Trotsky poderia ter sido Stalin?

A sociedade, depois de 2008, não ficou mais conservadora, pelo contrário; mas a memória dela, sim, e isso não diz respeito à história – esta é independente da nossa vontade. Não alteramos o passado. Diz respeito à profunda desmoralização atual com a transformação humana, cuja causa se deve centralmente à desorganização do movimento operário, sindical, do mundo do trabalho, a uma escala porventura raramente conhecida na história da humanidade (exceto talvez nos anos triunfantes do fascismo) – uma medida desta desestruturação é a taxa de sindicalização atual no mundo, inferior a 7%(2).
 
A militância em partidos políticos de trabalhadores é vista como um mal social, embora quem apele à neutralidade da política e à separação entre vida pessoal, laboral e militância seja com frequência quem continua organizado em partidos, frentes, associações e fortes partidos políticos que dominam o poder porque controlam o aparelho de Estado, embora em frações conflituosas e com crises.
 
Nos 100 anos de celebração da revolução russa a figura mais lembrada nos media mundiais foi o líder que mandou assassinar a maioria do comitê central do Partido Bolchevique (3), Josef Stalin (4). Ele era o asfixiante ícone em cada parede e praça da URSS, desde que uma direção burocrática por si dirigida assumiu o controle da URSS a partir de 1927-28. Mas não é também uma forma icônica regressiva assumir que a revolução russa possa ser dominantemente celebrada, 100 anos depois, com uma produção intelectual intensa sobre…Stalin? Por outras palavras, o ícone…continua. Os partidos comunistas sobreviventes e as classes dirigentes ainda não se cansaram, no centenário de 1917, de associar a revolução social mais importante do século XX, com mais impacto social, cultural e político em todo o mundo, ao seu secretário-geral georgiano, bigodudo, de traços rudes, práticas brutais e erudição zero.
 
É significativo que em Portugal estejam ainda por publicar todas as obras recentes realizadas após a abertura dos arquivos soviéticos, todas sem exceção: China Miéville (5), Todd Chretien (6), Paul Le Blanc (7), Neil Falkner (8), Kevin Murphy (9), Wendy Goldman (10), Alexander Rabinowitch (11), Marcel van der Linden (12) (13). Também não estão editadas a História da Revolução Russa (14) de Leon Trotsky a sua autobiografia Minha Vida (15); é desconhecida a obra filosófica e histórica de Lenin; as obras dos historiadores Isaac Deutscher (16) e Pierre Broué (17), premiadas e de referência em algumas das academias dos países centrais. Mas, na celebração do centenário da Revolução Russa o nosso principal semanário, Expresso (18), decidiu publicar a biografia do líder da contrarrevolução, Josef Stalin.
 
Mas estas obras não ficaram sem tradução ou, noutros países, estudo dedicado, só por falta de iniciativa das classes dirigentes. O movimento dos trabalhadores, dito de outra forma, partidos ou instituições representantes de interesses dos trabalhadores, não tiveram nenhuma iniciativa significativa nem na celebração do centenário, nem na edição ou reedição das principais obras da história da revolução russa.
 
Embora, depois da crise de 2008, o dogma neoliberal tenha perdido pujança, com o capitalismo a mostrar-se incapaz de conter as suas crises e o seu efeito sobre os trabalhadores (com uma queda real do salário de 25% no centro produtor do sistema, os EUA, e um aumento massivo do desemprego à escala mundial e dos working poor para repor o valor das ações desvalorizados em 2008), também o movimento de trabalhadores, manuais e intelectuais, atual, herdeiro da revolução russa, se encontra numa crise penetrante, sem precedentes desde a sua formação nos anos 30 do século XIX com o cartismo inglês.
 
As crises econômicas de 2001 e 2008 e a invasão do Afeganistão, a seguir ao atentado de 11 de Setembro de 2001, e do Iraque em 2003, fizeram cair por terra a ideia de uma paz eterna capitalista sob regimes liberais-democráticos. Desemprego em massa, competição à escala mundial e maior concentração de riqueza de sempre na mão de escassas 200 famílias que controlam mais de metade dos recursos produzidos em todo o planeta por mais de três bilhões de pessoas, que trabalham ativamente, trouxeram o fim do fim da história. O fim da história nunca tinha existido.
 
A tese do totalitarismo ou a outra face da resignação social
 
A tese do totalitarismo, que apela à resignação social, insiste que todas as tentativas emancipatórias do Século XX redundariam em sociedades totalitárias, a começar pela própria revolução social e política de Outubro de 1917.
 
