Afundo Ambiental

Exmos Senhores do Fundo Ambiental,

Exma Senhora Secretária de Estado do Ambiente,Inês dos Santos Costa

Exmo Senhor Secretário de Estado Adjunto e da Energia, João Galamba

Exmos Senhores do Fundo Ambiental,
Exma Senhora Secretária de Estado do Ambiente,
Inês dos Santos Costa
Exmo Senhor Secretário de Estado Adjunto e da Energia, João Galamba 

Tentei comprar uma bicicleta eléctrica convencida da propaganda de subsídios de vossas Excelências e dei por mim num périplo burocrático kafkiano. Já desisti do meu direito, agora resta-me a escrita como catarse do colapso a que os senhores vão levando o país. 

Fui educada por dois ecologistas, engenheiros florestais, que tinham em casa uma reprodução da Guernika ao lado do símbolo anti nuclear. Os meus pais ainda são dois teóricos praticantes – eu o meu irmão lutámos, em vão, para não se guardar cascas de fruta no apartamento, e ao fim de semana levá-las para a casa de campo e fazer delas adubo para a horta biológica, e restos de comida para os cães, porque rações “são péssimas e a destruição das terras no Brasil com a expansão da soja”. Ao fim de semana, a caminho da casa no campo, íamos apertados num carro em que bocados de móveis iam de casa em casa, no meio da restos fermentados, com um cheiro terrível, apenas durante uns anos matizado pelas baforadas de cigarros da minha mãe. No caminho parávamos para comprar ovos, perdizes, até para pescar, fazer surf, ir aos cogumelos, até apanhar “sacas de terra boa” para as árvores, frondosas, dos jardins dos meus pais. E, claro, observar alguma planta, árvore, se estava em fase de polinização, uma “seca” para dois adolescentes. Lembro-me de viagens de 2 horas para Alcobaça passarem a 5, e de 3 para a Zambujeira passarem a 8 horas. Onde vamos, perguntávamos, “para Marrocos” dizia o meu pai perdido numa qualquer estrada de terra batida à procura de ovos caseiros.

Ainda hoje os meus pais fazem estas viagens e das “tralhas” surgiram coisas incríveis – a minha mãe conseguiu mobilar a casa de vários imigrantes, fazer candeeiros de madeira antiga para toda a família, nada do que queiramos não sai de uma das arrecadações, e o meu pai é um especialista em derrotar caracóis sem produtos químicos. Quando com 16 anos entrava no carro a cheirar a perfume o meu pai gritava “é insuportável Raquelinha, eu gosto é de cheiro a estrume, estrume seco, esse perfume mata-me”. Divertimo-nos, muito. Caramba, muito.

Isto para dizer a Vossas Excelências que ainda a indústria alemã e norte-americana automóvel e de construção civil – e consequentemente bancária – não estava em coma com a concorrência capitalista, o Mercado que os senhores veneram e protegem, ainda não tinham sido inventados os impostos “verdes” para os salvar, ainda não havia energias renováveis a expandir-se com a destruição de países inteiros com saque de matérias primas raras, já eu era praticante, primeiro forçada, é verdade, depois, como quase tudo o que fazemos contrariados com os pais, a partir dos 20 fazemos com gosto e depois dos 40 com obsessão, imitando-os, infernizando a vida aos filhos, dizia já eu era uma ecologista. 

Neste espírito cá em casa andamos todos de bicicleta. Fazemos férias de bicicleta pela Europa. Vamos trabalhar de bicicleta e de comboio. Porque odiamos estar fechados dentro de um carro e temos o privilégio de viver num dos raros locais onde é possível fazer o percurso de comboio e bicicleta – ao contrário da maioria dos portugueses, obrigados a andar de carro, sem alternativa. Devo dizer que a principal razão porque o fazemos não é para “salvar o planeta” – não somos catastrofistas – mas para nos salvar a nós, fazer exercício, respirar ar puro, ver o céu, o pôr do sol, apanha ar na face, ver a vida. Diz que a pegada ecológica média de uma pessoa normal é de 2,76 toneladas de CO2, a de um bilionário 3,1 milhões de toneladas de CO2. A nossa deve ser um pouco menos que 2 CO2, e não somos (nem seremos!) vegetarianos, comemos até foie gras, por vezes, e não suporto beber vinho em copos de plástico, sobretudo mandado por quem bebe champanhe em copos de cristal num jacto particular. Não tenciono fazer sacrifícios pelos oligarcas, perdão aqui deste lado são os ricos, e chamar a isso “salvar o planeta”.

