social po- larizava-se impedindo a estabilização de um governo de carácter frentista (governo de salvação nacional).”
Artigo resumido neste link

Amphora – pp. 26 e 27 (Nacionalizações) (1ª parte)

Amphora – pp. 26 e 27 (Nacionalizações) Amphora – pp. 28 e 29 (Nacionalizações) (2ª parte)

Este ano darei na FCSH o seminário de doutoramento História da Revolução dos Cravos 1974-1975.

Resumo do curso: Conhecer a história da revolução portuguesa nas suas dimensões mais importantes: militar, social, política e inserir esta análise no quadro da história contemporânea portuguesa do século XX. Conhecer os principais momentos e fases da revolução. Analisar criticamente conceitos teóricos fundamentais: controlo operário, auto gestão, dualidade de poderes, crise revolucionária. Conhecer as principais mudanças ocorridas na sociedade portuguesa antes, durante e depois da revolução dos cravos, ao nível político, social e legal. Situar a revolução portuguesa no contexto histórico das revoluções do século XX identificando as diferenças e semelhanças com outros processos revolucionários (revolução russa de 1917, biénio rosso italiano de 1919-20, revolução espanhola de 36; revolução húngara de 1956, Maio de 68 e revolução chilena de 1972-1973). Conhecer as fontes para a história da revolução portuguesa e a principal bibliografia produzida na área.

http://www.fcsh.unl.pt/ensino/doutoramentos/opcoes-livres-nas-unidades-de-investigacao/historia-da-revolucao-dos-cravos-1974-1975/view

História do Povo na Revolução Portuguesa 1974-1975

 

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Amigos do Reino dos Algarves , estarei em Faro, na livraria Pátio das Letras, um lugar onde se debatem livros e ideias em baixo de uma figueira frondosa que a Liliana Palhinha cuida com o mesmo carinho com que cuida de livros, autores e convidados. Na companhia do jornalista Carlos Albino, que apresentará História do Povo na Revolução Portuguesa 1974-1975. Este Sábado, às 16:30 (e não às 17 como está no cartaz).

CARLOS ALBINO, jornalista, foi o responsável pela emissão da senha – a canção “Grândola, Vila Morena”, de José Afonso – do início das operações militares através do Programa Limite, na Rádio Renascença.
Alinhamento do bloco de 11 minutos: quadra, canção Grândola, quadra, poemas Geografia e Revolução Solar, da autoria de Carlos Albino, e a canção Coro da Primavera.
A leitura gravada da primeira estrofe de Grãndola confirmou o golpe e o avanço das forças armadas”.
Preside à Comissão Concelhia das Comemorações dos 40 Anos do 25 de Abril em Loulé, cidade de onde é natural.

Esclarecimento Público – Comemorações Oficiais do 25 de Abril – 40 anos

Circulou publicamente que eu estaria a “colaborar” com o Governo ao ser coordenadora científica do Itinerário Histórico das Comemorações oficiais do 25 de Abril – 40 anos, financiadas pelo Estado, promovidas pelo Governo de Portugal.

Gostava de começar por dizer que todo o trabalho intelectual e público deve estar sujeito à crítica pública. Os intelectuais não podem ser alvo de reverência nem podem achar que estão imunes ao controlo público. Com muito gosto receberei as críticas face ao percurso do Itinerário, os textos, as escolhas científicas. Todo o meu trabalho é avaliado interpares com regularidade e vejo isso com muita satisfação.

A coordenação científica não é um cargo político mas uma encomenda técnica, cuja origem está exclusivamente no facto de eu ser especialista na história da revolução, sobre a qual tenho projetos de investigação, várias orientações de mestrado e doutoramento em curso e, hoje, mais de uma centena de seminários organizados em várias instituições de investigação e seis livros publicados.

O critério de realização do Itinerário foi o convite a uma série de testemunhos e investigadores e historiadores de todo o País que guiarão pelas ruas de Lisboa, Porto, Peniche e Santarém uma história da revolução. Este convite dizia expressamente, com nome, anexo explicativo e logótipo, o seu objectivo e organização. Os convites foram aceites por dezenas de pessoas que guiarão os participantes, num Itinerário de acesso gratuito para a população.

Entre as inovações deste Itinerário está o facto de se combinarem testemunhos com intervenções de investigadores com trabalhos de fundo na área – incluindo jovens investigadores com teses novas –, testemunhos novos (e não a repetição dos mesmos) e a associação a este Itinerário de um espaço virtual onde todos os Portugueses poderão deixar o seu testemunho de como viveram o 25 de Abril. É uma rara oportunidade para ouvir, com acesso a um grande público, vozes de anónimos que participaram nos acontecimentos dos dias entre 25 de Abril e 1º de Maio de 1974.

