Jovens “mimados” e a resignação dos pais e professores

Sobre o debate aqui ontem, afinal com que dinheiro podemos ou devemos viver? E os jovens na Universidade, podem alimentar-se com 15 euros? Não andam a “abusar” de nós? Que “menininhos fizemos nós?”

Primeiro, uma boa parte dos jovens está sem entusiasmo pela vida, pela escola, pelo futuro. E tem razões para isso. A escola não lhes dá um “conhecimento” para uma “profissão”, mas “tarefas e competências” para um mercado de trabalho decadente. Este país não é para eles. Os professores deles devoraram esta ideologia das competências e do empreendorismo, enquanto vêem os alunos afundarem-se nas esperanças de viver aqui com um trabalho digno. Os jovens não são grande coisa, porque os adultos à volta deles, pais e professores, são o espelho da resignação social que os políticos inculcaram, e as organizações de trabalhadores foram impotentes em lutar contra. Temos jovens sem força e entusiasmo, porque assim estão os seus pais e professores, todos trabalhadores, qualificados ou não. 

15 euros é muito, para quê? Que vida queremos ter? Comemos cada vez pior e colocamo-nos em risco com o que comemos. Cuidado com o plural – uma parte importante e minoritária da população come cada vez melhor. O que era normal há 40 anos, frutas, legumes, sopas caseiras, carne alimentada sem rações, pelo menos em parte, agora é “bio”, “gourmet” e só uma elite tem acesso. Em países como a França ou a Alemanha é possível comer bio mais barato do que não bio em Portugal porque há uma política de subsídios. Sim, na Holanda compro carnes e iogurtes bio mais baratos do que os made in pesticidas em Portugal. 

Os 15 euros para alimentar um jovem não incluem portanto nada bio. São 2 euros por refeição (5 a 6 refeições dia). Vai comer mal, com pesticidas, carregar nos hidratos de carbono, comer proteína (essencial ao funcionamento do célebre) de má qualidade – ou seja, frango de aviário (um mutante), salsicha, carnes gordas (entrecosto, etc). Peixe com zero de nutrientes proveniente de piscinas artificiais alimentadas de rações e pão com cereais brancos (açucares simples). 

Junto aos horários de trabalho do século XIX – para viver de forma menos miserável toda a gente tem 3 e 4 trabalhos e faz turnos extra (em permanência) – a alimentação é a grande responsável pela não saúde dos portugueses, que chegam aos 50 anos e estão obesos e cheios de doenças que aparecem nos outros países aos 75 anos. Assim a nossa esperança média de vida com saúde é 15 a 20 anos a menos que na Escandinávia. Vivemos o mesmo tempo mas sem qualidade de vida. Junte-se as reformas baixas, em que as pessoas vivem isoladas sem vida social – factor protector da saúde – e temos a tempestade perfeita. Uma parte do país, trabalhadores, deprimidos, sem saúde, sozinhos, assim é a velhice, e a velhice precoce.

Os jovens com 15 euros ao dia para alimentação, que são 450 mês, alimentam-se mal e não têm saúde. Nem democracia. O direito à cidade e à vida social no capitalismo depende dos lugares que podemos frequentar comprando algum serviço. Nada ou quase nada é gratuito. Cafés, restaurantes, teatros, cinemas, festas, viagens. Hoje tudo isso – que representa o direito ao convívio, acesso à democracia (só há democracia em participação colectiva) – está vetado à maioria dos jovens. Grande parte deles vive uma aparência de vida social (as redes sociais no ecrã) e não tem de facto vida social real.

E os suecos? Tão dinâmicos? Na Suécia um jovem aos 18 anos recebe 1000 euros do Estado mensalmente, a maioria, a fundo perdido. Aqui, são as famílias exaustas de trabalhar que conseguem sustentar os jovens às vezes até aos 30, 40 anos porque o que os pomposos “empresários empreendedores” lhes pagam não dá para viver, quanto mais para pagar casa. 

O que resta aos jovens, e a mim, de esperança, é que todos os fios desta frágil estabilidade social estão a romper-se, e isso não é mau, mau é continuar a assistir a este declínio, este barco a ir ao fundo e tocar violino. Depois de emigrarem, ou seja, serem exilados do país e da família, resta-lhes lutar contra isto. Pode ser que o façam e que, surpresa, ainda venham a viver muito melhor que os pais. Na verdade, tirando a migração, válvula de escape eterna do Estado português, e a migração não é uma forma de luta, mas de fuga individual, não resta ao Estado/Governo/Empresários nada mais, porque os salários que pagam e os horários que oferecem são do século XIX, são uma vergonha nacional. Todos os filhos de quem governa, e gere as empresas, médias e grandes, passaram por colégios privados, estudam fora, e claro vão a festas e restaurantes e comem “frango bio”, 15 euros não é o que gastam em alimentação mas em diversão, o que não acho mal – sempre achei que o socialismo era o bem estar para todos. Não há nada de burguês em querer viver bem, burguês é manter os outros mal para acumular uma riqueza que tem custos sociais insuportáveis.  

