A Universidade em que acredito é assim.

Ontem cheguei à Universidade para dar um curso de História da Europa, aberto ao público, sem inscrição, gratuita. À volta da porta dezenas de pessoas. Pensei que estavam na sala do lado à espera do resultado de provas de doutoramento, porque em geral as pessoas têm medo de ir à Universidade, como se não fosse o espaço delas. Mas não, estavam ali mesmo para a aula pública de história. Tivemos que ir buscar mais cadeiras, sentar em mesas. Dei as boas vindas, perguntei o nome, o que faziam: juristas, professores, reformados, operadores de call centre, engenheiros mecânicos, operários, inspectores fiscais, auditores, e ainda mais 5 ou 6 profissões, desempregados, estudantes, professores de história. Um espelho do mundo do trabalho. Fiquei profundamente emocionada. Já tinha tido esta experiência no Corte Inglês -dezenas de pessoas de gerações distintas a querer aprender. E saibam que um professor sabe sempre quando tem alguém à frente feliz, concentrado ou aborrecido, a leste. Na aula de ontem todos os presentes estavam lá. E foi, como sempre faço, de portas abertas. Entra quem quer aprender – assim devolvo o que a sociedade me deu, que foi poder fazer do estudo profissão. Sempre disse que a Universidade não é só para formar força de trabalho (muito menos para o mercado, seria sim para a produção de necessidades, dois conceitos distintos). Mas mesmo numa sociedade justa, onde se forma para as necessidades humanas e não dos humores do “mercado” a função primeira da Universidade é ser o lugar onde ensinamos o que os nossos antepassados nos ensinaram, é o lugar onde – de portas abertas – democratizamos o conhecimento, reflectimos, pensamos e por isso ajudamos a construir o futuro. Não me interessa se um operário vai usar a aula no seu trabalho, ou um inspector de finanças, ele vai usá-la na vida em sociedade.Somos mais plenos de direitos conhecendo a história do que a desconhecendo – democracia, enfim.
Bem hajam a todos os que por lá passaram – dia 31 voltamos à segunda aula de história pública, desta vez reservei uma sala maior. Os espaços e lugares inventam-se: o principal já temos, vontade de aprender e por isso paixão por ensinar.

Conversas Com História

Começa para a semana o programa de História Pública que farei este ano no CCB. O meu primeiro convidado é o economista Michael Roberts. Embora em inglês eu farei tradução consecutiva (das ideias centrais), o preço é simpático, 5 euros a entrada. Não deixem de ouvi-lo – é para mim um dos melhores economistas no mundo a analisar a actual situação económica mundial, é além disso muito didáctico a falar para o grande público, e com um delicioso e subtil humor britânico.

CCB, 29 de Janeiro, sala Literatura e Humanidades.

https://ticketline.sapo.pt/evento/conversas-com-historia-raquel-varela-m-robe-38935