Às Armas

explicação para os EUA terem a população armada parece-me insuficiente. Ela diz que a culpa é do lobby das armas e que se trata de uma “tradição” histórica revolucionária – a burguesia alcançou o poder e separou-se da casa mãe, inglesa, com a generalização do acesso a armas como ponto de honra. Uma espécie de – o Estado não deve ter o monopólio da violência. Falta-me compreender todos os contornos desta barbárie. Na Suiça e na Áustria há serviço militar obrigatório e na Suiça uma parte dos ex soldados mantêm armas em casa, mais de 2 milhões, segundo os media. Em Portugal os caçadores estão armados e são centenas de milhar. Ninguém resolve ir a uma escola e desatar aos tiros a crianças. Mas, por vezes, matam ou matavam a mulher ou o vizinho ou a si próprios. 

A minha opinião sobre isto tão pouco é conclusiva. Os Estados são quem mais mata, com guerras, com o monopólio da violência, e em ultima instância é impossível combater o poder desses Estados sem armas. Mas uma coisa é um exército de trabalhadores revolucionários, outra são trabalhadores dispersos armados. A arma não é só – mas também é – o debate do instrumento em si. 

Nos EUA, e isso tenho a certeza será só parte da explicação, porque o assunto me parece demasiado complexo, cruzam-se factores vários. O armamento da população em Estados mais reaccionários do sul não é da população, não é isso que conta, mas de milícias que contraditoriamente servem o Estado. E que ganham o eufemismo de associação legalizadas. Explico-me: os EUA são uma federação de Estados que há 60 anos estava em algo análogo a uma pré guerra civil (movimento dos direitos civis); a sua burguesia hoje (as classes sociais que detém o poder, quem é dono de fábricas, corporações e do Estado) está dividida e a qualquer momento a ameaça de secessão existe. Armar a população é portanto ter um exército permanente pronto para essa batalha. As milícias, de extrema-direita, são uma espécie de reserva estratégica da burguesia sulista, mas não só. Ninguém, nas classes dirigentes, parece acreditar que a federação deve ter o monopólio da violência. 

A isto se junta o neoliberalismo mais antigo (temo que caminhemos para lá) – enquanto a burguesia europeia esconde a sua origem criminosa, e finge que as “famílias são ricas desde sempre” não explicando o pecado dos primeiros capitais, “herdando” o que em tempos foi puro roubo, nos EUA os filmes idolatram a origem burguesa violenta , que é a mesma em todo o planeta, gangsters, ladrões, expropriações (de índios, de camponeses), sobrecarga fiscal, vendas de bens nacionais, etc, tudo o que é escondido na Europa como “herança herdada de patriarcas esforçados” é apresentado nu e cru com orgulho pelo seu complexo militar-cinematográfico (Hollywood). O resultado é que ser mau, isolado, ser o que ganha entre os ganhadores, “vencedor” contra os “falhados”, tudo isto é engolido por jovens desde tenra idade. Vencer esmagando. Junta-se ainda um terceiro factor – a guerra como forma permanente do Estado. O que escuta um jovem desde pequeno do seu Estado, dos seus media? Que expropriar é correcto, invadir normal, e quem não o faz é um “falhado”. É o Estado, de guerra permanente, que dá o exemplo. 

Neste quadro, e outros factores entrarão aqui que desconheço, de vez em quando chega-nos o massacre horrendo das escolas. Que não é mais, creio, do que o espelho de uma forma de organização social.

12 thoughts on “Às Armas

  1. Não creio que as “milicias” sejam um fenómeno especificamente sulista – se alguma coisa, dá-me a ideia que até serão mais tipicas do Oeste (talvez até bastante no Noroeste), o que acho que põe em causa muito do argumento que serão uma reserva estratégica da burguesia sulista contra o governo central

    • Concordo. Pela escassa informaõa que me chega pelos meios de comunicação, a sua geografia deve estar correcta, a formação de “milícias” é um fenómeno mais a norte ou NW.

