“O Apocalipse num só País”

A URSS não resistiu ao impacto da crise económica e ao seu imobilismo burocrático. Colapsará em 1989-1991, demonstrando que a sua economia estava mais inserida no mercado mundial do que se supunha[1]

Com humor, num texto jornalístico que já aqui citámos, Gabriel Garcia Márquez descreve a economia soviética onde havia a bomba nuclear mas não havia sapatos para todo a gente: «Se alguma vez um turista ocidental se encontrar em Moscovo com um rapaz nervoso e desgrenhado que diz ser o inventor do frigorífico eléctrico, não deve tomá-lo por um embusteiro ou por um louco; é muito provavelmente verdade que esse miúdo tenha inventado o frigorífico eléctrico em sua casa, muito tempo depois de ele ser um artigo de uso corrente no ocidente».[2]

Anquilosada numa estrutura de economia rígida, com anemia demográfica[3], sem liberdade de inovação e reflexão científicas. E com os planos – em, grande medida burlados (Victor Serge comentará no seu romance O Caso do Camarada Tulaev, ironicamente, que os únicos planos que se cumpriam na URSS eram os “planos de detenções”[4]) – a centrarem-se nas grandes indústrias pesadas; menosprezando a produção de bens de primeira necessidade. E, finalmente, com um regime ditatorial, sem liberdade de expressão, reunião ou associação, a URSS não sobreviveu, a si própria.

O primeiro sinal evidente chegou do colapso da economia Polaca, a maior crise que um Estado tinha vivenciado desde a Guerra. O PIB caiu 2% em 1979, 8% em 1980 e 15-20% em 1981[5]. Já no final dos anos 60 e 70 várias manifestações e greves põem em causa o regime na Polónia. Desta vez, porém, a firmeza popular foi imparável. Organizados em comités, pequenos círculos de militância operária, que rapidamente se transformam em conselhos, os trabalhadores polacos, com epicentro nos estaleiros navais da cidade de Gdansk, iniciaram aquilo que Colin Barkler considera «o mais avançado movimento de trabalhadores do pós guerra», em que existiu dualidade de poderes entre Julho de 1980 e Dezembro de 1981. O «soviete» – um poder paralelo ao Estado Polaco – será constituído a partir de um sindicato, o Solidariedade,dirigido por Lech Walesa, electricista naval que em 1983 ganhará o Prémio Nobel da Paz. 

Tudo tinha começado, ironia da história, num boletim de um pequeno círculo de trabalhadores, o Trabalhador Costeiro. O Solidariedade, ao fim de um ano de existência, tinha delegados em 3500 fábricas e um milhão de membros[6]. A resposta do governo – liderado por Jaruzelski – foi a Lei Marcial inicialmente. Mas depois é forçado a negociar. O movimento tinha começado no Estaleiro Lenine. Não havia, contudo, entre a direcção maioritária do Solidariedade, nem o próprio Walesa, nenhum projecto estratégico de construção de uma economia socialista, e estavam comprometidos a não «deitar abaixo o Governo» numa «auto-controlada revolução»[7].

Paulatinamente o Solidariedade e os conselhos perdem força, e não vão ter nenhum movimento tendente a transformar o Estado. Ainda que se apoiassem num movimento de base de trabalhadores só equiparável (no pós-guerra Europeu) à revolução dos cravos em Portugal (1974-75).

A Polónia é o ponto de partida. Mas, com um efeito dominó veloz, todos os regimes do Leste, um a um caiem, no final dos anos 80 e início dos anos 90. Gorbachev em 1987 defendia a glasnost (abertura) e as reformas da Perestroika, e caiu, com uma «popularidade próxima do zero» 4 anos depois, em 1991. Uma onda sem precedentes de manifestações levou à queda da RDA. Em Leipzig, em frente da sede da Polícia Política gritava-se, «Nós somos o povo». Checoslováquia, Bulgária, Roménia…todos os regimes caíram. O último, a Albânia em 1991.

Este movimento popular sem precedentes foi rapidamente dirigido por uma mistura ecléctica de velha burocracia estalinista (transformada em novos senhores da propriedade estatal agora privatizada) com o liberalismo ocidental. 

Em Leipzig duas semanas depois do início das manifestações contra a burocracia («Nós somos o povo») a palavra de ordem já era outra: «nós somos um povo». A oposição não era já entre povo e burocracia, povo e capitalistas ou Estados, mas entre nações. Reunificava-se a Alemanha, paz entre classes. 

Uma acelerada restauração capitalista levou nas décadas seguintes, a maioria dos países da ex-URSS ou satélites, porém a situações de retrocesso violentas, pobreza, migrações em massa, queda abrupta do salário, queda na esperança média de vida. Uma parte destes territórios da Europa de Leste tornaram-se a “grande fábrica” de trabalho barato das indústrias alemãs. Em entrevista um ex-operário da Alemanha, em Berlim, em 2016 contou-me, rindo tristemente sobre as manifestações de Leipzig, a seguinte piada sobre isto: «Nós somos um povo estúpido». Não era uma confissão extravagante. Ele reflectia o mal-estar geral destes povos que viram no socialismo realmente existente um tormento, mas constataram nas promessas ocidentais uma falácia. 

