THE PORTUGUESE REVOLUTION and workers control

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THE PORTUGUESE REVOLUTION, the process popularly known as the “Carnation Revolution” that lasted from 25 April 1974 to 25 November 1975, took place against a backdrop of military humiliation in defeat by peasant guerilla movements in the Portuguese colonies of Guinea-Bissau, Angola and Mozambique. However, an analysis of four distinct types of social conflicts-strikes; demonstrations; occupations of factories, other workplaces, and public services; and occupations of vacant houses – suggests that class struggle within Portugal was the essential dynamic of the Revolution. Revolution came to Portugal through an active workers’ movement against fascism within the context of a global economic crisis. Working people had decided it was time for democratic change.

http://www.lltjournal.ca/index.php/llt/article/view/5760/6621

 

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A história ofuscada pelo acaso: Rui Ramos e a Revolução de Abril como «um golpe de generais»

 

A consolidação do regime democrático-representativo a partir de 1982-86 e o abandono de projetos estratégicos de rutura, que só sobrevivem na extrema marginalidade, abraçados por grupos à esquerda do Partido Comunista Português, teve um impacto substancial na discussão historiográfica sobre a revolução. O senso comum não deixou de ter um efeito significativo sobre a academia, que deixou de analisar a revolução como um processo com o seu tempo e forma e passou a analisá-la a partir da situação de consolidação do regime democrático liberal. Assim, a revolução portuguesa não só deixou de ser alvo de uma discussão teórica, que não se aprofundou, como passou inclusive, em alguns setores, a ser submersa pela memória dos vencedores, que obscureceram a revolução numa vaga noção de «caos» e tentaram sobre ela erigir a teoria da passagem da ditadura à democracia representativa sem um salto revolucionário. Fenómeno que se revelou no próprio abandono do conceito de revolução e na adopção do conceito de transição para a democracia. A mais radical, mas não única[1], interpretação da revolução como «caos» foi recentemente escrita por Rui Ramos[2].

As quase 40 páginas que o historiador Rui Ramos dedica à história do 25 de Abril na História de Portugal por si coordenada são marcadas essencialmente não pelo seu conservadorismo mas por uma narrativa que escolhe, com precisão cirúrgica, o acaso, o singular, o superficial e os torna testemunhos de uma tese implícita.

Vejamos alguns exemplos desta aleatoridade: sobre a participação popular no dia do golpe, a 25 de Abril de 1974, há um único testemunho, o de alguém que «não sabia o que estava ali a fazer». Para exemplificar o dia a dia de um militante de base durante aquele período, há um testemunho, o de um membro do PPD, partido que, recordemos, não existia quando do golpe. O PS era um pequeno núcleo de quadros, constituído em partido apenas em 1973 e o PCP e o conjunto da chamada extrema-esquerda teriam algo em torno de 3000 militantes cada. O PPD forma-se paulatinamente, a partir da antiga Ala Liberal da Assembleia Nacional marcelista, juntando as ‘forças vivas’ locais que não estavam demasiado comprometidas com o regime, e os seus membros não eram então representantes típicos de um militante do período.

O único testemunho que há da reforma agrária citado é o de um militante francês que diz que visitou uma cooperativa e «o trabalhador sente-se muito mais preso, condicionado, numa estrutura coletiva hoje do que antes na estrutura hierarquizada do patrão»[3], quando os testemunhos e as análises históricas com investigação deste processo – Fernando Oliveira Baptista[4], Constantino Piçarra[5], entre outros – dão conta, dentro de enormes dificuldades, é certo, da pressão dos trabalhadores para ocupação de terras para garantir trabalho o ano inteiro (e não menos de 200 dias por ano como no Estado Novo) e de uma dedicação às cooperativos que mobilizou milhares de horas de trabalho voluntário. Nesta «não revolução mas caos» dominada por generais também os militantes dominavam e manipulavam as assembleias. Exemplos? A Lisnave. Justamente o caso – um dos mais estudados de todo o processo, nos trabalhos, por exemplo, de Fátima Patriarca[6] e Marinús Pires de Lima[7] – em que se funcionava em plenário quase permanente e votação de braço no ar, por plenários em que muitas vezes o PCP foi contrariado (11 de setembro de 1974), e noutras a extrema-esquerda ficou em minoria perante o volte-face da assembleia (7 de fevereiro de 1975).

