O COVID encontrou-se com uma sociedade doente

Ao contrário do que foi afirmado este não é um vírus democrático. É desigual consoante a origem e classe social, região e país. Os estudos realizados em Londres e Nova Iorque estimam que entre 80 a 90% dos doentes de Covid que necessitam de hospitalização são obesos. Este – cada vez é mais claro – é um vírus que para a larga maioria das pessoas não tem qualquer sintoma (e para os que têm só cerca de 15% necessita de cuidados médicos). Ora nas sociedades como as nossas a taxa de obesidade duplica nas classe pobres, e cai para metade nas classes ricas. Quem trabalha por turnos nocturnos em média ao final de 5 anos terá diabetes ou colesterol alto, bem como hipertensão.
O problema deste vírus não é a sua letalidade ou mortalidade, mas a sociedade que encontrou pela frente e que combina altas taxas de obesidade, diabetes e hipertensão, uma força de trabalho adoecida pela má alimentação, turnos nocturnos, longas jornadas de trabalho, e ausência de ócio/lazer ao ar livre; junte-se a isto a descapitalização dos serviços de saúde públicos. Imaginemos o que seria com um vírus mais letal – insisto nestes dados, a sociedade que encontrou o vírus é uma sociedade doente e a questão não está só – nem principalmente – na nossa relação com a natureza ou os animais, mas nas relações de trabalho, que geram uma desigualdade estrutural, que fragiliza o sistema imunitário de largas camadas da população, mesmo jovens.

O maior número de infectados é nas zonas de trabalhadores e nas zonas urbanas de baixo rendimento (confinamento é um conceito “burguês”, citando um colega francês sociólogo, porque mais de metade da força de trabalho esteve sempre a trabalhar) e são as mulheres que mais foram contagiadas (trabalho em lares e na área da saúde).

Para quem queira ouvir os restantes dados a minha intervenção tem cerca de 12 minutos, onde falo ainda sobre as taxas de suicídio e sua relação com a crise, a depressão, os baixos salários, e taxas de contágio do COVID entre trabalhadores.

Esta minha intervenção para a Semana Europeia da Saúde Pública é resultado do nosso trabalho conjunto no Observatório para as Condições de Vida e Trabalho, e que neste caso envolveu o médico José António Antunes, a médica Ana Aleixo, o psicólogo Duarte Rolo, o cientista social Roberto Della Santa, a historiadora Virgínia Baptista, a psiquiatra Silvia Jardim, o matemático Henrique Silveira, entre outros contributos. No nosso site podem ter acesso a vários artigos nossos.
https://observatoriocondicoesvidaetrabalho.wordpress.com

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Pela Nossa Saúde Pública

Hoje está no DN que a Arábia Saudita contrata médicos por 12 mil euros e nós pensamos assim, “não há como concorrer”, lá vão eles. Nós não precisamos de pagar 12 mil euros a um médico porque salário também é vida, a ponderação de imigrar não é só a folha de pagamento, é a família, são anos de relações sociais, afectos, amores que se perdem; viver numa ditadura, onde se apedrejam escritores e mulheres apaixonadas, reduz logo os 12 mil para um valor real de 7 mil. 5 mil euros de salário são perdidos só na tristeza de viver num dos regimes políticos mais detestáveis do mundo. O que nós não podemos é pagar 1300 euros como ganham muitos dos nossos médicos. É indecente. As contas devem ser feitas, um especialista não pode ganhar 3000 euros liquidos, tem que ganhar mais. Sob pena de ele concluir que até na Arábia Saudita se está melhor. Mas não é preciso aterrorizar as contas públicas. Há dinheiro em Portugal para pagar bem aos nossos médicos, o histerismo não ajuda a fazer contas. O terror das nossas contas públicas é a dívida, que não é para ser paga nem por médicos nem por nós, porque não é pública.

Uma carta do SNS

Alguns hospitais públicos estão a entregar aos utentes uma carta com os valores reais dos custos de saúde explicando que não é para pagarem mas para se moralizarem para o que é considerado o custo real da prestação daquele serviço. Sou muito favorável a que se entregue esta carta, sem ironias. Se há algo básico a que todos devemos ter acesso – e não temos – é à totalidade do que entra e do que sai do Orçamento Público e exactamente para onde vai. Chama-se democracia: abertura das contas públicas a toda a população, de forma transparente. Nós que estudamos o assunto com o máximo detalhe – até a conta de telefone e Internet nos gastos públicos em cada sector do Estado Social sabemos –  não conseguimos calcular por exemplo quanto gasta hoje um hospital em alta tecnologia e quanto gasta em força de trabalho. Para isso precisávamos de ter acesso a todas as contas do Hospital – e não temos. Nem sabemos se essa alta tecnologia é sempre da mesma empresa, se é necessária na relação custo benefício, se está parada por falta de profissionais que a operem e se havia uma máquina idêntica no mercado por 1/3 do valor. Este é um exemplo, mas poderia dar aqui algumas centenas deles. Outro, sabemos exactamente em quê e quanto se gasta nos hospitais SNS (na totalidade e não por hospital) mas não sabemos quanto se gasta nos hospitais SNS de gestão empresarial porque aí as contas vão para um espaço misterioso chamado “transferências”.  Voltando à carta. Ela deve ser entregue mas peca por curta: em toda a gestão há entradas e saídas. Numa casa não se faz contas a quanto se gasta mas a quanto se ganha e quanto se gasta. Por exemplo, devia estar na carta que o Ministério agora entrega aos utentes – e é possível aos investigadores hoje, se para isso tiverem financiamento, calcular com extradição isso – quanto é que os utentes pagaram para as universidades onde se formaram médicos e enfermeiros, quanto pagaram para construir e manter os edifícios e a tecnologia, quanto pagam em pessoal auxiliar e administrativo, quanto pagam em impostos para o SNS e, claro, quanto desse dinheiro é entregue, sob a forma não de prestação de serviço (público) mas da prestação de um serviço mais a margem de lucro (sector privado) em regime de subcontratação de serviços públicos ao sector privado – sector que numa economia de livre oferta e procura existiria única e exclusivamente por si, sem esperar subsídios públicos. A moral é uma coisa boa mas convém que seja moral – seja justa. Se não é chantagem.