A minha cara metade

Há uma pandemia mundial em curso de narcisismo. Narcisismo não é vaidade. Um narcísico pode até ser discreto, calado e vestido de cinzento. Mas é uma pandemia insuportável. É o tipo que chega a uma reunião com mais 30 e pede para a próxima reunião ser mudada porque “ele tem uma consulta médica” – o que era o mundo sem ele!; é a mãe que diz com orgulho “o meu filho não faz nada sem mim” – um anormal portanto!; é o filho que quando a mãe lhe coloca a comida na mesa diz com esgar “não gosto nada disto” – tempos houve, os quais saúdo conservadoramente, que o tipo dizia “obrigada por teres feito o jantar querida mãe (mesmo que não gostasse)”; é o tipo que entra num sindicato e na primeira discordância, sem ter mexido uma palha, sai, e é o sindicalista que acha que é dono das decisões da organização; é o que entra numa associação e “esquece-se” mensalmente e sempre de pagar a quota – o financiamento colectivo que se lixe!; é o que estaciona em cima do passeio, o que atravessa um bairro a 50 km hora porque ele está atrasado para o trabalho e  a criança que está a jogar à bola está a “atrapalhá-lo” – não é o seu filho porque ia ele preocupar-se!?; é a professora que despacha o trabalho dela para os alunos e os pais destes fazerem em casa; e são os pais que entram numa escola a gritar com a professora, sem sequer lhe perguntar  o que se passou. Todos estes comportamentos têm em comum o desenvolvimento incipiente do superego, do não saber estar na pele do outro, do não querer estar na pele do outro – o outro, diria um humorista, “nunca ouvi falar desse”. É um comportamento para-sociopata, de gente que não consegue sair de si e acha que os outros são instrumentais ao seu bem-estar.  É uma esmagadora ausência de resistência à frustração, um imediatismo de prazer quase animal (não socializado, portanto).

Não sei, com sinceridade, a origem destes comportamentos. Não é a era da selfie porque isto é sério e não é vaidade ou gala – não falamos do vestido bonito da menina mas de um comportamento social profundo que ignora a existência colectiva. Família protectora, Estado social dominante que desmobilizou politicamente as pessoas, que as fez precisar menos umas das outras, filhos únicos em sociedades urbanizadas. Não sei… Mas sei que é impressionante.

Todos os dias recebo cartas com assuntos importantes. Muitos dos quais agradeço que o façam, reencaminho para onde sei, incluindo para resolução de conflitos laborais ou questões científicas, de trabalho. Mas todos os dias me escrevem também pessoas que me dizem o seguinte: «concordo com tudo o que escreveu até hoje (tudo…desconfio logo…) menos com o que escreveu hoje. Estou muito desiludido». Muito? É quase uma carta de fim de relação amorosa. Está tudo acabado entre nós! Não ocorreu a estas pessoas perguntar se eu, que passo metade do meu tempo em regime de voluntariado público, preciso de ajuda…Mas ocorreu-lhes escrever-me uma longa carta em que me explicam porque eu deixei de ser a sua cara-metade. O fim do namoro, da inaceitável traição, não é uma exclusividade minha. De vez em quando vejo na Internet uma pessoa pública querida que comentou que não gosta de gatos e milhares de pessoas escrevem-lhe, não raras vezes com ofensas, dizendo que estão “profundamente decepcionadas”. Outro escritor adorado que escreve uma piada de humor negro e é bombardeado com um “nunca mais compro os seus livros”. Imagino que namorar estes seres é pior do entrar para as SS. Começa-se o dia a marchar de manhã ao som das ideias inquebrantáveis destes bebés grandes. Afinal, ou estamos com eles ou contra eles!

Fica aqui a minha opinião de leiga. Não existe a cara-metade de ninguém. Nem no amor, nem política, nem na ciência, na culinária, no estado do tempo. Eu, por exemplo, amo algumas pessoas que votam no PS e acham que isto com o Costa vai lá…Vou continuar a amá-los e até lhes vou dar um abraço apertado quando o Costa for para lá fazer o mesmo que o Passos Coelho e eles ficarem deprimidos. Vou convidá-los para jantar e vamos rir-nos, como sempre nos rimos quando estamos juntos.

Piadas sérias à parte, o tema é grave. Os outros não são o preenchimento do nosso vazio, as relações são relações, de discordância, de debate, de diferença. O mundo está difícil. É aliás um barco a caminho do precipício, onde há uns tipos no convés e a maioria no porão. Mas desengane-se quem acha que vai ficar à tona – olhem para 1939-1945! Todos nos vamos afundar se não reagirmos organizadamente. Mas para reagir organizadamente temos que ser livres, e só há liberdade na diferença, na discordância, temos que re-aprender a viver com os outros na sua complexidade, na sua surpresa, e sobretudo com aquilo que é distinto de nós. Não precisamos de caras metades. Precisamos de gente inteira.

