Os Português que falamos

Sobre o intenso debate ontem aqui sobre falar português, umas notas.Em primeiro lugar não existe no Brasil uma língua brasileira, a língua oficial do Brasil é o português, uma variante do português. Os brasileiros não falam brasileiro, falam português do Brasil. Há quem defenda que já se tornou ou irá tornar uma língua e não uma variante, não tenho qualquer opinião sobre isso.

A minha questão era e é sobre a forma como recebemos estudantes brasileiros, como os acolhemos e ensinamos. Há uma norma de português europeu, mas há uma norma de português do Brasil, não existe uma norma de português no mundo que seria a correcta, a do Estado-nação Portugal, mas várias. Dentro destas normas há erros – eles devem ser corrigidos seja em que norma for. E é verdade que nem sempre os nossos docentes (em Portugal ou no Brasil) dominam as normas e por vezes corrigem erros que não o são. Outras são, nos dois lados do Atlântico, arrogantes, e impõem à martelada uma norma como a única, excluindo de facto qualquer mediação com os alunos. Nada disto tem a ver com o acordo ortográfico que é uma tentiva, falhada, de impor o português do Brasil a Portugal também. Falhada porque a vida da língua mostrou-se mais forte do que a sua mercantilização, felizmente. Eu não escrevo com acordo, mas não corrijo quem o faz, nem corrijo quem escreve em português do Brasil.

Os brasileiros têm mais dificuldade em entender-nos do que nós a eles. Isso é uma questão fonética, mais do que de telenovelas. A riqueza dos nossos sons faz com que seja mais fácil para nós ouvirmos as suas vogais abertas do que eles nos escutarem, já que nós falamos “comendo” as vogais. Para um brasileiro nós não dizemos telefone, mas tfon. Para nós eles dizem algo como téléfóni. Essa fonética portuguesa vem nos manuais de consultoria de gestão de recursos humanos como uma vantagem comparativa dos portugueses que, cito os ditos manuais, ganham mal e falam bem línguas. É por isso que em Portugal se fixam empresas estrangeiras a criar call centers, e aconselham Portugal, em vez de Espanha, Itália ou Brasil justamente porque “falam bem línguas e têm baixos salários”. Isto, claro, prende-se com a periferia portuguesa e o facto da nossa burguesia (elites que governam o país, empresas e governos) não terem qualquer estratégia para o país que não seja vender títulos de dívida pública e exportar força de trabalho (emigrantes). Com águas, agricultura, energia, Banca, dependentes de Espanha, e tudo sujeito à economia alemã de exportação de máquinas e capitais faz com que Portugal tenha a sua existência – e a sua língua – ameaçada. A solução não é penalizar os estudantes brasileiros.

A língua em geral está cada vez mais pobre porque os trabalhadores – e por isso o ensino – estão cada vez mais dependentes de um mercado de trabalho empobrecido. A maioria das pessoas, em Portugal e no Brasil, fala cada vez pior porque não existe uma estratégia educativa que não seja a dos salários baixos (dados como “vantagem” em livros de recursos humanos). Esta desumanização do trabalho vem acompanhada do empobrecimento da língua que se reflecte nos baixos níveis de leitura e na alfabetização via youtubers – muitos brasileiros. Ora o problema é que crianças e adultos estão cada vez mais estimulados a aprender pouco e rápido, se passassem horas a ler escritores brasileiros isso seria uma boa notícia, passam horas em ecrãs onde a linguagem é cada vez mais pobre.Uma linguagem pobre é uma vida pobre, são sentimentos pobres. Se eu não uso todos os tempos verbais eu não consigo criar, projectar o que não existe, pensar sentimentos distintos dos que tenho. Na minha área, como em todas, não dominar o português é não dominar a história, se eu descrevo uma greve com simples “foi vitoriosa ou derrotada” eu não compreendo que uma greve pode ser uma vitória parcial, um recuo conjuntural, uma derrota histórica, uma vitória que a médio prazo trouxe uma derrota maior, um empate, etc. Se eu não distingo formas de amor, carinho, amizade, afecto, paixão, ternura, e tudo se resume a gosto não gosto, os meus sentimentos serão mais pobres e por isso também as minhas relações são mais pobres. Daí que o ensino da língua seja estratégico. Creio que aliás o fanatismo dos debates na política, nos jornais e nas redes sociais muitas vezes tem a ver com o pobre domínio da língua – as pessoas gostam ou não, estão a favor ou contra, não conseguem desenvolver mais os argumentos.