O que impressiona em alguns comentários é a resignação, a adaptação, a justificação do mal em que estão. Vamos “vivendo”, “vai-se andando”, “faz-se o que se pode”, “a guerra é a culpada”, “a inflação”. Ora, o que está claro é que em termos individuais as pessoas estão dispostas a sacrificar os filhos, dando-lhes cada vez menos, do que a lutar; e os jovens simplesmente não acreditam que podem mudar este estado de coisas, não só indo trabalhar e ajudar a família e estudar e ser super-homens (como tantos apregoam), mas lutando politicamente para mudar a sociedade em que vivem. Podem ir para um restaurante trabalhar à noite e estudar, vão estudar pior e não vão mudar a vida, o que muda a vida é a luta política. A alimentação e a ausência de lazer dos Portugueses hoje é um dos mais fortes indicadores da ausência de participação e organização políticas.

Quando se lutar pelo direito a comer bem, ir ao teatro, namorar e oferecer uma prenda a quem amamos, lutar para ser mais humano, em vez de nos adaptarmos a esta vidinha miserabilista, apregoada por políticos que não a têm , nem nunca tiveram, tudo mudará, e será para melhor. A demagogia ou utopia não é lutar por isto, demagogia é viver na Quinta da Marinha e dormir uma vez por ano com mendigos, como faz Marcelo Rebelo de Sousa. O que é impressionante é que não haja um editor de jornal a reparar nisto, e tantos a publicar tal afronta populista como prova da sua simpatia social. Não haja um editor a perceber que António Costa nunca terá a sua reforma em causa, enquanto corta a dos outros, que qualquer médio empresário ou grande jamais vai gastar em vida o que tem em off shores. Tudo isto é moralmente inaceitável. A adaptação a isto é uma patologia – não são os jovens que pedem muito quanto pedem 15 euros, somos nós que já não percebemos o que é o sentido da vida.

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13 thoughts on “Jovens “mimados” e a resignação dos pais e professores

  1. Como é costume, a Raquel tem carradas de razão. Só gostaria de fazer um pequeno reparo. A narrativa da propaganda oficial procura culpar a guerra pelo surto inflacionista e carência energética, o que é falso. Uma das principais causas não é a guerra, mas as sanções. O seu resultado e s suas consequências estão a ser tão boas, mas tão boas, que a UE já fala em aumentá-las, acelerando assim o caminho suicidário que vem trilhando. Ah, eu queria aplaudir!!!!

  2. Tem toda a razão. É uma situação dramática e revoltante. É ainda mais grave do que aquilo que escreve. Temos à nossa frente um horizonte de penúria energética que, diga-se, não tem nada a ver com a invasão da Ucrânia. Iria acontecer de qualquer maneira por motivos geológicos. A única esperança séria de reverter esse processo é a aplicação da fusão nuclear na produção de electricidade a larga escala (a fissão é um pobre paliativo interino), pôr isso a funcionar demorará ainda 30 a 50 anos, pelo menos. E, mesmo com a fusão, há limites para a quantidade de mineração e consequente poluição que se pode fazer por unidade de tempo. A consequência é que a médio e a longo prazo estamos condenados ao decrescimento económico (menos petróleo, menos máquinas, decrescimento da economia). Isso exigiria uma estratégia de partilha dos “sacrifícios” que manifestamente não existe. Exigiria também uma reflexão filosófica sobre aquilo que é uma vida digna (nem todos os “sacrifícios” o são: veja-se quão “insuportável” será não poder trocar de telemóvel todos os 18 meses, ter carros mais leves e mais lentos, andar de bicicleta e de transporte público) e o que é uma sociedade decente (aquela onde todos têm acesso a uma vida digna). Creio que este último ponto é o mais importante e por isso felicito-a por nele insistir, mau grado as orelhas moucas da(s) elite(s).

      • É precisamente por haver certas inevitabilidades materiais que é mais necessária que nunca a discussão filosófica e sobretudo ideológica, já que o sistema que nos é imposto se situa no centro de toda a problemática ecoambiental, social e moral.

      • Meu caro, a reflexão filosófica é, a bem dizer, sempre importante , desembrulha o espírito, e a sua prática torna improvável inferir uma inevitabilidade comportamental de uma inevitabilidade material.

        Mas há uma razão mais prosaica. Se durante os últimos dois séculos adoptámos uma visão teleológica do(s) progresso(s) e da sociedade foi porque o maná dos céus escorria pelas ruas das nossas cidades. Não foi igual para todos, mas mesmo assim … o aumento da esperança de vida média confirma que os proventos chegaram a todos os estratos sociais.
        Resultou disto o produtivismo, e depois o consumismo, num quadro mental em que os limites físicos eram ignorados. Tinhamo-nos tornado uns produtivistas idealistas, em suma. O mundo progredia porque era essa a Lei (da História, da Selecção Natural, de Deus, do Engenho Humano, you name it). Um mundo em expansão constante e acelerada foi dando para construir uns equilíbrios sociais; sempre periclitantes, certo, mas não há nada mais fácil do que ir distribuindo alguma coisa quando um bolo cresce sempre. Agora que os limites físicos começaram a empurrar-nos de volta, vai ser preciso reorganizar tudo para distribuir um bolo cada vez mais pequeno. Pequeno detalhe. Ah!, já o ouço vituperando, o meu amigo está aqui está a dizer-nos que a segurança social é insustentável. Não, respondo-lhe, uma aprofundada reflexão levou-me à conclusão de que um bolo cada vez mais pequeno é sempre um bolo e reenvia-nos à unidade. Back to case one. A fracção é uma propriedade intensiva e é impermeável ao tamanho do bolo. O que resta saber é o que queremos fazer do bolo e, em função disso, qual é a melhor maneira de o partilhar. A alternativa, menos filosófica e mais espontânea, é desatarmos todos à paulada. É, temo-o bem, uma alternativa bastante provável também.