 

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23 thoughts on “A minha cara metade

  1. Já senti e escrevi também sobre este assunto (não é reclamar originalidade,os comportamentos andam expostos por aí, é natural que muitas pessoas sintam e escrevam sobre isto) . Discordar de alguém, ainda que sobre uma questão menor, também provoca reacções similares. Temos de complementar Marx: algumas pessoas hoje sentem-se emocionalmente reprimidas e à falta de melhor, reclamam dessa forma o fim da opressão emocional sem perceberem que « o outro» não é responsável por isso. A título de exemplo, anda pelo fb um post que atribui a Bob Marley uma frase absurda:«é cobardia um homem despertar o amor de uma mulher sem ter a intenção de amá-la». A frase recebe muitos likes de «corações solitários» que nãopensam, nempor um momento que nenhum homemé tão poderoso para poder despertar um amor só porque quer,nem nenhuma mulher tão passiva que não jogue o seu papel nesse envolvimento (a questão dos sexos aqui até era dispensável mas citei e critiquei a frase que li)

  2. Excelente Raquel. Ainda hesitei em saber se tínhamos um problema de psicopatas e sociopatas, mas pensando e lendo a sua crónica, estou também virado para o narcisismo.

  3. Se vivemos para a satisfação imediata dos desejos dos nossos rebentos, a sociedade só pode seguir este caminho.

  4. Tem vezes que não estou plenamente de acordo consigo, Raquel. E gosto disso. Gosto de ler as suas crónicas/desabafos e às vezes ficar a magicar “Concordo tanto com ela, mas aqui, ela que me descupe, não me convenceu…” Adoro o facto de me obrigar a pensar, às vezes em coisas que sem essa leitura não teria desperto para aquele raciocínio (pelo menos não naquela hora). Adoro, de facto, ler o que escreve, mesmo quando não concordo (e vezes já houve, poucas mas houve). Mas hoje não é o caso! :)) Hoje não poderia concordar mais. Da primeira à última palavra. Obrigada!

  5. Bem, eu concordo no essencial, mas há dois pormenores que me parecem desfazados. Um deles é o embelezamento e a idealização de um tempo que, se calhar, nunca existiu. Tem a certeza de que houve um tempo, em «que o tipo dizia “obrigada por teres feito o jantar querida mãe (mesmo que não gostasse)”»? Tendo em conta o machismo que sempre existiu no nosso país, duvido que uma atitude destas (que haveria, com certeza, pontualmente), estava longe de ser geral. E casos pontuais devem existir ainda hoje.

    Depois, há uma leve contradição: diz que são sinais do nosso tempo, mas, em seguida, avisa com um exemplo passado há setenta anos: «olhem para 1939-1945!». Afinal, narcisismo e socio e psicopatias não são um fenómeno de hoje!

    O passado não foi nenhum paraíso e não estou bem certa se o presente é pior. Mas concordo plenamente que o narcisismo é de evitar, pelo menos, o narcisismo doentio.

    • Tem razão Cristina, eu acescentaria que antes de 1939-45, houve a crise de 1929 e a ascensão do totalitarismo fascista nos anos 30, e ainda antes disso os “loucos anos 20”. “Loucos” só para uma parte, paralelamente ao mundo da burguesia fútil, hedonista e consumista do “The Great Gatsby”, também existia o mundo das “Vinhas da Ira”, onde a realidade já não era nada “glamourosa”. O resultado viu-se, uma década depois. Tempos perigosos, que se repetem.

  6. Verdade Raquel Varela! Uma sociedade de adultos criança, eternos adolescentes egocênctricos e birrentos. Uma coisa que impressiona é falta de tolerância, incapacidade de dialogar sem ataques e insultos ao outro, a falta de empatia. Observo muito isso nas ditas redes sociais. E isto, depois de 2 ou 3 décadas de psicologização da sociedade, com os media cheios de psicólogos e outros especialistas a toda a hora a pregar conselhos de “inteligência emocional” e relações humanas em geral. Resta saber para quê. Pelos vistos, andamos para trás. A minha avó costumava dizer: “Antes de dizeres algo a alguém pensa primeiro no que sentirias se te dissese a ti”, uma dica simples, que 80% dos habitantes deste jardim infantil desconhecem. É a “Era do Vazio” de que falava Lipovetsky.

  7. Os textos em que fala da sua realidade parecem ser mais precisos dos que de forma matemática procura explicar o mundo, penso que a proximidade ajuda na compreensão. As pessoas vivem subjugadas à ditadura da racionalidade, a pressão é imensa, achei curioso o facto da Raquel fazer a ressalva “Fica aqui a minha opinião de leiga.”, é absolutamente paradigmático este comportamento. As pessoas desistiram de si próprias, procuram de forma incessante padrões que os glorifiquem. Os bebés grandes, que vejo em todos nós, é tudo o que resta nesta sociedade decadente. A partilha de uma ideia, ou de uma visão é de facto uma forma de sentir o outro, tão mais intensa quanto individual, também por isso não me espanta o “estranho” comportamento que as pessoas parecem ter.

  8. Seja então um pedido de namoro, Raquel, para variar… Não a conheço, creio, nunca a li, suponho, mas esta crónica é certeira. Estarei, desde já, atento.

  9. Gostei mesmo muito! Principalmente ” precisamos de gente inteira” – penso nisto sempre em termos ontológicos, mas depois bato sempre na antropologia, na sociologia e na historia (e faço de conta que a política não existe) 😉 o paradoxo do costume…enfim, continue!

  10. Pingback: A minha cara metade | odesconcertodomundo

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