Greves em Portugal, para onde vamos?

Perguntaram-me no Canal Q se estas greves não são organizadas pela direita “no combate à Geringonça” já que “no tempo da Troika não havia tantas greves”. A minha resposta é não.

Penso exactamente o contrário – as greves não ocorreram mais cedo por ser este Governo. Se fosse o PSD a situação seria ainda mais tensa, com mais greves, mais cedo. A situação de conflito que explodiu agora estava para se dar no fim do Governo de Passos Coelho e isso não aconteceu porque as esperança no Governo PS, apoiado pela esquerda parlamentar, levaram os trabalhadores a recuar.

Aliás, fez parte da negociação da Geringonça que o Governo ia resolver a precariedade, a situação dos professores, Metro e Carris, e reformados. Dos mais de 100 mil precários menos de 10% viram a situação mudar, o Metro está a ser desmantelado internamente, e os professores frustrados, os reformados têm aumentos abaixo da inflação – na Carris não sei o que aconteceu porque passou para a CML e teve o impulso do turismo.

A actual onda de greves, estivadores, enfermeiros, juízes, bombeiros, magistrados, e, antes, professores, Ryanair, Auto-Europa, entre outras, têm em comum não o serem dirigidas pela direita contra o Governo. Mas duas palavras, “exaustão” e “injustiça”.

E têm em comum que são muita delas -, não todas -, incomuns. A do pessoal de voo, vitoriosa, que obrigou a Ryanair a ceder foi organizada à escala europeia, com o sindicato português e ter um papel organizador essencial; a dos enfermeiros introduz o fundo de greve e a greve por sector; e a dos estivadores é totalmente inusitada – precários que param em greve com auxilio dos fixos e fundo público solidário.

O que aconteceu em Portugal obedece na minha opinião a um padrão histórico – a seguir às crises cíclicas, que provocam queda dos lucros, aumenta a taxa de exploração (prolongam-se os horários, desempregam-se pessoas e os que ficam trabalham por 2 ou 3, corta-se no salário, pagamento das horas extra ,etc). Numa primeira fase os trabalhadores reagem, por causa do desemprego, com medo, e com esperança que tudo melhore. Porque não gostam de conflitos sociais adiam o confronto. Guardam esperança.

Ao observarem que estão cada vez mais cansados e trabalham cada vez mais por menos, entram em conflito social. Portanto, é mais normal que os conflitos e greves se dêem não logo a seguir a crises cíclicas mas quando os trabalhadores perdem a esperança nos Governos, por um lado. Defendo esta tese. E por outro, não menos importante, quando vivem aquilo que Barrington Moore, um autor que sigo, chama de “injustiça”, as “bases sociais da revolta”. Isto é, os trabalhadores sentem cada vez mais que apesar de trabalharem muito, a vida não melhora para eles, mas a concentração de riqueza nos sectores dominantes torna-se óbvia. Para se dar esta intensidade de exploração agregam-se métodos brutais de gestão, o processo disciplinar e o assédio são a norma.

Assim, Portugal viveu, como outros países na Europa, no pós 2008 uma intensa queda do salário real – ou seja, aumento do custo de vida e da intensidade do trabalho – enquanto assiste à subida da remuneração de gestores.

A seguir à crise de 1929 as grandes greves são em 1936-1936, e a seguir à crise de 1970 são entre 1973-1979.

A tendência é para os conflitos se exacerbarem, com altos e baixos, seja qual for o Governo em funções. A isto juntam-se factores centrais como a escassez de força de trabalho que vai agravar-se em Portugal e já existe, o que aumenta o poder dos trabalhadores; e junta-se também a crise mundial de valorização dos capitais (para quem queira desenvolvi isto no meu livro Breve História da Europa (Bertrand)).

A tempestade perfeita será quando – sem recuperação real desta crise – vier outra, a breve espaço. Juntar-se-á então o desgaste desta crise com a que vem, e a sensação de que o Estado não pode mais assegurar a vida ordenada em sociedade. Abrir-se-á na Europa, a curto prazo, uma época de revoluções, a menos que se crie um novo mercado de trabalho de super exploração como foi o caso da China nos anos 90. Como não estou a ver outra China, o que se prevê é uma intensa época de guerras sociais. Em Portugal também. Elas não são desejáveis pelas pessoas comuns, que as adiam o mais que podem aguentando todo o tipo de “sacrifícios”, mas são inevitáveis pelas condições históricas do capitalismo mundial, que é um sistema caótico e irracional de gestão da sociedade. Disso já se aperceberam trabalhadores e até pequenos empresários.