A teoria está aparentemente ausente da obra. Sucedem-se acontecimentos sem teoria, como se a ciência fosse a aparência com que os factos se apresentam, uma narrativa. Multiplica-se, em estilo pós-moderno, uma seleção e uso indiscriminado desses factos, como se a ciência não tivesse essência.

A tese central do capítulo de Rui Ramos é que a revolução começa por ser um golpe de generais com ambições políticas, usurpada por capitães que transformaram Portugal naqueles 19 meses num palco da guerra colonial, controlando Portugal como faziam na mata, fazendo ações psicológicas (campanhas de dinamização) sobre a população. A sucessão de acontecimentos da Operação Fim de Regime dá a entender que tudo estava sob controlo do regime – posto em causa «por generais com ambições próprias». As forças do MFA entraram em Lisboa, o povo não sabia do que se estava a passar nem quem estava a apoiar e 400 profissionais da GNR, se tivessem querido, teriam derrotado o MFA[8]. Rui Ramos defende que a impossibilidade de continuar a guerra foi uma opção dos generais, tendo aqui as ambições políticas jogado um papel fundamental[9]. As campanhas de dinamização do MFA têm a sua origem, nesta narrativa de Rui Ramos, na forma como era feita a guerra em África, uma guerra de campanha centrada nos capitães e com ação psicológica. O 25 de abril seria uma revolução de capitães com ações de dinamização.

Admite Rui Ramos que o MFA se transformou em «força dirigente do Estado»[10], mas, perguntamos nós, como acontece isso se os generais eram tão poderosos? Se o processo revolucionário se caracteriza pela manipulação das “massas”, e quer os generais quer os capitães estavam no controlo (e manipulavam) da situação, não se percebe porquê Marcelo Caetano, sitiado, com um cabo à sua frente, pede por favor para entregar o poder “pelo menos a um general”, o qual, aliás, será varrido do Governo cinco meses depois e expulso do País em março de 1975.

O facto de só dois generais terem ‘participado’ no golpe não se opondo a este, terem sido ultrapassados pelo MFA, ficando o País a conhecer as divergências entre Spínola e o MFA na própria noite de 25 para 26 de abril é irrelevante para o autor. A seguir ao 25 de Abril, os oficiais superiores e generais que tinham prestado homenagem a Marcelo Caetano em março, no famoso episódio da «brigada do reumático», são enviados para a reserva.

É sabido que a interpretação depende dos factos e a seleção destes, da interpretação. É conhecido também que a história coloca, com base em teorias e metodologias, limites a esta relação – não foi a URSS que invadiu a Alemanha, foi a Alemanha que invadiu a URSS; não foram chineses que desembarcaram na Normandia, foram americanos, ingleses, franceses, canadianos… Eric Hobsbawm[11], num conhecido ensaio, desconjunta esta elasticidade pós-moderna que não vê limites à utilização dos factos.

Escreve Rui Ramos que «a Junta aboliu a censura, extinguiu a DGS, cujos agentes foram detidos em massa (em julho, estavam presos cerca de 1000), libertou os presos políticos (85 no Forte de Caixas e 43 no de Peniche), e suprimiu a ANP, a Legião e a Mocidade»[12].

Houve muitos acontecimentos naqueles dias que dependeram da Junta ou por ela foram fortemente influenciadas (composição do Governo, ida de Caetano e Tomás para o exílio) e houve outros que, embora na aparência tenham tido a atuação da Junta, não dependeram dela. O que aconteceu foi que em alguns destes acontecimentos a JSN decretou sobre um facto contra o qual ela estava, provavelmente por ponderar que a relação de forças entre as várias frações sociais não lhe era favorável. A população destruiu a sede da censura e obrigou, sob protesto popular e dos próprios presos[13], à libertação destes na sua totalidade. E depois, na Madeira[14], o povo manifestou-se publicamente contra Tomás e Caetano, forçando a saída destes mais rápido da ilha. Nos casos citados por Rui Ramos, a JSN nada fez sobre o que já estava feito. No caso de Caetano e Tomás, a Junta conseguiu ser preponderante, deixando ambos sair do País sem julgamento.

Afirma Rui Ramos que «O Estado arrogara-se o poder de substituir as direções de empresas privadas»[15]. Imaginamos, porque o texto neste campo se limita a esta frase, que o autor se esteja a referir à intervenção do Estado nas empresas. Na verdade, o Estado inicialmente opõe-se à maioria das ocupações, e muitas vezes os próprios sindicatos também. O Estado chega a enviar militares para as impedirem e, perante a sua inevitável generalização, fruto da descapitalização de empresas e da consequente ameaça de despedimento, o Estado homologa um decreto de intervenção[16], o DL 637/74, de 20/11.