Como deve ser feito o ensino de português? Não sei. Mas sei que recebemos cada vez mais estudantes brasileiros e temos que chegar a um acordo de respeito que os ensine (ensinar a sério) mas não os penalize ou marginalize.Sobre erros de português, eu dou os meus livros a corrigir a um profissional. Infelizmente não posso fazer isso sempre – por exemplo com os textos que aqui escrevo – mas seria a minha vontade. O que se assiste não é só que temos mau ensino de português (ninguém quer admitir, a começar pelos professores, que temos mau ensino a tudo e que a mudança tem que ser de fundo), é que os jornais e televisões deixaram de pagar decentemente a revisores, ou sequer os têm, em vez de 4, 5, 6 provas, há 1 ou 2 de revisão, quando há. É que o analfabetismo funcional com os ecrãs está a explodir; é que estamos a perder a língua porque no capitalismo, agora cada vez mais automatizado, uns grunhidos, seguidos de uns SMS e uns desenhos com supostos sentimentos (risos, triste, etc), é mais do que suficientemente para garantir lucros. Os recursos estão desumanizados. Penalizar ainda mais quem muda de país não vai resolver isto. É preciso mudar os países, e talvez possamos pensar, para o futuro, em países onde as normas de português sejam todas ensinadas e aceites.

12 thoughts on “Os Português que falamos

  1. Muito bem colocado. No Brasil, o ensino está completamente sucateado e faz tempo. Como não há hábito de leitura, as pessoas não conseguem se expressar minimamente. E em tempos de internet, com as redes sociais, pior ainda. Tudo se basea basicamente em fotos ou vídeos e um pouquinho de texto.
    Nós precisaríamos uma reforma no ensino, no Brasil. Mas, pelo constelação política que temos, difilcilmente acontecerá. Infelizmente.

  2. muito muito muito bem RV. agradeço-lhe o fazer-me pensar sobre o meu próprio preconceito (que admito e tento escrutinar), mas também o alerta que faz para o empobrecimento da língua – com o desprezo a que as línguas e humanidades são votadas em grande parte do ensino, com as próprias estratégias de ensino que não estimulam o desenvolvimento das competências em língua portuguesa. tb nisto se alarga o fosso gigante entre os mais pobres (sem livros em casa, sem hábitos de leitura e expostos na família a linguagem menos rica e correcta) e os outros.

  3. A Raquel põe muita força no ensino do português. Em tempos que já lá vão há muito uma leitura ensinou-me, entre outras coisas, que “linguagem é pensamento prático”.

    Ora, se assim é, há aqui um problema de galinha e ovo, quem aparece primeiro. Há mais de meio século que oiço dizer, mas raras vezes encontro sequer um arremedo de fundamentação, que “aprender o português” (a disciplina escolar) é fundamental para aprender as outras disciplinas e, portanto, “o português” é fundamental, decisivo, para o sucesso escolar. Oiço dizer isso desde que andei na instrução primária.

    Não discuto que isso seja fundamental: sem um instrumento mínimo de comunicação não se consegue comunicar (quem se lembra daquele filme um bocado idiota, “ET”?…). Mas, se aquilo que aprendi na tal leitura é verdade, então é ainda mais importante aprender as outras coisas para ajudar a aprender, ou melhorar, o domínio do português.

    Ou seja: o que é preciso é aprender coisas, muitas coisas. Aprender a arrumá-las, a conhecê-las, a explorá-las. Quanto mais coisas conhecemos, quanto mais conhecemos dessas coisas, mas necessidade temos de palavras para comunicar isso que sabemos; quanto melhor conhecemos coisas, muitas coisas, mais claro é o nosso pensamento e por isso mais claramente conseguimos exprimir-nos: maior necessidade sentimos de dominar as delicadezas da sintaxe e os matizes do estilo.

    Por isso, o meu comentário pode resumir-se no seguinte: sim o nosso ensino é pobre. Mas não é só na lingua, é principalmente pobre naquilo que ensina. Não é um ensino básico, é um ensino MÍNIMO! E é por isso que notamos que se fala cada vez pior. Não porque quem passa pelo ensino não saiba português, mas sim porque sai do ensino com pouco dentro da cabeça; com pouca necessidade de conhecer muitas palavras e muitas estruturas gramaticais para se exprimir com correcção e rigor. Se essa bagagem fosse maior, evidentement que utilizariam uma linguagem mais rica.

