Mães Paralelas

Fomos ver o último filme de Almodovar, creio, sem exageros, e evidentemente é uma apreciação com alguma subjetividade, que é uma obra prima. Está lá tudo – é uma história que casa organicamente a vida, entre a família e a revolução/guerra civil espanhola; o passado com o presente e o futuro; a subjectividade com as circunstâncias; a infinita beleza de gestos banais com as grandes decisões; o desvanecer estético das cenas como abertura para a transformação; e todas as personagens, muitas tão longe de qualquer militância política clichê, são revolucionárias, são personagens totais, têm nelas toda a condição humana, artistica e subjectivamente, porque todas dizem “Não”, um hino ao espírito de cisão, à rutura como condição para os encontros felizes; é um filme feliz, uma ode à vida que é um murro no Vox mas também nos falsos consensos, é um grito, sem gritos, contra a falta de memória mas também, nestes tempos sombrios, uma celebração do nascimento – tudo gira em torno da gravidez hoje e das valas comuns de ontem, da pulsão de vida contra a morte, da verdade contra a mentira, mas tudo dialecticamente envolvido em gestos por vezes quase imperceptíveis (a falange de dedo recuperada da vala e a metáfora com a organização fascista, é um momento de humor negro que teria dignidade para ficar na história do cinema, percebessem as pessoas o estado do mundo). Quando a morte ganha tanto espaço no pouco que resta das conversas reais Almodovar desenterra os mortos para celebrar a vida. E Penélope Cruz, superou-se, mais uma vez. Absolutamente maravilhoso. Mães Paralelas, não deixem de ver.

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