Escreve Ramos que o povo no dia 26 abril participa do processo, porém a 25 desconhecia o que se passava. Concordamos com o autor quando diz que o processo do golpe é um processo essencialmente militar, com origem no regime. Portanto não resultou, como afirmava o PCP, de um «levantamento nacional de massas»[17] devido ao atraso do País, mas de uma crise dentro da direção do regime, provocada pela derrota na guerra. Porém, é indiscutível que a participação popular é imediata e começa logo a 25 de Abril, e esse facto não pode ser iludido pelo testemunho de um transeunte que «não sabia o que se estava a passar».

O primeiro comunicado das forças armadas é pouco antes das 4 da manhã da noite de 24. Seguem-se 10 comunicados do MFA[18], quase de duas em duas horas, a pedir ao povo «para ficar em casa». As ordens não são acatadas. No Quartel do Carmo, onde há milhares de pessoas, bem como em todas as ruas de Lisboa, nem os pedidos de Salgueiro Maia, nem os de Francisco Sousa Tavares fizeram a população, no dia 25, desmobilizar. Haverá mesmo disputas com o Ministério do Trabalho para que não sofram represálias os milhares de trabalhadores que não vão trabalhar no dia 25 de Abril porque, nesse dia, estiveram em manifestações ou simplesmente nas ruas a celebrar a liberdade.

Ramos escreve que a GNR poderia ter evitado o golpe. É um exercício com perigos para os historiadores – o contrafactual. «Se» e o que «teria acontecido» é especulativo. O facto é que a GNR não resistiu. Porquê? Os documentos que temos indicam que esta considerava que resistir era um ato destrutor. No dia 25 de Abril os rádios intercetam uma conversa da GNR. Por volta da uma da tarde, os militares da Guarda queixam-se de que: «Estudantes e rapazes estão a atingir à pedrada as nossas forças (…) temos urgentemente de tomar providências.» Às 15.35: «Estamos completamente cercados. (…) Deram-nos 10 minutos de ultimato.»[19]

Afirma Ramos que entre «agosto e dezembro de 1975, foram ocupadas 3311 herdades, equivalentes a 19% da superfície cultivada nacional – mas atingidos apenas 1000 proprietários» e que o pagamento de salários tinha sido garantido em maio[20]. Acrescenta que não havia nenhuma «classe faminta»[21]. Considerará Rui Ramos que há aqui um salto histórico crítico, analisado nos meus trabalhos e nos do historiador Constantino Piçarra? Entre agosto e dezembro há dois governos: um de militares ligados à esquerda militar (o PCP, como procurei demonstrar, tem uma posição muito dúbia face a este Governo) que dura de facto duas semanas; e outro com uma composição dominada pelo PS e pelo Grupo dos Nove. Quem libertará as verbas para pagar salários abrindo espaço à maior ocupação de terras de todo o período é o VI Governo, dominado pelo PS, e não o V Governo. Estas verbas serão libertadas, certamente também sob pressão do PCP, mas por um ministro, Lopes Cardoso, próximo do PS e não do PCP. No dia 17 de outubro, um despacho do secretário de Estado da Estruturação Agrária dota os centros regionais da reforma agrária de uma verba de 25 mil contos para assegurar a atividade produtiva dos membros das unidades de produção geridas pelos trabalhadores em vias de legalização e a 29 de outubro é publicado esse despacho.

O historiador defende, na esteira da tese da revolução dominada por militares, que «A hierarquia dos partidos foi determinada pelos militares»[22]. A afirmação é, na minha opinião, totalmente, incompreensível, pelo menos em relação ao partido que estudei a fundo, o PCP. A liderança do Partido Comunista mantém-se totalmente inalterada, com o imobilismo da direção – uma direção altamente respeitada pelos anos de resistência na clandestinidade – a ser uma marca do partido no processo. Cunhal comanda o partido, mas afasta-se sempre dos lugares chave dos ministérios (fica ministro sem pasta) para procurar evitar a responsabilização do partido por medidas altamente impopulares como a aprovação de uma lei restritiva do direito à greve ou um salário mínimo abaixo do exigido pelos trabalhadores.

