Futuro

Ontem não tive tempo de falar de futuro. Este é um programa de formato muito largo, raro no nosso panorama, mas ficam sempre coisas por dizer, ficaram porque o programa em geral foi muito bom, e a RTP está de parabéns por ter trazido neste formato um tema tão complexo. Ficou algo importante por dizer da minha parte. Como devolver a esperança?
Em primeiro lugar é preciso as pessoas dizerem NÃO ao que as adoece no local de trabalho – ordens absurdas, avaliações injustas, competição, etc. Vivemos em democracia. Precisamos de democracia e debate livre dentro dos locais de trabalho. Nas palavras de Coimbra de Matos é preciso, cito-o, Revolta, isto é, não aceitar o que está errado porque se o fazemos acabamos por destruir a auto estima, e abrimos caminho à depressão. Esse Não! não pode ser só em palavras – nós somos o que fazemos para mudar o que somos. É preciso agir.
Mas, como acrescenta Dejours, outro psiquiatra destacado, é preciso evitar ser despedir ou alvo de assédio, quando se recusa estas ordens ou modelos, por isso é preciso, cito-o, em Lisboa, perante mais de mil pessoas, “conspirar e não ser apanhado”. Ou seja, organizarem-se colectivamente nos locais de trabalho, em cooperação, para resistir a ordens erradas e propor outro modelo de gestão e organização do trabalho.
Agora acrescento algo “meu” – é preciso futuro. Nós enquanto espécie temos a projecção na nossa essência, é preciso acreditar e projectar um futuro que nos faça caminhar e gostar do caminho. Esse projecto social é central ao nosso bem estar individual e colectivo. Contra a caricatura do comunismo – o Homem Novo Estalinista que tinha um futuro certo – o capitalismo ofereceu a resignação certa, são duas visões sem história, ahistóricas. A do capitalismo apela todos os dias a que as pessoas vivam num eterno presente, sem acreditar em nada, vivam de sacrifícios e façam apenas por se manter vivas.
É preciso um outro Homem Novo, sem trapos velhos e vícios antigos de despotismo, o mundo tornou-se irrespirável, ou seja, é necessário abrir possibilidades de uma real (mas não garantida) transformação do homem para o reino da liberdade e da igualdade. São indissociáveis e uma não se pode sacrificar à outra. Toda a ajuda psicológica individual, necessária e urgente para largas camadas da população, não pode resolver os problemas de fundo sociais. Temos que começar a debater seriamente em que sociedade queremos viver. Podemos discordar, mas este debate não pode continuar sobre as premissas de “não é possível mudar”. A maioria das pessoas hoje pensa que não é militante mas é. Milita na ideologia Não Há Alternativa, Não Acredito em Nada – este presente-eterno da vida puramente biológica, vou-me safando, vou andando, é auto destrutivo. A resignação é ela mesma uma patologia social.
Em resumo é necessário que as pessoas juntas, em cooperação, resistam e projectem outra sociedade. Estamos carentes de resistência, de acção, e de ideologia emancipadora, é esse o argumento. Sei que isto pode parecer abstracto para alguém em “burnout” ou deprimido mas um dos factores que mais adoece mentalmente a população não são hoje só as condições adversas no trabalho mas o facto de as pessoas terem sido convencidas a pensar e a agir como se essas condições adversas fossem naturais e eternas – é aí que morre a Esperança. Sem esperança não podemos ser inteiros, nem livres, nem felizes. Mais uma vez o britânico, expoente da cultura, Raymond Williams, sintetizou-o melhor do que ninguém, “não precisamos tornar o desespero convincente, mas a esperança possível”.

6 thoughts on “Futuro

  1. Segundo a Teoria do Eterno Retorno, o futuro não existe, é apenas uma hipótese por comprovar!
    (Donde se prova que as mais evidentes teorias podem ajudar pouco ou mesmo nada).

  2. Eu, ao longo dos anos (e já são alguns) penso que vivemos numa democracia burguesia, e, que muitos a chamam de, podre e corrupta. Um dos poucos estudos feitos pelos historiadores e académicos, que deveria ser apurada mais a serio, do que tem sido. Porque a dita esquerda e a direita em particular diz o mesmo (vivemos numa democracia). Porque será?

