“Vão morrer longe”

A DGS apela a que se há alguém se engasgar não o devemos ajudar por risco de apanhar COVID. “Durante a pandemia COVID-19 não se recomenda a realização de manobras de desobstrução como pancadas nas costas ou compressões abdominais pelos riscos associados de contaminação, bem como o uso de máscara pela vítima, uma vez que necessita expelir o corpo estranho.” (fonte site)

Vi de tudo estes meses da parte da DGS – tudo desculpado porque supostamente as pessoas são “esforçadas”, e estão “cansadas”. Devemos assim ser solidários com a DGS que é uma vítima deste processo. Uma total inversão de papéis, que remete naturalmente para, por um lado falta de pessoas e de orçamento, por outro a eterna doença do Estado português que atinge com alguma variabilidade todos os lugares: selecção pela mediocridade e obediência, cv de filiação partidária, nepotismo também. Nunca ninguém erra, só o povo, os dirigentes são incansáveis…

Fracassada totalmente a estratégia em todos os pontos, sem excepção, pedem-nos que tenhamos muita pena da DGS. Usam e abusam da imagem de Graça Freitas, dando a entender que é uma senhora e com alguma idade, para transmitir fragilidade na direcção, apelando assim à contenção de críticas. Supostamente para elogiar uma mulher, esta atitude política – da chico espertice da assessoria de imprensa do emocional turn – menoriza a sua condição, de mulher também. Como se o sexo, ou idade fossem bitola para avaliar a competência ou incompetência de alguém.

Entre os momentos trágicos estão os sucessivos apelos por parte da DGS a dizer “não vão ao hospital”, sendo que mais de metade do excesso de mortalidade é de outras doenças não COVID; uma campanha tétrica de jovens elegantes actores a mimetizarem uma morte na UCIs – a mesma DGS que não dá dados de lares, idosos sós, obesos, diabéticos (aliás esse dado, obesidade e COVID, dado fundamental de saúde pública, nem sequer alguma vez foi abordado com o mínimo de cuidado e pedagogia); uma fotografia de uma Lisboa vazia no Terreiro do Paço ao ar livre com os pequenos COVID a voar por todo o lado – jamais houve um cartaz igual com os COVID à hora de ponta fechadinhos no comboio da linha de Sintra. Mas esta – como me chamou a atenção um médico aqui na minha página, Fernando Gomes da Costa – atinge realmente o nível da ficção, basicamente é isto -se uma pessoa se engasgar à sua frente, há poucos segundos para salvá-la, aproveite e fuja para ver se não a vê morrer, caso contrário pode apanhar COVID…Alguém fez um bom cartaz disto “Vão morrer longe, um conselho DGS”.Agora para algo diferente, aproveito para vos contar uma história de esperança. Um dia destes uma senhora caiu à minha frente, a uns 50 metros de mim, algo pesada, fui a correr e pensei que não a ia conseguir levantar sozinha, subestimei a força da opinião publicada, quando lá cheguei, 2 segundos depois, já estavam 4 pessoas de voltar dela a levantá-la e cuidar da senhora. Ela estava de máscara, dois do que a ajudaram não, estavam a andar com distanciamento. Isso não os impediu de a ajudar, nem aos outros. Gente decente.

8 thoughts on ““Vão morrer longe”

  1. Já não basta o azar, que até para morrer é preciso ter sorte!
    As fontes da Saúde em causa – SNS24 e DGS – não trabalham em conjunto para a mesma causa? Temos de acreditar que os dados fornecidos aos cidadãos quer por uma quer por outra são baseados na realidade e por isso são dados fiáveis, ou não?
    Em todo o caso, errar é humano, mas o mais importante é o conteúdo da informação: omitir informações para esconder a realidade não é um erro, é uma artimanha. Também já andamos cansados de truques e malabarismos, com ou sem Covid! Aliás, o Covid não trouxe todas as outras doenças e morbilidades com ele. Elas já existiam há muito, e em grande escala, por falta de condições e de qualidade de vida, de trabalho, de lazer e descanso, de cuidados de saúde organizados e eficientes para todos, incluindo os que vivem longe das cidades. Nunca é demais bater na mesma tecla, mas o facto é que algumas já acusam desgaste e outras estão inoperacionais. Contudo, é bom que os nossos políticos, governantes e dirigentes, eleitos democraticamente pelo povo, não devem esquecer esse povo, e que os mais carenciados de salários, de salários justos, de trabalho, de saúde e de felicidade nunca vão poder usufruir de uma vida melhor e digna se os que podem e mandam não trabalharem para o bem comum. Pessoalmente, não vivo deslumbrada com as parangonas de números de sucesso ou com a conversa de que tudo podia estar pior, ou ainda que o problema é geral e também existe noutros países. Agora posso estar feliz com a minha freguesia que não tem casos COVID, ou que até tem alguns em quase 4,000 habitantes, mas já estive muito infeliz porque já morreram demasiados. Contudo, muito preocupada porque o número de idosos com morbilidades graves é tão elevado, e que mesmo entre os adultos mais jovens há demasiados obesos, hipertensos e diabéticos, que há um número elevado de desempregados e de famílias que vivem com o Rendimento Social de Inserção (RSI), em bairros onde as casas são fias, húmidas e bafientas, de tal forma que se houver mais contágios serão mais os que sofrerão ou morrerão pelas complicações das doenças e da má nutrição associadas. Como escreveu a Drª Raquel, “não estamos todos no mesmo barco”, ou melhor, uns estão nos conveses de cima arejados e ao sol, onde o céu não é o limite, enquanto outros, pela sua classe/condição/destino desfavorecida(o)?! estão nos conveses de baixo, estreitos e abafados, mais próximos da água onde o limite é o fundo do mar. Meus senhores e minhas senhoras, a qualidade de vida é um DIREITO e não uma sorte que nos sai ou não em rifa!