      E acrescento: não são as armas que matam; quem mata é quem as maneja. O problema não está, pois, nas armas, mas sim na população. Acho que a Raquel tem muita razão no penúltimo parágrafo: como são educados desde crianças, que valores são transmitidos, que hierarquia de valores, etc.

    • Obrigada Miguel. Tb não creio, por isso escrevi que não é só o sul que quer continuar armado. Obrigada tb pelas explicações em baixo.

  2. Às considerações genéricas da Raquel gostaria de acrescentar alguns dados concretos:
    – Os EUA são o único país do mundo com mais armas que habitantes, 400M de armas contra 335 M de pessoas.
    – O nº de armas mais que disparou nas últimas duas décadas, passando de 4M em 2000 para 250M em 2021.
    – O país sofre de tiroteios em massa mais que qualquer outro:
    2018 = 118 tiroteios em massa
    2019 = 119 >>
    2020 = 114 >>
    2021 = 250 >>
    2022 = 137 >> ( e ainda vamos a meio do ano)
    – As armas foram a principal causa de morte de crianças nos EUA
    – Apesar dos massacres permamentes e previsíveis, nenhum político de topo fez alguma vez seja o que for para alterar a situação.
    Se qualquer pessoa pode adquirir uma metralhadora eufemisticamente chamada espingarda de assalto, então só pode acontecer o pior.

    • Uma coisa – os civis não podem adquirir ou andar com metralhadoras nos EUA; as chamadas “espingardas de assalto” como a AR-15 (provavelmente a arma mais usada nesses massacres) não são metralhadoras – só disparam um tiro por cada pressão do gatilho, não uma rajada de tiros (a AR-15 mais não é que a M-16 modificada para não disparar rajadas). É verdade que isso não as torna necessariamente menos perigosas, já que o dispararem tiro-a-tiro em vez de rajadas até faz com que o carregador demore mais tempo a se esvaziar (logo até pode permitir matar mais vitimas)

  3. O Miguel tem razão, mas convém lembrar que estão em voga kits que permitem transformar rapidamente armas de tiro a tiro em armas de repetição, para facilitar muito a vida aos amantes do tirinho fácil.

  4. Irónico a Raquel falar e escrever tanto a palavra liberdade e ser estatista. A pseudo religião mais perigosa da história. A crença na legitimidade da autoridade /estado. Infelizmente até há uma palavra que ilustra a afirmação anterior. Pesquise a palavra’ democidio’.

  5. O Sherpa deve ser anarquista. A problemática do estado deve colocar-se em outro patamar. A questão está em saber quem controla o estado, se os cidadãos e as comunidades ou se os oligarcas. Quando se fala de liberdade tem sempre de se esclarecer “liberdade para quem?”.

  6. Caro Alceu,

    Retornei de Maceió no dia 30 – GOL via BSB com direito a atraso pra variar. Abri o volume da Amazon com os livros ontem e ontem msm iniciei leitura do Robinson. O Chomsky lerei a seguir. Contudo valeu, o meu muito obrigado !!! Oportunamente vc receberá um outro. Faz pouco tempo venho seguindo os posts dessa jornalista, Raquel Varela, e os seus textos tem me agradado bastante. A exposição e domínio da narrativa me faz lembrar Saramago Tomei a liberdade de te enviar esse último.