  3. Adorei ouvi-la! Parabéns pelo seu trabalho, capacidade de comunicar, que nos alerta/desperta, para uma nova forma de estar, ver o mundo e agir….É tão importante ouvir “pensadores” que falam sobre a mudança! Tenho muita pena que depois desta quarentena, se pretenda dar continuidade a modelos impregnados na sociedade e que não servem a qualidade de vida saudável…..Muito grata, por ser quem é e por me ter dado o prazer de a “descobrir”…

  4. Que Futuro? Sejamos pragmáticos e já, hoje, agora.
    Diz o ditado, “Não deixes para amanhã, o que podes fazer hoje”… já devia era estar a ser feito.
    O CONTRA-PODER DO CIDADÃO…
    Na sociedade moderna, no “status quo” que vigora neste novo milénio, o cidadão eleitor perdeu o seu poder representativo… quer não se tenha apercebido, quer o negue.
    O Corporativismo domina hoje, efetivamente, as instituições do Republicanismo.
    A Finança, impõe-se ao Humanismo… globalmente.
    A ofensiva destes “antagonistas” do humanismo, é crescente, mas a sua força depende sempre da sua “base logística”… no passado, no presente e no futuro… inevitavelmente. Essa “base”, é a que sempre foi, a finança, o poder monetário. É a sua força, mas também a sua fraqueza, pois é total, absoluta, a sua dependência.
    Na percepção dessa dependência pelo cidadão, está a sua capacidade de resposta, o seu “ato de revolta”, o seu “contra-ataque”.
    O CONSUMO direcionado (marketing) é a base logística de agregação do valor corporativo.
    Consequência -> O real poder representativo/interventivo passou a ser o do CONSUMIDOR.
    É no, e através do CONSUMO que a “Revolução” tem de ocorrer.
    A “grande batalha” de hoje é, pela tomada de consciência desta realidade, pelo cidadão comum.
    A atual “educação” (doutrinação) do consumidor, que somos todos nós, tem de ser alterada, afirmo mesmo… invertida.
    No nosso mundo (ocidental), o Eleitor vota quando muito uma vez em cada 2 anos, num poder que hoje já é… fictício.
    O CONSUMIDOR?… Esse, vota todos os dias no poder real, o que faz “girar o mundo”, o do dinheiro (o da Finança).
    Através do seu CONSUMO, financia algo e/ou alguém… sempre.
    É chegado o Tempo de escolher, mais e melhor, em quê ou quem.
    Inevitavelmente, a sua/nossa ação coletiva vai “balançar o barco monetário”, do fluxo do dinheiro financeiro e corporativo.
    Imaginem o seguinte cenário… A detenção estável e contínua de mais propriedade é contraproducente, pois o seu valor está constantemente a ser alterado e diminuído no tempo.
    Difícil planear, construir, consolidar e dominar, seja do que for nesses termos, não é?
    Exemplificando:
    Eles apostam nos gigantes (Google/Nestlé/Boeing, etc), o consumidor opta pelos pequenos (os emergentes, os secundários, os de valor marginal);
    Eles apostam nos conglomerados, no globalismo da produção/industrialização, o consumidor investe no local, no regional, na proximidade;
    Eles dependem da centralização do consumo e do domínio absoluto da cadeia de valor. Sejamos criativos e disruptivos dessa cadeia.
    Eles são GIGANTES… pesados, lentos, burocráticos. Nós somos PEQUENOS… agéis, desenrascados, furtivos.
    É, será, difícil de concretizar no dia a dia? Claro e muito, mas é isso ou aceitar “virar chinês”.
    É a escolha que tem de ser feita… está a ser feita… diariamente.
    A mudança de hábitos e rotinas pelo cidadão, entre o querer ser, o querer estar e o de facto fazer, não acontecerá de um dia para o outro… nem no “dia seguinte”.
    Mas, ou a “Mudança” é assumida pelos atuais moradores “arrendatários” deste mundo, ou irão permitir… uma sociedade de “miseráveis” humanos, dominada pela “opulência” de reis.
    Temos de começar hoje, porque não o fizemos ontem, por nós e pelos nossos filhos, netos e seus/nossos descentes… pelos nossos futuros “eus”.
    Comecemos já, agora, pela família, amigos, companheiros e colegas e todos os que se cruzarem connosco no caminho das nossas vidas. Despertai-vos uns aos outros.
    Então, a consciência criada pela própria metodologia, em nós, consumidores, fará “virar a mesa”… Inevitavelmente… dita-o a história dos povos.
    O “Movimento”, a “Mudança”, criará oportunidades para outros cenários e outros actores.
    Actores que serão as nossas figuras históricas de amanhã, a quem nos juntaremos como no passado o fizemos. Temos de querer a “Mudança”, temos de a concretizar nos actos.
    A HISTÓRIA, o caminho, faz-se caminhando… e todo ele começa, com um primeiro passo.
    “Ás barricadas”, meus caros… O vosso CONSUMO é, será o vosso DESTINO.

  5. Muito bem observado sobre a necessidade de hoje dizer não ao absurdo e à injustiça. A lei e o método, quase sempre, protege quem diz não. Sim, é muito incómodo, desgastante e cria muitas inimizades. Isto porque grande parte das ocorrências do absurdo e da injustiça decorrem de situações informais ou oficiosas, talvez porque não passavam no crivo do sensato e do justo.
    A isto o Sociólogo António Barreto, no jornal Público (28 de Junho de 2020) escreveu: “Em ditadura ou em democracia, os procedimentos informais, a meio caminho entre o nepotismo e a corrupção, sempre enformaram a sociedade e a política portuguesas.”

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