Não é aliás impossível que em Portugal as PMEs venham a ter um papel central nas revoltas socais porque também eles vivem asfixiados. E curiosamente sempre foram sociologicamente meio patrões, meio trabalhadores – isto serviu para conter revoltas, mas também desde a Maria da Fonte para as originar – o caso de França e dos coletes amarelos é, na minha opinião, tudo isto que escrevi, elevado a 100. Dizer que o destino de tais movimentos é a direita ou a extrema direita é de um simplismo arrebatador, porque ignora que estes movimentos objectivamente em média propõem medidas de elementar justiça social. Podem ir para todo o lado, politicamente, mas partem todos do mesmo lugar – a exaustão e a injustiça.

 

Portugal vai ter coletes amarelos dia 21 de Dezembro?

Portugal vai ter coletes amarelos dia 21 de Dezembro? Ou como a esquerda não pode continuar a viver numa bolha fora da vida real das populações.

Há uma manifestação de coletes amarelos convocada para Portugal para dia 21 de Dezembro. Alguns jornais deram o alarme – e muitos foram atrás -, atenção é “uma manifestação convocada pela extrema-direita”.

Peço-vos que reflictam alguns minutos sobre o absurdo desta premissa. Em Portugal só há 4 entidades com capacidade de mobilização de manifestações de massa: o PCP/CGTP, a Igreja, os media/Estado e uma entidade chamada Povo. A extrema-direita não existe. Mesmo em França Le Pen abandonou os protestos porque à cabeça os manifestantes exigiam impostos sobre as fortunas, e ela é… uma das fortunas.

Portugal é um país fácil de compreender do ponto de vista dos movimentos sociais porque tem pouca população, fronteiras definidas há 8 séculos, pouca imigração (muita emigração), e manteve-se rural até aos anos 60. O único dado que baralha as previsões é a pequena propriedade generalizada. De resto isto é sociologicamente até um bocado aborrecido. Previsível. Quem fique a estudar Portugal sem um olhar mundial, que nos traga novos desafios, aborrece-se. O interesse deste país -, que nos apaixona -, não é a sua complexidade. Mas a sua simplicidade. É na alheira numa tasca ilegal, onde também come o GNR, que encontramos a parte divertida do país.

O PCP e a CGT e a Igreja têm cada vez menos capacidade de mobilizar massas nas ruas – ainda têm porém. O PCP/CGTP porque o pacto social acabou. A Igreja porque o mercado ganhou a Deus. Os media/Estado e o Povo cada vez mais influenciam e mobilizam.

Os media e o Estado porque se agigantaram no pós guerra. O Povo por uma questão numérica e de desigualdade social. O Povo, com as classes médias proletarizadas, é a maioria esmagadora.
Em Portugal porém desde o 25 de Abril que não há um movimento Popular – o tal “Povo”.

Em Portugal não há manifestações convocadas pela extrema-direita porque esta não existe. Se a esquerda não falasse dela tanto nem 50 militantes tinham. Fizemos a mais radical revolução do pós-guerra e isso teve efeitos muito para além da Ponte ter passado a chamar-se 25 de Abril. Os que derrubaram a ditadura, contra o Estado, estão na sua maioria vivos. Será preciso uma geração mais para que este efeito acabe.

Se a manifestação de dia 21 existir de massas ela não pode ser de extrema-direita. Porque em Portugal a extrema-direita junta 50 pessoas. Se juntar parte dos amigos dos animais, sectores da segurança privada e ainda a Opus Dei somará no total 200 pessoas. Isto porque as senhoras da Opus Dei são mais, mas nem às barricadas de rio Maior foram sujar os sapatos, quanto tinham a propriedade ameaçada. Quanto mais irem em auxilio de trabalhadores pobres de cidades semi-abandonadas pelo Estado, que é o que estes coletes amarelos são. Aliás enquanto a esquerda de Lisboa se entretem a chamar nomes à extrema-direita um povo do Algarve vestiu coletes amarelos contra as portagens – por acaso militantes de esquerda…É que o país não é o Bairro Alto.

