A Resistência à Guerra

Do meu livro Breve História da Europa sobre a resistência à I Guerra Mundial

“A partir de 1915, na pequena vila de Zimmerwald, na Suíça, reúne-se um grupo de dirigentes que opõe-se à guerra e tenta fazer do comunismo um movimento internacional. Entre 5 e 8 de Setembro de 1915, 36 delegados de 19 países estavam dispostos a lutar pela forma de revolução social contra a guerra, pela derrota das suas próprias nações (…) Cabiam em 4 carros. O manifesto é redigido por Leon Trotsky, e define as bases da luta contra toda a «união sagrada». Outro dirigente destacado, Christian Rakovsky, discursa no fim a favor de uma III Internacional, morta que estava a II Internacional ao ter levado os partidos dos seus países irmãos a pegarem em armas uns contra os outros.

A ideia de uma nova Internacional foi ao início mal recebida. Rakovsky vai ser caluniado como agente alemão. Mas 2 anos depois as frentes de guerra internacionalizam-se com o levantamento de motins em massa nos exércitos.

O historiador William Pelz argumenta que mesmo recorrendo à tecnologia a I Guerra pode não ter sido a mais mortífera mas o que «poderá não ter tido par foi o nível de oposição bélica colectiva a ela».

Nos EUA, Eugene Debs, um dos fundadores do mais igualitário sindicato norte-americano, os Industrial Workers of the World, conhecidos carinhosamente por Wobblies, mineiros, assalariados agrícolas, estivadores, marinheiros que fundaram em 1905, no dia 27 de Junho, um sindicato internacionalista, discursa no julgamento contra a guerra. É deles a origem da música “Solidarity Forever” , a mais conhecida música operária depois da Internacional . Preso, acusado de ter violado o Espionage Act, que proibia qualquer manifestação pública contra a guerra, Debs recusa defender-se ou ter testemunhas no julgamento: «Fui acusado de obstrução à guerra. Admito-o. Cavalheiros, eu abomino a guerra. Seria contra ela mesmo que estivesse sozinho…Tenho simpatia pelos que sofrem e lutam em toda a parte. Não me interessa sob que bandeira eles nasceram, ou onde vivem…» .

No Natal de 1914 as tropas francesas e alemães confraternizam nas trincheiras, e são penalizadas. Mas é só em Abril de 1917 que se dá o primeiro «Adeus às Armas» de massas da I Guerra Mundial – 68 divisões, nada mais nada menos do que metade do exército francês, recusam-se a voltar à frente: morte, agonia, piolhos, tuberculose, os trabalhadores, camponeses (agora soldados), estavam a enterrar-se vivos na lama e no sangue das trincheiras. A resposta do Estado foi esmagadora: 500 sentenças de morte e 49 execuções. Algumas unidades ergueram-se com a bandeira vermelha a cantar a internacional. Queriam marchar sobre Paris, gritavam «Viva a Revolução», «Viva os Russos!». Cantaram a canção de Craonne: «É em Craonne sobre o planalto, que devemos deixar a nossa pele (…), mas acabou, pois os praças Vão todos fazer greve» . Perto de Bolonha, em Étaples, uma rebelião de 100 mil soldados ingleses dura 5 dias – os oficiais britânicos usaram da política do «pau e da cenoura»: fizeram concessões e executaram os líderes, para pôr fim à rebelião.

Depois do desastre militar de Caporetto, a 24 de Outubro de 1917, há uma «greve militar», soldados italianos amotinaram-se em massa. A Espanha era neutra mas vive uma greve geral de 15 a 18 de Agosto de 1917, na sequência, o dirigente histórico do PSOE, Francisco Largo Caballero, será condenado a prisão perpétua.

As deserções em massa nos exércitos em 1916 começavam a minar a base nacionalista reaccionária das direções do movimento operário, forçado por isso a evoluir para posições pacifistas, e, nalguns casos, revolucionárias. Os povos estavam exaustos da guerra – no quadriénio da guerra multiplicam-se as aparições, a charlatanice, a superstição, a «religião emerge poderosamente como um instrumento de consolação» . E como um instrumento de “unidade nacional”. O culto de Maria vai fazer surgir em numerosas regiões da Europa aparições em toda a Europa, a mais famosa Fátima, em Portugal. Mais de 70 anos volvidos a frase de Marx sobre a religião ecoava em toda a Europa: «A religião é o suspiro da criatura oprimida, o ânimo de um mundo sem coração e a alma de situações sem alma. A religião é o ópio do povo”.»

Mas, na luta contra a guerra das guerras ergue-se a revolução das revoluções. A equação “nação é igual a Estado e Estado é igual a Povo”, que para o historiador Eric Hobsbwam foi o centro da constituição do nacionalismo burguês depois da revolução francesa , vai ruir aqui. A guerra agora não seria mais entre nações, mas entre o operariado, unido internacionalmente, contra as burguesias das suas nações. Contra a guerra imperialista, a luta de classes.”

2 thoughts on “A Resistência à Guerra

  1. A situação na Ucrânia não é paralela à da Primeira Guerra Mundial… Mas sim, à da Segunda.

    E a invasão militar da Ucrânia é tão legítima como foi a invasão militar da Alemanha, em 1945, para que se cortasse o Mal pela raiz.

    Nem uma palavra sua sobre os constantes ataques e bombardeamentos às populações das repúblicas populares de Donbass e sobre a natureza nazi do regime de Kiev.

    É profunda ignorância da sua parte?

  2. Parece-me profundamente estranho que a Raquel sublinhe (e bem) as várias revoltas dos militares durante a I Guerra e nunca fale dos militares portugueses que também fizeram o mesmo. Do mesmo modo, um dos motivos desses levantamentos, ou seja, a falta de pagamento do soldo, é igualmente silenciada no texto, em favor de outras motivações mais políticas. Esses desvios da verdade histórica eram perfeitamente desnecessários, creio.

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