Adriano Moreira: O Homem e a Obra

Três notas muito curtas na morte de Adriano Moreira.

A primeira é sobre auto-elogios nos obituários. A menos que haja grande intimidade (amor, amizade, colegas de longa data)- e isso é raro – com alguém, nos obituários dizer que vimos a pessoa e ela nos disse tal, um dia almoçámos com ela, é no dia da morte de alguém falarmos de nós próprios. É de um terrível mau gosto. E é cada vez mais comum, ou não vivêssemos tempos fartos de narcisismo patológico.

Todos temos um ser social e um ser pessoal. O nosso papel social não se confunde com o pessoal. Adriano Moreira é intimo de pessoas, que choram a sua morte de uma forma que só elas o podem fazer. Sermos adultos é compreendermos isso, para ambos os lados – tenho um familiar directo que foi um alto quadro da guerra colonial, defensor das ideias e das políticas a que dediquei a minha vida a combater. Para nós por convívio ou memória transmitida continua a ser um homem decente, carinhoso, dedicado, bem humorado, ético connosco, até austero, mas esse não é o seu papel social – nem o seu lugar na história diminui o nosso afecto (mas perturba-o, e torna ainda mais complexas as já muito complexas relações familiares) nem a sua dimensão social apaga ou diminui o que ele foi para a história. Não havia ética, carinho, dedicação na morte dos guerrilheiros e dos camponeses nas revoluções anti coloniais, ética foi a revolução de Abril. Tenho mais afecto pelo meu familiar e mais admiração por Amílcar Cabral, que o combateu. E tenho a certeza que o meu familiar nos deixou um legado importante, a nós família, desde logo no campo da mobilidade social que a alta patente do exército permitiu, mas também, no nosso caso, um legado pessoal de firmeza central e valores pessoais que transmitiu (a nós, e só a nós e seus próximos). Mas a política que apoiou e dirigiu deixou um rasto de destruição para a sociedade. Já Amilcar Cabral deixou um mundo melhor, não só a ele e à sua familia – à qual aliás deve ter sido pouco dedicado -, deixou sim uma herança à humanidade.

Quando a democracia chegou Adriano Moreira saiu do país exilado, porque antes do 25 de Abril não estava na oposição, estava nos circulos de poder. Toda a biografia nestes dias reflecte sobre o Tarrafal e a democracia pós 1976, como se o tempo da revolução – em que saiu do país por ser apoiante do regime – tivesse desaparecido da nota biográfica. Tinha sido 2 anos Ministro de uma guerra colonial. Ao todo, em 13 anos, morreram 9500 portugueses, 150 mil feridos e pensa-se 100 mil africanos. Para a guerra foram 1 milhão e 200 mil homens, Adriano Moreira foi Ministro do Ultramar 2 anos, nos quais houve prisão política de vários membros dos movimentos de libertação. A revolução foi, contra Adriano Moreira e a sua visão do mundo, o fim do Portugal imperial, conservador e católico.

Era também um homem francamente inteligente, sofisticado, que abraçou o regime democrático liberal pós 76, com dedicação, mas sem nunca se retratar pelo apoio à ditadura, um regime que defendia um Estado bonapartista para silenciar os conflitos sociais, prendendo e perseguindo a oposição, nomeadamente os líderes políticos e sindicais.

Esteve, para mim, do lado errado da história, para muitos outros do lado certo, porque – ao contrário do que defende o catolicismo social que ele abraçou – a nação portuguesa não é um corpo único com um objectivo comum, comandado pelos proprietários que devem cuidar dos seus trabalhadores, não os deixando passar fome e necessidades, mas mostrando-lhes sempre que a sua condição de trabalhador é um acto natural, quase divino, inalterável, a não ser em casos de mérito excepcional (de que ele era exemplo), porque alterar a sociedade implica convulsões sociais caóticas, que questionam – e cito a Rerum Novarum, a Doutrina que inspirou sempre Adriano Moreira -, a propriedade dos meios de produção. E aqui reside, para mim, toda a desigualdade social, todo o atraso, todo o caos em que o mundo vive.