  4. Prezada Raquel,

    concordo contigo em teor e forma, precisamos colocar a aprendizagem do português em evidência. Talvez, o maior desafio para nossa língua e cultura é despertar nas pessoas a percepção dos existenciais, para que deixem de acreditar em inexistentes.

    Segue livros para aprimorar os estudos do português, todos gratuitos de nossa biblioteca infinita. 😉

    Dicionário Analógico da Língua Portuguesa – Francisco Ferreira dos Santos Azevedo
    https://pt.b-ok.lat/book/1201381/9fb21a

    Nova gramática do português contemporâneo 7a Edição – Celso Cunha, Lindley Cintra
    https://pt.b-ok.lat/book/3557925/02788f?dsource=recommend

    Novo Dicionário de Dúvidas da Língua Portuguesa – Evanildo Bechara
    https://pt.b-ok.lat/dl/5216429/9d89ae?dsource=recommend

    Para Falar e Escrever Melhor o Português – Adriano da Gama Kury
    https://pt.b-ok.lat/book/3645314/842111?dsource=recommend

    Moderna Gramática Portuguesa 37a edição – (revisada, ampliada e atualizada conforme o novo Acordo Ortográfico) – Evanildo Bechara

    https://pt.b-ok.lat/book/2781267/bded95?dsource=recommend

    Dicionário de Dificuldades da Língua Portuguesa – Domingos Paschoal Cegalla

    https://pt.b-ok.lat/book/3596495/429308?dsource=recommend

  5. A consciência afrouxa a felicidade. É por isso que detesto vir aqui.
    Venho aqui sempre que posso. Confesso, venho todos os dias. Sabe tão bem vir aqui.

    Sobre o tema, ontem saiu o normativo legal (aditamento) relativamente às provas de aferição que diz “serão realizadas em suporte eletrónico por um conjunto de escolas a definir pelo IAVE, que constituirá a amostra para a aplicação experimental do projeto de desmaterialização da avaliação externa, para além da sua aplicação tradicional, em papel, destinada à generalidade dos estabelecimentos de ensino”.
    Pergunto eu: Quais as consequências para a expressão escrita que esta “inovação digital” acarretará?

  6. Eu sou professora de línguas estrangeiras, mas sempre gostei da minha língua materna, o português. Para além do gosto, sempre li muito, em português e noutras línguas. Por isso, sempre tive muita facilidade na expressão oral e escrita, e na comunicação em geral. Contudo, também sei que o facto de ter iniciado a minha escolaridade nos anos 70 do século passado, foi determinante para o meu sucesso, bem como para o sucesso da esmagadora maioria das crianças, adolescentes e jovens da minha geração e das que se seguiram. Ao longo dos anos 70, 80 e parte dos anos 90, os programas escolares do currículo nacional pautavam-se pela exigência da qualidade, do rigor e da competência. A “matéria” e todo o trabalho para a aprender e desenvolver a partir dela não estava feito como se fosse pré-cozinhada, empacotada e pronta a servir. Os alunos tinham de saber, de conhecer os factos e os argumentos, e para isso tinham de ler, pesquisar, estudar, pensar, imaginar e experimentar – lembro-me bem como eram as aulas de Ciências e de irmos todos curiosos e empolgados para os laboratórios. Sim, os laboratórios que agora vemos desativados, sem alunos curiosos e ávidos de experimentar porque há muito deixou de haver dinheiro para os materiais – e de usar um conjunto mais alargado de estratégias cognitivas para chegar aos resultados e às respostas. Os alunos não respondiam às questões e problemas com cruzes, círculos, linhas para ligar os elementos, completar frases e textos já feitos pelo professor, escrevendo verdadeiro ou falso, entre outras brincadeiras de fingir que se aprendeu. Os alunos não passavam de ano, sobretudo na escola primária (agora 1º Ciclo), se não soubessem contar, calcular, ler, escrever e interpretar, e a literacia era uma competência levada a sério em todas as disciplinas. Nos anos seguintes, os alunos tinham de manter o razoável/bom desempenho em quase todas as disciplinas para transitar de ano (e ai de nós se alguma das duas negativas permitidas fosse um nível 1!), e as faltas às aulas contavam mesmo para “chumbar”. Os trabalhos de casa tinham mesmo de ser feitos, a indisciplina não passava no crivo da aprovação sem que fosse efetivamente corrigida. Os testes e os exames eram efetivamente exigentes e reguladores da qualidade dos conhecimentos e das competências exigidas. Em suma, a escola e os professores eram respeitados e valorizados. Isto não quer dizer que não houvesse alunos e professores menos empenhados. Como em tudo na vida, há exceções, mas a diferença é que as exceções confirmavam a regra, e agora, a regra é a própria exceção.
    Ora, se a escolaridade obrigatória subiu para o nível 12, mas a maioria dos alunos não chega bem ao nível 5 ou ao nível 7, por conta das “aprendizagens essenciais” (objetivos mínimos), tudo o que agora importa é inventar leis e projetos que exigem da escola e dos professores a obtenção de resultados de sucesso a todo o custo, a custo do (s)aturado trabalho dos professores, não dos alunos, e por isso a exigência e a disciplina não podem entrar na equação. Se assim fosse, haveria reprovações e traumatismos psicológicos, e tudo isso custa muito dinheiro ao Estado e envergonha a Nação, deixando ainda um rasto de má imagem perante a Europa e o Mundo. Aqui chegados, sejam bem-vindos ao mundo da realidade virtual, dos fake results, da estupidificação da inteligência humana, da iliteracia, do analfabetismo cultural, do facilitismo e da rebaldaria. As regras existem, mas não são para cumprir – os professores e as escolas nunca estiveram tanto de mãos atadas como agora – e tudo o resto dá muito trabalho e retira tempo aos videojogos, às redes sociais, às novelas (aqui também incluo as do futebol e da política), aos reality shows e aos concursos da TV. Ricos em quantidade, mas tão pobres em conteúdo que chega a dar pena.

