Compreender o Mundo

Para quem desconhece um dos melhores instrumentos de análise da história e da política, e para surpresa de tantos, Troysky na Folha de São Paulo, pela mão de Robert Scwartz. É caso para dizer que quem não leu a teoria do desenvolvimento desigual e combinado (elaborada em parte mas não só na monumental história da revolução russa de Leon Trotsky – simplesmente um dos melhores livros de história de sempre, Enzo Travesso acaba de elaborar justamente nesse sentido, na excepcionalidade desta obra) não saber localizar-se no mundo.

Tese de Trótski transforma visão de países periféricos como quintal do mundo

Roberto Schwarz, Roberto Schwarz 30 de julho de 2022

A tese do desenvolvimento desigual e combinado, de Leon Trótski, propõe um golpe de vista abrangente do ritmo irregular e planetário do capitalismo e, ao ressaltar as conexões dos países periféricos com o centro, muda o estatuto da sua condição de quintal do mundo.
O ritmo irregular e planetário do capitalismo escapa a nossos hábitos mentais, aprisionados na estreiteza nacional, na miopia de classe, na rotina das disciplinas acadêmicas e, também, nos esquemas do marxismo dogmático.
Ao colocar o acento nas descontinuidades do progresso, ou seja, nos seus deslocamentos súbitos, nas retomadas onde menos se espera, nas recombinações paradoxais com o atraso, sem esquecer os retrocessos, Leon Trótski (1879-1940) procurava fazer justiça à complexidade do processo real, que é contraintuitiva.
Sob este aspecto, a sua tese do desenvolvimento desigual e combinado do processo histórico era uma simples constatação de fatos pouco observados. Entretanto, pela crítica ao senso comum, às certezas da evolução linear e das localizações estáveis, ela era também um programa de desautomatização do espírito, instado a livrar-se de ideias feitas.
Tratava-se de exercitar um golpe de vista abrangente, internacionalista e aberto para o livre jogo do capital e da luta de classes, contrário à preguiça da visão corrente. À sua maneira, uma recomendação de genialidade, se não for muito pedir (com risco de escorregar para o chavão por sua vez). Se fizermos abstração da política —que, no caso, era o principal— havia afinidade com as audácias da arte moderna, que também justapunha o que o espaço histórico, o tempo e a normalidade separavam.
O interesse dessa posição para os países periféricos salta aos olhos. Uma vez ligada por dentro ao progresso dos países centrais —o seu polo oposto—, a condição de quintal do mundo muda de estatuto e ganha uma saliência inédita, tornando-se parte representativa e polêmica da atualidade, com direito à palavra.
A transformação é vertiginosa. De vestígios de um passado em vias de extinção, pitoresco no melhor dos casos, esses países relegados passam a problemas modernos, instâncias dramáticas do presente desigual e combinado do mundo.
Tornam-se provas vivas do que, décadas depois, no âmbito do desenvolvimentismo em crise, se chamaria desenvolvimento do subdesenvolvimento ou reposição moderna do atraso, formulações que em um primeiro tempo chamariam à revolução, mas depois colocariam em xeque o sinal positivo do futuro (e talvez o otimismo revolucionário de Trótski).

No plano da cultura, situações que pareciam condenar intelectuais e artistas à marginalidade irremediável agora os trazem à primeira linha do debate sobre o rumo perverso tomado pela modernização. Também no plano da ação política e econômica, a articulação ao que é novo desbloqueia —para bem ou para mal, frequentemente para mal— a paralisia anterior.
Os graus de liberdade de políticos e homens de negócio, agora muito mais descolados de seu povo, se é que isto ainda existe, aumentam. Não obstante, o salto nacional à frente, possibilitado talvez pela ligação estratégica ao polo avançado, que funciona como uma alavanca, não desaparece do horizonte.

Para quem queira ler mais História da Revolução Russa de Trotsky; George Novack e a Lei do Desenvolvimento Desigual e Combinado; e os trabalhos imperdíveis de Neil Davidson.

www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2022/07/tese-de-trotski-transforma-visao-de-paises-perifericos-como-quintal- do-mundo.shtml

3 thoughts on “Compreender o Mundo

  1. Cara Raquel, depois de ler o post deu-me vontade e ler o artigo referenciado, mas o link não encaminha. Como chegar lá? Obrigado.

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