O Nascimento da Internet e a História

Publicado no DN, edição especial 150 anos, 1 de Agosto de 2014

 

Em sucessivas reuniões em institutos internacionais de pesquisa na área de ciências sociais e estudos do trabalho de referência, os directores anunciam, como determinante para futuros financiamentos, que o centro dos projectos daqui em diante tem de contar com amplo uso de bases de dados em acesso livre. A Internet teria aberto um caminho não só para a democratização do conhecimento, e do conhecimento histórico em particular, mas também para a democratização da produção historiográfica.

O início da Internet remonta aos anos 60 do século XX, nos Laboratórios do Departamento de Defesa Norte-americano, num projecto que culminou em 1969 com o ARPANET, uma rede de computadores, que consistia em interligar, por meio de uma rede, pontos estratégicos. Porém, aquilo que nasce como uma rede de uso sobretudo militar expande-se a todos os domínios sociais e sai das esferas governamentais, massificando-se nos anos 90 e início do século XXI. O número de pessoas conectadas pela Internet passou de 16 milhões em 1995 para 400 milhões em 2001. Em 2012, segundo a União Internacional de Telecomunicações (UIT), uma agência das Nações Unidas, 1/3 da população mundial, mais de 2 mil milhões, estaria conectada pela Internet.

Essa imensa rede foi uma graça também para os historiadores. Com a sua utilização maciça nos vários campos da história, não se estaria só a melhorar o acesso ao saber histórico para a população, estar-se-ia também a ampliar o número de investigadores que podem ter acesso a determinadas fontes. Sentados no nosso escritório podemos ler o Mundo Obrero clandestino da Espanha franquista, a taxonomia das relações laborais no México do Presidente Cárdenas nos anos 30 do século XX ou o número de mulheres que trabalhavam na Holanda em regime de assalariado na viragem do século XIX para o XX. Estaríamos com a Internet a aumentar o número de documentos disponíveis (por exemplo, tornando arquivos pessoais acessíveis pela via digital). Há mais e temos mais acesso ao que há.

Trabalhar em rede com europeus, americanos, coreanos…

Sem a Internet, o campo da história global não existiria, quer pelo acesso às fontes, quer pelas equipas que o próprio meio de comunicação permitiu criar – um projecto de história global do trabalho, hoje, coordenado a partir de um gabinete, reúne mais de 40 países e investigadores que usam a Internet como forma de comunicação semanal. Podemos hoje seguir o rasto, por exemplo, dos operários navais da Lisnave que nos anos 80 entraram em regime de pré-reforma e são agora encarregados na maior doca seca do mundo, no Dubai, onde dirigem operários filipinos e indianos. Também sabemos que quando as empresas subcontratadas entram em lay off de facto, muitos destes operários vão para a Holanda ou para a Noruega em regime temporário – portanto, não se pode compreender a sustentabilidade da precariedade do trabalho no Sul da Europa sem inserir na análise as rotas migratórias. Os estudos históricos globais incluem hoje tantas variáveis como leis laborais em cada país, regime político, rotas migratórias da força de trabalho, estrutura salarial, que seria impossível analisar sem o meio que é a Internet, sem equipas multidisciplinares e multinacionais. Não podemos viajar com regularidade para a Coreia do Sul, para estudar a estrutura da força de trabalho onde são feitos os navios que transportam a roupa que os operários europeus vestem!

A Internet colocou um saber em rede, mas a realidade, recorde-se, já existia em rede. Conectada por espaços e pelo tempo. Pensemos nas rotas migratórias de há um século atrás quando os “brasileiros” – assim eram chamados os portugueses do Norte do País que emigraram em massa para o Brasil – serviram de válvula de escape à proletarização que expulsava gente do campo de Portugal, na sua lenta modernização capitalista, e que esses mesmos portugueses foram uma forma de evitar a utilização massiva de escravos recém libertos (e rebeldes) como nova força de trabalho no Brasil. E talvez não seja desproporcionado estudar hoje, como uma das explicações da violência no Brasil, a libertação da escravatura – conquista histórica – sem a correspondente reforma agrária ou o acesso ao trabalho por parte da população recém liberta.

A Internet ajuda, se houver gente formada, qualificada

Mas a produção imediata tem os seus problemas. Sérios. A areia sob a qual estão soterrados os vasos que contam a história do Egipto é tão pesada como hoje os milhões de fontes sobre um mesmo tema. A história contemporânea lida, como nenhuma outra, com o peso do excesso de fontes. E com a sua autenticidade. Conhecemos a brincadeira das redes sociais em que aparece uma citação: “Não acredite em tudo o que colocam no Facebook”. Assina: Luís Vaz de Camões. A autenticidade das fontes é um problema acrescido, porque ela exige, como tudo na ciência, saber sustentado e o saber sustentado tem custos gigantescos – neste caso, investigadores, arquivistas, boas universidades onde estes se formam, etc. Uma cadeia longa de educação e formação sólidas. Mas muito mais grave do que a questão da autenticidade é que sem formação teórica, cultural e metodológica sólida é inútil ter uma base de dados com milhares de arquivos. Os custos da digitalização e da conservação e suporte dos documentos são imensos – e, a montante, as empresas da área tecnológica sugam parte dos recursos públicos, que são obrigados a dedicar uma fatia enorme do financiamento dos projectos para esses efeitos. E de que serve construir megabases de dados se não tivermos financiamento para formar e pagar investigadores que as consigam tratar, analisar? Não é o mesmo que ter uma máquina de TAC sem um técnico capacitado para usá-la, ou um quadro interactivo numa escola sem um professor? Os custos são imensos e os resultados parcos.

São novos mares que se oferecem aos historiadores, mares há muito pouco tempo navegados. Ter uma bússola e um mapa dos perigos é sensato. Não devemos, porém, recuar na aventura. Como em tudo na sociedade, no uso da Internet a questão não é tanto o meio, mas o “Quem? Para quê? Como? Para quem?”.

 

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