Em defesa da historiadora e intelectual pública Raquel Varela

Mais de uma centena de académicos e intelectuais nacionais e internacionais assinam uma carta pública contra a campanha difamatória de que Raquel Varela está a ser alvo, em defesa do seu percurso académico e como intelectual pública. Entre os nomes, das Universidades de Lisboa, Oxford, Berkeley, Glasgow, Paris, Budapeste, Geneva, Freibug, Rio de Janeiro, São Paulo, Buenos Aires, contam-se alguns dos mais renomados cientistas mundiais, directores de centros, presidentes de associações académicas, directores de departamento, responsáveis de cadeiras, directores de revistas científicas, escritores e jornalistas. Vários dos subscritores são professores da Universidade Nova de Lisboa. Entre os intelectuais mais prestigiados a nível mundial que assinam a carta pública estão Michael Lowy, Robert Brenner, Yassamine Mather, Roberto Leher; os escritores Miguel Real, Joel Neto, Manuela Gonzaga; os professores catedráticos e catedráticos jubilados da Universidade Nova Helena Trindade Lopes, Teresa Rita Lopes, Luís Sobrinho, entre outros.

Em defesa da historiadora e intelectual pública Raquel Varela

Raquel Varela, historiadora do trabalho e dos conflitos sociais e intelectual pública em Portugal, tem estado a ser alvo de uma tentativa de assassínio de carácter que veio colocar a nu as relações desleais dentro da academia, a promiscuidade entre algum jornalismo e os promotores de “campanhas difamatórias” e a degradação da vida democrática em geral, com o crescimento de fake news e da extrema-direita.Um jornal, o Público, acusou-a, com chamada de capa e foto, de ter aumentado fraudulentamente as suas publicações, alegando ter como fonte uma “denúncia anónima”. Nenhum órgão dirigente ou científico da Faculdade tinha sido consultado ou pronunciado sobre o tema. Forçados por lei a publicar o seu direito de resposta, Varela demonstrou inequivocamente que nunca tinha adicionado qualquer publicação que não fosse da sua autoria ao seu CV, de acesso público a todos, e iniciou um processo por difamação.

Não contentes com a resposta, uma revista ultraconservadora faz um peça onde Varela é acusada de “pertencer a uma rede trotskista académica”, envolvendo também a sua família, marido e pai, este último dado como um dirigente, que efetivamente foi, de uma organização maoista de resistência à ditadura e à guerra colonial. Ninguém na academia pode ser indiferente a estes métodos de terror, de tentativa de destruição da carreira e bom nome de uma investigadora internacional cujos trabalhos versam sobre direitos laborais e história das revoluções. A academia não pode ser alvo deste tipo de métodos próprios de regimes totalitários. A ciência faz-se com liberdade e confronto de ideias.

Uma onda de solidariedade vinda de vários quadrantes, de académicos, figuras públicas, dirigentes sindicais, jornalistas, intelectuais insurgiu-se em Portugal e no Brasil contra o que consideram métodos de necrofilia da imprensa, dando eco a “fake news”. Varela é uma das principais intelectuais públicas críticas do país, reconhecida pelas suas posições em defesa dos direitos do trabalho.Os jornais escudam-se nas declarações de uma recém empossada direção de unidade de investigação (IHC) de onde Raquel Varela saiu recentemente, com mais 27 investigadores, por divergências, entre elas, na forma como tratavam os seus investigadores precários, o que levou o Grupo a solicitar na Faculdade a mudança para outra unidade de investigação.

Este é um caso exemplar de como o nepotismo dentro de um sector da academia e a necrofilia de alguma imprensa procura silenciar uma intelectual, uma mulher cuja carreira tem sido marcada por um contributo central para os estudos globais do trabalho e pela abertura da academia à sociedade, substanciada em centenas de palestras e dezenas de projetos com sindicatos e associações, pela sua presença desde há sete anos num programa semanal de debate na televisão pública, um programa na rádio pública e dezenas de artigos em jornais. A intervenção pública de Raquel Varela não se coíbe de criticar o poder, pauta-se pela defesa dos direitos do mundo do trabalho, colocando a centralidade do trabalho digno na agenda nacional. Não subscrevemos necessariamente todas as suas opiniões, mas defendemos o direito inalienável de os intelectuais não serem ameaçados com “campanhas difamatórias” porque abordam temas incómodos ao poder. A crítica do poder é uma função democrática essencial, particularmente nos tempos sombrios que vivemos. Sem a função de uma crítica independente, a Universidade, assim como a figura do intelectual, perdem a razão da sua existência.

