Inseguro de saúde

Para quem é entusiasta dos seguros de saúde deixem-me contar-vos a vida dos meus amigos no Brasil, todos com seguro de saúde. Primeiro qualquer seguro depois dos 50 anos custa cerca de 500 euros por mês, a rigor uma família de 4 pessoas para ter um seguro banal conta com 2 mil euros para seguros mensais. Segundo, o seguro mesmo assim não cobre tudo, nem de perto, pagam parte das consultas e exames. Quando realmente ficam doentes passam a vida em advogados a lutar para que o seguro pague, ou seja, têm duas despesas, a do seguro e a do advogado para obrigar o seguro a pagar. Finalmente passam a vida no médico sem necessidade. Isto é, são todos hipocondríacos por antecipação, mesmo quando não têm personalidades obsessivas. Isto porque os seguros recusam-se a pagar doenças sérias mas para justificar a sua existência pagam as consultas regulares, assim os meus queridos amigos para sentir que não deitam 500 euros todos os meses fora fazem check ups regulares de todo o tipo, de tal forma que falam de ir ao médico como nós portugueses de jantar fora, ou de marcas de vinhos (privilégios de termos feito uma revolução e daí ter nascido um SNS). Assisti várias vezes no Brasil a conversas como “já foste ao teu dermatologista este ano? Ainda não mas estive com o meu terapeuta das costas este mês, já marquei a colonoscopia, e a minha esposa já tem consulta anual de oftalmologia para a semana, aquela clínica é muito melhor do que a outra, e a outra tem um serviço nível Nova Iorque”. A isto acrescenta-se, claro, um consumo anormal de medicamentos – a poli medicação (sem estudo das consequências, e cruzamentos de efeitos) é generalizada – tomam medicamentos para tudo o que possam imaginar. Isto porque os médicos também têm que justificar a sua existência junto dos pacientes privados. Um negócio, em suma. Só na aparência de saúde, na essência uma máquina de fazer dinheiro e coisificar pessoas, neste caso doentificá-las.

Se isto é assim num país onde a população é mantida na miséria mas mas com uma classe média robusta, como o Brasil, imaginem o que será a saúde privada num país de baixos salários como em Portugal, que já há uns anos disse adeus à dita classe média, hoje toda proletarizada?…

3 thoughts on “Inseguro de saúde

  1. nem mais! mas atenção que aqui o filme cá em Portugal já é muito parecido: quem tem ADSE e seguros faz tudo e mal alguma coisa de tudo o que não é preciso, e felicíssimo por achar que está a fazer o que precisa e que tem o privilégio de poder fazer; sem noção de que excesso de exames leva a excesso de tratamentos e que os tratamentos podem piorar e não melhorar a saúde das pessoas; sou médica de família e um paciente meu, com ADSE, mas esperto, um dia disse-me «ao XXX (nome de hospital privado) não vou mais; de cada vez que lá entro querem operar-me a alguma coisa». muitos começam a perceber isso mas outros tantos seguem alegremente nessa senda, à procura da ‘doença’ que sempre surge se fizermos exames suficientes

  2. Quanto ao artigo, não tenho nada a dizer, mas já agora, queria informa-los que a EDP esta a promover seguros de saúde, como outros serviços. e fico por aqui…

  3. Os seguros são como as casas de jogo. As hipóteses são viciadas, de modo a favorecer a casa. Com a diferença de que, no caso dos seguros, quando uma pessoa está a ganhar demais, é corrida do hospital em causa – nem que esteja a morrer.

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