Acabámos de sair das Comemorações Oficiais da República, propostas pelo Governo Sócrates e nomeadas pelo  Presidente da República, Cavaco Silva. Comemorações que financiaram centenas de investigadores em trabalhos de mérito e relevância muito importante. O facto não suscitou qualquer polémica então. Na minha opinião corretamente.

Sobre as questões do financiamento cabe-me fazer o seguinte comentário. Sou investigadora de uma universidade/fundação pública. Há mais de 10 anos que trabalho para o Estado e sou financiada pelo Estado. Convém, aliás, não confundir Governo e Estado, já que nas nossas sociedades não existe de facto um orçamento do Governo, mas um Orçamento do Estado, e é dele que provém todo o financiamento público. A minha investigação já foi financiada pelo Estado português, pelo espanhol, pelo alemão, geridos por diversos governos. O projeto que coordeno de estudo dos operários navais no mundo tem financiamento da Academia Real de Ciências da Holanda, presidida pelo rei. Também tenho em curso projetos financiados por associações locais e sindicatos. Em qualquer destes lugares jamais sofri qualquer pressão no sentido de inflectir o meu trabalho nesta ou naquela direcção. Mas já passei por situações em que essa pressão existiu, noutros espaços, e o que fiz então foi recusar o trabalho em causa.

O único critério a que preside o Itinerário do 25 de Abril que dirijo é o científico. Isso é uma boa coisa num País onde as comemorações, oficiais e não oficiais, são muitas vezes condicionadas pelos protagonistas ou por quadros políticos e não por historiadores. Levando, aliás, a situações de claro revisionismo histórico que marcaram e marcam, até hoje, as celebrações, nomeadamente pretendendo associar o início da revolução (25 de Abril de 1974) ao golpe que encerrou o período revolucionário (25 de Novembro de 1975), já que uma parte dos heróis do primeiro foram também protagonistas do segundo. Ter convidado historiadores (e não políticos) para fazer Um Itinerário Histórico do 25 de Abril é, aliás, uma das raras coisas que me recorde em que posso estar de acordo com este Governo.

A neutralização ou cooptação dos intelectuais pelos poderes é um assunto sério nas nossas sociedades. Frequentemente ela passa pela adaptação das ideias aos financiamentos – essa pressão real existe e deve ser por nós controlada e rejeitada. Mas muito mais frequentemente ela passa por posições dúbias, desonestidade intelectual, escolha criteriosa de autores críticos “cómodos” e mesmo escolha de temas a investigar que evitem aos investigadores científicos o confronto político com os poderes. Há porém, e felizmente, centenas de exemplos de pessoas cujo critério continua a ser a liberdade. Esse é também o meu.

O debate histórico sobre a revolução não pode estar dependente de um critério eleitoral (ampla frente contra o Governo à porta das eleições europeias), nem de um critério de força dos partidos dominantes, nem da luta política e por carreiras que surge dentro das universidades atiçada pela escassez dos financiamentos. A qualidade do trabalho de investigação está dependente da nossa coragem, seriedade e financiamentos e de boas condições laborais e sai prejudicada quando se pretende criar na universidade capelinhas que reflectem a luta política.

A acusação de “colaborar com o Governo” dirigida a uma pessoa como eu, cujo percurso público nos últimos anos foi de séria e frontal oposição a este Governo, resulta de uma forma retorcida de fazer política e não tem qualquer fundamento sério. A minha vida pública tem sido marcada pela defesa intransigente de políticas de ruptura com este modelo social, e não sufraga obviamente nem a política deste Governo nem a da “Oposição de Sua Majestade”.

É legítimo discutir a oportunidade de aceitar fazer um trabalho encomendado pelo Governo, como é o caso deste Itinerário do 25 de Abril. Tal como é legítimo discutir a oportunidade de um engenheiro ou um arquitecto aceitar construir uma obra encomendada pelo Governo. O que não é legítimo é, ignorando o mérito próprio do trabalho encomendado, aproveitar essa circunstância para caluniar o autor dessa obra como “colaborador” desse governo. O Itinerário do 25 de Abril é um trabalho sério a que me honro de ter associado o meu nome. Agradeço a todos aqueles que nele colaboram. E espero que sirva ao povo português, sobretudo aos mais jovens, para conhecerem melhor a revolução que em 1974 mudou o nosso País.

