2 thoughts on “Palavra de Honra

  1. Raquel Varela e Joel Neto, adoro as vossas conversas! Neste caso, retive dois aspetos que me parecem muito importantes: as dicotomias “consumo/consumidor” e “produção/produtor”, “consumidor qualificado” e “consumidor desqualificado” pela Raquel Varela, e arte/cultura vs entretenimento pelo Joel Neto. Ainda sublinho a dicotomia entre a arte popular rural vs arte da cidade, sendo esta normalmente considerada erudita, talvez por razões de maior oferta pela proximidade dos locais onde se concentram mais pessoas, o que não quer dizer que os eventos culturais a que assistimos nos meios mais rurais não tenham também o seu mérito e qualidade. Eu vivi no campo quando era criança, adolescente e parte da minha juventude, e lembro-me de fazer peças de artesanato com os mais velhos para vender nas festas populares, de assistir ao teatro de fantoches, de ler livros da biblioteca ambulante e de ir ao circo! O problema é que todas esses atos e manifestações de modos de vida e de cultura das pessoas quase desapareceram com a industrialização e a produção em massa ditada pela sociedade de consumo rápida, barata e descaracterizada, bem como com a utilização das tecnologias modernas de informação e comunicação virtual e à distância. A oferta cultural é tão grande e dispersa, e ao mesmo tempo tão concentrada em meios e locais que não são acessíveis à maioria das pessoas, que parece ter-se banalizado e ao mesmo tempo ter “engolido” muitas das atividades culturais que, ao contrário do que parece ou do que muitos pensam, continuam a ser das melhores criações artísticas e culturais da Humanidade.
    Contudo, na minha opinião, não me atrevo a dizer que as várias formas de cultura atual, pelo menos como as conhecemos hoje, não sejam boas formas de cultura, mas julgo que estarão sempre condicionadas pela perspetiva do “consumidor”, pela sua capacidade económica, pela perspetiva do “produtor”, pelo público-alvo e pelo objetivo com que “produz” um evento cultural ou um espetáculo, seja ele qual for. A cultura de “rua” ou do “bairro” pode ser, e é muitas vezes tão boa como a cultura de uma sala de espetáculos, podendo ser erudita ou mais popular/folclórica, para um certo tipo de público mais “entendido” e até elitista, para elevar a mente e o espirito, mas sempre com o propósito de divertir, para libertar tensões, medos, desmistificar ideias e pré-conceitos muitas vezes na base dos preconceitos existentes nas sociedades atuais. Lembro-me de ter assistido a uma peça de teatro, um ano antes da pandemia, no verão, na velha escola primária na aldeia do meu marido, por um grupo de jovens e menos jovens amadores, aos quais faltava o dinheiro (os subsídios eram só para os grandes e famosos), mas não a vontade de fazer teatro, e de ter ficado maravilhada com o talento do grupo, a sua versatilidade no desempenho dos vários papéis, a habilidade que demonstraram em produzir os seus próprios cenários e adereços, e com a peça de teatro, claro, que pretendia satirizar justamente várias figuras da sociedade, desde a política e a economia, passando pelo futebol, até aos próprios atores! Como devem calcular, o público era maioritariamente composto pelos aldeões mais velhos e apenas algumas pessoas de meia-idade, como eu, e alguns jovens e crianças que lá costumavam passar as férias de verão. Nos meios e entremeios das boas gargalhadas, a atenção e o interesse do público era tal que me lembro de um garoto desatar aos berros no largo da escola porque a avó não lhe deu atenção quando ele lhe foi pedir dinheiro para um “chupa”. Ninguém lhe deu ouvidos!
    Efetivamente, concordo com ambos quando destacam em comum a diferença entre o empobrecimento e o enriquecimento da cultura das pessoas. E é justamente aqui que eu gostaria de deixar a partilha da minha opinião. Como diz o Joel, eu também nunca separei Cultura de Educação, e são aliás dois dos temas face aos quais sou muito sensível e que muito aprecio. Costumo dizer que trabalho na Educação e tenho prazer na Cultura, porque sem trabalhar a Educação a Cultura dificilmente sobreviverá, ou pelo menos será pouco valorizada. Sempre achei que ambas são as fundações da riqueza das sociedades e dos países, e não me refiro apenas ao melhor grau de qualificação profissional ou técnico das pessoas no desempenho das suas funções ou profissões, resultando numa maior e melhor produtividade e qualidade dos serviços. Refiro-me sobretudo ao contributo da educação e da cultura para a abertura das mentalidades e dos horizontes, da capacidade de pensar, refletir, questionar, agir, inventar, criar, produzir e do querer aprofundar o conhecimento, valorizando a experiência e a experimentação, errando e aprendendo a corrigir o erro, para evoluir no sentido da mudança. Depois, no confronto e na partilha das ideias e das experiências aprendemos a conhecer os outros, a compreender melhor as diferenças, fomentando a maravilhosa capacidade humana para a adaptação, a empatia, a tolerância e o respeito pelo outro. Por isso, quanto maior for o interesse, a vontade política e o investimento humano e financeiro na formação desses pilares – na família, na escola, na universidade e em todos os agentes com responsabilidades educativas e de formação de toda uma sociedade – melhores pessoas e cidadãos teremos e, consequentemente, uma economia mais fortemente sustentada e uma qualidade de vida mais justa e equilibrada. E aqui sim, estaríamos a falar de enriquecimento e não de empobrecimento cultural. Mas será nisto que os nossos lideres e governantes estão verdadeiramente interessados? Claro que não! Eles querem-nos pobres e brutos, porque quanto mais pobres, mais dependentes dos ricos e das suas migalhas, e quanto mais brutos, menos capazes de pensar. Basta ver o peso que a Educação e a Cultura têm nos Orçamentos do Estado para compreender que o principal objetivo para a Nação é a formação de “manadas” e de “rebanhos” prontos a obedecer, sem questionar, sem filtrar, sem exigir qualidade, cabisbaixos, resignados, como peças formatadas à mesma medida na linha de montagem para “encher chouriços”.
