Empatia

O amor ao próximo exige-nos empatia – sair de nós e procurar estar no lugar do outro. Parte importante dos portugueses nunca puderam fazer confinamento, nem sabem o que isso é. Pensem numa empregada de limpeza de um hospital, de uma enfermeira que só trabalhe no sector público e não queira viver em casa dos pais; num estivador que trabalhe um turno, ou num motorista de entregas na cidade. Em todos estes casos estas pessoas entram em transportes públicos ou colectivos, reduzidos e por isso mais cheios, vão trabalhar, ganham entre 550 euros e 900 líquidos, o que significa que vivem num subúrbio em Santo António dos Cavaleiros, na Amaradora, no Seixal. Tirando os de saúde, nunca tiveram máscaras e estiveram a toda a hora expostos à doença, nos transportes, nos contactos, e a seguir têm um Estado de Emergência que lhe veta o direito à greve porque são “essenciais”. Quando regressam a casa à noite manda a lei que estejam confinados nos seu exíguo apartamento. Para o bem de todos. Um familiar meu, que está numa casa de campo, num enorme jardim magnífico, tem-me pedido insistente, “conta-lhes, conta-lhes que quando a mercearia da família faliu no Alentejo, nos anos 60 depois da mecanização agrícola, nós viemos para Lisboa, 3 gerações viver num subúrbio, dentro de 60 metros de quadrados, como vamos proibir estas pessoas de sair à rua?”. Lembrei-me hoje isto quando lia um sociólogo francês recordando-o que “faz confinamento, tem que ser, mas é um conceito burguês”. É, em suma, uma medida medieval de um Estado que falhou na prevenção das doenças, da investigação científica, da robustez dos sistema de saúde, e toma esta decisão que, para uma parte da população se pode chamar confinamento, para outras é uma prisão não metafórica. Em Portugal decidimos ainda que estas pessoas essenciais não podem “fazer greve, resistir ou ser ouvidas na legislação laboral”, ao abrigo do Estado de Emergência, pelo que , muitas delas foram despedidos contra a lei, caso do porto de Lisboa, viram o seu salário cortado (em forma do prémio retirado), caso do Metro sul do Tejo, perderam o seu complemento salarial que lhes permite ter uma vida digna (caso da enfermeira que trabalha no público e agora não faz privada ou da empregada de limpeza do hospital que também é doméstica num condomínio). “Partilha e na compreensão de estados emocionais de outros”, empatia, é um exercício que devíamos fazer 3 vezes por dia, pelo menos.

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1 thought on “Empatia

  1. 🙏

    A sexta, 17/04/2020, 08:57, Raquel Varela escreveu:

    > Raquel Varela posted: “O amor ao próximo exige-nos empatia – sair de nós e > procurar estar no lugar do outro. Parte importante dos portugueses nunca > puderam fazer confinamento, nem sabem o que isso é. Pensem numa empregada > de limpeza de um hospital, de uma enfermeira que só trab” >

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