Auto gestão e Controlo Operário na Revolução Portuguesa

Frequentemente confunde-se auto gestão e controlo operário – quando são substancialmente dois processos distintos e também o foram em 74-75 tendo a autogestão (em que os trabalhadores de facto se tornam donos das empresas), atingindo empresas mais pequenas e descapitalizadas e o controlo operário – em que os trabalhadores se recusam a ser patrões das empresas mas controlam a produção, bloqueando de facto os mecanismos normais de acumulação – atingindo grandes empresas e fábricas. Distingue-se de co-gestão, em que são representantes dos sindicatos que aconselham a gestão da fábrica/empresa.
Começa esta segunda-feira o congresso internacional A Revolução de Abril. Participarei numa mesa da parte da tarde onde farei uma comunicação sobre este tema: “Auto gestão e Controlo Operário na Revolução Portuguesa | Raquel Varela (IHC-FCSH/UNL e IISH)”.
A entrada é livre. Terá lugar no Teatro Nacional D. Maria II, no Rossio.

http://25abril40anos.wordpress.com/programa/

A história deve ter a ambição de interpretar, explicar a realidade.

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Entrevista dada ao jornalista João Céu e Silva, Diário de Notícias, 5 de Março de 2014.

A primeira frase do seu livro é uma afirmação que muitos portugueses colocam hoje em dúvida: “A revolução mudou profundamente o País.” Porquê?

 

O fotógrafo Sebastião Salgado, que esteve em Portugal antes e depois do 25 de Abril de 1974, disse que a maior diferença entre o antes e o depois era a alegria das pessoas.

A revolução fez de nós um país mais alegre, optimista, em que as pessoas acreditaram que podiam mudar as suas vidas – e mudaram-na muito. Um dos homens mais ricos do mundo, Warren Buffett, diz que estamos no meio de um grande confronto entre as classes. E que eles, os ricos, estão a ganhar. Pois nessa altura era ao contrário. Foi provavelmente o único período da nossa história em que se inverteu a tendência para os ricos ficarem cada vez mais ricos, como agora. A repartição do rendimento nacional sofreu uma inflexão em benefício da classe trabalhadora – na ordem segundo cálculos oficiais de 18% -, passou a existir um Estado social, chegámos a ter o 7º melhor serviço nacional de saúde do mundo; a educação unificada (isto é, com qualidade e um tronco comum de saber para todos); direito a não ser lançado no desemprego em baixas de produção (direito ao trabalho que é a essência do pacto social); nascimento da segurança social (o que havia antes era assistência social focalizada); durante algum tempo a reforma agrária deu emprego estável aos trabalhadores dos campos do Sul. E, claro, todas as conquistas democráticas (direito ao voto, liberdade de expressão, reunião associação) são asseguradas durante a revolução.

E ganhámos milhares de pessoas competentes e dedicadas, que nos seus locais de trabalho, nas empresas, nos hospitais, nas escolas e universidades fizeram o País dar um enorme salto em frente. Que se tornaram «militantes» da transformação social, dando muitas horas da sua vida para melhorar a sua vida e a dos seus concidadãos. Por convicção.

 

É por acaso que escreve “revolução” em vez de Revolução?

Sim, é uma questão de ‘livro de estilo’. Já quando uso a expressão Revolução dos Cravos, por exemplo, uso maiúsculas. Mas deixo essas questões aos revisores da minha editora, a Bertrand.

 

Centra a cronologia da Revolução nas greves e manifestações. O que muda na visão histórica?

Podia dar muitos exemplos. O 11 de Março pode ser resumido a uma luta de poder entre cúpulas de partidos e militares? Creio que não. Há uma situação social que leva Spínola a fazer o golpe e depois o CR a decretar a nacionalização da banca e ambas se encontram na extensão a que tinha chegado o controlo operário a partir de Fevereiro de 1975.

Porque cai o IV Governo em Julho? Por causa do “caso República”? Não, isso é resumir a história ao episódio. Justamente cai porque PS, PCP e MFA não se entendem mais. Mas porquê? Porque a situação social não aguentava mais um governo frente populista, estável. Porquê, se até aí se tinha aguentado? Porque se estende o controlo operário, há uma onda grevista em maio e Junho de 1975 – há jornais com uma lista de assembleias diárias – que os arquivos demonstram inequivocamente (fazemos no livro as tabelas de evolução deste conflitos). Mesmo com todos os esforços do PS e do PCP de por um lado controlar a situação social com eleições (PS) e do outro com a pressão da batalha da produção (PCP). Ambos em vão. Começa a haver a partir de Abril e maio de 75 aquilo que é mais determinante numa revolução – a coordenação nacional dos organismos de duplo poder (a construção de um poder paralelo ao Estado) e isso leva à constatação de um sector (PS, Grupo dos 9, direita, Igreja) que tinham que fazer um golpe para pôr fim à revolução (25 de Novembro). Preparam o golpe em Agosto e o PCP fica sozinho num governo que jamais apoiou de facto, o V Governo. Tinha ruido para o PCP o programa da frente popular. Mas porque ruiu? Porque a dinâmica do controlo operário e da coordenação nacional de comissões de trabalhadores e moradores tornou impossível manter a situação – criava-se uma situação objectiva de construção a nível nacional de um poder paralelo ao Estado que a pouco e pouco vai-se armar também (comissões de soldados sobretudo a partir de Setembro de 75). Como isto se traduz – traduz-se no Estado aprovar leis que não são cumpridas, traduz-se no controlo dos livros de contas pelos operários nas principais metalomecânicas, por exemplo. Fizemos aqui o levantamento destes organismos de coordenação – são mais vastos do que se pensava. E curiosamente toda a política do PCP neles é votar contra que se coordenem a nível nacional. Do outro lado, temos a esquerda radical que procura, de forma dividida, várias formas de coordenar estes organismos (em Abril, Setembro, etc). Chegam tarde porém – o 25 de Novembro dá-se sem que estas estruturas tenham um comando central de resposta.