Se houver manifestação dia 21, se existir e for grande (não sei, nem posso adivinhar), ela vai ser chamada pelo Povo (por isso não posso adivinhar o número de pessoas). O que significa que a sua direcção, caminhos, propostas, etc irão no sentido de quem estiver lá a dirigir. Isto é, quem souber escutar os problemas reais das populações, ouvir as propostas de resolução com eles, e não “por eles”. E dar-lhes um sentido construtivo, em vez de destrutivo, uma direcção de bem comum e não de salve-se quem puder.

Assim, se as populações estão contra os impostos ao consumo como o da gasolina deve-se propor a baixa destes, que é urgente e penaliza os mais pobres, em troca de impostos sobre a grande propriedade e renacionalização de sectores como a energia e investimento em linha férrea que auxilie as populações das cidades médias. Se estão contra os baixos salários a solução não é expulsar migrantes (nem aceitar concorrência com salários mais baixos) mas ter políticas de pleno emprego. Este é um exemplo, podia dar outros tantos.

As manifestação de Timor Leste (TSF), Geração à Rasca e 15 de Setembro partiram de uma ideia relativamente desorganizada e popular nas redes sociais mas o seu eixo de mobilização de massas não foi o Povo, foram os media/e o Estado. Todas elas tiveram como ponto de mobilização principal os media (que dias antes abriam telejornais a avisar das manifs) porque os interesses do Estado, na luta fraccional entre PS e PSD, assim o convocavam. Estive em todas elas mas nunca criei expectativas de que tinham sido movimentos das classes subalternas – e quem o fez errou, apaixonado pela ideia de ver muita gente na rua.

No caso de Timor para fazer passar o petróleo para a égide da Austrália; no caso da Geração à Rasca para uma fracção de poder fazer cair então o Governo, e caiu, e apressar a entrada da Troika; e no caso do 15 M para uma fracção do poder fazer cair a TSU. Não foram movimentos de baixo – ao contrário do que se passa em França com os coletes amarelos. Mas foram movimentos com os de baixo – por isso apoiei-os. Mas é bom não inventar massas a dirigir, quando massas estão a ser dirigidas.

Respondendo à minha pergunta, Portugal vai ter coletes amarelos dia 21? Não sei. Se fosse o PCP/CGTP, a Igreja e os media/Estado eu diria quantos iriam estar nas ruas. Não sei se vai ser um flash daqueles que não sai das redes sociais – e isso também depende da evolução do que se vai passar em França – ou se vai a população abrir caminho a uma situação francesa. Não tenho como prever.

Sei que politicamente as pessoas de esquerda, democráticas ou simplesmente civilizadas não devem estar contra uma manifestação justa pela diminuição de impostos, taxas e taxinhas que aniquilam a decência da vida, cada vez pagamos mais por piores serviços – isso não é de direita, é pura civilização e democracia contestar isto. Estar ao lado dos manifestantes, se eles existirem, ouvindo com ouvidos sinceros os seus anseios, debatendo soluções reais, e assim evitar que eles sejam dirigidos pela direita, é o que era necessário – já vão tarde meus queridos amigos de esquerda.

A extrema-direita em Portugal não dirige nada, rien, nicles, nestum. É um papão que o PS e a esquerda, e até o PSD, sopram aos ouvidos de quem ousa sonhar fora do Tratado de Maastricht. A única coisa que mantém hoje os regimes europeus intactos é a ameaça da extema-direita, ninguém apoia estes regimes, mas todos estão contra o outro que supostamente virá.

Volto sempre à ideia de Raymond Williams, o nosso papel, como intelectuais, ou dirigentes políticos, sindicais, associativos, não é tornar o desespero convincente mas a esperança possível. Neste caso não é gritar “fujam que vem aí a direita”, mas encontrar soluções reais para os problemas que realmente destroem a qualidade de vida das populações, e assim, e só assim, evitamos que venha aí a extrema-direita. O que virá aí só é pior do que o que temos se 1) não mudarmos e continuarmos a tolerar a desigualdade e o retrocesso imposto pelos neoliberais – de direita e de esquerda 2) se deixarmos esse espaço de descontentamento vazio, dando lugar assim à extrema-direita.

Não é “mais uma” onda de greves

Dada a situação que o país está a viver – não é “mais uma” onda de greves pré-eleitoral, nem nos métodos nem na direcção tradicional – impõem-se algumas notas mais sérias.
 