No meio de tanto político de baixa estatura a sua capacidade de olhar o mundo, a partir de uma perspetiva conservadora, é notável, mas não deixa de ser a sua perspetiva, cujos resultados na história de Portugal são objectivamente parte do problema do país. Felizmente os homens são feitos de muitas e complexas qualidades e defeitos, não precisamos de admirar umas escondendo as outras, ou de confundir lugares e tempos, papeis pessoais e sociais. Um obituário decente será capaz de enumerar as complexidades de um Homem no seu tempo, e as suas opções – não precisamos de hagiografias políticas, nem das que lhe são favoráveis, nem das que ignoram a sua obra.

Para nota final, um Homem e obra não se confundem. O Homem. O seu papel na história de Portugal não pode orgulhar ninguém, porque a guerra colonial é o pior do país no século XX e o 25 de Abril o melhor. Esteve do lado errado nos dois momentos chave. E isso não se apaga. São escolhas. Não são acasos.

A Obra. Todos os afirmam como excelente professor, e a sua obra teórica, no campo das relações internacionais, de inspiração conservadora, católica e anti marxista, é muito importante. Concordemos ou não com ela. Eu não concordo, leio. Não admiro, conheço. Não desrespeito, pelo contrário, Adriano Moreira é um Homem com quem vale a pena discordar respeitando, ao contrário de tantos outros de direita que não pensam, comunicam. Na idade adulta devemos perceber, sem medo, que o mundo é um lugar difícil de compreender. Isso não é mau. São, como disse um grande historiador, tempos interessantes.

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2 thoughts on “Adriano Moreira: O Homem e a Obra

  1. Não vou falar o Adriano Moreira, até porque pouco teria que dizer, a não ser, que ele sempre foi homem de direita e um dos responsáveis de fomentar a ditadura, mas todos nós sabemos que muitos líderes cometeram erros e comportamentos inaceitáveis….

  2. Há mortes que vêm por bem (pelo menos é essa a intenção)
    Num país onde se acredita haver democracia e liberdade, por oposição a um longo passado tão sombrio e dominado pela repressão das liberdades, uma das coisas que mais me surpreendeu foi precisamente o facto de só se ter falado, e prolongadamente, de Adriano Moreira da mesma forma que é habitual falarmos de personalidades marcantes da vida social, politica ou intelectual quando morrem, como se tivessem sido abençoadas com capacidades e poderes especiais ou sobrenaturais na vida, com lisura de caráter e acima de qualquer suspeita, para depois merecerem morrer gloriosamente; como se tudo de menos bom que tivessem feito, dito ou escrito morresse de “morte súbita” e os sapos se transformassem em príncipes. Todos foram bons, admiráveis e extraordinariamente diferentes, nem que tenha sido só pela intenção; todos deixaram uma obra e um legado importantíssimos para o país, para a sociedade ou para a História. Há uma espécie de homenagem purificadora de que só as palavras são capazes, mais do que os atos. Há uma certa complacência ou benevolência para com as más ideias e os maus atos do(a) falecido(a), parecendo natural que assim seja, pois a morte já é, por si só, uma sentença inevitável para todos e um destino injusto para muitos mortais. Se houve pecados e falta de dignidade em vida, pois que haja perdão e dignidade na morte. Afinal, somos humanos, embora não tivéssemos escolhido ser, e por isso mesmo, achamos que tudo o resto que fazemos e nos acontece tem a mão de alguém ou de algo superior a nós que quis que assim fosse, desde que decidiu fazer-nos nascer e morrer. De resto, para nós, na hora da morte, o que contou foi apenas o mérito e a recompensa da intenção.
    Contudo, ainda que pensemos assim perante a vida e a inevitabilidade da morte, nada, nem ninguém nos deve impedir de reconhecer que é na vida, e não na morte, que temos a oportunidade de escolher fazer a diferença. Não devemos ser resignados e fatalistas, e pensar que não temos o poder de conter ou contrariar outras forças que se atravessam no nosso caminho. Contribuir para decidir contra a vida e a dignidade, ou a favor da morte de alguém, é uma traição e um não-poder, ainda que alguém nos queira fazer acreditar nisso, como se tivesse sido legitimamente investido com poderes especiais à nascença. Podemos não escolher nascer e morrer, mas já que cá estamos, podemos e devemos escolher contribuir para a forma como todos temos direito a viver, com qualidade e dignidade. Caso contrário, sejamos livres para nunca fazer dos ditadores e seus amigos heróis e vencedores, mesmo que digam que tudo o que fizeram foi com boa intenção.

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