Um País Chocado com uma campanha difamatória

Escrevo este texto porque uma jornalista contactou-me a propósito de “milhares de caracteres” de artigos “publicados por mim em capítulos de livros, ou livros”. Sublinho, porém – não tomem este caso como o de todo o jornalismo, temos excelentes jornalistas e muitos em choque com esta campanha, que fizeram questão de subscrever a carta pública em minha defesa e de me escrever pessoalmente. Escrevo a todos os que me leem, criticam com diálogo, e que me merecem o maior respeito.

Três notas rápidas: legal, ética, e mais importante, no fim, a substancial – uma campanha difamatória que, em três semanas, ganhou contornos de campanha pública e privada de terror.

Ter um artigo científico publicado também em capítulos de livros não só é prática comum, legal, ética corretamente, como útil cientificamente. Qualquer autor com uma obra publicada tem dezenas de trechos de textos republicados em capítulos de livro ou em livros seus. Ou artigos inteiros publicados em livro.É legal. Os autores são donos dos seus textos, publicam-nos onde querem. Isto é banal – nos mais destacados cientistas nacionais e internacionais da minha área é generalizado. Ninguém recebe por republicações direitos de autor.

Há muitos dos autores, sobretudo os mais velhos, que têm mesmo em revistas científicas, até 3 e 4 vezes o mesmo artigo. O que não constitui crime. Recentemente estas revistas começaram a impor que o texto não deve ser publicado noutras, e, portanto, na geração mais nova é mais raro haver republicações em revistas. Penso que não tenho, em 70 artigos, nenhum integralmente repetido, e se tiver partes é em menos de 20% dos artigos. Por exemplo, caracterizamos a população de Portugal e repetimos essa parte em dois artigos distintos; o contexto do 25 de Abril, etc. Se eu quero falar de comissões de trabalhadores, introduzo o mesmo contexto para falar de educação no 25 de Abril. É legal, normal, não há notícia alguma.

É legal, mas será ético?

A importância disto num júri de concurso é nenhuma. Acham mesmo que a função de um júri académico é contar artigos e caracteres? Para isso bastaria um computador ou uma secretária.Um CV não se mede a metro, nem ao quilo. Evidentemente que, como pendia sobre mim a acusação ignóbil de ter duplicado as minhas publicações, eu tive que fazer a discussão nesse campo, mas um CV não é, nem nunca foi isso. Em júris muito competitivos o autor é obrigado a selecionar 3 a 5 artigos, é assim na FCT também. Nos concursos para a carreira docente somos obrigados a entregar 5 obras integrais para o júri ler. O CV pode demonstrar que publicou muito ou pouco, em boas revistas ou não, se é um autor muito lido ou não, mas a qualidade do trabalho só pode ser avaliada lendo textos na totalidade. Em alguns concursos que fiz como investigadora visitante nem sequer tive que entregar o CV – ninguém vai ler 115 páginas e contar artigos!– mas apenas selecionar 5 páginas dele, um projecto, e entregar 5 livros na íntegra, que o júri lê. É isso que faz. Não conheço concursos destes sem entrega obrigatória de obras. No Brasil junta-se ter que dar aulas públicas – aqui, na Agregação, também. Ou achavam que os júris não sabiam distinguir obras de republicações?

Há problemas éticos a debater?

Por exemplo, uma jornalista achar que se pode substituir a um júri nomeado pelo conselho científico é um gravíssimo problema ético – querer fazer de justicieiro e substituir-se aos órgãos científicos é grave. Andar a contar caracteres do meu CV que foi defendido com 7 catedráticos especializados, é grave, e lamentável. É como a jornalista pegar na bula de um medicamento e ir para os jornais dar lições de medicina. Se não fosse trágico, era cómico.

Por exemplo, terá escapado à jornalista que o meu CV com “milhares de caracteres repetidos” foi selecionado pela direção do IHC entre os 15 melhores, entre 400, para a avaliação do próprio IHC junto da FCT? Informação que nunca lhes chegou, de tantas que chegaram sob suposto anonimato.

Há muitos problemas éticos nos CVs hoje. Creio que não são os meus. Por exemplo, há quem tenha feito o doutoramento e depois disso não investigou nem inovou mais, isso configura auto plágio, mas mesmo assim não é ilegal, ainda que cientificamente mediocre. Há quem use uma pesquisa e a salamize (parta em bocados para dar muitas publicações). É altamente questionável, também, que estejamos a ceder os nossos textos e direitos a revistas que depois proíbem a sua cópia noutra revista e vendem os nossos direitos sem nos pagar, ganhando milhões – isso, sim, é generalizado. É o problema do produtivismo, “publique ou pereça”. Contra tudo isto tem havido uma política de open access cada vez maior, a que aderi com entusiasmo. Por isso a jornalista pode ler “milhares de caracteres repetidos” meus em acesso livre. Aliás, quando me ligam e pedem um texto digo logo sim: onde quiserem publiquem, e em acesso aberto, sem me pagarem nada.