Sobre os enfermeiros. A greve é muito grave. É mesmo. E tão grave quanto a situação laboral dos enfermeiros que ameaça a sua vida. Estão no limite das suas forças físicas e emocionais, por isso a greve tem o apoio que tem. Ao Governo cabe, em nome deles e nosso, e do nosso SNS, negociar condições decentes e pôr termo à greve. Não pode levar as cirurgias para o privado porque isso seria – atenção, muita atenção – furar a greve com substituição de trabalhadores. É ilegal, e imoral. A greve não afecta urgências, porque o que é urgente, mesmo operações não urgentes, estão a ser realizadas. Mas é evidente que o Governo tem que actuar rápido – sem furar greves, sem requisição civil, dando pelo menos o mínimo de vida decente a estes profissionais. O aumento das transferências do Orçamento para o SNS em 2019 é apenas de 262 milhões € e não de 612 milhões € como diz o Governo. Mário Centeno ministro tem que comunicar a Mário Centeno na Europa que a vida das pessoas não pode ser cativada.
 
Muitos alegam que a extrema direita ganhará votos por causa de greves e protestos. É errado. A extrema-direita na Europa não tem ganho votos à esquerda, mas pela falta de esquerda. Os votos saem da esquerda para a abstenção.
Na verdade não sei se repararam que quando os coletes amarelos saíram à rua a falar de preço de bens de primeira necessidade a principal actividade marcada da esquerda era uma marcha sobre o clima… Já lá irei, ao papão do fim do mundo e às políticas – realmente ecológicas – que são urgentes. O que importa agora salientar é o seguinte – na Andaluzia os votos da extrema direita são transferências do PP. Os que eram do PSOE e ele perdeu foram para a abstenção. A taxa de abstenção cresceu 19% em 20 anos. 1% ao ano. Ou seja, parte da direita liberal, vendo os seus interesses ameaçados, está a migrar para o apoio à extrema-direita. E na esquerda não há nenhum programa que reflicta os interesses do mundo do trabalho – desde logo, mas não só, porque há poucos trabalhadores nos partidos de esquerda e muitos funcionários. E falta de estrutura teórica.
 
Veja-se o exemplo do clima. A revolta em França começa porque Macrón decide, depois de acabar com o imposto sobre as grandes fortunas, aumentar o preço dos combustíveis e chamou a isso “salvar o planeta”, economia “verde”. Ou seja, substituir impostos justos sobre a riqueza por impostos sobre o consumo, que afectam o custo de vida. Nas cidades pequenas é impossível viver sem carro, até para comprar comida. É evidente que uma política ecológica constrói transportes públicos, não patrocina mais carros, eléctricos ou não. Como é evidente que uma politica ecológica não taxa a entrada de carros nas grandes cidades, proíbe-os. Se taxar está a dizer que só os ricos entram. Se fizer transportes públicos e proibir a circulação está a dizer todos entram. E, como dizem e bem os coletes amarelos, até que nos dêem soluções alternativas reais queremos o carro, a gasolina e entrar nas cidades. Têm toda a razão.
 
Este é um dos exemplos em que – a reboque do Partido Democrata norte-americano – a esquerda no mundo vai abraçando causas que na aparência são muito bonitas mas na essência destroem a vida de quem trabalha. Podia dizer o mesmo face às questões de género, drogas e muitos outros temas. Fica para outro dia. A mais escancaradamente errada porém é a luta pelo subsídio de desemprego e assistencialismo em vez de luta pelo emprego.
Foi bonito ver estas pessoas nas ruas de França exigir trabalho e não rendimento mínimo, um engenheiro da minha idade dizia “estou aqui porque o meu pai e a minha mãe trabalharam a vida toda e quando o meu pai morreu ela ligou-me em prantos porque não tinha dinheiro para o funeral, como é possível trabalharmos e sermos pobres?” Sim, os coletes amarelos colocaram a questão do trabalho com direitos – e não do viver da assistência social – como modo de vida.
 
Tenho visto estes dias a ver a tese dos “brandos costumes” cair – numa semana. Na mesma semana, coincidência, em que cai a tese dos Europeus “aristocráticos e colonialistas”, de onde teria desaparecido a classe trabalhadora. Junto a isto, a centralidade das ideias de esquerda dos coletes amarelos, ultrapassando a bolha identitária e ambientalista, como um furacão de bom senso – “eles estão preocupados com o fim do mundo, nós com o fim do mês” – é palavra chave dos protestos em França.
 