O corolário desta tese do é óbvio – a “barbárie é inevitável”. A “fossa séptica” a que Milan Kundera se referiu em A Insustentável Leveza do Ser (19), depois de esmagada a “Primavera de Praga” em 1968, seria o corolário inevitável da condição humana? Um abraço ao cinismo, eternamente regressado, dos intelectuais, que colocaram as esperanças do século XX num projeto social que uma, e outra vez, sustentava que entre o povo e seus dirigentes havia uma relação de causa efeito. Em suma, cada povo teria os governantes que escolhia.
 
Ora isto, do ponto de vista histórico tem o mesmo valor – nulo – que a assunção de que o “socialismo é inevitável” (20). Ambos precisam de abdicar da história e viver num eterno presente. Ambos recusam-se a olhar o passado.
 
Ambos não se veem como projetos a disputar, no terreno social, a consciência da população, mas como premissas garantidas num mundo natural, sem homens, sem história. Ambos conduzem à inação.
 
A tese do totalitarismo esbarra de frente com os fatos. E com a cronologia. Mas a cronologia é firme, o tempo tem uma força objetiva. Daí que as teses filosóficas pós modernas – que alguns historiadores abraçaram (21)-, substituem fatos e interpretações por narrativas intemporais e relativistas. Temem enfrentar-se com o fardo do tempo histórico.
 
O partido de Lenin e Trotsky foi fuzilado
 
Uma anedota inspirada contava que na URSS “o futuro era certo mas o passado imprevisível”. Aplica-se também agora ao Ocidente, e sua memória? Hoje as evidências históricas são incontornáveis. Demonstram, ao contrário da tese mediatizada, que há um corte radical entre a política bolchevique (1917-1927) e a ascensão do stalinismo.
 
As celebrações deste centenário foram por isso uma narrativa a-histórica. Pugnaram pela ideia central da visão anticomunista do “totalitarismo inevitável”. Para o fazer desprezaram a produção científica sobre o tema.
 
Todas as investigações realizadas nas últimas duas décadas, que atrás citamos, a partir de arquivos russos – sublinhamos, todas – comprovam um corte, no regime soviético em 1927/28. É nesse ano que se dá a coletivização forçada; a introdução massiva do trabalho forçado a uma escala de centenas de milhar até depois da guerra; o início da militarização da sociedade; é nesse ano que nas fábricas a comissão de trabalhadores deixa de ser o órgão mais importante para esse papel passar a ser desempenhado pelo chefe da polícia política; é nesse ano que as mulheres, que deram com a revolução russa o maior salto de sempre de emancipação, passam a ser de novo escravas do lar e da fábrica, com medidas como a reintrodução da proibição do aborto e o encerramento de creches para controlar a escassez de força de trabalho existente e previsível. Lenin é o homem que deixa explícito no seu «testamento» (22) que Stalin não deverá suceder-lhe por ser bruto, desleal, e não saber o que fazer com demasiado “poder concentrado” em si (23). O partido de Lenin e Trotsky foi fuzilado – na brutal expressão de Victor Serge (24).
 
A URSS tinha, no final dos anos 1920, uma produção efetiva inferior à de 1914. Estava arrasada, pela I Guerra, a guerra civil e o isolamento. Não havia nem domínio científico, nem quadros formados, nem tecnologia, nem máquinas, para produzir muito para todos. A solução seria pois uma revolução na Alemanha e nos países onde havia desenvolvimento para produzir em abundância; ou uma ditadura de uma minoria – a burocracia do Partido. A burocracia passou a controlar os recursos, vivendo com privilégios (magistralmente caricaturados por George Orwell em O Triunfo dos Porcos (NR)), embora a maioria do povo continuasse a viver com escassez de bens essenciais (25). Muito longe da miséria da servidão czarista, mas cada vez mais distante do socialismo. Porque, para que uma casta se apropriasse dos recursos limitados, impôs uma férrea ditadura.
 
A Europa Ocidental desenvolvida tem uma dívida, ainda por restituir, para com a Rússia atrasada de 1917 – eles ousaram fazer aí a primeira revolução num país. E, imediatamente, os ecos desta chegaram à burguesia europeia que, por temor da repetição de novos Outubros e sob pressão da vaga de entusiasmo que a revolução dos sovietes suscitou em toda a Europa e no mundo, aceitou elevar as condições de dignidade mínimas do mundo dos trabalhadores.
 