Raquel Varela tem dezenas de livros e artigos publicados sobre história do trabalho, dos conflitos sociais, de Portugal e da Europa, vários traduzidos para inglês, alemão e francês. É presidente da Associação Internacional para o Estudos das Greves e Conflitos Sociais, membro do centro Karl Polanyi, cocoordenadora da Rede Internacional de Estudos do Trabalho e editora associada de revistas académicas como Critique – Journal of Socialist Studies e Labor and Society, e da série Wildcat da Pluto Press. Foi a primeira agraciada com a bolsa Simone Veil Project Europe e recebeu este ano o prémio Asicom/Universidade de Oviedo pelo seu contributo ímpar para a história global do trabalho. Defendeu este ano a sua Agregação perante um júri internacional em provas públicas, onde foi aprovada por unanimidade. É fundadora e coordenadora do Observatório para as Condições de Vida e Trabalho, que realizou 12 inquéritos ao mundo do trabalho em Portugal, que revelaram a toxicidade dos métodos de gestão que levam ao burnout, sofrimento ético, exaustão.Este tipo de métodos que visam intimidá-la são intoleráveis na imprensa, que dá eco a lutas internas dentro da academia, carcomida pela precariedade laboral, competição malsã, métodos degradantes de trabalho, que só podem ser combatidos com cooperação e solidariedade entre os investigadores. As ideias de cada um podem e devem ser criticadas, de forma radical de preferência. Já no trato das pessoas, inclusive quando se trata de adversários, devem imperar princípios de tolerância e de respeito. Aquilo a que assistimos hoje é à destruição desta regra fundamental de civismo e uma substituição do debate de ideias por acusações pessoais e calúnias. O défice de diálogo científico, dificultado pela própria estrutura social das Universidades, assoladas pela escassez de recursos e pela precariedade crónica, é acrescido pela constituição de feudos, relações de dependência e carreirismo.

Este tipo de campanhas ameaçam-nos a todos nós e a toda a sociedade, dando a entender que qualquer um, com voz crítica, se pode tornar alvo de lutas internas, que encontra, eco na degradação da imprensa, também ela cada vez mais destituída do seu sentido original – informação e formação – pela precariedade laboral dos jornalistas, conducente à promiscuidade com agências de comunicação, substituindo a informação pelo escândalo, a razão pelo “emocional turn”, em tempo de fake news. Que a voz da Raquel Varela nunca lhe doa, concordemos ou não com as suas posições. Não abdicaremos da crítica e da defesa de uma academia e de um jornalismo baseados no trabalho digno, com direitos, no combate à precariedade e à desigualdade social.

A Carta está aberta à assinatura de académicos, intelectuais, escritores, jornalistas.Se desejar assinar, por favor envie um e-mail com nome e instituição paraacademicfreedomnow@gmail.com

https://raquelvarelacv.wordpress.com

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3 thoughts on “Em defesa da historiadora e intelectual pública Raquel Varela

  1. Aliás isso não é só em defesa da historiadora Dr. Raquel Varela, como também o é contra uma mulher que tem a coragem de dizer o que pensa, sobre o sistema em que vivemos!
    Aqui fica uma fez vez mais o meu total apoio…
    Membro da Plataforma cascais
    Aires Esteves

  2. Minha total solidariedade! Nos tempos sombrios que vivemos, ter opinião própria e participar do debate público virou ofensa quando não deveria. Adriana Ribeiro-Mayer, jornalista independente do site “DricaRibas – Vida Europa”.

  3. Sejamos objectivos. Aquilo que faz correr e tira o sono aos críticos da Raquel nada tem a ver com títulos a mais ou a menos no seu extenso currículo nem com eventuais facilidades ou não. Eles estão-se totalmente nas tintas para isso. Esta tentativa de assassinato político só faz sentido se vista á luz do posicionamento público da Raquel face aos maiores problemas do país. Se ela fosse mais uma das que pactua activamente com a narrativa oficial, tipo Marques Mendes, Justino e Cª, os tais que a perseguem estariam calados como ratos que são. É precisamente o facto de ela ser uma personalidade com larga intervenção pública, efectivo desassombro nos ataques ao poder e defesa intransigente dos cidadãos e grupos mais desfavorecidos, que a torna num alvo particularmente apetecível aos esbirros e mandaretes afectos ao status quo. Mas claro que isso eles nunca terão a verticalidade de admitir.
    Porque será?

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