Têm que compreender o meu entusiasmo e perceber que é como um médico verificar que tinha razão numa dada experiência. Não é que ele goste do doente e da doença, mas gosta de ver aquilo que era uma abstracção, um conjunto de ideias, que – é preciso dizê-lo, eram defendidas por uma escassa minoria de pessoas, onde também me encontro -, ganharem vida aos olhos de milhares. Escrevemos sobre queda da taxa de lucro, revoluções, operários e fordismo quando a ampla maioria andava submerso na ecologia, feminismo e pós-fordismo. Basicamente nós detectamos – é preciso celebrá-lo sem falsas modéstias – a pneumonia. Quando a ampla maioria andava a medir a febre, convencido que a febre era a doença e não apenas um sintoma. Não curamos o mal social com paracetamol porque enfrentamos uma doença generalizada, hiper resistente, que ameaça a vida civilizada.
 
Portugal é um dos países da Europa com mais alta conflitualidade social. E vai ser, mais. A existência de uma ditadura por 48 anos, que muitos pensam que é o exemplo dos brandos costumes, é justamente a demonstração da intensa conflitualidade do país. Quer isto dizer – vou simplificar – o seguinte. Portugal viveu o seu XIX no meio de guerras civis e confrontos amplos, a burguesia apoiou-se no movimento operário para fazer o seu último acto da sua revolução francesa, a revolução republicana. Para o fazer, contra a nobreza, apoiou-se no movimento operário mas não quis dar-lhe nada em troca. Não quis e não havia muito, porque as suas taxas estão em concorrência com a Inglaterra – chama-se imperialismo. O papel subalterno do país. Por isso a Republica é marcada pelo ataque aos sindicalistas.
 
Mas como país pobre na Europa a burguesia sabe que a taxa de lucro não é alta pelo que não há grande espaço para migalhas – não foi possível conciliar lucros e salários e a única forma de o fazer foi impor uma ditadura que, por proibir sindicatos e partidos, consegui regular o salário para baixo. Mas isso foi possível num pais rural por 48 anos, em que a maioria da população não sabia o que era a ditadura, só a pobreza – viviam apartados do Estado, para o bem e para o mal. A ditadura era de viés urbano e sobre uma pequena vanguarda operária. Num país urbano é impossível um regime ditatorial sobreviver por largos períodos – revoluções são inevitáveis.
 
Portugal só pode ter paz social com direitos sociais, sem eles a conflitualidade vai crescer exponencialmente. Quem tiver paciência e quiser poderá ler esta tese que desenvolvi no livro Quem Paga o Estado Social em Portugal? e no ensaio Para onde vai Portugal?, ambos publicados pela Bertrand.
 
O meu optimismo histórico vem justamente não desta constatação de que vamos ter conflitos sérios e crescentes – já que gosto de paz e descanso, gosto de me deitar às 10 da noite e fazer piqueniques na montanha -, mas do facto de considerar que eles, os conflitos, são inevitáveis, mas…Mas que dada a importância crescente que hoje a classe trabalhadora tem no país (e na Europa ainda mais), e que mesmo sem o saber representa – esta classe – mais de 70% da população, e sendo muito mais qualificada enfrentará com mais força e mais civilidade a barbárie de atitudes que virão da direita quando virem o seu quinhão de lucros – construídos em séculos de trabalho barato -ameaçados.
 
Claro que há liberais com amor genuíno à democracia, na Europa há mesmo. Não vacilam. E há gente de esquerda que perde o pé facilmente e começa a exigir “medidas de excepção” quando entra em luta – o Metoo já é um cheirinho disso. A liberdade tem que ser defendida sem “mas” e virão de muitos lados distintos os que estão dispostos a sacrificá-la.
 
Mas a essência da barbárie, não tenham dúvidas, virá de um lado – das classes grande-proprietárias.
Não imaginam como no passado educados liberais de direita se transformaram em monstros fascistas, bonapartistas, quando viram a sua conta bancária em perigo. E financiaram pela porta do cavalo milícias para perseguir dirigentes sindicais e democratas. Por isso é urgente que o mundo do trabalho deixe de pensar que a política é uma tarefa de uns tipos no Parlamento e passe a ter uma acção social cívica empenhada.
Porque só isso – e não votar no mal menor – nos livrará da ira de quem está ameaçado de perder o poder. Poder que, com excepção dos anos de Abril 74-74 e alguns posteriores, foi sempre baseado no medo – medo da PIDE, medo da pobreza, medo do desemprego, medo da imigração. É isso que os portugueses (e ainda mais os franceses) perderam nestes dias. Perderam algum medo. Felizmente.