Do “sofrimento ético” à greve do crowdfunding, um país em burnout

1500 euros líquidos é o valor que recebe um médico especialista ao fim de 20 anos no SNS. Um enfermeiro, 900 euros. Estes salários representam um risco para a saúde destes profissionais. E, por isso, são um risco para a nossa saúde.
De manhã, na minha cozinha, a rádio toca cool jazz. Seguem-se os acidentes de automóvel e as bolsas, o “humor dos mercados” – como se possuíssem vida. E os valores éticos de quem trabalha, e como trabalha, são desconhecidos. Os Portugueses, na sua maioria, aventuram-se em juízos ignorantes sobre o trabalho alheio, porque sabem pouco do mundo do trabalho, além do seu próprio.
Assim, o médico que está atrasado é um malandro que nunca se “atrasa no privado”. Desconhecendo que a este médico foram marcadas o dobro das consultas previstas. Este é o horário real de um urologista no SNS: consulta do dia x, 8h15, 8h30, 8h30, 8h45, 8h45, 9h00, 9h00. Sim, foram marcados vários doentes à mesma hora. Há também o da enfermeira que nos respondeu de forma rude enquanto passava a correr por nós. Ela ontem trabalhou 16 horas, hoje 8 horas, ia para casa. Mas o que a ia substituir não veio. Vai ficar mais 8 horas. Há serviços onde os enfermeiros têm a receber… 1700 horas. O trabalho extra dos profissionais de saúde é permanente. E sem ele o SNS entra em ruptura, ficando a nossa vida em risco. Mas o trabalho extra e as condições laborais estão a colocá-los a eles em risco.
Há pouco tempo, David Graeber, antropólogo, explicava no The Guardian que os profissionais de saúde are caring too much – care é cuidar, e é preocupar-se. Estes profissionais estão em “sofrimento ético”. A ética são as normas de conduta, a deontologia. Eles sabem que para realizar o seu trabalho estão a ir contra a ética profissional, a recorrer a expedientes errados. Sem meios, incluindo um meio, a sua própria força anímica, estão exaustos. E como o trabalho é muito constitutivo da subjetividade humana, isto é grave – tão ou mais grave do que o trabalho penoso.
Esta greve dos enfermeiros foi a tempestade perfeita: exaustão, baixos salários, escassez de meios, competição em vez de cooperação nos locais de trabalho (formas de avaliação injustas, luta por horários e descanso, iniquidade nos contratos desiguais, ausência de reconhecimento – carreiras –, arbitrariedade das direcções de gestão).
Precisamos de cuidar e ser cuidados para sermos felizes. A vida em sociedade implica cooperação, retribuição, caring. Essa premissa, que o psicanalista Coimbra de Matos desenvolveu também nos nossos estudos do burnout, é o início de tudo. A menos que sejamos psicopatas, sem relações de cooperação a depressão instala-se. E as hormonas de agressividade, medo, a desconfiança do outro, dominam-nos, transformam-nos.
Hoje só há cooperação nos locais de trabalho… na resistência a esse trabalho. À forma como ele está (des)organizado – esta é a tese de outro colega nosso, Christophe Dejours, que provou a relação entre os suicídios na France Telecom e a organização do trabalho nessa empresa. É na resistência ao que está eticamente errado que as pessoas se re-humanizam, cria-se uma igualdade cooperativa entre profissionais. Coimbra de Matos fala em “revolução para evitar a violência”, ou seja, cooperar e resistir para nos reposicionarmos entre iguais.
Na sequência das greves dos estivadores em 2016 em Lisboa e em 2018 em Setúbal, com fundos de greve e solidariedade entre precários e fixos, a greve dos enfermeiros é o segundo grande conflito do fim do pacto social. Uma massa de profissionais, muito jovens, a maioria mulheres, e com peso no Norte, num hospital PPP (Braga, centro nevrálgico desta luta) fizeram uma massiva greve em cadeia, conseguiram financiá-la entre si. O papel da Ordem dos Enfermeiros não foi mais do que o espelho da crise dos sindicatos tradicionais, ultrapassados não pela Ordem, mas pela base social radicalizada, proletarizada, disposta a levar o conflito para lá das greves tradicionais.
O que os enfermeiros demonstraram foi uma inédita capacidade de mobilização e solidariedade. A ideia de que o fundo de greve desvirtua a greve enferma de ignorância sobre a história do trabalho. Um fundo de greve é um desconto no salário por antecipação, ou por mobilização. O valor que os grevistas dão ao seu sindicato não é perdido no dia em que fazem greve, mas é perdido antes, quando amealharam para o fundo. Ou perdido durante, em formas de mobilização e lutas públicas, que lhes permitem recolher o dinheiro de outros solidariamente. Existem fundos de greve desde que existem trabalhadores organizados, e financiados de fora do sector. Aliás, na fundação da Associação Internacional dos Trabalhadores, em 1864, Karl Marx defendia fundos de greve entre trabalhadores de países ricos para que os mais pobres não aceitassem trabalhar em concorrência e as greves fossem articuladas entre países (desconfio que se fosse hoje aplicado pelos sindicatos europeus, a extrema direita não tinha tanta força…). Hoje, nos EUA e no Canadá, as greves de defesa da saúde são todas financiadas com fundos abertos na Internet. Fundos de greve têm 170 anos de vida, vêm das associações mutualistas.
