O 25 de Abril, entrevista

Entrevista que dei ao Oeiras Actual um pouco sobre tudo, as crianças hoje, a vida pessoal e familiar, a revolução e o papel da história, o 25 de Abril. A entrevista está em acesso livre.

‘Quando mudamos um país ele muda-nos com ele’, é o mote da exposição sobre o 25 de Abril que conta com a curadoria da historiadora e investigadora Raquel Varela. A palavra ‘exposição’ é redutora. O que se pretende é algo mais amplo e vasto. Vamos lá ser destemidos, afinal, falamos dos propósitos de Abril. A ideia é questionar, mudar, interpelar, cutucar, transformar. (…) E não pode perder. E levar os seus
familiares, amigos, filhos, gente nova e velha, porque não podemos ser ausentes da nossa própria história. Não podemos.

OA: Raquel, 15 livros em dez anos, mais filhos, qual o segredo?

RV: (risos) Até acho que são mais de 15. É possível porque sou apaixonada pelo meu trabalho; porque trabalho muito em equipa, tenho muitos alunos, muitas teses, muitos projetos nacionais e internacionais. E, também, é possível porque eu tenho uma família maravilhosa. Os meus filhos são educados segundo princípios do séc. XIX: muito respeito, autoridade e carinho coletivo. Eu, o pai deles, o meu marido, os meus pais, uma ama que eles tiveram durante muitos anos – a Guida de Vila Fria por quem tenho uma estima imensa- todos juntos são um apoio fundamental.

Não sofre daquilo que muitas mulheres sofrem que é a culpa do tempo que não passam com os filhos?

RV: Eu trabalhei bem isso porque sou muito crítica, quer dos novos feminismos quer do machismo. É algo que tenho refletido muito porque tem a ver com o meu trabalho. O grande problema das crianças de hoje é dia é a falta de sociabilização com outras crianças. Nós, historicamente, nunca estivemos tanto com os nossos pais como agora estão.

A licenciatura em História surgiu por paixão?

RV: Completamente. Estive em Direito até ao terceiro ano e mudei. Primeiro entro para História, mas o meu pai, que queria que eu fosse para Direito, permitiu-me que eu tivesse um ano sabático, a viajar e uma vida boa, para que concorresse no ano seguinte para Direito. E entrei em Direito.

Esse ano sabático não teve grandes resultados.

RV: Não, não teve porque no terceiro ano resolvo ir para História que era aquilo que eu sempre quis. E é aquilo que gosto de fazer.

De onde vem essa paixão?

RV: Cresci num ambiente de gente curiosa. Os meus pais sempre tiveram uma envolvência política e critica. Mesmo as minhas avós que não tinham as qualificações dos meus pais, eram mulheres muito curiosas, sempre a perguntarem porquê. O mundo obscurantista dos dogmas nunca fez parte
da minha família. E eu compreendi que sabendo o passado preparo muito melhor o futuro.

A História é o olhar de alguém sobre um facto. Não pode a História mentir?

RV: Pode. A História pode mentir muito, mas penso que há balizas. Não existe neutralidade mas tem de existir seriedade sobre os factos. Tenho de elencar os factos e depois, a interpretação que tenho de cada um deles. Naturalmente que mais do que nossa é de correntes historiográficas ou seja, as grandes correntes da História que nos influenciam. E a melhor forma é sermos sinceros e dizermos quais são essas correntes e deixa-las claras. Agora, importa salientar que a História não é um achismo, uma opinião sobre. É uma sucessão de factos que têm uma temporalidade. E não é só isso, porque se fosse só isso bastava elencar os factos e já os tínhamos. A História é, necessariamente, interpretação. É uma dança. Feliz e o mais harmónica possível, entre empírico e teórico, facto e análise, conceito e evidência. Essa dança tem sempre de ser a pares. Agora, reafirmo, não existe neutralidade. Mas tem de existir seriedade e rigor.

E quando perante um facto tão óbvio se depara com perceções, desse mesmo facto, tão distintas das suas?

rv. Irrita-me. Irrita-me muito. Não me incomoda ideias distintas das minhas, isso até gosto. Não há ciência sem contraditório, é doloroso mas temos de ser confrontados com opiniões distintas. O que me irrita é quando são interpretações que extrapolam a seriedade.

É desonesto
RV: Completamente.

Foi convidada pela câmara para ser a curadora da exposição sobre o 25 de Abril. Já não foi tudo dito sobre o 25 de Abril?

RV: Não, nem pensar. Esta exposição tem uma característica única em 45 anos de cerebrações, aliás, digo mesmo que estas celebrações são as mais importantes do país são de caracter nacional. Isto não é só uma história de Oeiras. É uma reflexão sobre o 25 de Abril. Este é um 25 de Abril popular. É o 25 de Abril e a revolução social que se
lhe segue muito centrado nas dinâmicas populares. O 25 de abril também é o 25 de Abril institucional. O 25 de Abril também é o 25 de Abril cultural. Há muitas formas de contar a história da revolução. E esta, aqui em Oeiras, é a sua dimensão popular. Que é aquilo que na nossa opinião distingue as revoluções das simples quarteladas ou golpes militares. Nós não tivemos só um golpe militar, nós tivemos um golpe militar com uma revolução. E durante muito tempo demos muito espaço à história politica e institucional e militar e pouco à história dos movimentos sociais. E é muito importante que se reflita sobre esse lado social. Estas pessoas pertenciam a um país analfabeto, atrasado, retrógrado. Elas próprias não eram pessoas com papel, eram submissas, medrosas, cobardes até e o 25 de Abril abriu as portas a que elas se transformassem. Muitos destes cobardes tornaram-se corajosos. Muitas pessoas ausentes da política quiseram participar. As pessoas transformaram-se quando transformaram o país. Este é o mote desta exposição e por isso se chama: quando mudamos um país mudamos com ele. E ainda há muito para se estudar.