É depois da revolução russa que pela primeira vez o horário de trabalho (junto com a intensificação laboral na Europa) diminui no século XX de forma constante e significativa (26). Sem a revolução russa não se compreende a rápida extensão do sufrágio universal em grande parte dos países europeus. Os primeiros programas sociais na Europa devem-se a Outubro. Os europeus maravilharam-se com as vanguardas artísticas representadas por um Maiakovsky ou um Eisenstein – a revolução tinha dado o melhor à humanidade naqueles dias. Foi também a Rússia que pagou o preço mais elevado do Estado Social Europeu – 20 a 30 milhões de mortos na II Guerra Mundial.
 
A social-democracia alemã – historicamente tão crítica do stalinismo – recusou-se a assumir a sua participação na criação deste monstro, o da burocracia soviética. Rejeitou apoiar em 1919, 1923 e na década de 30 a revolução russa, deixando-a isolada, atrasada, sem meios para fazer face à dramática escassez, portanto inviabilizando a construção de uma sociedade socialista. Que não poderia ser feita sem a abundância, baseada na qualificação da força de trabalho, avanços científicos e técnicos significativos. Mesmo que o preço a pagar pelo temor da revolução na Alemanha tenha sido o quase extermínio do SPD, nos anos 30, com a ascensão do nazismo.
 
Se é verdade que nas guerras destes 100 anos as burguesias nacionais chocaram umas com as outras, fruto da sua voragem insaciável sobre os recursos, efetivamente, a história do século XX é também a história das revoluções, e da luta das burguesias ou classes dirigentes para as impedir e combater, bem como da tentativa -, no último quartel do século XX -, para destruir o sentido de classe dos trabalhadores, profaná-lo, atomizá-lo. Desagregando o mundo do trabalho, seja nos contratos diferentes para trabalho idêntico; seja na concentração de escritórios no centro e expulsão dos que trabalham para a periferia; ou ainda na separação brutal entre trabalho manual e intelectual, colocando a grande massa dos-que-vivem-do-trabalho como consumidores e não produtores de cultura, por exemplo.
 
«Na tentativa de dar suporte a essas concepções políticas, os revisionistas defendem a tese segundo a qual uma tendência comum ligaria o terror jacobino aos gulags soviéticos, passando pelos campos de concentração nazis (…) Dessa forma, fruto de uma época caracterizada pela máxima neoliberal There is no alternative! (Margaret Thatcher), os revisionistas pautam-se explícita ou implicitamente pela noção de “fim da História”, conforme exposta mais claramente por Fukuyama. Portanto, o revisionismo não pode ser encarado como uma mera “moda acadêmica”, sendo antes fruto de um contexto sócio histórico determinado. Conforme aponta Jim Wolfreys, não é coincidência que alguns dos intelectuais que mais produziram contribuições teóricas para a empreitada revisionista (os novos filósofos) sejam caracterizados pela decepção da geração de Maio de 68 com o potencial transformador da política». (27)
 
É o pessimismo histórico, que nasce da derrota política. E os desamores políticos que o ressentimento e o medo geram depois das derrotas. Mas a paixão e a desilusão podem ser más conselheiras neste labor que é pensar o passado.
 
A visão da revolução russa «totalitária» confunde governos, regimes e Estados – é um erro crasso. Ela é subsidiária da obra da filósofa Ana Arendt e de muitas interpretações simplificadas da sua obra (28). Que assumem (corretamente) que entre Stalin e Hitler há uma grande semelhança nos regimes (ditadura). Mas ocultam que entre Hitler e as democracias liberais há uma identidade do Estado (capitalista) (29).
 
Embora já sem os cold warriors (30) – os guerreiros da guerra fria, como ficaram conhecidos os historiadores e cientistas da “tese da continuidade” – esta visão continua a ter impacto dominante nos media.
 
Trotsky não foi Stalin porque o recusou
 
Ora, o que podemos concluir hoje? Que as sementes da ditadura stalinista estavam tão presentes como as sementes da emancipação no bolchevismo. Que sementes, a rigor, na história, existem em todo o lado e de todo o tipo – germinam onde há solos férteis, e só aí passam de pequenos grãos a um dominante modelo social.
 
Trotsky não foi Stalin porque o recusou (31). Recusou dirigir o “seu” exército vermelho contra a burocracia emergente, porque não esteve disponível para dirigir um processo que estava fracassado internamente. Porque sem leite não há socialismo. E na URSS não havia leite (32). O socialismo é a abundância, a URSS era a escassez. A chegada ao poder de Stalin não é resultado da revolução, mas da sua derrota.
 