  2. Respondendo à Paula , que fala do enorme nº de familias e ou pessoas só , que vivem em Habitações miseraveis, fez–me lembrar as Obras inuteis em que se gastaram milhoes de Euros no esqueleto post incendio do Palacio da Ajuda, que tanta falta fizeram e fazem em melhorar as condições de habitabilidade de imensa gente que vive em Lisboa
    Quanto à Dgs e à Dra Graça de Freitas temos que ter em atenção que ela se encontra sujeita a uma grande pressão pelo Antonio Costa

  3. É verdade, Vitor! E essa foi apenas uma entre centenas ou milhares de obras de fachada feitas por capricho e para gáudio de uns quantos influentes e poderosos pagas a expensas dos impostos dos contribuintes, sendo que a maioria não poderá usufruir do privilégio de as visitar e apreciar por falta de tempo de lazer e de dinheiro suficientes. A este propósito recordo tantas vezes os milhões de euros enterrados e emparedados na construção e/ou remodelação dos 10 estádios de futebol para o Campeonato Europeu de Futebol – Euro 2004. Na minha cidade foi construído um deles, mas que desde então tem estado às moscas e que, à falta de melhores projetos de rentabilização (houve propostas até para um casino), bem poderia servir de pasto ao gado. O clube da cidade não tem condições para suportar os custos ou a sua exploração. Não se esgotaram os dedos de uma mão para contar os jogos lá realizados em 17 anos! Apesar disso, os custos de manutenção mensais dariam para pagar um Ferrari por mês! Não é preciso um grande esforço de imaginação para perceber o que daria para pagar em tempos de crise como aquela em que vivemos agora.
    Na minha cidade, há uns anos, um presidente da câmara achou que os turistas iriam ficar agradados e que ele próprio ficaria na História se mandasse construir uma ponte a serpentear por entre as árvores, ligando dois parques da cidade por entre os quais passa uma estrada de dois sentidos que não tem mais de 50 metros de largura, e por onde dantes sempre se circulou bem, com passadeiras e boa visibilidade para automobilistas e peões. A dita ponte foi um projeto alvo de controvérsias pela sua inutilidade e localização, mas o que é certo é que a teimosia e a megalomania do senhor presidente custaram 400 mil euros. Moral da história: a ponte ainda não foi inaugurada, não tem nome e quase ninguém a utiliza, muito menos os turistas que andam mais entretidos na baixa da cidade, nos seus passeios prazerosos e demorados, visitando as lojas e as atrações a que têm direito!
    Agora, convido todos a fazer um exercício de memória para recordar tantos casos semelhantes que aconteceram ao longo da nossa História passada e presente. Concordo que os monumentos e outras atrações trazem orgulho e dinheiro para o país, e que é necessária uma requalificação dos espaços e das estruturas urbanas, mas acrescento e sublinho que, antes de se embelezar a casa para outros verem, deve-se dar prioridade á resolução dos problemas mais urgentes das pessoas e das famílias que nela vivem e trabalham. Há ainda as zonas mais periféricas e as mais distantes da cidade turística que também gostariam de ter orgulho e prazer em utilizar ciclovias, espaços públicos e verdes, bem como equipamentos de lazer para que as famílias (e os turistas) possam igualmente usufruir do bem merecido descanso no final dos dias, da semana de trabalho e durante as férias sem terem de andar pelas ruas (muitas delas sem passeios para os peões!), expostas a todos os perigos a elas inerentes. Em locais mais interiores e remotos do país chega-se ao cúmulo de não haver transporte assegurado para os que ainda resistem e precisam de ir a uma farmácia, centro de saúde e hospital!
    Orgulham-se do progresso tecnológico e da digitalização do país, mas há tantas pessoas que não têm carro, computador, internet e nem competências para os utilizar! Enquanto os valores maiores do que o poder e a riqueza pessoais e corporativistas não se afirmarem como prioridades, não devemos ficar admirados com o facto de muitos portugueses se queixarem constantemente dos mesmos problemas, de estarem cansados de trabalhar mais do que os outros europeus e ainda terem de pagar mais impostos e ver uma parte do magro produto do seu trabalho escorrer para os bolsos de corruptos e exploradores, de terem um custo de vida dos mais altos da Europa, de continuarem a emigrar à procura de melhores condições de vida para si e para os seus filhos, de não sentirem confiança, orgulho e admiração pelo seu país e pelas suas instituições, de pouco ou nada acreditarem na política e nos políticos, de só os obrigarem a cumprir deveres e não terem direito aos direitos mais elementares, e de apoiarem cada vez mais as ideologias extremistas e fundamentalistas como grito de desespero e apelo à mudança.

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