“AS EXTREMAS-DIREITAS VÃO BENEFICIAR COM A GUERRA NA UCRÂNIA”

O Ricardo Cabral Fernandes é um dos jornalistas que mais investigação fez sobre a extrema-direita, este longo artigo e detalhado confirma o pior dos cenários na Ucrânia.

“O Counter Extremism Project, organização não-governamental que se dedica a monitorizar o extremismo político, considera que estes combatentes de extrema-direita representam “claros riscos de segurança”. “Vão provavelmente obter experiência de combate na zona do conflito e terão potencialmente um maior impacto nos meios extremistas orientados para a violência nos seus países de origem depois de regressarem”, afirma a organização. “A sua capacidade para planear e realizar ataques com sucesso de acordo com a sua ideologia aumenta massivamente”, continua, referindo que o ideal é “interromper a viagem desses extremistas para a zona de conflito”. “

(…)

“Com a destruição das cidades ucranianas pelas tropas russas e com os civis a serem as principais vítimas, a guerra na Ucrânia pode estar a entrar numa nova fase. Há uma crescente internacionalização do conflito com a presença de combatentes estrangeiros: militantes de extrema-direita estão a dirigir-se para a Ucrânia e a Rússia está a mobilizar mais mercenários.

Desde 2014 que a Ucrânia é ponto de atração para combatentes estrangeiros que pretendem desenvolver as suas capacidades militares e contactos internacionais. Aconteceu dos dois lados do conflito, do ucraniano e do russo, mas desde 24 de fevereiro, quando a Rússia invadiu a Ucrânia, que a situação tem evoluído de forma acelerada, e preocupante. Basta que se queira olhar sem tentar justificar, implicitamente, uma extrema-direita a favor da outra.

Mais de 20 mil estrangeiros de 52 países já se inscreveram para integrar a Legião Estrangeira ucraniana. A rede diplomática ucraniana está a recrutar ativamente.

“Todos os amigos da Ucrânia que se queiram juntar à Ucrânia na defesa do país, por favor venham. Dar-vos-emos armas. Em breve anunciaremos como o poderão fazer. Todos os que defendem a Ucrânia são heróis”, disse em conferência de imprensa o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky. Um dia depois, o ministro dos Negócios Estrangeiros ucraniano, Dmytro Kuleba, anunciou que o Governo iria formar uma Legião Estrangeira Ucraniana, um velho sonho de uma parte da extrema-direita no país.

Apelos semelhantes foram inclusive feitos por governantes ocidentais. A ministra dos Negócios Estrangeiros do Reino Unido, Liz Truss, descreveu a guerra na Ucrânia como uma “batalha pela democracia” e disse apoiar quem for combater os russos. O parlamento letão votou, por unanimidade, permitir que os seus nacionais fossem combater para a Ucrânia e a primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, anunciou que o seu governo deixará os dinamarqueses irem combater no país da Europa de Leste.

Desde o primeiro apelo ucraniano que mais de 20 mil estrangeiros de 52 países responderam ao chamamento para integrarem a nova Legião Estrangeira, inscrevendo-se num site para esse efeito. A rede diplomática ucraniana começou a anunciar o recrutamento, incluindo a embaixada ucraniana em Portugal. Os governos senegalês, argelino e nigeriano opuseram-se ao recrutamento nos seus países, queixando-se às autoridades ucranianas.

As autoridades ucranianas estão a privilegiar estrangeiros que já tenham formação militar, especialmente de forças especiais – não querem voluntários que sejam carne para canhão. Os perfis e as motivações dos estrangeiros que querem ir combater na Ucrânia são bastante heterogéneos: uns vão à procura de aventura, outros são simples mercenários, outros tantos são ex-militares que se mostraram chocados com a invasão e as imagens dos bombardeamentos de civis pelas tropas russas – parece ser o caso de ex-militares portugueses. Mas outros, os que mais preocupam e uma minoria no bolo total, são militantes de extrema-direita.

AMEAÇA FUTURA

A invasão ainda não tinha começado quando as milícias de extrema-direita usaram as redes sociais, principalmente a plataforma russa Telegram, muito usada no espaço pós-soviético, para renovar os seus apelos à vinda de militantes estrangeiros. Foi essa a razão que levou as autoridades britânicas a terem montado postos de controlo nas portas de embarque de pelo menos um aeroporto, questionando os britânicos em idade de combate sobre as razões da sua viagem.