Trotsky preferiu, mesmo exilado num “planeta sem passaporte” – a expressão é de André Breton (33), porque todas as democracias-liberais europeias recusaram o direito de exílio a Trotsky, expulso da URSS – assumir a direção da Oposição de Esquerda e durante vinte anos ser perseguido, até ser assassinado no México, em 1940, data em que a maioria dos dirigentes bolcheviques e altos quadros do Exército Vermelho tinham sido também mortos ou presos. Aliás, foi assassinado depois de todos os outros, não por acaso, mas porque até aí ele era o bode expiatório dos processos de Moscou cuja acusação primordial era, imagine-se, o crime de trotskismo. Dedicou a sua vida a tentar fora da Rússia a revolução mundial. Falhou.
 
A forma absurda, quase risível, com que muitos dirigentes do Partido Bolchevique caminharam para as execuções em confissões falsas de crimes que jamais cometeram, tudo para «salvar o partido» (34), foi descrita de forma magistral pelo escritor Leonardo Madura em O Homem que Gostava de Cães (35), e pelo clássico romance sobre os processos de Moscovo O Zero e o Infinito, de Artur Koesler (36).
 
Para Victor Serge as hipóteses de vencer a ditadura burocrática depois dos anos 30 eram pequenas, mas sem a luta da Oposição de Esquerda «a derrota da revolução teria sido cem vezes mais desastrosa» (37). Teria? Não sabemos. Sabemos que foi preciso derrotar – e aniquilar fisicamente a Oposição de Esquerda – para erguer a ditadura soviética depois de 1928.
 
Nos países mais atrasados, onde a modernização capitalista é mais tardia, e já há um peso de um forte movimento operário, a tendência é para esta modernização ser realizada com o recurso a ditaduras – Rússia, Itália, Alemanha, também Portugal, e Espanha. A Inglaterra, na sua glorious revolution de 1688, e a França de 1789 abriram caminho à modernização dos seus países, através das clássicas revoluções burguesas quando o operariado não era uma ameaça numérica (38).
 
«No período entre guerras, esses Estados, sujeitos de modernizações atrasadas, tenderam a assumir formas ditatoriais em função do temor da ameaça (real ou potencial) do proletariado que rapidamente se desenvolvia na cena histórica. (…) Nesses casos de acirramento da luta de classes e «crise de hegemonia», costuma ser a burguesia impelida a romper com a democracia liberal, estabelecendo formas abertas de ditadura por intermédio das quais garanta a manutenção da dominação social.» (39)
 
A partir de 1848 e da Comuna de Paris de 1871 os operários passarem a não poder ser usados como tropa de choque das revoluções democráticas e burguesas porque ao colocarem-se em marcha colocavam em marcha a sua própria revolução social. (40)
 
É a tese da “revolução permanente” (41), ou seja, da transformação da revolução democrática em social, burguesa em proletária, política em socialista. Ela tem as suas origens primeiras em Marx e nas revoluções de 1848 (42). Sintetizou-a assim o historiador Franz Mehring (43): Marx, a partir de 1848, fez notar que a burguesia aprendeu que nunca mais se apoiaria no proletariado para resolver as suas contendas com a aristocracia. Tinha mais temor do operariado, (agora que a revolução industrial era imparável), do que à aristocracia. De tal forma que preferiram em muitos países deixar a revolução democrático-burguesa “inacabada”, por assim, dizer, mantendo por exemplo formas de regimes monárquicos em grande parte dos países da Europa, que ainda hoje existem, acompanhados de formas de renda parasitária na grande propriedade. Tudo para evitar revoluções sociais.
 
1917 veio confirmar que o medo não era um delírio. A época das revoluções estava aberta. E a das mais mortíferas guerras de sempre para travar as revoluções.
 
Os que não se “suicidaram”, como classe, em Wall Street em 1929, fizeram-no 16 anos depois, entre 1939-1945, do outro lado do Atlântico, em Berlim. Os países mais poderosos do mundo não conseguiram evitar a guerra. A rigor, não houve vencedores da II Guerra, porque depois de 80 milhões de mortos não há vencedores – há a barbárie.
 
O fim da guerra foi porém a construção de uma excentricidade histórica no capitalismo: o pleno emprego e o Estado Social, erguidos em troca de os trabalhadores – transformados em soldados – terem entregue as armas em 1945. A estrutura de direitos sociais na Europa nasce antes da criação de qualquer mecanismo de unificação europeu ocidental, como a CECA e a CEE. Nasce do fato de a propriedade estar destruída, da resistência ter por composição social trabalhadores armados e das greves do pós guerra.
 
A luta contra o Estado hoje
 
A destruição do rival dos EUA, da França e da Grã-Bretanha ergueu porém uma nova relação internacional de Estados – a supremacia norte-americana e o início da guerra fria. O Plano Marshall rapidamente evolui para um plano de mútua ajuda, a resistência francesa ao rearmamento alemão foi ultrapassada pela integração da Alemanha Federal na OTAN e a ideia dos Estados Unidos da Europa, na Declaração de Schumann, foi abandonada pela construção de uma Europa com crescente integração econômica. Hoje sem compreendermos esta subordinação da Europa aos EUA não entendemos a evolução da União Europeia, e também das suas contradições internas.
 
