Um vírus eurocêntrico, com classe social

O princípio da precaução não se aplica à vacinação de grupos que não são de risco, mas aplica-se imediatamente aos países pobres a quem são fechadas fronteiras, ficando ainda mais à mercê das escassez de meios de produção essenciais à vida, incluindo medicamentos. O viés eurocêntrico e de classe da gestão pandémica pelos governos ocidentais é óbvio desde o início – enquanto um sector da classe média prega por teletrabalho e confinamentos, as classes trabalhadoras são enviadas para transportes superlotados e as fábricas, onde não têm que apresentar testes negativos, só o lazer lhes é confinado e vigiado digitalmente; enquanto os governos da Europa, apoiados nesta classe média, fecham fronteiras (uma medida que como vimos pela expansão imparável em semanas da Delta é de uma eficácia sem precedentes na história da epidemiologia…), os países pobres, sem vacinas, sequer para grupos de risco ou pessoal de saúde, vêem-se a braços com uma crise económica que os mata ainda mais à fome com o pomposo eufemismo de “crise de desabastecimento”. Hoje porém foi anunciado que o negócio das armas está de boa saúde, desconfinado, desavergonhado se mostra, já que cresceu na pandemia. Note-se – armas produzidas aqui, despejadas lá. e também sob o eufemismo de “crises humanitárias”. Creio – espero ter tempo para o desenvolver – que os três grandes efeitos desta gestão pandémica são o aprofundamento do nacionalismo, do autoritarismo nas democracias liberais, e a restruturação produtiva com a queda geral dos salários reais, incluindo no sector da saúde. Tudo isto feito com os operários europeus, os únicos com força para resistir a esta tríada maldita (sim, entre 20 a 30% dos europeus são operários) a trabalharem em aglomerados e cadeias de logística onde o contágio é altíssimo mas a estarem condicionados, proibidos ou persuadidos pelo pânico a não fazerem greves ou plenários “para evitar ajuntamentos”.

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2 thoughts on “Um vírus eurocêntrico, com classe social

  1. Concordo e não concordo consigo. “as classes trabalhadoras são enviadas para transportes superlotados e as fábricas, onde não têm que apresentar testes negativos, só o lazer lhes é confinado e vigiado digitalmente” Sim ” três grandes efeitos desta gestão pandémica são o aprofundamento do nacionalismo, do autoritarismo nas democracias liberais, e a restruturação produtiva com a queda geral dos salários reais, incluindo no sector da saúde.” Sim “os países pobres, sem vacinas, sequer para grupos de risco ou pessoal de saúde” Os países pobres são independentes e autodeterminados, maioritariamente têm governantes podres de ricos. Interferir com a governação desses países é ingerência e, pior, paternalismo, dos “velhos colonizadores”. Fechar as portas aos países pobres, serve para proteger as nossas vidas, tal como aconteceu nas famílias, desde o início da pandemia, Fecharam as portas. Se eu acho que todos deviam ter direito à vacina? Obviamente que sim, mas o problema é muito mais complexo do que simplisticamente atribuir a culpa aos europeus. O negócio das armas continua de vento em popa? Claro que sim. Mas já alguma vez viu acontecer o contrário? Todas as grandes crises e calamidades do mundo beneficiam sempre alguns negócios e pessoas. Grandes fortunas se fizeram à conta das duas Guerras Mundiais, Ou seja, nada de novo por aí.

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