A história que ignora o papel determinante dos indivíduos é muito limitada mas a história que resume tudo a lutas entre aparelhos militares e partidários não consegue explicar a realidade – Spínola respondia a uma situação social, a uma fracção de uma classe da mesma forma que os outros sectores. É o comportamento dessas classes e fracções que tem que ser rigorosamente estudado.

Estudei neste livro a dinâmica das classes trabalhadoras, falta estudar a dinâmica das outras classes e fracções – isto faz-se através do estudo dos partidos, das associações empresariais, patronais, etc. É difícil, é mais fácil fazer história somando decretos – e a história também é feita de decretos – mas ficará assim uma visão muito aquém da realidade.

 

 

Considera que a História que existe não reflecte a realidade. Mesmo sendo parcial é um contributo válido?

A história deve ter a ambição de interpretar, explicar a realidade. Isso implica muitas vezes ir contra aquilo que é conveniente. É mais fácil e cómodo refugiarmo-nos numa história descritiva e parcial.

Por outro lado há uma questão politica central – há uma unanimidade quase total em Portugal de repulsa à ditadura, por isso quem faz história do Estado Novo sofre menos pressões políticas. Há muito pouca unanimidade sobre a revolução e os protagonistas estão vivos. Há pressões fortíssimas sobre nós, porque quase todas as elites de hoje tiveram um papel na revolução e reclamam que o seu testemunho é parte da história. Acho que estas pressões devem ser na minha opinião absolutamente ignoradas. Trabalhamos com fontes, provas e contra provas, metodologias claras, teorias que devem ser explicitadas.

Agora centrando-nos na revolução: não digo que não é importante estudar o MFA, os governantes, os partidos… Não só é necessário como é indispensável. Mas não há um único acontecimento importante da revolução que possa ser explicado se omitirmos os movimentos sociais. Porque se a política corrente, como disse o poeta Paul Valéry, é a arte de impedir as pessoas de se imiscuírem nos assuntos que lhes dizem respeito, uma revolução é o contrário: é quando aquelas pessoas que normalmente não participam nas decisões capitais que afectam as suas vidas se tornam protagonistas dessas decisões.

 

Refere que este volume faz a “história total” sobre as “decisões coletivas”. Foi um momento verdadeiramente popular ou também conduzido por ideologias?

As ideologias estão sempre presentes nas mentes do povo. Aliás, nunca estão tão presentes como quando não há revoluções. Aí, as ideologias dominantes subjugam a consciência colectiva. Por exemplo, hoje, mesmo gente de esquerda tende a achar que a ordem social vigente – capitalismo e democracia representativa – é quase inabalável. E se mudar será para pior. É uma visão finalista, ahistórica. A terra move-se mesmo que os pés não sintam e nenhum modo de produção nem nenhum regime foram eternos, pelo contrário. Na altura da revolução de 1974-75 era o contrário, porque as pessoas passam a acreditar que podem mudar a realidade, as suas vidas.

 

O período 1974/1975 é único na História de Portugal?

É. Mas podemos sempre compará-lo com outros períodos de revolução: a revolução liberal de 1820, a guerra civil de 1828-1834, o período da I República… Fenómenos de certo tipo comparam-se com outros idênticos. Os revolucionários de 1917 usavam até na sua linguagem, como referência, os episódios da revolução francesa de 1789 ou da comuna de 1871. Falavam de ‘termidor’, de jacobinismo…

 

 

Não houve imediatamente uma purificação dos ex-responsáveis na nova situação política. Brandos costumes?

Não. Foi o prestígio dos novos protagonistas como Mário Soares ou Álvaro Cunhal, prestígio esse construído na resistência ao regime de Salazar e Caetano, ou o do MFA, que derrubara o regime, que impediu que as pessoas fizessem justiça elementar com os seus carrascos da véspera. O MFA tratou de despachar Tomás e Caetano para longe, primeiro para a Madeira e depois para o Brasil. Os pides quase não foram julgados. Houve apelos repetidos a que os representantes do regime deposto fossem poupados em nome da superioridade moral da democracia.