    • Permita-me a pergunta, o que acha que falhou à formação dos jovens dos anos 70, 80 e parte dos 90 que permitiu que o ensino de hoje fosse tudo o que descreve?

  7. Sobre o que descrevi, permita-me colocar a questão ao contrário: se os alunos desde a década de 70 até perto dedo final da década de 90 foram formados numa escola que os preparou para o futuro com base nos valores do trabalho, do empenho, do esforço para a superação das dificuldades, assente no respeito pelos outros, incluindo pais e professores, pelo seu esforço nas lutas e conquistas dos valores da Liberdade e Democracia, por um novo paradigma cultural, social e educacional, então o que aconteceu desde há pouco mais de 20 anos, que parece ter (quase) esvaziado essas referências da memória de muitos, sobretudo da nossa elite de pensadores e decisores políticos, os quais têm vindo a desvalorizar a importância e o peso do Ensino, da Educação e da Cultura na formação das nossas crianças, adolescentes e jovens, desinvestindo nelas e reduzindo esse valor e importância a apenas metas quantitativas, de números e percentagens de sucesso escolar em detrimento da exigência e de uma maior qualidade no processo de aprendizagem? Basta pensar no que significa a criação dos rankings nacionais de sucesso escolar, e no que todos os anos acontece com os resultados dos exames nacionais, em que a principal preocupação das pessoas, em geral, é a de saber quais as escolas, entre as públicas e as privadas, é que obtiveram os melhores e os piores resultados, como se se tratasse de um concurso ou de uma competição, quando todos nós sabemos que as condições em que umas e outras funcionam, que os alunos de umas e outras não estão no mesmo pé de igualdade, logo à partida, ao nível da situação social, económica, cultural e de espectativas face à importância da escola e tudo o que ela representa na formação e no percurso da vida das pessoas e dos cidadãos.
    É inegável e inquestionável o direito de acesso de todos à escola, à educação e à cultura. É um facto histórico de grande relevância, sobretudo em países como Portugal, onde a maior parte das pessoas, sendo pobres, viu negado esse direito durante toda a sua vida, muitas permanecendo analfabetas e outras apenas com a escolaridade mínima da 4ª classe até ao fim da ditadura de Salazar. A escola era uma forma de discriminação e de segregação social, perpetuando o modelo de classes sociais profundamente assimétrico, o qual permitia apenas aos ricos a possibilidade de acesso ao ensino e à educação para além da 4ª classe. Felizmente, a liberdade de escolha e de pensamento, bem como a democratização do ensino e da educação, incluindo a alfabetização de muitos adultos depois da ditadura, deram novas oportunidades de trabalho e de promoção social e económica a muitos portugueses e aos seus filhos, conseguindo-se dessa forma diminuir as assimetrias sociais, económicas e culturais, aumentando as espectativas e a igualdade de oportunidades, quer na formação académica, quer no mercado de trabalho.
    Contudo, e apesar dessa evolução positiva na vida de muitas gerações de pessoas, e do visível desenvolvimento cientifico e tecnológico, será que a escola de agora – refiro-me à escola pública porque é aquela em que sempre estudei e na qual trabalho há muitos anos – dita inclusiva e promotora do sucesso escolar, continua a servir, efetivamente, como um meio de promover a igualdade de oportunidades e a elevação social, económica e cultural de todas as pessoas? Eu acho que não. Eu acho que temos vindo a assistir a um retrocesso nas conquistas dos direitos conquistados, na medida em que o empobrecimento