45 anos depois?

RV: Sim, sem sombra de dúvida. Até porque agora é que começa a haver conforto por parte de investigadores para olharem com menos medo da reação dos vivos.

Mas estes 45 anos também distanciam gerações desse momento. Os mais novos, por exemplo, olham como se fosse algo que está lá muito longe no tempo.

RV: É verdade mas o 25 de Abril é o feriado mais celebrado em Portugal. Não há nenhum feriado com esta dimensão.
Juntas de freguesia, associações, clubes desportivos, bombeiros… são milhares de coletividades e associações e grupos que festejam este dia. Eu digo, meio a sério e
meio a brincar, que o Grândola deveria ser o nosso hino. Porque é, de facto, o feriado mais enraizado popularmente.

A Raquel não era nascida no 25 de Abril, mas teve desde pequena a noção da importância desse dia?

RV: Tive. E tive porque nasci numa família de esquerda fortemente antifascista. Sempre houve, na minha cabeça, um antes e um depois do 25 de Abril.

O papel de Oeiras no 25 de Abril acentuou-se pela sua proximidade geográfica à Capital ou há outros fatores que
levam a que tenha um papel fundamental?

RV: Oeiras teve um papel que à medida que íamos fazendo a investigação se tornou maior do que pensávamos. Oeiras era uma das principais zonas do país com o problema das barracas. É também o primeiro concelho a acabar com elas, mas isso já nos anos 90. Houve as ocupações e a luta
contra as barracas que é um movimento social, e houve o SAAL que era um programa governamental para se tentar construir casas. Os técnicos da SAAL foram afastadas das maiorias da câmaras quando o programa acaba, em 1976, mas a câmara de Oeiras incorpora-os. Isso é absolutamente fundamental porque tínhamos aqui crianças que no 25 de Abril elas acordavam e não tinham orelhas porque tinham sido comidas pelos ratos durante a noite. Não havia saneamento básico que era a causa principal de mortalidade que era altíssima– nós vamos ter esse dado na exposição. Isto ainda antes da saúde. Tão simples como separar a água de beber da água de esgoto. Havia zonas em Oeiras onde havia uma torneira para 1700 pessoas. Isto em 1974 mesmo ao lado de Lisboa. O que torna Oeiras representativo a nível nacional, é a sua luta contra as barracas e contra os bairros de habitação clandestinos. Do ponto de vista militar também é importante por causa de Caxias e da sua prisão onde estiveram os presos políticos; também é importante por causa do regimento de artilharia de costa; vários militares do MFA e do Movimento de Capitães viviam aqui no concelho de Oeiras, entre eles o comandante operacional Otelo Saraiva de Carvalho. Oeiras tinha a unidade de polícia móvel que era o corpo de intervenção repressivo sobre os trabalhadores. Depois Oeiras tem uma dimensão fabril, sobretudo na Amadora e Carnaxide. Nessa altura Amadora pertencia a Oeiras Exato. E estamos a falar de fábricas multinacionais. Falamos de lutas fabris em fábricas multinacionais. Oeiras tem um grande papel. Um papel inquestionável no 25 de Abril.

O que se pode esperar da exposição, um maior conhecimento sobre o 25 de Abril?

RV: Sim, vamos clarificar o papel que cada interveniente, que já afloramos, teve. As pessoas vão perceber a centralidade de Oeiras na história nacional e na história local. E, por outro lado, vão ter essa dimensão popular. Mas a exposição está desenhada para criar sensações. Entra-se como se entrasse
no túnel da ditadura e sai-se no 25 de Abril e termina-se com uma interrogação: para onde é que queremos ir hoje?

É a primeira vez que é curadora de uma exposição, como foi esta viagem?

RV: Sim, é a primeira vez e gostei muito. E aceitei porque sabia, logo à partida, que tinha a possibilidade de ter uma equipa excecional a trabalhar comigo e à cabeça o designer Pedro Pascoa.

O que foi fundamental para si.

RV: Absolutamente, porque ele é, para mim, o melhor designer português a trabalhar. Não tenho dúvidas disso. E se não fosse esta dimensão esta experiencia tinha sido um desafio muito assustador e não foi. Foi um prazer enorme porque do outro lado tinha alguém que não pensa só formas, há uma relação profunda com os conteúdos. E deixe dizer que esta experiência com a câmara de Oeiras foi, de facto, muito interessante porque esta iniciativa envolveu uma vastíssima equipa. Por um lado houve uma grande autonomia científica, que foi, desde a primeira hora garantida, por outro, houve uma vasta cooperação.

É papel de uma câmara, seja a de Oeiras ou outra, dar a conhecer a nossa história?

RV: É fundamental. Nestas comemorações muitas vezes faz-se um museu ou uma exposição e fica-se por aí; e estas
comemorações juntam a parte cultural, educacional, multimédia, conferências, exposição, ou seja, nós fizemos, em Oeiras, um evento multidisciplinar facetado para que a História seja viva e que interrogue os participantes. Não é uma fotografia fechada. E o propósito final, qual é, porque parece-me que não é, unicamente, dar a conhecer o que se passou, sinto que é algo muito maior. É mostrar às pessoas que temos o poder. É importante que as pessoas percebam que nós somos os atores da nossa própria história. Não existe destino. Não existe fado assegurado. Nós temos na mão o que vamos fazer com este país. Esta noção, que é iluminista, é absolutamente fundamental. Fundamental.

http://www.cm-oeiras.pt/pt/municipio/boletimmunicipal/30dias/217_TRINTA%20DIAS_2019_web.pdf

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