    Abraço,

    Simica

    >

  7. Já diz o povo “o fruto proibido é o mais desejado” e ” a ocasião faz o ladrão”. Pode parecer uma tentativa de explicação folclórica e simplista do trágico fenómeno da utilização generalizada, gratuita e banalizada das armas de fogo, mas o facto é que, por detrás dessa sabedoria popular está uma realidade que lhe deu origem. Paradoxalmente, a única forma de proteger a vida humana parece ser aquela que ao mesmo tempo a destrói e mata. Matar é tão vital como (sobre)viver. A vida foi transformada numa competição, num jogo entre winners e losers, onde não há lugar a um acordo de paz e de convivência saudável. Quando olho para trás, para o tempo da minha infância e da adolescência, pergunto-me como foi possível chegarmos a este estado de coisas e a este modo de vida/morte.
    Psicologicamente, para uns, o efeito de terem uma arma, seja ela qual for (um canivete no bolso pode ter o mesmo efeito), representa uma ambição de uma compensação material perante a falta de outros meios de sobrevivência e de afirmação, a falta de poder e de segurança; para outros, as armas são uma alternativa à falta de qualidades e poderes como a inteligência, o bom-senso, as ideias e os argumentos. Valores e atitudes de bom-senso e inteligência, como ser amigável, solidário, pacifico, tolerante, honesto, honrado, parece não estarem na “moda”. Ser-se bom não parece ser mais importante do que o quanto se pode ser melhor. A ideia de que ter uma arma, assim como ter muito dinheiro ou ter muita fama, é muito mais importante e até vital do que ser-se bom, boa pessoa, competente e obter sucesso e felicidade pelo seu trabalho e pelos sacrifícios que isso representa. Num contexto em que não há trabalho ou o mesmo vale pouco, abre-se o caminho para caminhos mais fáceis e rápidos de obter meios de sobrevivência, de poder e de domínio. Mostrar poder e medo através de uma arma acrescenta valor, força, poder, segurança e proteção de quem a usa, sejam indivíduos, grupos ou estados.
    Atualmente, perante as desigualdades e as injustiças sociais e económicas, os antagonismos sociais e políticos, os regimes opressivos e totalitários, a instabilidade, a insegurança, o medo e o terror, parece que vivemos numa anarquia, num lugar e num estado de profunda distopia. A defesa e o ataque andam tão intimamente ligados como a mão e o gatilho de uma arma – se for atacado, defendo-me, e defendo-me para não ser atacado. Ficção e realidade são uma e a mesma coisa, como se a ficção antecipasse a realidade e esta justificasse os meios da ficção. Costumo caricaturar a situação e dizer que não faltará muito para que numa mão tenhamos o telemóvel, e na outra uma arma, que por sinal são cada vez tão sofisticadas como os telemóveis. O Capuchinho Vermelho já não acredita na bondade do lobo, e por isso, agora utiliza uma automática….
    No caso concreto dos EUA, tenho-me esforçado ainda mais para compreender esta obsessão compulsiva bélica, e o que me parece é que, para além de tudo o resto de que se fala e se escreve, como a tensão social, deve haver uma explicação com base na sua herança histórica. A cegueira causada pela cobiça e ambição de quem pouco ou nada tinha de onde veio foi o gatilho para a conquista dos imensos territórios e das suas riquezas, para as lutas entre os nativos índios e o homem branco, a corrida ao far west e os bandos de pistoleiros. A sua história nunca teria sido contada se a pólvora e as armas não tivessem sido inventadas. Todo o poder e força, nomeadamente o domínio dos índios pelo homem branco, foram sistematicamente e brutalmente infligidos pelo recurso a pistolas, quer por particulares, quer pelos fora-da-lei, bandos organizados e pagos para roubar, violar, matar, aterrorizar e submeter pessoas e comunidades aos grupos e famílias poderosas e dominantes. Claro que, para alimentar o negócio do crime havia o negócio das armas. Tudo em nome de uma terra de oportunidades – onde tudo é uma “mina de ouro” – e de uma grande nação livre. Aliás, tanto os jogos virtuais como o cinema são um grande veículo de um sentimento heroico e patriótico de defesa da nação e da salvação dos outros, a perpetuando a ideia de que tudo o que é grande e poderoso (e por tudo e por nada!) só poderá ser conquistado pela força das armas, com frequente recurso à dicotomia loser-winner – ser loser é o pior que alguém pode ser, é uma desvantagem, uma vergonha e uma desonra para a família e para a nação, mas para se tornar um winner, é preciso arranjar guns e ser-se muito mau! Para orgulho da nação, todos, incluindo crianças, aprenderam a manejar e a utilizar armas – “That’s my boy/girl!” Sendo professora, nunca pensei viver para ver professores a usarem armas, como parece que vai acontecer no estado do Wyoming, o último bastião do indomável espirito do West!

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