A Revolução dos Cravos e o mito da “revolução sem mortos”

«O Posto de Comando do Movimento das Forças Armadas constata que a população civil não está a respeitar o apelo já efetuado várias vezes para que se mantenha em casa.»

Comunicado do MFA, 25 de abril de 1974

«Isto é o povo, isto é o povo, isto é o povo!» Praça de São Bento, 13 de novembro de 1975. É aqui que estão sequestrados a Assembleia Constituinte e o Governo, cercados por uma massa de quase cem mil pessoas, na sua maioria operários da construção civil. O cenário é quase irreal: estamos na Europa, na solarenga Lisboa, capital desproporcionalmente grande de Portugal, último império colonial da história. Ao Palácio de São Bento e ao primeiro-ministro não chega nem alimentação, nem cobertores, a não ser por helicóptero. Cá fora, uma gigantesca manifestação de trabalhadores, que se acotovelam e se erguem, literalmente, uns por cima dos outros nas escadarias do palácio, com bandeiras vermelhas e faixas, gritando palavras de ordem.

De repente vê-se um camião de cimento a entrar e descer a praça. A betoneira atravessa a massa de manifestantes que cercam a Assembleia que, com sorrisos e punhos erguidos, se afastam para dei- xá-la passar. Em cima, dois homens. Um deles, de calças de ganga, camisa aberta, cigarro na boca, sorri triunfante para a multidão. Com uma mão agarrada à betoneira e outra erguida, grita junto com os manifestantes: «Isto é o povo! Isto é o povo! Isto é o povo!»

Quando decide suspender o Governo de funções, uma semana depois do cerco à Assembleia Constituinte, a 20 de novembro de 1975, o almirante Pinheiro de Azevedo, primeiro-ministro do

VI Governo Provisório (ao fim de 16 meses de revolução já tinham caído cinco governos!), no seu estilo frontal e indiscreto, bonacheirão, confessa a desautorização do Estado, respondendo, visivelmente irritado, a uma jornalista que o questionara sobre a situação mili- tar: «A situação, tanto quanto eu sei, continua na mesma: primeiro fazem-se plenários e depois é que se cumprem as ordens!»

Estávamos no meio de uma situação clássica de duplo poder — os de cima «já não podiam» e os de baixo «já não queriam» —, refletida na desautorização do poder estatal, política e mesmo fisicamente cercado. Foi provavelmente o momento da revolução portuguesa mais próximo da insurreição, ou seja, aquele momento das revoluções em que o deslocamento do Estado, a tomada de poder sob a direção dos trabalhadores é possível.

Pidjiguiti, Guiné-Bissau, colónia portuguesa na costa ocidental africana, 16 anos antes. Bissau era servida pelo porto de Bissau para a marinha mercante e, logo ao lado deste, pelo porto de Pidjiguiti, para os barcos de pesca e cabotagem, isto é, a navegação dentro da Guiné. A 3 de agosto de 1959 começa uma greve nas Oficinas Gerais que se espalha por todo o cais de Pidjiguiti. Entre outros, participam na greve os marinheiros do serviço de cabotagem, como os da Casa Gouveia, ligados ao poderoso Grupo CUF (Companhia União Fabril), o maior conglomerado industrial português. À greve respondem as autoridades portuguesas com uma repressão brutal, como re- latou o padre franciscano Pinto Rema:

“Os insubordinados dispõem de remos, paus, barras de ferro, pedras e arpões. As duas partes em confronto não cedem, não dialo- gam. No primeiro recontro, os dois chefes da polícia, Assunção e Di- mas, são selvaticamente agredidos, depois de terem disparado para o ar. Da refrega saem 17 guardas feridos. A polícia perde o autodomí- nio e começa a atirar a matar em força, sem quaisquer considerações. No fim há uns 13 a 15 mortos espalhados no Cais de Pidjiguiti. Mais cadáveres de marítimos e estivadores são arrastados pelas águas do Geba, não se sabe quantos (…).”

A historiadora Dalila Cabrita Mateus lembra como foi esta greve que esteve na origem das decisões que levaram o PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde) para a luta armada, apoiada nos camponeses:

“Segundo um relatório confidencial desta reunião, a “mais decisiva” da história do PAIGC no dizer de Cabral, aqui se preparou a passa- gem da agitação nacionalista para uma estratégia de luta de libertação nacional, adotando três importantes deliberações: primeira, a desloca- ção da atividade para o campo, mobilizando os camponeses; segunda, a preparação da luta armada; terceira, a transferência para o exterior duma parte da direção do partido.”

A cena da ocupação de São Bento, em Lisboa, foi filmada pelo cineasta Robert Kramer, no filme Cenas da Luta de Classes. Membro de uma corrente política trotskista norte-americana, Kramer, como milhares de jovens militantes de todos os quadrantes políticos, maoistas, anarquistas, guevaristas e outros, na altura designados terceiro-mundistas, veio a Portugal em 1975 para ver a revolução. A revolução! Que estava a ser feita sem mortos na metrópole e que por isso apaixonava o mundo — «Sei que estás em festa, pá!», cantava Chico Buarque, o mais famoso autor da música popular brasileira (MPB), um Brasil que vivia ainda sob as botas de uma ditadura militar.

Esta festa levou muitos, precipitadamente, a falar a posteriori de uma «revolução sem mortos», esquecendo que a festa na metrópole custou 13 anos de horror nas colónias.

Portugal foi o império que mais usou, de forma sistemática e por mais tempo, várias formas de trabalho forçado. Amplamente denunciado nos jornais e agências internacionais, o trabalho forçado trazia toda uma sociedade a ele agregada: pobreza, inexistência de mobilidade social, afastamento da família e da agricultura de subsistência, extrema desigualdade salarial e uma polícia política racista — «A PIDE (nas colónias) não chateava os brancos, só chateava os negros». Esta polarização contribuiu para transformar a população, maioritariamente camponesa, em apoiantes destemidos dos movimentos de libertação”

(…)

De acordo com o Estado-Maior do Exército, morreram ao serviço do Exército por- tuguês 8300 militares, na Guiné, Angola e Moçambique. É muito difícil saber-se o número de mortos do lado dos movimentos de li- bertação, até porque esse trabalho não foi feito pelos historiadores africanos. Está também por contabilizar a «destruição e desarticula- ção das estruturas materiais e simbólicas das sociedades africanas». Mas de acordo com estudos internacionais, como os dirigidos por Ruth Sivard, morreram três a cinco vezes mais guerrilheiros e dez vezes mais civis, portanto os números mais otimistas contabilizam um número total de vítimas, entre guerrilheiros e civis, superior a 100 mil mortos.

In História do Povo na Revolução Portuguesa, Raquel Varela, Bertrand.

1 thought on “A Revolução dos Cravos e o mito da “revolução sem mortos”

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s