Sobre o PCP, o autor afirma ainda que este partido tomara a dianteira na ocupação de sindicatos e autarquias. Isso de facto aconteceu em muitos sindicatos e autarquias. Mas, muitos outros, que determinaram situações disruptivas para o Estado, eram desde 1968-1970 dirigidos ou tinham uma forte influência de militantes do MES, católicos progressistas, MRPP e grupos ML que iriam dar origem à UDP (metalúrgicos, têxteis, TAP, CTT, TLP, Carris, Lisnave, entre outros).

Os partidos atuam mais como atores institucionais do que sociais[23], segundo Rui Ramos. Isto não explica como é que um partido, o PCP, passa de 3 mil para 100 mil militantes no espaço de um ano, e o PS passa da quase inexistência para uns 80 mil. A forte disputa institucional entre ambos os partidos pelo controlo do Estado teve sempre uma ancoragem social clara – no caso do PS a seguir às eleições, no caso do PCP a Intersindical. Como historiadores temos de explicar que forças sociais subterrâneas, e não meramente institucionais, levam a que em nove meses se tenham constituído 50 partidos políticos[24], ao todo mobilizando centenas de milhares de militantes (que participam, pagam quotas, organizam), como o próprio Ramos admite, e que quase todos tenham «democracia» e «socialismo» no nome, nenhum reclamando a direita, e a própria direita designando-se social-democrata (PPD) ou democrata social (CDS)? É este um quadro de partidos com escasso apoio social, dominados por militares?

Ramos argumenta que a classe trabalhadora está ausente da revolução, a não ser como sujeito passivo. Para tal usa, paradoxalmente, uma classificação classista do MFA: conclui que a maioria dos 730 oficiais que assinaram o documento do MFA não era de origem proletária, mas sim do meio rural, a maioria vinham da Academia Militar (93%), 80% eram capitães ou majores: «A explicação, portanto, não está na origem social, mas numa experiência histórica: o comando das tropas na guerra e a revolta corporativa de 1973.»[25] Ramos procura justificar a alegada ausência da classe trabalhadora também pela origem social dos candidatos, uma vez que só 14% seriam operários[26].

Isso significa que este sujeito social não teve existência? A pergunta é quase estapafúrdia. Ramos ignora, na nossa opinião, que 1) a classe trabalhadora não se resume ao setor operário industrial. Esta definição, profundamente influenciada pela experiência soviética e pelo Partido Comunista – e uma noção que perdurou em Portugal para justificar a divisão entre centrais sindicais – é uma definição de agrupamento sócio-profissional e não de classe; 2) na definição de classe usa-se uma série de variáveis que dizem respeito ao lugar e posição de trabalho, origem social, rendimentos, organização política, etc., e é uma noção complexa porque inclui também frações de classe; 3) finalmente não concordamos com o autor em retirar das eleições essa ilação. A maioria dos votantes são da classe trabalhadora e votam em programas (incluindo o do PS) que achavam que defendiam o socialismo, o direito ao trabalho, etc. Não há, finalmente, uma ligação mecânica entre a força social de uma classe e a sua força eleitoral. Basta pensar que 70 000 donas de casa das Beiras têm muito mais força eleitoral que 7000 operários da Lisnave, mas estes determinaram coisas tão importantes como – para dar apenas um exemplo – a não aplicação da lei da greve a nível nacional, com um efeito de arrastamento para quase todos os restantes trabalhadores em Portugal.

Esta visão de uma classe trabalhadora manipulada surge no seio de uma narrativa onde a classe trabalhadora tem um espaço exíguo. A única vez que Ramos se refere às comissões de trabalhadores é para defender que foram multiplicadas pela extrema-esquerda como reação à ocupação dos sindicatos pelo PCP[27]. Não é factual. As CTs nascem de forma espontânea – não são fruto de uma estratégia reativa ao PCP, antes florescem nos dias a seguir ao golpe porque nos locais de trabalho quase não existiam outras estruturas e os trabalhadores começam a reunir-se em plenários e a votar de braço no ar e precisam de mandatar alguns dos seus para levar avante as suas decisões e reivindicações. Fizemos referência às centenas que nascem logo nos primeiros dias a seguir à revolução de forma inorgânica.

