É a Guerra

Um exército invadiu o meu bairro a semana passada. Um pequeno bairro histórico onde todos nos conhecemos e onde os meus filhos quando vão comer um gelado no jardim os donos do restaurante ligam-me a dizer «Raquel, hoje podem?». Depois eu passo lá a pagar. No jardim onde o senhor da retrosaria recolhe o skate que eles deixaram na rua. Onde na praça me arranjam os legumes, cortam as castanhas, encomendam hortelã da ribeira. O aparato era impressionante, por momentos pensei que a dezena de banqueiros presos em Portugal tinha feito uma evasão espectacular, ou que os líderes do Estado Islâmico estavam aqui refugiados. Afinal o assunto era ainda mais grave. 20 homens, incluindo 10 polícias armados, inspectores das finanças, da alfândega, da ASAE, entraram na pastelaria do jardim exigindo «que os bolos tivessem uma etiqueta», que a pequena padaria caseira, com 3 metros por 2, tivesse um plástico em cima de cada cesta de pão, já arrumados num aprumado naperon e tão bonitos que dá vontade de comer todo o pão que ali se vende; que a leitaria, onde os salgados são feitos por uma senhora de mais de 70 anos, com chouriço do Alentejo, não estava autorizada «a vender sopa caseira». A senhora da padaria, de onde vem um aroma a alfarroba e erva-doce, disse-lhes que de acordo com a lei não «podem entrar mais de 10 pessoas ao mesmo tempo na casa», pelo que, golpe traiçoeiro contra as forças da estabilidade e da ordem, metade do contigente militar-fiscal teve que ficar na rua. É a guerra.

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11 thoughts on “É a Guerra

  1. Reblogged this on No fim da picada and commented:
    Fico descansado quando as finanças inspeccionam, a alfândega, a ASAE, etc. igualmente. Tudo isso é para nosso bem: para que sejam pagos os impostos devidos, e não haja fugas, para que haja segurança alimentar, etc.
    Mas também sei que tudo isso pode ser feito de uma forma civilizada, sem aparatos policiais-militares que lembram situações de crise político-militar, sem tratar os cidadãos comuns, os contribuintes, os comerciantes, os trabalhadores, com desconfiança, como potenciais criminosos, como se lhes competisse provar a sua “inocência” de qualquer virtual crime, a descobrir oportunamente.

  2. Andam a fiscalizar coisitas de somenos importância e não fiscalizam as importantes como a poluição criminosa do rio Tejo que tem sido bastante denunciada nas redes sociais. Os fiscais do Ministério do ambiente devem andar a ver os saldos ou a fazer tricot às secretárias. Quando o infrator é poderoso encolhem-se todos ou assobiam para o ar.

  3. Noticia à Zé Portuga que só vê futebol, novelas e quintas…
    Paga-se por ter cão e por não ter….
    Ler estas notícias assim, com palavras bonitas, fica sempre bem…
    Mas tenho a certeza, que se foi aquele “aparato policial” é porque houve necessidade!
    Até porque esses senhores da ASAE costumam trabalhar “sozinhos”
    Aprendam!!

  4. É de lamentar estas situações tão caricatas.
    Esta tropa toda, teria muito que fazer, fiscalizando Empresas do ramo alimentar, como a “Eurest”, é um exemplo que me ocorre. Empresas estas que prestam serviços em inúmeras Instituições, produzindo comida, que por vezes nem a animais se dariam, mas tristemente são distribuídas em Cantinas Sociais e quiça, aos utentes de presentes nas mesmas.
    Aqui sim, a ASAE FAZ MUITA FALTA, desde que faça um trabalho honesto, claro…

  5. É um pouco do mesmo (embora sem o carácter ridículo destas “rusgas”)mes com as chamadas para “inspeccionar” as declarações de IRS. Chamam sobretudo aqueles que não podem (trabalhadores por conta de outrem que declaram o que já descontaram na prática) fugir de demonstram todo o seu “poder”. Fazem umas observações de m… e no fim lá vais um numero para as estatísticas “foram feitas uma pázada de milhares de inspecções…somos muito eficientes”. E entretanto os grandes não cumpridores por aî andam… a gerir empresas e bancos até sejam insolventes e passem para a próxima vítima… qual parasita a alimentar-se de hospedeiro em hospedeiro
    Relativamente à ASAE e ao fundamentalismo imbecil… se viesse aqui à Suécia teriam de fechar 80% dos estabelecimentos… e não me parece que os escandinavos sejam exactamente um povo que vive na idade média (os vikings já lá vão há uns séculos valentes…)

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