Quando se fala de violência da revolução esquece-se que o período mais violento da revolução foi protagonizado pela direita no verão quente (com atentados terroristas) e que os ditadores «fugiram», com a benevolência do novo regime.

Este é um tema difícil porque criou-se a ideia, sem qualquer lógica, de que numa sociedade normal cometem-se crimes e as pessoas são correctamente julgadas, mas quando há mudanças de regime há uma ideia de senso comum que o julgamento já é vingança e não justiça?! Falamos de ditadores que têm sob a sua responsabilidade uma polícia política que matou pessoas – devem ser julgados, de forma justa. Mas julgados. Não se trata de vingança mas de elementar justiça democrática.

 

Porque foi o MFA conivente com o não julgamento de Caetano e Tomás e o consequente exílio brasileiro?

O MFA quis ver-se livre deles quanto antes. Recorde-se que o MFA, num primeiro momento, entregou o poder a uma Junta de Salvação Nacional onde estavam generais que tinham feito parte do regime deposto. A preocupação de Marcelo Caetano em 25 de Abril foi entregar o poder a Spínola para que «o poder não caísse na rua», para usarmos a sua expressão. A intenção de Spínola não seria certamente a de ajustar contas com o regime de que fizera parte.

Na Madeira porém tiverem que sair mais cedo para o Brasil porque uma manifestação e 20 000 pessoas invadiu o Funchal exigindo que saíssem da ilha.

 

O MFA é ultrapassado pelo povo nos dias que se seguem à Revolução?

Sem dúvida. Fazem mais de 10 comunicados apelando às pessoas para que não saíssem à rua, que ficassem em casa. Em vão. O próprio Salgueiro Maia, aplaudido carinhosamente no Largo do Carmo, quando nesse dia 25 discursa pedindo às pessoas para irem para casa é apupado.

 

Considera que o poder não caiu na rua durante 1974/75. Não é uma suavização dos próprios acontecimentos?

 

Não, acho essa visão exagerada. O poder não caiu, entrou em crise. O poder de Estado ficou sobretudo na mão do MFA e dos partidos políticos PS e PCP – e paralelamente constitui-se um outro poder, o poder dor organismos paralelos. O Estado ficou dirigido por estes sectores, não pelos trabalhadores. Isto a um nível puro porque na realidade as comissões são muito influenciadas pelos partidos e os partidos e o MFA têm sectores que se dividem que vão apoiar este outro poder.

 

Até que ponto houve uma rutura entre o anterior e o novo regime?

Houve pelo menos duas rupturas de regime. Nunca houve ruptura do Estado, ao contrário do que se diz. O Estado permaneceu sempre um Estado capitalista, não se deu essa alteração, o que mudou foi o regime político. Entrou o Estado em crise porque paralelamente a ele criou-se outro poder, e havia uma disputa entre esses poderes, mas entrar em crise não é colapsar. São coisas muito diferentes.

 

O sistema partidário criado à época era correto ou, 40 anos depois, mostra que foi apenas o possível?

Os partidos criados na época, até pelos nomes, reflectem que houve uma revolução. Veja: ainda hoje temos um partido neoliberal que se intitula social-democrata (popular democrático na época) e o partido mais à direita do espectro político chamava-se democrático e social. Nenhum dos partidos, nem mesmo os de direita, se reclama herdeiro do regime de Salazar e Caetano.

À esquerda, o Partido Comunista, no espaço de um ano, passa de 2 ou 3 mil militantes para 100 mil. Porquê? Porque é, como reivindica, «o grande partido da resistência antifascista» e por     que ganha muito espaço no aparelho de Estado, ao entrar para o Governo. O PS cresce também à sombra dessa herança de resistência de sectores mais de classe média, advogados, doutores e também á sobra dos lugares que os seus quadros ocupam no aparelho de Estado. E porque consegue vender aos Portugueses, órfãos da miragem das colónias, de um país que ia «do Minho a Timor», como afirmava a propaganda salazarista, uma outra miragem, a da integração na Europa dos ricos, a Europa da CEE. Foi o tempo da ‘Europa Connosco’, já depois do fim da revolução, em que os chefes de Estado dos países mais ricos da Europa, como a Alemanha Ocidental, o Reino Unido ou a Suécia, desfilaram por Portugal dando o seu apoio, moral e material, à construção do PS.