Cremos que Rui Ramos confunde revoluções com quarteladas, e se seguirmos o que propõe não há diferença real e conceptual entre a revolução de abril e os golpes que nela tiveram lugar, porque tudo aparece como parte de um processo em que indivíduos, mas só indivíduos muito particulares, têm o poder de pôr e dispor a história.

Se forma e conteúdo correspondessem, o mundo científico era dispensável. A narrativa de Rui Ramos faz-se de decretos, decisões, conversas entre dirigentes do 25 de Abril, estando afastada qualquer tentativa de perceber, usando balizas na documentação, qual foi o movimento das classes em confronto, até porque nesta história a classe trabalhadora só existe enquanto sujeito passivo, alvo de manipulação e de «campanhas de ação psicológica do MFA».

Não existe a noção de que nos processos revolucionários se gera uma situação de dualidade de poderes. E assim, vemos afirmações contraditórias como «os quartéis tinham-se transformado em pequenos parlamentos»[28] na mesma frase onde se defende que os militares puseram em causa a democracia, numa revolução dominada por generais com projetos políticos falhados, mas onde vigorava a ausência de disciplina militar porque os quartéis, precisamente, se tinham tornado «pequenos parlamentos».

Neste capítulo do livro dedicado à história do 25 de Abril no quadro da História de Portugal, não há caracterizações de governos, Estado ou regime, tudo aparece diluído, não há sujeitos sociais, nem respetivas frações. Ramos vai mais longe do que a historiografia liberal, que oculta as classes sociais nos partidos, na Igreja, na direção do MFA. Desta história desaparecem todos para emergirem as personagens: é assim que as greves são remetidas a duas notas, mas as longas disputas entre Spínola e Kaúlza de Arriaga ocupam várias páginas.

Nesta narrativa procura-se ainda dar ênfase a uma suposta repressão ancorada numa certa noção de «caos»[29] e arbitrariedade estatais. Ramos não discute o regime, o Estado e os governos. Mas considera que há um «poder revolucionário»[30] que é responsável por 10 mil «refugiados políticos». «Tudo acabou por volta das 18h. Nenhum militar foi morto ou ferido. As únicas vítimas caíram diante da sede da DGS, quando, por volta das 20h, uma multidão de 600 ‘jovens manifestantes’ se aproximou, e os agentes reagiram a tiro, provocando quatro mortos. Por sua vez, a tropa matou um agente da DGS pelas costas.»[31]

Uma seleção avulsa de factos – desvinculados do seu contexto geral, social, e sem qualquer hierarquia na seleção – permite a Rui Ramos acentuar na narrativa a violência, que em absoluto, e comparando com outros processos revolucionários, foi escassa na revolução portuguesa (embora não faltasse do outro lado da revolução, nas colónias).

Mas em termos relativos a violência da revolução de 1974 e 1975 está do lado da direita e da coligação PS/Grupo dos Nove/Igreja. Ramos destaca a violência de esquerda, o pide «morto pelas costas» e um tipo que no 11 de março pôs em «dúvida a violência do ataque e foi morto»[32]. Resumindo, eis as características da violência na revolução portuguesa:

1) Uma grande ausência de violência, na metrópole, justamente devido à crise do Exército.

2) A violência que se exerce é muitas vezes sobre trabalhadores, repressão de greves, e mesmo prisão de militantes como os do MRPP e da AOC depois de 11 de março de 1975 e também de um pequeno partido de direita.

3) É verdade que um pide é morto, mas dezenas “fogem” da cadeia, com a complacência das autoridades, e a maioria não sofrerá qualquer pena significativa.

4) Uma revolução em que a violência mais grave ficou marcada, no Verão Quente, pela violência de direita, com o silêncio cúmplice do PS e da Igreja, contra os sindicatos e os partidos de esquerda. Segue-se um Governo, o VI, marcado por atos como a destruição à bomba dos emissores da Rádio Renascença e a criação do AMI, uma força especial de repressão.

5) Finalmente, a escassa violência verifica-se também na ausência de julgamento para a maioria dos quadros do regime do Estado Novo, muitos dos quais, incluindo generais com um papel criminoso na guerra, têm como pena a «reforma compulsiva antecipada». Ao contrário de alguns militares de esquerda e extrema-esquerda, que passaram por um longo processo até conseguirem a amnistia.

A violência, mesmo assim limitada, que existiu em 1974-9175 foi exercida mais sobre a esquerda do que sobre a direita[33].

