“Raquel Varela invade Inatel”

“Raquel Varela invade Inatel” – ou do humor como antídoto da barbárie

Uma campanha difamatória vive de alimentação constante de rumores, testemunhos anónimos, até já de um testemunho de uma pessoa morta (se tivessem sido educados pelas minhas avós garanto-vos que pensavam duas vezes antes de ter um “testemunho anónimo de um morto”), bufos, suposições etc. Há cursos e agências de comunicação especializados nisto, conheço alguns dos actores bem de perto em Portugal. Por aqui chama-se “campanha negra”, é assim que é pedido quando é encomendado, e tem selo de produção profissional. Se há quem lhe dê abrigo em jornais, a responsabilidade é destes.

A ideia não é invocar o Estado de Direito – uma campanha difamatória existe justamente quando não existe Direito -, mas lançar um clima de suspeita, intimidando o alvo, é um processo de bullying que visa desmoralizar o adversário. Não tenho contribuído para este processo nem o vou fazer com ping pong de respostas, porque somos adultos, a esta altura lê quem quer, o que quer. Nem Salazar se lembrou de usar um testemunho anónimo de alguém que morreu, creio – se isto não chegou para perceber com que gente estamos a lidar é porque não querem compreender.Colaboro com a minha Instituição, prestando todos os esclarecimentos em sede própria, e assim o tenho feito com toda a lealdade. Não funciono sob ameaça de escândalos em alguma imprensa, não me intimido, e acho que isto é uma ameaça a todo o sistema académico, e não a mim particularmente.

Se a ideia é que eu deixe de trabalhar, hoje passei o dia em reuniões de trabalho, até um bom e velho almoço português de trabalho, como se sabe a melhor mesa de reuniões em terras lusas. Nunca respondi na vida por nenhum inquérito por assédio laboral, nem algo sequer vagamente semelhante em qualquer sede de inquérito. Como a nota da Reitoria faz saber nunca respondi a nenhum procedimento disciplinar. Mas sabem uma coisa? Há colegas que respondem, muita gente séria respondeu, isso é matéria interna às instituições e não areia de telenovela de má qualidade, e ranking de partilha de notícias. Porque passou por aqui, neste canto da Europa, também a revolução liberal, e os pelourinhos hoje são lugar de passeio de pombos. Os seres humanos deixaram de os frequentar e de se submeter à queima pública, sob palmas, uivos e baba – os que antes iam à praça ver fogueiras de bruxas hoje querem vender o que acham que são notícias, há quem queira ler. Não contam comigo.

Tudo o que envolva ataques ao meu bom nome é seguido em sede própria de Direito, já que este clima de terror não me visa atingir a mim, mas a todos os académicos que prezam o seu trabalho.

Tenho no meu cardápio em 12 anos de docência em várias instituições nacionais e estrangeiras dezenas de testemunhos, muitos dos quais nas suas teses, escritos, da relação que me norteou com os alunos e deles comigo. Tantos deixaram-nos aqui estes dias, com nome completo, sem anonimato. Isso não dá notícia, porque nestas campanhas não estamos no campo da informação mas da ilegalidade difamatória.

Agora para algo sério. Confesso: dei dentadas no meu irmão, em pequena – que faziam parte do manual de defesa de irmã mais nova; coloquei pastilha elástica na fechadura de portas; toquei a campainhas e fugi, e lancei dezenas de balões de água da janela, mesmo fora da época oficial do Carnaval.

A maior tropelia que fiz na vida foi na Zambujeira, agora já se pode contar. Éramos um grupo de 30, sempre os mesmos, desde crianças. Crescemos lá, íamos à pesca, à lajinha dar mergulhos, aos alteirinhos namorar, apanhar isca para os pais pescarem, caçar grilos nas sardinhadas, e claro, andar a cantar com o Toino Carangueijo. Uma espécie de 30 Tom Sawyers à solta. Todos mais ou menos filhos de um grupo de amigos, uma comunidade de gente em geral progressista e divertida, que se reunia por ali de julho a setembro. Um dia viemos todos da discoteca, entre os 14 e 17 anos, algo por aí, e fomos dar um mergulho vestidos ou nus, numa piscina de uma casa, de um dos amigos dos nossos pais, às escondidas. Andámos nisto vários dias, ele, que era um coração bom, assim que ouvia barulho acendia a luz da piscina para nos dar tempo de fugir. Um dia fartou-se, chegou lá, estávamos 30 dentro da piscina, sem saber o que lhe dizer, ele olhou para nós, nós em silêncio – todos a fazer contas às repreendas que íamos levar – e perguntou com um ar muito sério e sincero: “Mas vocês pensam que isto é o Inatel?”. Rimos sem parar, ele queria ficar sério, e metade dele estava zangado, continha também o riso, ninguém conseguia parar de rir. Os nossos pais, que se reuniam no largo, no café Rita, preparados para se chatearem connosco, quando contávamos a cena riam-se incontroladamente. Deixámos de ir ao “Inatel” e ainda hoje nos rimos daquela cena.

Creio que pode dar uma gorda: “Raquel Varela invade Inatel”.

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5 thoughts on ““Raquel Varela invade Inatel”

  1. Definitivamente o que me parece é que já é mais do que tempo de deixar a cãzoada a ladrar até que se canse e não perder mais tempo com um tipo de gentinha que, não sabendo mais o que fazer, apenas se ocupa em criticar quem anda de facto a fazer coisas. Só quem nada faz é que pode estar acima das críticas (ou abaixo, como queiram).

  2. Genial! Que bofetada de luva branca! Adorei a gorda! Rimos todos cá em casa, porque isso sim, é que é uma história interessante, divertida, repleta de humor, e melhor ainda, fez-nos recordar os nossos bons velhos tempos de meninos e meninas traquinas, de mentes sãs em corpos sãos! E claro, nada que se compare a esta nova geração de betinhos mimados que acham que são os donos disto tudo, os especialistas, e que podem fazer o que quiserem com as vidas e o trabalho daqueles que lhes deram as verdadeiras histórias, mas com as quais não sabem o que fazer, nem mesmo acho que as compreendem!

  3. Estamos num País do vale tudo, até ofender. Sabemos que alguns estão dispostos a apagar uma luz quando ela brilha demais. É assim o mal de inveja, o de não ter, o de não viver essa luz. O caminho faz-se caminhando, siga que vai bem por esse caminho, o resto são ervas daninhas que mais não fazem do que apregoar a fofoca e a má língua. Força e animo que é preciso.

  4. Raquel Varela , prof. Dra.

    Campanha vergonhosa que espero tenha a devida reparação em sede de tribunal e em que os nomes dos bandalhos sejam conhecidos e bem publicitados (ainda que suspeite que já deve ter realizado as devidas movimentações para garantir o anonimato dos bandalhos talvez pela proximidade ao poder ou mesmo ao poder) .
    Obrigado pelo que tem revelado, partilhado, estudado e publicado.
    José Oliveira

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