As últimas cinco décadas da história da Europa foram marcadas também pelo inusitado crescimento do papel do Estado na economia. E não pela ausência de intervenção do Estado na economia, como tantos argumentam. Houve mutações – profundas – na intervenção estatal. Seja através dos mecanismos de Concertação Social, seja através das políticas sociais focalizadas, da Assistência Social, que cobrem o crescente desemprego e ou baixos salários, seja através das alterações do quadro legal que regulamentam a precarização laboral (a flexibilidade laboral é marcada por formas de regulamentação estatal que a promovem e não por ausência de regulamentação do Estado), da dívida pública, da coleta de impostos, dos subsídios às empresas privadas, e da extensão do papel neste na formação e manutenção da força de trabalho, hoje há muito mais e não menos Estado do que antes da II Guerra Mundial.
 
A crise dos regimes políticos europeus atuais, expressa, entre outros fatores, no quase constante aumento da abstenção eleitoral, na crise do bipartidarismo, crise que se agravou em múltiplos aspectos depois de 2008, não é uma crise de Estado. Pelo contrário, este fortaleceu-se no curto prazo ganhando uma influência sobre o tecido econômico enorme, com a salvação das instituições bancárias e financeiras. Mas não pode, a crise, ser compreendida fora do âmbito do crescimento do aumento de impostos concomitante à perda de serviços e da sua qualidade – o fim do “modelo social europeu”. A médio prazo este «fim do modelo social» vai transformar-se numa crise de próprio Estado.
 
Uma e outra vez os intelectuais são por isso chamados a ir ao pretérito da sua função, como defende o filósofo Terry Eagleton, sobre os intelectuais, a crítica e a esfera pública: «A crítica moderna nasceu de uma luta contra o Estado absolutista; a menos que no seu futuro se defina agora como uma luta contra o Estado burguês, é possível que não lhe esteja reservado futuro algum». (44)
 
É difícil afirmar, e com isto terminamos, que a União Europeia, com a crescente desigualdade, não criou também uma identidade forte, “de baixo para cima” nestas décadas de paz. O que os europeus farão com isso no futuro permanece uma incógnita. A Europa será socialista ou não será, premissa da III Internacional, não se verificou – a Europa foi e é capitalista, e está, embora de uma forma híbrida e nova, unida, em parte. Mas a Europa será, sem socialismo, no futuro? Isto é, resistirá à competição dos seus Estados e das empresas destes Estados num próximo choque cíclico, numa próxima crise? É altamente improvável.
 
Assistimos ao que a intelectual norte-americana Elen Wood chamou o “recuo dos intelectuais” (45). Que abdicaram de pensar livremente e ser um contrapoder ao Estado, ao poder dominante. Renunciaram à crítica, com contundência, do modelo econômico e social em que vivemos, deixaram de perguntar quem produz, o quê, para quem e como: «Vivemos tempos curiosos. Justamente quando os intelectuais de esquerda no Ocidente têm a rara oportunidade de fazer algo útil, se não realmente histórico, eles – ou grande porção deles – estão em pleno recuo. Justamente quando reformadores na União Soviética e no Leste Europeu procuram no capitalismo ocidental paradigmas de sucessos econômicos e políticos, muitos de nós parecemos abdicar do papel tradicional da esquerda ocidental como crítica do capitalismo. Justamente quando mais do que nunca precisamos de um Karl Marx que revele o funcionamento interno do sistema capitalista, ou de um Friedrich Engels que exponha a feia realidade “no chão”, o que temos é um exército de “pós-marxistas” cuja principal função é, aparentemente, afastar conceitualmente o problema do capitalismo.» (46)
 
O desafio hoje é assumirmos que temos responsabilidades históricas sobre os destinos da Europa, enquanto ideia central de fraternidade entre povos. Isso implica uma luta – indissociável – na defesa da liberdade e da igualdade. Na URSS não havia liberdade e isso causou estagnação econômica. Mas a insegurança no emprego, que hoje domina os Estados europeus, ainda que em regimes democráticos, não trará nada à Europa que não seja também a estagnação econômica, a queda na produção e, no limite, ainda que cíclica, a escassez da força de trabalho. Temos responsabilidade de exigir a liberdade efetiva, em que os direitos sociais tenham a dignidade dos direitos políticos; em que o direito ao emprego, como garante da sobrevivência, e o direito à dignidade de viver do trabalho e não da assistência social, sejam acarinhados com a determinação com que é hoje protegido o direito ao voto. Igualdade real para todos que permita dar segurança material para que as diferenças sejam respeitadas e floresçam a diversidade, a arte, a criação, as relações humanas densas. Acredito que encontramos no passado algumas respostas para estes desafios. A história não se repete. Mas ensina-nos. Muito. Do seu desconhecimento nada de bom pode brotar.
 