Hoje todos esses projectos políticos estão em crise. A social-democracia foi roída por dentro pelo neoliberalismo e hoje o PS, como os seus parceiros europeus, quase não se distingue dos partidos de direita, PSD e CDS, aliás seus parceiros no memorando que nos acorrenta à troika. O PCP, mais de vinte anos depois da queda do muro de Berlim e do fim da URSS, continua ligado a um passado de dependência política do bloco de Leste. Resiste, mas num estado de orfandade política. Para usar uma imagem hegeliana, nem chegou à antítese (contestação de regimes que enviavam os opositores para o Gulag), quanto mais a uma síntese superior. Há portanto espaço para novas alternativas. Mas nenhum dos projectos da esquerda radical de 75 vingou. O Bloco não é herdeiro da herança da revolução – não existe um programa, alternativo ou classistas ou sequer anticapitalista. O Bloco é herdeiro dos escombros do programa social-democrata. É uma país muito curioso porque objectivamente tem todas as condições para uma nova explosão social (imobilidade e regressão social, pobreza, desencanto com o regime parlamentar), e isso não tem qualquer reflexo subjectivo, organizativo. Vivemos um desencontro histórico das classes trabalhadoras com as usas estruturas organizativas. O velho já não é e o novo ainda não é.

 

Contrapõe à sentença de “uma revolução sem mortos” com os “13 anos de horror nas colónias”. Por norma o passado colonialista dos militares de Abril não é branqueado?

Não é branqueado, mas é esquecido. A revolução tem dois actos, o acto das revoluções anticoloniais e o acto da revolução na metrópole. Não é preciso ser cristão para acreditar na possibilidade de redenção das pessoas. O facto de, no seio das forças armadas, sustentáculo do regime deposto, ter surgido – graças ao impacto da luta dos povos das colónias – o MFA, que o derrubou, redimiu o exército colonial aos olhos das pessoas. E muita gente que certamente não se orgulha do papel que teve na guerra mudou genuinamente e ajudou a fazer um país melhor. Gosto desta ideia – as revoluções mudam realmente as pessoas. Por isso não compreendo a desilusão – há alguma dúvida que somos muito melhores hoje do que em 1973 mesmo com tudo o que está por fazer?

 

Refere-se muitas vezes que os arquivos do antigo regime foram saqueados pelo PCP. É verdade?

Referi que existe essa dúvida, se parte do arquivo da PIDE teria ou não sido enviada para a URSS. Creio que essa dúvida permanece.

 

Os historiadores portugueses têm feito o seu trabalho para fixar o 25 de Abril de 1974?

Têm, tem-se estudado muito, no campo social, agrário, dos militares, da influência estrangeira. Mas há muito por fazer. Está por fazer no período da revolução a história da Intersindical, das mulheres, da educação, do movimento estudantil, dos governos provisórios, da maioria dos partidos.

 

E dos acontecimentos que se lhe seguem?

Sim, também. A história do período da contra revolução está por fazer. Suspeito que é também um processo – no 25 de Novembro acaba a dualidade de poderes nos quartéis mas não acabam as ocupações de terras nem a democracia nas fábricas, isso vai levar tempo. Já sabemos como se dá o processo na reforma agrária mas não como se dá na inversão do controlo operário. É uma parte que me interessa muitíssimo descobrir. Como se pôs fim à revolução. Da mesma maneira que uma revolução não é uma quartelada, é um processo, uma contra revolução também não se resume ao golpe de 25 de Novembro. Há uma história por descobrir aí.

 

As comemorações do 25 de Abril em 1975 mostram já a desunião ideológica que permanece – sob o conceito atual do consenso – no pós-Revolução em torno da independência nacional. Portugal está condenado a ser periodicamente um protetorado?

Portugal não foi assim tantas vezes um protectorado. Num país com mais de oito séculos de história, isso foi certamente a excepção, não a regra. Foi-o no tempo dos Filipes, foi-o episodicamente durante o consulado de ‘el-rei Junot’, durante as invasões francesas (1807-08), terá sido no tempo do Beresford, entre 1809 e 1820, até à revolução liberal. Poderá tê-lo sido em finais do século XIX, no seguimento da bancarrota de 1892, mas não tenho a certeza. Não é a minha área de especialização.

Agora, a manter-se o actual quadro social e político, e com dirigentes que acham o máximo da realização pessoal virem a ocupar um cargo na Goldman Sachs, essa possibilidade existe. Mas a verdade é que os períodos de protectorado em Portugal sempre acabaram com alguém atirado pela janela do palácio ou a fugir à frente de uma revolução. Por isso, mantenho o optimismo. Adoro viver neste país…

 

História do Povo na Revolução Portuguesa, por Miguel Real, Jornal de Letras

“Belíssima investigação histórica, referência de futuras novas investigações, que tem o condão de trazer a lume, nestas comemorações dos 40 anos do 25 de Abril, muito do que o actual poder dominante não só quer esquecer como “perversidade” histórica como, sobretudo, gostaria que nunca tivesse havido – mas houve, e com que força, como o livro de Raquel Varela o prova insofismavelmente.”