      • onde escrevi “inevitabilidade comportamental” deveria estar “inevitabilidade social” Je m’excuse.

    • Caro joseliveira, não existem discussões filosóficas quando não há condições objectivas para que estas aconteçam.

      Caro Miguel, se deixarmos de ser “produtivistas” a única coisa que teremos para distribuir é fome e miséria.

      “…não há nada mais fácil do que ir distribuindo alguma coisa quando um bolo cresce sempre. Agora que os limites físicos começaram a empurrar-nos de volta…”

      Pareceu-me contraditório o que escreveu…fiquei sem perceber se acha mais provável a partilha da produção quando há excesso ou se, pelo contrário, quando há carência.

      • «não existem discussões filosóficas quando não há condições objectivas para que estas aconteçam.»

        Não sei quais são as condições objectivas em que está a pensar. No século XVIII, as condições objectivas eram tais que a miséria era bastante mais generalizada do que actualmente. Isso não impediu o Voltaire ou o Rousseau de filosofarem. Nem sequer eram nobres, o Voltaire era da classe social emergente. Rousseau quase que nem isso. A maralha não teria pensamentos originais, mas os escritos de uns poucos como aqueles dois ajudou muito a que o vulgo acedesse a uma melhor compreensão de si próprio, da sociedade e da sua história. A revolução (mesmo imperfeita, cheia de defeitos) não tardou. Se não gostas da francesa, tens sempre a americana.

        Eh pá, quando tens um bolo a crescer é mais fácil ir deixando umas migalhinhas maiorzinhas para os andrajosos, não te parece? Não vou fazer um desenho para não insultar a inteligência de ninguém.

        Por outro, tens razão, se não produzires nada também não distribuis nada que se veja. La Palisse não diria melhor. O produtivismo não é isso. É produzir mais, sempre mais, para acumular sempre mais, sem se ater a quaisquer limites (tendencialmente: porque, enfim, o dia tem 24 horas apenas, sempre é um limite) e desencastrando (olá Polanyi) o processo produtivo e a economia da sociedade em volta e – pior ainda – do mundo físico. É um erro conceptual, académico se quiseres. Um erro desprezável do ponto de vista quantitativo no século XIX. Época de abundância em recursos naturais de todo o tipo – exceptuando as florestas na Europa (salvas pelo carvão) e as baleias (salvas pelo petróleo) -, em terras por desbravar, e apenas no início da explosão exponencial demográfica. Hoje, o erro deixou de ser de natureza académica e tornou-se quantitativo e bem tangível: produzimos cada vez mais à custa de ir consumindo a um ritmo cada vez mais acelerado o capital que nos resta. Quando tiveres rebentado com as florestas, ultrapassado um qualquer ponto de báscula (tipping point) vais ver a miséria espalhando-se pelo planeta a uma escala nunca dantes vista.

    • A fome não é uma abstração tal como não é uma abstração a vida desgraçada de milhões de pessoas neste planeta, a iminência do presente torna o futuro irreal e altamente improvável, o esquecimento é a forma moderna de se propor o inaceitável.
      Está generalizada a ideia de que quanto pior melhor, a tal necessidade que aguça o engenho, na verdade está generalizada a ideia da competição a qualquer custo e da moralidade que lhe subjaz, estas noções estão de tal forma enraizadas que deixaram de ser consideradas, no final tudo se resume a uma questão de consciência ou neste caso de falta dela.

  3. Merece todos os elogios, tem estado absolutamente irrepreensível. Aprecio imenso a sua expressão quase perfeita, mas não precisamos de mais pessoas como a Raquel, precisamos da diferença do indivíduo e do seu grau libertador, precisamos de um lugar de pessoas completas.

  4. Bem me queria parecer que as sanções nada, mas nada têm a ver com o disparo da inflação que está destruir o trecido social e industrial da Europa, rumo ao absoluto suicído do velho continente, a mando do omnipresente império anglo-americano, e dos tais “valores”. Porque será?

  5. Perfeito Raquel, é pena de não termos nas organizações sindicais pessoas á altura, com os “tomates” no sítio ( perdoe-me a expressão) para levar avante protestos, lutas sindicais para modificar este tipo de coisas

  6. Pingback: Pais e professores resignados e o modo de vida dos jovens

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