* Este artigo corresponde a parte da conclusão do livro publicado pela autora este ano, Breve História da Europa, Lisboa, Bertrand.
 
NOTAS
 
1 – Francis Fukuyama, O Fim da História e o Último Homem, Lisboa, Gradiva, 1999.
2 – Industrial Relations Data (IRData) – International Labour Organization
3 – Victor Serge, «Posfácio Inédito», Ano Um da Revolução Russa, Lisboa, Edições Delfos, 1975, pp. 599-625.
4 – Sobre Estaline duas biografias fundamentais: Isaac Deutscher, Stalin: A Political Biography, London, Oxford University Press, 1967; Jean-Jacques Marie, Estaline, Lisboa, Verbo, 2004.
5 – China Miéville, Outubro. História da Revolução Russa, São Paulo, Boitempo, 2017;
6 – Todd Chretien (Editor), Eyewitnesses to the Russian Revolution Paperback, Chicago, Haymarket Books, 2017.
7 – Paul Le Blanc, October Song, Chicago, Haymarket Books, 2017.
8 – Neil Falkner, A People’s History of the Russian Revolution, New York, Pluto, 2017.
9 – Kevin Murphy, Revolution and Counterrevolution, New York/Oxford, Berghahn Books, 2007
10 – Wendy Goldman, Mulher, Estado e Revolução, São Paulo, Boitempo, 2014
11 – Alexander Rabinowitch, The Bolsheviks come to Power, New York, Pluto Press, 2017
12 – Marcel van der Linden, Western Marxism and the Soviet Union, Leiden, Brill, 2007
13 – E ainda centenas de trabalhos de investigação do grupo de estudos da revolução russa da Universidade de Glasgow bem como as centenas de artigos publicados por diversos autores na revista Critique Journal of Socialist Studies.
14 – Leon Trotsky, História da Revolução Russa, Tomo I Parte I e Tomo II, Parte II e III, São Paulo, Sundermann, 2007.
15 – Leon Trotsky, A Minha Vida, São Paulo, Usina Editorial, 2017.
16 – Isaac Deutscher The Prophet Armed: Trotsky 1879-1921; The Prophet Unarmed: Leon Trotsky, 1921-29; The Prophet Outcast: Leon Trotsky, 1929-40 (Verso books, 2005)
17 – Pierre Broué, História da Internacional Comunista, 1919-1943. Ascensão e Queda, São Paulo, Sundermann, 2007; Pierre Broué, O Partido Bolchevique, São Paulo, Sundermann, 2014.
18 – Simon Sebag, Montefiore, Estaline — a Corte do Czar Vermelho, Jornal Expresso, 2017.
19 – Milan Kundera, A Insustentável Leveza do Ser, Lisboa, Círculo de Leitores, 1986, p. 218
20 – Valério Arcary, O Encontro da Revolução com a História, São Paulo, Sundermann, 2006.
21 – Para uma crítica à pós-modernidade ver Terry Eagleton, As ilusões do Pós-Modernismo, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editores, 1998; Perry Anderson, As Origens da Pós-Modernidade, Lisboa, Edições 70, 2005.
22 – Lenin’s Final Fight, Speeches & Writings 1922-1923, New York, Pathfinder, 2015.
23 – François-George Dreyfus, História Geral da Europa, Lisboa, Europa-América, 1996, p. 380.
24 – Victor Serge, Ano Um da Revolução Russa, Lisboa, Edições Delfoes, 1975, p. 600.
25 – Jiri Pelikán, «The Struggle for Socialism in Czechoslovakia», In New Left Review, I/71, January-February, 1972; Hillel H. Ticktin, «Towards a Political Economy of the USSR», In, Critique, No.1, Spring 1973.
26 – Pietro Basso, Modern Times, Ancient Hours, Working Lives in the Twenty-first Century, London/New York, Verso, 2003
27 – Márcio Lauria Monteiro, «Revolução Russa e revisionismo historiográfico: o retorno neoliberal da “tese da continuidade”», Revista História e Luta de Classes, nº 19, Março de 2015, p 25.
