“Guerra à Guerra”

Hoje perguntei a um grupo de jovens o que fariam se fossem mobilizados para a guerra, a resposta foi “já combinámos todos, partimos um braço no skate para não ir”. Estes dias tenebrosos, para onde os líderes dos impérios nos levaram, normalizaram a guerra como um acto viril, de coragem, em que os homens fortes ficam a combater e as “pobres mulheres e crianças são refugiadas”. Sempre me impressionou, antes desta guerra, quando se referia que as mulheres eram as principais vitimas da guerra, porque eram a maioria dos refugiados. Evidentemente, são mulheres porque os homens ficam nas guerras a praticar, assistir e ser alvo das maiores atrocidades! Eles, os homens, são as principais vítimas da guerra e sempre foram. Não são todos os homens, são os pobres que vêem no exército profissional a única forma de sobrevivência, são os mantidos na ignorância de um sistema económico que usa e abusa da pobreza de espírito, e são os filhos das classes médias/trabalhadoras, porque filhos de empresários, generais e accionistas nunca estiveram em risco.

Esta guerra – mesmo contra a mais básica mistificação e propaganda – não é diferente de todas as outras. Vende-se muita coragem, entrevistam-se voluntários, mas fazem-se leis para para mobilizar os homens à força, com leis de conscrição, que os proíbem de fugir. E cria-se um ambiente de perseguição aos que não querem ir para a guerra, acusando-os de cobardia ou traição à pátria. A pátria, esta ou qualquer outra, o que deu aos homens que morreram por ela? Com sorte, o nome num passeio, ao lado de uma estátua gigante de um General ou Presidente.

Um cadastrado por homícidio tatuado com uma suástica vai em missão “humanitária” para a Ucrânia, e os milhares que queiram de lá fugir não podem, não são entrevistados, não existem. E ainda lhes chamarão, sem pudor, “traidores à pátria”. Sem surpresa regressou neste mês, pela mão de democratas que ostentaram 30 anos pombas da paz, a necessidade urgente de “um exército europeu”, pago com a nossa saúde e educação, “ir para a Ucrânia combater”, regresso do “serviço militar obrigatório”. É só gritos de guerra, aqui e na Rússia, de quem nunca suja as mãos e mandam os outros lavarem-se em sangue. O cinismo encarregar-se-á de encontrar uma justificação para o injustificável.

As guerras são coisas de ricos, não as faremos por vós, dizia um cartaz de uma manifestação nos EUA. Que os jovens europeus vão todos andar de skate, e que sobretudo organizem a resistência ao militarismo, e renunciem a ser carne para canhão da economia de guerra é o meu desejo sincero. Guerras combatem-se com resistência política organizada democraticamente contra os reais fautores da guerra, foram assim as resistências na I e na II Guerra, uma guerra política e social contra a guerra económico-militar.

Guerras não se combatem até ao último homem dos filhos dos outros. Os homens, filhos de quem vive do trabalho, são as principais vítimas da guerra. Esperemos que sejam também, como tantas vezes foram no passado, os que lutarão contra as guerras. Viril não ir à guerra, é desertar, viril e corajoso é fazer greves que doam a quem faz a guerra, nobre é, como na II Guerra, parar fábricas e transportes; corajoso é lutar por saúde e educação contra orçamentos militares. É aí que reside todo o humanismo radical – é na luta contra as guerras, pela humanidade como pátria, entre iguais, que nos tornamos dignos de respeito dos outros. Trair a humanidade, embarcando no militarismo, aceitando o negócio da destruição, é um acto cobarde, de quem não se quer enfrentar com quem tem realmente poder.

5 thoughts on ““Guerra à Guerra”

  1. Boa noite.

    Em Portugal os “corajosos” desejam guerra… mas sentados no sofá a ver tv e borrados de medo, de máscara na cara, com uma farsa pandémica.
    Que povo mais idiota e imbecil este povo português!

    • Mas quem é que deseja a guerra?! O Chega (neonazistas, IL (neoliberais) P”C”P (social-fascistas) o PS”D” (os ditos sociais-democratas de direita) P”S” ( liberais), Livre (liberais), CDS (direita com tiques), e por fim os BE ( sociais-democratas)?

  2. A Raquel tem imensa razão. Os recordes de idiotice são ultrapassados todos os dias e já não há limites para o que se diga dos russos, da Rússia ou dos que querem manter algum bom senso. Agora vem Zelly apelar ao auxílio da NATO para defender a “liberdade”, ele que acaba de proibir quase todos os partidos. Este conceito de “liberdade” só pode levar-nos a questionar: liberdade para quem???

  3. Como sempre, a Drª Raquel diz tudo o que deve ser dito e da forma que, melhor, não seria possível. Efetivamente, o que está a acontecer na Ucrânia não é caso único na História, mas é dito e mostrado como se nunca tivesse havido outras guerras, igualmente absurdas, violentas e desumanas, como todas as guerras, como se a destruição de outros lugares e as vitimas das outras guerras não tivessem sido igualmente importantes e dignas, como se outras guerras nunca nos tivessem indignado e tirado o sono, como se o pior dos carrascos seja só o Putin. Acho que o mediatismo e a lavagem cerebral da comunicação social e das redes sociais nunca foi tão grande e resistente como o é agora, de tal forma que o que mais parece é uma campanha insidiosa de legitimação e glorificação da própria guerra e dos seus guerreiros quando não há entendimento entre lideres, povos ou nações. A guerra e as suas intenções não são menos graves e menos condenáveis quando se trata dos que contra-atacam. Se a Ucrânia andou pelo menos oito anos a preparar-se para aquilo que já era expectável, por que razão esse tempo não foi utilizado a encontrar soluções com outros países europeus para evitar esta tragédia? Por que razão só depois do mal previsto acontecer, de se ter permitido que milhares de seres humanos tivessem de fugir do seu país e outros tanto morressem, é que se lamenta e se suplica pela ajuda? E por que razão é que os outros países europeus, também sabendo dessa terrível possibilidade, não agiram para evitar esta guerra? Por que razão ficaram á espera, confortavelmente sentados nas suas poltronas, nos seus palácios e nas mediáticas cimeiras para agora virem aproveitar-se da desgraça dos outros e fazer apanágio de salvadores das pátrias alheias? A invasão da Rússia contra a Ucrânia não é a única a violar a Carta das Nações Unidas e o único ato de agressão e crime à luz do Direito Internacional. Todas as guerras violam todos os direitos! O direito a dizer não à guerra e sim à paz; o direito a recusar ir para a guerra; o direito a viver, a ter uma vida, uma família e amigos, a ter casa, trabalho, saúde, educação, felicidade, amor, dignidade, liberdade… Sim, tudo isso são direitos a ser livre! A guerra não é um meio feliz e seguro de lutar pelas causas humanas. A guerra é a antítese de tudo isso. A guerra é a arrogante e prepotente autorização dada por alguns senhores – os que ganham com ela – para causar a morte de outros, a destruição da vida dos sobreviventes, das suas cidades e países, e do seu futuro. A guerra é uma perversão dos valores da paz e da liberdade e não a justificação em nome desses valores.
    Por tudo isso, a guerra tem de passar a ser proibida e os fabricantes de armas deviam ser obrigados a mudar de vida, passando a cultivar terras, produzir alimentos, construir casas, escolas, creches, hospitais, parques e jardins, proteger mares, rios e florestas, contribuir para a vida e não para a morte, e permitir que o céu se mantenha azul, que o sol brilhe e que as nuvens sejam de chuva e não de lágrimas negras, de gases e fumos que transformam os dias de esperança em noites eternas de medo, terror e morte.

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