Há mais de 200 académicos do mundo inteiro chocados com a campanha de difamação, que deram o nome (não são anónimos) em defesa do meu percurso académico, dezenas são chefes de departamento e editores de revistas científicas. Há já uma parte do país perplexa com a violência e a barbárie desta perseguição, andaram atrás dos meus editores, colegas estrangeiros. Já ninguém anda a debater o meu CV, nunca foi assunto, – aliás o mesmo só pode ser debatido entre especialistas, porque os outros não fazem a mais pequena ideia do que estão a falar. Nas minhas 115 páginas de entradas de CV há uma entrada que marca a minha carreira como historiadora, porventura mais importante que todas as outras, A História do Povo na Revolução Portuguesa, é uma obra publicada em várias línguas, debatida, lida e estudada em Universidades várias na Europa. Em Portugal sou contactada pela jornalista para debater a minha pesquisa inédita sobre o 25 de Abril? Não – para contar caracteres. É risível. Decadente. Revela uma parte do um país carcomido.

Estamos perante um inequívoco ataque ad hominem, uma bola de neve irracional. Não me intimidam. Mas era bom que percebessem que isto é uma vergonha pública para quem promove e alimenta esta irracionalidade. Sim, a maioria do país não está a pensar no meu CV, está chocada com o que isto significa porque demonstra que há nichos de decadência democrática na Academia e na Imprensa, que usam métodos de terror para disputarem lugares. Não há memória em Portugal de uma campanha desta natureza contra uma mulher, académica, figura pública. É ignóbil. Usar de campanhas públicas difamatórias contra quem está a prestar concursos em processo de avaliação é repugnante. Usar do terror – supostos testemunhos de alunos, até um morto! – assediar-me, como stalkers há 3 semanas, a mandarem-me mensagens, é digno de chefes de campos de terror.

O país está chocado. Não com o meu CV – que demonstra muito trabalho colectivo e um certo excesso de trabalho individual, pouco salutar para mim. O país está chocado com a quantidade de meios usados nesta campanha difamatória. Uma mediocridade, assente na total ausência de respeito pelas instituições e pelo Estado de Direito.

4 thoughts on “Um País Chocado com uma campanha difamatória

  1. Um ataque desprezível por parte de gente (para não dizer canalhas) que estavam aguardar qual seria a melhor altura para caluniar uma intelectual mulher, como é, a Dr. Professora Raquel Varela. E que sempre teve a coragem de dizer o que pensa, e com o currículo invejável, que muitos dos seus inimigos não têm, A Dr. Professora Raquel Varela merece da nossa parte, o nosso maior apoio, porque além de ser mulher, mãe e esposa, é também uma pedagoga…

  2. Boa tarde Raquel Varela.
    Tenho acompanhado de perto esta investida contra o seu bom nome, percebo e reconheço-me nas suas posições. Contudo parece-me importante que não se perca o foco do perigo que existe nisso para a democracia e liberdade de expressão de um povo. A subversão dos factos, a censura e os ataques ad hominem escondem esse maior desígnio.

  3. A campanha negra continua na “Sábado”, porque o “Público” daria demasiado nas vistas. Sai em outro lugar para dar ideia no leitor que são fontes diferentes e independentes. Se são vários, tem de ser verdade. A próxima sairá noutro lugar. O título é “inferno laboral” que é um modo de desacreditar o seu trabalho como historiadora do mundo do laboral, não é ingénuo. Pelo que vi, um dos jornalistas assina “Markus”, o que é espantoso. Li há bastante tempo o livro, do que me recordo trata-se de um rol de factos, cronológico, sobre as greves e manifestações sociais. Não existem direitos autorais sobre factos históricos nem sobre leis naturais. Não se é obrigado a citar ao dizer que houve um motim operário em Lisboa no tempo de Afonso Costa, que na semana passada ocorreu um furacão na flórida, ou que havia uma junta em Burgos na guerra civil de Espanha. Apenas existem direitos autorais quando se interpretam os factos históricos, quando aos factos somamos algo significativo nosso. Assim como nas leis naturais: não é necessário referenciar os “Princípios Matemáticos de Filosofia Natural” de Newton quando se disserta sobre as leis da gravitação. Se não fosse trágica toda esta campanha, daria um bom debate intelectual sobre os limites da referência autoral. Seria oportuno que existisse uma contra-investigação jornalística, de jornalistas sobre jornalistas, pois o judiciário é lento. E seria muito mais explosiva, imagino, que a própria campanha em curso.

    Creio que a situação, penosa em termos pessoais, poderia servir para uma reflexão crítica do jornalismo no país.

    Somo a minha solidariedade às muitas que tem recebido.

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