28 – Hannah Arendt, As Origens do Totalitarismo, Lisboa, Dom Quixote, 2006.
29 – Felipe Demier, O Que é Uma Revolução? (com Varela e Arcary), Lisboa, Colibri, 2016, Felipe Demier, O Longo Bonapartismo Brasileiro 1930-1964, Rio de Janeiro, Maud, 2013.
30 – Márcio Lauria Monteiro, «Revolução Russa e revisionismo historiográfico: o retorno neoliberal da “tese da continuidade”», Revista História e Luta de Classes, nº 19, Março de 2015, p 29.
31 – Ver a triologia de Isaac Deutscher The Prophet Armed: Trotsky 1879-1921; The Prophet Unarmed: Leon Trotsky, 1921-29; The Prophet Outcast: Leon Trotsky, 1929-40 (Verso books, 2005)
32 – Escritos de Leon Trotsky, tomo V (1933-1934), vol. 1. Ed. Pluma, Bogotá, 1976, p. 343. Trotsky crítica a afirmação de Radek de que «se os filhos dos operários não têm leite suficiente há que atribuí-lo à escassez de vacas e não à ausência de socialismo. Apesar da sua cativante simplicidade, esta teoria é radicalmente falsa». («En vísperas del décimoséptimo congresso» e foi originariamente publicado em The Militant, na edição de 10.02.1934).
33 – André Breton, Position politique du surréalisme. Paris, Librairie Général Française,1997; Manifestos do Surrealismo. Trad. Luiz Forbes. 1. ed. São Paulo: Brasiliense, 1985; André Breton e Leon Trotsky, Por uma arte revolucionária independente. Trad.Carmem Silva Guedes e Rosa Boaventura. 1. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985. Fundador do Movimento Surrealista, e militante contra o realismo socialista e a condenação dos artistas.
34 – Ver a triologia de Isaac Deutscher The Prophet Armed: Trotsky 1879-1921; The Prophet Unarmed: Leon Trotsky, 1921-29; The Prophet Outcast: Leon Trotsky, 1929-40 (Verso books, 2005)
35 – Leonardo Padura, O Homem que Gostava de Cães, Lisboa, Porto Editora, 2017.
36 – Arthur Koestler, O Zero e o Infinito, Lisboa, Europa-América, 1979.
37 – Victor Serge and Natalia Sedova, The Life and Death of Leon Trotsky, Chicago, Haymarket Books, 2015, p. 4.
38 – Eric Hobsbawm, A Era das Revoluções, Lisboa, Editorial Presença, 2001.
39 – Felipe Demier, O Que é Uma Revolução? (com Varela e Arcary), Lisboa, Colibri, 2016, Felipe Demier, O Longo Bonapartismo Brasileiro 1930-1964, Rio de Janeiro, Maud, 2013.
40 – Felipe Demier, O Longo Bonapartismo Brasileiro 1930-1964, Rio de Janeiro, Maud, 2013.
41 – Carlos Eduardo Rebello de Mendonça, Trotsky e A Revolução Permanente – História de Um Conceito Chave, Rio de Janeiro, Garamond, 2014.
42 – Michel Lowy, A Política do Desenvolvimento Desigual e Combinado, São Paulo, Sundermann, 2010.
43 – Franz Mehring, Karl Marx, Vida e Obra, Lisboa, Editorial Presença, Volume I e II (1974 e 1976).
44 – Terry Eagleton, A Função da Crítica, São Paulo, Martins Fontes, 1991, p. 116.
45 – Ellen Wood e John Bellamy Foster (eds), Em Defesa da História. Marxismo e Pós-modernismo, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editores, 1997.
46 – Ellen Meiksins Wood, «The Retreat of the Intellectuals», Socialist Register, 1990. Republicada em Jacobin (https://www.jacobinmag.com/2016/01/ellen-meiksins-wood-gramsci-socialism-capitalism-intellectuals-postmodernism-identity/ acesso em 2 de Fevereiro de 2018. (Tradução Lavra Palavra 2016).
 