Se é verdade que existiram formas semibonapartistas, quer por parte do PCP e de militares ‘amigos’ no IV Governo, quer por parte do PS e militares a ele afetos no VI Governos (saneamentos políticos – não os económicos feitos no início pelas CTs), o controlo da comunicação social, a repressão realizada por ambos os governos refletiam uma pressão destes aparelhos pelo controlo do Estado e não a tentativa de instauração de um modelo ditatorial, que quando existiu de facto, por parte da burguesia apoiada em Spínola, foi amplamente rejeitado por toda a população e também por estes partidos. Mas esse controlo do Estado foi amplamente evitado pela democracia de base dos órgãos de ‘poder popular’, que rejeitaram em processos de luta a repressão sobre os CTT, a militarização da TAP e do sindicato dos químicos, a lei corporativa da greve, defendida por PCP e PS, lutaram contra prisões à esquerda, rejeitaram a repressão de manifestações (Lisnave, Intercomissões, Comité de Luta de Setúbal), uma parte dos partidos de extrema-esquerda condenou a ilegalização do MRPP e da AOC (mas não rejeitou a ilegalização de dois partidos de extrema direita, o Partido do Progresso e o Partido Liberal. A evidência empírica é que ao fim de muitas tentativas de tentar controlar, por exemplo, a comunicação social, o VI Governo toma a decisão de rebentar à bomba os emissores de uma rádio; e o Governo entra em greve, depois de sequestrado pelos operários da construção civil, quando tinha acabado de constituir o AMI, uma força de repressão de elite. Houve utilização política do aparelho de Estado por parte do PS e do PCP, uns contra os outros, consoante a relação de forças – isso por si só não define se um regime é ditatorial ou democrático representativo. Não havia um poder de Estado estável, muito menos um poder ditatorial: todas as liberdades estavam, como nunca na história de Portugal, amplamente asseguradas. Curioso, em jeito de nota final, que se utilize a palavra «caos» para falar da revolução, mas não se use expressão equivalente para falar de um regime envolvido numa guerra colonial, com salários baixos, miséria generalizada, padrões de saúde subdesenvolvidos, polícia política, censura, e que tinha forçado 1 milhão e meio de pessoas a emigrar. Isso é o quê: «ordem»?

O momento repressivo mais bem sucedido de toda a revolução foi o golpe que iniciou a contrarrevolução, que deu origem à prisão, durante vários meses, de mais de 100 militares.

A narrativa de Rui Ramos não tem densidade histórica. Ela insere-se num quadro teórico que tenta associar o “PREC” a um momento de caos, desordem e repressão, quadro esse que só pode ser construído na base da eliminação de factos. A história de um povo que se organiza em comissões de trabalhadores, de moradores, de soldados, a profunda democracia de base que leva o primeiro-ministro Pinheiro de Azevedo, desesperado antes do golpe de 25 de novembro, a dizer que tudo tinha que passar «por plenários» é substituída por uma história de grandes figuras militares culpadas de manipular todo um povo que não é sujeito histórico da sua vida.

Publicado In Varela, Raquel, História do Povo na Revolução Portuguesa, Lisboa, Bertrand, 2014 e republicado in Varela, Raquel, «A História Ofuscada pelo Acaso, Rui Ramos e a Revolução de Abril como um «golpe de generais», In Silva, Carla Luciana, Soutelo, Luciana, Luís, Rita, A revolução de 1974-75: repercussão na imprensa internacional e memória(s), Lisboa, Instituto de História Contemporânea, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Dezembro de 2014, pp. 155-163, ISBN: 978-989-98998-0-3.

[1] Ver Varela, Raquel (coord), Revolução ou Transição. História e Memória da Revolução dos Cravos, Lisboa, Bertrand, 2012.

[2] Ramos, Rui (coord.), História de Portugal, Lisboa, Esfera dos Livros, 2009.

[3] Ramos, Rui (coord.), História de Portugal, Lisboa, Esfera dos Livros, 2009, p. 731.

[4] Baptista, Oliveira, Portugal 1975. Os Campos, Porto, Afrontamento, 1978.

[5] Piçarra, Constantino. As Ocupações de Terras no Distrito de Beja. 1974-1975. Coimbra: Almedina, 2008.

[6] Patriarca, Maria de Fátima. «Operários Portugueses na Revolução: a Manifestação dos Operários da Lisnave de 12 de setembro de 1974». In Análise Social. Lisboa: ICS, Vol XIV, 1978.