    Atualmente, orgulhamo-nos e gabamo-nos muito de ter acesso a tanta informação, e de facto nunca isso foi tão possível como agora, mas informação não é o mesmo que conhecimento. A informação pouco vale se não for compreendida com a experiência e a experimentação, com a prática e a produção. É verdade, Drª Raquel Varela, eu aprendo formação musical e toco violino, não para ser violinista como muitos que conhecemos, mas porque gosto muito de música, e aprender e tocar o violino permite-me encarar e sentir a música de uma forma ainda mais intensa e completa, ao mesmo tempo que valorizo cada vez mais a importância que a música tem na qualidade de vida das pessoas, e que certamente teria na vida daquelas que nunca experimentaram o prazer de aprender e tocar música. Infelizmente, em Portugal, as políticas educativas não têm por base essa filosofia pedagógica, formativa e cultural. Se por um lado, as áreas do desenvolvimento cognitivo, artístico e do conhecimento como as artes plásticas, a música e a filosofia, e do desenvolvimento físico e motor como o desporto, deveriam ser parte integrante obrigatória do currículo escolar nacional desde a infância, e durante toda a escolaridade obrigatória, por outro lado, o que “matou” a exigência, a eficiência, a qualidade, o rigor, o resultado e mérito pelo esforço e pelo trabalho foi sobretudo a obrigatoriedade da escolaridade até ao 12º ano ou 18 anos, e para que isso se concretizasse, definiram-se “aprendizagens essenciais”, que significam o mesmo que os anteriores “objetivos mínimos”, o que significa que basta todos atingirem os “mínimos” (seja lá isso o que for…) para passar de ano! Sim, o abandono escolar diminuiu drasticamente e o sucesso escolar nunca foi tão alto na maioria das disciplinas e escolas, mas a iliteracia e a ignorância cultural nunca foram tão baixas! É um paradoxo, mas que só é explicável pelos objetivos pretendidos com as avaliações internas e externas que são feitas à medida. Quando o que mais importa são os números de sucesso e a quantidade de fundos comunitários recebidos a troco desses números de sucesso, as pessoas e a sua formação passam a valer o mesmo que meros números e estatísticas, apenas o suficiente para passar no “exame final” da Nação.
    De uma forma geral, da minha experiência com pessoas de várias idades, profissões e grupos sociais, em Portugal, a ideia com que fico é a de que ser-se culto(a), intelectualmente erudito(a), ter curiosidade pelo saber, ambição em evoluir no conhecimento mais aprofundado das coisas, gostar de refletir, pesquisar, ouvir outras pessoas igualmente interessadas e interessantes, discutir assuntos para lá da banalidade e superficialidade, gostar de ler, escrever, apreciar boa música, aprender música e tocar um instrumento musical, aprender dança, ballet, ir ao teatro, a exposições e concertos, viajar para conhecer outras pessoas e modos de vida, e ter boas “notas” na escola parece ser sinónimo de mania de superioridade e de elitismo intelectual. Na escola, os melhores alunos são muitas vezes vítimas de bullying ou de outras formas de gozo, e os maus da turma é que são os heróis. Até compreendo por que é que isto acontece, e convém realçar que as atuais leis e regulamentos que nelas se baseiam têm tudo para proteger os maus e esquecer os bons. Para além disso, como diz a Drª Raquel Varela, somos treinados para sermos mais “consumidores” do que “produtores” de cultura, como somos mais consumidores de tantas outras coisas do que produtores das mesmas. Por isso, não admira nada que o que mais se vê e se ouve seja a cultura estrangeira importada para as massas, principalmente cinema e televisão, via online ou streaming, em toda uma panóplia de gadgets – Smart TV, tablets, PC, Mac, telemóvel, consola de jogos, etc. – porque é rapidamente acessível, dá menos trabalho e sai mais barato. O fenómeno até pode ser global, tal como com a junk food, mas pelo menos sejamos capazes de distinguir a boa cultura da junk cultura.

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