 
NR – O livro de George Orwell foi publicado no Brasil com o título “A Revolução dos Bichos”.

Escolher o Louco

Foi um dos diálogos mais impressionantes da minha vida. Estava em França, numa acolhedora casa de pequenos produtores da região de Champanhe. O cenário que todos imaginam – neve, gelo deslizante nas ruas, e uma lareira que colocava à temperatura ambiente os vinhos que o anfitrião tirava da cave. Ele tinha sido um alto quadro intelectual do PCF, tinha rompido e aderido ao euro-comunismo, mas, pela ascendência judia e percursos próprios olhava com um raro e sincero arrependimento para o que tinham sido os erros da URSS. A esposa menos, e de feitio mais intensa. Vivia ainda uma visão mítica de que o mundo da paz armada da guerra fria lhe era tranquilo, para ela que vivia no ocidente, onde havia escombros da paz das dramáticas guerras e pobreza que provocou nas periferias, e portanto tinha uma antipatia, indisfarçável, por toda a oposição de esquerda ao Estalinismo e à burocracia soviética. Havia mais gente na mesa e com cuidado fomos evitando os assuntos que iam trazer discussões homéricas, em que no fim ninguém ia convencer ninguém e o vinho ia perder o sabor. Era um jantar de “pinças”.

Há um momento em que eu, aproveitando que ela se retira da mesa para ir buscar o jantar, rompo o pacto oficioso e conto como o romance O Homem que Gostava de Cães, de Leonardo Padura, me tinha impressionado como nenhum outro nos últimos anos, pelo romance em si, a escrita maravilhosa, sem pedregulhos no caminho, sem palavras desperdiçadas, de um real intenso. É, de certeza, um dos melhores livros que li na vida. Recomendo-o a todos os meus alunos como uma introdução à história do século XX. Ofereço-o a amigos. Leonardo Padura, seu autor, à RTP 2, reconheceu que fez uma cronologia durante 3 anos de 800 páginas antes de começar a construir o enredo, e é de uma precisão histórica superior a manuais que conheço bem, e essencial para quem quer compreender os tempos actuais, de uma Europa, de novo, a ter que escolher caminhos, decisões históricas inadiáveis. A descrição do século XX, da guerra civil espanhola, da URSS, dos processos de Moscovo (estes ainda mais bem escritos aqui do que no grande romance de Arthur Koestler, O Zero e o Infinito) é perfeita, cuidada, densa mas escrita pela pena de um grande escritor.

Disse então que estava impressionada com a correção histórica num romance que não se consegue parar de ler apesar de começar sabendo-se exatamente como termina (como em Crónica de uma Morte Anunciada de G. Marquéz). Porém, no que eu não podia acreditar no romance, expliquei, avessa que sou ao acaso e ao psicológico para a explicação histórica, era na descrição surreal da mãe de Ramon Mercader, o assassino de Trotsky, porque a descrição não tinha “ponta por onde se lhe pegasse”. Trata-se de um drama psicológico intenso de uma mãe colocada em bordeis para que o marido se excitasse, que foge em consequência para França com os 4 filhos, depois se torna anarquista e mais tarde um quadro da URSS e amante do responsável dos serviços secretos soviéticos em Espanha. Asfixiante com os filhos, que carregam o seu pesado passado. Se todo o homem deseja a mãe, segundo Freud, Mercader parece nunca ter desejado outra mulher…É um gigante psicológico, sociopata – a cena em que o obrigam para o testar a matar um pobre desconhecido, mendigo, creio, a sangue frio é fortíssima – e ao mesmo tempo um pequeno rapaz, que não cortou emocionalmente com a mãe e comporta-se com ela como se fosse um menino frágil que a teme. A mãe está presente mesmo quando não está. “Tudo me parece inacreditável nesta história de Caridad Mercader”, disse à mesa. E eis quando a minha anfitriã – que está a sair da cozinha com algo na mão -, e que não tinha lido o livro nem sabia do que se tratava, ouve o nome e exclama de olhos abertos: “Caridad Mercader? Caridad? Conheci-a tão bem…” E começa a contar como, enquanto o marido estava nos arquivos, onde Ramón ficou a trabalhar, ela conheceu a mãe, Caridad, que adoeceu e ela passou vários dias como sua confidente no hospital. Começa a contar a vida “incrível” de Caridad Mercader exatamente como Padura a descreve mas com pormenores ainda mais sórdidos e violentos, que incluíam uma relação opressora com o filho, que o esmagou psicologicamente ao mesmo tempo que lhe trouxe um grau de cinismo e autocontrole que se revelaram essenciais para ter perpetrado o assassinato. Eu estava, e não é figura de estilo, boquiaberta, enquanto ouvia aquele relato.

Leiam, se puderem. É um olhar sobre os grandes projetos, os imensos acertos e as dramáticas tragédias do século XX, que em primeiro lugar são fruto da base material e económica do desenvolvimento do capitalismo em seu ocaso, e que teriam acontecido independentemente dos loucos que à frente dele estiveram (podia ter sido parado por uma revolução na Alemanha mas não por um homem são à frente dos destinos da URSS); mas é também um romance sobre como o acaso, o contingente, o detalhe, a vida individual de cada um, dos “traumatizados” deste mundo, são essenciais na hora de escolher o louco que vai “executar o processo histórico”.

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