[7] Lima, Marinús P. “Relações de Trabalho, Estratégias Sindicais e Emprego (1974-90)”. In Análise Social, n.º 114, 1991, pp. 905-943.

[8] Ramos, Rui (coord.), História de Portugal, Lisboa, Esfera dos Livros, 2009, p. 712.

[9] Ramos, Rui, Ibidem, pp.706-707.

[10] Ramos, Rui Ibidem, p. 721.

[11] Hobsbawm, Eric, Sobre História, São Paulo, Companhia das Letras, 1998.

[12] Ramos, Rui (coord.), História de Portugal, Lisboa, Esfera dos Livros, 2009, p. 713.

[13] Diário Popular, 2 de maio de 1974, p. 28.

[14] Diário Popular, 2 de maio de 1974, p. 28.

[15] Ramos, Rui, Ibidem, p. 729.

[16] Lopes, José da Silva, A Economia Portuguesa desde 1960, Lisboa, Gradiva, 1999, p. 173.

[17] Ver sobre isto Varela, Raquel, A História do PCP na Revolução dos Cravos, Lisboa, Bertrand, 2011.

[18] Os Comunicados do 25 de Abril. CD25A. In http://www1.ci.uc.pt/cd25a/wikka.php?wakka=mfa1 consultado a 7 de março de 2012.

[19] República, 26 de abril, p. 10.

[20] Ramos, Rui (coord), História de Portugal, Lisboa, Esfera dos Livros, 2009, p. 730.

[21] Ramos, Rui. Ibidem, pp. 729-730.

[22] Ramos, Rui (coord.), História de Portugal, Lisboa, Esfera dos Livros, 2009, p. 724.

[23] Ramos, Rui, Ibidem, p. 724.

[24] Ramos, Rui, Ibidem, p. 723.

[25] Ramos, Rui, Ibidem, p. 722.

[26] Ramos, Rui, Ibidem, p. 730.

[27] Ramos, Rui, Ibidem, p. 731.

[28] Ramos, Rui, Ibidem, p. 721.

[29] Ramos, Rui, Ibidem, p. 714.

[30] Ramos, Rui, Ibidem, p. 732.

[31] Ramos, Rui, Ibidem, p. 712.

[32] Ramos, Rui, Ibidem, p. 728.

[33] Cerezales, Diego, Portugal à Corunhada. Protesto Popular e Ordem Pública nos séculos XIX e XX, Lisboa, Tinta da China, 2011.

A revolução dos Cravos

Deixo aqui a referência dos livros que publiquei sobre a revolução dos cravos. E também, em acesso livre na Internet, alguns artigos académicos que escrevi sobre a revolução, bem como um conjunto de resenhas sobre os livros, para quem estiver interessado. 3 dos livros são obras colectivas.
Greves, Direitos Laborais e Direitos Sociais na Revolução dos Cravos
http://www.e-publicacoes.uerj.br/…/artic…/viewFile/7566/5502
“Um, dois, três MFA…”: o Movimento das Forças Armadas na Revolução dos Cravos – do prestígio à crise
http://www.scielo.br/pdf/rbh/v32n63/19.pdf
MOVIMENTOS SOCIAIS NA REVOLUÇÃO PORTUGUESA
http://historiadelpresente.es/…/files/con…/pdf/38/varela.pdf
“Primeiro Fazem-se Plenários e Depois é que se Cumprem as Ordens” Crise Político-Militar na Revolução dos Cravos
http://www.uss.br/…/v13n12011/pdf/001_primeiro_fazem_se_ple…
O 25 de Abril, a Espanha e a História´
http://analisesocial.ics.ul.pt/…/1218723890G5eWH3fu3Yr67BM1…
http://www.ifch.unicamp.br/…/arquivo…/resenha166resenha3.pdf
http://www.ipri.pt/publicaco…/revista_ri/…/RI34_Rec03_CC.pdf
http://www.historia-actual.org/…/…/article/viewFile/1110/964
https://periodicos.ufsc.br/…/…/1984-9222.2014v6n11p283/28611

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O fim das dita

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The Historiographical Debate on the Meaning of the Carnation Revolution 1974-1975

  • VARELA, Raquel, “The Historiographical Debate on the Meaning of the Carnation Revolution 1974-1975”, In Берегиня. 777. общество, политика, экономика. Научный журнал, Coba, nº 1, 2014, pp. 168-186. PDF here in this link Raquel Varela-2