Dito isto comprámos a bicicleta eléctrica e demos entrada num famoso portal “Fundo Ambiental”. De Julho até hoje enviámos 21 emails, sem resposta. A única coisa que recebemos são respostas automáticas para anexar certidões das finanças e segurança social. O que já fizemos via portal, e email, meia dúzia de vezes. Sem resposta. Algumas das repostas automáticas pedem para respondermos num prazo de 5 dias que termina no dia em que enviaram o próprio aviso do prazo de 5 dias…Conclui que o Fundo Ambiental não existe, é um respondente automático de emails, para fingir políticas verdes. 

Confesso que nem sei por vezes como é possível o Estado manter-se intacto no meio de tanta incompetência, incúria e desprezo pelos cidadãos. Hoje é com este Fundo, amanhã é com tudo – pagamos, pagamos, pagamos e temos serviços fantasma. Ao tentar ligar para lá, respondem-me indignados que esse sector – Fundo Ambiental – não tem telefone!, que os contactasse por email… Uma espiral de loucura nos rumos do país. Estou claro a desistir de reaver o meu dinheiro mas não desistirei de resistir ao saque diário dos meus impostos, do meu trabalho, da minha paciência e, sobretudo, o que não vos perdoo nunca, da minha felicidade. Os senhores tiram-me a vontade de rir, tenho que fingir que o Estado não existe para namorar e rir e trabalhar feliz, se penso no Estado dá-me logo um mal estar, uma ânsia, uma náusea poética, temo ser contaminada pelos sentimentos que espalham. São um Estado triste, que espalha a tristeza, ressentimento, vontade de dizer impropérios, os senhores, responsáveis pelo governo do Estado, são a causa da nossa infelicidade. Não salvam a vossa honra Exmos Senhores, nem a servir vinho em copos de plástico.

Advertisement

4 thoughts on “Afundo Ambiental

  1. Cara Raquel
    Faço minhas as suas palavras, com a excepção da repetição dos contactos com o Fundo Ambiental, pois, com a minha idade, já passados os setenta, aprendi que não vale a pena insistir com serviços públicos que não têm atendimento personalizado.
    Quando os havia, ou a eles tinha de recorrer, entrava sempre de braço no ar, até que um funcionário mais diligente me perguntava o que estava eu a fazer com o braço no ar? Respondia então que era para solicitar o livro de reclamações. Retorquiam que ainda não tinha sido atendido, qual seria pois a razão de estar a solicitar o livro de reclamações? Porque já sei que vou precisar dele, vamos adiantando o serviço!
    Assim, não me deixo abater pela falta de resposta do Fundo e, em vez de os mandar dar uma volta, vou eu mesmo dar uma volta na minha bicicleta eléctrica nova, para espairecer e gozar a natureza!

  2. Concordo plenamente com a Raquel, mas como sou mis velho, iria jurar que tenho visto muito mais do que é este país. E, curiosamente parece que as pessoas com mais canudos (de merda) são do piorinho que vai por aí.

  3. Drª Raquel, sempre lúcida e pertinente! Partilho da sua visão e do seus sentimentos em relação às loucuras deste candidato a projeto de país em que vivemos! Se há coisas boas? Há, mas cada vez mais se contam pelos dedos das mãos, e em melhores anos, também pelos dos pés. Seguramente, a burocracia não é uma delas, qual pedra na engrenagem posta lá manhosamente para sacar uma boa parte das economias aos cidadãos (depois de pagarem os pesados impostos!) e para os fazer desistir de reclamar os seus direitos. É como os carros à paisana a faturar multas de excesso de velocidade, muitas vezes escondidinhos a brincar ao jogo do gato e do rato! É um jogo sujo e perverso.
    E como se não bastassem os maus atos ou as más práticas, ainda temos de aturar a hipocrisia das palavras proferidas pelos nossos ilustremente tristes políticos. Acabei de ouvir o Sr. Ministro da Economia dizer que um país não se constrói sem os jovens… que temos de os ouvir, blá, blá, blá. Como disse?! Quais jovens? Então este não é o país onde há 182 idosos por cada 100 jovens? E não é o país onde até aconselharam os jovens a emigrar, onde há jovens que não podem estudar na universidade por falta de dinheiro, e outros que tiveram de desistir, onde os jovens não vislumbram melhores dias para o seu futuro, onde a oferta de trabalho é cada vez mais escassa, precária e mal paga, onde os jovens e adultos não conseguem pagar as rendas das casas, quanto mais arranjar economias para dar entrada à compra da primeira habitação? Não é este o país onde nem sequer se pode pensar em constituir uma família e ter filhos para o repovoamento? Qual jardim florido á beira-mar plantado, mas cheio de ervas-daninhas! E não me venham com a cantiga da culpa da pandemia, da guerra, da crise, do nevoeiro, ….

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s