Texto de Miguel Real, Jornal de Letras, 2 de Abril de 2014

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UM “OUTRO” 25 DE ABRIL

Ricardo Antunes, sociólogo da Universidade de S. Paulo, escreveu que “Raquel Varela é uma das mais brilhantes críticas sociais de Portugal dos nossos dias” e Jan Lucassen, fundador da história global do trabalho e membro da Academia Real de Ciências holandesa, considera Raquel Varela “uma investigadora sagaz e dedicada da história global do trabalho”, reafirmando que a sua obra tem sido uma “inspiração, em Portugal e a nível internacional, para os jovens investigadores desta área”. Com efeito, começando a publicar apenas em 2011, a obra Raquel Varela tem vindo a alterar equilíbrio de forças hermenêutico sobre a história do 25 de Abril pugnando por uma nova e diferente visão sobre a Revolução dos Cravos.

Tanto em Greve e Conflitos Sociais em Portugal no Século XX, que coordenou, como em A História do PCP na Revolução dos Cravos (tese de doutoramento), ambos publicados em 2011, Raquel Varela dá especial destaque às lutas populares, considerando a posição do PCP como a de um partido, não orientador das forças revolucionárias na tomada do poder político, mas, muito diferentemente, como a de um partido que asseguraria em Portugal a consolidação do regime democrático no quadro de um capitalismo moderno e regulado e no âmbito da esfera da influência da NATO. Neste sentido, ao contrário das interpretações mais difundidas sobre história pós-25 de Abril, não só nunca o PCP teria almejado mudar a natureza de classe do Estado em Portugal (acusação que lhe é feita pelos actuais historiadores do regime neo-liberal, segundo os quais o PCP bloqueou o progresso económico alcançado na década de 1960; entregou as colónias aos movimentos de libertação e intentou substituir uma ditadura por outra), como a sua função terá sido, segundo Raquel Varela, a de perseguir uma via original para o socialismo integrada no quadro do Estado burguês e, neste sentido, de, em conjunto com a Intersindical, ter constituído a máxima força de bloqueio dos movimentos populares e revolucionários que, estes sim, organizada ou espontaneamente, intentaram, fracassadamente, revolucionar a natureza de classe do Estado.

Combatendo as vertentes ideológicas mais conservadoras do actual Estado Português, Raquel Varela, em 2012 e 2013, publicou dois estudos por si coordenados que lobrigavam provar que quem pagava o Estado Social eram os trabalhadores (Quem Paga o estado Social, 2012) e que A Segurança Social é Sustentável (2013).

Deste modo, Raquel Varela tem provado que se pode aliar a combatividade no plano da História com o ofício de historiador e a defesa de teses alternativas à ideologia oficial dominante sem se deixar o rigor, a objectividade e a disciplina de consulta de fontes. Para tal, Raquel Varela faz menos a história do Estado e da luta política partidária e mais a história do povo, isto é, dos verdadeiros sujeitos positivos da História, a “história dos resistentes, dos «sem voz», daqueles que habitualmente não ficam na história [oficial, a dos manuais das escolas], soterrados por decretos, declarações diplomáticos, jogos de bastidores e lutas políticas. Não encontrarão aqui uma história da guerra colonial, mas a história da resistência ao trabalho forçado ou a história da resistência à guerra. Não descobrirão aqui a história da queda dos governos provisórios, mas a história do controlo operário (…); não lerão aqui a indispensável história dos partidos políticos, mas sim a dos trabalhadores, em sentido amplo…” (p. 17), isto é, a história das “organizações de base dos trabalhadores” e das suas realizações (organizações militares, poder operário de base, comissões de trabalhadores, ocupação de casas, ocupação de terras…).

  1. A História do Povo na Revolução Portuguesa. 1974 – 75

 