Entretanto, as milícias estabeleceram rotas de entrada na Ucrânia, apoiadas pela extrema-direita polaca, forneceram dados bancários para quem os quisesse apoiar financeiramente (inclusive através de criptomoedas, para evitar possíveis rastreamentos) e referiram centros de recrutamento dentro da Ucrânia. A organização não-governamental SITE Intelligence Group tem monitorizado as redes sociais de vários grupos de extrema-direita e notado que os apelos para se ir combater para a Ucrânia têm sido constantes. De ambos os lados do Atlântico.

“A instabilidade na Ucrânia oferece aos extremistas da supremacia branca as mesmas oportunidades de treino que a instabilidade no Afeganistão, Iraque e Síria ofereceu durante anos aos militantes jihadistas”, disse ao New York Times o antigo agente do FBI Ali Soufan. “Guerras civis e insurgências atraem frequentemente voluntários do exterior. Alguns podem juntar-se inicialmente por razões humanitárias, mas vão exacerbar e prolongar o conflito e a violência.”

Link para artigo completo https://setentaequatro.pt/enfoque/extremas-direitas-vao-beneficiar-com-guerra-na-ucrania?fbclid=IwAR0fUEft1mH41I3WO8daNe0wigFPyceYN9Jgy-q7miQhAjOXJYWi_9qaoCA

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3 thoughts on ““AS EXTREMAS-DIREITAS VÃO BENEFICIAR COM A GUERRA NA UCRÂNIA”

  1. Por cá ; O ressurgimento da indústria poderá abrandar a dispersão da força de trabalho, que dificulta o desenvolvimento de tácticas e processos de luta laboral eficazes. Um sindicalismo proletário, combativo, progressista e revolucionário poderá impor-se como ferramenta contra os ditames capitalistas e imperialistas. A concentração de numerosos operários industriais facilitará a imposição de uma gestão democrática das empresas, com a criação de comissões de trabalhadores hegemonizadas por sectores proletários…

  2. A responsabilidade maior por este… “aperfeiçoamento” profissional das milícias nazis é de quem fornece as armas, oferecendo-as, vendendo-as, dando dinheiro para que as comprem. A Raquel abordou o problema há uns dias: os fabricantes de armas parece que são os únicos que enriquecem neste momento, todos os outros ramos de actividade e quem neles trabalha estão a empobrecer. Os mesmos governos que fornecem armas para a(s) guerra(s) — por acso, parece que toda agente anda esquecida do Iemen; e da invasão da Síria pelos Estados Unidos; e de … — estão a reforçar as despesas militares nos seus orçamentos: no entanto, ainda não vi nenhuma ameaça nem nenhuma agressão a esses países que reforçam os seus orçamentos militares e que oferecem, subsidiam ou vendem armas… Eu classificá-los-ia como “belicistas”, mas se calhar é politicamente incorrecto…

  3. Há elementos de extrema direita na Ucrânia, numa proporção semelhante a qualquer outro país, ou seja, residual (basta consultar os dados da representatividade de voto). Haverá mais rotas, nos últimos dias, de ingresso destas pessoas com o conflito.

    Mas a alegação de nazismo na Ucrânia, tomando uma parte residual pelo todo, pertence a Moscovo. Nas várias declarações pode ler-se que a invasão da Ucrânia se deve à “desnazificação” do território. Há anedotas que só os crentes mais simplórios admitem como sérias. Como é sabido, várias pessoas da política e da administração ucraniana estão a desaparecer por serem “nazis”.

    É por isso que esta alegação repetida do nazismo na Ucrânia não passa de um folheto estalinista. Na verdade, o que se quer dizer é “estão a ver como quem defende a Ucrânia são os nazis?”, repetindo Moscovo.

    Mas não. Há muita esquerda na resistência ucraniana (sem aspas, a resistência), como há fora e dentro do país. É uma esquerda que nestes dias anda a falar com orgulho de Marina Ovsyannikova, jornalista desaparecida, depois da morte de Anna Politkovskaya, assassinada em 2006 com cinco tiros de pistola e descoberta pela vizinha no elevador do prédio, em Moscovo, em vez de fazer cortinas de fumo intelectual a tentar dobrar a realidade ao que se pretende.

    O que espanta não é uma leitura marxista (ideal-romântica-muito oitocentos) do conflito, concorde-se ou não, o que espanta é o estalinismo tático, os meios-pensamentos, os princípios sem dizer, a mistura de uma realpolitik histórica oportunista com meios e segundos argumentos, a falta de bom senso e a frieza quase patológica de personalidade.

    Como dizia uma personagem do Umberto Eco, eu do Marx gosto, porque tenho a certeza que fazia amor com alegria com a Jenny.

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