económico pela falta de emprego e de perspetivas de trabalho de milhares de pessoas, a par com o paradoxal enriquecimento e empoderamento de uma elite económica e politica do país, conduz, inevitavelmente, a um novo fosso de desigualdades sociais e económicas, bem como a um baixo nível de expectativas das pessoas nessas condições relativamente ao poder do papel que a educação e a cultura poderia representar nas suas vidas enquanto alavancas de ascensão social e económica e de enriquecimento cultural. Naquelas condições, o nível de satisfação e de felicidade das pessoas também baixa e, naturalmente, milhares de pessoas e famílias estão mais preocupadas com a sua sobrevivência e em pagar as contas fixas do que com o enriquecimento intelectual e cultural e, consequentemente, o rendimento escolar dos seus filhos baixa para níveis mínimos de sucesso (já nem falo de outras consequências graves como o aumento da tensão social e da violência, cada vez mais evidente entre os mais novos). Assim, uma coisa leva a outra, ou seja, se a maioria das crianças com baixos rendimentos e baixas expectativas não obtém o sucesso desejado, a política educativa do país vai baixar os níveis de exigência nas escolas para o mínimo, quer ao nível da regulação da qualidade das aprendizagens, quer ao nível das atitudes e comportamentos, porque é necessário que os alunos transitem sempre até ao 12º ano da escolaridade obrigatória. Depois, acontecem duas coisas: os que querem continuar para o Ensino Superior, mas que não podem, porque as famílias não têm meios económicos suficientes, e os que chegaram ao 12º ano, contrariados, mas “empurrados” ao longo do sistema. Em ambos os casos, vão sair e procurar emprego, mas como a oferta de emprego é baixíssima e a procura é altíssima, o seu nível de habilitações, de competências e de conhecimentos vai diminuir ainda mais as hipóteses de concorrer a empregos com um nível de exigência e de requisitos superior. Na melhor das hipóteses, irão frequentar umas formações profissionais e fazer uns estágios (é uma estratégia que agrada aos nossos políticos porque faz parecer que o número de desempregados diminuiu), saltitando de emprego em emprego, se o houver, e com contratos de trabalho precário. Paralelamente, os alunos que tinham condições económicas, sociais e culturais mais favoráveis, com mais espectativas, com um nível superior de rendimento escolar, e que seguiram para o Ensino Superior, estarão numa situação mais confortável para competir e ocupar as posições mais qualificadas e melhor remuneradas no mercado de trabalho.
    Aqui chegados, custa-me ver que, em alguns aspetos, de forma camuflada, a escola atual parece continuar a perpetuar uma condição em que coloca ricos e pobres em lados opostos na igualdade de oportunidades, dependendo da “herança” social e económica de cada um. Assim, eu respondo à questão que o anónimo me colocou, perguntando: onde falhamos a aprender com o passado, nos últimos 20 anos?

    • Obrigado pelo cuidado da sua resposta, a escola é e será sempre o reflexo de uma sociedade, os idos anos que fala falharam integralmente no que diz respeito ao ensino do desobedecer, da expressão libertária do individuo e falharam de tal forma que mesmo hoje essas gerações têm dificuldade em fazer o “meia culpa” pelo que aprenderam e pelo que fizeram questão de ensinar. A fotografia apresentável de uma sociedade em decadência é uma imensa fraude como não podia deixar de ser. As condições objectivas de igualdade são também uma questão de educação.

  8. Pingback: Os Português: que português falas tu?

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