Este livro responde à visão da história da autora e a interrogações levantadas por esta já em 2012. Escrevia então Raquel Varela: “Passados mais de 35 anos da revolução portuguesa não existe em Portugal uma história do movimento operário na revolução portuguesa. (…) Por exemplo: até onde foi a força dos trabalhadores em 1974 – 1975? Exagera-se ou não o papel dos trabalhadores durante a revolução, ou, por outras palavras, mistifica-se a classe operária e seus aliados? Qual o grau de espontaneidade das suas acções? Quais eram as organizações que tinham mais força junto dos trabalhadores? Em que fábricas e em que áreas geográficas as acções foram mais radicalizadas? (…) Qual foi a política dos principais partidos políticos, do PCP e do PS, para os trabalhadores? Qual o grau de autonomia do MFA face aos partidos e face aos trabalhadores? Porquê em 1974-75 a maioria da classe operária aceitou ser dirigida por PCP/PS/MFA, confiando que o MFA dirigiria a mudança de regime, a «caminho do socialismo»? Porquê o 25 de Novembro, depois de um processo tão radicalizado, desferiu um golpe na revolução com tão pouca resistência popular e operária? O que aconteceu ao Estado na revolução portuguesa? Ou até onde foram os organismos de duplo poder? Qual foi a real força das classes em Portugal naquele biénio e como actuaram as suas direcções?” (Raquel Varela, “Conflitos ou coesão social? Apontamentos sobre a história e memória da Revolução dos Cravos”, in AA. VV. (coord. R. Varela), Revolução ou Transição, 2012, pp. 202-203).

História do Povo na Revolução Portuguesa. 1974-75 responde a estas interrogações pondo o acento tónicos nos movimentos populares, na criação das comissões de trabalhadores, na resistência à guerra colónia, na tentativa de instauração de um controlo operário, na relação entre a intelectualidade e o movimento laboral e na influência que este terá operado na queda dos sucessivos governos provisórios até ao 25 de Novembro de 1975.

Neste sentido, todo o estudo é atravessado pelo levantamento rigoroso e pormenorizado da pluralidade de movimentos sociais tendentes (ainda que goradamente) a alterar a natureza de classe do estado português, segundo a perspectiva histórica da existência de uma diferença radical entre a génese revolucionária do estado democrático, uma democracia conquistada nas ruas, nas fábricas, nas escolas, nos quartéis, não outorgada pelo Estado, e o quadro político actual, profundamente neo-liberal.

Deste modo, sendo um livro fundado em lutas é, porém, um livro que opera o levantamento do grande fracasso da revolução social em curso durante o biénio referido. Neste sentido, para o leitor socialmente empenhado é um livro de pesar, de constatação melancólica de quão diferente poderia ter sido o Portugal de hoje caso os movimentos sociais referidos tivessem triunfado.

Raquel Varela postula que, com o 25 de Abril são lançadas as “sementes de uma revolução social encetada como uma revolução política democrática que se deu em poucos dias ou semanas, ou seja, a substituição do regime político da ditadura por um regime democrático estava praticamente assegurada e estavam já lançadas as bases de uma outra revolução, que lutava pela igualdade social” (p. 43). Se a primeira se confundia com o desejo de Liberdade, a segunda augurava atingir as bases de um plano de Igualdade social. Por isso, acrescenta Raquel Varela, “estas bases são lançadas pelo sujeito social que atrás do Exército (e por isso sem medo) entra na história – a classe trabalhadora e os sectores populares estudantis. Quando entra na história, dá um salto para a frente desse Exército e passa a ser a vanguarda da revolução, deixando o MFA a tentar compor o Estado” (ibidem).

Raquel Varela divide o seu livro em dois planos distintos – o plano da teoria, evidenciando tanto as suas ascendências intelectuais (Hobsbawn, Howard Zinn e Chris Harman) quanto o que entende conceptualmente por “povo”, diferenciando-se radicalmente, do ponto de vista da hermenêutica, das posições de Rui Ramos (último capítulo: pp. 455 ss.), estatuindo este autor num plano político neo-liberal, e o plano historiográfico propriamente dito, fazendo, neste campo, uma verdadeira síntese relativamente pormenorizada dos movimentos colectivos mais importantes entre 1974 e 1975: as greves, apontando três picos essenciais do movimento grevista (p. 52), com profundas incidências no plano do Estado, a pequena história das comissões de trabalhadores e o fracasso da sua unificação nacional devido à oposição da Intersindical (p. 209); os quatro factores de ocupação das empresas pelos trabalhadores (p. 191), o controlo operário (pp. 270 ss.)e a auto-gestão , e o seu fracasso, não devido à imperícia organizativa dos trabalhadores, mas ao efeito da crise económica mundial de 1973 (p. 197); a natureza histórica da Intersindical e a sua diferenciação antes e depois do 25 de Abril (p. 211)…, concluindo pela existência de uma “dualidade de poder” (p. 424) que teria caracterizado este período revolucionário: poder democrático dos trabalhadores versus poder democrático eleitoral.

Belíssima investigação histórica, referência de futuras novas investigações, que tem o condão de trazer a lume, nestas comemorações dos 40 anos do 25 de Abril, muito do que o actual poder dominante não só quer esquecer como “perversidade” histórica como, sobretudo, gostaria que nunca tivesse havido – mas houve, e com que força, como o livro de Raquel Varela o prova insofismavelmente.