Democracia, bem-estar e livre mercado não eram almas gémeas. As revoluções políticas, conclui Chris Harman, de 1989-90 foram muito mais semelhantes às de 1830 do que a 1917 – isso «fica demonstrado pelo facto de (depois delas) as mesmas pessoas é que eram as donas das indústrias e dos bancos».[8] Pelz resume-o numa anedota: «Uma piada que na altura circulava na Rússia dizia que “o socialismo num só país” fora substituído pelo “apocalipse num só país”.[9]

Excerto do meu livro Breve História da Europa, Raquel Varela, Bertrand, 2019.


[1] Robert Kurz é um filósofo alemã que defendeu esta tese, a de que a URSS tinha a sua economia fortemente ligada ao capitalismo e que não suportou os efeitos da crise de 1981-84, ver Robert Kurz, O Colapso da Modernização, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1993, 2ª edição.

[2] Gabriel Garcia Márquez, Em Viagem pela Europa de Leste, Lisboa, dom quixote, 2017, p. 172.

[3] Hillel Ticktin, «Stalinism—its Nature and Role», In Critique Vol. 39 , Issue. 4, 2011, pp. 489-523.

[4] Victor Serge, O Caso do Camarada Tulaev, Lisboa, E- Primatur, 2016

[5] Colin Barker, «Poland 1980-81. The Self-limiting Revolution», in In Colin Barker (ed), Revolutionary Rehearsals, London/Chicago, Bookmarks, 1987, p. 169.

[6] Chris Harman, A People’s History of the World, London and Sidney, Bookmarks, 1999, p. 590.

[7] Chris Harman, A People’s History of the World, London and Sidney, Bookmarks, 1999, p. 590.

[8] Chris Harman, A People’s History of the World, London and Sidney, Bookmarks, 1999, p. 593. (Tradução nossa).

[9] William Pelz, História do Povo na Europa Moderna, Lisboa, Objectiva, 2016, p. 362.

4 thoughts on ““O Apocalipse num só País”

  1. Infelizmente, os factos aqui versados, embora verdadeiros, encobrem uma outra dimensão muito mais impactante e de importantes consequências.
    Apesar de a economia do bloco soviético ter algumas ligações ao capitalismo ocidental, elas não foram decisivas no colapso. O ponto decididamente crucial foi a corrida aos armamentos, nomeadamente a louca construção da enorme frota de submarinos nucleares, alguns deles verdadeiros gigantes dos mares e que custaram fortunas inenarráveis. Os próprios russos, conscientes da magnitude dos custos, chamavam-lhes eufemisticamente “peixes de ouro”. Ora, nenhum país, mesmo sendo uma superpotência, pode dar-se ao luxo de gastar quase metade do seu orçamento em armas, como acontecia na altura. Fatalmente, chegou o momento em que deixou simplesmente de haver dinheiro e a única solução foi começar a vender ao desbarato os activos públicos. É aí que surge a nova classe oportunista dos oligarcas prontamente ajudados pela finança ocidental, alguns dos quais acumulavam cargos na polícia política com as negociatas mais escabrosas. O povo da Europa de leste pagou um alto preço pela conversão ao capitalismo selvagem neoliberal.

  2. “Este movimento popular sem precedentes foi rapidamente dirigido por uma mistura ecléctica de velha burocracia estalinista (transformada em novos senhores da propriedade estatal agora privatizada) com o liberalismo ocidental.”

    Há um muito conhecido ex-agente dos serviços secretos russos, autor de bestsellers internacionais, que tem repetidamente denunciado que, a destruição da União Soviética (e restante Bloco de Leste) foi propositadamente causada por esses mesmos burocratas, aliados nos bastidores com os liberais ocidentais.

    h*tps://twitter.com/search?q=nomenclatura%20from%3AEstulinDaniel&src=typed_query

    Pois, a nomenclatura soviética que se tinha tornado muito corrupta[*] estava limitada no quanto podia usufruir de tal corrupção, por não ser detentora dos bens que geria. E, com a privatização da Economia que houve, passou então a poder usufruir muito mais da riqueza que geria, ao ponto de terem surgido os famosos oligarcas russos, com enormes iates e afins.

    Ou seja, foi exactamente para que se pudesse tornar rica, é que a própria nomenclatura engendrou, desde dentro, a implosão da União Soviética. Tendo isto sido a implementação de algo que começou a ser planeado no final dos anos 60 – e tendo, por isso, a Queda da União Soviética tratado-se, na verdade, de um Golpe de Estado camuflado e silencioso que ocorreu.

    h*tps://blackfernando.blogs.sapo.pt/a-tao-falada-guerra-fria-foi-em-grande-121284

    Felizmente, a experiência socialista na Eurásia, com todos os seus defeitos, deixou marcas suficientes para que muita gente, ainda hoje, consiga ver a diferença para pior que ocorreu, com a mudança para o Capitalismo.

    O ser humano não é perfeito. E, como tal, todas as construções humanas correm o risco de não serem também perfeitas – e raramente se consegue fazer algo realmente bom, ou óptimo, logo à primeira. Portanto, que se aprenda com os erros do passado e se tente novamente, com uma nova versão melhorada (“União Soviética 2.0”, como dizem alguns) em que se mantenham as qualidades e se eliminem os defeitos.

    E, que não se fique por aqui e se mantenha este espírito de constante correcção dos eventuais defeitos, tal como se faz com as diferentes versões dos programas informáticos, que vão sempre sendo também melhoradas e se vão adaptando às novas circunstâncias.


    * (razão pela qual chegou a haver uma algo famosa revolta no navio “Storozhevoy”: h*tps://en.wikipedia.org/wiki/Soviet_frigate_Storozhevoy)

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