Cooperar e ajudar dá saúde

Para recuperar parte da sua humanidade muitos trabalhadores nas nossas pesquisas têm revelado estratégias incríveis. Cito apenas algumas. Enfermeiros que pedem para ir trabalhar para os cuidados paliativos, professores para o ensino especial; uma professora que se sentiu mais bem tratada no IPO do que na escola onde dá aulas, e, até, num caso, uma professora de matemática que está feliz agora a dar aulas na prisão….

Denunciando-nos – nos grupos focais – para estudo do burnout que são levados pelas metas a falsificar registos (de avaliação de alunos, e de registo de doentes), a praticar actos que os levam ao sofrimento ético (falsas avaliações, tarefas irracionais e inúteis, que não ajudam ou cuidam de aluno, ou do doente), e na ausência de lutas colectivas que resistam e mudem isto, estes homens e mulheres encontram soluções individuais para combater o seu sofrimento no trabalho. Como? Procurando conforto em zonas limite onde há menos regras competitivas e sem sentido, e mais espaço de autonomia e decisão para os profissionais em causa, ou onde são cuidados em vez de assediados. O ambiente de trabalho regular tornou-se tão hostil que estes trabalhadores podem ser melhores enfermeiros e melhores professores, na sua plenitude, sem mentir a si próprios, em doentes terminais, presos, crianças com graves fragilidades. Onde podem exercer a sua humanidade como profissionais, sem mentir no seu brio laboral, sem serem vigiados por uma hierarquia irracional.

Os locais de trabalho tornaram-se espaços doentes porque foi introduzida a competição, que esgarçou a cooperação. Se há algo na nossa natureza é a cooperação, produzimos hormonas de bem estar quando cooperamos, cooperar protege-nos da solidão (a depressão é na verdade, e talvez sobretudo, um alerta do corpo para a solidão).

A fina ironia da história do capitalismo e do mundo laboral pós anos 70: na prisão há mais liberdade de trabalho do que numa escola ou hospital, no leito da morte encontram mais esperança do que na sala de consulta. Pensem nisto.

Desgaste no Pessoal de Voo

Estarei amanhã nesta conferência, de entrada livre.

Vem a Direcção do SNPVAC convidá-lo a assistir à conferência sobre o Desgaste e Penosidade da Profissão de Tripulante de Cabine a realizar no dia 2 de Abril, pelas 15:00, no auditório do Metro de Lisboa, no Alto dos Moinhos.

Nesta conferência estarão presentes como oradores o Professor Luís Xarez (Faculdade de Motricidade Humana), Dra. Raquel Varela (Investigadora da Universidade Nova) e Dra. Teresa Paiva (centro de electroencefalografia e neurofisiologia clínica).

Burnout Desgaste e Condições de Vida

Mal encontre um tempinho livre quero contar-vos a maravilhosa aventura que foi fazer este trabalho numa equipa de cooperação, como foi escrever junto com posições distintas, críticas construtivas, saber recuar, aprender de novo, ouvir, ouvir muito. Foi o momento mais gregário e distinto que vivi na minha vida académica, e entre pessoas com idades, saberes, e mesmo teorias distintas. Agora partilho para já o link. São 2 milhões de dados, sobre os docentes portugueses. Deixo-vos aqui em acesso livre o nosso estudo sobre burnout, desgaste, trabalho e condições de vida dos professores em Portugal. Trata-se de um dos estudos mais amplos alguma vez realizado a nível mundial sobre as condições de trabalho de um sector. Estamos agora a analisar dados semelhantes para o Pessoal de Voo de aviação civil e também para os estivadores e logística. Ou seja, em breve Portugal terá uma radiografia da sua população trabalhadora ímpar , analisada por uma equipa transdisciplinar e internacional.

Click to access JF_INCVTE_20182.pdf