A greve beneficia o sector privado? Todas, menos as gerais, o fazem – a da CP beneficia os táxis e a Fertagus, a da TAP ajuda a Easyjet. Todos sabemos que o que beneficia o sector privado são os baixos salários no sector público. É isso que provoca a desnatação do SNS – que no limite levará ao colapso de toda a saúde, mesmo a privada, dada a escala do País.
Os enfermeiros devem, no entanto, reflectir sobre os seus erros. As ideologias todas podem ser subvertidas. Mas à partida elas são distintas. Há ideologias que defendem o bem comum, e não interesses particulares. A dúvida que surgiu desde sempre nos serviços mínimos foi um erro. Cabe aos enfermeiros, independentemente do que foi fixado legalmente, garantir que não há ninguém em risco de vida, já que o Governo deixou arrastar a situação. Os enfermeiros tinham que ter vindo a público dizer: “Se há dúvidas, digam-nos que cirurgias são urgentes ou essenciais para garantir o direito à vida.” Não podia ter havido qualquer dúvida nisto. Na Irlanda a greve dos enfermeiros ganhou o coração do país porque eles colocaram na Internet o número de doentes em macas e em risco – eles foram os “olhos da população”. Em segundo lugar, qualquer proposta para vencer tem que abraçar todos, defender a sua tabela salarial é defender também a dos médicos, e o seu papel altamente qualificado, imprescindível, no SNS. São precisos mais enfermeiros no SNS, sim, para acabar com a brutalidade de horas extraordinárias, mas também na prevenção, por exemplo. Em suma, uma greve deve assumir-se como portadora de uma visão de país – ou seja, deve ser sempre política. Ao contrário do que se apregoa, os grandes sindicatos na história foram os que conseguiram combinar o seu interesse corporativo legítimo com uma visão para o país e o mundo.
Podem não concordar com esta minha análise. Ou resumir a greve dos enfermeiros a uma conspiração da direita. Mas isso não vai impedir os conflitos. Vai, aliás, virar sectores inteiros contra governos e o Parlamento. Na linha da frente, com a população, estão os profissionais de saúde. Esta campanha negra, somada aos serviços mínimos na educação, aos fura-greves de Setúbal e agora à requisição civil está a levar o Estado a reagir com força onde devia haver cedências. E isso não é só um tiro na maioria absoluta do PS. Há um efeito mais duradouro e menos bombástico: a perda de influência dos sindicatos tradicionais. Maria de Lurdes Rodrigues disse um dia: “Perdi os professores, mas ganhei a população.” Entretanto, perderam também os estivadores, os enfermeiros… Quem ficará do lado do Governo?
Espiolhar as contas sindicais é um precedente gravíssimo. Sindicatos são associações privadas. Já a dívida pública, essa nunca foi conhecida de nós, com uma auditoria pública. Ainda vamos a tempo de perguntar por que estão inscritos no Orçamento de Estado mais de 5 mil milhões para acionistas de bancos falidos, Joe Berardo recebe do Estado 2 milhões por ano no CCB, e o Novo Banco recebe mais mil milhões este ano. Porque, afinal, para que serve um Estado se não é social?
Historiadora, Universidade Nova de Lisboa; autora de “Breve História da Europa” (Bertrand)

1 thought on “Do “sofrimento ético” à greve do crowdfunding, um país em burnout

  1. Constatação 1 – Antes da intervenção da troika, vigorava o horário das 35 horas semanais, no sector público, e ninguém se queixava de exaustão ou do excesso de horas extraordinárias.

    Constatação 2 – Veio a troika e o horário passou para as 40 horas de trabalho semanal, no sector público, e ninguém se queixou de exaustão e excesso de horas extraordinárias (até porque estas devem ter diminuído, certamente).

    Constatação 3 – Veio a geringonça e o horário de trabalho semanal voltou a ser de 35 horas, no sector público, e toda a gente, no sector público, se queixa de exaustão e excesso de horas extraordinárias.

    Conclusão: Para reduzir a exaustão, no sector público, devido ao trabalho em horário extraordinário, a solução será voltar a implementar o regime de horário normal das 40 horas semanais, no sector público, porque assim não se esgotam tanto com tantas horas extra. E, como se vê, esse horário tem dado óptimos resultados no sector privado (os enfermeiros e professores do sector privado não se queixam).

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